30 julho 2014

Resenha Crítica: "Angel Face" (1952)

 Otto Preminger volta a interessar-se em explorar a psicologia dos seus protagonistas em "Angel Face", um filme noir composto por personagens maioritariamente imorais, cujos objectivos nem sempre são claros e os sentimentos raramente são os mais apolíneos. Não faltam traições, mortes, desejo sexual, algum erotismo, síndromas edipianos, alguma imoralidade e tensão ao longo desta obra onde Robert Mitchum volta a evidenciar que sabe como poucos interpretar personagens de estilo duro, aparentemente impassíveis e pouco dados a grandes falas. Por vezes parece fazer recordar-nos as magníficas colaborações de Preminger com Dana Andrews, também este último um elemento capaz de atribuir enorme carisma aos seus personagens pragmáticos, com Robert Mitchum a sobressair pela positiva num elenco onde conta ainda com uma companheira de elenco à altura, Jean Simmons. Esta atribui uma aparente fragilidade a Diane Tremayne, embora não esconda os desequilíbrios emocionais desta mulher, uma jovem manipuladora, que utiliza a sua beleza para atrair os homens mas raramente consegue despertar a nossa confiança. Esta odeia a sua madrasta, venera o seu pai e cria uma obsessão por Frank (Robert Mitchum), um indivíduo que conhece nos momentos iniciais do filme. Os close-ups surgem certeiros, conseguindo adensar os sentimentos que Jean Simmons emana a interpretar esta personagem marcada pelos desejos menos aprazíveis em relação à sua madrasta, ao mesmo tempo que fazem sobressair o olhar aparentemente impassível de Frank. No início de "Angel Face", encontramos Frank e Bill (Kenneth Tobey), dois condutores de ambulâncias, a chegarem à mansão dos Tremayne, um local para onde foram chamados devido a Catherine (Barbara O'Neill) ter ficado trancada no quarto com o gás aberto, algo que poderia ter causado a morte desta mulher. Esta é casada com Charles Tremayne (Herbert Marshall), um escritor em crise de criatividade, sendo a madrasta da protagonista, uma jovem que entra num ataque de nervos que apenas é travado quando Frank a esbofeteia e esta responde da mesma forma. Após sair do local, Frank é seguido até um café por Diane, com esta a procurar seduzir o mesmo com a sua conversa, interessando-se pela ideia do mesmo em construir uma oficina para carros de competição. Frank tem uma relação com Mary (Mona Freeman), um enfermeira que apenas pretende ter uma relação estável, algo que parece impossível com o protagonista. Este cancela o jantar com Mary, saindo com Diane, com esta a expressar o seu desagrado para com a madrasta e a proximidade para com o seu pai. No dia seguinte, Diane encontra-se com Mary, revelando o encontro com Frank, algo que desagrada a esta última, sobretudo quando o personagem interpretado por Robert Mitchum mente sobre a sua companhia nessa noite. Enquanto isso, Bill, um suposto amigo de Frank, começa a relacionar-se com Mary, enquanto o protagonista acaba por ser contratado como motorista dos Tremayne, um local luxuoso onde começa a viver.

 Na casa dos Tremayne, Frank mantém uma relação às escondidas com Diane, enquanto esta continua a revelar alguma da sua instabilidade emocional, sobretudo quando provoca um acidente que conduz à morte do pai e da madrasta. Frank acaba também por ser afectado por este gesto, apesar de ser inocente e não ter conhecimento de que Diane iria cometer este hediondo acto, embora esta situação não implique que este seja um personagem completamente livre dos seus pecados. Este trai a namorada, procura recuperar a relação como se nada fosse, inicia um romance com Diane mas apenas parece ser algo temporário marcado pelo desejo de cariz sexual, despreza o amigo e a antiga profissão, percebe imenso de carros mas tarda em compreender aqueles que o rodeiam. Otto Preminger explora de forma sublime a relação tempestuosa entre Diane e Frank, expondo-nos a duas figuras problemáticas, marcadas pelo desejo mútuo de cariz sexual, embora pouco pareçam ter em comum. Ou se calhar até têm muito em comum, ou não estivéssemos perante dois personagens que pensam acima de tudo no seu bem estar e em satisfazerem os seus desejos. Diane tem uma relação de enorme proximidade com o pai, sentindo enormes ciúmes de Catherine, procurando manipular tudo e todos à sua volta. Tem alguma dificuldade em manipular Mary, embora contribua para o final da relação desta com Frank, enquanto Otto Preminger cria uma atmosfera inebriante em volta destes personagens. A mansão dos Tremayne é um local marcado pelo luxo, espaçosa, com a presença de um casal de asiáticos como funcionários, surgindo como um cenário que poderá permitir a Frank concretizar os seus sonhos ou sufocá-los ainda mais, numa obra onde as sombras surgem muito presentes, contribuindo para este clima negro que rodeia o enredo. A certa altura de "Angel Face" ficamos perante elementos de filmes de tribunal, com Frank e Diane a estarem na linha de fogo, com Otto Preminger a deixar o futuro destes personagens em risco, brindando-nos ainda com um marcante e surpreendente final. Preminger contribui para Robert Mitchum e Jane Simmons terem duas interpretações de enorme nível, embora conste que o ambiente entre estes dois últimos e o cineasta não fosse o melhor, algo que em nada prejudicou a obra. O resultado final é uma obra cinematográfica marcada por personagens algo cínicos, típicos deste ambiente de pós-guerra, num filme negro onde os sentimentos estão longe de serem os mais aprazíveis, com uma mulher a procurar manipular tudo e todos, escondendo na sua "cara de anjo" uma malícia deveras perigosa. 

Diane é uma manipuladora que deseja a morte da madrasta e pretende ter a companhia de Frank, procurando conduzir este consigo para um abismo do qual dificilmente este parece ser capaz de escapar. A contrastar com a femme fatale interpretada por Jean Simmons temos Mary, outra das personagens femininas em destaque. Mary parece dar a segurança a Frank que este não pretende, relacionando-se com a mesma como se esta estivesse sempre à sua disposição. Esta acaba por ficar entre Frank e Bill, um amigo do primeiro, com o filme a explorar também a facilidade que este tem em trair o amigo. Diga-se que o personagem interpretado por Robert Mitchum também não parece ser capaz de gerar grandes amizades, apresentando uma personalidade propensa à solidão, com os seus sentimentos a raramente serem expostos. Deseja Diane, parece amar Mary, mas não parece disposto a prender-se a ambas, com a entrada na casa dos Tremayne a surgir como um passo para a sua perdição. Por sua vez, Otto Preminger realiza uma obra que dificilmente consegue escapar ao olhar cinéfilo, marcada pela atmosfera negra que rodeia os protagonistas, onde o desejo, a traição, a morte e a cobiça surgem muito presentes, enquanto o cineasta se revela exímio a explorar a psicologia dos seus personagens e a explorar os cenários que os envolvem. Veja-se quando coloca os personagens interpretados por Jean Simmons e Robert Mitchum isolados, no quarto deste, encobertos pelas sombras e parca iluminação, mas também nos surpreendentes momentos finais onde estes ficam literalmente perante o abismo. "Angel Face" surge assim como um dos grandes filmes negros e uma das várias obras cinematográficas muito recomendáveis de Otto Preminger. 

Título original: "Angel Face". 
Título em Portugal: "Vidas Inquietas".
Realizador: Otto Preminger. 
Argumento: Ben Hecht, Oscar Millard, Frank S. Nugent.
Elenco: Robert Mitchum, Jean Simmons, Mona Freeman, Herbert Marshall.

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