11 junho 2014

Resenha Crítica: A Mãe e o Mar

   Não é particularmente fácil avaliar um filme que, num determinado momento, nos obriga a contemplar uma pescadeira a circular de um lado para o outro numa praia deserta, a pescar algas durante dez minutos sem qualquer benefício para o ritmo do documentário, para nos minutos seguintes nos mostrar um pescador reformado a dialogar com o mar, proferindo-lhe juras de amor eterno e fazendo-nos acreditar que estamos a presenciar é algo de único e de formidável. Os protagonistas destes momentos fazem parte da comunidade piscatória de Vila Chã, em Vila do Conde, em cujo meio Gonçalo Tocha se tentou infiltrar (por iniciativa do projecto Estaleiro, do festival “Curtas” do referido concelho). Os seus propósitos parecem-nos claros – imiscuir-se no meio de uma comunidade delimitada e relativamente isolada do mundo ocidental, para poder retratá-la com o seu estilo pessoal, tal como fizera em “É na Terra, Não é na Lua”. Mais uma vez o cineasta demonstra-nos o seu talento inato para ganhar a confiança dos membros destas pequenas comunidades, permitindo-lhes exporem-se gradualmente à sua frente e a representarem, muitas vezes, para a câmara de filmar, tentando (muitas vezes pouco subtilmente) demonstrar a sua sapiência e o seu carácter singular.
     Esta confiança permitiu-lhe gravar cenas verdadeiramente notáveis, protagonizadas por pescadores ou pescadeiras que facilmente geram a nossa empatia, pela honestidade e pela ingenuidade que vão deixando transparecer. Ouvimos divertidos as suas conversas e interessados as suas histórias de sobrevivência, compreendendo sem quaisquer dúvidas o seu respeito pelo mar. A selecção das cenas é feita com bom critério, e a sua montagem dá-lhe um ritmo lento mas por norma eficaz. Privilegiaram-se os momentos com mais humor ou com mais interesse, de modo a confrontar o espectador com episódios curiosos e peculiares. É-nos impossível deixar de reconhecer, porém, que ocasionalmente Tocha se perde a contemplar algumas das actividades mais banais levadas a cabo pelos protagonistas. Estas claras preferências autorais até podem ter como pretexto mostrar-nos as rotinas pachorrentas da vida destes indivíduos incansáveis, mas acabam unicamente por desafiar a nossa atenção, sem muito sentido.
     Este cunho pessoal é apesar de tudo um sinal de que Gonçalo Tocha se sente perfeitamente confortável na elaboração da sua arte e no desenvolvimento de um estilo muito próprio, que já tinha sido evidenciado no documentário antecessor. As comparações entre a “Mãe e o Mar” e “É na Terra, Não é na Lua” são, aliás, evidentes – o primeiro é mais curto e menos ambicioso pois o seu universo é mais restrito, mas consiste igualmente uma selecção de momentos engenhosamente sequenciados, que ilustram um estilo de vida pouco comum que se alicerça no aproveitamento dos recursos naturais. As figuras retratadas são por vezes excêntricas e não têm medo de o mostrar, e entretêm-nos em cenas memoráveis. Dir-se-ia que são autênticas personagens cinematográficas, aguardando apenas pelo momento de serem captadas por uma câmara de filmar. Felizmente para elas, e para nós, esse momento chegou. E, graças a Gonçalo Tocha e à sua humanidade, perdurará durante algum tempo na memória de quem esteve no cinema para o presenciar.

Ficha técnica:

Título original: A Mãe e o Mar
Realização: Gonçalo Tocha

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