19 agosto 2014

Greta Garbo - As Divindades também assinam contratos

 Existem muitos actores e actrizes. Vários têm talento, outros nem por isso, uns brilham mais alto e destacam-se mais do que os seus colegas, outros nunca passam do anonimato. Depois existem aqueles que conquistam a imortalidade, o direito a serem recordados por todos e nunca serem esquecidos, mesmo que a sua presença no Mundo terreno tenha terminado há várias décadas atrás. Greta Garbo, nascida Greta Lovisa Gustafsson, a 18 de Setembro de 1905, em Estocolmo, ultrapassou todas essas distinções e alcançou um patamar próximo das divindades cinéfilas, criando uma imagem misteriosa à volta da sua figura, arrebatando com o seu talento e sensualidade. Seja como as suas tentadoras Elena e Felicitas von Rhaden em The Temptress e Flesh and the Devil, seja como a aparentemente austera Nina Ivanovna "Ninotchka" Yakushova que acaba por ceder aos encantos do Conde Leon d'Algout (Melvyn Douglas) em Ninotchka, seja como a frágil Marguerite Gautier, Greta Garbo sobressai pela positiva, destacando-se pela profundidade, mistério e sobriedade que dava às suas personagens, pela sua capacidade de transmitir emoções, de nos embalar no seu doce olhar e carisma, rodeando-se da aura das grandes estrelas. Um dos primeiros grandes papéis de relevo de Greta Garbo foi o de Elizabeth Dohna em The Saga of Gösta Berling, um filme sueco realizado por Mauritz Stiller, seguindo-se a sua Greta Rumfort em The Joyless Street de G.W. Pabst, dois filmes de relevo, que permitiram à "esfinge sueca" destacar-se, até chegar aos Estados Unidos da América e fazer carreira na Metro-Goldwyn-Mayer. A sua chegada à MGM dá-se em 1925, sendo que esta vinda surge acompanhada por versões distintas: uma versão aponta que Louis B. Mayer, então vice-presidente da Metro-Goldwyn-Mayer, encontrava-se interessado no realizador Mauritz Stiller, com este último a colocar Greta Garbo como uma das condições para assinar contrato. Outra versão aponta que Mayer ficou deslumbrado com a interpretação de Greta Garbo em The Saga of Gösta Berling, querendo desde logo contratar Garbo. Seja qual for a versão mais correcta, o que parece consensual é que Greta Garbo conseguiu um sucesso surpreendente na MGM, após ter solidificado a sua carreira na Europa, com os já citados The Saga of Gosta Berling e Joyless Street.

Sem saber ainda dominar totalmente a língua, Garbo chegou aos Estados Unidos da América junto de Stiller, vivendo momentos de incerteza, deparando-se com uma realidade distinta e assinando contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer, um estúdio conhecido pela sua capacidade de manter algumas das maiores estrelas de Hollywood sob a sua alçada contratual. Veja-se que este foi o estúdio que manteve nas suas fileiras actores e actrizes como John Gilbert, Joan Crawford, Myrna Loy, Spencer Tracy, para além de cineastas como Clarence Brown, Victor Sjöström, Tod Browning, entre outros. Toda a carreira da actriz nos EUA foi efectuada na MGM, tendo conhecido com o realizador Clarence Brown a sua colaboração mais profícua (este realizou sete filmes de Garbo) e com John Gilbert uma química notável ao longo dos quatro filmes que protagonizaram, uma relação que em alguns momentos teve episódios fora do grande ecrã, embora a vida privada da lenda sueca esteja envolta em muitas dúvidas, mistérios e rumores, com quase todos os elementos que privaram com esta e até os que nunca a conhecerem a formarem teorias sobre a sua pessoa e personalidade. Ao todo protagonizou dez filmes mudos na MGM (e participou ainda em A Man's Man), para além de quinze talkies, numa carreira que contou com mais altos do que baixos, tendo terminado com um papel bem dicotómico das mulheres fadadas à tragédia ou ao amor de perdição a quem deu vida em várias das películas que protagonizou. Quando falamos do seu último filme, falamos claro de Two-Faced Woman, o último trabalho cinematográfico da actriz, onde esta interpreta Karin, uma instrutora de esqui, que se casa com Lawrence Blake, o editor e chefe do Times. Two-Faced Woman aproveita a óptima química de Melvyn Douglas e Greta Garbo em Ninotchka, surgindo como um dos filmes menos apreciados da actriz embora seja uma comédia romântica bastante agradável, onde George Cukor revela mais uma vez a sua perícia para a construção de personagens femininas fortes. Se Two-Faced Woman marca uma incursão na comédia de Greta Garbo, depois do sucesso de Ninotchka (promovido com a frase de efeito "Garbo Laughs"), já Torrent, o seu primeiro filme na MGM, ficou marcado por uma procura inicial do estúdio em saber como deveria aproveitar o talento da actriz. Esta certamente esperaria trabalhar com Stiller, mas o seu primeiro trabalho na MGM foi realizado por Monta Bell, contando com Ricardo Cortez como colega, numa relação profissional que não viria a ter grandes frutos, visto que este último e Garbo não apresentavam a maior das amizades. 

 A história de Torrent é bastante simples e centra-se em Lenora (Greta Garbo), uma jovem oriunda de uma família empobrecida, apaixonada por Don Rafael Brull (Ricardo Cortez), o herdeiro de uma família abonada, que se encontra a concorrer a um cargo político. Dona Bernarda Brull (Mattox), a mãe de Rafael, reprova por completo esta relação, obrigando Leonora e o seu pai a saírem da propriedade rural onde habitam, ficando com a mãe da protagonista como sua criada. Leonora parte para França para ir viver junto do seu pai e tentar triunfar no mundo da música, algo que consegue, contando com o nome artístico "La Brunna", uma cantora conhecida pelos seus casos, talento e capacidade de sedução. Leonora decide regressar a casa, numa fase que coincide com o dia da eleição de Rafael. Por sua vez, Rafael encontra-se prestes a casar com Remedios Matías (Gertrude Olmstead), uma mulher recatada, com quem os pais esperam ver o protagonista masculino casar. Rafael ainda balança perante a chegada da antiga amada, que facilmente aquece o seu coração, embora a família logo o procure convencer a seguir o caminho mais seguro a nível profissional e familiar. Pelo meio, uma tempestade conduz a que uma barragem ceda e provoque uma inundação (a torrente do título, que simboliza ainda a relação frustrada dos protagonistas). Estes são bem sucedidos profissionalmente, mas falta-lhes amor, ao longo deste drama marcante da carreira de Greta Garbo. A "esfinge sueca" certamente esperaria colaborar com Mauritz Stiller, com quem viajou da Suécia em direcção aos EUA, mas acabou por protagonizar uma obra realizada por Monta Bell, tendo como base "Entre Naranjos", um livro de Vicente Blasco Ibáñez, que marcou a primeira colaboração desta com William Daniels, o seu director de fotografia preferido, cuja presença viria a impor em várias das suas obras. Frágil no início do filme, deslumbrante como a vamp La Brunna, Garbo não se intimida na estreia em Hollywood, explorando as diferentes facetas da sua personagem, fazendo-nos acreditar nos seus sentimentos por Rafael e na dor provocada pela inconstância deste. Cortez não iguala Garbo, mas também não desilude, como este indivíduo que balança constantemente entre satisfazer a família ou o seu coração, enquanto o casal acaba por constantemente se afastar, embora os seus elementos pareçam amar-se. 

 Quem se enamorou com o desempenho de Garbo em Torrent foi o público e a crítica. Veja-se que a Variety comentou sobre Garbo: "The Find of the Year. The girl has everything, with looks, acting, hability, and personality (...) The picture is not unusual, but the girl is". Estava dado o pontapé de saída para uma carreira magnífica nos EUA. O segundo trabalho de Greta Garbo na MGM, The Temptress, também foi baseado num livro de Vicente Blasco Ibáñez, embora tenha conhecido um processo bem mais complicado nos bastidores, com Stiller a ser afastado do cargo de realizador, após várias cenas estarem filmadas. Este não sabia falar bem inglês, não se adaptou ao sistema de estúdios de Hollywood e ainda conheceu alguns problemas com o actor Antonio Moreno, acabando por ser substituído por Fred Niblo. Os problemas não se reflectiram na interpretação de Garbo e no resultado final do filme. Greta Garbo, ou melhor, a personagem que interpreta, é a tentação em pessoa em The Temptress, tendo em Elena uma vamp muito ao estilo de outras mulheres que vai interpretar ao longo da carreira. Elena é sedutora e sensual, aparentemente frágil e terna, carregando no seu olhar um mistério que apenas Garbo pode dar às personagens, encantando os homens e seduzindo os mesmos, embora como esta saliente estes sacrifícios são feitos "Not for me - but for my body! Not for my happiness but for theirs!". A primeira vez que encontramos Elena esta encontra-se num baile de máscaras em Paris, onde conhece Manuel Robledo, despertando a atenção do personagem interpretado por Antonio Moreno, sobretudo quando tira a máscara que tapa parte do seu belo rosto. As cenas surgem coloridas a azul, belas, exacerbadoras do jogo de sedução entre Manuel e Elena, com estes a fazerem juras de amor, até a segunda o abandonar na manhã seguinte. Manuel é um engenheiro que se encontra a trabalhar na construção de uma barragem na Argentina, residindo temporariamente em França, onde visita o seu amigo, o Marquês de Torre Bianca (Armand Kaliz), acabando por descobrir que este último é casado com Elena. O choque no rosto deste é evidente, sendo que Elena também não disfarça algum incómodo. O pior ainda está para vir, quando Fontenoy (Marc MacDermott), um banqueiro e amante de Elena, efectua um escândalo num jantar antes de cometer suicídio, revelando publicamente a relação adúltera que mantém com esta, que até é consentida por Torre Bianca devido aos apoios financeiros do falecido. 

Manuel fica algo escandalizado e desiludido com tudo o que descobre sobre Elena, acabando por rejeitar os avanços desta e partir para a Argentina. Neste local é bem recebido pelos seus trabalhadores, onde constam Canterac (Lionel Barrymore), Pirovani (Robert Anderson), entre muitos outros. A estorvar o trabalho destes encontra-se Manos Duras (Robert D'Arcy), um criminoso que lidera um bando pronto a colocar em perigo a vida do protagonista, sobretudo quando Torre Bianca decide visitar Robledo e traz consigo a sua esposa, que logo aquece os corações de todos, incluindo do antagonista. Duras e Manuel acabam por disputar um duelo com chicotes, após o primeiro roubar um beijo a Elena e colocar em causa a autoridade do protagonista, resultando num momento emotivo e violento, embora não se compare aos efeitos que a chegada de Elena vai ter junto dos homens que se encontram no território. Realizado por Fred Niblo, um cineasta com uma carreira bastante profícua durante a segunda e terceira décadas do Século XX, The Temptress surge como um melodrama intenso, capaz de aproveitar o talento de uma então jovem Greta Garbo, com esta a dar vida a mais uma mulher fatal, que tenta tudo e todos. Esta é bela, jovem, tem uma aura quase divina, tentadora, fazendo tudo e todos desejá-la e conduzindo vários homens à desgraça, embora também seja utilizada por estes. Veja-se a relação com Torre Bianca, com o marido a permitir que esta se aproveite de Fontenoy, enquanto todos a desejam embora nem sempre a pareçam amar. O seu final é extremamente moralista, muito próprio de alguns filmes norte-americanos da época, com Garbo a interpretar uma personagem muito próxima daquelas a que daria vida em The Flesh and the Devil, The Kiss, Mata Hari, entre outras obras, tendo chegado ao projecto devido à influência de Stiller, exibindo a aura e carisma das grandes lendas, criando uma sedutora nata, que domina e é dominada pelos homens. Garbo é bem acompanhada no elenco por Antonio Moreno, com este a interpretar um indivíduo que se deixa seduzir pela "tentadora", embora procure escapar-se desta, mas muitas das vezes não consiga cumprir esse difícil desiderato. O filme conta ainda com um elenco secundário que se destaca pela positiva, em particular Roy D'Arcy como o espampanante antagonista Manos Duras, Lionel Barrymore como Canterac, um indivíduo atolado em dívidas que se encontra na Argentina enquanto envia dinheiro para a esposa que se encontra em França, entre outros. Curiosamente, ou talvez não, também os personagens de Barrymore e D'Arcy se deixam encantar por Elena, ao longo de uma obra a espaços demasiado melodramática, que apresenta uma versão algo estereotipada dos argentinos, embora conte com vários elementos a ter em atenção pela positiva, não faltando uma complexa relação entre a personagem interpretada por Garbo e Robledo, um conjunto credível de cenários, uma procura em explorar e desenvolver as personalidades dos personagens e até uma emocionante luta com chicotes entre Manos Duras e o protagonista masculino. 

 Fred Niblo realiza assim um drama onde a tentação, o desejo, as traições e paixões andam lado a lado, onde uma mulher tolda os sentidos dos homens, quer em pleno território francês, quer na Argentina, revelando-se uma sedutora nata, tal como a actriz que lhe dá vida, com Greta Garbo a deslumbrar com a sua Elena. O final demasiado moralista, embora algo comum na época, era escusado, mas nem por isso The Temptress deixa de se revelar um drama a ter em atenção, onde os sentimentos aquecem e uma mulher se revela capaz de inquietar todos aqueles que dela se aproximam. Apesar do sucesso a nível interpretativo e até junto da crítica, estes não eram tempos fáceis para que Greta Garbo, que teve ainda de lidar com a morte da irmã, tendo sido proibida pelo estúdio de viajar até à Suécia durante as filmagens de The Temptress, algo que a levou inicialmente a rejeitar protagonizar Flesh and the Devil. Esta não queria voltar a interpretar uma mulher tentadora, não tinha ficado particularmente sensibilizada com o trabalho que tinha entre mãos, chegando até a faltar a filmagens. No entanto, tudo acabou por se desenrolar da melhor forma, com Garbo a surpreender num desempenho carregado de erotismo e uma química sublime com John Gilbert, naquele que foi o primeiro filme protagonizado por ambos (e onde iniciariam um caso amoroso). O desejo e erotismo andam lado a lado em Flesh and the Devil, uma obra onde Greta Garbo surge como uma vamp pronta a seduzir os personagens masculinos e trazer consigo a tragédia. Expressiva, misteriosa, sensual, intensa, aparentemente frágil mas feroz nos desejos, Garbo é tudo isto em Flesh and the Devil, ao dar vida a Felicitas von Rhaden, uma mulher casada com um conde, que trai o marido com Leo von Harden (John Gilbert). Leo é um jovem militar algo indisciplinado, amigo de infância de Ulrich von Eltz (Lars Hanson) com quem serve no exército. Os momentos iniciais do filme servem para estabelecer a amizade aparentemente à prova de tudo de Leo e Ulrich, com os dois a apresentarem uma cumplicidade evidente, quase de irmãos, ou, se quisermos esticar a corda, algo mais do que isso. Os dois parecem inseparáveis e regressam a casa durante a licença militar, onde são recebidos pela mãe do personagem interpretado por John Gilbert e Hertha (Barbara Kent), a irmã de Ulrich, que tem um fraquinho por Leo. O trio fez outrora um pacto de sangue na Ilha da Amizade, algo que relembram enquanto se preparam para participar no baile de Stoltenhof, um dos eventos relevantes da localidade. 

No baile Leo conhece finalmente Felicitas, a mulher que vira quando regressara a casa no comboio, despertando desde logo a sua atenção. Leo conversa com Felicitas, seduz e deixa-se seduzir por esta, até se envolverem (as cenas entre estes dois surgem bastante quentes para a época) e o marido desta descobrir o acto adúltero. O conde Rhaden logo desafia Leo para um duelo, pedindo que o argumento seja uma querela num jogo de cartas para não manchar a sua reputação, acabando por ser eliminado pelo jovem militar. A morte do conde Rhaden conduz a que Leo seja enviado pelo exército para cumprir cinco anos de serviço em África, omitindo de Ulrich as razões do duelo e pedindo ao amigo para que este tome conta de Felicitas. Sem saber da paixão do amigo por Felicitas, Ulrich acaba por iniciar uma relação com esta, algo que conduz a uma grande comoção por parte de Leo, que se encontra com um conjunto fervilhante e dicotómico de sentimentos a regurgitar no interior da sua alma quando regressa ao território austríaco, após ter cumprido apenas três anos de serviço. Leo ama Felicitas, pese a traição efectuada por esta, mas acima de tudo é fortemente ligado a Ulrich, sendo que este último não sabe do caso que os ligou no passado. O momento da igreja em que os três estão juntos é paradigmático do quão errada é esta relação entre ambos, com o padre, uma das poucas pessoas a saber do romance de outrora entre Felicitas e Leo, a condenar o relacionamento de forma indirecta através do seu discurso. Tudo se prepara para a tempestade perfeita, com Felicitas a seduzir Leo, este a sucumbir e a amizade deste último com Ulrich a ser colocada em causa, ao longo deste drama intenso, onde a neve cobre os cenários mas não gela as labaredas fervilhantes de sentimentos que envolvem este complexo triângulo amoroso. Clarence Brown realiza uma intensa e melodramática adaptação do livro The Undying Past, criando uma obra permeada por algum erotismo e sensualidade, onde uma mulher se intromete no meio dos homens e desperta o lado mais negro dos mesmos. 

Garbo destaca-se na primeira das suas sete colaborações com Clarence Brown (este viria a realizar A Woman of Affairs, Anna Christie, Romance, Inspiration, Anna Karenina e Conquest, todos protagonizados por Garbo), com o cineasta a revelar-se exímio a extrair o que de melhor os seus actores têm para dar, enquanto aproveita a química latente entre a divina "esfinge sueca" com John Gilbert. Greta Garbo e John Gilbert viriam ainda a trabalhar em Love, A Woman of Affairs e Queen Christina, com a MGM a aproveitar a química entre ambos (chegaram a ter um romance na vida real, embora a actriz não fosse dada a grandes paixões, pelo menos em público), tendo em Flesh and the Devil uma obra onde a primeira é a sedutora e o segundo o seduzido. Gilbert convence como este indivíduo apaixonado, militar meio indisciplinado, que desperta a atenção de Hertha mas ama Felicitas, procurando ser leal ao amigo mas traindo o mesmo. Garbo interpreta uma vamp, uma personagem trágica e sedutora, muito ao estilo desta actriz incrível, pronta a expressar uma imensidão de sentimentos. Felicitas é sedutora, algo maligna, mas ao mesmo tempo frágil, escondendo na sua doçura um irresistível lado negro ao qual os homens sucumbem e o espectador não consegue ficar indiferente. Temos ainda a presença de Lars Hanson, deixado para último neste texto mas nem por isso menos importante neste filme, com o seu Ulrich a formar uma forte ligação de amizade com Leo e a deixar-se seduzir por Felicitas. Clarence Brown gere com eficácia este triângulo, apresentando-nos a um território austríaco ficcional, numa obra filmada com alguma beleza, sobressaindo a cena do duelo entre o Conde Rhaden e Leo, no qual vemos as silhuetas e os momentos exteriores na neve, com o trabalho de fotografia a destacar-se pela positiva. No entanto, o que sobressai mais ao longo de Flesh and the Devil não são algumas das suas belas imagens em movimento mas sim os sentimentos, vividos intensamente pelo triângulo amoroso, no qual Greta Garbo se destaca diante dos companheiros de elenco, ao longo de uma película marcada por um drama intenso, onde as paixões, traições e lealdades sobressaem, embora não sejam descurados alguns momentos de leveza, com Clarence Brown a iniciar uma parceria muito feliz com uma das maiores lendas da História do Cinema. 

O sucesso de Flesh and the Devil junto do público conduziu a que Greta Garbo tivesse "maior músculo" negocial diante da MGM, conseguindo a partir daqui ter um maior controlo sobre os projectos e os realizadores com quem viria a trabalhar, para além de conseguir por várias vezes que William Daniels, o seu director de fotografia preferido, fosse escolhido para o cargo (foi director de fotografia de Torrent, The Temptress, Flesh and the Devil, Love, The Mysterious Lady, A Woman of Affairs, Wild Orchids, The Kiss, Anna Christie, Romance, Inspiration, Susan Lenox, Mata Hari, Grand Hotel, As You Desire Me, Queen Christina, The Painted Veil, Anna Karenina, Camille e Ninotchka). Nesse sentido, Greta Garbo rejeitou protagonizar Women Love Diamonds, aquele que seria o seu quarto filme, encontrando-se com pouca vontade de interpretar mais (segundo palavras desta) "uma sedutora estúpida". Não se pense que a negociação foi fácil, com Garbo a afastar-se durante o período aproximado de cinco meses, embora conquistando um salário semanal de quatro mil dólares no primeiro ano e um aumento de mil dólares semanais em cada ano subsequente, para além de ter conseguido ainda um direito então raro nos actores com quem o estúdio tinha contrato: receber o salário por cinquenta e duas semanas de trabalho. A política da Metro-Goldwyn Mayer passava por pagar quarenta semanas por ano, mas Garbo, com o apoio de Harry Edington, o empresário de John Gilbert, conseguiu esta proveitosa alteração. Diga-se que a influência de Gilbert não foi muito bem vista junto de Mayer, que em reunião administrativa chegou a proferir "that son of a bitch is inciting that damned swede and is going to cost us a fortune". As excentricidades ou conquistas desta não se ficaram por aqui, veja-se que esta quebrava a regra das filmagens terminarem às 6h da tarde, recusando-se a ficar a filmar depois das 5h em ponto, saindo mesmo que existissem cenas para filmar. Com novo contrato e mais poder de decisão junto da MGM, o novo trabalho de Greta Garbo foi Love, a primeira das adaptações cinematográficas de Anna Karenina de Leo Tolstoy que Greta Garbo viria a protagonizar. O filme começou por ser realizado por Dimitri Buchowetzki e teria Ricardo Cortez como co-protagonista, mas o produtor Irving Thalberg, provavelmente tendo em atenção as queixas de Garbo, contratou Edmund Goulding para o cargo de realizador, John Gilbert para o lugar de Cortez, para além de William H. Daniels ter entrado para o lugar de director de fotografia. 

 Love aproveita paradigmaticamente a química entre Gilbert e Garbo, com estes a darem vida ao Conde Vronsky e a Anna Karenina, respectivamente, numa obra que conta com diversas liberdades em relação ao livro de Tolstoy, para além de ser um exemplo paradigmático da política seguida por alguns estúdios da época de gravarem mais do que um final e darem ao exibidor a oportunidade de escolher. Nesse sentido, temos um final que respeita a obra, onde Anna Karenina se suicida, e temos outro onde o esposo da protagonista falece e esta volta para junto do filho, terminando feliz e reencontrando o Conde Vronsky. A história é sobejamente conhecida, embora Love tome diversas liberdades, incluindo no final, distinto na versão dos EUA e na versão Europeia, com o filme a colocar-nos perante a história de Anna Karenina, uma mulher casada com o Senador Alexei Karenin (Brandon Hurst), com quem tem um filho, cuja vida conhece uma reviravolta quando conhece o Conde Vronsky (John Gilbert). No caso de Love estes conhecem-se durante uma tempestade de neve, quando Vronsky, um dos homens da confiança do Grão-Duque, se dirigia em direcção a São Petesburgo. Estes são obrigados a parar numa estalagem, com Anna Karenina a rechaçar os avanços de Vronsky, com este a desconhecer a identidade da bela mulher. Pouco tempo depois, durante a recepção ao Senador Karenin, Vronsky é apresentado a este e à sua esposa, Anna Karenina, ficando surpreso com a descoberta, embora essa situação não impeça os avanços junto desta, que gradualmente acaba por ceder. Karenina surge representada como uma mulher algo solitária, dedicada ao filho, que encontra em Vronsky a atenção que não tem no casamento, com os dois a compreenderem-se mutuamente. Quando Vronsky tem um acidente numa corrida de cavalos, Anna logo entra num ataque de histeria, deixando tudo e todos cientes da sua paixão pelo amante, incluindo o marido, acabando por fugir com o personagem interpretado por John Gilbert para Itália. O problema é que as saudades do filho apertam, deixando a aparentemente idílica felicidade do casal em perigo, algo que conduz a protagonista a regressar à Rússia, onde descobre que o filho pensava que esta estava morta. 

A vida da protagonista sofre uma reviravolta: o marido proíbe Anna Karenina de rever o filho, a relação com Vronsky já conheceu dias mais radiantes e o futuro deste último até depende de um afastamento da sua pessoa. Love coloca-nos assim perante uma adaptação livre do clássico literário Anna Karenina, permitindo a John Gilbert e Greta Garbo protagonizarem alguns momentos tórridos (para a época) no ecrã e mostrarem algum do enorme carisma que os rodeava. Estrelas da MGM em plenos anos 20, Garbo e Gilbert brilharam em Flesh and the Devil e voltam a demonstrar uma química sublime. Greta Garbo como esta mulher frágil e sonhadora, mas ao mesmo tempo capaz de trair o marido e abandonar o filho, vivendo num tornado de sentimentos; Gilbert como um militar pronto a tudo para conquistar a amada, a mulher dos seus sonhos, que o inquieta e seduz. Consta que Gilbert terá também realizado as cenas mais íntimas entre o seu personagem e Anna Karenina, algo que diz bem da relevância deste casal para o desenvolvimento dos personagens que interpretam. Anna Karenina e Vronsky são a força motriz deste drama marcado por algum erotismo, alguns bons valores de produção (veja-se os cenários, guarda-roupa), enquanto Edmund Goulding realiza um drama agradável, que pode não agradar aos defensores mais acérrimos do livro, mas cumpre no desenvolvimento dos personagens e do relacionamento entre a protagonista e Vronsky. Poderia ter desenvolvido mais a história da protagonista com o filho (embora protagonize algumas cenas ternas com o mesmo) e Karenin, mas tudo parece ter sido efectuado para aproveitar a popularidade, carisma e talento de Greta Garbo e John Gilbert. A dupla de protagonistas domina o filme, embora Greta Garbo sobressaia mais, com o seu olhar hipnotizante, as suas expressões que tanto dizem, ao longo de uma obra que cumpre ao longo da sua duração. O domínio da dupla foi também visível na campanha promocional, tendo como slogan: "Greta Garbo and John Gilbert in LOVE". Os próprios folhetos dos programas do filme apostavam imenso na química do casal e na promessa de momentos tórridos (para a época) entre ambos, embora a relação extra-ecrã entre Garbo e Gilbert não tenha durado muito tempo.

 Depois de Love, Greta Garbo protagonizaria ainda mais seis filmes mudos para a MGM, entre os quais, The Divine Woman (1928), The Mysterious Lady (1928), A Woman of Affairs (1928), Wild Orchids (1929), The Single Standard (1929) e The Kiss (1929). Último filme mudo da MGM e último filme mudo protagonizado por Greta Garbo, The Kiss, coloca a lendária actriz sueca num papel muito à sua medida, onde a tragédia e sedução andam lado a lado, ao longo de uma obra com uma narrativa simples, enxuta, sem grandes subtramas, centrada quase exclusivamente na história da sua protagonista, Irene, e nas complexas relações desta com as figuras masculinas. Irene é uma mulher sedutora e misteriosa, casada com Charles (Anders Randolf), um indivíduo mais velho e aparentemente saudável a nível de finanças, com quem tem uma relação pouco calorosa, ao contrário do relacionamento com André (Conrad Nagel), um jovem advogado com quem se encontra às escondidas. A relação com André sofre um forte revés quando o casal decide parar de se ver. Irene pretende fugir com André, enquanto este último pretende que a protagonista peça o divórcio, algo que esta considera impossível de obter. É então que Irene conhece Pierre (Lew Ayres, no seu primeiro papel), um jovem estudante universitário, filho de um homem de negócios abastado e amigo de Charles, que logo se sente seduzido pela bela mulher. Um beijo de despedida (que dá título ao filme) entre Pierre e Irene promete trazer a desgraça a esta última, despertar a fúria do seu esposo e conduzir a uma morte, naquele que é um dos episódios definidores deste filme eficazmente realizado por Jacques Feyder, uma obra que não dá mais do que aquilo que se propõe, permitindo a Greta Garbo espelhar um pouco do seu talento e fascinar-nos com a sua aura própria das divindades. Os close-ups exacerbam a expressividade de Garbo e o conflito interior da sua personagem, com esta a dar vida a uma mulher que é simultaneamente sedutora e seduzida, esposa e amante, um papel à sua imagem, ou não tivesse interpretado mulheres dadas à tentação em The Temptress, Flesh and the Devil, Anna Karenina, entre outras obras cinematográficas. Em The Kiss, Garbo interpreta uma mulher que protagoniza três relações de cariz diferente ao longo do enredo: com André esta conhece o calor do amor (proibido); com o marido esta vive uma pálida relação matrimonial; com Pierre esta é alvo de desejo por parte de um jovem e concede-lhe um beijo que muda o figurino da narrativa, enquanto Greta Garbo surge sublime, encantadora e sedutora. O talento da actriz é aproveitado, bem como o dos seus colegas de elenco, embora o espectáculo seja quase todo de Garbo, numa obra que culmina com uma cena de tribunal, algo irrealista, mas emotiva, paradigmática de um filme movido pelas paixões e desejos. Na sua estreia em Hollywood, o belga Jacques Feyder é capaz de desenvolver um drama simples, competente, marcado por alguma sensualidade e um bom trabalho de fotografia, com o cineasta a ser capaz de explorar o talento da sua protagonista e o mistério em redor da mesma.

O sucesso de Greta Garbo nem sempre parece condizer com o seu prazer em estar nos EUA e nos eventos sociais. No artigo “Greta Garbo Breaks Her Silence", publicado na Screen Secrets em Maio de 1928, Garbo salientaria "(...) you will not see my name among those who attend the dinners and parties in Hollywood. I went to two dances at the Mayfair Club, that is all. I am not a great talker and you must remember here everyone is talking a language still almost foreign to me and I cannot catch the drift of the conversation. You all talk so fast, and the slang, I cannot understand at all". James Oppenheim publicaria um artigo na Screenland em Novembro de 1929, intitulado "GRETA GARBO Psycho-Analyzed - An Amazing Psycho-Analytic Portrait of the Screen's Mystery Woman", onde se debruça exactamente sobre o mistério Garbo e as suas contradições: "She is genuinely shy, yet she broadcasts herself to the world; she loves solitude and is not a mixer, yet she stands in the glare of terrific publicity; it is not easy for her to express herself to others, yet she is today one of the truly remarkable actresses of the screen". Oppenheim não se ficaria por aqui, procurando ainda problematizar e analisar o apelo da actriz, que para si "Her appeal is not direct, like that of an Anita Page or a Mary Pickford; it is subtle, evasive, often unexpected. She is not changeless, like a Norma Shearer or a Marion Davies. Most actresses have what we might call one face. Greta Garbo is a woman of a thousand faces. She always looks different". Este artigo de Oppenheim vem expor de forma clara o mistério provocado por Greta Garbo junto do público e da imprensa, com esta a ser analisada, escrutinada, admirada e problematizada. A sua reclusão, ou, se preferirmos, o seu zelo pela privacidade, permitia exactamente este tipo de especulações em volta da sua figura, enquanto a popularidade de Garbo aumentava, com a MGM a saber aproveitar a mesma. Veja-se que em 1931 Winifred Aydelotte publicaria um artigo onde questionava logo no seu título "Garbo's Glamour - Is it Real?", onde aproveita para questionar uma série de figurantes que trabalharam com a actriz. Se o glamour de Garbo é real ou não (parece-nos que sim, embora a MGM tenha tido um papel muito importante a alavancar Garbo ao estatuto de diva), o que é mais certo é o sucesso que esta viria a ter na transição para os talkies. Em 1930, esta viria a protagonizar o seu primeiro filme sonoro, Anna Christie. O filme foi promovido maioritariamente apenas com duas palavras "Garbo Talks", um pouco como mais tarde Ninotchka seria promovido com a frase "Garbo Laughs", ambos explorando elementos novos em relação à actriz. Garbo superou o teste e, ao contrário de grandes vedetas do cinema mudo que não conseguiram efectuar com sucesso a transição para o sonoro, conseguiu uma carreira sólida, tendo protagonizado quinze talkies para a MGM (incluindo Anna Christie e a versão alemã do filme realizada por Jacques Feyder).

 Os minutos iniciais de Anna Christie servem sobretudo para estabelecer Chris Christofferson (George F. Marion), o pai de Anna Christie (Greta Garbo) e Marthy Owens (Marie Dressler), uma mulher pouco cuidada e tão alcoólica como o progenitor da protagonista. Enquanto se encontrava na tasca onde bebe habitualmente, já meio alcoolizado, Chris recebe uma carta oriunda de St. Paul, no Minesotta, escrita por Anna Christie a dizer que se encontrava prestes a chegar. Chris logo começa a dialogar com Marthy sobre as expectativas que tem em relação à filha, esperando desta um exemplo de mulher. É então que entra em cena Anna, enquanto o pai tinha saído do espaço para ir comer algo tendo em vista a atenuar o efeito do excesso de álcool ingerido: com andar algo desengonçado devido à sua mala pesada, um chapéu a cobrir parte do cabelo, casaco, uma camisa algo aberta e uma saia que cobre bem abaixo dos joelhos, a personagem logo fala "Give me a whiskey. Ginger ale on the side. And don't be stingy, baby". Estas são as primeiras falas de Garbo num talkie e servem desde logo para estabelecer que a personagem que interpreta está longe de ser o exemplo moral esperado pelo progenitor. Com o Chris fora, Anna dialoga com Marthy, numa cena típica do filme, reunindo um conjunto restrito de personagens nos espaços da narrativa, sendo que os próprios cenários são bastante limitados em termos numéricos e simples na sua constituição (temos acima de tudo esta espécie de tasca e a barcaça de carvão de Chris, embora algumas breves cenas se desenrolem numa espécie de feira popular). Anna revela alguns dos seus segredos do conturbado passado a Marthy, expondo alguma dor para com os homens e sofrendo com um passado de pouco orgulho, com o seu belo rosto a expressar alguma da sua angústia. Entra então em cena o seu pai, pronto a ver na filha aquilo que esta não é, pensando que Anna trabalhou como enfermeira, enquanto esta última vê no pai um temporário porto de salvação. Anna acaba por ir viver com o pai na barcaça, onde Chris procura penitenciar-se e compensar os anos de ausência, com os dois a desenvolverem uma relação nem sempre próxima. A relação entre Anna e Chris tem no momento em que este último salva Matt (Charles Bickford), o futuro interesse amoroso da protagonista, uma mudança notória. Rude nas suas acções, Matt gradualmente começa a conquistar Anna, algo que desagrada o pai desta, embora a relação avance de forma surpreendentemente positiva, pelo menos até a protagonista revelar alguns segredos do seu passado ao longo deste melodrama relativamente competente.

Esta é a história da relação entre um pai e uma filha que são obrigados a ligar-se no presente, é a narrativa de uma mulher cujo futuro é uma incerteza e o passado uma tristeza, tendo em Greta Garbo uma actriz capaz de expor essas dúvidas que vão na alma da personagem. Garbo não brilha como mais tarde conseguirá em filmes como Queen Christina, Anna Karenina e Camille, mas domina a narrativa como esta mulher com um passado que a envergonha, com o filme a efectuar um comentário social em relação ao papel da mulher, a ponto de no último terço colocar Anna no meio de uma disputa de vontades entre os dois personagens masculinos principais. Não é só Garbo que se destaca, também Marie Dressler consegue sobressair como uma sem-abrigo beberrona, companheira de copos do pai da protagonista e com quem Anna primeiramente revela a sua personalidade. Vale ainda a pena realçar Charles Bickford como o interesse amoroso de Anna, embora a química entre o actor e Garbo nem sempre seja convincente, com este a protagonizar um momento intenso com George F. Marion no último terço. Marion interpretou Chris pela segunda vez, após ter dado vida ao mesmo na obra realizada por John Griffith Wray. Os resquícios do cinema mudo ainda são visíveis nos intertítulos colocados em alguns momentos para indicar onde se desenrola o enredo, ao longo desta obra adaptada da peça escrita por Eugene O' Neill. O filme posteriormente seria ainda filmado numa versão alemã, uma medida normal dos estúdios na época para vender as obras nos mercados internacionais, tendo mantido os mesmos cenários e Greta Garbo como protagonista, embora com Jacques Feyder na realização e não Clarence Brown. O cineasta realiza este drama com alguma eficácia, embora por vezes o melodrama seja excessivo, tendo em Anna Christie a sua segunda de sete colaborações com Garbo. Em alguns momentos da narrativa o nevoeiro cobre os cenários envolventes da barcaça, simbolizando algum mistério e incerteza um pouco à imagem desta Anna Christie, uma mulher com um passado pouco memorável, um futuro pouco promissor e um presente onde procura refazer a sua vida, lutar contra os grilhões do destino e das figuras masculinas, embora esteja quase sempre presa a estes últimos. Garbo venceu esta aposta de risco, tendo rejeitado um elemento para treinar a sua voz, considerando-se já à vontade com o inglês para poder falar normalmente nos filmes.

Para a sua primeira obra falada Greta Garbo conseguiu rodear-se de alguns elementos da sua confiança, tais como Clarence Brown e o director de fotografia William Daniels, algo a que Irving Thalberg, o brilhante líder da divisão de produção da MGM (faleceria em 1936, mas coleccionaria êxitos no estúdio), e Louis B. Mayer acederam. O filme foi um sucesso junto do público, tendo a sua estreia a 22 de Janeiro de 1930 no Fox Criterion Theatre, confirmando que a MGM estava perante uma vedeta cuja voz não seria impeditiva de continuar a gerar aderência do público. Diga-se que a actriz não ficou totalmente satisfeita com a adaptação, em particular na forma como o filme retrata os suecos. Por sua vez, Anna Christie de Jacques Feyder aproveita a protagonista e os cenários da adaptação cinematográfica da peça da Broadway realizada por Clarence Brown, embora com diálogos falados em alemão e um elenco secundário distinto. Não temos Charles Bickford como Matt, mas sim Theo Shall; para o papel de Chris Christofferson entrou Hans Junkermann (interpretado no filme de Clarence Brown por George F. Marion); sai Marie Dressler como Marthy e entra Salka Viertel. Manteve-se Greta Garbo como protagonista, enquanto Feyder apresenta-nos a uma história relativamente simples e muito semelhante ao filme de Brown, tendo como pano de fundo três cenários primordiais (a barcaça, a tasca e a feira popular) e centrada num conjunto bastante restrito de personagens. Esta versão de Anna Christie remete para um hábito da época de se aproveitar cenários e alguns elementos do elenco dos filmes para efectuar versões faladas em outras línguas dos mesmos, de forma a chegar com mais facilidade ao público estrangeiro. O cinema mudo permitia chegar com enorme facilidade a todos os públicos, algo que não acontecia com os filmes sonoros (as legendas ainda não estavam tão disseminadas), uma situação que gerou diversas situações semelhantes à de Anna Christie. A história é idêntica à versão de Clarence Brown, embora Greta Garbo pareça estar um pouco mais à vontade como esta mulher com um passado negro, que finalmente se encontrou com o seu pai, expressando paradigmaticamente os seus sentimentos. Habituada ao cinema mudo, Garbo conseguiu efectuar com alguma facilidade a transição, notando-se até mais confiança nesta versão do que no filme realizado por Brown. Garbo surge bem acompanhada por um elenco secundário competente, destacando-se Hans Junkermann como o pai da protagonista, bem como Salka Viertel como a amiga deste último, para além de Teo Shall (que claramente apresenta uma química melhor com Garbo do que Charles Bickford) ao longo de um filme que parece respeitar vários elementos da peça teatral, deixando-nos perante um conjunto restrito de cenários e personagens, sendo muitas das vezes comum apenas encontrarmos dois elementos em simultâneo a dialogarem (veja-se Anna Christie e Marthy, Anna e o pai, Anna e Matt).

 Com muitas semelhanças em relação ao filme realizado por Clarence Brown, a versão de Anna Christie realizada por Jacques Feyder serve acima de tudo como um exemplo da política dos estúdios (no caso a MGM) de filmarem versões dos mesmos filmes em línguas distintas, contando com um trabalho de fotografia mais assertivo e deixando-nos perante um drama humano simples e competente. Depois de surpreender com a sua fala na dose dupla de Anna Christie e de ter protagonizado Romance (1930) e Inspiration (1931), ambos de Clarence Brown, Garbo teve em Susan Lennox: Her Fall and Rise a sua primeira e última parceria com a então estrela em ascensão Clark Gable. A presença de Gable e Garbo no mesmo filme foi o ponto de partida para a MGM procurar promovê-lo, algo visível nos programas das obras cinematográficas que se encontram disponíveis, onde podemos encontrar frases como: "The one and only Greta Garbo! - in the arms of fascinating Clark Gable", ou "Garbo in the arms of Gable - The Height os Screen Romance!". Perante o sucesso do filme, o The Hollywood Reporter chegou mesmo a afirmar: "The Garbo-Gable combinate was too much for any opposition even to dent". Susan Lenox (Her Fall and Rise) surge como um drama de pendor romântico, onde Garbo e Gable interpretam um casal disponível para amar, cujas contingências e erros vários impedem durante boa parte do tempo a felicidade dos seus elementos. Parte do filme é marcada pelos encontros e desencontros deste casal, pelos acasos e contingências que os unem e separam, por vezes num tom demasiado melodramático e com os diálogos a nem sempre soarem a verdadeiros, algo ultrapassado pelas sólidas interpretações de Garbo e Gable. Garbo dá vida a Helga Ohlin, uma mulher cuja mãe morreu a dar à luz (excelente decisão de colocar as silhuetas para apresentar estes momentos e a transição da protagonista para a idade adulta, com o filme a apresentar um assertivo jogo de luz e sombras), vivendo com um tio abusivo e uma tia que pouco poder tem na sua educação. Quando o pai a quer obrigar a casar com Jeb Mondstrum (Alan Hale) esta decide fugir, aventurando-se no meio de uma tempestade, conhecendo abrigo junto de Rodney Spencer (Clark Gable), um arquitecto que se encontra temporariamente numa casa das imediações.

 Rodney apresenta-se a Helga, revelando-se falador e galanteador, com os dois a apresentarem uma atracção mútua, a fazerem juras de amor e a protagonizarem alguns momentos românticos, embora a protagonista pouco fale, neste espaço quase idílico, até o personagem interpretado por Gable ter de partir temporariamente para apresentar o seu projecto para a construção de uma ponte em Detroit. No regresso a casa, esta depara-se com o tio e Jeb, que a querem forçar a casar, acabando novamente por fugir, apanhando o comboio de um circo ambulante, onde vai ficar conhecida como Susan Lenox e trabalhar como bailarina, vendo-se forçada a ter um caso com Burlingham (John Miljan), o dono do circo. Com roupas reveladoras das suas formas corporais, esta atrai os clientes e o chefe, tendo na visita de Rodney (numa coincidência narrativa bastante forçada) um momento de inesperada alegria, pelo menos até este descobrir o caso desta com Burlingham, algo que conduz a uma separação brusca destes elementos. Entre avanços e recuos, aproximações e separações, Helga e Rodney surgem como personagens marcados por erros do passado, um orgulho enorme que os impede de reconhecerem que nem sempre agiram bem, com o argumento a por vezes permear esta relação de alguns diálogos pouco elaborados, num filme que vale acima de tudo pela sua dupla de protagonistas. Baseado no livro homónimo da autoria de David Graham Phillips, Susan Lenox não poupa nos elementos dramáticos que envolvem a história de Helga e Rodney, dois elementos que parecem destinados a estar juntos mas afastam-se constantemente, enquanto o realizador Robert Z. Leonard procura a todo o custo aproveitar o talento e carisma da dupla de protagonistas para tirar este melodrama da mediania. O filme foi algo polémico para a época, ou não tivesse temáticas ligadas à protagonista utilizar o corpo para sobreviver, com Susan Lenox a explorar algo típico de algumas personagens interpretadas por Garbo, com estas a surgirem não só como sedutoras, mas também como seduzidas e até alvo de misoginia. Garbo é sublime na exposição dos sentimentos da sua personagem, embora já tenhamos visto esta efectuar pares romântico bem mais convincentes ao longo da carreira (sobretudo com John Gilbert), com a dinâmica entre esta e Gable a nem sempre parecer funcionar. Gable encontrava-se ainda sem o mediatismo que viria posteriormente a conhecer, mas nem por isso deixa de aparecer seguro como este arquitecto que facilmente cede à bebida, duro e ao mesmo tempo romântico, conseguindo juntamente com Garbo superar algumas das lacunas do argumento. A dupla de protagonistas é talentosa, o seu argumento nem sempre consegue tirar proveito dos mesmos, enquanto o trabalho de fotografia revela-se a espaços digno de registo, embora não chegue para tornar Susan Lenox em algo de memorável. Romance convencional, permeado por uma enorme carga dramática, Susan Lenox vale sempre mais pela curiosidade de vermos Greta Garbo e Clark Gable reunidos pela primeira e última vez no grande ecrã, do que pelo seu valor narrativo e de entretenimento.

 De mulher forçada a vender o seu corpo a espia: a Susan Lenox: Her Fall and Rise seguiria-se uma espécie de filme de espionagem, Mata Hari, um dos êxitos de bilheteira de Garbo. Espia misteriosa e fadada à tragédia, Mata Hari é uma das personagens emblemáticas da carreira de Greta Garbo, na qual a "esfinge sueca" coloca mais uma vez a cabeça à roda aos personagens masculinos. Esta contribuiu para popularizar a lenda em volta de Mata Hari, uma espia condenada à morte em França, durante a I Guerra Mundial, por supostamente espiar para o lado Alemão. Em Mata Hari, realizado por George Fitzmaurice, esta espia ganha a sua segunda adaptação ao grande ecrã (a primeira estreou em 1927, tendo sido realizada por Friedrich Feher), tendo em Greta Garbo uma intérprete capaz de conceder algum mistério à sua personagem, uma bailarina exótica (logo nos momentos iniciais temos esta a dançar para Shiva), sedutora e espia, que encanta e domina os homens, com excepção de Dubois (C. Henry Gordon), o líder do departamento de espionagem francês, que em plena I Guerra Mundial pretende evitar fugas de informação, desconfiando que Mata Hari se encontra ao serviço do inimigo, embora não tenha provas cabais contra esta. Esta trabalha para Andriani (Lewis Stone), seduzindo pelo caminho o General Serge Shubin (Lionel Barrymore) e o tenente Alexis Rosanoff (Ramon Novarro), com este último a transportar informação relevante que interessa à espia. Mata Hari seduz tudo e todos com o seu corpo e personalidade forte, incluindo Shubin, embora até acabe por se apaixonar por Rosanoff, um indivíduo de quem rouba informação, algo que irá despertar a fúria e ciúme do personagem interpretado por Lionel Barrymore. Entre uma paixão proibida e sentida em relação a Rosanoff, uma procura de manter Shubin sob controlo (de quem também retira informações), a tentativa de escapar às acusações de Dubois, a Mata Hari terá de utilizar todos os seus recursos para conseguir cumprir com sucesso os seus intentos, embora mais tarde ou mais cedo esteja fadada à tragédia, ou não tivesse escolhido um estilo de vida para a qual a única fuga é a morte. A divinal Garbo encarna esta personagem com um estilo muito próprio, concedendo-lhe mistério, fragilidade, sensualidade e impetuosidade, com Mata Hari a surgir como uma mulher decidida a cumprir os seus intentos, mas também capaz de ceder ao amor, ao longo de uma obra que é sempre mais eficaz na exploração dos intrincados relacionamentos humanos do que no desenvolvimento das temáticas ligadas à espionagem e do que no contexto referente à I Guerra Mundial. 

Mais do que um filme de espionagem, Mata Hari é um melodrama, onde Garbo e Ramon Novarro surgem convincentes como um casal apaixonado onde a primeira apresenta uma postura mais activa e forte e o segundo uma postura mais fraca, sobressaindo o encontro final entre os dois, naquela que foi a primeira e última colaboração profissional entre ambos. Esta postura mais fraca de Novarro em relação a Garbo surge como algo propositado, deixando de forma subliminar uma mensagem para o público homossexual devido ao comportamento de Alexis (quase como se este fosse a figura feminina), algo defendido por Karen Swenson em Garbo: A Life Apart. Garbo encanta, deslumbra e convence ao longo deste drama marcado por um bom trabalho de fotografia, onde as sombras por vezes parecem tomar conta dos corpos, uma espia procura roubar informações e um romance nasce numa altura improvável. O que não nasce numa altura improvável é Grand Hotel. A 12 de Abril de 1932 estreia nos Estados Unidos da América Grand Hotel, o primeiro filme da MGM no qual o estúdio decide reunir várias das suas estrelas sob contrato, entre as quais Greta Garbo, Joan Crawford, Lionel Barrymore, John Barrymore, Lewis Stone, entre outros, contando ainda com a realização de Edmund Goulding (que trabalhara com Garbo em Love). O Grand Hotel do título diz respeito ao espaço homónimo em Berlim, um local onde entram e saem constantemente diversos clientes, que vivem episódios esporádicos neste hotel de luxo e posteriormente dão lugar a outros elementos, que se preparam para viver novas experiências neste edifício cheio de histórias. No caso da obra realizada por Edmund Goulding, alguns destes personagens protagonizam momentos marcantes e definidores das suas vidas no local do título, com o argumento de Béla Balázs e William A. Drake (não creditados), adaptado da peça Menschen im Hotel de Vicki Baum, a explorar as idiossincrasias dos habitantes deste espaço, quer individualmente, quer em conjunto, criando uma narrativa coesa e recheada de interesse. Existe um plano que corrobora paradigmaticamente a citação que retirei do personagem interpretado por Lewis Stone, com a câmara no cimo do hotel a expor de forma fixa o que se passa no seu topo inferior, com os seus habitantes a circularem num movimento contínuo, em actos distintos, que espelham as suas diferenças, enquanto saem e entram hóspedes na unidade hoteleira, como se nada acontecesse e ao mesmo tempo acontecesse tanto. 

 Logo nos momentos iniciais somos apresentados a diversos personagens que habitam o Grand Hotel: Senf (Jean Hersholt), o porteiro principal, cuja esposa se encontra prestes a dar à luz; Otto Kringelein, um assistente de contabilidade com uma doença terminal, que quer dizer a Preysing (Wallace Beery), o seu chefe, aquilo que pensa sobre este; Preysing (Wallace Beery) um empresário desprezível, que necessita de ultimar um negócio para salvar a sua empresa; a temperamental e melodramática bailarina russa Grusinskaya (Greta Garbo), que ainda não lidou bem com as mudanças no seu país; a estenógrafa Flaemmchen (Joan Crawford); o falido e aproveitador Barão Felix von Geigern (John Barrymore), que procura assaltar a bailarina mas logo se apaixona por esta, entre outros elementos. Estes personagens são a base que sustenta a narrativa de Grand Hotel, cujo argumento assertivo permite explorar cada um destes elementos e dar espaço aos seus actores para sobressaírem, reunindo os mesmos em diversos espaços da narrativa, embora nunca una Joan Crawford e Greta Garbo, não fossem ambas as divas colidirem e protagonizarem um choque de titãs em pleno set de filmagens. Garbo e Crawford não se encontram, mas sobressaem. A primeira debita frases de efeito como "I want to be alone", que ficariam coladas para a sua persona fora do campo cinematográfico, interpretando uma mulher que gosta de estar só, algo mimada, com tiques de diva e pouco dada a sentimentos equilibrados, que se apaixona pelo Barão, algo que proporciona alguns momentos de enorme química entre as lendas John Barrymore e Greta Garbo. Quem também nutre um fraquinho por Felix von Geigern é Flaemmchen, interpretada por uma intensa Joan Crawford, que pode não se cruzar com Garbo no ecrã mas quase a apaga, interpretando uma mulher hábil a lidar com os homens, sensual, com personalidade vincada, que sonha em ser actriz mas vive uma série de peripécias marcantes. Flaemmchen trabalha para Preysing, um empresário disposto a tudo para conseguir salvar os seus negócios, que despreza tudo e todos, procura seduzir a sua estenógrafa e humilha Kringelein, aquele que é o personagem a quem conseguimos desculpar quase tudo ao longo da narrativa. Kringelein é o paradigma de alguém que procura viver a todo o custo, que aproveita a descoberta de que padece de uma doença terminal para viver tudo aquilo que não conseguiu ao longo de uma vida marcada por rotinas, poupanças e pouca alegria. 

O anúncio da proximidade da morte de Kringelein surge como algo de perturbador mas ao mesmo tempo de libertador para este personagem, que procura gastar todas as poupanças no Grand Hotel, como se fosse igual aos milionários que lá passam, embora raramente o vejamos perder os valores morais, protagonizando alguns momentos marcantes e tocantes, apesar do filme até contar com algumas pitadas de humor. Kringelein forma amizade com Flaemmchen e o barão. A estes elementos junta-se ainda o Dr. Otternschlag (Lewis Stone), um médico com parte da cara desfigurada devido a uma granada na I Guerra Mundial, que se revela como um elemento causador de frases de efeito como a da citação e um barómetro moral dos personagens. No meio de todos os personagens citados, explorados de forma a espelhar o talento dos actores que constam no elenco e a dar a cada um o devido "tempo de antena", a figura que mais sobressai é mesmo o Grand Hotel do título, o local luxuoso por onde um conjunto de elementos vive temporariamente e experiencia um turbilhão de emoções. Neste espaço entram e saem pessoas constantemente, enquanto este guarda memórias e experiências vividas, com os seus quartos e halls a serem palco de uma história marcada por uma miríade de personagens diversificados, na sua maioria algo solitários e com poucas perspectivas de conhecerem a felicidade. Ficamos assim com uma certa representação do ciclo da vida no interior deste espaço, onde uns nascem, outros morrem, amizades que se formam e paixões que se apagam, sentimentos de alegria que contrastam com a tristeza, onde um espaço fechado é capaz de conter uma imensidão de sentimentos. A representação e utilização do espaço narrativo são efectuados com minúcia, notando-se uma procura de o integrar com os seus personagens, que raramente se aventuram por cenários exteriores, numa obra marcada por um ritmo muito interessante, revelando-se muito mais do que uma mera conjunção de estrelas. Greta Garbo, John Barrymore, Lewis Stone, Joan Crawford e Wallace Beery sobressaem pela positiva, mas é na forma como os seus personagens interagem que se centra a narrativa, numa história efectuada num período muito específico da história dos Estados Unidos da América.

Hoje pode parecer uma obra algo datada (embora deva ser vista à luz da sua época), com os seus personagens a personificarem alguns estereótipos conhecidos, onde não falta o empresário tirânico, o indivíduo com problemas que procura ser feliz, entre outros, não faltando alguns diálogos excessivamente melodramáticos, mas que servem acima de tudo para espelhar os problemas dos afortunados clientes do luxuoso Grand Hotel. Estamos em plena Grande Depressão, o território dos EUA não se apresenta dos mais aprazíveis para os seus cidadãos e o filme transporta o espectador para o interior de uma história onde os mais afortunados também sofrem as suas crises. Pode existir assim uma procura de confortar a população com este drama dos mais afortunados, que em última análise até se aproximam dos seus problemas, ao mesmo tempo que nos é apresentada uma história adornada com um elenco recheado de estrelas, que exponenciam o valor da narrativa. Nos dias que correm é banal os estúdios elaborarem obras que reúnem várias caras conhecidas para tornar a obra mais apetecível junto do público, mas na época esta decisão da MGM revelou-se algo inovadora, com os executivos a reunirem vários elementos que tinham contrato com o estúdio numa única obra. O resultado final foi um êxito estrondoso, um orçamento que hoje seria equivalente a 80 milhões de dólares e um Oscar de Melhor Filme naquela que foi a primeira obra vencedora desta categoria a não ter uma única outra nomeação. O Oscar é um mero reconhecimento do trabalho coeso que Edmund Goulding conseguiu elaborar, lidando com os diferentes egos das estrelas e desenvolvendo um drama marcante, cujas limitações nunca chegam a fazer esquecer os seus momentos de grandeza. Garbo rejeitara inicialmente interpretar a bailarina cuja fala seria muito colada à sua pessoa, mas teve nesta obra um dos elencos mais coesos da sua carreira. Apesar do elenco recheado de estrelas, Greta Garbo surgiu quase sempre em lugar primordial de destaque nos materiais promocionais do filme, incluindo os programas, tendo neste filme mais um grande êxito da sua carreira.

Seguiu-se As You Desire Me, uma obra realizada por George Fitzmaurice (que trabalhara com Garbo em Mata Hari), que contava ainda no elenco com Melvyn Douglas (na primeira de três colaborações com a "esfinge sueca") e Eric von Stroheim. O filme não teve grande expressão na carreira da actriz, destacando-se o visual peculiar desta, apresentando uma peruca loira, sendo uma obra desenvolvida pelo estúdio meio à pressa tendo em vista a aproveitar o contrato da actriz. A possibilidade de Garbo poder regressar a casa chegou mesmo a ser colocada pela imprensa da época. Em Dezembro de 1931, o Movie Mirror publicou um artigo onde era questionada a continuidade da "Vénus Viking" nos Estados Unidos da América, especulando-se sobre um possível regresso à Suécia. A possibilidade de Garbo abandonar a carreira ainda no topo da sua fama foi uma hipótese, com o Movie Mirror a recordar a longa ausência da actriz aquando da morte de Mauritz Stiller. O seu contrato terminaria em Abril de 1932, mas Greta Garbo acabaria por renovar o mesmo, após um longo período de "férias" e depois de ter protagonizado um conjunto de sucessos para a MGM, tendo em Queen Christina o seu primeiro trabalho depois de todo este imbróglio. Se a sua Grusinskaya queria ficar sozinha, já em Queen Christina (1933) a protagonista encontra o amor inesperado num enviado espanhol interpretado por John Gilbert, naquela que é a última colaboração profissional entre ambos (Gilbert viria a falecer em 1936, menos de três anos depois da estreia do filme). Diga-se que a escolha de John Gilbert foi uma prova da força de Garbo na MGM, visto que o actor era persona non grata para Louis B. Mayer. Enigmática dentro e fora do ecrã, Garbo teve em Queen Christina uma das suas obras de maior relevo e um dos seus grandes papéis, onde a sua faceta misteriosa tem liberdade para contaminar o ecrã, enquanto a "esfinge sueca" dá vida à Rainha Cristina da Suécia. Esta adaptação bastante livre da história da Rainha Cristina marcou um regresso de Greta Garbo à representação, após um hiato de dezoito meses, com esta a dar vida a uma personagem que procura a todo o custo conciliar a sua independência com a vida como regente, algo expresso desde o início quando encontramos esta, ainda jovem, a ter de assumir o lugar do seu pai após este último ter sido morto em combate.

O primeiro terço do filme serve para estabelecer o contexto histórico, nomeadamente a Suécia durante o Século XVII, tendo como pano de fundo a Guerra dos Trinta Anos, bem como a personalidade da Rainha, uma mulher dedicada ao seu povo e ao conhecimento, que procura rechaçar os possíveis candidatos a marido, entre os quais o primo Karl Gustav (Reginald Owen) e o Conde Magnus (Ian Keith). No sentido de se afastar temporariamente dos afazeres da corte e de toda a pressão sobre a sua pessoa, Christina decide disfarçar-se de cavaleiro e passar a noite numa estalagem, onde acaba por conhecer Don Antonio (John Gilbert), Conde Pimentel, Cavaleiro do Império Romano e enviado extraordinário de Sua Majestade Filipe, Rei da Leão, Aragão e Castela. Sem saber que estava a falar com uma mulher, Antonio fica a falar amenamente com a protagonista, até ficar no mesmo quarto que esta e descobrir que a interlocutora é uma mulher. Os dois acabam por desenvolver uma relação amorosa, sempre sem que a protagonista revele a sua verdadeira identidade, procurando surpreender o seu interlocutor quando Antonio se reúne com a Rainha e descobre que esta e Christina são a mesma pessoa. Este tinha como missão entregar uma proposta de casamento de Filipe IV, mas o coração da Rainha Christina foi conquistado por este nobre, algo que promete trazer muitos problemas a ambos, com o Conde Magnus a procurar sabotar a relação e a incitar uma revolta popular contra o espanhol. Rouben Mamoulian realiza um drama de pendor histórico marcado por momentos sublimes, ficando particularmente na memória o olhar vazio da personagem interpretada por Greta Garbo num dos últimos planos do filme. Garbo é a alma deste filme, interpretando uma mulher com ideais vincados, aparentemente forte, mas também dada a romantismos, dando um carisma, sensualidade e presença muito próprios à sua personagem. Christina, mulher e Rainha, frágil e forte, sensual e comum, surge exposta em todas as suas vertentes e complexidade, expostas de forma exímia por Garbo, que tem no elenco a companhia de John Gilbert, um actor cuja transição do cinema mudo para os talkies não foi muito feliz, sobretudo devido aos seus problemas com Louis B. Mayer e com o álcool. Queen Christina marcou a quarta e última colaboração de Gilbert com Greta Garbo, após esta última exigir a sua presença no filme, algo que não viria a revitalizar a carreira do actor que morreria precocemente.

Gilbert tem uma química visível com Garbo, com ambos a interpretarem o casal improvável, cujo estatuto social e nacionalidades distintas deveriam afastar, mas nem por isso são suficientes para os separar ao longo deste drama recheado de liberdades históricas, mas também de elevados valores de produção. Não falta um guarda-roupa com algum cuidado, cenários bem aproveitados (sobretudo no quarto da estalagem), embora também estejam presentes anacronismos (a começar pelos diálogos), num filme que até causou alguma polémica para a época. Veja-se a possibilidade de Antonio poder dormir na mesma cama que outro homem, algo problemático para os censores da época, ao longo de um filme onde não faltam sacrifícios por amor, seja à nação ou à pessoa amada, duelos, uma morte marcante e alguns planos belíssimos. Drama de pendor histórico com momentos sublimes, Queen Christina deixa-nos perante uma magnífica Greta Garbo, naquele que é um dos grandes papéis da sua carreira, com a lendária actriz a mostrar o seu enorme talento, ao longo de um filme bem executado por Rouben Mamoulian."Queen Christina" foi um sucesso junto de parte da crítica. Na Modern Screen salientou-se "Triumph for Garbo! One of the great pictures of the past few years, this historical epic makes a sustained drive for artistry", enquanto na Photoplay o crítico não poupou elogios a Garbo: "The magnificent Garbo, after an absence of over a year, makes a glorious reappearance on the screen". O filme foi também um sucesso em termos de receitas, tendo alcançado mais de 2,6 milhões de dólares em receitas globais, valores superiores ao seu orçamento de 1,1 milhões de dólares. Diga-se que estes resultados positivos resultaram acima de tudo graças às bilheteiras internacionais, um pouco como acontecerá em vários trabalhos da actriz, algo que será analisado mais ao pormenor no decorrer do artigo. Quem também foi um sucesso foi o filme seguinte de Greta Garbo, The Painted Veil, que tem recebido mimos como "She is the most miraculous blend of personality and sheer dramatic talent that the screen has ever known and her presence in The Painted Veil immediately makes it one of the season's cinema events", na crítica de Andre Seenwald.

 De Rainha apaixonada a esposa infiel. Assim poderia ser descrito o próximo passo da carreira de Garbo com esta a protagonizar uma adaptação cinematográfica de O Véu Pintado. Publicado originalmente em 1925, The Painted Veil é uma das mais populares obras literárias da autoria de W. Somerset Maugham. Essa popularidade não está completamente alheia da adaptação cinematográfica do livro realizada por Ryszard Bolesławski, um cineasta polaco que dirigiu diversas obras nos EUA, tendo em The Painted Veil um dos seus trabalhos mais admirados, dando a Greta Garbo mais uma oportunidade de sobressair pela positiva, desta vez no exótico e fervilhante território de Hong Kong. Garbo dá vida a Katrin Koerber, a filha de um professor de medicina austríaco, que vê Olga, a sua irmã, casar-se. Esta tem uma visão algo idealista do amor, procurando apenas casar com o homem ideal, embora num impulso ceda ao pedido em casamento de Walter Fane (Herbert Marhsall), um bacteriologista britânico que trabalha em Hong Kong. A relação entre os dois está longe de parecer dar certo, mas a segurança dada por Walter e o amor que sente pela protagonista conduzem a que Katrin parta à aventura. No entanto, não existe grande tempo para o casal gozar a Lua de Mel, com o médico a ter de exercer rapidamente o seu ofício, num território que se encontra a debater com uma epidemia de cólera. Algo solitária, Katrin tem na companhia de Jack Townsend (George Brent), um indivíduo casado, que trabalha na embaixada britânica, um ponto de fuga, acabando por se envolver com este e trair o marido, embora inicialmente até rejeite os avanços do galanteador pretendente. Bloseslawski aproveita para explorar esta relação adúltera em conjunto com a exposição do território, das suas ruas, espaços culturais, procurando que esta exibição não seja uma espécie de "cartão postal em movimento", ao mesmo tempo que desenvolve o envolvimento entre os personagens interpretados por Greta Garbo e George Brent. Existe entre os dois todo um jogo de sedução, entre presa e caçador, no qual ambos não estão inocentes, com Katrin a ser apresentada a uma nova realidade e conjunto de sentimentos que parece não ter vivido de forma tão intensa com o esposo. A relação entre Katrin e Jack logo é descoberta por Walter Fane, que se decide voluntariar para trabalhar em Kham Po Shian, um local onde a cólera está a dizimar a população e vitimou o anterior médico. Walter aceita conceder o divórcio a Katrin se Jack assinar uma carta por escrito a prometer que se vai divorciar, algo que não acontece, conduzindo a personagem interpretada por Garbo a acompanhar o marido. Os dois parecem cada vez mais afastados, mas a convivência com a morte parece mudar a vida de ambos, com The Painted Veil a desenvolver eficazmente esta mudança comportamental no casal.

Se não é competente a desenvolver o contexto social e cultural de Hong Kong e da China na época retratada, The Painted Veil revela uma enorme capacidade de criar um conjunto de personagens e relacionamentos complexos, que nos mantêm agarrados ao longo de toda a narrativa. Katrin é uma mulher algo sonhadora, que se casa num misto de aventura e interesse, de procurar algo de novo e ceder aos desejos da família em verem-na casada, embora não pareça amar intensamente o marido. Por sua vez, Walter ama Katrin mas teima em não mostrar os seus sentimentos correctamente, procurando dedicar-se com toda a sua alma ao trabalho e a salvar vidas. Num dos momentos mais poderosos do filme, quando a câmara de filmar se concentra no rosto de Katrin com um close-up que aproveita magnificamente a capacidade de Greta Garbo em expor emoções, esta descreve paradigmaticamente Walter: "In everything else he gives. His life, his work, everything he does... is love. Every second... Every hour... It's another language. It's another world". Garbo dá a esta personagem os elementos necessários para que nunca a odiemos nos momentos de menor correcção moral, deixando-nos evidente que a sua Katrin é uma mulher solitária, disposta a amar, embora o esposo pouco tempo tenha para si. Já Herbert Marshall dá uma credibilidade necessária a este personagem que nem sempre é capaz de exibir a sua afeição pela esposa, tendo em Jack o seu oposto, com este último a surgir como um homem bem falante, pronto a expressar os sentimentos que sente e não sente. Está aqui muito mais em jogo do que o amor ou paixão, mas sim sentimentos humanos complexos, onde a maior mostra de humanidade destes personagens resulta não só da sua capacidade de perdoarem, mas acima de tudo de errarem. Katrin erra, Walter erra, Jack erra. Todos erramos, os personagens de The Painted Veil não são diferentes, enquanto a adaptação toma diversas liberdades em relação ao excelente livro de W. Somerset Maughm (recomendado por estas bandas), sobretudo no último terço, mas resulta como um drama competente, marcado por uma interessante exposição do território e boas interpretações. A certa altura de The Painted Veil, Jack Townsend questiona Katrin: "Why can't we be unhappy together?". Os personagens de The Painted Veil erram, são infelizes, cedem ao desejo e aos impulsos, mas nem por isso deixam de fazer-nos acreditar que podem ultrapassar as adversidades e as diferenças.

Quem também erra e promete não ser capaz de ultrapassar totalmente as adversidades é Anna Karenina, a personagem novamente interpretada por Greta Garbo, desta vez numa obra realizada por Clarence Brown. Casada com Karenin (Basil Rathbone), um oficial do Governo com quem esta tem um filho (Freddie Bartholomew), a bela mulher cedo cede às tentações carnais e ao desejo ao conhecer o Conde Vronsky (Frederic March), algo que promete condená-la à tragédia. Diga-se que não faltaram sinais do destino para a protagonista afastar-se de Moscovo e do Conde, entre os quais a aterradora visualização de um atropelamento por um comboio quando chegara à cidade, tendo em vista a ajudar o seu irmão a reconciliar-se com a esposa. Esse sinal que deveria ter deixado Anna Karenina em estado de alerta logo acaba por ser ignorado pela bela mulher, algo que lhe promete trazer muitos dissabores, sobretudo quando a protagonista começa gradualmente a ceder às investidas de Vronsky e coloca em causa o casamento, a sua relação de proximidade com o filho, o seu estatuto na alta sociedade da Rússia imperial, numa atitude que a aproxima da tragédia. Entre galanteios, danças no baile, troca de gestos e olhares, Anna Karenina e Vronsky cedo começam a evidenciar sinais de que podem ter algo mais do que uma simples amizade, uma relação adúltera na qual a protagonista conhece o amor e felicidade, uma paixão que nunca conhecera com Karenin, o seu marido, que logo procura encobrir as infidelidades da esposa e manter o bom nome junto da sociedade do seu tempo. O marido é bastante claro em relação a toda esta situação, se Anna Karenina sair de casa, esta nunca mais poderá voltar a ver o filho, um castigo severo que serve acima de tudo para punir a traição e a má fama que esta colocará na família, fazendo as delícias da alta sociedade russa, um acto que promete condenar a protagonista à desgraça, enquanto a relação da personagem interpretada por Greta Garbo e Vronsky começa a apresentar alguns sinais de desgaste. 

 Baseado na obra literária homónima de Leo Tolstoy, Anna Karenina de Clarence Brown é uma das mais notáveis adaptações cinematográficas inspiradas neste livro, que tem servido de base para um conjunto assinalável de obras cinematográficas, entre as quais Anna Karenina de Vladimir Gardin, Love de Edmund Goulding, Anna Karenina de Julien Duvivier (protagonizado pela lendária Vivien Leigh), o recente Anna Karenina de Joe Wright, entre muitas outras adaptações. Se muitas foram as adaptações desenvolvidas, a verdade é que poucas atingiram o mediatismo e o estatuto de clássico da versão realizada por Clarence Brown, uma adaptação que consegue transmitir a aura trágica em volta da protagonista, uma desgraça que surge associada ao amor adúltero e à luxúria, à procura da protagonista em ser verdadeiramente feliz, algo visível na citação acima colocada quando a personagem interpretada por Greta Garbo mostra pouco entusiasmo em relação ao que o futuro lhe pode reservar, enquanto desafia o destino e as convenções da sociedade na Rússia imperial. Anna Karenina ganha uma dimensão trágica e frágil com Greta Garbo, uma actriz cujo talento e presença ajudam esta complexa personagem a ganhar traços memoráveis, sendo capaz de transmitir ao espectador os sentimentos dicotómicos de Karenina, enquanto Frederic March revela-se o par perfeito da protagonista, como o galanteador Conde Vronsky, um homem que se deixa encantar pela bela Anna Karenina e está disposto a tudo para conquistar o seu coração. No meio destes sobressai ainda Basil Rathbone como o austero Karenin, o marido da protagonista, que não perdoa o facto desta pretender abandoná-lo por amar outro homem, sendo visível o contraste entre a frieza de Karenin e o emotivo Vronsky. Ao mesmo tempo que este trio brilha nos seus papéis Clarence Brown revela a sua capacidade na realização cinematográfica, naquela que é a sua sexta colaboração com Greta Garbo, ao criar um filme clássico que tem marcado gerações, conseguindo entender como poucos o material que tinha em mãos, algo que contribuiu para criar uma apaixonante versão de uma das mais marcantes obras de Tolstoy, na qual se nota toda uma atenção ao pormenor. Desde a capacidade de explorar o melhor que os actores têm para dar (Garbo surge soberba) até à qualidade dos diálogos, passando pela atenção aos gestos subliminares dos personagens, aos eventos do quotidiano (desde a vida familiar de Karenina, passando pelo período que vive com Vronsky) e extra-quotidiano (o baile permite apresentar algumas cenas belíssimas, a corrida de cavalos), um magnífico trabalho de fotografia que tira partido de toda a expressividade dos protagonistas (a utilização dos close-ups é muito frequente) e dos cenários, um guarda-roupa sumptuoso (as vestes de militar de Vronsky e as vestes de Anna Karenina), tudo parece combinar para dar a esta adaptação uma energia e encanto que a tornam numa obra cinematográfica memorável.

 Longe de apresentar uma relação sentimental floreada, Anna Karenina explora o conturbado relacionamento extraconjugal entre Anna Karenina e o Conde Vronsky de forma intensa e verdadeira, uma relação que coloca esta mulher algo distante do estereótipo da esposa ligada ao ideal de lar e de família, mostrando uma mulher mais independente, que cede aos seus desejos e ao amor, mesmo que isso coloque em risco o seu casamento e a relação com o filho, uma relação destinada à tragédia e a afastar os próprios amantes, algo que surge exposto de forma paradigmática ao longo do filme. Se o romance entre Vronsky e Karenina, bem como a afeição da protagonista ao filho são temáticas desenvolvidas de forma bastante eficaz ao longo do filme, não deixa de ser evidente a incapacidade da narrativa em desenvolver algumas subtramas, em particular o romance entre Lili (Joan Marsh) e Levin (Gyles Isham), que surge sempre de forma superficial e pouco elaborada, bem como a representação dos elementos da alta sociedade russa. Na segunda vez que interpreta Anna Karenina no grande ecrã, Greta Garbo volta a demonstrar o porquê de todo o culto criado em volta da sua figura, uma actriz misteriosa, sensual, talentosa, que conseguiu transportar essa aura de diva para as suas personagens, parecendo que o papel de Anna Karenina foi feito à sua medida, transmitindo todo esse pathos da personagem, a sua sensualidade e fragilidade, toda a tragédia que parece carregar no seu interior, enquanto Clarence Brown transporta-nos para uma obra cinematográfica cheia de classe. Com uma história de amor destinada à tragédia, recheada de sinais tenebrosos que auguram o pior, esta adaptação do clássico livro de Tolstoy surge como um melodrama memorável, onde Greta Garbo expõe o seu talento e interpreta uma Anna Karenina inesquecível. O filme viria a vencer o prémio de Melhor Filme Estrangeiro na edição de 1935 do Festival de Veneza, com o desempenho de Garbo a ser elogiado pela crítica. A Photoplay salienta que "This is a weak and dull picture, yet the persuasive genius of Garbo raises it into the class of art". Nobert Lusk do Picture Play também elogiou a actriz: "Garbo's greatness as supreme star of the screen is here exhibited for all who have eyes to see, ears to hear, and imagination to be stirred". 

 Se Anna Karenina foi uma personagem inesquecível da carreira de Garbo, então a sua Marguerite Gautier foi provavelmente um dos papéis mais bem conseguidos da carreira da actriz. Uma das obras literárias mais populares de Alexandre Dumas, A Dama das Camélias, tem em Camille de George Cukor uma das adaptações cinematográficas mais conhecidas, tendo em Greta Garbo uma intérprete pronta a mesclar na perfeição as vertentes luxuosas e trágicas da sua protagonista. Garbo dá vida a Marguerite Gautier, uma mulher pouco instruída, financeiramente depauperada, mas que vive no luxo graças à companhia dos homens cuja atenção esta procura despertar disputar. Esta é aparentemente cínica, disputando homens com Olympe (Lenore Ulric), tendo em Prudence Duvernoy (Laura Hope Crews) uma amiga (embora esta última revele sempre um comportamento interesseiro e a espaços desprezível), em Nanine a sua fiel criada. Prudence arranjou um encontro entre Marguerite e o Barão de Varville (Henry Daniell), um indivíduo abastado financeiramente mas austero a nível de sentimentos. Uma troca de olhares errada conduz a que Marguerite pense que Armand (Robert Taylor), um jovem estudante de advocacia, é o Barão, trocando com este olhares e contactando com o mesmo. Existe todo um clima de sedução entre ambos, pelo menos até Marguerite descobrir a identidade do jovem, embora não o rechace por completo. Esta acaba pouco tempo depois por contactar com o Barão de Varville, que logo se encanta pela protagonista, oferecendo-lhe tudo o que esta pretende. Por sua vez, o contacto posterior com Armand faz nascer uma paixão entre Marguerite e o jovem idealista em relação ao amor, algo que conduz a protagonista a organizar uma ida para o campo com o amado, que resulta numa separação temporária do Barão. A ida para o campo parece um espaço aparentemente idílico para o casal, com os dois elementos a viverem alguns momentos de romantismo, alguns deles associados ainda ao casamento de Nichette (Elizabeth Allan), a melhor amiga de Marguerite. Garbo surge exímia na exposição dos sentimentos da sua personagem, vagueando entre a vaidade e a humildade, a alegria radiante de um amor puro e o vazio da perdição, denotando uma química evidente com o seu colega de elenco. O clima de felicidade dos personagens interpretados por Taylor e Garbo muda quando o pai (Lionel Barrymore) de Armand se desloca em segredo ao local e pede a Marguerite para abandonar o filho, de forma a não prejudicar o mesmo, algo que promete colocar a protagonista num dilema moral e a relação desta com o amado em perigo. Entretanto, a doença de Marguerite agrava-se ao longo deste sólido drama realizado por George Cukor, onde o amor luta para vencer a realidade. 

Marcado por uma atmosfera romântica contagiante, Camille é um dos mais belos filmes protagonizados por Greta Garbo, permitindo a esta ter um dos desempenhos mais marcantes e desafiantes da sua carreira. Esta Marguerite Gautier tem muito das vamps que Garbo outrora interpretara nos filmes mudos, pragmática e sedutora, mas o seu lado mais doce e altruísta leva quase sempre a melhor, com esta mulher a amar Armand acima de tudo, mesmo que este sentimento implique alguns sacrifícios dolorosos. O poder de atracção que esta gera nos homens perpassa para o ecrã, com o filme a explorar, ainda que com alguns anacronismos, este quotidiano da vida boémia francesa no Século XIX, colocando-nos não só perante um belo romance, mas também diante dos contrastes sociais, e pelo caminho efectuando uma interessante dicotomia entra o espaço urbano ligado à corrupção moral e dos corpos, e os idílicos momentos da protagonista com o amado no campo. É também no espaço rural que assistimos a uma decisão moralmente elevada por parte de Marguerite, bem como ao casamento de Nichette, um conjunto de cenas que contrastam com a aspereza sentimental entre a protagonista e o Barão de Varville no espaço urbano, na qual existe uma troca entre o dinheiro do segundo e o corpo da primeira, embora os sentimentos estejam reduzidos ao mínimo. Existe ainda toda esta concepção idealista do amor puro que é capaz de lutar contra o interesse (associado a Armand, um dos personagens que mais é desenvolvido ao longo do filme), ideais muito românticos ao longo de uma obra que contrasta constantemente esta luta entre o pragmatismo da vida de Marguerite com os seus sentimentos quentes por Armand, com George Cukor a aproveitar a química de Garbo com Robert Taylor e a marcar a obra por algum erotismo. Mais tarde Cukor voltaria a trabalhar com Garbo em Two-Faced Woman, o último filme da actriz, revelando mais uma vez uma capacidade de construir personagens fortes e relacionamentos credíveis e bem desenvolvidos, algo visível não só neste filme, mas também em Sylvia Scartlett, The Philadelphia Story, entre outros. Em Camille, George Cukor deixa-nos perante uma atmosfera de grande romantismo e doçura, onde Greta Garbo tem uma das melhores interpretações da sua carreira, Robert Taylor convence e assistimos a uma obra bastante competente, marcada por um bom trabalho a nível de caracterização e um argumento adequado. Tem alguns momentos demasiado melodramáticos, é certo, mas nem por isso se revela menos apaixonante.

Camille obteve um êxito considerável, marcando também a primeira colaboração entre Cukor e Garbo. Ao cineasta foi dado a escolher entre Anna Karenina e Camille. Escolheu Camille e conseguiu retirar de Garbo uma das grandes interpretações da carreira da actriz. Citado no artigo Camille: Revisiting Garbo's Greatest Performance de Emanuel Levy, Cukor salientou que com Garbo "you must make a climate in which she trusts you. You watch carefully what she's doing and you make suggestions, but you let the impulse come out of her". O cineasta acrescentou ainda "Garbo has a magic that can't be defined (...) She is a rare creature who touches the imagination and no one will replace her (...)". A crítica também foi bastante positiva para com o desempenho de Garbo. Howard Barnes do New York Herald Tribune comentou que "The incomparable Greta Garbo has returned to the screen in a breathtakingly beautiful and superbly modulated portrayal of Camille", enquanto Frank S. Nuggent do New York Times salientou "Greta Garbo's performance is in the finest tradition: eloquent, tragic, yet restrained. She is as incomparable in the role as legend tells us that Bernhardt was". Emanuel Levy também foi bastante positivo: "Garbo gives her most accomplished and touching performance in Cukor's 1937 version of Camille". A "esfinge sueca" teve em Camille um dos pontos altos da sua carreira, com esta personagem que protagoniza um amor aparentemente condenado à tragédia a conquistar praticamente tudo e todos. Os amores proibidos e as traições amorosas marcaram a carreira de Greta Garbo. Em Conquest, realizado por Clarence Brown, esta volta a protagonizar um romance que tem em Marie Walewska uma personagem complexa, uma mulher casada que gradualmente cede aos avanços de... Napoleão Bonaparte. Realizado por Clarence Brown, Conquest não se interessa pelo rigor histórico nem pelas políticas de Napoleão Bonaparte, mas sim no romance deste com Marie Walewska, uma condessa polaca que aqueceu o coração do poderoso ditador. O filme tem como balizas cronológicas a chegada de Napoleão Bonaparte (Charles Boyer) à Polónia até ao seu exílio na Ilha de Elba, explorando a crescente ambição do Imperador, bem como a contestação que gradualmente foi sendo criada à sua volta, ao mesmo tempo que nos deixa perante o cortejo deste a Maria Walewska (Greta Garbo). Greta Garbo tem em Charles Boyer um colega de elenco à altura do seu talento, com o actor a brilhar em bom nível como este indivíduo ambicioso, galanteador e com uma forte personalidade.

Garbo surge mais frágil, distante das vamps que interpretara nos filmes mudos como The Flesh and the Devil ou da sua Mata Hari, revelando uma candura latente como esta mulher que até reluta em iniciar uma relação com Napoleão mas aos poucos deixa-se encantar pelos seus ideais. No início do filme Walewska encontra-se casada com o Conde Anastas Walewski, um individuo financeiramente abastado, muito mais velho, que conta com um neto quase da sua idade, respeitando o marido e o seu estatuto. A chegada de Napoleão à Polónia traz consigo uma réstia de esperança para a libertação do território, com os nobres a procurarem convencer Maria a aproximar-se do líder francês, tendo em vista a conseguir os apoios deste. Maria reluta, mas gradualmente deixa-se conquistar, envolvendo-se com Napoleão, enquanto Clarence Brown nos envolve para este drama de época que retrata de forma interessante um affair relativamente conhecido, ao longo de uma obra marcada por bons valores de produção. Existe todo um cuidado no guarda-roupa e cenários, enquanto Conquest nos transporta para o interior deste romance adúltero, nascido por interesse mas envolvendo posteriormente amor, onde duas figuras históricas surgem representadas por dois actores de grande quilate. Esta foi a obra protagonizada por Greta Garbo que mais prejuízo deu à MGM, contando com um orçamento elevado para a época e uma receita pouco condizente com os gastos, com esta sétima e última colaboração entre a actriz e Clarence Brown a ter algum valor histórico e cinematográfico, apesar do seu argumento ser incapaz de articular com sagacidade e eficácia o romance e o contexto histórico-político da época. Temos ainda alguns elementos associados às conquistas de Napoleão, não faltando a presença de Talleyrand (Reginald Owen), um diplomata com alguma influência junto do personagem interpretado por Boyer, no entanto, a vertente política e militar nunca é representada com a mesma eficácia da relação entre os personagens interpretados por Boyer e Garbo. A maior conquista deste Conquest é mesmo a sua dupla de protagonistas, à prova de quase tudo e capaz de elevar um filme simples e transportar-nos para o seio de uma relação longe de fulgurante, mas geradora de algum interesse. 

 Perante o fracasso de Conquest, que resultou num hiato de praticamente dois anos da carreira de Garbo, o estúdio decidiu apostar na actriz num registo algo distinto dos papéis até então interpretados em Ninotchka, um filme promovido com o slogan: “Garbo Laughs”. Para realizar esta comédia protagonizada por Garbo, o estúdio contratou o mestre alemão Ernst Lubitsch, um cineasta de distinto valor, cujo toque de Midas, ou, se preferirem, "toque de Lubitsch", revelou-se aprimorado em Ninotchka, com o realizador a explorar o talento da "esfinge sueca" e a desenvolver uma comédia magnífica, onde não falta bom humor, romance e uma sátira corrosiva à União Soviética. Lubitsch nem era a primeira opção para Garbo, que pretendia ter na realização George Cukor (que lhe proporcionara o êxito Camille), enquanto o estúdio chegou a cogitar Edmund Goulding. A chegada de Ernst Lubitsch significou também uma mudança para o projecto, visto que o cineasta não apreciou o argumento de Gottfried Reinhardt e S.N. Behrman, tendo contratado o trio formado por Billy Wilder, Charles Brackett e Walter Reisch para rescrever o mesmo. O enredo de Ninotchka desenrola-se em Paris, no período anterior à Segunda Guerra Mundial, num tempo em que quando um francês apagava as luzes "não era por causa de um ataque aéreo”, numa alusão directa ao conflito que decorria durante o desenvolvimento do filme. Devido aos problemas financeiros sentidos pela União Soviética, Iranov (Sig Ruman), Buljanov (Felix Bressart) e Kopalsky (Alexander Granach), três enviados soviéticos, deslocam-se a França tendo em vista a negociarem as jóias que outrora pertenceram à Duquesa Swana (Ina Claire), considerando que estas são propriedade do Governo e devem ser vendidas para ajudarem a equilibrar as contas do país, enquanto esta pretende recuperar os seus bens. No entanto, os elementos do trio cedo começam a deslumbrar-se pelos encantos de Paris e do Capitalismo, divertindo-se como nunca tinham feito durante toda a sua vida. Perante a passividade do trio, o Comissário Razinin resolve designar uma enviada especial para desbloquear a situação. 

Esta enviada é Nina Ivanovna Yakushova (Greta Garbo), mais conhecida por Ninotchka, uma mulher com uma personalidade dicotómica do trio interpretado por Sig Ruman, Felix Bressart e Alexander Granach. Se estes têm uma adaptação bastante fácil a Paris e cedo cedem aos ideias capitalistas, no caso de Ninotchka vamos assistir a um enorme choque cultural, de alguém que se considera como uma “pequena engrenagem na grande roda da evolução”. Em Paris, tudo é diferente dos valores que Ninotchka defende, desprezando a forma de vestir, de viver, de falar dos franceses, sentindo-se insultada por ter de estar numa suite que custa uma vaca por dia ao povo russo. Durante uma tentativa para conhecer as estruturas da cidade e uma das obras arquitectónicas mais imponentes do Mundo, a Torre Eiffel, Ninotchka acaba por travar conhecimento com o Conde Leon d'Algout (Melvyn Douglas), o representante da Duquesa Swana, na disputa pela posse das jóias. A interacção entre estes dois gera alguns dos melhores momentos do filme, com o caloroso e engatatão Conde Leon d'Algout a procurar seduzir a fria e bela Ninotchka, que se sente pouco impressionada pelos avanços pouco subtis do “macho arrogante da sociedade capitalista (…) um produto infeliz de uma sociedade em extinção”. No entanto, esta resistência da protagonista não dura muito, com Ninotchka a começar a ceder aos encantos de Paris, do Ocidente, do Capitalismo, e sobretudo do Conde, algo paradigmaticamente representado quando este a faz rir. Aos poucos Ninotchka liberta-se das suas amarras ideológicas e começa a extravasar os sentimentos que sempre reprimiu. Esta felicidade não dura muito, com um forte revés a colocar em causa a felicidade do casal, com Ninotchka a ser forçada a partir para a União Soviética tendo em vista a não desiludir os seus camaradas em dificuldades. Ninotchka, Iranov, Buljanov e Kopalsky ficam desolados por terem de partir tão repentinamente da Cidade Luz, indo unir-se em Moscovo para recuperarem e recordarem aqueles momentos da Primavera de Paris, que nada se parece com a Primavera moscovita. Por sua vez, o Conde procura a todo o custo partir em direcção à União Soviética para juntar-se à sua Ninotchka ao longo desta sublime comédia romântica, onde Greta Garbo surpreende pela positiva, Ernst Lubitsch apresenta o seu toque refinado na realização cinematográfica e o argumento de Charles Brackett, Billy Wilder e Walter Reisch revela as suas enormes qualidades.

Ninotchka é a prova de que uma boa comédia não precisa de ter um enredo desprovido de conteúdo e sentimento, apresentando-nos a um romance improvável entre uma rígida e fria enviada soviética e um Conde Francês bonacheirão, colocando em contraste os valores que estes defendiam antes de se conhecerem, ao mesmo tempo que nos apresenta uma sátira algo contundente à União Soviética e aos valores defendidos pelo Regime Comunista de Josef Stalin. Estas vão ser as duas unidades temáticas principais, com Lubitsch a utilizar um estilo muito próprio e discreto para abordar um tema tão problemático como a crítica ao comunismo. A relação entre Ninotchka e o Conde é a alma deste filme, com a química e dinâmica fantástica entre Melvyn Douglas e Greta Garbo a concederem uma dimensão de excelência a Ninotchka, a ponto de os seus personagens figurarem em quadragésimo lugar na lista das cem maiores paixões elaborada pelo American Film Institute. Melvyn Douglas foi um dos parceiros com melhor química com Greta Garbo a par de John Gilbert, tendo em Ninotchka a segunda colaboração com a actriz. O Conde interpretado por Douglas é um personagem nas antípodas ideológicas da protagonista, embora esse choque de culturas não impeça o amor entre ambos, com os dois a protagonizarem momentos marcantes de cinema, onde o estilo descontraído do actor serve magnificamente o personagem que interpreta. Greta Garbo tem um desempenho notável como Ninotchka, uma rígida enviada soviética, que é seduzida por Paris, pelo capitalismo e pelo Conde d'Algout. Esta surge no grande ecrã com um tom de voz quase mecânico, uma extrema rigidez física, num visual quase masculino, no estereótipo do ideal soviético de agir, um comportamento que aos poucos se vai diluindo, em grande parte graças ao personagem interpretado por Melvyn Douglas, com as dicotomias entre os personagens que interpretam a proporcionarem alguns momentos de enorme humor e até romantismo. 

Uma das cenas mais hilariantes desenrola-se na Torre Eiffel, quando o Conde procura demonstrar a Ninotchka toda a beleza da cidade, vista do cimo da Torre, enquanto esta está indignada com o desperdício de electricidade que há em Paris. Este é um dos exemplos da rigidez de Ninotchka em contraste com o Conde, embora esta aos poucos mostre ser uma mulher sensível, pronta a demonstrar os seus sentimentos e até a rir. A cena do riso de Ninotchka marca um ponto de viragem para a personagem de Greta Garbo, a partir daqui a enviada extraordinária Yakushova começa a perder toda a rigidez inicial e começa a extravasar os seus sentimentos e a ser feliz. Vale ainda a pena recordar a cena do primeiro beijo do casal, em que a bela soviética parece impassível, ou quando rejeita os avanços do Conde quando este lhe explica a localização da Torre Eiffel, para aos poucos começar a ceder ao calor da paixão. A juntar a este dueto temos ainda o trio formado por Iranov, Buljanov e Kopalsky, o alívio cómico desta belíssima comédia que contrasta de forma satírica os estereótipos associados às sociedades capitalistas com os estereótipos ligados à União Soviética e ao Comunismo. Esta dicotomia a nível ideológico entre capitalismo e comunismo é paradigmaticamente exposta através das distintas representações de Paris e de Moscovo. Paris aparece representada como a cidade da liberdade, onde os cidadãos podem desfrutar de uma vida agradável, as diferenças entre os distintos grupos sociais são encaradas como algo natural e todos parecem viver em harmonia, é a Cidade Luz em todo o seu esplendor, no cenário anterior à II Guerra Mundial. Já o cenário da União Soviética é bem diferente, ao sermos apresentados a um cenário cinzento de uma parada militar, onde não faltam cartazes com símbolos comunistas, com figuras de Estaline e Lenine, no culto da personalidade, numa demonstração clara de propaganda política de pendor fascista. Moscovo aparece representada como uma cidade em que os habitantes vivem em condições miseráveis e num clima de suspeição, em que tudo o que é dito tem de ser controlado e as inovações e diferenças reprimidas. 

Esta crítica aprofunda-se se tivermos em consideração a personagem da Duquesa Swana, com esta a representar a antiga aristocracia despojada dos seus bens após a Revolução Russa, que coincidiu com a nacionalização dos bens e propriedade privada. A própria Duquesa não está desprovida de defeitos, representando a avareza e a mesquinhez que levaram a que muitos dos cidadãos russos se revoltassem contra a estrutura hierárquica da sua Nação. A venda do colar da Duquesa serviria para comprar mais tractores, para alimentar o programa de industrialização intensiva e de colectivização da agricultura soviética. As purgas efectuadas pelo regime soviético, sobretudo com Estaline, não são esquecidas, sendo abordadas através de uma frase de Ninotchka, que no início do filme não tem pudores ao afirmar que as purgas foram um sucesso, ao comentar “The last mass trials have been a great success. There are going to be fewer but better Russians”. Ninotchka referia-se à Grande Purga, uma acção movida pelo ditador soviético contra os seus opositores políticos, verdadeiros ou não, entre 1934 e 1939. Os ideais soviéticos e os seus planos a longo prazo acabam por ser satirizados através dos vários personagens ao longo do filme. Iranov, Buljanov e Kopalsky cedem facilmente ao luxo e boa vida que a cidade parisiense oferece. Nesta cidade estes podem falar livremente, beber, divertir-se e conhecer belas mulheres, como nunca antes o fizeram, a ponto de desertarem na primeira oportunidade que encontraram. O Conde d'Algout não se cansa de mostrar os benefícios do sistema capitalista, que facilita a demonstração de sentimentos, que proporciona a felicidade e bem estar aos cidadãos, mesmo que estes estejam falidos como o Conde. Este ainda vai ao ponto de efectuar uma crítica corrosiva aos planos a longo prazo elaborado pelos comunistas, salientando ser fascinado pelo Plano Quinquenal Soviético “desde os últimos quinze anos”. No entanto, não deixa de ser curioso verificar como o filme viria a tornar-se algo constrangedor para os Estados Unidos da América, no decorrer da II Guerra Mundial, após a União Soviética entrar no lado dos aliados. Por sua vez, irá ganhar uma grande popularidade durante a Guerra Fria, período em que os Estados Unidos e União Soviético viveram num clima de paz armada, que ameaçava a paz mundial, com Ninotchka a surgir como uma obra paradigmática de valorização dos valores capitalistas e de alguma crítica em relação ao comunismo. 

Nas mãos de outro realizador Ninotchka poderia facilmente tornar-se numa sátira desprovida de interesse, apresentando críticas fáceis a um regime antagónico ao capitalismo yankee, algo que raramente acontece ao longo do filme. Lubitsch consegue conciliar de forma sublime os elementos satíricos com um romance sincero e improvável entre dois personagens que teriam tudo para cair nos estereótipos fáceis, ao longo de uma obra maior da sua carreira, uma comédia leve, inteligente e agradável, que apresenta uma Greta Garbo magistral naquele que viria a ser o penúltimo filme que a “esfinge sueca” protagonizaria. Ninotchka marcou um êxito de Garbo a nível do público e da crítica, com elementos como Howard Barnes do New York Herald Tribune a salientarem que "Now that she has done it, it seems incredible that Greta Garbo never apeared in a comedy before Ninotchka". Seguiria-se então Two-Faced Woman, um dos maiores fracassos da carreira de Greta Garbo, ainda hoje algo mal visto pela crítica, embora de forma algo injusta, não só por ser um filme relativamente agradável (está longe de apresentar a melhor Garbo, mas a MGM já nos brindou com obras bem piores). Para o fracasso do filme não devemos ficar alheios aos problemas que o filme teve com a censura, com a premissa inicial do filme a ser desde logo rejeitada, que passava pelo protagonista masculino ter um affair com a suposta irmã gémea da esposa (que na realidade é mesmo a cônjuge) e engravidaria a mesma. O filme foi ainda alvo de diversos cortes, embora não tenha estado livre de polémicas, em particular com a Catholic Legion of Decency, que classificou o filme como de “Class C” (condemned) devido à sua “Immoral and unChristian attitude toward marriage and its obligations. Imprudently suggestive scenes, dialogue and situations and suggestive costumes". A procura dos grupos religiosos em boicotar o filme teve em Spellman, o líder da Igreja de Nova Iorque, uma das figuras mais activas, com este a apelar aos crentes para não verem o filme. Diga-se que Spellman não foi o único elemento ligado à igreja a fazer este apelo, com Two-Faced Woman a chegar a ser proibido em alguns territórios dos Estados Unidos da América. Por sua vez, os elementos responsáveis pelo Production Code salientaram que o filme defende os valores familiares e que os elementos da administração: "fails to see anything immoral or unchristian in the picture's attitude toward marriage. The marriage was entered into as a permanent institution. The wife came to recognize the proper relationship between a husband and wife, and went back to him. In conclusion, the wife came to recognize that her duty was by the side of her husband". Estes dados são muitas das vezes deixados de fora nas análises ao fracasso do filme (um filme não ter qualidade não é sinónimo de má bilheteira), quando tiveram um papel fundamental em grande parte do falhanço de Two-Faced Woman.

Em Ninotchka, Greta Garbo já tinha demonstrado um agradável timing e talento para a comédia, sobretudo a partir do momento em que a sua personagem começa a ceder aos encantos do Conde Leon d'Algout (Melvyn Douglas) e da cidade de Paris. Em Two-Faced Woman, George Cukor volta a aproveitar a magnífica química de Garbo com Melvyn Douglas (a química entre os dois só é superada pela química entre Garbo e John Gilbert), exibindo mais uma vez a sua perícia para a criação de personagens femininas interessantes e na construção de deliciosos relacionamentos humanos (não esquecer que este é o realizador de filmes como The Woman e o magnífico The Philadelphia Story). No caso deste último filme de Greta Garbo, George Cukor extrai dela a interpretação mais leve da carreira, revelando a versatilidade da actriz e oferecendo a esta um papel que marca um contraponto interessante com os seus primeiros filmes da MGM. Veja-se em The Temptress e Flesh and the Devil, onde Garbo dava vida a mulheres prontas a seduzir os homens, com estas no final a terem um destino trágico e moralista. Em Two-Faced Woman, Garbo dá vida a Karina Borg, uma instrutora de esqui, que se casa num impulso com Lawrence Black, o editor do Times, que se encontra na estância onde esta trabalha para se afastar da azáfama do trabalho e da vida citadina. Lawrence casa-se com Karina na perspectiva de escrever um livro e tomar um novo rumo para a sua vida, mas a chegada de O.O. Miller (Roland Young), o seu sócio, e Ruth Ellis (Ruth Gordon), a sua secretária, conduzem a que rapidamente este mude de ideias e até apresente um comportamento nem sempre correcto com a esposa. Como esta salienta, Lawrence junta duas personalidades dicotómicas na sua pessoa: "Há o jovem poeta que quer viver com simplicidade... e Napoleão" (numa referência para Conquest, onde Garbo interpretava Marie Walewska, a amante de Napoleão), com esta última a levar a melhor e conduzir o protagonista de regresso a Nova Iorque. Perante a ausência prolongada do marido, Karina decide partir em direcção a Nova Iorque, onde acaba por fingir ser Katherine, a irmã gémea da protagonista, uma mulher interesseira, pronta a conquistar tudo e todos, embora seja descoberta pelo esposo, com este último a fingir desconhecer a situação, algo que resulta em alguns mal-entendidos, muito humor, romantismo e muito humor de situação.

George Cukor desenvolve uma comédia romântica com um conjunto de ingredientes que tornam Two-Faced Woman numa entrada irresistível no género: uma dupla de protagonistas talentosa e com enorme química, um conjunto de diálogos relativamente agradáveis, um argumento simples mas coeso e uma capacidade enorme de colocar os personagens em situações que resultam em bons momentos de humor (veja-se desde logo a procura de Karina em fingir ter uma gémea). Nota-se que existe toda uma procura em mostrar uma faceta mais cómica e popular de Garbo, ao mesmo tempo que a sua sensualidade é explorada através do guarda-roupa e personalidade das suas personagens. Como Katherine, a irmã gémea imaginária da protagonista, Garbo surge mais vigorosa, pronta a dançar, sensual. Como Karina surge mais séria, pronta a conquistar o marido, com o filme a ter ainda contado com alguma polémica, ou não estivesse o Código Hays em pleno vigor, devido à forma como trata os valores do casamento. O filme procura ainda esboçar uma possibilidade de Lawrence ter um caso com Griselda Vaughn (Constance Bennett), mas o argumento revela-se incapaz de abordar devidamente esta questão (e, acrescentamos, de manter durante mais tempo a identidade de Katherine em segredo e aumentar o mistério junto dos personagens), algo que poderia incrementar o enredo e a relação dos personagens interpretados por Douglas e Garbo. Esta foi a última obra de Greta Garbo para a MGM e da sua carreira, com a actriz a decidir abandonar a mesma no auge, prevalecendo nas imagens em movimento a sua figura ainda jovem, algo que associado à sua reclusão e protecção da vida privada conduziu a um aumentar do mistério em volta da sua figura, ainda nos dias de hoje. Two-Faced Woman não é nem pouco mais ou menos a melhor obra de Garbo, a cena do último terço na neve com o casal a esquiar é bastante mal conseguida a nível de efeitos, mas Cukor consegue ultrapassar essa situação ao desenvolver uma comédia romântica bastante satisfatória, que marca o terminar da carreira de Garbo num registo muito distinto daquele a que nos habituámos a ver durante boa parte dos filmes do seu currículo.

 Entre Torrent e Two-Faced Woman encontramos diferenças de estatuto e papéis de Garbo, mas também de salário, tendo passado de um salário de 400 dólares semanais no primeiro a 150 mil dólares no último, valores bem distintos de uma actriz que viria a terminar precocemente a carreira. Diga-se que Garbo chegou a receber 250 mil dólares por filme, mas a 20 de Novembro de 1940 esta viria a assinar um novo contrato com a MGM, que reduziria o seu salário para 150 mil dólares devido à II Guerra Mundial e consequente quebra de receitas. Importa agora analisar brevemente a importância da bilheteira internacional nos filmes de Garbo (que exprimem a sua influência para além dos Estados Unidos da América), mas também as receitas globais dos seus filmes em comparação com o orçamento dos mesmos. The Torrent, o primeiro trabalho de Greta Garbo na MGM, tinha um orçamento de 250 mil dólares, alcançando uma receita global de 668 mil dólares (460 mil nos EUA e o restante ao redor do Mundo). The Temptress custou algo a rondar os 669 mil dólares para uma receita a rondar 965 mil dólares (587 mil nos EUA e 378 mil fora dos EUA). Flesh and the Devil marcou a grande viragem na carreira de Greta Garbo, transformando-a numa vedeta à escala internacional. Se as críticas foram bastante positivas, então as receitas ainda foram melhores para o estúdio: 1.261.000 dólares em receitas (603 mil nos EUA e 658 mil no resto do Mundo), para um orçamento de 373 mil dólares. Ou seja, em Flesh and the Devil assistimos ao primeiro filme de Greta Garbo na MGM a ter mais lucro a nível internacional do que nos EUA. Seguir-se-ia Love, que voltou a ter no mercado yankee o seu maior financiador, embora os números sejam bastante bons: 946 mil dólares em receitas internas e 731 mil dólares em receitas em territórios externos aos EUA, superando e muito os 488 mil dólares do seu orçamento. Parece que o estúdio soube aproveitar bem a química entre Garbo e Gilbert, algo visível no slogan de "Love": "Greta Garbo and John Gilbert in LOVE". The Divine Woman voltaria a dar lucro e a manter a tendência dos filmes de Garbo renderem mais nos EUA, mas The Mysterious Lady voltou a recuperar a importância das receitas internacionais dos filmes de Garbo: 543 mil dólares nos EUA e 551 mil dólares ao redor do Mundo.

A Woman of Affairs, Wild Orchids, The Single Standard e The Kiss tiveram todos eles lucro, sendo que em todos os casos as receitas internas superaram as receitas externas. Diga-se que o primeiro talkie de Garbo mantém esta tendência, com "Anna Christie" a obter 1.499.000 dólares em termos globais, dos quais cerca de um milhão de dólares surgem das receitas internas. Vale a pena realçar que as receitas externas incluem ainda a versão alemã realizada por Jacques Feyder. Romance, Inspiration, Susan Lenox e Mata Hari viriam todos a dar lucro ao estúdio, embora apenas este último tenha alcançado maiores bilheteiras internacionais. Foram 1.296.000 dólares ao redor do Mundo, 931.000 dólares nos EUA e uma enorme receita para o estúdio (o orçamento do filme era de 558 mil dólares). Grand Hotel, a reunião de vedetas da MGM, continuou essa tendência das receitas internacionais superarem as receitas internas, algo contrariado por As You Desire Me, mas confirmadíssimo por Queen Christina que obteve valores estrondosos ao redor do Mundo: 1.843.000 dólares, uma verba que ultrapassa e muito os 767.000 internos. O orçamento do filme foi de 1.144.000 dólares e apresenta uma das primeiras vezes em que a receita interna fica bastante distante do valor do orçamento de um filme protagonizado pela actriz. Segue-se The Painted Veil e mais uma vez Greta Garbo a liderar nas bilheteiras internacionais, dependendo destas para os seus filmes terem lucro: 538.000 dólares nos EUA e 1.120.000 dólares fora dos EUA. A nível de orçamento, os valores ficam por 947 mil dólares. Estamos assim perante uma tendência nova na carreira de Garbo, que será mantida em Anna Karenina e Camille, mas que se revela problemática com Conquest, aquele que é o primeiro grande fracasso na carreira de Garbo na MGM, tendo um prejuízo avaliado em 1.397.000 dólares. As receitas internas foram de 730 mil dólares, praticamente metade das receitas externas, mas não chegaram para igualar o seu orçamento a rondar os 2,73 milhões de dólares. O alarme soou bem alto junto da MGM que logo procurou "vender" a imagem de Garbo de forma distinta: "Garbo Laughs" dizia a frase promocional de Ninotchka e o filme alcançou 2.279.000 dólares ao redor do Mundo, 1.092.000 dólares internos, ou seja, valores que permitem ao estúdio ter lucro, mesmo com um orçamento de 1.365.000 dólares. 

 A Ninotchka seguiria-se Two-Faced Woman, um filme que trouxe algo de preocupante ao estúdio: a perda de receitas internacionais. O filme realizado por George Cukor obteve 875.000 dólares nos EUA e 925.000 dólares no resto do Mundo, ou seja, uma queda brutal em relação a Ninotchka e um prejuízo a rondar os 62 mil dólares para o estúdio (uma ninharia comparado com Conquest). Perante o fracasso de Two-Faced Woman nas bilheteiras e um decréscimo das receitas das bilheteiras internacionais durante o período da II Guerra Mundial (Garbo era bastante popular além-fronteiras), a actriz encontrava-se perante uma nova e pouco positiva situação na sua carreira, embora as ofertas de trabalho continuassem a chegar. "The Girl from Leningrad" chegou a estar em andamento, tal como uma adaptação cinematográfica do livro "La Duchesse de Langeais" de Balzac, que seria realizado por Max Ophüls, no entanto, os projectos não chegaram, a avançar. Ainda foi convidada para interpretar Norma Desmond em Sunset Boulevard mas rejeitou a oferta, num passo que poderia ter sido bastante feliz para a sua carreira, embora Gloria Swanson tenha brilhado em grande nível no papel. Diga-se que este impasse na carreira da actriz, entre o continuar ou terminar, também resulta em muito da vontade de Garbo, algo salientado por Salka Viertel, uma amiga da actriz: "Greta is impatient to work. But on the other side, she's afraid of it". Garbo revelaria a Sven Broman em Conversations with Greta Garbo a sua vontade de afastar-se da representação: "I was tired of Hollywood. I did not like my work. There were many days when I had to force myself to go to the studio... I really wanted to live another life". Terminada a carreira, aos trinta e seis anos de idade, Greta Garbo ficou a viver nos Estados Unidos da América, um local onde, apesar de tudo, podia viver com algum anonimato, habitando um espaçoso apartamento em Manhattan, no qual viveria até ao fim dos seus dias, após uma carreira de sucesso nos EUA e na MGM. O estúdio soube aproveitar o talento que tinha sob contrato durante os anos em que a actriz esteve no activo. Inicialmente existiu alguma relutância, mas Garbo logo se destacou, passando a ser a cabeça de cartaz de vários filmes do estúdio e uma das estrelas mais rentáveis, com as suas obras a deixarem marca até aos dias de hoje. Esta viria a receber em 1954 o primeiro Oscar da sua carreira, nomeadamente, o Oscar Honorário, após ter sido nomeada para Anna Christie, Romance, Camille e Ninotchka. O facto de Garbo nunca ter vencido um Oscar pela prestação individual nos filmes que protagonizou e ser recordada como uma das maiores lendas da História do Cinema não deixa de ser algo caricato e lança ainda o debate sobre a relevância destes prémios para memória futura.

Garbo não apareceu na cerimónia de atribuição do Oscar honorário, tal como não aparecera nas restantes vezes em que fora nomeada, algo explicado pela aversão da actriz a eventos públicos. Não é que esta não tivesse amigos, nem saísse, mas preservava imenso a sua intimidade. No caso do Oscar honorário tínhamos ainda a pouca importância que esta parecia ter dado ao mesmo, tendo rejeitado um pedido do realizador Jean Negulesco, que produziu a cerimónia nesse ano, de gravar um vídeo breve de agradecimento. Nancy Kelly, uma actriz que Garbo nem conhecia, recebeu o prémio no lugar da diva, com o Oscar a ter sido entregue dois anos depois da cerimónia e a ir directamente para o armário desta mulher de personalidade fortemente vincada. Garbo raramente concedia entrevistas, muito menos era vista regularmente em eventos, não dava autógrafos, evitava fotografias de paparazzi, viajava muitas das vezes sob pseudónimo, não respondia a cartas dos fãs (nem compreendia as razões destes enviarem correspondência), algo que o estúdio soube habilmente potenciar, envolvendo-a numa aura de mistério, pronta a gerar especulação em volta da sua figura, numa atitude muito dicotómica do que encontramos nos dias de hoje na relação entre o público e as estrelas de cinema. Esse mistério em volta da sua figura foi algo que esta também procurou manter nas filmagens, obrigando a que estranhos não entrassem no local, fossem este familiares de elementos da produção, elenco ou até quando eram figurantes a mais, tendo em vista a que não se perdesse a ilusão em volta das suas personagens. Foi isso mesmo que Greta Garbo respondeu a George Cukor quando este a questionou sobre o que a incomodava tanto na presença de estranhos no set: "Eu sou apenas uma mulher a fazer caretas para a câmara. Isso destrói a ilusão". Misteriosa, talentosa, sensual, complexa, Greta Garbo viria a falecer a 15 de Abril de 1984, tinha oitenta e quatros de idade. Vários anos depois o seu talento continua a ser recordado e raramente esquecido, a sua obra descoberta por cinéfilos de todo o Mundo e o seu nome continua a ser incontornável. John Bainbridge publicou na revista Life um artigo intitulado Greta Garbo - In Her Glory She Reigned Supreme, As a Beuty, An Actress, A Legend. Acrescentamos: uma lenda que vence a vida e a morte, que supera o que é meramente humano, comprovando que as divindades também assinam contratos, sobretudo com aqueles que as seguem, ou não continuasse Greta Garbo a fascinar quem ama cinema com o seu magnífico talento. Garbo revelou-se assim como um enorme achado da MGM e um exemplo paradigmático da política do estúdio em manter algumas das grandes estrelas sob a sua alçada, tendo colhido os frutos e popularizado uma das maiores lendas da história do cinema.

Artigo publicado inicialmente na Take Cinema Magazine: http://issuu.com/take/docs/take36

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