26 julho 2014

Resenha Crítica: "The Munekata Sisters" (Munekata kyôdai)

 Existe uma certa melancolia e delicadeza a rodear "The Munekata Sisters", um filme realizado por Yasujiro Ozu, lançado originalmente em 1950, tendo como base uma obra literária de Osaragi Jiro, lançada em capítulos no jornal "Asahi Shinbun", onde o cineasta nos volta a colocar perante as intrincadas relações familiares. Desta vez o centro da narrativa está em Setsuko (Kinuyo Tanaka) e Mariko (Hideko Takamine), as irmãs Munekata do título. Setsuko é uma mulher ligada às tradições, casada com Mimura (Sô Yamamura), um engenheiro desempregado, que a trata de forma fria e pouco adequada. Esta procura manter o casamento a todo o custo, trabalhando no bar Acacia, enquanto se preocupa pelas contas da casa não andarem nada famosas e o pai (Chishû Ryû, um dos colaboradores habituais de Ozu) estar doente. Mariko é irreverente, tem o vício de deitar a língua de fora, veste-se de forma moderna e ocidental (ao contrário da irmã que utiliza o quimono), fuma, bebe, apresenta alguma inocência juvenil e conta com um conjunto de valores já associados ao Japão do pós-Guerra. Nos filmes de Yasujiro Ozu encontramos muitas das vezes esta manutenção das tradições e das regras em contraste com a modernidade e um desafiar do passado, algo que não é diferente em "The Munekata Sisters", com o cineasta a expor esta situação através destas duas irmãs. Temos também presentes outro elementos das obras de Ozu, não faltando os célebres "pillow shots" onde não contamos com a presença humana e o cineasta aproveita para dividir as sequências, mas também os planos magnificamente compostos, os cenários preparados ao pormenor e as interpretações marcadas por uma enorme sobriedade. Ozu coloca ainda de forma amiúde os actores e actrizes virados para a câmara, quase que se dirigindo a nós, tornando-nos cúmplices e intervenientes da narrativa, enquanto nos deixa perante estas duas mulheres. O quotidiano das irmãs Munekata é alterado com a chegada de Hiroshi, um indivíduo que esteve prestes a casar-se com Setsuko no passado, embora tenha partido para França e nada se tenha concretizado. Estes ainda nutrem sentimentos um pelo outro, apesar de Setsuko respeitar os valores do casamento. Hiroshi vive em Kobe, colecciona arte, vende mobiliário e apresenta uma enorme afabilidade. Já Mariko forma uma estranha relação de proximidade com Hiroshi, mostrando interesse neste, embora prefira que a irmã se divorcie e fique com o amado do passado.

Kinuyo Tanaka atribui uma candura enorme, mesclada com uma certa dor pelo seu casamento já ter conhecido melhores dias e o marido encontrar-se desempregado, a Setsuko, uma mulher muito ligada às tradições e aos valores familiares. O reencontro com Hiroshi traz um recordar dos tempos de outrora, mas também a noção que o presente não pode ser evitado, sendo um pouco como o Japão que nos é apresentado, ainda apegado ao passado mas pronto a olhar para o presente e a seguir em frente. Por sua vez, Hideko Takamine concede uma deliciosa rebeldia à sua Mariko, com esta a não ter problemas em desafiar as convenções, embora até se insira gradualmente nas mesmas, representando os valores supostamente idealizados deste Japão do pós-Guerra. Esta é a típica personagem de Ozu, que balança entre a modernidade e a tradição, com o cineasta a abordar mais uma vez com enorme delicadeza as questões familiares. Desta vez temos uma relação de grande amizade e proximidade entre duas irmãs, marcada por algumas desilusões e alegrias, ao longo de um enredo simples, que se desenvolve a um ritmo muito próprio de Yasujiro Ozu, com este a dar atenção a todos os pormenores. Os planos são bem arquitectados, os cenários organizados e apresentados ao serviço da narrativa (veja-se o bar de Setsuko, mas também os cenários externos, com Ozu a aproveitar algumas das distinções de Tóquio e Quioto, com a primeira a ser associada aos bares, desemprego e modernidade, enquanto que a segunda é associada aos templos e tradição, um território onde vive o pai das irmãs do título), enquanto os gestos dos actores surgem expostos com enorme graciosidade. Temos também uma abordagem subtil às mudanças no Japão, visível na personalidade de Mariko, mas também no desemprego de Mimura, ao longo de uma narrativa linear, aparentemente simples, mas explorada como apenas Yasujiro Ozu consegue e demonstra em "The Munekata Sisters". Este é também um dos poucos filmes de Ozu que não foi produzido pela Shochiku, com o cineasta a colaborar com a Shintoho, uma produtora inaugurada em 1947, que procurou contratar alguns cineastas de prestígio (entre os quais Mikio Naruse), embora não tenha dado as liberdades a que o realizador estava habituado (em particular na escolha da história e de alguns elementos do elenco), uma situação que não o impediu de realizar uma obra bastante recomendável. É filme belo e sublime, dos mais subvalorizados de Yasujiro Ozu mas nem por isso obra menor, se é que em Ozu existem películas que podem ser consideradas menores. Este apresenta um estilo muito próprio, refinado com o passar do tempo, com os seus filmes a terem nas questões familiares temáticas algo transversalmente em comum. Neste caso temos duas irmãs, mas também o pai de ambas, o marido de Setsuko e Hiroshi, com este último a ser cobiçado por Yoriko, uma amiga e colega de trabalho. Não se pode falar em triângulo amoroso per se com a chegada de Hiroshi, mas sim uma melancolia por um amor não vivido, com "The Munekata Sisters" a raramente cair no melodrama e nos sentimentos exagerados. Belo e delicado, "The Munekata Sisters" é simplesmente Yasujiro Ozu, ou seja, sublime.

Título em inglês: "The Munekata Sisters".
Título original: "Munekata kyôdai".
Realizador: Yasujiro Ozu. 
Argumento: Kogo Noda e Yasujiro Ozu.
Elenco: Kinuyo Tanaka, Hideko Takamine, Ken Uehara, Chishu Ryu.

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