27 fevereiro 2014

Resenha Crítica: "Robocop" (2014)

     Num futuro relativamente próximo, povoado por vilões unidimensionais e heróis reciclados de outros filmes, os Estados Unidos voltaram a invadir o Irão. O ano é 2028, mas o passar do tempo não parece ter tido efeito na modernização dos bairros pobres do Médio-Oriente, e assim em Teerão subsistem as ruas simples, com prédios baixos de dois ou três andares da cor da areia e inúmeros terraços até perder de vista. Os transeuntes, no entanto, não são os fervorosos adeptos do FC Tractor de outrora, nem o seu imponente líder bigodista, mas sim as dezenas de soldados norte-americanos que acompanhados e protegidos por máquinas de guerra imponentes e futuristas asseguram a paz e a segurança das populações locais. Enquanto assistimos e pensamos neste cenário familiar, uma repórter televisiva no local anuncia-nos em directo a iniciação de uma inspecção rotineira de segurança. Para assegurarem o seu próprio bem-estar os iranianos deverão sair à rua pacificamente e aceitarem ser alvos de um scan breve mas ligeiramente intrusivo, efectuado pelas máquinas de guerra norte-americanas, que posteriormente determinarão se os indivíduos inspeccionados são ou não uma ameaça para a segurança pública. Porém, estamos no Médio-Oriente, e não tarda até que de uma habitação surja um grupo de bombistas suicidas enfaixados em explosivos e de metralhadoras em punho, prontos a derramar sangue. A troca de tiros é violenta e emocionante, mas os bombistas são facilmente eliminados. Com a excepção de duas máquinas, o exército americano não sofreu qualquer baixa. O motivo de interesse da refrega só surge depois do seu culminar, quando meio encoberto pelo fumo das explosões, desorientado e indeciso, um miúdo irrompe no meio da rua com uma faca de cozinha na mão. Acabara de assistir ao martírio do pai e achava-se na obrigação de matar alguém. O medo, porém, impede-o de se mexer, e é sem resistência que uma máquina de guerra o inspecciona da cabeça aos pés e o metralha a sangue frio. A transmissão da repórter televisiva é prontamente interrompida.
     De volta ao estúdio, um Samuel L. Jackson com um cabelo estranhamente composto mas com o seu incontornável estilo habitual apresenta-nos de forma efusiva e contagiante à retórica comum dos mais retrógrados comentadores televisivos da direita norte-americana, ornamentada com referências gratuitas a Deus e à grandiosidade dos Estados Unidos da América. Em circunstâncias normais esta personagem seria descartada pelo espectador e encarada como um perfeito idiota graças à sua caricaturalidade, mas o carisma e o talento do actor fazem com que observá-la seja um gozo e um prazer, e é com alguma consideração que ouvimos o peso que lhe vai no coração. Pat Novak (nome sonante) é, efectivamente, um cidadão preocupado, devido à resistência com que a população do seu país está a reconhecer os benefícios dos avanços tecnológicos realizados no campo da inteligência artificial. Não estarão todos cientes de que a substituição de soldados por máquinas nos mais violentos cenários de guerra levou a uma redução sem precedentes no número de baixas no exército norte-americanos? Não seria benéfico estender este tipo de progressos ao território dos Estados Unidos para acabar de vez com o crime, ao trocar os agentes da polícia por máquinas mais eficazes e incorruptíveis? O próprio Novak chega a ser bastante explícito, numa cena posterior, na qual exclama, todo indignado: «I know some of you may think that this kind of thinking is dangerous, that these machines violate the civil liberties. Some of you even believe that the use of these drones overseas makes us the same kind of bullying imperialists that our forefathers were trying to escape. To you, I say... STOP WHINING!!!! AMERICA IS NOW, AND ALWAYS WILL BE, THE GREATEST COUNTRY ON THE FACE OF THE EARTH!». Este excerto chega a ser particularmente ilustrativo de uma característica do filme que foi praticamente inexplorada na obra original, que consiste na contextualização da utilização da inteligência artificial numa conjuntura política mais vasta, que ainda por cima tem alguns paralelos com a política militar desenvolvida actualmente pelos Estados Unidos da América e com a paranóia face ao inimigo externo e interno exacerbada pelo 11 de Setembro e visível recentemente com o excesso de zelo e de exercício de poder levado a cabo pela NSA. O interesse desta ideia parece esbarrar, contudo, na incapacidade do argumentista Joshua Zetumer para criar um discurso que se consiga elevar para além da mediania, assentando ao invés em frases feitas e expressões inúmeras vezes repetidas nos dias de hoje, com o propósito de criar um momento engraçado graças ao talento de Samuel L. Jackson, mas que fica inevitavelmente aquém do seu potencial.
     A exploração do contexto político não se fica por aqui, e ficamos também a saber que a personagem Samuel L. Jackson não passa de um representante privilegiado da OmniCorp, empresa responsável pela criação e venda (mediante a transacção de muitos milhões de dólares) das referidas máquinas. O CEO desta empresa é um tipo odioso e unidimensional interpretado com muita naturalidade por Michael Keaton, que quase nunca sai do seu moderno e amplo escritório no seu belo e gigantesco prédio onde costuma contar com a ajuda de dois ou três assistentes encarregues de lhe fornecer ideias sobre como convencer a população a revogar, mediante um referendo, a proibição da utilização de máquinas inteligentes em solos norte-americanos. Será com essa ideia em mente que o poderoso empresário se irá servir dos conhecimentos de um hábil e simpático cientista interpretado por Gary Oldman, criador de uma inovadora tecnologia capaz de fundir um homem com uma máquina e de criar, assim, uma espécie de robot com uma consciência, incapaz de assassinar crianças a sangue frio, e que se reconheça e possa ser reconhecido acima de tudo como uma espécie de ser humano.
     O papel de cobaia desta inovadora tecnologia coube logicamente ao nosso amigo Alex Murphy, um agente da autoridade interpretado com competência por Joel Kinnaman que quase dispensa de apresentações, pois não há nada que o distinga dos restantes protagonistas dos filmes de acção policial que estreiam todos os anos por este mundo fora. É um tipo estável e mais sensato do que a maioria e é honesto e leal para com os seus colegas e para com a sua família. Vive numa moradia dos subúrbios com uma bela e leal esposa interpretada por Abbie Cornish e um filho afável com que costuma ver jogos de hóquei numa espécie de televisor portátil. Ao contrário do que sucedeu no filme original a relação do protagonista com a sua família até vai acabar por desempenhar um papel relevante no desenrolar da narrativa, mas, como tantos outros aspectos da história, vai-se limitar a ser explorada à superfície. Murphy tem ainda um colega e amigo que no início do filme é alvejado (mas que, na tradição iniciada com a obra de 1987, não morre), numa operação levada a cabo de forma precipitada, sem um decreto ou autorização dos superiores, com o propósito de apanhar um vilão menor e desinteressante que infelizmente vai acabar por ser um dos antagonistas da narrativa.
     No seu todo este remake é uma obra mais ou menos bem estruturada por José Padilha, que consegue manter a narrativa relativamente interessante durante cerca de uma hora, à medida que vai complexificando, tendo em conta as suas limitações, o contexto no qual se insere a utilização e a aceitação das máquinas inteligentes em solo norte-americano, e acima de tudo nos instantes que se seguem à transformação de Alex Murphy em Robocop. O filme, ao contrário da obra original, foca-se de forma incisiva na ambientação e na resistência inicial do protagonista em relação ao seu novo estado, e na sua consciencialização de que, tecnicamente, só lhe resta um braço e a cabeça, depois de um ataque que não tem consciência de ter sofrido. O laboratório onde a personagem foi transformada é bem ilustrado pela câmara de Padilha, e conseguimos ver com bastante clareza onde foram gastos os cem milhões de dólares que constituíram o orçamento do filme. Nestes momentos o protagonismo do filme é partilhando de forma quase semelhante entre Gary Oldman e Joel Kinnaman, e o argumento faz questão de determinar de forma clara os desejos e as preocupações de cada um.
     O pior só nos chega quando depois desta fase, no seguimento de alguns momentos conturbados, Murphy decide servir-se das suas potencialidades e perseguir os verdadeiros criminosos por si próprio. Aqui, os plot holes tornam-se mais evidentes e o enredo mais desinteressante. O primeiro vilão, como referi, não acrescenta o que quer que seja à narrativa, e não passa de uma ponte mal elaborada em direcção a um inevitável desfecho. As sequências finais, porém, acabam por recuperar algum do entusiasmo perdido nos minutos anteriores, graças a algumas reviravoltas que sem serem surpreendentes conseguem dar-nos exactamente aquilo pelo qual ansiamos. Pelo meio há algumas cenas de acção por norma frenéticas mas perceptíveis, e nelas José Padilha volta a recorrer à câmara nervosa e à steadycam, fazendo-nos seguir de perto os seus intervenientes e envolvendo-nos com eficácia no meio da refrega, como já o tínhamos visto fazer em filmes com os da franquia “Tropa de Elite”.
     Em suma, longe de ser uma obra prima ou sequer uma obra memorável, “Robocop” sobressai como um filme de acção que apesar de inconstante consegue ser razoável, longe de corresponder à catástrofe que se agourava desde o anúncio do seu desenvolvimento. José Padilha conseguiu lidar com a turbulência indesejada típica de um projecto de grande orçamento e fazer uma abordagem distinta do filme original e o argumento de Joshua Zetumer acabou por ter algumas boas ideias, apesar da incapacidade do guionista para retirar delas todo o seu potencial e para alavancar o projecto a um patamar de qualidade superior. O elenco, por sua vez, foi competente, e deveremos certamente ouvir falar do sueco Joel Kinnaman num futuro próximo. É ainda curiosa a forma como este “Robocop” acabou por ser uma vítima por antecipação por parte de críticos ou de simples cinéfilos (estando eu próprio, em parte, incluído neste grupo), que de forma a contestar a tendência de Hollywood para elaborar remakes e sequelas torceram por um desastre inevitável e acudiram a favor da obra original, defendendo a sua imagem em vias de ser manchada. Na verdade, apesar de mais visceral e violento e de um modo geral mais emocionante, o filme de 1987 não é nenhum prodígio, e a imagem da franquia já tinha sido desgastada por duas sequelas sofríveis. Mais antiga ainda do que a tendência de Hollywood de reaproveitar fórmulas de sucesso, é esta nossa característica de dramatizar certas situações e de nos repetirmos uns aos outros, pois de neuróticos temos muito. Curiosamente, nestas ocasiões, mesmo dentro da complexidade das nossas mentes caóticas e confusas, parecemos tão unidimensionais como o pior vilão deste Robocop de José Padilha.

Ficha técnica:

Título original: Robocop
Realização: José Padilha
Argumento: Joshua Zetumer
Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Samuel L. Jackson, entre outros.

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