21 março 2019

Crítica: "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (2004)

 Quantas vezes desejámos apagar algum episódio negativo da nossa memória? Uma situação embaraçosa, uma relação menos positiva, a dor provocada pela morte de alguém próximo. Todas essas experiências contribuem para aquilo que somos e para aprendermos ou não com as mesmas. É uma aprendizagem dolorosa, mas imprescindível. No entanto, a espaços é praticamente impossível travar aquele desejo de nunca termos vivido determinado episódio ou de fazermos com que o mesmo deslize da nossa mente em direcção ao ocaso do esquecimento. "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" coloca-nos diante de uma realidade onde é possível apagar as recordações que temos de outras pessoas. Os utilizadores desta tecnologia são sobretudo casais desavindos que de forma mais ou menos ponderada recorrem aos serviços da Lacuna, Inc., uma clínica especializada neste tipo de operações, liderada pelo Dr. Mierzwiak (Tom Wilkison). É certo que apagar as recordações dos episódios vividos ao lado de outra pessoa não parece a decisão mais razoável, sobretudo quando tomada de ânimo leve, mas manter a razão em questões relacionadas com o amor é uma tarefa hercúlea que nem sempre é possível de concretizar.

Michel Gondry deixa-nos perante o nascer e o findar de uma relação e do renascer inesperado de sentimentos desvanecidos, enquanto passeia pelo interior da mente de Joel Barish (Jim Carrey), um indivíduo que procura reverter o processo de extinguir Clementine Kruczynski (Kate Winslet) da sua memória. Esta decidiu recorrer aos serviços da Lacuna, Inc. para apagar as recordações dos episódios que viveu com o protagonista. Ele desespera devido ao facto da namorada não o reconhecer, até descobrir que foi extinto da mente daquela que outrora foi a sua amada. Decide copiar o acto dela. No entanto, ao ser adormecido e colocado perante as memórias que pretende apagar, Joel não só é confrontado com os episódios finais da relação como com aqueles que marcaram o apogeu da mesma e o nascer do amor por Clementine. Apagar o que é mau é fácil, mas o que fazer quando chega a vez de eliminar os acontecimentos nos quais a felicidade prospera? Num registo mais contido do que em filmes como "The Mask" ou "The Grinch", Jim Carrey consegue transmitir de forma exímia a faceta introvertida e melancólica do seu personagem, bem como o amor que este sente pela antiga namorada e o ressentimento que explana em determinadas ocasiões da fita. Diga-se que o intérprete consegue ainda que constatemos o desespero que Joel começa a denotar a partir da ocasião em que se arrepende de ter dado a ordem para apagar Clementine e o esforço que este faz para a manter junto das suas recordações.

13 março 2019

Crítica: "Sabrina" (1954)

 É doce. É mordaz. É elegante. É dramático. É romântico. É protagonizado por Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden. É realizado por Billy Wilder. É simplesmente encantador. Falamos de "Sabrina", um romance pontuado por uma atmosfera semelhante a um conto de fadas, ainda que dotado dos habituais comentários acutilantes e mordazes de Billy Wilder sobre a sociedade dos EUA. Esse lado de conto de encantar é visível logo nos momentos iniciais, quando Sabrina Fairchild (Audrey Hepburn) apresenta em voiceover a mansão dos Larrabee e os membros desta família. O discurso da jovem começa com um "once upon a time", enquanto ficamos diante dos diversos espaços da casa, seja a piscina coberta e a descoberta, os campos de ténis e os luxos que povoam as várias divisórias, com o trabalho a nível da escolha e decoração dos cenários a permitir realçar a opulência financeira deste núcleo familiar. Quando os conhecemos, encontram-se imóveis, quase como se fossem figuras de um museu de cera, enquanto tiram um retrato que provavelmente irá transmitir uma falsa sensação de harmonia, embora esconda as personalidades e a alma de Oliver (Walter Hampden), Maude (Nella Walker), Linus (Humphrey Bogard) e David (William Holden). 

Oliver é um empresário vetusto, conservador, peculiar e extremamente endinheirado, que procura esconder de Maude, a sua esposa, que não deixou de fumar. O casal tem dois filhos, Linus e David. Linus é o mais velho, com Humphrey Bogart a inserir uma personalidade inicialmente pragmática, cínica, solitária e sarcástica ao personagem, um empresário que praticamente lidera os negócios da família. Já William Holden é exímio a expor o feitio extrovertido, irresponsável e mulherengo de David, um indivíduo que colecciona divórcios e conquistas. Sabrina é a filha do motorista desta família, Thomas Fairchild (John Williams), um indivíduo leal e conservador, que habita com o seu rebento no interior da mansão dos seus superiores. Esta sente uma paixoneta por David desde muito nova, indo ao ponto de observar os comportamentos deste com as mulheres, apesar do boémio estar longe de evidenciar qualquer tipo de interesse pela sua pessoa. "Don't reach for the moon, child" comenta Thomas junto da filha. A jovem parece disposta a desafiar o destino, embora também se desanime ao ponto de tentar cometer suicídio. Após uma tentativa falhada de terminar com a sua vida, Sabrina parte para Paris, tendo em vista a participar num curso de culinária. 

10 março 2019

Crítica: "On the Beach" (1959)

 "On the Beach" é um filme de actores, temas e mensagens, de personagens prontos a despertar empatia, dotado de enorme humanismo e de um romantismo contagiante. A sua cinematografia é quase sempre sóbria, elegante e capaz de deixar o destaque nos intérpretes, enquanto a banda sonora ajusta-se na perfeição a um tom que oscila entre o optimismo e o desalento. Estamos perante uma distopia de aromas melodramáticos, ou de um melodrama com traços de distopia, onde os efeitos nocivos das armas nucleares se fazem sentir e o aproximar da morte é combatido com os sentimentos mais quentes e a fuga à solidão. Esse calor advém também do carisma dos seus intérpretes. E que intérpretes tem "On the Beach". Ava Gardner, Gregory Peck, Fred Astaire, Anthony Perkins e Donna Anderson compõem o elenco e elevam o argumento, mesmo quando este segue caminhos mais óbvios ou procura não deixar espaço à imaginação. As figuras a quem estes dão vida sabem que a morte está a chegar. Uns entram em negação. Outros assumem uma postura mais fatalista ou pragmática. Todos procuram estar próximos daqueles que amam ou pura e simplesmente desafiar a solidão para um último combate que querem levar de vencida.

"The war started when people accepted the idiotic principle that peace could be maintained by arranging to defend themselves with weapons they couldn't possibly use without committing suicide" comenta Julian (Fred Astaire), um cientista, em determinado ponto do filme. É uma fala que resume um pouco o contexto que envolve os protagonistas, com estes a terem de lidar com as consequências nocivas do desfecho de um conflito bélico. A ameaça nuclear é um tema que permeia diversas distopias ou obras lançadas durante a Guerra Fria. "On the Beach" não é diferente. A chegada da radiação ameaça tudo e todos. Nos EUA a morte chegou a grande parte da população. Um dos sobreviventes encontrava-se no interior de um submarino, nomeadamente, o Capitão Dwight Towers (Gregory Peck), um indivíduo que perdeu a esposa e os dois filhos. No início do filme encontramos este militar e a sua tripulação a chegarem à Austrália no interior de um submarino. É um dos poucos países que ainda conta com vida humana, embora o aumento gradual da radiação faça com que tudo e todos percebam que a vinda da morte é uma questão de tempo. Todos sabemos que um dia vamos morrer. No caso dos personagens de "On the Beach" estes sabem que o ocaso da vida está a uma proximidade assustadora, algo que mexe com o quotidiano de cada um e com os planos que fazem para o futuro.

06 março 2019

Crítica: "Gräns" (Na Fronteira)

  Na sua segunda longa-metragem como realizador e argumentista, Ali Abbasi reúne com precisão elementos de fantasia, drama e investigação policial, enquanto se esgueira pelas fronteiras do realismo mágico, questiona o que é ser humano e aborda uma série de temáticas relacionadas com a identidade, o corpo, a sexualidade, a solidão e a dificuldade da nossa sociedade em aceitar a diferença. No centro de quase tudo está Tina, uma guarda fronteiriça. "Gräns" (em Portugal: "Na Fronteira") é quase todo seu e da sua intérprete. Eva Melander consegue realçar as dúvidas que apoquentam a sua personagem, a solidão que atravessa o seu olhar e a curiosidade que perpassa pelo seu ser, enquanto incute personalidade a esta mulher com características muito próprias. O seu olfacto é apurado ao ponto de conseguir sentir o medo, a vergonha e a culpa ou seja, algo que escapa ao nariz dos comuns mortais. A sua face apresenta características que fogem aos padrões de beleza da nossa sociedade. O seu quotidiano é marcado pela solidão e por uma sensação de deslocamento.

"Quando era criança, achava que era especial. Tinha todas essas ideias sobre mim mesma. Mas cresci e entendi que era apenas humana. Um humano feio e estranho, com um cromossoma defeituoso" expõe a guarda em determinado ponto de "Gräns". É uma afirmação que deixa em evidência algumas das suas inseguranças. Diga-se que estas não nasceram ao acaso, mas sim de múltiplas rejeições e do constante desprezo alheio. Note-se quando Tina é ignorada pelos vizinhos na entrada do hospital, após ter transportado os mesmos numa urgência, ou o comentário que um indivíduo efectua sobre a sua aparência, ou o modo frio como o namorado, Roland (Jörgen Thorsson), interage consigo. O combustível que alimenta esta relação não é o amor ou o desejo, mas sim a insegurança de Tina e o seu medo de estar sozinha. Observe-se a pouca intimidade de ambos durante o jantar ou a ver televisão, ou o desinteresse deste em treinar os seus rottweilers de forma a respeitarem a presença da guarda fronteiriça. A intercepção de um indivíduo que transporta um telemóvel que contém um cartão de memória com pornografia infantil é um dos momentos-chave para esta mulher, tal como a ocasião em que se depara com Vore (Eero Milonoff). Se o primeiro coloca a protagonista no interior de um caso de investigação a uma rede de pedofilia, já o segundo mexe com as emoções da guarda e intriga-a.

01 março 2019

Crítica: "Black Moon" (1975)

 Dotado de um ambiente semelhante a um delírio onde a fantasia e a realidade se confundem e a razão convive com a alucinação, "Black Moon" surge como uma distopia surreal na qual a fuga a uma guerra entre homens e mulheres conduz uma jovem a embrenhar-se por uma propriedade onde protagoniza uma série de episódios peculiares. Pouco fala e ainda menos dialogam consigo. "Black Moon" é filme de poucas palavras, mas de imensos gestos, de imagens marcantes e de situações que despertam impacto. Nem sempre privilegia a coerência, nem pediríamos tal coisa a Louis Malle. O cineasta e a sua equipa criam algo peculiar, estranho, que facilmente prende e repele a atenção, enquanto nos envolvem para o interior de uma espaço onde uma família conta com um modo de vida deveras bizarro e a presença de um vasto leque de animais é sentida. Não faltam ovelhas, cobras, lagartas, porcos-espinho, águias, baratas, ratos, gatos e formigas, bem como um unicórnio que desperta a atenção de Lily (Cathryn Harrison), a protagonista, que logo tenta entrar em contacto com este ser que apresenta um aspecto menos imponente e deslumbrante do que aquele ao qual estamos habituados a encontrar nos contos e lendas.

Cathryn Harrison consegue transmitir quer a estupefacção da sua personagem perante a realidade que encontra no interior desta quinta, quer a curiosidade desta e alguma da sua impaciência. Os close-ups precisos permitem realçar o rosto da jovem e deixá-lo exteriorizar o que as palavras nem sempre deixam dizer, enquanto somos compelidos a partilhar as suas emoções e um certo sentimento de surpresa. Alguns animais comunicam com ela, bem como as flores. Por sua vez, os seres humanos deste espaço parecem conseguir explanar aquilo que têm a dizer através do tacto, de um simples gesto, ainda que tudo isto possa fazer parte da imaginação da nossa protagonista. Os acontecimentos sucedem-se a um ritmo considerável, prontos a deixar-nos fora de pé, instáveis, nervosos, um pouco à imagem do que acontece com Lily. Esta deveria ter percebido os maus augúrios desde o início. Atropela um texugo, esbarra com fuzilamentos, encontra um pastor enforcado. A juntar a tudo isto, o sol raramente empresta o seu calor ao espaço por onde Lily circula. São as nuvens quem aparecem com regularidade, cinzentas, disponíveis a reforçar um ambiente a espaços ominoso. A cinematografia realça essa falta de luminosidade exterior, tal como a hostilidade de alguns espaços por onde esta mulher de longos cabelos loiros e tez pálida caminha até chegar à quinta onde entra quer para procurar abrigo, quer por curiosidade.

26 fevereiro 2019

Crítica: "A Clockwork Orange" (Laranja Mecânica)

 A câmara afasta-se num movimento de dolly out. Primeiro foca-se na face de Alex (Malcolm McDowell). Na sua malícia. No seu olhar pérfido. Na sua irreverência. Depois afasta-se. Exibe o corpo do protagonista e os membros do seu grupo, nomeadamente, Pete (Michael Tarn), Georgie (James Marcus) e Dim (Warren Clarke), a quem o primeiro chama de droogs. Explana a alma negra da leitaria Korova, o local onde o quarteto se encontra, um lugar recheado de manequins imóveis e desprovidos de vida. Tão desprovidos de vida como este quarteto é despojado de valores morais. Em compensação, ou descompensação, estão recheados de ódio e violência, de sentimentos maliciosos que libertam a cada noite onde provocam o caos e dilaceram a esperança. A apresentá-los encontra-se a câmara e o próprio Alex, o protagonista e narrador de serviço, mas também a paleta de cores e a música. As tonalidades brancas das vestes que o grupo utiliza remetem para uma pureza que estes não possuem, um contraste que é adensado pelo leite que consomem, um hábito quase inocente, ainda que o líquido esteja recheado de aditivos impulsionadores da violência. Os seus chapéus são negros, tal como o âmago de cada um, com o cuidado colocado na selecção do guarda-roupa e a atenção dedicada a determinadas tonalidades a serem exibidos em diversos momentos desta obra realizada por Stanley Kubrick.

O cineasta controla quase tudo. Domina a profundidade de campo com uma perícia notável. Os planos são construídos com uma meticulosidade evidente e dotados de uma simetria impossível de escapar mesmo ao olhar mais desatento. Os cenários seleccionados, decorados e expostos de modo a potenciar o ambiente que rodeia os acontecimentos que decorrem no seu interior. Observe-se o episódio que envolve o assalto de Alex ao spa de uma senhora rica (Miriam Karlin), conhecida por possuir imensos gatos. Inicialmente ficamos diante da apresentação de uma das salas, onde sobressaem diversos felinos que parecem obedecer pacientemente a Stanley Kubrick de modo a movimentarem-se apenas às suas ordens, algumas pinturas de pendor erótico, material para exercício físico, entre outros elementos que sublinham a personalidade deste espaço e da sua proprietária. Ao centro encontra-se a personagem interpretada por Miriam Karlin a fazer ginástica sobre um tapete vermelho e cinzento, até ser interrompida pela campainha. A tonalidade encarnada surge quase sempre associada ao perigo em "A Clockwork Orange". Neste caso não é diferente. É Alex quem toca. Espera atrair a atenção com um pedido de ajuda de forma a irromper com o bando pelo interior deste local e assim assaltar o mesmo e espalhar a capacidade de destruição de cada membro. Ela ainda exibe cautela, mas o criminoso consegue penetrar por este espaço.

22 fevereiro 2019

"Double Indemnity" - O livro e o filme

Walter Neff: "Yes, I killed him. I killed him for money - and a woman - and I didn't get the money and I didn't get the woman. Pretty, isn't it?"

 Se Walter Neff ficou sem o dinheiro e a mulher fatal, já os leitores e os espectadores de Double Indemnity continuarão a ter a oportunidade de revisitar o livro e o filme que partilham entre si o nome e a essência. Ambos contam com uma atmosfera de malaise, personagens de moral ambígua, a femme fatale, um protagonista aparentemente duro, traições, ou seja, imensos ingredientes associados aos noir. No cerne das duas obras encontra-se o plano que Walter e Phyllis efectuam para eliminar o esposo desta. O primeiro é um vendedor de seguros aparentemente perspicaz, que tem no momento em que se desloca a casa de Mr. Nirdlinger/Dietrichson, para renovar o seguro automóvel do mesmo, um episódio-charneira da sua existência. É nessa ocasião que conhece Phyllis e desde aí fica plantada a semente para um jogo de sedução que desemboca na morte do esposo da antiga enfermeira. Tudo é planeado para parecer um acidente, tendo em vista a que a viúva receba a indemnização dupla do título e os amantes possam mais tarde viver felizes para sempre. Claro que, ao estarmos numa obra noir, o destino da dupla não é a felicidade, mas sim a perdição ou a infelicidade, com os dois a percorrerem alguns caminhos tortuosos até chegarmos ao desfecho.

O livro é da autoria de James M. Cain. A fita é realizada por Billy Wilder e conta com um argumento inspirado na obra literária, escrito pelo cineasta e por Raymond Chandler. Ao colocarmos lado a lado o livro e o filme é possível observarmos algumas diferenças entre ambos, algo completamente natural numa adaptação de material literário para o grande ecrã. A começar pelos nomes dos personagens. O Walter Huff de Cain passa a ser Walter Neff, enquanto Phyllis Nirdlinger torna-se Phyllis Dietrichson na marcante fita do realizador oriundo da Galicia, embora a alma destes exemplares noir seja a mesma. Walter é duro e deixa-se apaixonar pela femme fatale em ambas as obras. Phyllis é manipuladora e sedutora quer no livro, quer no filme. Se a fita for visionada antes da leitura do livro, é praticamente certo que a tarefa de dissociar os personagens dos seus intérpretes será assaz complicada, sobretudo quando estamos perante os protagonistas, seja pelas interpretações marcantes de Fred MacMurray e Barbara Stanwyck, ou pela capacidade do argumento em transportar as especificidades de Walter e Phyllis para a tela.

17 fevereiro 2019

Os espelhos de Billy Wilder

 Em certo momento de Snow White and the Seven Dwarfs, encontramos a Rainha a questionar o espelho mágico: "Magic mirror on the wall, who is the fairest one of all?". A resposta é amplamente conhecida e também ficou marcada na cultura popular: "Famed is thy beauty, Majesty. But hold, a lovely maid I see. Rags cannot hide her gentle grace. Alas, she is more fair than thee". Quem também tem uma relação muito especial com os espelhos é Billy Wilder. Não sabemos se tinha o hábito de lhes fazer questões, mas o que é certo é que o cineasta conta com uma enorme habilidade para conseguir que no interior dos seus filmes os espelhos sublinhem certas sensações, ou simplesmente transmitam alguma informação, ou contribuam para uma revelação.

 Recordemos um dos exemplos mais paradigmáticos do modo sublime como o cineasta oriundo da Galícia utiliza os espelhos, nomeadamente, um trecho de The Apartment. É a partir de um espelho partido que C.C. Baxter (Jack Lemmon), o protagonista, descobre que Fran Kubelik (Shirley MacLaine) mantém um caso com Jeff D. Sheldrake (Fred MacMurray), o seu superior. O seu rosto aparece reflectido com a falha que divide o espelho em dois pedaços desiguais, embora aquilo que mais transpareça seja o quão quebrado ficou o seu coração devido a esta descoberta inesperada. Diga-se que o espelho permite ainda colocar em evidência o coração desfeito de Miss Kubelik devido a não ser verdadeiramente amada por Sheldrake, com o objecto a ter sido partido numa discussão entre ambos. É uma jogada de mestre para Billy Wilder expor a desilusão que percorre o rosto do personagem principal de The Apartment, mas também é demonstrativo do cuidado colocado nos pequenos pormenores que muito acrescentam ao filme.

 Os espelhos associados a uma revelação surgem ainda presentes em fitas como Some Like it Hot, The Fortune Cookie, ou A Foreign Affair. O primeiro exemplo remete para o trecho em que Jerry segura o seu espelho de bolso para retocar o batom. No entanto, ao espreitar o espelho, o personagem interpretado por Jack Lemmon depara-se com o reflexo dos membros da máfia que podem colocar a sua vida em perigo. Diga-se que em The Fortune Cookie encontramos uma utilização muito semelhante deste objecto, em particular, quando o aproveitador e desonesto advogado William H. Gingrich (Walter Matthau) descobre a partir de um espelho de bolso que a casa de Harry Hinkle (Jack Lemmon), o seu cliente e cunhado, está a ser vigiada por dois detectives contratados pela seguradora. São dois exemplos em que o humor também está presente, algo que contrasta com A Foreign Affair. Neste caso, o espelho é utilizado para fins mais dramáticos, com o reflexo de Phoebe Frost (Jean Arthur) a explanar a desilusão que esta sente ao ouvir o diálogo de John Pringle (John Lund) com Erika von Schlütow (Marlene Dietrich).

01 fevereiro 2019

Crítica: "Clímax" (2018)

 Gaspar Noé não está preocupado em contar uma história certinha ou em deixar-nos diante de um enredo demasiado elaborado. Está ainda menos interessado em desenvolver os personagens. Acima de tudo quer proporcionar-nos uma experiência. E "Clímax" é uma experiência cinematográfica que estimula as sensações, prende os sentimentos e arrasta-nos para o interior de um lugar onde a euforia pode dar lugar ao desespero, a libertação ser tomada pela opressão e uma sangria ser conspurcada por LSD. Desse néctar adulterado, não pelos Deuses, mas pela acção humana, resulta a inebriação, a fuga às barreiras que seguram a razão. Com esses alicerces quebrados, a saudável loucura da primeira fase do filme, sublinhada por uma miríade de danças onde os corpos e a câmara se soltam com vigor, é contrastada pelo avançar da violência física e verbal.

Actos loucos ocorrem enquanto Gaspar Noé deixa os seus actores e actrizes à solta e constrói toda uma atmosfera opressora que os envolve e ao espectador. Este é um dos maiores méritos do cineasta. A sua capacidade de nos fazer sentir. Primeiro, a euforia da dança, uma libertação a que assistimos entre a passividade de quem está sentado na cadeira e o fulgor de quem está a receber uma onda de energia musical, dançante, vibrante. Posteriormente, o receio, o medo do que pode a acontecer. A tonalidade vermelha, associada num primeiro momento de "Clímax" a uma certa vivacidade e erotismo, a um fulgor libertador e a uma afirmação da personalidade, continua a ser sentida na segunda fase da fita. No entanto, aparece ligada ao perigo, à cólera e ao descontrolar dos sentidos. Suspeitas são lançadas sobre quem conspurcou a sangria, diálogos acalorados são mantidos e a confusão instala-se. Daqui em diante o sexo, a violência, a confiança e a desconfiança dominam os gestos e as palavras.

25 janeiro 2019

Crítica: "Sleeper" (O Herói do Ano 2000)

 Escrever em 2019 sobre um filme de 1973 permite que tenhamos uma perspectiva de como este se insere no interior da carreira do seu realizador e a percepção de como resistiu ao chamado "teste do tempo", que é como quem diz, à sensibilidade de quem o observa. A desvantagem é que corremos o risco de escrever uma crítica que não acrescenta nada ao que já foi dito. No entanto, a quinta longa-metragem realizada por Woody Allen compele-nos a querer cometer a audácia de tentarmos dizer algo relacionado com esta obra que conjuga na perfeição uma série de ingredientes de comédia e ficção científica. Entre humor slapstick de primeira, falas dotadas de mordacidade, um argumento que exibe o fervilhar da saudável loucura e da genialidade do seu autor, um enredo que teima em contar com alguma actualidade e um conjunto de momentos que tardam em sair da memória, "Sleeper" coloca-nos diante de Miles Monroe, um "ateu existencialista teleológico" propenso a apaixonar-se e a desiludir-se com a mesma facilidade, que foi crioconservado em 1973 e acordado em pleno ano de 2173. Inicialmente tinha ido efectuar um exame de rotina. No entanto, a prima enviou-o sem autorização para o procedimento criogénico, um acto que resultou em duzentos anos de sono e uma miríade de consultas falhadas ao psiquiatra.

"I haven't seen my analyst in 200 years. He was a strict Freudian. If I'd been going all this time, I'd probably almost be cured by now" lamenta-se Miles em determinado ponto do filme. É um protagonista com diversos traços associados ao seu intérprete e aos personagens-tipo das suas fitas, tais como as neuroses, o nervosismo, as frustrações de cariz sexual, a ironia, a atrapalhação e a influência da educação judaica. O actor-autor é exímio a imprimir estas características a Miles, enquanto utiliza o seu corpo magro e a sua face expressiva ao serviço do humor. Essa "fisicalidade" é visível desde uma fase prematura da película, nomeadamente, quando o antigo proprietário de uma loja comida saudável e membro de um grupo de jazz é acordado por dois cientistas (Bartlett Robinson e Mary Gregory). Os seus movimentos corporais encontram-se temporariamente presos, um pouco à imagem da sua capacidade de raciocinar, uma condição que o compele a efectuar actos como tentar comer uma luva, lançar colheres e tartes ao rosto dos seus interlocutores, ou seja, a instalar a confusão. A perícia de Woody Allen para compor gags que se inserem com acerto no enredo fica demonstrada, tal como as dificuldades dos cientistas em manterem em segredo que descongelaram o protagonista, um gesto que desafia as autoridades. Estes fazem parte da rebelião e procuram que Miles descubra informações relacionadas com o "Aries Project", um projecto que se encontra a ser levado a cabo pelo "The Leader", o ditador que governa os EUA, agora Federação Americana.