23 abril 2014

Resenha Crítica: "An Empress and the Warriors" (Jiang shan mei ren)

 Embora nem sempre consiga conjugar harmoniosamente a sua faceta de filme épico com os vários elementos de romance, "An Empress and the Warriors" consegue a espaços ser um wuxia competente, tendo como pano de fundo o território da China durante os "Dezasseis Reinos" (provavelmente 304 a 439 d.C.), em particular, o conflito entre os reinos Yan e Zhao. Realizado por Ching Siu-tung e com um elenco recheado de caras conhecidas como Donnie Yen, Leon Lai e Kelly Chan, “An Empress and the Warriors” remete-nos para uma batalha entre os dois reinos citados, na qual o Imperador Yan é atingido por uma seta e eliminado sorrateiramente por Wu Ba (Guo Xiaodong), o seu ambicioso sobrinho, que espera poder ascender ao trono. A liderança do Reino de Yan passa para Muyong Xuehu (Donnie Yen), um filho não legítimo do falecido e militar respeitado, mas perante alguma resistência da parte dos diferentes generais, sobretudo do ambicioso Wu Ba, o herdeiro decide passar o comando para Yan Fei'er (Kelly Chen), a filha do antigo imperador, procurando acalmar as hostes, apesar do facto desta ser uma mulher causar algum celeuma. Esta decide começar a efectuar treino militar, contando para isso com a ajuda de Muyong, o seu meio-irmão, líder de uma facção militar e protector, de forma a se preparar para liderar os seus homens nos combates. As cenas de treino são intensas, existindo uma certa desconfiança da parte dos soldados, uma vontade enorme de Muyong em ajudar e a certeza que Wu Ba vai fazer de tudo para a retirar da liderança, algo visível quando esta é atingida por uma seta à traição e ferida. Fei'er desaparece durante algum tempo, gerando alguma inquietação junto dos militares, enquanto se encontra a ser tratada por Duan Lanquan (Leon Lai), um eremita, inventor e curandeiro com um passado algo obscuro, que a descobre e desenvolve uma certa afeição pela protagonista. Durante este período, os dois desenvolvem uma relação amorosa, enquanto esta parece encontrar pequenos prazeres nestes momentos de lazer, longe da vida militar e política, pelo menos até ter de regressar ao dever, revelando finalmente a sua identidade a Duan. A imperatriz, com a ajuda de Muyong, comanda os militares no confronto contra o exército de Zhao, desferindo uma derrota no mesmo, pacificando temporariamente os dois reinos e passando o comando para Muyong, algo que não promete resolver o problema, com Wu Ba a planear eliminá-la e a todos os que se atravessem no seu caminho, ao longo de uma obra marcada por intensos combates, traições, reviravoltas e até uma paixão em tempos de guerra.

Liberdades históricas à parte, "An Empress and the Warriors" revela-se um wuxia relativamente competente, capaz de contar com alguns bons combates e uma satisfatória construção dos personagens, embora descure em alguns momentos o desenvolvimento da complexa teia narrativa que a espaços procura apresentar, revelando-se algo incapaz a explorar subtramas como as rivalidades entre os reinos e no interior dos homens liderados por Fei'er. Esta encontra-se longe de ser uma das fortes protagonistas femininas dos filmes do género (recuemos a "Come Drink With Me" e vejamos Cheng Pei-pei a fazer muito mais, com menos recursos de efeitos especiais a envolverem a narrativa), embora Kelly Chan seja eficaz a explorar as dúvidas desta mulher entre seguir a vida de Imperatriz para a qual não parece ter vocação ou avançar para um romance que invade a sua alma, com Leon Lai a formar com esta uma boa dinâmica, bem como Donnie Yen como Muyong. Yen dá credibilidade e algum carisma a Muyoang, um defensor dos valores de lealdade, muito ao jeito dos protagonistas dos filmes do género, protagonizando um acto marcante, onde sozinho consegue lutar contra uma imensidão de soldados, num momento de artes marciais meio épico (e a espaços non sense), que diz muito do desequilibro deste filme, que é capaz de nos oferecer boas doses de acção, embora se perca muitas das vezes na sua excessiva procura de grandiosidade. As ideias estão lá, nota-se que existe um esforço para dar uma dimensão humana aos personagens e para nos envolver nos combates, o romance convence, existe toda uma tentativa de criar um contexto político intrincado, marcado por traições várias e jogos de poder, mas nem sempre são exploradas, com Ching Siu-tung a também não parecer estar muito preocupado neste desiderato, mas sim em agilizar ao máximo a narrativa. Ching Siu-tung transporta-nos para uma obra a fazer recordar os wuxia produzidos pela Shaw Brothers em plenos anos 60, onde a acção surgia muitas das vezes como o ponto central do enredo, apesar de contar com efeitos especiais mais apurados e menos sangue do que um "One-Armed Swordsman", um filme onde, tal como em "An Empress and the Warriors", também encontrávamos valores como a lealdade, honra e um sentido notório de gestão de ritmos da narrativa. Entre o romance, o épico e o drama histórico, "An Empress and the Warriors" está longe de ser uma obra portentosa ou livre de falhas, mas consegue cumprir nos requisitos mínimos de entreter e proporcionar alguns bons momentos, sendo ainda marcada por algumas belas imagens em movimento.

Título original: "Jiang shan mei ren".
Título em inglês: "An Empress and the Warriors".
Realizador: Ching Siu-tung.
Argumento:  James Yuen, Cheung Tan, Tin Nam-chun.
Elenco: Donnie Yen, Kelly Chen, Leon Lai, Kou Zhenhai.

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