26 abril 2014

Resenha Crítica: "Journey to the West" (Xi you)

 Pronto a oferecer-nos belas imagens em movimento a um ritmo extremamente contemplativo, Tsai Ming-liang coloca-nos nos primeiros minutos de "Journey to the West" perante o rosto do personagem interpretado por Denis Lavant, enquanto ouvimos a sua respiração, até posteriormente nos apresentar a um monge, coberto por uma capa vermelha, uma figura que vai protagonizar esta média-metragem. Anda vagarosamente, passo a passo, enquanto sai de uma estrutura escura. Posteriormente encontramos este monge (Lee Kang-shek) a perambular vagarosamente por locais da cidade de Marselha, contrastando a sua atitude meditativa perante a cidade a avançar a um ritmo fulgurante, surgindo desde logo uma dicotomia latente de culturas e modo de vida. Tsai Ming-liang pede que sigamos o protagonista a caminhar lentamente, quase que nos exasperando, enquanto o monge parece procurar o seu lugar no Mundo e a paz interior, ao mesmo tempo que somos compelidos a observar os cenários que o rodeiam. Sejam as pessoas que passam, a iluminação, os planos de longa duração, os sons, tudo acaba por ter o seu tempo para ser apreciado, num estilo muito próprio do cineasta, habituado a jogar com o tempo e com a composição dos planos, procurando exprimir a sua arte mesmo que esta esteja longe de criar consensos. Neste sentido, estamos perante um filme que muito tem de Tsai Ming-liang, a começar pelo protagonista, interpretado por Lee Kang-shek, nome presente em quase todos os filmes do cineasta, numa obra que remete também para "Walker", uma curta do realizador que fazia parte do projecto colectivo "Beautiful 2012", onde tínhamos o mesmo monge a caminhar lentamente, ainda que pelas ruas de Hong Kong. Em "Journey to the West", o cineasta tem um filme de grande beleza que certamente não promete agradar a todo o tipo de público. É um filme lento e assume-se como tal, tendo em vista o propósito de dar tempo para apreciar cada plano, cada imagem, cada som, ou seja, quase indo contra a corrente de blockbusters frenéticos como "Transformers", com Tsai Ming-liang a claramente querer passar uma mensagem em relação à Sétima Arte, mesmo que para isso tenha de alienar boa parte dos espectadores. Diga-se que "Journey to the West" nem sempre é fácil de apreciar, exige paciência, contemplação e ao mesmo tempo retribui-nos com toda a sua beleza e significado, expondo os ideais de Tsai Ming-liang que não tem problemas de nos colocar perante um mundo literalmente ao contrário. A imagem de Marselha ao contrário, remete também para um comentário do cineasta contra alguns dos valores defendidos, clamando atenção pela sua arte e pelo cinema, numa obra onde o mar pode unir a terra com o céu e um monge caminha calmamente contra a modernidade. Enquanto caminha, o monge é ignorado por muitos, observado com desdém por alguns e seguido com atenção pelo personagem interpretado por Denis Lavant. Neste sentido, o monge quase que surge como uma interpretação de Tsai Ming-liang, uma figura nem sempre apreciada mas que procura ir contra o sistema e manter os seus valores, neste caso, a sua arte, contando pelo caminho com os apreciadores dos seus filmes. 

Título original: "Xi you".
Título em inglês: "Journey to the West".
Realizador: Tsai Ming-liang. 
Elenco: Denis Lavant e Lee Kang-shek.

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