15 agosto 2014

Resenha Crítica: "Dillinger" (1945)

 Conhecido pelas produções de baixo orçamento, o Monogram Pictures Corporation produziu filmes entre 1931 e 1953, resultando da união entre as empresas de produção Rayart Productions e Sono Art-World Wide Pictures. Entre os filmes de sucesso produzidos encontra-se "Dillinger", uma obra cinematográfica com um orçamento relativamente baixo, parcos recursos, uma enorme economia na exposição do enredo, mas capaz de facilmente nos compelir a seguir a história da ascensão e queda de John Herbert Dillinger, um gangster infame que ascendeu no mundo do crime durante a Grande Depressão. O filme começa por nos deixar perante um newsreel que nos apresenta a alguns feitos de John Dillinger (Lawrence Tierney), sendo seguido de um trecho de Victor Kilian a interpretar o pai do criminoso, até ser apresentada a história do gangster, embora não regressemos mais ao enredo que envolve o progenitor do protagonista. Pouco tempo depois, é-nos apresentada a história deste gangster, desde os tempos em que foi preso por um assalto de sete dólares e vinte cêntimos até ter sido eliminado pelas autoridades. Na prisão, Dillinger conhece Specs Green (Edmund Lowe), um conhecido assaltante de bancos, um indivíduo com quem forma uma relação quase de mestre e discípulo. Neste local, Dillinger começa desde logo a traçar planos para o futuro, estabelecendo alianças, até finalmente conseguir libertar os vários prisioneiros, numa cena marcada por enorme violência. Fora da prisão, Dillinger forma um grupo onde constam Specs Green, Marco Minnelli (Eduardo Ciannelli), Doc Madison (Marc Lawrence) e Kirk Otto (Elisha Cook Jr. como um indivíduo com um vício enorme para fazer alarido com as grainhas das uvas), com o personagem interpretado por Edmund Lowe a assumir a liderança dos criminosos, pelo menos até o protagonista começar a subir de protagonismo. Dillinger inicia ainda uma relação com Helen Rogers (Anne Jeffreys), uma mulher que trabalhava na bilheteira de um cinema que o criminoso assaltou, deixando a mesma inicialmente assustada, pelo menos até ceder a esta figura carismática. Esta decide não o identificar junto da polícia, iniciando uma relação com Dillinger, enquanto este ascende no mundo do crime. Assalta bancos, é detido e consegue fugir da prisão, elimina Specs, ao longo de uma obra capaz de abordar de forma sintética e ficcional alguns dos episódios mais marcantes da vida de John Dillinger. Para termos noção dos fracos recursos deste filme de gangsters de série b, "Dillinger" contou com um cena de assalto a um banco que foi reciclada de "You Only Live Once" de Fritz Lang, com Max Nosseck a explorar ao máximo os recursos que tinha à disposição. 

 Max Nosseck teve de fugir da Alemanha durante a ascensão do Partido Nazi devido a ser descendente de judeus, tendo inclusive trabalhado em Portugal, em "Gado Bravo" e realizado uma série de obras cinematográficas nos EUA, incluindo "The Return of Rin Tin Tin". Nosseck incute um ritmo fulgurante à obra, dando pouco espaço para grandes subtramas e explorar devidamente os vários elementos do grupo de Dillinger. Sobressai Edmund Lowe como um assaltante veterano que não aprecia a ascensão rápida de Dillinger, mas também Anne Jeffreys como o interesse amoroso e perdição do protagonista. No entanto, é a Lawrence Tierney que cabe o maior destaque, naquele que é um dos papéis de maior relevo da carreira do actor. Com uma personalidade algo problemática, Tierney destaca-se como este personagem aparentemente frio e violento, que conta com enorme sede de poder e ascensão social. Estamos perante a típica história de ascensão e queda dos gangsters, uma temática bastante querida do cinema dos EUA dos anos 30 e 40, sobretudo da Warner. Veja-se "Little Caesar", "The Public Enemy", "The Roaring Twenties", entre muitos outros. Diga-se que apesar de não estarmos perante um filme noir propriamente dito, "Dillinger" conta com vários elementos deste subgénero, entre os quais o célebre jogo de luz e sombras, bem como um trecho onde colocam clorofórmio junto da face do protagonista e este fica a ver tudo distorcido, com estas imagens a remeterem para algumas das célebres cenas de pesadelos dos noir. Claro que as limitações da obra são óbvias, faltando explorar melhor a investigação efectuada pelos elementos da polícia e até as próprias idiossincrasias dos elementos do grupo criminoso, bem como utilizar um conjunto mais variado de algumas cenas exteriores, algo que é compensado com uma vasta utilização dos interiores, incluindo os refúgios dos criminosos, tais como a casa dos pais de Otto, uma habitação espaçosa mas que rapidamente se transforma num local claustrofóbico marcado pela violência. A habitação encontra-se num espaço rural, embora nem por isso deixe de estar ao alcance das autoridades quando o grupo começa a ganhar maior notoriedade devido aos seus crimes. O grupo desune-se gradualmente, mas não a sede do protagonista em ascender facilmente na vida, numa obra que não poupa na violência (fugindo um pouco aos limites do Código Hays), colocando o protagonista a disparar, agredir um funcionário de um café que outrora o humilhou, roubar, exibindo o carácter imoral deste gangster. "Dillinger" está longe de ser um filme biográfico imaculado sobre John Dillinger, mas nem por isso deixa de ser uma obra cinematográfica de gangsters de série b que funciona relativamente bem, com Lawrence Tierney a ter uma interpretação de relevo e Max Nosseck a destacar-se pela forma como aproveita os recursos que teve à disposição.

Título original: "Dillinger". 
Realizador: Max Nosseck.
Argumento: Philip Yordan.
Elenco:  Lawrence Tierney, Edmund Lowe, Anne Jeffreys, Elisha Cook Jr., Eduardo Ciannelli.

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