21 fevereiro 2014

Resenha Crítica: "Hours" (Horas)

 Contido na sua ambição narrativa, interpretações e até na sua fotografia, "Hours" surpreende pela positiva, embora esteja longe de ser uma obra-prima da Sétima Arte. O enredo do filme desenrola-se num curto espaço de tempo, tendo como pano de fundo um hospital em Nova Orleães, durante as devastações provocadas pelo furacão Katrina, e acompanha Nolan Hayes (Paul Walker), um indivíduo que leva a sua esposa Abigail (Génesis Rodríguez) para o local, visto que esta se encontra prestes a dar à luz. Abigail acaba por falecer no parto, deixando o marido em desespero, sendo visível que este preferiria ter perdido a filha ao invés da esposa, ao mesmo tempo que vê a vida do seu rebento em perigo, enquanto o hospital se encontra a ser evacuado. Gradualmente todos os elementos saem do local, incluindo os médicos e o pessoal da enfermaria, conduzindo a que o protagonista fique isolado com a recém-nascida. A filha não pode sair do hospital visto que se encontra na incubadora, uma situação que piora quando o piso inferior é inundado, a luz falta, e Nolan tem de girar a manivela da bateria de 2m30s em 2m30s para o aparelho não se desligar. Durante este período, Nolan relembra episódios relacionados com a esposa, memórias do passado que procura manter vivas no presente, como que efectuando uma apresentação da mãe à sua filha, um ser humano que resultou do amor do protagonista com a amada. Não é fácil uma perda e "Hours" explora essa dicotomia entre a alegria de um nascimento e a tristeza de uma morte, com as consequências do Furacão Katrina a serem sentidas mas não expostas de forma gratuita e aproveitadora. No centro de tudo está Nolan, enquanto este é confrontado com um conjunto de desafios, seja ter de manter a sua filha viva puxando a manivela da bateria, seja procurando soro para esta, seja procurando chamar à atenção do helicóptero quando este passa pelo hospital, ao mesmo tempo que vamos sentindo o desespero deste personagem interpretado por Paul Walker. Este é o centro da narrativa, com Génesis Rodriguez a não ter praticamente lugar para sobressair nos flashbacks (e não só), com Heisserer a ser capaz de explorar a empatia que Nolan é capaz de gerar junto do espectador.

 Paul Walker nunca foi um actor conhecido pelo seu enorme talento e versatilidade, embora consiga disfarçar algumas das suas limitações nesta obra realizada por Eric Heisserer. Em "Hours", Walker oferece-nos uma interpretação competente, que tem mais para explorar do que o seu Brian O'Connor da saga "Velocidade Furiosa" (onde tinha de fazer de uma versão cool de si próprio), sobressaindo pela forma credível como expõe os sentimentos do seu personagem, um pouco como Eric Heisserer expõe os episódios da narrativa. Eric Heisserer estreia-se com um thriller que tem despertado mais a atenção por ser um dos últimos filmes protagonizados por Paul Walker do que pelo seu valor narrativo, algo que é injusto, sobretudo se tivermos em linha de conta a forma relativamente eficaz como explora esta história minimalista no seu cenário e enredo. Diga-se que "Hours" nem sempre convence nos flashbacks, a espaços revela-se demasiado melodramático e simplista, mas consegue gradualmente despertar a nossa atenção para a jornada de um pai que não pode adormecer ao longo de quase 48 horas, procurando manter a sua filha recém-nascida com vida, bem como as memórias da sua esposa. Fora do hospital a humanidade desesperada mostra o seu lado mais feroz, com a narrativa a ser pontuada por alguns trechos de noticiários que exploram a situação caótica do exterior, sendo que o protagonista também não está livre de perigo no interior do edifício, sobretudo quando tem de lidar com outros humanos. Os cenários interiores do hospital são escuros, o pessimismo domina, os desafios aumentam, os sentimentos inquietam-se e somos compelidos a seguir a narrativa, esperando para saber o que vai acontecer ao seu protagonista, algo revelador da capacidade de "Hours" em nos fazer interessar pelo mesmo. Comedido, a espaços inquietante e sincero na exposição de sentimentos, "Hours" não é um thriller memorável, mas consegue prender a nossa atenção, fazer-nos acreditar na história do seu protagonista e desejar que este salve a sua filha e a sua vida. 

Título original: "Hours".
Título em Portugal: "Horas".
Realizador: Eric Heisserer.
Argumento: Eric Heisserer.
Elenco: Paul Walker, Génesis Rodríguez, TJ Hassan, Nick Gomez, Judd Lormand.  

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