29 abril 2014

Resenha Crítica: "Gare du Nord"

 A Gare du Nord é a maior estação de comboios da Europa e uma das mais movimentadas do Mundo, servindo destinos regionais, nacionais e internacionais. Esta estação é cenário e protagonista de "Gare du Nord", uma longa-metragem realizada por Claire Simon, onde as barreiras da ficção e do documentário se esbatem e se reúnem para esta interessante obra cinematográfica que teve honras de abrir a 11ª edição do Indielisboa. Em "Géographie Humaine" Claire Simon, com a companhia de Simon Mérabet, procurava explorar o espaço da Gare du Nord e os passageiros que frequentavam a mesma, exibindo um espaço quase apátrida, um não-lugar onde se juntam gentes de várias nacionalidades, religiões, culturas e personalidades, com muitas histórias para contar. Em "Gare du Nord" não temos Simon Mérabet, mas sim um conjunto de personagens ficcionais que se cruzam com seres humanos bem reais, ao longo deste espaço onde chegam e partem meios de transporte, embora os protagonistas pareçam espectros num limbo do qual não conseguem sair. A certa altura do filme parece que a narrativa vagueia ao sabor dos seus personagens, com estes a parecerem perdidos no interior da Gare du Nord. Sabem onde estão, mas não sabem para onde ir, com os seus rumos a parecerem incertos, a começar por Ismaël (Reda Kateb), um estudante de sociologia em pesquisa para um doutoramento sobre a estação como aldeia global, que efectua questionários a vários passageiros, embora nem sempre tenha muito sucesso. É num destes inquéritos que conhece Mathilde (Nicole Garcia), uma professora universitária, casada, que se encontra a fazer quimioterapia. Os dois vão metendo conversa. Palavra puxa palavra e gradualmente Mathilde acaba por ajudar Ismaël nos inquéritos mas também começa a nutrir sentimentos amorosos pelo mesmo. Nesse sentido, vamos assistir ao Mathilde e Ismaël, dois personagens ficcionais, a cruzarem-se com os espaços que Claire Simon já nos tinha apresentado em "Géographie Humaine", e até com alguns elementos do documentário, tais como um vendedor de arte vietnamita que ajuda a tia no restaurante da Gare du Nord. Temos também a loja de bijuteria, a loja de lingerie, enquanto estes dois entrevistam várias pessoas e ficamos a conhecer um pouco mais de cada um, incluindo daqueles que trabalham pelos estabelecimentos comerciais da Gare du Nord e aqueles que vagueiam sem rumo pelo local.

 Estes diálogos entre os personagens permitem a Claire Simon extrapolar o espaço da narrativa e abordar várias temáticas. Desde temas como a xenofobia, insegurança laboral, criminalidade, imigração, problemas entre pais e filhos, tráfico, a integração ou não dos universitários no mercado laboral, passando pelo quotidiano na estação, enquanto Claire Simon nunca nos faz esquecer que a sua protagonista é a Gare du Nord. É aqui que os seus personagens vagueiam, parecendo perdidos em busca de algo. Veja-se Sacha (François Damiens), um elemento conhecido por participar num programa de apanhados, que procura pela sua filha de dezassete anos de idade, que fugiu de casa e se encontra pela Gare du Nord. Este cruza-se com várias gentes, incluindo com Mathilde, mas também Joan (Monia Chokri), uma antiga aluna da personagem interpretada por Nicole Garcia. De vestes vermelhas e semblante vistoso, Joan estudou na universidade durante oito anos, tendo posteriormente enveredado por uma carreira longe da área de História, sendo uma agente imobiliária que tem constantemente de viver longe dos filhos. É sobre estes personagens que incide boa parte da narrativa de "Gare du Nord", com estes por vezes a parecerem espectros que vagueiam sem rumo e objectivo. Veja-se o caso de Mathilde quando Ismäel não lhe responde às mensagens e não atende as chamadas, mas também o próprio personagem interpretado por Reda Kateb, um estudante universitário sem grande confiança no seu valor e no seu futuro. No centro de tudo está a Gare du Nord, a estação por onde circulam milhares de pessoas, quase sem tempo para darem conta do que acontece a quem anda por esse lugar. Sacha logo se apercebe disso quando não consegue grandes informações sobre a sua filha, e nós também percebemos isso quando jovens se queixam de crimes por ali cometidos. Somos assim deixados perante várias gentes, desde empregados de limpeza, seguranças, funcionárias das lojas, gentes de diferentes grupos sociais e personalidades que se encontram neste lugar que a espaços parece à parte do Mundo. Deambulando entre a ficção e o documentário, Claire Simon tem em "Gare du Nord" uma obra capaz de explorar e extrapolar o espaço da narrativa, tornando-o protagonista de uma obra que sobressai não só pelo desenvolvimento da personalidade dos personagens, mas também pela integração destes junto do real, beneficiando imenso das interpretações discretas mas positivas dadas pelo quarteto destacado. Estamos perante histórias de ficção que se reúnem com a realidade ao longo de uma obra que pode e deve ser acompanhada por "Géographie Humaine", com ambos os filmes a complementarem-se e a formarem um díptico assaz interessante.

Título original: "Gare du Nord".
Realizador: Claire Simon.
Argumento: Claire Simon, Shirel Amitay, Olivier Lorelle.
Elenco: Nicole Garcia, Reda Kateb, Monia Chokri, François Damiens.

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