27 julho 2014

Resenha Crítica: "There Was a Father" (Chichi ariki)

 A família e as relações familiares são temáticas nucleares das obras cinematográficas de Yasujiro Ozu, um cineasta capaz de explorar as mesmas com uma delicadeza e humanidade muito próprias, algo que volta a acontecer em "There Was a Father", um filme que conta com vários elementos típicos deste magnífico realizador. A câmara baixa volta a ser utilizada com destreza, bem como os pillow shots onde são realçados elementos não humanos, os planos são elaborados com enorme cuidado, não faltando ainda os momentos em que os personagens parecem estar a olhar directamente para a câmara. Temos ainda a presença do comboio, símbolo de chegada e partida, de proximidade e distância, qual ciclo da vida pronto a ser percorrido, numa obra onde o centro de tudo está na história de Shuhei Horikawa (Chishu Ryu) e o seu filho Ryohei (Haruhiko Tsuda). Horikawa é um professor de matemática em Tóquio, que decide desistir do seu ofício quando um aluno morre afogado numa visita de estudo, mudando-se para Uedo, onde vai trabalhar numa fábrica têxtil, procurando ainda cuidar do seu jovem filho. Tendo em vista a procurar melhores condições laborais, Horikawa regressa a Tóquio, deixando o filho numa escola em Uedo, distante de si, em regime de internato, visitando o mesmo esporadicamente. Os momentos iniciais exploram desde logo as repercussões que esta morte teve na vida do protagonista, mas também a relação de Horikawa com Ryohei, incluindo os momentos destes a pescarem, símbolo de convívio nos filmes de Ozu, algo visível em obras como "A Story of Floating Weeds" e "Floating Weeds" (onde também tínhamos um pai e um filho a pescarem em movimentos sincronizados). A narrativa logo avança, até Ryohei ter vinte e cinco anos de idade e ser também ele um professor, visitando o pai, conversando com este enquanto bebem muito (veja-se as garrafas junto à mesa em que estes dialogam, com Yasujiro Ozu a voltar a colocar os seus personagens a desfrutarem dos prazeres momentâneos) e revelam muito daquilo que os une apesar de nem sempre poderem estar juntos. Diga-se que esta cena de Horikawa e Ryohei a beberem e dialogarem, remete para os momentos iniciais quando pescavam, surgindo reveladores do convívio e proximidade entre pai e filho. Embora tenhamos ainda subtramas como a relação de amizade de Horikawa com Makoto Hirata (Takeshi Sakamoto), a reunião do personagem interpretado por Chishu Ryu e os antigos alunos, o interesse de Ryohei em Fumiko (Mitsuko Mito), o fulcro da narrativa está na relação entre um pai e o seu filho, exposta de forma bela e delicada, algo que é apanágio do realizador. 

Yasujiro Ozu desenvolve a narrativa a um ritmo brando, embalando-nos para os seus simples mas belos diálogos, enquanto nos deixa perante esta relação entre um pai e um filho na qual a distância entre ambos não destrói os laços de afinidade que os une. Chishu Ryu, actor fetiche de Ozu, empresta o seu carisma e credibilidade ao personagem que interpreta, sendo visível o afecto que este tem pelo filho, mas também a dor por ter falhado como professor e a sua procura em viver de forma digna. Também Suji Sano tem espaço para sobressair, interpretado por Ryohei na idade adulta, sendo o exemplo paradigmático do cumprimento do ciclo da vida, com este a exercer uma profissão semelhante ao seu pai, deixando o mesmo orgulhoso daquilo que o rebento alcançou. Existe uma enorme dignidade e humanidade a rodear os personagens de "There Was a Father", sobressaindo os momentos de convívio entre Horikawa e Ryohei (veja-se as cenas de pesca entre ambos, quer na juventude de Ryohei, quer na idade adulta), ao longo de um filme muito à Yasujiro Ozu, onde os acontecimentos fluem com enorme humanidade, os planos são magnificamente arquitectados, os cenários interiores criados para servirem a narrativa de forma exímia, parecendo que tudo resulta. "There Was a Father" a par de "Brothers and Sisters of the Toda Family" é um dos poucos filmes do cineasta elaborados durante a II Guerra Mundial, com os valores de lealdade, sentimento de dever, procura de respeitar o papel de cada um na sociedade a estarem presentes, embora não estejamos num filme abertamente político. Ficamos perante uma obra típica de Yasujiro Ozu, onde não faltam as relações familiares, a dissolução da unidade familiar, centrada em elementos de classe média/baixa, as elipses para avançar com a narrativa, com o cineasta a rodear a obra de uma enorme humanidade e delicadeza, embora não descure a espaços algum humor (proporcionado pelo filho mais novo de Hirata). Temos ainda a temática do casamento combinado, muito abordada nas obras de Yasujiro Ozu, algo visível em filmes como "The Equinox Flower", "Late Spring", "Late Autumn", entre outros. Em certa parte, "There Was a Father" remete-nos também para "The Only Son", uma obra de Yasujiro Ozu onde uma mãe sacrificou-se bastante para o seu filho ter a devida educação, algo que conduziu a que ambos se afastassem durante boa parte do crescimento deste. Os sacrifícios de um pai para cuidar do seu filho não são novidade na filmografia de Yasujiro Ozu, nem a delicadeza habitual na abordagem das temáticas por parte deste cineasta magnífico que tem em "There Was a Father" mais uma obra de grande valia.

Título original: "Chichi ariki".
Título em inglês: "There Was a Father".
Título em Portugal: "Ele é Um Pai".
Realizador: Yasujiro Ozu.
Argumento:  Tadao Ikeda, Yasujirō Ozu, Takao Anai.
Elenco: Mitsuko Mito, Chishu Ryu, Shin Saburi.

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