04 junho 2014

Resenha Crítica: "Adam's Rib" (1949)

 George Cukor transporta para os tribunais a guerra dos sexos, colocando um casal de advogados a enfrentar-se e a deixar o trabalho influenciar a sua vida pessoal. Este casal é formado por Adam (Spencer Tracy) e Amanda Bonner (Katharine Hepburn), uma dupla de advogados que se prepara para transformar o tribunal num palco de exposição dos seus ideais distintos. Amanda é uma feminista, algo expansiva, pronta a defender com vivacidade os seus pontos de vista e até disponível para contornar a lei. Adam é um indivíduo mais discreto, que ama a sua esposa, colocando a lei acima de tudo. O casal apresenta uma relação aparentemente feliz, tendo uma casa espaçosa num espaço urbano e uma casa de campo, filmando alguns dos seus momentos em comum, apresentando uma intimidade notória. Ela tem uma personalidade forte, é ambiciosa, conduz o carro, apresentando alguma ternura para com o seu "Pinkie". Por sua vez, este parece apreciar o feitio da sua "Pinky" embora goste da diferenciação entre sexos, sem descurar a relevância do sexo feminino (algo exposto por Cukor em momentos como Amanda a conduzir o carro, transportando o esposo no veículo). A vida destes entra num alvoroço quando Doris Attinger (Judy Holliday) segue o seu esposo (Tom Ewell) e encontra-o com Beryl Caighn (Jean Hagen), disparando nervosamente, acabando por atingir o marido, algo exposto logo nas cenas iniciais do filme. Amanda fica chocada com o tratamento que Doris se encontra a ter na imprensa, procurando defender esta mulher em tribunal quando descobre que Adam vai defender Warren Attinger, o esposo da personagem interpretada por Judy Holliday. Escusado será dizer que a decisão de Amanda em defender Doris vai deixar Adam algo desagradado, sobretudo quando a imprensa começa a dar um destaque exacerbado a este caso e à dupla de protagonistas, ao longo desta divertida comédia romântica, onde o feminismo e a guerra dos sexos estão sempre muito presentes. George Cukor consegue como poucos criar personagens femininas interessantes, algo que não é diferente em "Adam's Rib", com o cineasta a aproveitar ainda a enorme química e dinâmica entre Katharine Hepburn e Spencer Tracy naquela que é a sexta colaboração entre ambos. 

 Casal na vida real, Katharine Hepburn e Spencer Tracy elevam um filme agradável de acompanhar. Hepburn é uma força da natureza, uma actriz de enorme talento, com imenso carisma, capaz de explorar a personalidade forte de Amanda e atribuir muito de si à personagem. Esta é capaz de dar uma faceta algo mordaz à sua personagem, quer durante a sua vida pessoal com Adam, quer a defender o caso com recurso a todos os meios que tem à disposição, incluindo desorientar o marido, algo que proporciona diversos momentos de humor. Veja-se quando estes se baixam para falar debaixo da mesa do tribunal, mas também quando Amanda veste Doris com as suas vestes, entre outros momentos. O humor domina, embora tenhamos alguns momentos de dramatismo associados à forma como o caso e a vida profissional afectam a relação do casal. Nunca parece que o casamento destes esteja mesmo em perigo, algo que torna a procura de Kip (David Wayne), um pianista e vizinho da dupla de protagonistas, em envolver-se com Amanda pouco convincente e a espaços intrusiva na narrativa. Tudo depende imenso do relacionamento entre a dupla de protagonistas, com Spencer Tracey a ser capaz de incutir algum pragmatismo e calma ao seu personagem, enquanto Amanda e Adam defendem ideias distintas em tribunal. Ela de forma sempre mais apaixonada pela defesa dos direitos das mulheres, enquanto ele se interessa por respeitar e dignificar a lei. As cenas em tribunal levantam algumas questões interessantes sobre os direitos das mulheres e como os actos de traição e agressão por vezes são encarados de forma distinta consoante os sexos, mas tudo é abordado com enorme leveza. O argumento é inteligente a explorar o relacionamento do casal e como a profissão de ambos influi no comportamento a nível privado, sempre com algum humor à mistura, não faltando pelo caminho a música "Farewell, Amanda" (escrita por Cole Porter) que tanto vai marcar a narrativa e proporcionar alguns risos. Estamos ainda a ser injustos ao descurar Judy Holliday como a mulher traída e alvo de agressões que decide disparar contra o marido, embora até conte com as suas neuroses e pecados cometidos, com a actriz a sobressair naquele que é o grande espectáculo de Katharine Hepburn e Spencer Tracy. O filme aproveita para explorar o casamento de um casal moderno através destes dois personagens, explorando como o trabalho influi na vida pessoal, as suas dinâmicas em conjunto, sempre com muito humor e uma incrível química entre Katharine Hepburn e Spencer Tracy com a dupla a proporcionar momentos verdadeiramente marcantes.

Título original: "Adam's Rib". 
Título em Portugal: "A Costela de Adão".
Realizador: George Cukor.
Argumento: Ruth Gordon e Garson Kanin.
Elenco:  Spencer Tracy, Katharine Hepburn, David Wayne, Judy Holliday.

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