11 junho 2014

Resenha Crítica: "While the City Sleeps" (1956)

 As sombras envolvem os cenários nocturnos e diurnos de "While the City Sleeps", um filme noir realizado por Fritz Lang onde este nos deixa perante um grupo de jornalistas em busca de um assassino que asfixiou uma mulher no início da narrativa. Posteriormente descobrimos que este já tinha cometido outros crimes, incluindo assassinar outra jovem mulher, algo que vai conduzir o jornalista Edward Mobley (Dana Andrews) a procurar a todo o custo descobrir a sua identidade, ao mesmo tempo que na sua redacção se encontra a decorrer uma disputa de poder entre o editor do Jon Day Griffith (Thomas Mitchell), o responsável pela agência de notícias Mark Loving (George Sanders) e o responsável pela agência fotográfica Harry Kritzer (James Craig), pelo cargo de director executivo do Kyne Inc. Este alvoroço é provocado pela chegada de Walter Kyne (Vincent Price) à liderança do Kyne Inc., após a morte do pai, Amos Kyne (Robert Warwick), com o primeiro a saber muito pouco do funcionamento do conglomerado ligado aos media, criando uma disputa de poder entre os três elementos-chave de cada secção, algo que vai colocar a empresa num constante alvoroço. Nesse sentido, Jon e Mark procuram arregimentar aliados no interior do jornal New York Sentinel, enquanto que Harry tem na esposa de Walter um elemento de peso a seu favor, embora este último não desconfie que o seu funcionário tem um caso com Dorothy Kyne (Rhonda Fleming). Mark procura o apoio de Mildred Donner (Ida Lupino), uma mulher que trata das notícias ligadas com as celebridades e afins (ou seja, cor de rosa), enquanto que Jon tenta que Edward, o apresentador do jornal televisivo do grupo, regresse à parte da investigação criminal e o ajude a chegar ao almejado cargo. Edward inicialmente reluta, mas acaba por ceder e envolver-se no caso, contando com a ajuda de Kaufman, um elemento no interior da polícia com quem troca informações e hipóteses sobre a acção do assassino. O foco da narrativa centra-se muitas das vezes em Edward, com este a procurar provocar Robert Manners (John Barrymore Jr.), também conhecido como o "assassino do batom", um indivíduo psicótico e pronto a atacar jovens e belas mulheres, algo que conduz o protagonista a utilizar Nancy Liggett (Sally Forrest),  a sua noiva, como isco (diga-se que os homens não vão ter problemas em utilizar as mulheres para a obtenção dos seus propósitos ao longo do enredo, embora estas também sejam capazes de lhes trocar as voltas). Na redacção o ambiente é frenético, não faltando traições, alianças, reviravoltas, enquanto a investigação de Edward não é menos movimentada, com este a ter de encontrar o criminoso, colaborar com a polícia, manter a sua integridade, embora os seus valores nem sempre sejam os ideais. Este trai a noiva, embebeda-se, tem discursos nem sempre politicamente correctos, embora seja o elemento mais interessado na investigação ao longo de uma obra tipicamente noir, realizada com a mestria habitual de Fritz Lang.

A atmosfera é tensa, marcada por algum cinismo, machismo, imoralidade e morte, com a cidade de Nova Iorque a ser palco de enorme insegurança. Estes são elementos típicos das obras noir, com Dana Andrews a ser um intérprete sublime para o típico protagonista destes filmes. Algo cínico, perspicaz, capaz de seduzir e se deixar seduzir, pronto a embrenhar-se pelos meandros menos claros da sociedade e a colaborar com as forças da lei, Edward é um jornalista intrépido, vencedor de um Pulitzer, que não tem problemas em desafiar um assassino e até em colocar-se no seu lugar, procurando seguir o seu modo de pensar para o encontrar. Andrews já tinha contado com papéis de relevo em várias obras deste subgénero, tais como "Laura", "Fallen Angel", "Where the Sidewalk Ends", tendo em "While the City Sleeps" mais um exemplar de bom nível da sua carreira, contando com um elenco de luxo a acompanhá-lo. Veja-se desde logo Ida Lupino como a sedutora e cínica Mildred, mas também John Drew Barrymore como o psicótico assassino com problemas do foro mental (e uma estranha relação com a mãe), para além de Thomas Mitchell como o editor que procura a todo o custo chegar ao topo, formando uma sólida amizade com o protagonista. Vale ainda a pena realçar James Craig como o elemento que procura subir na carreira através da amizade com Walter e o envolvimento com a esposa deste último, para além de George Sanders (mais uma vez como um indivíduo aparentemente educado e refinado mas pronto a cometer actos traiçoeiros), com Fritz Lang a colocar-nos perante um grupo alargado de personagens, beneficiando de um argumento capaz de desenvolver os vários elementos que povoam o enredo e permitir ao elenco sobressair. Lang atribui ao enredo uma atmosfera inquietante, explorando as sombras e os cenários nocturnos, ao mesmo tempo que nos deixa perante uma redacção em polvorosa e uma investigação perigosa. O ambiente da redacção é exposto com grande fulgor, com "While the City Sleeps" a transportar-nos para outros tempos do jornalismo, onde os jornais tinham tiragens de última hora, mais do que uma edição diária e um papel a nível informativo que hoje não conseguem ter, algo exposto na atmosfera fervilhante desta publicação de Nova Iorque, onde os seus elementos parecem dispostos a quase tudo para conseguirem alcançar os seus intentos (existe aqui uma crítica à falta de ética de alguns elementos ligados a esta actividade). Esta cidade de Nova Iorque que nos é apresentada é insegura, típica de um certo pessimismo deste pós-Guerra, com Fritz Lang a aproveitar não só os espaços exteriores deste espaço citadino mas também os interiores. Veja-se desde logo o interior do edifício onde se encontram as três secções em disputa, marcado por gentes ambiciosas e divisórias adornadas com vidros salientes que exibem os corpos que circulam mas não o que vai no interior das suas almas, mas também quando o assassino tenta arrombar a porta da casa de Nancy, transformando o prédio desta última num local aprisionador e perigoso. O trabalho de fotografia incrementa esta atmosfera de inquietação e perigo que envolve "While the City Sleeps", marcada por algum cinismo, personagens de carácter dúbio, interpretações de bom nível, resultando numa obra de Fritz Lang que deveria ter mais atenção.

Título original: 
Título em Portugal: 
Realizador: Fritz Lang.
Argumento: Casey Robinson.
Elenco: Dana Andrews, Rhonda Fleming, George Sanders, John Drew Barrymore, Ida Lupino.

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