28 abril 2014

Resenha Crítica: "Educação Sentimental"

 Poesia, desencanto, gestos delicados, exageros, sexualidade, erotismo, lendas antigas que ressurgem no presente e invadem a realidade irreal da ficção de "Educação Sentimental", uma longa-metragem realizada pelo cineasta Júlio Bressane. Conhecido por uma independência na realização e uma personalidade vincada, Júlio Bressane traz-nos uma história inspirada na lenda de Selene e Endimião. A Lua apaixonara-se por Endimião, um mortal, algo que era proibido, com Zeus a condenar este último à imortalidade, mas também a um sono eterno, fazendo com que a primeira apenas o possa observar. "Educação Sentimental" é também um filme sobre observação activa, uma contemplação participativa, onde Bressane desperta os nossos sentidos enquanto nos apresenta a Áurea (Josi Antello) e Áureo (Bernardo Marinho). Ela é uma professora solitária, conhecedora e apreciadora de literatura, que muitas das vezes fala como se estivesse a recitar. Ele é prático, pouco culto, mas apreciador dos prazeres corporais, algo visível quando salienta que demorou para sair da piscina porque estava "de pau duro". Antes disso, Áurea observara-o atentamente enquanto Áureo estava na piscina, contemplando o mesmo, um pouco como a Lua contemplara Endimião. Ao invés de nos dar longos diálogos entre os personagens, Júlio Bressane dá-nos longos monólogos onde Áurea fala muito e suscita a curiosidade do jovem Áureo, interessado nas lições e trabalhos desta. Áurea escreveu duas obras de ficção mas nunca as publicou, enquanto Áureo parece contar com um passado conturbado (ou talvez até não), com o filme a explorar os momentos entre ambos, com os dois a aproximarem-se ao mesmo tempo que "Educação Sentimental" nos deixa perante um universo narrativo simultaneamente belo, bizarro e delirante, qual lenda que ganha vida diante do nosso olhar. 

O filme não tem o propósito de nos educar a nível sentimental, embora Áurea até dê umas quantas lições ao seu amado, enquanto Josi Antello sobressai como esta mulher algo exagerada na exposição dos sentimentos. Dança furiosamente, descalça e aparentemente frágil, declama poesia e debita conhecimento, nem sempre parece sentir, embora nutra sentimentos por Áureo, ao longo de uma obra onde a literatura e a realidade se unem, os mitos antigos ressurgem no presente e os sentimentos humanos surgem imprevisíveis como sempre o foram. Quem também é imprevisível é Júlio Bressane, com a sua atitude de desconstruir o filme numa espécie de making of a mostrar como elaborou algumas cenas e os ensaios a dessacralizarem as imagens em movimento apresentadas. E que belas imagens. Veja-se quando o casal de protagonistas é enquadrado nos cenários como se estivesse no interior de uma moldura, coberto por cortinas vermelhas, ao longo de um filme marcado ainda por uma enorme vivacidade nas cores. Os espaços verdejantes são disso exemplo, ao mesmo tempo que somos deixados perante exemplos de poesia e arte, com os quadros a permearem a casa de Áurea, mas também as porcelanas caras. Esta sabe que o seu interlocutor não conhece muito do que fala, tal como Bressane sabe que podemos não apanhar todas as citações e referências que nos atira, procurando estimular as nossas sensações e emoções, um pouco como a protagonista procura fazer a Áureo. Estes dois não sentem uma paixão louca, mas aproximam-se gradualmente, colmatando a solidão que cada um sente, embora nem sempre se compreendam. Estamos perante uma obra peculiar e irreverente, que mais do que ser compreendida pede para ser sentida, quebrando algumas regras cinematográficas e expondo-nos ao talento de Júlio Bressane para a realização cinematográfica.

Título original: "Educação Sentimental".
Realizador: Júlio Bressane.
Argumento: Júlio Bressane.
Elenco: Josi Antello, Bernardo Marinho, Débora Olivieri.

Sem comentários: