29 julho 2014

Resenha Crítica: "Kansas City Confidential" (1952)

 Marcado por identidades trocadas, violência, personagens imorais, crimes elaborados e algumas reviravoltas, "Kansas City Confidential" coloca-nos inicialmente perante um assalto a um banco que resulta num encaixe de um milhão de dólares para os criminosos. O golpe é preparado meticulosamente por Tim Foster (Preston Foster), um antigo polícia que reúne Peter Harris (Jack Elam), Tony Romano (Lee Van Cleef) e Boyd Kane (Neville Brand), três criminosos que são obrigados a agir com uma máscara de forma a não se reconhecerem, recebendo cada um o pedaço de uma carta rasgada de forma a revelarem a identidade quando se juntarem algum tempo depois para receberem a respectiva parte do furto. Tim também utiliza uma máscara nas reuniões com os seus subordinados, planeando roubar o dinheiro de um banco no momento em que as divisas se encontravam prestes a ser transportadas para um carro blindado. Estes utilizam um carro semelhante ao meio de transporte de uma empresa de venda de flores, tendo em vista a incriminarem temporariamente o funcionário da mesma e poderem ter tempo de preparar a fuga. Peter, Tony, Boyd e o líder do grupo separam-se, acabando pelo caminho por incriminar Joe Rolfe (John Payne), um indivíduo que outrora fora detido devido a problemas com o jogo, que se encontrava a trabalhar na distribuição de flores. Alvo de agressões por parte da polícia, até ser provada a sua inocência, Joe vê-se no desemprego e com a honra minada, procurando descobrir quem o incriminou, contando para isso com um antigo colega do exército que consegue uma fonte capaz de o conduzir a Peter Harris. No México, Joe contacta com Peter, até este ser morto pela polícia, com o protagonista a assumir a sua identidade, viajando até Borados, um resort fictício, onde se encontram Tony e Boyd, bem como Tim Foster, embora a dupla desconheça que este último é o seu líder. Apesar de ter sido um agente da autoridade, Tim parece ser pouco dado ao cumprimento da lei, tendo a capacidade de orquestrar todo este intrincado golpe de forma a entregar o trio à polícia e receber uma avultada recompensa. No local, Joe contacta gradualmente com Tony, Boyd e Tim, iniciando uma relação que promete ser mais do que de amizade com a filha deste último, enquanto coloca a sua vida em perigo neste território paradisíaco que está longe de significar um período de férias para o protagonista. As identidades trocadas são bastante comuns nos filmes noir, algo que volta a acontecer com "Kansas City Confidential", com esta obra cinematográfica realizada por Phil Karlson a não fugir a essa situação, não faltando vários elementos deste subgénero e dos filmes de assalto e vingança. O assalto é cumprido com engenho, após um plano bem elaborado que permite explorar as falhas de segurança do banco, embora os objectivos do elemento que orquestrou o crime apenas sejam verdadeiramente conhecidos com o avançar do enredo, com o personagem interpretado por Preston Foster a contar com vários segredos por revelar. Nesse sentido, "Kansas City Confidential" é um filme capaz de fazer sobressair alguns dos elementos secundários, visto que o argumento procura dar alguma atenção aos mesmos e estabelecer as suas personalidades, enquanto nos deixa perante a procura do protagonista em vingar-se e ficar com parte do dinheiro do assalto.

 John Payne atribui alguma credibilidade à procura do seu personagem em descobrir os assaltantes ligados ao crime pelo qual foi injustamente acusado, surgindo como um elemento duro, algo cínico, perspicaz, com uma relação algo complicada com a principal personagem feminina, bem ao estilo dos protagonistas noir. Também Lee Van Cleef tem espaço para sobressair, ao interpretar um criminoso mulherengo e violento, enquanto Neville Brand fica como o elemento menos em destaque, embora o seu personagem seja conhecido por não ter problemas em eliminar aqueles que se colocam no seu caminho. Já Jack Elam destaca-se como Peter, um criminoso fumador, dado ao vício pelo jogo, sobressaindo quando se encontra com o arquitecto do golpe no início do filme, procurando descobrir quem se encontra por detrás da máscara, mas também quando encontra Joe no México, onde o protagonista exibe a sua procura em descobrir o perpetuador do assalto. É um universo narrativo marcado por criminosos, ex-presidiários, ex-polícias corruptos, mortes e imoralidade, numa obra onde o destino da maioria dos personagens é incerto e as autoridades tardam em se conseguir impor. Phil Karlson revela-se bastante competente a ritmar o filme, realizando um filme negro onde constam vários elementos deste subgénero, incluindo uma boa utilização do jogo entre a luz e as sombras, as identidades trocadas, o espaço citadino marcado pelo crime, o clube nocturno (veja-se quando Joe se encontra no México a procurar por Peter num estabelecimento de jogo ilegal, com ambos a partilharem o vício pela jogatana), um protagonista pragmático, a violência, entre outros exemplos. Temos ainda um esboçar de um possível romance entre Joe e Helen (Coleen Gray), uma estudante de advocacia que não se parece assustar em relação aos mistérios que envolvem o protagonista, algo que desagrada e muito a Tim Foster, pelo menos até ao último terço do filme. Foster é um dos personagens mais interessantes e complexos do filme, arquitectando muito do que acontece ao longo da obra cinematográfica, exibindo uma aura de confiança junto da filha e dos ex-colegas, embora os seus objectivos não sejam os melhores. Percebemos que existe um pouco de ressentimento a envolver os seus gestos, enquanto este personagem exibe uma faceta nem sempre agradável neste filme noir relativamente pouco popular em relação a várias películas deste subgénero. Esta foi a primeira e última obra cinematográfica da Associated Players and Producers, a empresa de produção de Edward Small, o produtor do filme, com "Kansas City Confidential" a surgir como o primeiro filme de uma franquia que conta ainda com "New York Confidential" e "Chicago Confidential". Embora esteja longe de ser um dos filmes noir mais originais ou memoráveis, "Kansas City Confidential" facilmente nos embrenha para o seu enredo marcado por alguma violência, crime, personagens interessantes de acompanhar e alguns planos que ficam na memória devido ao notório cuidado na sua composição.

Título original: "Kansas City Confidential".
Realizador: Phil Karlson.
Argumento: George Bruce e Harry Essex.
Elenco: John Payne, Coleen Gray, Preston Foster, Neville Brand, Lee Van Cleef.

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