01 junho 2014

Resenha Crítica: "Tokyo Chorus" (1931)

 As relações familiares surgem como uma temática que marca boa parte das obras cinematográficas de Yasujiro Ozu, algo presente desde logo em "Tokyo Chorus", um filme mudo realizado numa fase relativamente inicial da carreira do magnífico cineasta (quatro anos depois da sua estreia como realizador, embora esta seja a sua vigésima segunda obra cinematográfica). No caso de "Tokyo Chrorus", Ozu deixa-nos perante a família formada por Shinji Okajima (Tokihiko Okada), um personagem que no início do filme encontramos a ter uma atitude bastante brincalhona e algo negligente em relação às aulas (temos algum humor físico nestas cenas), chegando até a desrespeitar em parte a autoridade do seu professor, Mr. Omura (Tatsuo Saito). A narrativa logo avança vários anos, com Okajima a trabalhar como vendedor de seguros, sendo casado e tendo três filhos, entre os quais, um petiz que pretende uma bicicleta semelhante à dos amigos. No entanto, o feitio demasiado intempestivo de Okajima logo o coloca em problemas, sendo despedido após ter entrado numa altercação com o seu chefe. A razão da discussão centrou-se no facto do chefe ter despedido um colega devido ao mesmo ter vendido vários seguros a clientes que acabaram por falecer passado pouco tempo de adquirirem as apólices, algo que inicialmente até gera momentos de humor, mas logo desemboca no desemprego de Okajima. Sem emprego, este compra uma trotinete para o filho ao invés de uma bicicleta, algo que causa uma grande comoção junto do jovem, devido ao facto do pai ter mentido, levando este último a bater-lhe perante os vários actos pouco correctos do jovem. Tudo piora quando a filha adoece, com Okajima a ter de vender os quimonos da esposa, encontrando um emprego temporário no restaurante de Omura, o seu antigo professor, enquanto espera por uma vida melhor ao longo deste drama familiar e social que se insere em filmes de Yasujiro Ozu como "An Inn in Tokyo", com o cineasta a ser capaz de expor a crise na sociedade japonesa, a dificuldade em arranjar emprego no espaço citadino de Tóquio, bem como as relações complexas entre pais e filhos, evidenciadas e desenvolvidas com a delicadeza, realismo e assertividade próprias do realizador. Ao longo deste filme mudo produzido pela Shochiku Company, Yasujiro Ozu deixa-nos perante gentes de classe média (figuras primordiais dos seus filmes) que se viram perante o desemprego e a pobreza durante os anos iniciais do período Showa, apresentando questões relacionadas com a procura dos pais em continuarem a agradar aos filhos, exibindo as dificuldades em criar os petizes, ao longo deste drama humano composto por alguns momentos de humor. O elenco exprime-se na perfeição, os planos fixos são elaborados com cuidado, não faltando ainda os pillow shots onde Ozu filma objectos vários sem a presença da figura humana, ao longo de um filme que mostra um cineasta a aperfeiçoar um estilo muito próprio (Donald Richie salienta que é nesta obra que o lado mais maduro de Ozu começa a aparecer), sabendo filmar como poucos, sendo capaz de nos brindar com obras sublimes e marcantes, com "Tokyo Chorus" a ser um exemplar de enorme valor. Entre a tristeza da perda de um emprego e a esperança de encontrar um novo trabalho, "Tokyo Chorus" coloca-nos perante um drama exposto com alguma leveza, sem recair nos melodramas excessivas, ao mesmo tempo que nos apresenta a um pai que procura sustentar a sua família e pelo caminho conhece várias adversidades.

Título original: "Tôkyô no kôrasu".
Título em inglês: "Tokyo Chorus".
Título em Portugal: "Sinfonia de Tóquio".
Realizador: Yasujiro Ozu. 
Argumento: Komatsu Kitamura e Kōgo Noda.
Elenco: Tokihiko Okada, Emiko Yagumo as Sugako, Hideo Sugawara, Hideko Takamine,Tatsuo Saitō.

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