27 abril 2014

Resenha Crítica: "Que ta joie demeure"

 Mestre na arte da observação, Denis Côté tem em "Que ta joie demeure" um documentário que deambula pelas franjas da ficção, onde nos deixa perante o trabalho nas fábricas. As máquinas ouvem-se incessantemente, enquanto os trabalhadores laboram de forma quase mecânica, ajustando-se às primeiras, ao mesmo tempo que ganham rotinas nem sempre desafiantes. Denis Côté deambula pelas fábricas, sejam estas de tecidos, de produtos metálicos, de mobiliário, de café, entre outras, deixando-nos inicialmente perante o silêncio das gentes que habitam estes espaços até nos apresentar a alguns elementos. Aqui entra a espaços a ficção, mas também a realidade, com "Que ta joie demeure" a deixar-nos perante a heterogeneidade dos trabalhadores (entre os quais imigrantes portugueses), os seus períodos de descanso (veja-se uma cena na cantina), as suas ideias em relação ao trabalho, quase que nos apresentando a um espaço à parte do Mundo, onde estas gentes vivem alienadas de tudo o resto e se embrenham pelas máquinas. Nem todos os trabalhadores destes espaços laborais parecem estar satisfeitos, mas a Denis Côté parece mesmo interessar é a interacção entre estes seres humanos e as máquinas, deixando-nos perante o quotidiano das fábricas e abrindo espaço a uma reflexão sobre as mesmas. Não existe comentário directo sobre a desumanização destes espaços ou da rotina desgastante dos mesmos, mas nem por isso estas situações parecem deixar de estar visíveis, ou não estivéssemos perante locais onde os trabalhadores despendem mais de metade do seu dia útil, embora Denis Côté até veja alguma poesia neste "bailado" entre os Homens e as máquinas. Estamos longe do humor de Charles Chaplin em "Tempos Modernos" e até de um estudo exaustivo sobre o trabalho das fábricas, com Côté a observar com a sua câmara de filmar e a deixar as interpretações para os espectadores, pelo menos até romper com as barreiras do documentário e nos dar alguma ficção, se é que as barreiras entre os géneros interessam mesmo ao realizador. Logo no início do filme encontramos uma mulher a falar sobre relações de confiança para um contraplano invisível, sendo que estas bem poderiam ser aplicadas aos trabalhadores destes espaços (a própria mulher parece simbolizar a fábrica), cada um com uma função, quase em ritmo automático, fluindo ao ritmo das máquinas. A sonoplastia sobressai e ouvimos as máquinas a funcionarem, enquanto assistimos às gentes a trabalharem ao som da sua "música" neste documentário interessante, marcado por uma estranha beleza, onde somos deixados perante as estruturas de trabalho nas fábricas e a forma como estas influenciam aqueles que laboram nestes espaços.

Título original: "Que ta joie demeure".
Realizador: Denis Côté.
Argumento: Denis Côté.

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