30 abril 2014

Resenha Crítica: "Tom à la ferme"

 Xavier Dolan continua a desbravar terreno e antes de chegar aos trinta anos já conta no seu currículo com um conjunto de trabalhos assinaláveis, entre os quais "Tom à la ferme", a sua quarta longa-metragem, uma obra que estreia em Portugal na 11ª edição do Indielisboa, sendo o filme de encerramento deste certame. Tendo como base a peça homónima de Michel Marc Bouchard, "Tom à la ferme" sobressai pela sua capacidade de nos inquietar, de Xavier Dolan controlar os momentos da narrativa e exacerbar a tensão latente entre o personagem do título, Tom, e o irmão do falecido namorado. Tom vive em Montréal onde trabalha em publicidade, viajando até à zona rural do Quebéc para o funeral de Guillame, encontrando-se com a mãe deste último, a simpática Agathe (Lise Roy), mas também com o violento e homofóbico Francis (Pierre-Yves Cardinal), o irmão do defunto. Mestre de cerimónias, ao realizar, escrever o argumento, montar e protagonizar o filme, Xavier Dolan dá a Tom uma fragilidade notória, mas também a noção de que este personagem padece de uma enorme dor pela perda do amado, protagonizando com Francis uma violenta relação. Francis começa desde logo por agredir e ameaçar Tom quando o protagonista se encontra na cama, tendo em vista a que este não revele a Agathe a relação que tinha com o irmão do personagem interpretado por Pierre-Yves Cardinal. Agathe quer que Tom fique na quinta durante algum tempo e até pretende que este discurse no funeral, embora o protagonista não seja capaz visto que o texto vinha acompanhado de uma sentida revelação. A mãe do amado não sabia da relação entre ambos e Tom também não parece disposto a magoá-la, mantendo a mentira que Guillaume tinha uma relação com Sara (Évelyne Brochu), uma mulher com quem o namorado de Tom tirara uma foto para Agathe pensar que tinha um relacionamento com uma figura feminina. Os momentos posteriores ao funeral, protagonizados por Tom, Agathe e Francis à mesa, surgem acompanhado por enorme tensão, com este último a não mostrar grandes contemplações junto do protagonista. Acabam por estabelecer uma estranha relação, onde a dor infligida por Francis a Tom parece trazer algum conforto a ambos, que até chegam a partilhar uma dança marcada por algum erotismo, onde o sensual tango contrasta com a violência física.

Pierre-Yves Cardinal dá uma ferocidade e dureza notórias a Francis, um personagem na casa dos trinta anos que continua solteiro e a viver em casa da mãe, revelando-se pouco capaz nos relacionamentos amorosos. A relação deste com o personagem interpretado por Dolan é marcado por enorme tensão, exacerbada pelo magnífico trabalho de fotografia, mas também pela banda sonora, capaz de cadenciar cada momento e contribuir para a atmosfera algo claustrofóbica de "Tom à la Ferme". A chegada de Sara vem ainda complicar mais a estrutura de relacionamentos entre estes personagens, com a narrativa a tornar-se cada vez mais imprevisível e Xavier Dolan a gerar a tensão em volta dos seus personagens. Veja-se a já salientada cena à mesa, mas também quando Sara está sozinha com Francis e este apresenta um comportamento pouco correcto ou até uma fuga intensa do protagonista, com Dolan a ser ainda capaz de aproveitar os cenários rurais ao serviço da narrativa. A quinta é aparentemente enorme mas claustrofóbica, com uma vaca morta arrastada a trazer premonições de que algo de mal se está a passar, embora este situação não faça Tom sair de vez do território. Os cenários exteriores destacam-se pelas vastas terras e cores outonais, contrastando com os interiores marcados pela pouca iluminação e algum intimismo, algo que intensifica estes relacionamentos intrincados, enquanto Agathe parece desconhecer a verdade sobre Guillaume e o seu filho mais velho procura infernizar a vida de Tom. Dolan arquitecta a narrativa com engenho, desenvolvendo uma estranha luta de vontades entre Tom e Francis, quase que a certa altura gerando uma tensão sexual entre ambos, embora o segundo seja supostamente homofóbico. A presença de Tom na quinta dura mais do que este inicialmente esperaria, mas algo o liga ao território, incluindo as memórias de Guillaume, mas também a simpatia de Agathe e até uma espécie de Síndroma de Estocolmo com este a ligar-se a Francis. Os close-ups exacerbam os sentimentos destes personagens, sobretudo Tom, com Xavier Dolan a não ter problemas em expor a sua face e as inquietações do protagonista, revelando uma grande confiança na realização cinematográfica naquela que tem sido considerada como uma das suas obras mais acessíveis. Inquietante, imprevisível, claustrofóbico e marcante, "Tom à la ferme" continua o rumo interessante de Xavier Dolan na realização cinematográfica.

Título original: "Tom à la ferme".
Realizador: Xavier Dolan. 
Argumento: Xavier Dolan. 
Elenco: Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy, Evelyne Brochu.

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