28 julho 2014

Resenha Crítica: "Black Angel" (1946)

 O assassinato de Mavis Marlowe (Constance Dowling a interpretar uma personagem que partilha o apelido com o célebre detective criado por Raymond Chandler) no início da narrativa de "Black Angel" promete mexer e muito com o quotidiano de Kirk (John Phillips) e Catherine Bennett (June Vincent), mas também de Martin (Dan Duryea), o marido da personagem interpretada por Constance Dowling. Kirk, o amante de Mavis e esposo de Catherine, é visto no local do crime, sendo detido pelas autoridades e condenado à morte em tribunal. Catherine não se conforma com esta situação, acreditando na inocência do esposo, apesar da traição deste, procurando a ajuda de Martin. Este é um compositor e pianista, dado a consumir álcool em excesso, que se embriagara na noite do crime após ter visto Mavis rejeitar a sua entrada no seu apartamento. Kirk entrou na habitação de Mavis algum tempo depois da expulsão de Martin, encontrando o cadáver da cantora e uma arma junto ao corpo da mesma. O personagem interpretado por John Phillips encontrou ainda um broche em forma de coração, um objecto que desaparecera enquanto este ainda se encontrava na casa de Mavis. Catherine procura a todo o custo encontrar o broche, um objecto essencial para descobrir a identidade do assassino e ilibar Kirk, tendo em Martin um aliado inesperado. As pistas reunidas por Catherine e Martin conduzem a dupla ao Rio's e a desconfiar de Marko (Peter Lorre), o dono do clube nocturno, um indivíduo que o personagem interpretado por Dan Duryea encontrara a subir para a habitação de Mavis na noite do crime. Nesse sentido, Catherine e Martin concorrem para dar espectáculos no Rio's de forma a infiltrarem-se no local, com a primeira a cantar e o segundo a tocar piano, enquanto procuram reunir provas para conseguirem expor a inocência de Kirk junto das autoridades, representadas sobretudo a partir da figura do Capitão Flood (Broderick Crawford). Estamos perante um filme noir até ao tutano, marcado por muitos dos elementos transversais a este subgénero cinematográfico. Não faltam as identidades trocadas, uma espécie de sonho exposto com as imagens em movimento distorcidas, a utilização de um assertivo jogo de luz e sombras, os personagens de carácter dúbio, o espaço citadino associado à insegurança e ao crime, o clube nocturno, a tensão sexual entre a dupla de protagonistas, entre vários outros elementos (aos quais podemos juntar ser uma adaptação de uma obra literária, no caso o livro homónimo de Cornell Woolrich). O elenco do filme sobressai pela positiva, com Dan Duryea a surgir sublime ao longo de "Black Angel", cabendo ao seu personagem a descrição do título. Martin deixa-nos durante muito tempo com algumas dúvidas em relação ao seu carácter, embora inicialmente nos convença da sua inocência e do interesse em Catherine, apesar dos "ataques" quando bebe em excesso. Catherine é interpretada com acerto por June Vincent, com a actriz a destacar-se como esta mulher traída que procura salvar o esposo, encantando com a sua voz no clube nocturno, incluindo o personagem interpretado por Peter Lorre, um actor que se volta a destacar como personagem secundário, dando vida a um elemento que guarda alguns segredos negros e apresenta uma malícia que facilmente nos agrada. Por vezes parece que se desenha um estranho romance entre Martin e Catherine, mas "Black Angel" logo nos faz questão de salientar que estamos perante uma atmosfera negra, onde aparentemente nada nem ninguém pode ser considerado verdadeiramente inocente. Marcado por algumas reviravoltas, um ritmo frenético, boas interpretações, uma banda sonora paradigmaticamente utilizada ao serviço do enredo e uma realização acertada de Roy William Neill, "Black Angel" surge como um filme noir bastante recomendável que facilmente merecia receber mais atenção.

Título original: "Black Angel".
Título em Portugal: "O Anjo Negro".
Realizador: Roy William Neill.
Argumento: Roy Chanslor.
Elenco: Dan Duryea, June Vincent, Peter Lorre, Broderick Crawford.

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