24 julho 2014

Resenha Crítica: "Brothers and Sisters of the Toda Family" (Todake no kyodai)

 A unidade familiar e a sua possível dissolução são temáticas muito presentes nos filmes de Yasujiro Ozu. Em "Brothers and Sisters of the Toda Family" assistimos a uma família destroçada pela perda do seu patriarca, após o 69º aniversário deste. Os momentos iniciais do filme são de alguma felicidade, marcados pela preparação da fotografia que reúne vários familiares, algumas conversas de circunstância, planos tatami "à moda de Ozu" para expor os personagens, até sermos confrontados com a notícia da morte de Shintaro Toda (Hideo Fujino), após sofrer um ataque cardíaco. Pouco tempo depois do funeral, Shinichiro (Tatsuo Saito), o filho mais velho, anuncia que o pai, um indivíduo respeitável junto da banca, contraiu diversas dívidas para manter a empresa que possuía, sendo necessário vender boa parte dos bens para saldar alguns dos valores em atraso, uma situação que vai transtornar particularmente a esposa de Shintaro, a Srª Toda (Ayako Katsuragi) e a filha mais nova, Setsuko (Mieko Takamino). Quem está de regresso a casa, embora de forma temporária, é Shojiro (Shin Saburi, um dos colaboradores habituais de Ozu), o segundo filho de Shintaro, um indivíduo que se encontrava em Osaka e parte pouco tempo depois para Tianjin (na altura um território chinês ocupado pelos japoneses durante a II Guerra Sino-Japonesa), tendo em vista a dar um rumo estável à sua vida, tendo durante muito tempo preocupado e desiludido o progenitor. Setsuko (Mieko Takamino) iria casar, mas o noivo logo a abandonou após a morte do pai desta, indo viver com a sua mãe e a empregada para casa de Shinchiro e a mulher deste, Kazuko (Kuniko Miyake). Na casa encontra-se ainda o filho de Shinchiro com Kazuko, com quem a mãe do primeiro até forma uma relação de afinidade, embora logo surjam os problemas, com Setsuko e a progenitora a terem dificuldades em relacionar-se com a personagem interpretada por Kuniko Miyake, gerando-se uma situação desconfortável, enquanto Yasujiro Ozu vai construindo uma delicada abordagem a esta complexa e numerosa unidade familiar. Todos estão unidos por laços de sangue, mas poucos se parecem dar verdadeiramente bem, enquanto "Brothers and Sisters of the Toda Family" mostra paradigmaticamente que a vida em família nem sempre é fácil de manter de forma pacífica, deixando-nos perante uma sociedade entre a manutenção dos valores familiares e o desafiar dos mesmos, tudo acompanhado por planos eficazmente compostos por Yasujiro Ozu e interpretações de excelente nível.  

As figuras femininas são quem mais se destacam ao longo do filme, com "Brothers and Sisters of Toda Family" a colocar em destaque sobretudo Setsuko e a sua mãe. Setsuko nunca foi habituada a trabalhar, tendo sido mimada e vivido com todas as condições, encontrando-se numa situação nova, algo que a inquieta, sobretudo quando entre em choque com Kazuko, com esta última a mostrar-se pouco disponível para ter a viúva e a personagem interpretada por Mieko Takamino na sua casa. Mieko Takamino é o nome que mais sobressai no elenco, com Ozu a focar muitas das vezes a câmara no rosto dos seus actores e actrizes, permitindo expressarem-se paradigmaticamente junto de nós, quase que nos fitando directamente, algo que contribui ainda mais para esta actriz sobressair como a frágil Setsuko. Esta iria casar-se, um acto visto por alguns personagens do filme como símbolo de estabilidade (representando os valores tradicionais), embora esta situação não se tenha concretizado, vendo-se numa situação distinta da sua vida, muito marcada pela incerteza. Por sua vez, Ayako Katsuragi evidencia paradigmaticamente o cansaço da sua personagem perante este conjunto de novas situações após o falecimento do esposo, procurando manter a calma e a união com a sua filha, enquanto são colocadas de lado na casa de Shinchiro e da esposa. A chegada a casa de Shinchiro deve-se supostamente a um respeito deste em relação aos valores familiares, embora esteja presente uma enorme hipocrisia (veja-se que Shinchiro praticamente não aparece junto da mãe e da irmã) com o filme a procurar expor e explorar o quão complexa é a vida em família, com o sangue a unir embora as personalidades sejam muitas das vezes antagónicas. Essa situação é novamente visível quando Setsuko e a sua mãe se mudam (acompanhadas pelo seu pássaro) para a casa de Chizuko (Mitsuko Yoshikawa), irmã da primeira e filha da segunda, com a mudança a também não correr da melhor forma, algo que conduz a progenitora e o seu rebento a decidirem viver na propriedade deixada pelo marido, um dos poucos bens que não foram alienados para pagar dívidas, tendo em vista a evitarem mais problemas familiares (e não chatearem Ayako, outra das filhas de Shintaro e a Srª Toda). Tudo é abordado de forma delicada, com Yasujiro Ozu a dar tempo para desenvolver as personalidades das personagens principais, tudo a um ritmo muito próprio, notando-se um cuidado na composição dos planos e até na conjugação dos cenários e os personagens (incluindo o guarda-roupa). Veja-se a presença de Setsuko e a mãe na cozinha tendo em vista a não surgirem diante das convidadas de Kazuko devido a esta ter pedido para as primeiras saírem de casa enquanto as amigas ali estivessem, com o espaço a surgir como uma forma de mostrar o quão à parte estas se encontram no interior deste lar. 

Conhecido por representar muitas das vezes famílias de classe média, Ozu apresenta-nos em "Brothers and Sisters of the Toda Familly" uma unidade familiar de classe alta mas em decadência, ao mesmo tempo que expõe alguma propaganda subtil em relação ao Japão imperial (o território de Tianjin como japonês, embora e curiosamente este seja representado como o meio ideal para os japoneses poderem viver sem as hipocrisias da sua sociedade). O cineasta contrasta ainda o tradicionalismo de Setsuko com a procura de Shojiro em surgir mais ligado à modernidade, mas também a fragilidade desta mulher em relação à sua melhor amiga. A amiga era filha de um funcionário, trabalhando para se sustentar, parecendo quase o símbolo de um Japão mais desembaraçado e pronto a enfrentar os novos desafios, um pouco como Shojiro, o filho rebelde do falecido (veja-se ainda a distinção entre o guarda-roupa de Setsuko e a amiga, com a primeira a utilizar as vestes tradicionais e a segunda a utilizar roupas ocidentais). A possibilidade de Setsuko trabalhar desagrada desde logo a Chizuko, que vê nesta situação uma possível humilhação, com esta mulher a expor a decadência de valores e conservadorismo de alguns elementos desta família outrora de classe alta, cujos valores diferem e muito da simplicidade de Shojiro. Diga-se que Shojiro era o filho problemático, mas ao longo do filme, e tal como todos os personagens, embora nem todos sejam bem sucedidos nesse quesito, procura fazer aquilo que está certo, em particular defender a união familiar e despojá-la da hipocrisia. Quem também só parece conseguir fazer o que está certo e errar muito pouco é Ozu, que nos volta a brindar com uma interessante obra cinematográfica, onde não faltam os seus planos tatami e os pillow shots (veja-se os chapéus, relógio, etc), colocando-nos perante uma família a lidar com uma nova realidade difícil de enfrentar. Esta é a primeira de duas obras cinematográficas que Yasujiro Ozu realizou em tempos de guerra, embora o conflito não seja directamente sugerido, com o cineasta a estar acima de tudo preocupado em explorar as intrincadas relações familiares. As mulheres sobressaem ao longo do filme, bem como a abordagem delicada em relação à família e aos valores familiares, com Yasujiro Ozu a sobressair mais uma vez pela delicadeza e humanidade que atribui aos seus filmes.

Título original: Todake no kyodai.
Título em inglês: "Brothers and Sisters of the Toda Family".
Realizador: Yasujiro Ozu.
Argumento: Tadao Ikeda e Yasujiro Ozu.
Elenco: Mieko Takamine, Shin Saburi, Hideo Fujino, Ayako Katsuragi.

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