25 julho 2014

Resenha Crítica: "Primavera Tardia" (Banshun)

 A oposição entre a modernidade e a tradição esteve sempre bastante presente nas obras de Yasujiro Ozu no pós-Guerra, algo que é visível em "Primavera Tardia" (Banshun), o filme que marca ainda a primeira colaboração entre o cineasta e a actriz Setsuko Hara naquele que pode ser considerado como o primeiro capítulo da trilogia de Noriko (completa com "Early Summer" e "Tokyo Story"). Nesta contamos com uma jovem adulta solteira, chamada Noriko, interpretada em ambos os filmes por Setsuko Hara, embora as obras não tenham ligação directa, apesar de serem unidas por temáticas como os relacionamentos entre pais e filhos, a modernidade e a tradição, o casamento, a dissolução da unidade familiar, entre outras. Em "Late Spring", Noriko é filha de Somiya (Chishu Ryu), um professor viúvo que gradualmente começa a pensar em casar o seu rebento, algo que não é totalmente do agrado desta. Apesar de ser algo ligada às tradições, uma situação visível no respeito pelo seu pai e na forma como rejeita os segundos casamentos, algo notório quando encontra Jo Onodera (Masao Mishima), um amigo do seu progenitor, e mostra o desprezo pelo viúvo ter contraído matrimónio pela segunda vez, Noriko não deixa de procurar alguma independência, procurando evitar o casamento, vestindo-se de forma ocidentalizada, uma situação quebrada num elemento relevante do último terço. Somiya, interpretado pelo colaborador habitual de Ozu, o sempre credível Chishu Ryu, um actor capaz de transmitir uma calma latente, procura que a filha case, considerando o seu assistente, Hattori (Jun Usami), uma boa escolha, algo impossível visto este já estar comprometido. Masa (Haruko Sugimura), a tia da protagonista, logo procura reunir Noriko com Satake, um indivíduo licenciado que supostamente apresenta algumas semelhanças com Gary Cooper. Noriko rejeita inicialmente a ideia, embora o jovem não a tenha deixado desagrada. Já a possibilidade do pai poder iniciar uma relação com Miwa (Kuniko Miyake), uma viúva que Noriko conhece, não é tanto do agrado da protagonista, algo que se deve a um plano de Somiya para convencer a filha a casar-se, com Yasujiro Ozu a explorar as dinâmicas familiares com a delicadeza e eficácia do costume. Os planos são pensados ao pormenor, os cenários decorados com o rigor habitual (não faltando a presença da chaleira), o vestuário traduz bem as personalidades dos personagens e adequa-se aos mesmos, enquanto somos embrenhados para um universo narrativo tão típico deste cineasta, onde os sentimentos fluem com enorme naturalidade, sem exageros, permitindo criar um enorme envolvimento do espectador com os personagens.

O filme remete ainda para os shomingeki, um género japonês cujas obras cinematográficas abordam questões relacionadas com as famílias de classe média modernas, inserindo-se ainda nas películas de Ozu dos anos 50 e 60. Estas abordam temáticas relacionadas com as famílias de classe média/trabalhadoras, oposição entre modernidade e tradição, questões ligadas com os pais e os filhos, as mudanças culturais e sociais do Japão do pós-Guerra, entre outros. As memórias da Guerra surgem sugeridas pelos personagens, sendo que a presença dos EUA surge presente em mensagens subtis (de forma a escapar à censura) tais como o símbolo da Coca-Cola, enquanto que a oposição entre modernidade e tradição fica bem expressa nesta relação entre um pai e a sua filha. Noriko é uma jovem calma, algo naïve em relação à vida, pouco dada a romances, que procura cuidar do seu pai, cozinhando, tratando da roupa, tomando conta da casa, concentrando no interior da sua pessoa várias contradições. Setsuko Hara atribui uma enorme graciosidade a esta jovem, uma rapariga meiga, pronta a pensar primeiro na família, algo conservadora e de bom coração. Ozu cria uma fascinante relação entre esta e o seu pai, beneficiando da química entre Chishu Ryu e Setsuko Hara, enquanto volta a pontuar a obra de elementos muito típicos dos seus filmes. Não falta a presença dos planos tatami, os pillow shots que dividem as cenas e não contam com a presença humana, os actores a dirigirem-se directamente para a câmara de filmar, as elipses, os planos fixos, para além dos vários elementos já enunciados anteriormente. As elipses permitem a Ozu avançar com a narrativa sem muitas das vezes nos apresentar episódios aparentemente fulcrais, deixando muito pelo poder de sugestão, algo visível quando não nos apresenta o primeiro encontro entre Noriko e Satake, ao mesmo tempo que contrasta essa situação com uma exposição pertinentemente demorada de uma peça do teatro Noh a que a protagonista e o seu pai assistem (numa procura em expor a manutenção das tradições). A própria ideia do casamento arranjado remete para as tradições, com o cineasta a abordar esta temática que remete para o ciclo da vida, com os filhos a cumprirem acções semelhantes aos seus pais e construírem família, mas também para uma certa crítica a este tipo de relacionamentos. Diga-se que o pai pretende casar a filha não tanto por uma obrigação, mas sim para esta não ficar sozinha quando o mesmo falecer, existindo algum receio em relação à familiar, enquanto assistimos a uma temática habitual de algumas obras de Yasujiro Ozu que passa pela dissolução da unidade familiar. 

  Essa dissolução já tinha sido iniciada aquando do falecimento da mãe da protagonista, numa obra que muito tem de Ozu. O cineasta viria a refazer em certa medida "Late Spring" em "O Fim do Outono", uma obra onde tínhamos uma filha que não queria deixar a sua mãe sozinha devido a esta ser viúva. Apesar de apresentarem algumas diferenças entre si, as obras têm vários elementos em comum, tais como a temática do casamento da protagonista, a dificuldade desta em deixar um dos progenitores, a procura dos elementos que rodeiam a personagem principal em casá-la, o espaço urbano, a última viagem da filha com o progenitor(a), os personagens masculinos a conviverem e beberem saqué (os personagens das obras de Ozu dedicam-se por vezes aos prazeres momentâneos), a relação de amizade da protagonista com uma figura feminina da sua idade, entre outros elementos. Temos ainda um Japão entre a modernidade e a tradição, mas também uma ocidentalização do território, visível em pormenores como o sinal da Coca-Cola mas também no café Balboa onde é salientado que é uma casa de "Tea and Coffee", com a designação a surgir em inglês. Esta oposição entre modernidade e tradição surge ainda representada na figura de Aya Kitagawa (Yumeji Tsukioka), a melhor amiga de Noriko, uma jovem divorciada que dá conselhos em relação ao casamento, bebe saqué com o pai da protagonista e a espaços faz-nos recordar a vivaz personagem interpretada por Mariko Okada em "Late Autumn". "Late Spring" marca ainda mais uma das obras cinematográficas de Yasujiro Ozu em que este se rodeia de vários elementos do elenco que participaram e/ou vão participar em várias das suas películas ao longo da carreira, uma situação visível em elementos como Chishu Ryu, Haruko Sugimura, Setsuko Hara, entre outros elementos que são capazes de expor na perfeição a sobriedade que o cineasta pretende incutir nos personagens dos seus filmes. Tudo parece natural, mas existe um enorme trabalho de Ozu, seja a controlar os ímpetos dos actores, seja a dispô-los nos cenários (por vezes quase sincronizados), seja a ritmar a narrativa, entre outros exemplos. Em "Late Spring", Yasujiro Ozu volta a colocar-nos perante uma obra marcada por alguma poesia em movimento e a delicadeza a que nos habituou a apresentar os relacionamentos humanos, naquele que é um dos seus filmes mais marcantes e reconhecidos.

Sem comentários: