25 abril 2014

Resenha Crítica: "Abus de Faiblesse"

 O primeiro elemento que sobressai em "Abus de Faiblesse" é a sólida interpretação de Isabelle Huppert, com a talentosa actriz a interpretar Maud Schoenberg, uma realizadora que sofre um derrame cerebral, perdendo os movimentos de boa parte do lado esquerdo do seu corpo, incluindo a sua mão e a sua perna. Apesar de contar com filhos, a melhor companhia que Maud tem é Vilko Piran (Kool Schen), um vigarista que descobre enquanto se encontra a ver televisão e decide contratar para protagonizar o seu filme. Gradualmente Maud começa a desenvolver uma relação de proximidade e intimidade com Vilko, explorada ao pormenor durante o filme, com este vigarista a parecer ser o único que se preocupa com a cineasta, enquanto os filhos da mesma pouca atenção lhe dão. Vilko também é casado e tem uma filha pequena, embora esta relação nunca seja abordada com a devida assertividade, com o filme a procurar concentrar a maior parte das atenções na forma como o personagem interpretado por Kool Schen vai gradualmente ganhando a confiança de Maud, até lhe começar a extorquir elevadas quantias monetárias. De cheque em cheque, Vilko promete que pagará a dívida, embora saibamos que Maud está perante um vigarista e a ser um alvo fácil para este dar mais um "conto do vigário". Kool Schen consegue mesclar com eficácia o lado mais duro do seu personagem com o de uma preocupação por Maud que a espaços parece verdadeira, enquanto esta última surge apresentada também com as suas particularidades a nível comportamental, não sendo uma mulher isenta de defeitos, com o filme a embrenhar-se pelas profundezas da sua personalidade. O enredo do filme é baseado no caso verídico vivido por Catherine Breillat, a cineasta que realiza "Abus de Faiblesse", e transporta para o ecrã esta episódio que viveu com Christophe Rocancourt, um indivíduo que mais tarde viria a acusar em tribunal de se ter aproveitado do seu estado de fraqueza, com este a ser condenado em tribunal. Em "Abus de Faiblesse", Isabelle Huppert vive com intensidade esta mulher que a espaços parece gostar de controlar os homens, acabando pelo caminho também por ser dominada. Um dos primeiros momentos em que ficamos perante esta, encontramos a cineasta a ter um ataque, até acordar na cama do hospital, praticamente sem mexer os lábios e com os seus movimentos coartados. O processo de fisioterapia e recuperação é penoso e o filme não poupa esses pormenores, apresentando com enorme crueza a vida de Maud, uma mulher sarcástica, pronta a seguir os seus ideais, aparentemente independente embora acabe por se tornar dependente de Vilko.

 Vilko é um bon vivant, um homem que gosta de bons vinhos, tendo na arte de enganar os outros um modo de vida. Estranhamente Vilko e Maud acabam por formar uma ligação, embora esta acabe da pior maneira, algo que a personagem interpretada por Isabelle Huppert já deveria esperar, apesar do seu estado de saúde debilitado poder ter contribuído para algumas decisões menos pragmáticas. "Abus de Faiblesse" apresenta-nos esta mulher como alguém que fica no limbo entre cúmplice e vítima de um esquema de roubo, com cada cheque que passava a Vilko a tornar-se um hábito comum, embora a espaços também parecesse que realmente esta se acreditava na palavra do vigarista. Este aproveita-se da fraqueza da realizadora, mas ainda deixa a dúvida de poder ou não enganar Maud, com o filme a não ter problemas em apresentar o lado mais negro do ser humano, incluindo a hipocrisia dos filhos da protagonista em relação ao caso quando durante boa parte do tempo não queriam saber da progenitora. A certa altura do filme Maud responde que acedia a Vilko porque "ele estava lá", algo que expõe as fragilidades desta mulher que aparenta muitas das vezes ser forte, embora tenha as suas fraquezas que acabam por ser exploradas pelo vigarista. Diga-se que esta também está longe de ser apenas uma vítima, tratando Vilko com algum desdém durante boa parte do filme, parecendo muitas das vezes duvidar da inteligência do mesmo, rechaçando com prazer os avanços de cariz sexual do personagem interpretado por Kool Schen apesar de não repelir a sua presença. Não esquecer que Maud sempre soube que ele é um vigarista e foi o descaramento deste num programa televisivo que conduziu a cineasta a querer escolhê-lo para o papel de protagonista do seu novo filme, remetendo para a ideia de Catherine Breillart de não trabalhar com actores profissionais nas suas obras. A procura de Breillart em lidar com os seus fantasmas e a parecer procurar explicações para os seus actos, embora não as encontre paradigmaticamente, uma situação exibida nos momentos finais do filme quando a personagem interpretada por Isabelle Huppert diz que "era eu, mas não era eu", por vezes conduz a que "Abus de Faiblesse" tenha uma estrutura algo repetitiva, mas adequada aos propósitos da cineasta. Já o talento de Isabelle Huppert aparece bem presente ao longo do filme, com Catherine Breillart a saber aproveitar os vastos recursos da sua protagonista para nos oferecer um drama marcado por uma enorme crueza, sem procurar julgar os seus personagens e pronto a retratar um episódio negro da vida da cineasta.

Título original: "Abus de Faiblesse".
Realizadora:  Catherine Breillat.
Argumento:  Catherine Breillat.
Elenco: Isabelle Huppert, Kool Schen. 

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