31 maio 2014

Resenha Crítica: "Après Mai" (Depois de Maio)

 Olivier Assayas, na casa dos seus 16 anos quando o calendário apontava para 1971, transporta-nos para este ano no início de "Après Mai". O título é bem claro. Estamos depois do Maio de 1968, perante uma geração marcada por estes acontecimentos, mas também por um Mundo em mudança, procurando mudar o rumo dos acontecimentos, ou pelo menos pensa que os pode alterar. São jovens com ideais, embora nem sempre consequentes, que nos são apresentados ao longo deste filme realizado por Olivier Assayas, com o cineasta a rodear o filme de um ambiente praticamente capaz de nos transportar para esta época tão marcante. Veja-se os jovens idealistas a nível político, a descoberta das drogas, uma maior liberdade em relação ao sexo (exposto desde logo pelas atitudes dos personagens), o gosto pela cultura underground e à margem do universo mainstream, os actos politicamente extremistas, as guerras no interior das escolas secundárias e universidades, o gosto por quebrar barreiras, a música tão típica deste período (por vezes intervencionista). Assayas por vezes espalha-se ao querer contar muitos dos melhores e piores momentos deste período, faltando uma maior e mais assertiva contextualização de toda esta conjuntura fervilhante, enquanto nos deixa perante um grupo de jovens adultos ainda em formação das suas personalidades. Estes jovens procuram descobrir o que pretendem fazer, apreciam a arte de uma maneira muito própria, apresentam divergências com a geração dos seus pais e até entre si, caminhando a passos largos para a chegada definitiva à vida adulta. Não só à maioridade, mas também às responsabilidades de seguirem aquilo que pretendem, embora por vezes isso seja algo complicado de lhes pedir. Gilles (Clément Métayer) é um desses jovens, um indivíduo prestes a completar o ensino secundário, que gosta de pintar e tem um dom para essa arte, pretende aprender a realizar obras cinematográficas, encontrando-se num movimento politizado, tendo ainda terminado recentemente uma relação com Laure (Carole Combs), após esta ter ido viver para Inglaterra. Este encontra-se num grupo ligado à esquerda e ao Comunismo, onde se encontram Jean-Pierre (Hugo Conzelmann), Alain (Felix Armand) e Christine (Lola Créton). Um acto violento sobre um segurança da escola conduz a que viajem a Itália, com excepção de Jean-Pierre, o único a ser associado ao caso. Em Itália, estes lidam com jovens da sua idade, também de esquerda, hippies, com Alain a iniciar uma relação com Leslie (India Menuez), uma norte-americana que pretende aprender danças exóticas. É neste local que assistem a vídeos marginais, feitos à margem do sistema, no caso sobre o conflito do Laos, realizado pelos "Porco-Épico", com Olivier Assayas a deixar-nos perante o poder das imagens em movimento mas também destes movimentos à margem efectuados neste período, ainda sem a facilidade que a Internet hoje proporciona.

A não existência de redes sociais, telemóveis e afins permite ainda a que estes jovens saiam, lutem fora da cadeira do quarto e procurem viver fora do mundo virtual, apresentando um intervencionismo notório. Gilles inicia uma relação com Christine, que o fascina pela forma como adere às causas políticas e certamente pela sua enorme beleza, contrastando com a pouca envolvência de Laure, que parece mais preocupada com os prazeres temporários. No entanto, Christine pretende ficar em Itália, enquanto Gilles regressa a Paris para terminar o exame de Belas Artes. A vida destes jovens encontra-se em constante movimento, algo exposto ao longo deste fresco elaborado por Olivier Assayas, marcado pela irreverência destes jovens, mas também pelos seus anseios. Gilles quer deixar a sua marca, mas procura fugir a comprometer-se com profissões, desenha sinais anarquistas na sua mesa, crítica o estilo de escrita de Georges Simenon, não gosta de televisão, é politicamente informado, embora não pareça saber bem o que pretende. Mantém um relacionamento algo conturbado com o pai, que se encontra a escrever uma adaptação das obras de Simenon, em particular do Inspector Maigret para a TV, algo que confirma mais uma vez o personagem como alter-ego de Asssayas, ou não fosse o cineasta filho de um argumentista e realizador ligado à televisão. Mas voltemos a Gilles, interpretado por um competente Clément Métayer, com Assayas a ter acertado na escolha do elenco e a saber aproveitar o mesmo. A relação de Gilles com Christine nem sempre convence, embora termine rapidamente, com tudo a parecer de passagem e aprendizagem para estes elementos. Isso é visível em relação à personagem interpretada por India Menuez, uma jovem que está apenas de passagem, até regressar aos EUA, aprendendo muito pelo caminho. Assayas transporta-nos assim para um período de grande fulgor da vida destes jovens e de França, deslocando-os para Itália e Inglaterra, expondo os pontos de vista destes e os seus, parecendo claro que muitas das experiências da vida do realizador surgem expostas nas vivências dos personagens, em particular Gilles, ou não fosse este um aspirante a realizador. Este encontra-se entre duas mulheres, embora ambas não lhe proporcionem relações muito estáveis, ficando latente o à vontade com que estes personagens lidam com o sexo e a nudez (existe uma maior abertura nas questões ligadas com o corpo, algo evidente na colocação em espaço público de uma publicidade da DIM com uma modelo em roupa interior), mas também com a arte e a política. Gilles lê "Les habits neufs du président Mao" de Simon Leys, algo descrito por um elemento Maoísta como propaganda da CIA, existindo uma certa paranóia em relação aos EUA que não é de todo injustificada, embora a Revolução Cultural de Mao esteja longe de ser imaculada. Existe todo um conjunto de contradições a rodearem estes personagens, que ficam por vezes entre o activismo e a inércia, ou não fossem estes elementos da chamada "geração do Baby Boom" que cresceram numa sociedade em mudança, exposta com alguma clarividência por "Après Mai".

Esta França que nos é apresentada, em particular o espaço urbano, surge como um território em convulsão. Veja-se desde logo os protestos das cenas iniciais, logo coartados pela polícia com o recurso à violência, mas também visível na forma como estes jovens procuram por uma cultura à parte e mostrar o seu protesto em relação a tudo o que os rodeia. Temos alguns actos como cartazes colados, jornais elaborados por membros de diferentes movimentos, grafitis, um carro colocado a arder, algumas discussões, embora não surjam aprofundadas questões relacionadas com a Nova Esquerda, sobre as distinções entre os Marxistas e Maoístas, com Assayas a parecer procurar apresentar vários elementos deste período, embora em alguns momentos se esqueça de explorar adequadamente os mesmos. Se pensarmos em "La Chinoise" de Jean-Luc Godard (lançado em 1967), percebemos o quão assertivo este foi a expor este fervilhante ambiente político do final da década de 60 e as questões ligadas com o Maoísmo e os movimentos políticos da França. Assayas não aborda ainda questões relacionadas com o estatuto social destes jovens, provavelmente com algumas posses, algo que justifica as suas viagens, para além de não aprofundar a fundo as questões da violência dos actos destes personagens e as consequências dos mesmos (por exemplo, um carro é incendiado, mas pouco significado tem a não ser mostrar que estes jovens estão disponíveis para cometerem actos terroristas). Estamos perante um conjunto de jovens com sede de viver, de mostrar o seu papel no Mundo e prontos a mostrarem a sua revolta. Claro que estas actividades não parecem poder durar toda a vida, algo visível na figura de Leslie, com esta a decidir regressar aos EUA e procurar começar a formar os alicerces para a sua carreira, após alguns momentos marcantes em Itália e França. As cenas em Itália, são algumas das mais belas do filme, com "Après Mai" a sobressair pelo trabalho de câmara, capaz de captar cada momento de forma sublime, seja uma cena de enorme violência, seja um momento de maior candura. Olivier Assayas pontua ainda o filme com um cuidado notório a nível dos cenários e do guarda-roupa (bem como da caracterização) para fazerem justiça à época representada, sobressaindo ainda a banda sonora, composta por temas de elementos como Syd Barrett, Soft Machine, entre outros, que contribuem quase para nos transportar para este período, embora falhe um pouco na questão política. Não existe nostalgia, mas sim muita paixão na forma como tudo parece sido abordado, com o cineasta a parecer reverenciar estes personagens, procurando explorar as suas contradições e inquietações, enquanto nos coloca perante um período pródigo para o exponenciar dos sentimentos mais dicotómicos, deixando-nos a viver momentaneamente estes dias através das suas imagens em movimento.

Título original: "Après Mai".
Título em Portugal: "Depois de Maio".
Realizador:  Olivier Assayas.
Argumento:  Olivier Assayas.
Elenco: Clement Metayer, Lola Créton, Felix Armand, Carole Combes, India Menuez.

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