09 junho 2014

Resenha Crítica: "The African Queen" (1951)

 A química entre a dupla de protagonistas é muitas das vezes essencial para um filme funcionar, sobretudo quando boa parte da narrativa é centrada nos dois elementos. Este é o caso de "The African Queen", um filme que recupera mais uma vez a frutuosa colaboração profissional entre Humphrey Bogart e o realizador John Huston, resultando no primeiro Oscar da carreira do brilhante actor e numa memorável obra cinematográfica. Humphrey Bogart interpreta Charlie Allnut, o capitão do "African Queen", um barco de pequenas dimensões, um indivíduo de gestos algo rudes, aspecto pouco cuidado, alguns tiques, barba geralmente por fazer, que entrega alimentos e o correio a Samuel (Robert Morley) e Rose Sayer (Katharine Hepburn), dois irmãos e missionários britânicos da Igreja Metodista. Rose e Samuel encontram-se na pequena vila de Kungdu, localizada na África Oriental Alemã, quando a I Guerra Mundial eclode e o quotidiano destes muda perante a chegada dos alemães que logo atacam o território. Samuel acaba por falecer, algo que conduz Rose a seguir com Charlie. Não poderiam ser mais diferentes. Esta é religiosa, cuidada, de boas maneiras, algo tímida mas com uma personalidade forte, uma situação que a vai inicialmente colocar em confronto com Charlie. O personagem interpretado por Humphrey Bogart não tem problemas em consumir bebidas alcoólicas em excesso, mostrar pouca coragem, embora tenha uma notória habilidade ao leme. Perante a descoberta que os alemães contam com o "Queen Luisa", um barco armado que bloqueia as acções aliadas britânicas, Rose procura convencer Charlie a criar torpedos com os explosivos existentes, atirando o "African Queen" contra a embarcação germânica. Charlie mostra-se contra esta ideia, devido aos perigos do rio Ulanga, mas acaba por ceder aos anseios de Rose. Os dois embarcam juntos nesta aventura, perante locais aparentemente paradisíacos mas recheados de perigos, não faltando pelo caminho diversas adversidades, tais como tempestades, ataques de moscas, sanguessugas, alemães prontos a disparar, acabando pelo caminho por estabelecerem laços de afinidade que vão desembocar numa sentida relação de amor. Não é algo de um momento para o outro, mas sim gradual, com John Huston a dar tempo aos personagens para crescerem na narrativa e junto dos espectadores, fazendo-os evoluir de forma sublime, alicerçando-se para isso nas excelentes interpretações de Humphrey Bogart e Katharine Hepburn.

 Humphrey Bogart foi um actor brilhante, conseguindo como poucos criar personagens que facilmente chegam ao espectador e criam empatia, mesmo quando estamos a falar dos seus gangsters. Em "The African Queen", Bogart cria um personagem deveras peculiar, aparentemente pouco cuidado e ainda menos dado a afectos, formando com Hepburn uma dupla memorável. Esta parece frágil mas guarda em si uma enorme coragem, partilhando a personalidade forte de Katharine Hepburn, com a actriz a deixar-nos perante uma mulher idealista e religiosa. A narrativa é quase toda centrada nestes dois personagens, nas adversidades que vão encontrando em conjunto, na forma como gradualmente se vão aproximando a nível emocional, quer pelos gestos, quer pelas palavras. Veja-se quando esta o deixa ficar junto a si quando começa a chover torrencialmente, ou quando Charlie protege Rose da praga de moscas ficando ele descoberto, entre vários outros momentos. Não esquecer ainda outros dois personagens importantes, o barco "African Queen" e o cenário selvagem onde se encontram os personagens. O barco é o paradigma do seu dono, um veículo prático, nem sempre a funcionar a 100%, mas que cumpre aquilo que é pretendido, permitindo a Charlie ter algo em comum com Humphrey Bogart, o prazer em conduzir este meio de transporte. No entanto, este barco é muito mais do que um meio de transporte ao longo da narrativa, surgindo quase como um porto de abrigo dos protagonistas, a sua segunda habitação, mas também como o local onde vão viver uma série de episódios memoráveis enquanto o veículo avança pelo rio. O cenário que rodeia o rio é maioritariamente verdejante, por vezes acompanhado por espécies de animais como hipopótamos, macacos, crocodilos, entre outros, algo que permite alguns momentos de tensão devido ao possível perigo provocado, mas também de humor, com Charlie a imitar os diferentes espécimes. Por sua vez, as águas aparentemente calmas, a espaços revelam-se revoltas, com os personagens a encontrarem uma série de perigos ao longo desta aventura, tendo como pano de fundo um palco distinto da I Guerra Mundial. Esta é uma guerra que os personagens travam também para provarem o seu valor no Mundo, para mostrarem a sua utilidade, formando pelo caminho uma terna relação, alicerçada numa enorme química entre a dupla de protagonistas e uma realização sublime de John Huston.

O cineasta filmou boa parte da obra no Uganda e no Congo, algo que colocou alguns problemas para os actores e elementos da equipa criativa, com algumas excepções. O caso é relativamente popular, com vários elementos a padecerem de disenteria, com excepção de Humphrey Bogart e John Huston, uma dupla que escolheu o whisky como bebida primordial, algo que o actor ironizou "All I ate was baked beans, canned asparagus, and Scotch whisky. Whenever a fly bit Huston or me, it dropped dead". As adversidades nas filmagens de "The African Queen" são sobejamente conhecidas, juntando-se aos problemas de saúde de alguns elementos, algumas dificuldades a nível do som, do argumento (não estava terminado quando chegaram ao território), para além das espécies de animais selvagens. Junte-se ainda a fama de John Huston em gostar de "fazer sofrer" os seus actores e ficamos perante um conjunto de problemas, naquela que é a quarta e penúltima colaboração com Humphrey Bogart, após terem trabalhado em "The Maltese Falcon", "The Treasure of Sierra Madre" e "Key Largo", seguindo-se ainda "Beat the Devil". Nesta adaptação do livro homónimo de C.S. Forester, John Huston coloca-nos perante um casal improvável diante de um cenário adverso, uma história pouco inovadora mas explorada de forma exímia, beneficiando de um bom argumento e de um notório aproveitamento do elenco. O facto do filme ter sido filmado em technicolor, permite a Huston exacerbar as cores do cenário, em particular as tonalidades verdejantes, mas também a iluminação natural, com os cenários solarengos a serem intercalados por tempestades tropicais. Quase tudo parece resultar ao longo desta obra em que inicialmente nem todos pareciam acreditar, algo visível quando o produtor Alexander Korda salientara "A story of two old people going up and down an African river... Who's going to be interested in that? You'll be bankrupt." para o produtor Sam Spiegel. Hoje a resposta parece óbvia, com "The African Queen" a surgir como uma obra maior da carreira de John Huston e uma das colaborações mais memoráveis do realizador com Humphrey Bogart, marcada por aventura, romance, algum humor e uma dupla de protagonistas com enorme química.

Título original: "The African Queen".
Título em Portugal: "A Rainha Africana".
Realizador: John Huston.
Argumento:  John Huston, James Agee, Peter Viertel, John Collier.
Elenco: Humphrey Bogart, Katharine Hepburn, Robert Morley.

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