01 novembro 2019

Crítica: "Road House" (1948)

 Com a perna alçada em cima da secretária, pé descalço, cartas a viajarem de uma mão para outra, uma atitude confiante e um cigarro aceso à espera de ser tragado, Lily Stevens provoca impacto desde os trechos iniciais de "Road House", nomeadamente, quando chega ao clube nocturno gerido por Pete Morgan (Cornel Wilde). A câmara bem enfatiza essa preponderância ao deslocar-se sorrateiramente até revelar o semblante desta artista provocadora, decidida e sedutora. Dotada de um olhar que é capaz de expressar uma quantidade assinalável de palavras e sentimentos, Ida Lupino transmite estas especificidades desta espécie de femme fatale e o seu charme. A face da intérprete está em realce em diversos momentos. O realizador Jean Negulesco e o director de fotografia Joseph LaShelle exacerbam o magnetismo emanado pelo rosto da actriz, enquanto esta demonstra por diversas vezes que a sua Lily não é uma donzela indefesa ou alguém que se submete aos homens. Essa situação é particularmente visível quando a encontramos a esbofetear Pete, um acto que reforça as suas intenções de não abandonar o local e contraria os anseios deste indivíduo. Este encara-a como uma despesa demasiado cara, como mais um dos devaneios de Jefty (Richard Widmark), o dono do local, um indivíduo que não consegue conter os impulsos.

É o personagem interpretado por Richard Widmark quem contrata Lily, por quem se apaixona, ainda que não seja correspondido. Inicialmente parece apenas ingénuo e impulsivo, embora o intérprete faça questão de deixar  latente que a postura mimada e obsessiva deste antigo militar pode contribuir para gerar imensos problemas. Widmark tem os seus melhores momentos a partir do desenvolvimento da fita, quando Jefty começa a expor o seu lado mais perigoso e manipulador, pronto a deixar que uma ferida aberta no coração tome conta da razão. Está longe de saber ouvir um não, ou de assumir uma postura pragmática, ao contrário de Pete, com quem tem uma relação de amizade desde os tempos em que serviram o exército durante a II Guerra Mundial. Se o dono do clube nocturno fica imediatamente interessado em Lily, já o gerente apresenta uma atitude diametralmente oposta. Existe uma tensão notória a rodear estas duas figuras, mas também uma atracção que se desenvolve através dessa irrisão. O olhar surpreendido que Pete apresenta quando observa pela primeira vez a artista a tocar piano e a cantar não engana. Está encantado. A luz que a ilumina também não deixa mentir ou esconder o quanto a protagonista é capaz de brilhar mais alto e irradiar um encanto que impossibilita qualquer tentativa de desviar o olhar.

24 outubro 2019

Crítica: "Il traditore" (O Traidor)

 O fumo serpenteia pelos cenários e pelos rostos durante os diálogos que Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino) e Giovanni Falcone (Fausto Russo Alesi) trocam durante uma série de interrogatórios, quase a trazer à memória os filmes noir e a sublinhar o ambiente de incerteza e mistério em volta do futuro destes dois personagens e do contexto que os rodeia. Uma indefinição que é acompanhada por uma ideia de fugacidade, com a morte a parecer pairar a cada momento da vida destes elementos, um pouco à imagem desta fumaça. É um recurso utilizado por diversas vezes pelo realizador Marco Bellocchio e o director de fotografia Vladan Radovic ao longo de "Il traditore", um filme inspirado na história de vida de Tommaso Buscetta, um "soldado raso" da Costa Nostra, em particular, do ramo da "velha máfia de Palermo". Pierfrancesco Favino consegue exprimir a complexidade desta figura, as suas contradições, os seus dilemas, o seu apego à família e o seu lado mulherengo, a sua inteligência e pragmatismo, bem como os seus receios, a sua coragem e o seu carisma, com o intérprete a ter aqui um daqueles papéis que deixam marca quer no currículo, quer no espectador.

Favino tem mérito, mas bem pode agradecer a Marco Bellocchio. Não só pelo argumento, mas também por dar tempo para os personagens "respirarem". Observe-se os já mencionados encontros entre o mafioso e o juiz Giovanni Falcone, muito marcados por longas trocas de diálogos e um punhado de planos fechados que realçam as expressões dos rostos e os estados de alma. Diga-se que estes trechos permitem ainda dar a conhecer mais sobre os dois personagens, bem como conceder tempo para que se percebam melhor um ao outro e estabeleçam uma relação que tem espaço de sobra para crescer junto do espectador. Alguns dos traços do "chefe dos dois mundos" são expostos logo no início de "Il traditore", quando somos colocados perante a reunião de membros da "velha máfia de Palermo" e a "nova máfia corleonesa" no interior da mansão de Stefano Bontade (Goffredo Maria Bruno). A festa de Santa Rosália é o evento que decorre em pano de fundo, com os festejos e uma fotografia a não esconderem o mal-estar que contamina um período de aparente acalmia entre as facções rivais.

23 outubro 2019

Crítica: "Zombieland: Double Tap" (Zombieland: Tiro Duplo)

 Podem as partes valer mais do que o todo? "Zombieland: Double Tap" utiliza alguns dos ingredientes dos "road movies" e a busca que Tallahassee (Woody Harrelson), Columbus (Jesse Eisenberg) e Wichita (Emma Stone) efectuam para encontrarem Little Rock (Abigail Breslin), tendo em vista a colar uma série de episódios onde o humor domina e os zombies surgem em quantidade assinalável. Alguns desses fragmentos resultam em momentos dignos de atenção. Outros perdem-nos pelo cansaço e pela insipidez. No entanto, o argumento raramente apresenta consistência como um todo. A busca pela personagem interpretada por Abigail Breslin não conta com um verdadeiro sentimento de urgência, os mortos-vivos parecem capazes de infectar ou petiscar quase tudo e todos com excepção do quarteto mencionado, embora muitos dos problemas da película sejam esbatidos graças à química entre os intérpretes e a uma hábil construção de diversos gags ou a um ou outro trecho dotado de inspiração. Tal como no primeiro filme, uma música dos Metallica abre as hostes, enquanto assistimos aos quatro elementos a eliminarem os inimigos. Pouco depois, dirigem-se para a Casa Branca, um palco que permite adensar a peculiaridade que permeia as dinâmicas desta espécie de família disfuncional. A relação de Columbus e Wichita atravessa uma fase delicada. Little Rock quer mais liberdade e conhecer pessoas da sua idade. Tallahassee continua igual a si próprio, ou seja, tresloucado e espalhafatoso.

Uma parte considerável dos intérpretes consegue manter vivo o nosso interesse nos personagens. Jesse Eisenberg a inserir um estilo nervoso, focado e sardónico ao seu Columbus, um elemento feito à sua medida. Emma Stone a incutir uma postura dura e pragmática à sua Wichita. Woody Harrelson a ser... Woody Harrelson. A Abigail Breslin cabe contar com os fragmentos mais sensaborões. A juntar-se a estes elementos temos um número considerável de novos personagens, bem como um regresso para uma cena pós-créditos dotada de um tom picaresco (que, por si só, vale o preço do bilhete). Uma das estreantes que acompanha o trio formado por Tallahassee, Columbus e Wichita é Madison (Zoey Deutch), uma loira pouco inteligente e fútil que se envolve com o segundo e apresenta uma enorme habilidade para irritar o primeiro e a terceira. Zoey Deutch exibe alguma capacidade para aproveitar o potencial humorístico da personagem, ainda que aos poucos os comportamentos desta Paris Hilton de trazer por casa comecem a despertar mais cansaço e irritação do que risos. Quem tem pouco tempo de cena e, talvez por isso, não cansa são Luke Wilson e Thomas Middleditch como dois "duplos" dos elementos interpretados por Harrelson e Eisenberg. Já Avan Jogia é o elo mais fraco como Berkeley, um hippie que desperta a atenção de Little Rock. A falta de textura deste pacifista é notória, tal como a incapacidade dos envolvidos a estabelecer qualquer química entre Jogia e Breslin.

22 outubro 2019

10 anos de Rick's Cinema

Com mais paragens pelo meio do que a página do Facebook de Nuno Markl, o Rick's Cinema completa dez anos de existência. Uma duração que se justifica não só pelo amor ao cinema, mas também por uma incapacidade de deixar de escrever sobre filmes. Bem tento parar. Bem sei que a escrita consome demasiado tempo. Tempo esse que poderia utilizar a ver outras obras, a ler mais livros, ou a ter uma vida sociável mais activa. No entanto, existe sempre a sensação de que me falta algo quando não escrevo. Um vazio que não é preenchido com facilidade. Se estes dez anos permitiram adquirir o cinismo de saber que nunca irei ganhar um cêntimo com isto e de que as críticas nunca vão ficar como quero, também é certo que contribuíram para ter experiência suficiente para não dizer terminantemente que vou fechar o estaminé. É certo que o dia disto fechar já esteve mais longe. Mas, por enquanto, a sensação de paz interior que sinto durante o caos da construção de uma espécie de crítica faz com que o Rick's Cinema se mantenha. Isso e o gosto pelo cinema e por continuar a (re)descobrir filmes. Obrigado a quem tem acompanhado esta viagem.

Crítica: "A Rainy Day in New York" (Um Dia de Chuva em Nova Iorque)

 Em alguns casos não precisamos de saber antecipadamente a identidade do autor de uma obra para descobrirmos a mesma. Podemos errar, é certo. Mas em diversas situações o mais difícil é falhar. "A Rainy Day in New York" (Um Dia de Chuva em Nova Iorque) é um desses casos. Está escrito Woody Allen em cada fala, cenário, música ou tema, bem como na relação muito próxima do protagonista com a cidade de Nova Iorque. O trabalho de Vittorio Storaro na cinematografia realça precisamente as características deste espaço urbano, seja a luz que não esconde o cinzento de um dia chuvoso, ou a pluviosidade que traz consigo as contradições inerentes às relações humanas. Diga-se que Woody Allen e Vittorio Storaro, bem como a equipa responsável pelo guarda-roupa, parecem fazer de tudo para atribuir um toque de outro tempo e de classe a esta fita onde um casal que estuda na universidade de Yardley se prepara para protagonizar uma série de encontros e desencontros no interior da Big Apple. A partilhar os apelidos de Jay Gatsby e Orson Welles, Gatsby Welles (Timothée Chalamet) é um jovem adulto que não parece particularmente agradado com a faculdade, gosta de apostar, tem um talento notório para tocar piano e para contrariar as expectativas dos pais, um casal financeiramente abonado. O seu gosto está quase sempre centrado no mundo das artes e o seu coração bastante ligado a Ashleigh Enright (Elle Fanning), a namorada.

Elle Fanning imprime uma faceta algo ingénua e atrapalhada à sua Ashleigh, uma estudante universitária com uma inabilidade notória para utilizar referências cinematográficas e literárias. A oportunidade desta entrevistar Roland Pollard (Liev Schreiber), um realizador em crise, conduz o casal a passar um curto período de tempo em Manhattan. No entanto, os planos de ambos logo saem frustrados a partir da ocasião em que o cineasta convida a jovem a ver uma versão não finalizada do filme que se encontra a desenvolver. Aos poucos, Ashleigh é atirada para o interior de um turbilhão onde tudo e todos parecem querer envolver-se consigo, com Woody Allen a aproveitar a inocência e a curiosidade da universitária para deixá-la diante de situações intrincadas. Pelo meio, o cineasta aproveita reunir no interior de "A Rainy Day in New York" quer uma homenagem ao cinema e aos clássicos, quer uma sátira aos bastidores da Sétima Arte, um meio onde ninguém parece controlar os ímpetos diante de uma mulher. Diga-se que a mordacidade do cineasta é visível em diversos pontos da película, seja nos comentários relacionados com os preços do imobiliário no Soho, passando pela crise criativa de Pollard e a interacção entre várias figuras, até às falas sardónicas de Shannon (Selena Gomez), com quem Gatsby forma uma dinâmica na qual a irrisão parece ser o ingrediente secreto para a aproximação.

15 outubro 2019

Crítica: "Abominable" (Abominável)

 A candura e a leveza surgem como dois traços dominantes de "Abominable". Temas como o luto, as relações familiares, a amizade, a defesa dos animais e da natureza são abordados com um misto de sensibilidade e inocência ao longo desta obra de animação realizada por Jill Culton em colaboração com Todd Wilderman. A dupla não brilha, mas também não compromete. Sabe utilizar os lugares-comuns e abraçar a simplicidade, tal como consegue dominar os ritmos da comédia e atribuir dimensão humana a uma série de figuras que povoam esta fita recheada de elementos de road movie. Não falta um périplo em direcção aos Himalaias, humor, aventura, algum drama e diversos episódios que contribuem para unir alguns dos personagens e fazer com que estes amadureçam. Essa viagem resulta do encontro entre Yi e Everest. A primeira é uma adolescente solitária e independente, que perdeu recentemente o pai e colecciona uma miríade de trabalhos pontuais para reunir dinheiro tendo em vista a realizar um périplo perpectivado pelo progenitor. Yi pouco fala com a mãe e a avó, com quem vive, uma situação que preocupa as duas mulheres, sobretudo esta última, uma senhora com uma enorme predisposição para expor a sua opinião. O segundo é um Yeti, também conhecido como Abominável Homem das Neves, uma criatura que no início do filme consegue fugir do laboratório de Burnish, um milionário cínico e avarento que pretende provar que o personagem do título existe.

O que fazer quando se encontra uma criatura simultaneamente estranha e adorável? Yi forma uma ligação forte com a mesma, enquanto tenta escondê-la dos seus perseguidores. Entre os elementos que procuram capturar o Yeti estão o já mencionado Burnish, bem como uma equipa de resgate pouco perspicaz e a Dr. Zara, uma zoóloga. Esta procura proteger a integridade do Abominável Homem das Neves, embora esconda alguns planos que são facilmente perceptíveis. Diga-se que uma parte considerável das reviravoltas que ocorrem em "Abominable" são mais fáceis de adivinhar do que o vencedor de um possível duelo entre a Juventus e o Cova da Piedade, com o argumento a primar pela previsibilidade e pelo recurso a certos facilitismos que permitem resolver facilmente alguns problemas. Mas, regressemos à protagonista. É fulcral para o filme funcionar, com a sua independência e coragem a serem realçadas em diversos pontos, tal como a dor que ainda perpassa pela sua mente e a dificuldade que tem em comunicar com a família. Esta decide ajudar o "abominável" a regressar para junto dos familiares, no Evereste, tendo a companhia de Peng e Jin. O primeiro é um jovem baixinho, enérgico, anafado e bem-intencionado, que adora jogar basquetebol e aprecia a companhia de Yi, a sua vizinha. O segundo é o primo de Peng, um adolescente vaidoso, que vive para as redes sociais e é puxado para o interior de uma aventura que promete sujar os seus bebés, nomeadamente, os seus ténis novos.

08 outubro 2019

Crítica: "Dolor y gloria" (Dor e Glória)

 A tonalidade vermelha é utilizada de forma recorrente em "Dolor y gloria". Uma cor que realça o desejo, a tentação, a confusão e a inquietação, ou seja, elementos que constam em porções generosas no interior do ziguezaguear entre o presente e o passado que marca o enredo do terceiro capítulo desta trilogia informal iniciada em "La ley del deseo". A montagem atribui fluidez e pertinência a este constante vaivém entre o agora e o outrora, enquanto realça a recorrência de determinados motivos ou signos. A água é um desses elementos de ligação. Note-se quando encontramos Salvador (Antonio Banderas), na piscina, mergulhado por completo no interior da água. Uma cicatriz encontra-se em destaque no seu corpo, quase como uma ferida que se pode reabrir a qualquer momento, um pouco à imagem das recordações que povoam a mente deste cineasta em crise. Pouco depois, passamos para o passado, para o personagem principal durante a juventude (Asier Flores) a acompanhar a mãe (Penélope Cruz) e outras mulheres da aldeia, nomeadamente, quando estas lavam a roupa e expressam o desejo de nadarem nuas no rio. Diga-se que a água surge como um elemento de libertação ao longo da fita, seja da sujidade ou do desejo, ou das memórias cinéfilas do protagonista.

Antonio Banderas tem um trabalho de composição de personagem notável, ora através de expressões que dizem muito durante os silêncios e permitem transmitir a variedade de sentimentos que perpassa por esta figura, ora a incutir toda uma genuinidade e sinceridade às falas do realizador, ou a inserir pequenos gestos que revelam bastante sobre o mesmo. Note-se os trechos nos quais observamos Salvador a colocar uma almofada no chão antes de pousar os joelhos no solo, um simples acto que é inserido de modo subtil e permite reforçar o peso que o tempo tem no corpo deste homem. Esses efeitos provocados pelo avançar da idade são expostos com um misto de humor e drama. Veja-se a montagem com várias imagens anatómicas ou de exames acompanhada pelas falas do protagonista em voiceover a explicar o quanto o seu corpo aprendeu a conhecer a dor e as maleitas que o afectam. As dores nas costas são recorrentes, tal como as memórias que o fazem regressar à infância ou a outros tempos mais recentes mas igualmente marcantes na sua vida. Um regresso ao período em que vivia com Jacinta, a mãe, no interior de uma casa com parcas condições em Paterna, ou à educação religiosa com que contou, ou a um episódio onde o desejo tem um efeito arrebatador.

03 outubro 2019

Crítica: "Animus Animalis (a story about People, Animals and Things)"

 "Animus Animalis (a story about People, Animals and Things)" coloca-nos diante da vida e da morte, da realidade e da artificialidade, quase sempre a ter o seu subtítulo como mote. É um documentário que se embrenha pelo modo como as pessoas se relacionam com os animais e entre si, seja em actividades como a caça ou a cuidar de uma criatura ferida, ou a organizar uma exposição. Esses pontos de encontro e desencontro relacionados com a vida e a morte remetem em grande parte para a prática de taxidermia e para as figuras criadas pelos profissionais da área que povoam o documentário. Extremamente realistas, dotados de um olhar que tanto parece vazio como carregado de uma estranha atitude perscrutadora, estes bichos aparecem regularmente como um exemplo do perfeccionismo colocado pelos elementos envolvidos nestas práticas que tanto servem fins científicos como de exaltação de troféus de caça ou de recordação da memória de certas espécies. É uma prática que remete não só para um desafiar da morte e da decomposição dos corpos, mas também para o modo como o ser humano encara a finitude.

Sem recorrer à narração em off ou a "cabeças falantes", a realizadora Aiste Zegulyte apresenta-nos a caçadores, criadores de veados, taxidermistas e trabalhadores de um museu. Não ficamos a conhecer a personalidade de cada um destes elementos, nem esse parece ser o desejo da cineasta. O que ficamos a perceber é a dedicação de cada um ao seu ofício, seja a tratar de um animal ferido, ou a utilizar a pele de um réptil ou a criar os modelos para as figuras que elaboram com rigor. No museu, encontramos alguns destes animais em exposição, no interior de um ambiente que visa dar a conhecer quer o aspecto das criaturas, quer o seu habitat. A artificialidade destes cenários é contrastada com o início do documentário, quando o design de som potencia um pouco o mistério e um certo ambiente onde o real e o ficcional se confundem, os diálogos escasseiam e a neve assume um papel preponderante. Quem também assume um papel preponderante são os animais. Os close-ups nos rostos destes modelos inanimados potenciam essa relevância e um estranho efeito, com Aiste Zegulyte a captar com algum acerto a misteriosa aura emanada pelas criaturas, quase como se estas conservassem um segredo que não podem revelar.

30 setembro 2019

Crítica: "Summer Survivors" (Isgyventi vasara)

 Com uma banda sonora que se ajusta na perfeição ao ambiente terno, doce, melancólico e dotado de uma mescla de humor e drama do enredo, "Summer Survivors" surge como um road movie dotado de imensa humanidade, pronto a aquecer o coração e a criar um elo entre o espectador e os protagonistas. Uma ligação formada num período muito curto da vida de Indre (Indre Patkauskaite), Paulius (Paulius Markevicius) e Juste (Gelmine Glemzaite), em particular, durante uma viagem de Vilnius em direcção a uma unidade psiquiátrica situada em Palanga. Tal como numa parte considerável das fitas do género, a jornada conta com uma série de episódios que permitem dar a conhecer estas figuras e as suas especificidades, fortalecer as suas dinâmicas e colocar em perspectiva os seus receios, inquietações e desejos. Temas relacionados com a depressão, o transtorno bipolar, o suicídio, a solidão e a incompreensão no que diz respeito às doenças psicológicas são abordados com delicadeza, quase sempre com este trio e os seus intérpretes em foco. Diga-se que a tríade conta em alguns momentos com a companhia de Danguole (Vilija Grigaityte), uma enfermeira cuja saída de cena proporciona alguns dos trechos de maior humor da fita.

Indre é uma psicóloga e investigadora que pretende estudar os comportamentos das pessoas que padecem de tendências suicidas. Os seus planos iniciais são colocados em stand-by quando Algis (Darius Meskauskas), um psiquiatra experiente e deveras peculiar, decide colocá-la a cuidar dos pacientes da clínica para onde a protagonista se dirigiu no início da película. A necessidade de transportar Paulius, um doente que padece de síndroma bipolar, para uma unidade médica em Palanga, bem como de conduzir Juste, uma jovem adulta que tentou cometer suicídio, a esse local, leva a que a investigadora seja incumbida de conduzir o carro que leva a dupla. A partilhar o nome próprio com a personagem principal, Indre Patkauskaite é convincente a espelhar o lado introspectivo e recheado de inseguranças da investigadora, bem como a afeição que esta desenvolve em relação a Paulius e Juste. Markevicius imprime um tom inicialmente pouco falador à sua personagem, até demonstrar as dúvidas que a inquietam e deixar o sentido de humor deste indivíduo aparecer. É um elemento dotado de complexidade, que tem consciência do monstro que o consome e tarda em largar, com o actor a exprimir com desenvoltura a mescla de pessimismo e optimismo que rodeia este homem. Note-se os seus diálogos galanteadores junto de Juste, pontuados por alguma espirituosidade, ou o momento mais intenso em que expõe o modo como os outros se começam a desinteressar gradualmente da sua doença e, consequentemente, da sua pessoa.

26 setembro 2019

Crítica: "L'heure de la sortie" (A Hora da Saída)

 Os raios de sol que perpassam pelos cenários e pelos corpos dos personagens de "L'heure de la sortie" (A Hora da Saída) são captados com enorme precisão pela fotografia de Romain Carcanade, bem como a presença das nuvens acinzentadas que cobrem o território e adensam o mistério e a sensação de intranquilidade em relação aos acontecimentos que rodeiam o enredo. Esse nervosismo é colocado em evidência desde os trechos iniciais da fita, em particular, quando observamos um professor de francês a atirar-se da janela de uma sala de aula, tendo em vista a cometer suicídio. O substituto é Pierre (Laurent Lafitte), um docente aparentemente descontraído, que se encontra a terminar uma tese sobre Kafka e se depara com uma turma do nono ano composta por alunos intelectualmente precoces. Destes estudantes destaca-se um sexteto que conta com planos muito particulares e parece carregar na alma o peso dos males do Mundo, com o grupo a captar rapidamente a atenção do protagonista e do espectador.

Existe quase sempre uma certa dose de mistério em redor dos adolescentes que permeiam o enredo de "L'heure de la sortie", com o realizador Sébastien Marnier a adensar essa incerteza ao criar toda uma atmosfera opressora e de alguma tensão em redor das dinâmicas entre o professor e os alunos. Essa opressão é sublinhada quer pelos acontecimentos, quer pela banda sonora de Zombie Zombie (marcada por sintetizadores e uma enorme disponibilidade para exponenciar o nervosismo) e o aproveitamento dos cenários. Note-se a sala de aula, pontuada por dimensões diminutas que propiciam um sentimento de clausura, uma sensação que é constantemente reforçada através de uma série de planos compostos com aprumo. O grupo que sobressai é liderado por Apolline (Luàna Bajrami) e Dimitri (Victor Bonnel), os delegados de turma, uma dupla de expressões sérias, preocupada com o ambiente, desiludida com os adultos e dotada de um enorme pessimismo em relação ao futuro. Os jovens intérpretes não poderiam estar melhor e a maturidade e o fatalismo que atribuem às suas personagens facilmente provocam impacto e inquietude.

25 setembro 2019

Crítica: "Rambo: Last Blood" (Rambo - A Última Batalha)

 Como controlar o riso? Este pode aparecer nas mais variadas situações, sejam estas de descontração ou opressão, de alegria ou tristeza. No caso de "Rambo: Last Blood" o riso pode surgir esporadicamente em ocasiões nas quais desfrutamos de mais informação do que os antagonistas, ou em episódios de alguma inquietação e nervosismo. O problema é que este também aparece devido a situações que resvalam para o exagero ao ponto de traírem a essência da saga e contribuírem para a fita cair no ridículo. A espaços parece que estamos diante das caricaturas de Rambo ao invés de ficarmos diante da complexidade desta personagem e daquilo que representa. Sim, continua atormentado pelo passado, em particular pela participação na Guerra do Vietname, é um representante das políticas governamentais que o criaram e abandonaram, permanece relativamente solitário e introspectivo. No entanto, essa densidade é esvaziada no interior de um banal filme de vingança que perde o seu pouco fulgor com o avançar do relógio. Quase tudo é sofrível e demasiado literal, sobretudo a partir do desenvolvimento, quando o argumento revela de vez todas as suas fragilidades e o realizador Adrian Grunberg deixa clarividente que não tem a habilidade de fazer muito com pouco. Ou seja, fica quase tudo "nas mãos" de Sylvester Stallone e no seu carisma.

Stallone volta a demonstrar a sua capacidade para atribuir profundidade à mais banal das falas e de captar a nossa atenção. A sua persona confunde-se com Rambo e Rocky, as duas personagens mais marcantes da sua carreira. O actor sabe disso e tem procurado manter vivas duas franquias que permanecem com alguma chama. No caso de "Rambo: Last Blood" esse fogo é demasiado fátuo, com a alma do filme a desencontrar-se constantemente do corpo. Essa alma é visível nas palavras finais da personagem, bem como no início da fita, quando aparece como um "cowboy" solitário, à chuva, com uma capa a fazer recordar um poncho, a tentar salvar vidas. Esta procura de salvar vidas e adormecer os traumas são maioritariamente esquecidos a partir da ocasião em que uma vingança é colocada em prática e os ecos de "Taken" e dos filmes de cerco são sentidos. Como aparece esse desejo de vingança? Recuemos um pouco. Nos momentos iniciais da fita, encontramos John Rambo a viver no interior da propriedade da sua família, tendo a companhia de Maria (Adriana Barraza), a sua empregada e amiga, bem como de Gabrielle (Yvette Monreal), a neta desta última. Em defesa de algumas das parcas virtudes do filme, importa salientar que ligação forte entre estas três personagens é estabelecida com alguma eficácia e concisão, com o protagonista a surgir praticamente como uma figura paterna para Gabrielle.