23 abril 2014

IndieLisboa 2014 - Breve apresentação da programação

 Dia 24 de Abril o IndieLisboa está (finalmente) de regresso e promete despertar a atenção dos cinéfilos ao longo da sua duração. A 11ª edição do festival vai decorrer entre os dias 24 de Abril e 4 de Maio de 2014, contando com 226 obras cinematográficas (79 longas e 147 curtas-metragens), seleccionadas após a visualização de 4026 filmes enviados, algo que segundo a direcção do festival contribuiu para a elaboração de uma "(...) selecção oficial forte, original, diversificada e a apontar para os vários géneros de cinema". E realmente podemos encontrar vários destaques nesta programação do IndieLisboa 2014, a começar pelo regresso do Herói Independente, após alguma ausência, sendo Claire Simon a escolhida para esta secção que outrora já contou com homenagens ao prolífico Johnnie To, Shinji Ayoama, Edgar Pêra, entre outros. Nesse sentido, é exactamente com Claire Simon e o seu mais recente filme "Gare Du Nord" que abre a 11ª edição do IndieLisboa, sendo exibido dia 24 de Abril, às 19h00, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge. Nesta homenagem a Claire Simon vamos contar ainda com a exibição de "Coûte que Coûte" (1999), "Sinon, oui" (1997), "Mimi" (2002), "Ça Brûle" (2005), "Géographie Humaine" (2013, presente ainda na secção "Pulsar do Mundo"). Destas obras destaca-se desde logo "Gare du Nord", um filme de ficção que acompanha o documentário "Géographie humaine" dedicado ao mesmo tema: a Gare du Nord, em Paris. As histórias que se cruzam na maior estação da Europa são agora encenadas neste espaço mas reflectem a mesma ideia de passagem presente no documentário.

Com uma programação vastíssima para garimpar, o IndieLisboa desperta desde logo à atenção pelas sólidas escolhas oferecidas na "Director's Cut", uma secção que nos apresenta "filmes novos que mergulham na memória do cinema como sua principal inspiração e matéria-prima, incluindo documentários sobre realizadores e actores de culto e filmes experimentais que retrabalham o património visual cinematográfico". Neste sentido, vamos contar com longas-metragens como "Bertolucci on Bertolucci" de Luca Guadagnino e Walter Fasano sobre Bernardo Bertolucci; "Mr. leos caraX" de Tessa Louise-Salomé, um "um retrato do percurso e obra de Carax olhados na perspectiva do seu visionarismo, do modo como surgiu em cena com Boy Meets Girl e Mauvais Sang (1984/86) tornando-se uma figura de culto, secreta e polémica, de “aura maldita” com Les Amants Du Pont Neuf (1991), Pola X (1999), marcados pelas dificuldades de produção do primeiro e a má recepção pública do segundo, e o recente Holy Motors, genericamente defendido com estima pela crítica internacional."; bem como a estreia em Portugal da versão 3D de "Dial M For Murder" do mestre Alfred Hitchcock. Esta secção conta ainda transversalmente com a subsecção "Director's Cut em Contexto", onde vamos poder encontrar "Ansiket" de Ingmar Bergman; "Frankenstein" de James Whale; "Gestos & Fragmentos" de Alberto Seixas Santos; "Mauvais Sang" de Léos Carax; "Prima della rivoluzione" e "Stromboli terrra di Dio", ambos de Bernardo Bertolucci. Ainda fora das mais mediáticas secções competitivas, vamos encontrar as "Sessões Especiais", onde constam os muito promissores "3x3D" e "Centro Histórico". "3X3D" é uma produção Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura que percorre a memória e nos projecta num futuro tridimensional, contando com três segmentos, cada um realizado individualmente por Jean-Luc Godard, Peter Greenaway e Edgar Pêra. Já "Centro Histórico" reúne quatro curtas metragens de quatro realizadores: os portugueses Manoel de Oliveira e Pedro Costa, o finlandês Aki Kaurismäki e o espanhol Victor Erice. O filme resulta de "uma encomenda da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura para mostrar ‘as histórias que a cidade tem para contar’".

Passamos agora para a secção "Observatório" que conta com aquela que é uma das grandes obras cinematográficas presentes na programação do IndieLisboa 2014, o magnífico "Nobody's Daughter Haewon", um filme realizado por Hong Sang-soo. O filme chega pela primeira vez a Portugal, embora o prolífico cineasta já tenha entretanto lançado "Our Sunhi". Nesta secção encontramos ainda "Joe", o novo filme de David Gordon Green, uma obra que tem feito um interessante percurso a nível de festivais e recebido críticas positivas, algo raro na carreira recente de Nicolas Cage. Nesta secção encontramos claramente algumas das propostas mais fortes, ou pelo menos mais sonantes do festival. Essa situação é visível quando temos "Tom à la ferme" de Xavier Dolan, "R100" de Hitoshi Matsumoto, "The Second Game" (Al doilea joc) de Corneliu Porumboiu, bem como "Death Row II" de Werner Herzog. Pelo caminho existe ainda espaço para "Blind Detective", um filme onde Johnnie To, um dos nomes queridos destes festival, se espalhou um pouco ao comprido. De salientar ainda que nas curtas-metragens da secção "Observatório" vamos contar ainda com a presença de "Journey to the West", um filme realizado por Tsai Ming-liang, um nome apreciado aqui por estas bandas. Ainda no âmbito das curtas, o Observatório vai contar com "Cinzas e Brasas" de Manuel Mozos e "Jewels" de Sandro Aguilar. Saindo do Observatório, entramos agora na "Competição Internacional", uma secção composta por "primeiras e segundas obras nunca antes mostradas publicamente em Portugal", que conta com a exibição de onze longas-metragens e trinta e sete curtas-metragens. Entre as curtas vale a pena destacar "A Caça Revoluções" de Margarida Rego, um filme seleccionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2014, mas também o promissor "La lamp au beurre de yak", de Hu Wei, um filme que se desenrola no Tibete, onde um jovem fotógrafo itinerante convida as populações nómadas locais a deixar-se fotografar à frente de cenários icónicos da China moderna.

No âmbito das longas-metragens em competição internacional, vamos encontrar a língua portuguesa representada em "Amor, Plástico e Barulho", a primeira longa-metragem da realizadora brasileira Renata Pinheiro. Filmado no Recife, "Amor, Plástico e Barulho" "leva-nos para o mundo da música brega, onde tudo é descartável: o amor, a música, o sucesso. Jaqueline (interpretada pela actriz Maeve Jinkings que já vimos em O Som ao Redor) é vocalista da banda Amor com Veneno, onde actuam outros quatro bailarinos. Shelly é a nova bailarina da banda e sonha tornar-se uma cantora famosa e tomar o lugar da líder da banda, que admira e despreza. A decadência e o alcoolismo de Jaqueline oferecem a Shelly uma oportunidade de cumprir o seu sonho, mas neste mundo em que o sucesso e a fama têm uma duração muito curta, mais do que a fama, é o esquecimento que aproxima estas pessoas". Ainda nesta secção encontramos "Mambo Cool" de Chris Gude, um filme descrito no site do IndieLisboa da seguinte forma "Num universo de traficantes, de prostitutas, de drogas e de música cria-se um mundo decadente e meigo que acontece só ali, naqueles espaços fechados, nos momentos e nas memórias dos amigos, do absurdo e da vida. Os corpos, que como as casas não se movem, marcam em silêncios e gestos melancólicos o andamento da composição. Já os diálogos, cheios de graça, contam-nos histórias e sentimentos e revelam o espírito, esse que é como as ruas, sempre em movimento. De resto, a cidade da Colômbia onde é suposto o filme decorrer não existe, porque aqueles lugares sombrios e perdidos só por acaso ali estão. Mambo Cool é de um outro mundo: está numa paisagem entre o realismo e o simbolismo. O que existe de facto é a música que, tal como o pó, percorre o filme, une todas aquelas personagens e liberta-lhes o espírito". Vale ainda a pena realçar a exibição de três obras de 2014, "Historia del miedo" de Benjamin Naishat, "Los Ángeles" de Damian John Harper, "Matar a un hombre" de Alejandro Fernandez Almendras. 

 Ainda a nível competitivo, vamos encontrar a "Competição Nacional" de longas e curtas-metragens. Entre as longas vamos encontrar nomes conhecidos como Joaquim Pinto e Nuno Leonel, que "oferecem o já consagrado O Novo Testamento de Jesus Cristo segundo João, um documentário que vive da interpretação do texto bíblico por Luís Miguel Cintra; Sérgio Tréfaut, em Alentejo, Alentejo, provará que o cante alentejano ainda tem uma forte expressão – afirmação que, de certa forma, celebra também Abril; Tiago Hespanha e Frederico Lobo assinam Revolução Industrial, um denso mergulho no Vale do Ave, um olhar sobre a revolução que não passou pelas vidas dos habitantes que o rodeiam; Cláudia Alves mostrar-nos-á Tales on Blindness, um documentário sobre a presença portuguesa na Índia". Na secção de curtas, vale a pena realçar "Antero" de Ico Costa, "A Caça Revoluções" de Margarida Rego, "Jewels" de Sandro Aguilar, "Cinzas e Brasas" de Manuel Mozos, mas também "Boa Noite Cinderela" do promissor Carlos Conceição. Vale a pena realçar que "Boa Noite Cinderela", do realizador Carlos Conceição, foi seleccionado para a secção competitiva da Semana de Crítica do Festival de Cannes, na secção de curtas e médias-metragens. O cinema nacional também está em destaque na secção "Pulsar do Mundo", onde encontramos "Sangue na Guelra" de Inês Mendes Gil, um "documentário sobre o Projecto 12/15, criado pela Escola Intercultural da Amadora para combater o abandono escolar de sessenta alunos entre os 12 e os 15 anos, divididos por quatro turmas. Neste filme acompanha-se o regresso destes alunos à escola que agora lhes oferece a possibilidade de interagir mais directamente com o espaço e com os professores, para que, contrariando a imagem que têm dela, se sintam mais integrados e aproveitem o que a escola tem para lhes dar dentro e fora do contexto da sala de aulas. Ao conhecermos melhor estes jovens e as suas histórias, sem os vitimizar ou exaltar, conseguimos perceber também o quanto a escola pode ser ou não um espaço com que se identifiquem e até que ponto este projecto cumpre os seus objectivo". Ainda na secção "Pulsar do Mundo" vamos encontrar "Que ta joie demeure", o novo filme de Denis Côté ("Vic + Flo Viram um Urso"), mas também "Géographie Humaine" de Claire Simon e o intrigante "Iranien" de Mehran Tamadon. Realizador realizador iraniano exilado em França, laico e ateu, Tamadon "demorou três anos a convencer quatro compatriotas, defensores do regime iraniano, a passar uns dias com ele numa casa para tentar que todos pudessem viver a experiência de uma sociedade plural. Durante o tempo que passam juntos, e que o filme documenta, discutem-se as vantagens e desvantagens de uma sociedade secular, o véu, o aborto e a liberdade de imprensa".

 O IndieLisboa tem primado em edições anteriores por boas surpresas na secção "IndieMusic" e em 2014 promete continuar a manter essa tradição. Nesse sentido, temos algumas expectativas em relação a obras como "Springsteen & I" de Baillie Walsh e "Punk Singer" de Sini Anderson. Por fim, mas nem por isso menos importante vamos destacar a secção "Cinema Emergente", elaborada para "ajudar a preencher o vazio que muitas vezes permanece entre o espectador ávido de novos nomes ou linguagens e o circuito comercial de cinema". Entre os destaques desta secção apontamos desde já "Blue Ruin", um filme realizado por Jeremy Saulnier. "O título é apenas uma referência ao velho Pontiac azul que, no início do filme, serve de casa a Dwight, um mendigo que recolhe garrafas de plástico pela praia. A notícia da libertação de um prisioneiro que cumpriu pena por duplo homicídio faz com que este homem, aparentemente calmo, roube uma carrinha e uma arma motivado pelo desejo de vingança. É no processo que ficamos a saber o episódio que motivou o desejo de vingança, mas também que Dwight é, afinal, um assassino amador com uma estranha obsessão por armas. A vingança desenrola um inevitável ciclo de violência, mas o protagonista revela-se emocionalmente relutante em prosseguir o derramamento de sangue. É raro ver-se um vingador deprimido mas é precisamente esse traço que dá a Blue Ruin um rumo diferente". Nesta secção destacamos ainda "Obvious Child", um filme de Gillian Robespierre, "uma paródia às comédias românticas que, usando todos os seus ingredientes, exacerba-os, subverte-os, transformando o desamor numa divertidíssima sátira". A programação do IndieLisboa 2014 conta ainda com mais secções e eventos paralelos que podem esmiuçar ao pormenor em: http://indielisboa.com/indie/

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