21 abril 2014

Resenha Crítica: "The Goddess" (Shen Nu)

 Uma das últimas obras da talentosa Ruan Lingyu, uma actriz talentosa do cinema mudo chinês, cuja vida terminou de forma prematura e trágica, "The Goddess" apresenta-nos a uma prostituta (cujo nome nunca conhecemos) que procura fazer de tudo para cuidar do filho no interior de uma sociedade marcada pelo preconceito e intolerância. Esta actividade profissional da personagem interpretada por Lingyu e a sua atitude protectora em relação ao filho dá um duplo significado a este "Goddess" do título, que tanto pode simbolizar uma "mulher perdida", ou seja, uma prostituta, mas também uma Deusa, neste caso uma divindade que procura proteger uma jovem criança de se embrenhar em maus caminhos. A actriz brinda-nos com uma interpretação comovente, intensa, transmitindo muito com o seu olhar, enquanto a sua personagem sofre por não conseguir ter outra forma para cuidar do filho, caindo nas malhas de um jogador (Zhang Zhizhi) violento. Esta conhece o jogador quando fugia da polícia, com este a ameaçar destruir a vida da personagem interpretada por Ruan Lingyu no caso desta decidir fugir, ficando diariamente com os ganhos da mesma. Ela bem tenta fugir, mas como percebemos esta situação revela-se difícil, sobretudo quando o proxeneta ameaça a integridade do filho da personagem interpretada por Ruan Lingyu. Por sua vez, a protagonista procura que o filho tenha uma educação na escola, gastando as poupanças que esconde do personagem interpretado por Zhizhi para que o rebento um dia consiga ter um futuro mais sorridente do que o seu, mas a criança logo é alvo de preconceito por parte de colegas e pais dos alunos, com estes últimos a pretenderem expulsar o mesmo. Estamos perante um melodrama competente, facilmente capaz de gerar emoção, com Ruan Lingyu a interpretar de forma sublime esta prostituta que vive tempos difíceis na cidade de Xangai, com este espaço citadino a ser representado de forma pouco simpática ao longo deste filme da "era dourada" do cinema chinês. Ruan Lingyu já tinha interpretado uma personagem do género noutros filmes, tais como "Spring Dream of an Old Capital" (1930), uma obra que também fora produzida pela Lianhua Studios, um estúdio onde esta tivera alguns dos maiores sucessos da sua carreira. Em "The Goddess" estamos perante uma obra que sobressai exactamente pela personagem interpretada por Lingyu, mas também pela forma terna como esta se relaciona e procura proteger o filho, embora pareça estar condenada à desgraça.

 Se Ruan Lingyu já era uma actriz de créditos confirmados em "The Goddess", já Wu Yonggang tem nesta obra a sua estreia na realização cinematográfica. Diga-se que é uma estreia em grande, com Yonggang, um dos cineastas de eleição de Chen Kaige, a ter em "The Goddess" um filme capaz de denunciar a pobreza e parcas condições em que viviam algumas pessoas na China deste período (o filme foi lançado em 1933), bem como uma estratificação social latente na incapacidade da prostituta em mudar de vida. Nesse sentido, a protagonista prostitui-se e encontra-se num modo errante de vida não por vontade própria, apresentando um bom carácter e fragilidades notórias, contrastando por exemplo com figuras como o jogador, mas sim por contingências da sociedade que não é capaz de prestar auxílio aos mais desfavorecidos, existindo aqui um forte comentário de pendor social. Essa situação é particularmente visível quando na escola os pais pretendem que o filho da protagonista seja expulso, contrastando com a opinião do director da instituição escolar que vê nesta oportunidade uma forma da criança fugir a um destino semelhante à sua progenitora. Frágil, sofrida, bela, intensa, esta Deusa protectora e mulher perdida ganha uma dimensão magnífica com a interpretação não menos memorável de Ruan Lingyu ao longo deste drama que demonstra uma faceta menos agradável da China deste tempo. Vale ainda a pena realçar o cuidado colocado em alguns pormenores, como desde o início a exposição do interior da casa da protagonista, não faltando a presença de tabaco e álcool, algo que deixa desde logo presente alguma imoralidade (aos olhos da época em questão) na personagem interpretada por Ruan Lingyu. Por vezes chamada de Greta Garbo chinesa, Ruan Lingyu tem em "The Goddess" um exemplo paradigmático de que o seu talento em muito se assemelhava à da "esfinge sueca", sendo capaz de nos comover, convencer, enternecer com a sua personagem, expondo um vulcão de emoções quando os close-ups nos deixam perante a sua face e temos a certeza de estar perante um grande talento. Estamos assim perante um drama mudo capaz de efectuar um forte comentário social, representando de forma nem sempre agradável a sociedade do seu tempo, ao mesmo tempo que nos deixa perante uma actriz magnífica e um filme não menos memorável.  

Título original: "Shen Nu".
Título em inglês: "The Goddess".
Realizador: Wu Yonggang.
Argumento: Wu Yonggang.
Elenco: Ruan Lingyu, Zhang Zhizhi, Keng Li.

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