28 fevereiro 2014

Resenha Crítica: "300: O Início de Um Império" (300: A Ascensão do Império)

Sem ser uma prequela, nem uma sequela propriamente dita, "300: Rise of an Empire" expande os acontecimentos do primeiro filme, explorando o que estava a acontecer antes, durante e depois da Batalha das Termópilas, embora o foco central desta vez não esteja nos espartanos, mas sim Temístocles, um general ateniense. A diferença entre este protagonista e Leónidas é visível numa menor ferocidade de Temístocles, aparecendo com um semblante duro, mas menos ameaçador, tal como o exército liderado pelo personagem interpretado por Sullivan Stapleton também é composto por elementos mistos (militares e não militares), ao contrário de "300" onde tínhamos trezentos militares prontos a sacrificarem as suas vidas pelos seus ideais. A missão destes espartanos saldou-se numa derrota pesada, mas também numa vitória pírrica dos persas, algo que podemos encontrar ao longo de "300: Rise of An Empire", que começa desde logo por nos apresentar um dos planos finais de "300", com os Espartanos a jazerem moribundos no meio do chão, enquanto Xerxes corta a cabeça de Leónidas. O plano impressiona pela sua mórbida beleza, sendo igualmente perturbador, enquanto o filme logo nos procura apresentar a alguns acontecimentos anteriores ao massacre efectuado pelos persas aos "300 de Esparta", nomeadamente, a derrota de Dario (e não Dário como indicam as legendas portuguesas), líder dos Persas, perante Temístocles e os seus homens na Batalha de Maratona, com o protagonista a lançar uma seta que seria fatal para o pai de Xerxes (Rodrigo Santoro). A morte de Dario desperta a dor e o ódio em Xerxes e Artemísia (Eva Green), uma poderosa militar fiel ao líder que incita o personagem interpretado por Rodrigo Santoro a tornar-se num Rei-Deus e assim tentar vingar a morte do progenitor. Temos assim a transformação de Xerxes, apresentado como um homem comum até assumir a figura meio bizarra e imponente de "300", sem cabelo e pelos no corpo, acompanhado por vestes diminutas e douradas, com o enredo a explorar desde logo uma faceta algo mística, já aproveitada no primeiro filme, mesclando mitos e lendas da época, deixando-nos perante este poderoso antagonista.

Passamos então para a procura de Temístocles em unir Atenas, Esparta e todas as cidades gregas contra os Persas, enquanto estes últimos preparam a ofensiva na sua segunda Invasão à Grécia. A rainha Gorgo (Lena Headey) recusa a união, enquanto o marido se encontra reunido com o Oráculo, que como sabemos irá desaprovar a batalha com os persas, conduzindo a que Leónidas parta com um grupo reduzido de soldados para a morte certa. Enquanto isso, Artemísia reúne o seu contingente militar, procurando eliminar o contingente grego liderado por Temístocles. Noam Murro, que assume o lugar de Zack Snyder, o realizador do primeiro filme, explora os preparativos e a "arrumação" táctica de ambas as partes com alguma eficácia, visível na utilização da profundidade de campo para nos expor à armada numerosa dos persas, com os seus barcos a ultrapassarem e muito o número de recursos materiais e humanos dos atenienses. O cineasta acerta não só na exposição de ambos os exércitos, mas também no aparato das batalhas, na violência que rodeia as mesmas, e até nas tácticas militares, colocando frente a frente Temístocles e Artemísia na Batalha de Artemísio (que decorre em simultâneo com a Batalha das Termópilas de 300), explorando as suas personalidades distintas com poucas palavras, enquanto a personagem interpretada por Eva Green revela-se como o elemento mais interessante do filme. Eva Green tem a melhor interpretação e o melhor papel de "300: Rise of an Empire", transmitindo o ódio latente no olhar da sua personagem, temível e impiedosa, bela e louca, fazendo-nos torcer por Artemísia (algo que não abona em favor de Stapleton), enquanto esta vê os seus homens falharem miseravelmente perante as tácticas de Temístocles. O passado desta mulher, grega de nascença e persa por afinidade e coração, é exposto em flashbacks, que ajudam a explicar a sua personalidade e a dar alguma densidade à sua personagem (um pouco como acontecera com Léonidas no início de "300"), uma militar capaz de matar a sangue frio, cortar cabeças e beijar a boca da sua vítima, tendo em Temístocles um adversário à sua altura.

A câmara de filmar foca-se nos rostos de Temístocles e Artemísia, evidenciando a determinação de ambos. Sullivan Stapleton não tem o carisma, nem a ferocidade incutida por Gerard Butler no seu Leónidas, mas também não é uma desilusão total como Temístocles, surgindo relativamente credível como este homem capaz de liderar tacticamente os seus soldados. Já Eva Green deixa o seu talento à solta e cria uma personagem deliciosamente vilanesca, ultrapassando as limitações do argumento, um pouco como Lena Headey como a Rainha Gorgo, com as mulheres a terem papéis fundamentais ao longo do filme, colmatando uma lacuna de "300", embora volte a falhar nas questões políticas, algo que também acontecia no filme original. Se "300" não explorava devidamente a complexidade das relações políticas da época, já "300: Rise of an Empire" ainda é mais incompetente nesse quesito, para além de usar e abusar das redundâncias da narrativa (seria mesmo necessário ter a narradora, no caso, Gorgo, a dizer que o mar Egeu ficou manchado de vermelho quando estamos exactamente a ver essa cena? Seria mesmo necessário mostrar pela segunda vez a cena em que Dario é atingido pela seta?), parecendo existir algum medo que o espectador tenha perdido algo ao longo do filme ou tenha lapsos de memória semelhantes aos de Dory de "À Procura de Nemo". O argumento falha ainda na construção da questão de Esparta, abordada mas muito levemente, embora não incomode tanto como o sangue falso criado em CGI, que surge em doses generosas mas é pouco sentido. Muitas cabeças são cortadas, braços decepados, sangue jorrado, mas as espadas muitas das vezes surgem limpinhas, bem como os personagens, que vêem saltar sangue para as suas pessoas embora pouco pareça sujar os seus corpos, algo que distrai, sobretudo se tivermos em conta que as coreografias das lutas até são bem arranjadas. No entanto, vale a pena realçar mais uma vez o bom trabalho a nível visual, sobressaindo o aproveitamento da profundidade de campo, algo visível na cena da aclamação de Xerxes, na qual este olha para a imensidão do território e das suas gentes, mas também nas cenas marítimas, existindo um maior trabalho a nível dos cenários do que no primeiro filme (veja-se ainda a destruição de Atenas).

Tal como "300" fora baseado em factos históricos a partir da graphic novel homónima de Frank Miller, também "300: Rise of An Empire" parte também deste universo ficcional, mesclando factos históricos e fantasia, muitas liberdades e violência. As cenas de acção surgem estilizadas, tal como a sua fotografia aparece algo saturada, um pouco à imagem do primeiro filme, ao mesmo tempo que nos deixa perante intensas cenas de acção. "300: Rise of An Empire" não poupa em combates violentos, sobressaindo as batalhas marítimas, com os cenários cinzentos e chuvosos (elaborados mais uma vez com recurso a computação gráfica), por vezes marcado pelo nevoeiro, a darem o mote. O nevoeiro exacerba o mistério, ao longo de uma obra que nos deixa perante a Batalha de Maratona, a Batalha de Artemísio e por fim a Batalha de Salamina, ao mesmo tempo que nos exibe a grandiosidade do exército persa e o seu poder de fogo, contrariado pelos gregos. O ideal de democracia defendido pelos atenienses e os gregos em geral ao longo do filme é explorado de forma pueril pelo argumento de Zack Snyder e Kurt Johnstad, com Temístocles a procurar defender estes ideais, contando com a ajuda de alguns homens, embora a maioria dos seus soldados sejam pouco mais do que elementos unidimensionais (a narrativa ainda procura abordar a relação de Calisto, um jovem ateniense, e o seu pai, mas é demasiado pouco explorada), um pouco à imagem dos espartanos governados por Gorgo. Lena Headey ganha mais relevância do que o esperado ao narrar parte dos acontecimentos (tal como acontecera com o personagem interpretado por David Wenham no primeiro filme), com a sua personagem a surgir ainda em alguns momentos e esta a conseguir fazer muito com muito pouco, tendo uma das personagens mais carismáticas do filme. Noam Murro dá importância às mulheres e isso é visível ao longo do filme, integrando Artemísia e Gorgo no meio das batalhas dos homens, com estas a terem um papel fundamental. Claro que por vezes existe alguma incoerência e cenas que parecem deslocadas da narrativa, tal como uma cena de sexo entre o protagonista e Artemísia que parece mais uma oportunidade para o realizador expor os seios de Eva Green do que propriamente por necessidade narrativa, embora a sua face de deleite seja exposta novamente mais tarde e noutro contexto, que acaba por fazer um paralelo interessante no prazer que esta tem pela morte, exposto ainda nas inúmeras batalhas, para além de realçar uma faceta algo exploitation do filme.

"300" surpreendeu sobretudo pelo seu visual, dando novo fulgor aos épicos, embora tenha sido algo desaproveitado pela máquina de Hollywood, tendo efectuado um sucesso considerável a nível de bilheteira e alçado Zack Snyder ao estrelato, mas não causou ressonância para vários trabalhos do género. Para suceder a Zack Snyder (agora ocupado com o filme que reúne Batman e Super-Homem, após ter realizado "Man of Steel"), foi seleccionado Noam Murro, um cineasta que conta com um currículo algo apagado, mas que tem alguns pormenores interessantes ao longo do filme, respeitando o ADN de "300" ao mesmo tempo que tenta expandir os seus acontecimentos, embora nem sempre seja assertivo. Esta situação resulta numa obra que poderia ser exibida em conjunto com "300", com os filmes a complementarem-se (a visualização de "300" deve ser feita antes de se ver "300: Rise of An Empire"), sendo que num projecto ambicioso e competente os episódios destes dois filmes poderiam facilmente ser contados num épico de quatro horas e provavelmente financeiramente desastroso, pelo que a exibição de ambos em double feature será por si só uma experiência simpática, embora esteja longe de poder dar a densidade que estes episódios mereceriam. "300: Rise of An Empire" procura emular esse sucesso de "300", sobressaindo, tal como o primeiro filme, mais pelo seu visual do que pelo seu argumento, explorando a violência mas nem sempre fazendo que consigamos sentir a mesma, apresentando-nos um conjunto de episódios históricos com algumas liberdades a nível criativo mas nem por isso alienadoras. Vale ainda a pena realçar o facto do filme assumir a sua violência e não procurar esconder a mesma, evitando os estragos pueris de obras como "Man of Steel", onde temos muita pancada mas pouco sangue, expondo a mortalidade dos personagens e os ideais pelos quais lutam, recuperando ainda uma velha tradição de Hollywood em realizar filmes épicos baseados em episódios históricos. Este certamente não será o épico mais memorável da história do cinema, mas também não será o mais desastroso, revelando-se uma obra algo desequilibrada, que exacerba a acção em detrimento do desenvolvimento dos personagens, contando com algumas cenas de acção bem construídas, uma banda sonora fulgurante e uma Eva Green marcante, embora o argumento esteja longe de ser imaculado.

Título original: "300: Rise of an Empire".
Título em Portugal: "300: O Início de Um Império".
Título no Brasil: "300: A Ascensão do Império".
Realizador: Noam Murro. 
Argumento: Zack Snyder e Kurt Johnstad.  
Elenco: Sullivan Stapleton, Eva Green, Lena Headey, Hans Matheson, Rodrigo Santoro.

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