30 maio 2014

Resenha Crítica: "Cleópatra" (2007)

 De Júlio Bressane não poderíamos esperar uma história inspirada em Cleópatra completamente rigorosa em termos históricos e narrativos. Este realiza uma obra cinematográfica marcada por uma extravagante utilização da paleta cromática e um notório cuidado na elaboração e aproveitamento dos cenários interiores, estimula os nossos sentidos e sentimentos, enquanto adapta a lenda de Cleópatra à língua e cultura portuguesa, não faltando uma peculiar abordagem ao envolvimento desta com Júlio César e Marco António. Os momentos iniciais colocam-nos desde logo perante Júlio César (Miguel Falabella), com este a lamentar a morte de Pompeu, cuja cabeça lhe é enviada. Fala sobre Cleópatra e a dinastia dos Ptolomeus, descrita como incestuosa, traiçoeira e cruel, algo visível na relação desta com o irmão. Cleópatra é descrita pelos dois homens da confiança de Júlio César como alguém de descendência grega, inteligente, poliglota, que considera a Biblioteca de Alexandria a sua segunda casa. Júlio César tenta travar o confronto entre Cleópatra e o irmão, procurando que ambos se casem, enquanto as suas falas são brevemente travadas pelo som das espadas e cavalos, dando a ideia da batalha que se encontra a acontecer no fora de campo, embora o filme apenas nos exiba a capa vermelha do personagem interpretado por Miguel Falabella. A viagem de Júlio César também não é exposta, com mais uma vez Júlio Bressane a fazer uso das elipses (algo utilizado em "A Erva do Rato"), avançando com a narrativa e deixando-nos com a certeza que estamos no território não só pela presença de Cleópatra, mas também pelo próprio cenário, não faltando uma sombra de uma figura de perfil, bem ao jeito das figuras egípcias. Cléopatra surge bela, imponente, quase como se tratasse de uma estátua perfeitamente esculpida, com um vestido branco e azul, algo transparente e pronto a realçar as suas formas corporais, descalça, enquanto o vento mexe com as suas vestes e Júlio César observa-a atentamente. Posteriormente aproximam-se, mas a câmara afasta-se, deixando-nos perante um plano que destaca a fausta refeição que os espera, enquanto enquadra Cleópatra e César ao fundo, como se as cortinas fossem pequenas molduras que os unem, um momento revelador de todo o cuidado colocado por Júlio Bressane na construção das imagens. Saem do espaço fechado dos aposentos e dirigem-se para a beira-mar. Cleópatra fala, diz que têm a pedra, o mar e com a biblioteca têm tudo, separando-se posteriormente deste e aproximando-se dos seus conselheiros, discutindo sobre os possíveis objectivos de Júlio César. Mais tarde reúnem-se. César já não se encontra com a sua capa vermelha, mas sim mais despido, enquanto esta lhe dá comida à boca, algo revelador de uma maior intimidade entre ambos. Os aposentos de Cleópatra são reveladores do cuidado colocado no cenários interiores, quer a nível da iluminação, marcada por luz ambiente, quer na decoração, não faltando as célebres flores de Lótus típicas em algumas representações do Antigo Egipto, mas também três pequenas torres com fogo a iluminarem o espaço, dando uma atmosfera intimista e quente ao momento.

No exterior, estes ficam rodeados pela praia, com o mar a dar uma sensação de infinito, com o seu som a ecoar enquanto maioritariamente Cleópatra fala, em momentos de alguma sedução e poesia, tais como quando esta é colocada no interior de uma concha gigante por César. Este deixa-se encantar por Cleópatra e pelo Egipto, deixando-se literalmente penetrar pela mulher que desperta o seu desejo, até ser traído e assassinado depois de mostrar intenções de regressar a Roma, tornar-se Imperador e Rei, tendo em vista a unir o seu Império com o de Cleópatra. Chega então Marco António (Bruno Garcia), pronto a suceder a Júlio César, pragmático, guerreiro, disponível para seduzir a "Ísis", mas também se deixa inebriar por esta, com a relação entre ambos a ser marcada por gestos mais ferozes e intensos. Se entre César e Cleópatra tínhamos um duelo entre "Vénus e Ísis", já com Marco António ficamos perante "Baco e Ísis", com ambos a terem uma relação distinta, pelo menos até este ter um destino também pouco simpático. A história toma várias liberdades, com Júlio Bressane a transportar os mitos e lendas de Cleópatra para a língua e cultura portuguesa, sempre com algum lirismo, tendo como base os textos de Plutarco. Para criar o filme, Bressane salientou que pesquisou cerca de 200 quadros para "criar imagens, sequências, cenários". Essa situação é visível na forma algo expressionista como o cineasta utiliza a cor no interior dos barrocos cenários interiores, onde as tonalidades vermelhas e azuis surgem muitas das vezes em evidência, traduzindo e exacerbando estados de espírito e sentimentos. Existe ainda um notório cuidado em alguns momentos colocar o vestuário dos actores e actrizes a condizer com as cores dos cenários, mas também em aproveitar ao máximo a simbologia dos elementos que envolvem o espaço da narrativa, incluindo as sombras. Veja-se por exemplo quando César se prepara para se envolver sexualmente com Cleópatra e encontramos uma figura de perfil com uma erecção junto da parede, mas também quando a personagem interpretada por Alessandra Negrini se encontra numa banheira coberta de leite e a morte de César coincide com o sangue a cobrir um espaço até então aparentemente puro e imaculado. Existe alguma poesia neste momento da banheira, mas também na forma como os cenários interiores são explorados, como se estivéssemos perante pinturas em movimento, que ganham vida no ecrã e nos fascinam. A colaboração com o director de fotografia Walter Carvalho, colaborador habitual de Júlio Bressane, ajuda a incrementar e muito as imagens em movimento, com o cineasta a mais uma vez parecer tirar um pouco de inspiração a Godard, nem que seja na relação entre a literatura e o cinema, mas também no trabalhar das imagens e a palavra (sendo que as cenas banhadas a vermelho remetem para "Le Mépris", do genial e magnífico realizador francês).

 As imagens em movimento conquistam-nos com enorme facilidade, sobrepondo-se por vezes ao argumento, com Júlio Bressane, tal como fizera em "A Erva do Rato" e "Educação Sentimental", a criar uma obra sensorialmente cativante e estimulante. No entanto, ao contrário de "A Erva do Rato", em "Cleópatra" sobressaem muitas das vezes as cores vivas, embora voltemos a ter as imagens banhadas em luz ambiente e prontas a exacerbar as sombras. O argumento é aparentemente simples, por vezes parecendo que se esgota com facilidade, mesclando o anódino com a poesia e o requinte, deixando-nos diante de belas palavras, expostas com enorme vida pelos elementos do elenco deste filme de baixo orçamento. Os poucos recursos não tiraram ambição a Júlio Bressane, embora estes sejam algo visíveis na parca variedade de cenários exteriores. A praia é o cenário exterior primordial, com o som do mar e do vento a fazer-se sentir, sendo um local onde Cleópatra se reúne com Júlio César e Marco António, protagonizando com estes alguns momentos marcantes. Júlio Bressane não nos deixa perante um retrato com rigor de Cleópatra, mas sim perante o mito, expondo-nos uma mulher sensual, quente, pronta a atrair os homens, culta, mas também capaz de se deixar seduzir perante os prazeres da carne. O seu corpo é exposto pela câmara de filmar por várias vezes, algumas com reverência, outras de forma estranha, com Bressane a ter em Alessandra Negrini a sua musa, aproveitando a sua beleza natural ao serviço da personagem, com o guarda-roupa a expor muitas das vezes as suas formas e a dar o mote para algum do (estranho) erotismo que rodeia o filme. O momento em que esta bate as duas asas com os braços é carregado de simbolismo, quase que nos deixando perante a personificação da Deusa Ísis, com esta Cleópatra que nos é apresentada a ter algo de divino e distinto. Vale ainda a pena realçar as interpretações dos outros dois elementos masculinos. Miguel Falabella como César, com o actor a dar tudo o que tem ao seu personagem, mostrando empenho e exibindo a ambição deste personagem, mas também a forma como se deixa encantar por Cleópatra e o Egipto, procurando aprender com esta cultura. Já Bruno Garcia atribui uma maior dureza ao seu personagem, embora Marco António também se deixe seduzir pela protagonista. Cleópatra e os seus relacionamentos são alguns dos pontos centrais do filme, mais até do que o contexto político de Roma e do Egipto, com Bressane a jogar com as palavras e os silêncios, deixando os actores muitas das vezes quase a declamarem, como se estivessem numa peça de teatro, embora estejam a transmitir sentimentos bem reais. Diga-se que o teatro também parece ter influenciado a obra cinematográfica, algo visível não só na forma como as falas por vezes são expressas e expostas, mas também no aproveitamento dos cenários, na maioria interiores, utilizados durante um período de tempo relativamente prolongado. Temos ainda presentes elementos sobre a mitologia egípcia e grega, sobre a cultura e arte, com Júlio Bressane a não poupar em elementos que rodeiam a lenda de Cleópatra, adaptando-a à língua portuguesa e criando algo de diferente.

 Esta não é o primeiro filme sobre Cleópatra, nem será o último. Basta recordar que nomes como Claudette Colbert e Elizabeth Taylor já interpretaram a personagem, com Alessandra Negrini a ter uma interpretação bastante interessante, pese o seu sotaque bastante carregado e algo exagerado, criado propositadamente para a personagem, poder dividir opiniões, embora por aqui até tenha sido relativamente apreciado. "Cleópatra" é também um filme de alguns exageros, a espaços barroco, pronto a estimular sentidos, a jogar com os sons, palavras, silêncios, cores, marcado por belos planos mas também por um argumento que nem sempre sustenta as quase duas horas de duração do filme. O elenco agarra o filme, mesmo nos momentos mais estranhos como o ataque epiléptico que envolve Júlio César, mas também algumas cenas de sexo, para além das danças aleatórias, ou seja, elementos que não surpreendem quem já tiver visto alguns filmes de Júlio Bressane, um cineasta bastante interessante. Pode-se não "comprar" todas as ideias que este tem para nos vender, mas nem por isso nos deixa de desafiar, de estimular intelectualmente, de proporcionar propostas distintas do que estamos habituados a ver nas salas de cinema. O filme teve a sua estreia na edição de 2007 do Festival Internacional de Veneza, tendo ainda sido exibido em Portugal no IndieLisboa, onde Júlio Bressane, um dos nomes de relevo do "cinema marginal brasileiro", teve honras de ser o "herói independente", com o cineasta a justificar este estatuto autoral, independente, realizando o filme que pretende, sem estar a pensar em agradar a público e crítica. Em "Cleópatra", Bressane realizou a obra em dezanove dias, sem recursos financeiros avultados mas com muito engenho e pronto a oferecer uma abordagem distinta sobre a figura do título. Provoca-nos com as imagens e os sons (veja-se quando coloca César e Cleópatra a falarem e troca as vozes dos actores), explora os símbolos (veja-se o fumo azul que por vezes surge e corta as cenas de cariz sexual), apresenta uma banda sonora cheia de significado (instrumental quando temos Júlio César, música brasileira após a morte de Marco António), para além de termos algum cuidado na decoração dos cenários interiores do Egipto e Roma. O trabalho de câmara é sublime, sendo impossível não realçar ainda os close-ups, muitas das vezes extremos a exporem o rosto de Cleópatra, prontos a evidenciarem os sentimentos transmitidos pelas suas expressões com Júlio Bressane a mostrar mais uma vez a sua reverência para com Alessandra Negrini. Não temos direito a pirâmides, nem a grandes exércitos ou a grandes complexidades políticas, temos sim uma Cleópatra sedutora, pronta a marcar os homens que a conhecerem e a ser marcada por estes. Não a Cleópatra histórica, mas sim a lenda, ainda que adaptada à cultura portuguesa, com Alessandra Negrini a ser uma digna intérprete desta figura marcante da História do Antigo Egipto e Júlio Bressane a ser capaz de realizar um filme que não nos deixa indiferentes.

Sem comentários: