01 agosto 2014

Resenha Crítica: Belém

     Muito temos ouvido falar nos últimos dias, e intermitentemente nos últimos anos, nas tragédias do conflito israelo-palestiniano. As televisões, em peças invulgarmente sérias de jornalismo, informam-nos sobre o bombardeamento e o número de vítimas do dia de ontem; a imprensa escrita, por seu turno, confronta-nos com imagens do desalento ou do desespero daqueles que, por pouco, escaparam com vida; a Internet, como de costume, parece manter a sua função de meio primordial para extravasar opiniões. No entanto, parece que por mais peças jornalísticas, fotografias, notícias escritas ou textos opinativos que existam, continuamos na ignorância sobre as origens ou os intrincados contornos deste infindável conflito. Se ontem nos foram enumerados os abusos de poder militar perpetrados pelos israelitas durante várias décadas, hoje é-nos explicado que, na realidade, os catalisadores da guerra foram originalmente, e muitas vezes desde então, os árabes; se amanhã nos explicarem que o Hamas tem como hábito fazer de crianças escudos humanos, no dia seguinte ser-nos-á contraposto que, na verdade, essa prática pertence a Israel, havendo indícios que o comprovem. Se num dia os palestinianos lançam os seus novos mísseis pela fronteira com Israel, no outro ser-lhes-á respondido com força redobrada na Faixa de Gaza. Serve esta divagação para salientar que, entre a referida vaga de informações que rodeia este conflito, são filmes como “Omar”, estreado por cá na semana passada, e “Belém”, sobre o qual devia estar a opinar, que nos proporcionam um olhar pouco usual sobre os protagonistas, e respetivos métodos, deste sangrento antagonismo.
     A história de “Belém” oscila entre o universo das brigadas armadas palestinianas, fiéis ao seu ódio a Israel mas nem por isso desprovidas de humanidade, e os escritórios dos agentes dos serviços secretos israelitas, responsáveis pela identificação e captura de terroristas que ameacem o seu território. A ligação entre os dois mundos efetua-se por intermédio do relacionamento entre os dois protagonistas do filme – de um lado Razi (Tsahi Halevi), um agente israelita de trinta e tal anos, com um estilo meio informal, aparentemente mais compassivo do que os seus colegas e superiores; e do outro o seu jovem informador palestiniano, um adolescente emotivo de nome Sanfur (Shadi Mar'i), indeciso entre auxiliar o agente ou apoiar as pretensões dos grupos radicais do seu país. Sendo a história do segundo muito mais interessante do que a do primeiro, será nela que me irei desde já centrar.
     O realizador do filme, o israelita Yuval Adler, não nos providencia as informações todas de imediato, pelo que caberá ao espectador aperceber-se aos poucos dos desígnios da mente de Sanfur. E não será difícil apercebermo-nos que, apesar das circunstâncias, a sua relação com o agente israelita é forte, quase paternal; ou que nutre um orgulho visível pelo seu irmão Ibrahim, um herói local empenhado em derramar sangue em território judaico; ou que, precisamente pelo sucesso do irmão, é visto pelo pai com algum desdém. Há uma sequência de acontecimentos que exprime bem estas contradições: inicia-se nos primeiros minutos do filme, quando observamos o protagonista numa acesa discussão com uns miúdos das redondezas, num descampado à margem da cidade de Belém. Os interpeladores trazem consigo um colete à prova de bala, e Sanfur e os respetivos amigos carregam uma metralhadora. Pela naturalidade com que os personagens encaram este acontecimento, percebemos que não é de todo estranho que os adolescentes palestinianos se divirtam, ocasionalmente, com armas de fogo. Seja como for, Sanfur é acusado de ser cobarde e de ser um indigno irmão de Ibrahim. Tocado num assunto sensível, e visivelmente enraivecido, o jovem propõe-se a vestir o colete e a ordenar a um dos seus amigos que lhe dê um tiro. A ordem, recebida com receio, não é cumprida de imediato, mas sê-lo-á alguns dias depois. Será ao agente israelita que o adolescente irá posteriormente pedir ajuda – roga-lhe que o interne em segredo, para que o pai não descubra o sucedido. Quando Razi o for visitar ao hospital, Sanfur irá pedir-lhe que, por favor, não o abandone.
     A história de “Belém” irá gravitar em torno da relação entre os protagonistas até ao seu abrupto final, o que não impossibilitará o aparecimento de Badawi, o líder de um grupo armado interpretado por Hitham Omari. Curiosamente, apesar de não passar de um actor amador, e de ter sido descoberto por completo acaso pelo realizador, Omari beneficiou a sua personagem com alguma naturalidade e uma presença forte no ecrã, perfeitamente conciliável com o seu cargo de liderança na narrativa. Será graças a este indivíduo que vamos ficar a conhecer o universo das brigadas palestinianas, que chega mesmo a ser o aspeto mais interessante do filme em questão. É com algum fascínio que vamos observar a cumplicidade entre estes grupos e o governo palestiniano, a sua feroz rivalidade com o Hamas e até as ambições pessoais de alguns dos seus membros. E sendo verdade que todos os palestinianos introduzidos no filme pelo cineasta Yuval Adler foram retratados como bombistas ou como apoiantes da luta contra Israel, também se denota alguma preocupação, por parte do realizador, de aprofundar as personalidades de alguns destes indivíduos, que motivam a nossa simpatia apesar da frieza que por vezes demonstram. Apesar de tudo as personagens israelitas pareceram merecer um tratamento mais simpático por parte do realizador, nem que seja porque, afinal de contas, a sua motivação está acima de tudo em combater uma violenta ameaça terrorista. Vislumbramos não obstante, de vez em quando, algumas críticas aos serviços secretos, quer na frieza com que irrompem no território da Palestina, indiferentes à criação de danos materiais, quer na utilização de miúdos palestinianos como informadores sem lhes dar quaisquer proteção. Estas práticas foram baseadas não apenas na extensa pesquisa levada a cabo durante alguns por Yuri Adler e pelo seu co-argumentista Ali Waked, mas também nas próprias experiências de Adler nos serviços secretos do exército. Aliás, após a elaboração do filme, salientou o cineasta que lhe foi confidenciado por um agente que uma das chaves para a recruta de informadores «não é a violência, ou a intimidação, ou o dinheiro; a chave é desenvolver uma relação íntima com o informador, a um nível muito humano. Não é só o informador que se sente confuso quanto à sua identidade e lealdades. Também o agente – e especialmente se for bom – sente frequentemente uma diluição das fronteiras
     A narrativa do filme em si foi construída de forma competente, oscilando entre o drama e o thriller de cortar a respiração, mantendo o nosso interesse sem dificuldade durante cerca de uma hora e meia. Há pormenores fascinantes na história e não há plot holes distrativos. A fotografia é discreta mas eficaz e os actores parecem profissionais, apesar de não o serem. Estas qualidades são merecedoras de enaltecimento, mas também evidenciam alguma falta de engenho por parte de Yuval Adler, que pareceu estar perto de elevar o filme a um nível de qualidade superior, sem o conseguir. Talvez lhe tenha faltado o aprofundamento de certas personagens: Razi até nos pode parecer um tipo decente mas não é particularmente interessante; as personagens femininas do filme não têm qualquer tipo de relevância ou de originalidade; por vezes, chega a ser difícil simpatizar com Sanfur graças à sua falta de sensatez. Ou talvez tenha faltado uma orientação mais eficaz para a história, que culmina de forma repentina e pouco imaginativa, sem providenciar o clímax de que estávamos à espera.
     “Belém” acaba, contudo, por ser um filme agradável de seguir, sem falhas realmente evidentes, capaz de nos proporcionar um olhar invulgar para o interior do conflito entre israelitas e palestinianos. Aliás, à semelhança do já mencionado “Omar”, com o qual tem algumas semelhanças: partilha não só um final abrupto e algumas das temáticas que aborda, mas também um certo esforço, bem conseguido, para manter alguma imparcialidade na caracterização de um conflito que polariza opiniões à mesma velocidade com que causa o derramamento de sangue.

Ficha Técnica:

Título em Portugal: Belém
Título original: Bethlehem
Realização: Yuval Adler
Argumento: Yuval Adler e Ali Wakad
Elenco: Tsahi Halevi, Shadi Mar'i, Hitham Omari, Michal Shtamler, Tarik Kopty, George Iskandar.

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