09 janeiro 2019

Crítica: "Jusqu'à la garde" (Custódia Partilhada)

 Primeira longa-metragem realizada por Xavier Legrand, "Jusqu'à la garde" envolve-se com argúcia por temáticas relacionadas com a violência doméstica, o modo como os filhos lidam com o divórcio dos pais e as dinâmicas entre os progenitores e os seus rebentos. Será possível que um mau marido seja um bom pai? "Não quero que batas na mãe" diz Julien (Thomas Gioria), um pré-adolescente de treze anos de idade, a Antoine (Denis Ménochet), o seu progenitor. Esperamos uma palavra de conforto, ou um desmentido da parte deste último, mas aquilo que recebemos é um olhar fulminante, carregado de raiva e um sentimento de despeito difícil de conter. Segue-se um seco "eu encontro" da parte do responsável contra incêndios do Centro Hospitalar Lecorney, que logo desfaz as dúvidas do jovem. O objectivo de Antoine é saber onde Miriam (Léa Drucker), de quem se está a divorciar, encontra-se a viver com Julien e Joséphine (Mathilde Auneveux). Se esta última está quase a completar dezoito anos de idade e pode evitar os encontros com o pai, já o pré-adolescente é praticamente feito refém de uma batalha pela sua custódia enquanto tenta defender a progenitora das acções violentas e intempestivas do familiar.

Os momentos iniciais da fita remetem precisamente para a audiência onde as advogadas dos cônjuges procuram defender os interesses dos clientes junto da juíza, ao passo que esta última tenta absorver a informação de que dispõe, tendo em vista a a efectuar uma decisão justa. Filmados num estilo quase documental, os trechos relacionados com a reunião permitem expor duas visões distintas dos factos e explanar a perícia de Xavier Legrand a potenciar a tensão. Os planos fechados fazem com que o espaço da sala da juíza aparente tornar-se ainda mais diminuto, enquanto a câmara centra as atenções nos semblantes dos diversos interlocutores e ficamos diante da argumentação dos dois lados. Um texto de Julien, lido pela juíza, permite expor que o jovem receia o pai e não tem a mínima vontade de viver com o mesmo. Miriam quer a custódia total da criança e afastar-se do futuro ex-marido. Por sua vez, a advogada de Antoine pretende que este partilhe a guarda do jovem e tenta descredibilizar alguma da argumentação da esposa do seu cliente. Quem está a mentir ou a dizer a verdade? O medo que Antoine desperta nos filhos já deveria ser um indicador do lado em que está o problema, algo corroborado quando o encontramos com o pré-adolescente e percebemos a violência alimentada a inseguranças e desequilíbrios emocionais que carrega no seu interior.

05 janeiro 2019

Crítica: "Transit" (Em Trânsito)

 Começar uma crítica a citar o priberam não é algo propriamente original, mas "Transit" compele-nos a repetir esse acto e a descurar temporariamente a singularidade. Ao visitarmos este dicionário online, a palavra do título, traduzida para português, aparece com os seguintes significados: efeito de caminhar, marchar, passagem, movimento de veículos, morte ou passamento. Passagem é um termo que se aplica praticamente na perfeição ao momento em que se encontra a vida de diversos personagens desta longa-metragem. Estes encontram-se numa espécie de limbo, à espera de algo que não chega ou que está prestes a partir. A espaços também parecem aguardar pela morte ou pela notícia dela, com chegada da gadanha acutilante a fazer-se sentir em diversos trechos da fita. Em alguns casos, como o de Georg (Franz Rogowski), o protagonista, deixam-se levar pelo destino ou por um instinto de sobrevivência que se evidencia em situações intrincadas. O contexto assim o obriga, com boa parte do enredo a ter como pano de fundo a cidade de Marselha, após a ocupação da França pela Alemanha Nazi. Estamos em tempos onde o medo impera, naquele que é o terceiro capítulo da trilogia do "Amor em tempos de sistemas opressores" de Christian Petzold. Essa incerteza é notória desde os momentos iniciais do filme, quando encontramos Georg a ser incumbido de entregar duas cartas a Weidel, um escritor. Não consegue. Acaba a transportar Heinz, um amigo, em direcção a Marselha, ainda que este faleça a meio do percurso.

"Quer dizer, que apenas posso ficar se puder comprovar que não quero ficar?" pergunta Georg à dona do hotel onde fica temporariamente instalado, uma questão que sublinha de forma paradigmática o modo como Marselha é encarada pelos refugiados como uma cidade de passagem. Podem circular pelo local, mas apenas se não estiverem ali para criar raízes no território, uma situação que em certa medida quase traz ecos da intolerância de alguns sectores da sociedade contemporânea para com os migrantes. O contexto de "Transit" é outro, ainda que toque em elementos dos dias de hoje. É a França ocupada, uma nação em transe na qual a presença Nazi é sentida, seja através dos militares ou das notícias relacionadas com os campos de concentração. Uma transitoriedade que coloca o tempo num limbo onde diferentes tempos do passado e elementos do presente se reúnem. Os carros, o guarda-roupa e referências a obras como "Dawn of the Dead" incutem uma intemporalidade à narrativa desta longa-metragem, tal como os sentimentos e as emoções vividas pelos personagens. Amor, receio, medo, ressentimento, angústia, arrependimento, desilusão ou uma incapacidade para lidar com a realidade fazem parte do quotidiano dos diversos elementos que pontuam este drama, que o diga Georg, um indivíduo que procura sobreviver em Marselha, tendo consigo a documentação, as cartas e o rascunho da obra que Weidel estava a finalizar.

02 janeiro 2019

Crítica: "Undir trénu" (A Árvore da Discórdia)

 Uma quezília aparentemente banal entre vizinhos começa a ganhar proporções gradativamente inauditas e a transformar-se em algo violento, intenso e mortífero em "Undir trénu" (A Árvore da Discórdia), uma comédia negra com contornos de drama onde o melhor e o pior do ser humano surge ao de cima. Cada quintal aparece como uma espécie de trincheira, enquanto as palavras são utilizadas como pequenos golpes que antecedem os actos descomedidos. Um gato desaparece, um cão é embalsamado, os pneus de um carro são furados, uma motosserra é utilizada, câmaras de vigilância são instaladas e o nervosismo teima em não largar o quarteto que se envolve neste conflito. De um lado temos Baldvin (Sigurður Sigurjónsson) e Inga (Edda Björgvinsdóttir), um casal na casa dos seus sessenta anos, que perdeu recentemente o filho, fruto deste ter cometido suicídio, e viu Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), o outro rebento, regressar temporariamente a casa devido a estar numa fase complicada do seu matrimónio. Do outro espaço da barricada encontramos Konrad (Þorsteinn Bachmann) e Eybjorg (Selma Björnsdóttir), dois cônjuges que contam com uma relação marcada pela cordialidade e alguma frieza.

Uma parte considerável desta contenda tem a sua génese na enorme árvore situada no quintal de Baldvin e Inga. Esta tapa uma porção considerável do jardim do outro casal, que bem pede para que a árvore seja cortada. No entanto, a vizinha revela-se irredutível em relação a essa possibilidade. Edda Björgvinsdóttir imprime uma faceta simultaneamente perturbada, frágil e desagradável à sua Inga, uma mulher que tem no gato a sua melhor companhia e continua a acreditar que o filho não faleceu. Já Sigurður Sigurjónsson expõe a faceta sensata do seu Baldvin, seja junto do rebento ou da nora, ou a dialogar com os vizinhos. A espaços manifesta algum descontentamento do seu personagem em relação ao estado em que se encontra a esposa, para além de exibir com competência a vertente mais descontrolada do veterano a partir do momento em que a disputa adquire contornos mortíferos. Por sua vez, a Eybjorg de Selma Björnsdóttir conta com uma personalidade relativamente fria e controladora, tendo no seu cão uma companhia de relevo e no ciclismo um hobbie. A Þorsteinn Bachmann cabe dar vida a um elemento inicialmente ponderado, ainda que o realizador Hafsteinn Gunnar Sigurðsson consiga que quase todos os protagonistas fiquem à beira de um ataque de nervos.

31 dezembro 2018

Críticas e/ou classificações a filmes estreados em 2018 (circuito comercial)

Janeiro:

- The Killing of a Sacred Deer (4.5/5).
- L'amant d'un jour (4/5).
- Pop Aye (3/5). 
- Aus dem Nichts (4/5). 
- Ôtez-moi d'un doute (3/5).
- Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (4/5).
- Molly's Game (4/5).
- Call Me By Your Name (5/5).
- Mudbound (3.5/5).
- Kedi (3.5/5).
- Faithfull (1.5/5). 

Fevereiro:

- Nelyubov (4/5).
- Visages villages (4.5/5).
- Amor Amor (4/5).
- The Florida Project (4.5/5).
- Alias Maria (3/5).
- Phantom Thread (4/5).

Março: 

- No Intenso Agora (4/5).
- Como Nossos Pais (4/5).
- Lady Bird (3/5).
- Aparição (3.5/5).
- Jusqu'à la garde (4/5).
- Sandome no satsujin (4/5).

Abril:

Goksung (4/5).
- La ragazza nella nebbia (3/5).
- Ammore e malavita (3/5).
- The Death of Stalin (3.5/5).
- Soldado Milhões (3/5).
- Insyriated (3/5).
- Death Wish (1.5/5).
- Rampage (2/5).
- Chavela (3/5).
- Au revoir là-haut (3/5).
- The Place (4/5).


Maio:

- Martírio (4/5).
- You Were Never Really Here (1.5/5).
- Frantz (4/5).
- Submergence (2/5).
- Die göttliche Ordnung (2/5).
- As Boas Maneiras (4/5).
- Mr & Mme Adelman (3/5).
- Le Redoutable (3/5).
- L'atelier (4/5).

Junho:

- Les gardiennes (4/5).
- Nagai iiwake (4/5).
- Hikari (4/5).
- Jurassic World: Fallen Kingdom (2/5).
- Western (3.5/5).
- Columbus (4/5).
- Telle mère, telle fille (1/5).
- The Bookshop (1.5/5).
- Banshun (reposição).

Julho:

- Nico, 1988 (3.5/5).
- Lean on Pete (4/5).
- Leviano (1.5/5).
- First Reformed (4/5).
- Desde allá (3.5/5).
- Happy End (3.5/5).

Agosto:

- A Ciambra (3.5/5).
- Ant-Man and the Wasp (2.5/5).
- Ana, mon amour (4/5).
- Touchez pas au grisbi (reposição).
- Ascenseur pour l'échafaud (reposição).
- Pickpocket (reposição).

Setembro:

- Vazante (4/5).
- In guerra per amore (4/5).
- Mariphasa (3.5/5).
- Zimna wojna (4.5/5).
- Joaquim (4/5).

Outubro:

- Praça Paris (3/5).
- 9 Doigts (3.5/5).
- Como Fernando Pessoa Salvou Portugal (3.5/5).
- Lazzaro felice (4/5).
- A Star is Born (4/5).

Novembro:

- The Endless (3.5/5).
- Carga (3.5/5).
- Manbiki kazoku (5/5)
- Utøya 22. juli (4/5).

Dezembro:

- À bout de souffle (reposição).
- Pierrot le fou (reposição).
- Girl (5/5).
- Dogman (4/5).
- Roma (4/5).

28 dezembro 2018

Entrevista a Hafsteinn Gunnar Sigurðsson sobre "Undir trénu"

 Estreada na edição de 2017 do Festival de Veneza, a comédia negra "A Árvore da Discórdia" ("Undir trénu") tem efectuado um percurso assinalável por diversos certames internacionais, tais como o Toronto International Film Festival, o Fantastic Fest, Göteborg Film Festival, entre muitos outros. Terceira incursão do realizador Hafsteinn Gunnar Sigurðsson pelas longas-metragens, esta obra de origem islandesa chega a Portugal com o selo Cinema Bold, tendo estreia marcada para o dia 3 de Janeiro. Na semana seguinte poderemos encontrar "A Árvore da Discórdia" disponível em DVD e VOD, como é apanágio deste membro irreverente da família Alambique Filmes, o mesmo que já nos trouxe títulos extremamente recomendáveis como "A Criada", "Stop Making Sense", "As Boas Maneiras", "Thelma", entre outros.

"A Árvore da Discórdia" coloca-nos perante uma quezília aparentemente banal entre vizinhos que começa gradativamente a ganhar proporções inauditas e a transformar-se em algo violento, intenso e mortífero. Cada quintal aparece como uma espécie de trincheira, enquanto as palavras são utilizadas como pequenos golpes que antecedem os actos descomedidos. Um gato desaparece, um cão é embalsamado, os pneus de um carro são furados, uma motosserra é utilizada, câmaras de vigilância são instaladas e o nervosismo teima em não largar o quarteto que se envolve neste conflito. O argumento não poupa nas situações delirantes e escabrosas, uma situação que levou a que questionássemos Hafsteinn Gunnar Sigurðsson sobre o que este e Huldar Breiðfjörð trouxeram para o interior do mesmo e as suas fontes de inspiração: "A ideia partiu originalmente do Huldar, que escreveu a primeira versão do argumento. Não estávamos de acordo no caminho a prosseguir, pelo que tomei conta do desenvolvimento do argumento e assumi a escrita das novas versões do mesmo. A inspiração original para o enredo partiu de histórias reais. Temos imensos casos famosos na Islândia de conflitos entre vizinhos que giram em redor de árvores. Estes conflitos podem ficar bastante feios, por vezes violentos, ainda que sejam absurdamente engraçados. Alguns episódios são inspirados nesses conflitos, embora a história seja obviamente ficcional".

26 dezembro 2018

Top 2018 - 15 filmes que deixaram marca

 Terminou o Natal. O Sporting voltou a entrar em crise de resultados. Imensas famílias endividaram-se para demonstrar o amor pelo próximo e uma imensidão de pessoas prepara-se para trocar as prendas natalícias. Esta é também a célebre fase do ano em que a maioria dos sites e blogs lançam os seus tops anuais. O Rick's Cinema não é excepção. Nesse sentido, decidi publicar o meu top imensamente subjectivo sobre quinze estreias marcantes de 2018. Ou, se preferirem, um top sobre quinze estreias de 2018 que deixaram marca na minha pessoa. Para ajudar a justificar as escolhas decidi colocar os links das críticas em cada um dos filmes seleccionados (o Jusqu'à la garde apenas vai contar com um texto manhoso nos próximos dias).

1º - Manbiki kazoku: "É daquelas obras que não sai da mente, nem do coração com facilidade. Áspera quando tem que ser. Afectuosa quando menos esperamos. Sensível nos momentos certos. É um daqueles filmes que não se esquece, que arrasa, emociona, prende e exibe um realizador de eleição a fazer com excelência aquilo que de melhor faz. E que prazer é sair de uma sala de cinema com a sensação de que fomos simultaneamente encantados e arrasados por uma obra cinematográfica".
 
2º - Girl: "O intérprete tem em Lukas Dhont um apoio de peso, com o cineasta a conceder toda uma atenção aos gestos da protagonista e à sua relação com o corpo, sempre com uma mestria assinalável. Veja-se os trechos em que encontramos Lara a observar-se ao espelho, ou a retirar as protecções dos dedos e a expor os seus pés ensanguentados, ou a mexer no seu cabelo. Como conviver com a sensação de que não somos nós próprios? O exterior de Lara não corresponde totalmente ao seu interior. Esta situação desperta uma sede de mudança no âmago desta adolescente dotada de complexidade e enorme humanidade, que acompanhamos com enorme atenção e admiração ao longo daquela que é uma das obras emocionalmente mais poderosas do ano."

3º - Call Me By Your Name: "'Call Me By Your Name' é um filme sedutor e sensual, que inebria, apaixona, arrebata e estimula as sensações e emoções. É, também, uma obra dotada de enorme sensibilidade, que concede atenção aos gestos e às trocas de olhares, embora nunca descarte o poder da palavra, seja esta escrita ou falada".

4º - Zimna wojna
5º - The Killing of a Sacred Deer
6º - The Florida Project
7º - Visages villages
8º - Ana, mon amour
9º - Nelyubov
10º - Dogman
11º - Jusqu'à la garde
12º - Sandome no satsujin
13º - No Intenso Agora
14º - Columbus
15º - Nagai iiwake

Filme português - "Amor Amor": "Entre confissões e danças nocturnas, amores que se esfumam e outros que se reencontram, corridas madrugadoras ritmadas ao som da música "Ces Bottes Sont Faites Pour Marcher" e da libertação da alegria de viver, 'Amor Amor' aborda com profunda sensibilidade a complexidade e a emotividade que permeiam o amor e os sentimentos inerentes ao mesmo". 

22 dezembro 2018

Crítica: "Dogman" (2018)

 Existem papéis que marcam a carreira dos actores. Ao terminarmos de visionar "Dogman" é praticamente impossível não ficarmos com a ideia de que Marcello Fonte tem aqui o grande personagem do seu percurso artístico, aquele que o vai marcar daqui em diante. O intérprete insere um tom submisso e gentil ao seu Marcello, um indivíduo de aspecto franzino e olhos expressivos, que possui um pequeno salão de beleza para cães, situado em Magliana, na periferia de Roma. Essa fragilidade é transmitida por diversas vezes através de pequenos actos ou da linguagem corporal do intérprete. Note-se quando tenta evitar que Simone (Edoardo Pesce) não assalte a loja de venda de ouro contígua ao seu local de trabalho, com as palavras do protagonista a serem proferidas num tom pouco confiante ao mesmo tempo em que o corpo recua constantemente em sinal de receio. O personagem a quem Edoardo Pesce imprime uma faceta agressiva e opressora é um antigo pugilista viciado em cocaína, que aterroriza o bairro onde vive e comete uma série de crimes, algo que conduz alguns habitantes deste espaço da periferia a ponderarem a contratação de um assassino para eliminá-lo.

A relação entre Simone e Marcello é marcada pela ambiguidade e pela ascendência que o primeiro tem sobre o segundo. Observe-se o momento em que o protagonista pede para que o interlocutor não consuma cocaína na presença de Alida (Alida Baldari Calabria), a sua filha, ainda que este último ignore o pedido, ou o modo despreocupado como o delinquente avança para um assalto que mexe com a vida do primeiro. Se o personagem principal é uma figura que deambula por uma zona cinzenta, sendo capaz de actos de enorme gentileza com os cães e Alida, ou pouco recomendáveis como traficar cocaína e participar em assaltos, já o antigo pugilista é uma figura bruta, egoísta, pouco preocupada com aqueles que o rodeiam, que parece sempre disponível para destruir tudo em seu redor. Este encara o protagonista como alguém que pode controlar, embora, a espaços, deixe transparecer alguma confiança no mesmo, uma situação que atribui alguma complexidade às dinâmicas da dupla. O medo parece ser a razão primordial para Marcello não se afastar totalmente de Simone. A certa altura também parece nutrir alguma admiração pelo criminoso. No entanto, a partir de um determinado momento, é notório que o ressentimento, a raiva e o desejo de recuperar a dignidade começam a tomar conta do âmago do protagonista, algo expresso de forma paradigmática por Marcello Fonte.

14 dezembro 2018

Crítica: "Avanti!" (1972)

 É comum visitarmos um ou outro local com regularidade. Já conhecemos o percurso e o lugar, mas em algumas situações estes parecem ganhar características especiais que contribuem para que certos momentos permaneçam na memória. Tanto pode ser uma especificidade inerente à temperatura, ou pura e simplesmente a presença de alguém que encontrámos, ou o nosso estado de espírito do momento, entre outras particularidades que nos compelem a observar algo distinto em ocasiões aparentemente rotineiras. "Avanti!" é um filme que conta com um destino que já conhecemos, que é como quem diz, suspeitamos desde cedo como o enredo vai terminar. No entanto, é praticamente impossível deixar de desfrutar do percurso que efectuamos ao longo das suas duas horas e cerca de vinte minutos de duração, seja pelos seus personagens, ou pela sensibilidade muito própria de Billy Wilder e a sua acidez nas observações, ou pela sua capacidade para captar as singularidades do território onde se desenrola a trama e utilizá-las ao serviço da mesma.

Caminhamos por terrenos bem conhecidos do realizador, ainda que nem por isso sejam menos agradáveis de percorrer, tais como a eficácia a reunir o drama, o humor, o romance e a melancolia no interior da narrativa. As características de Ísquia durante o Verão e das suas gentes contribuem para essa mescla de ingredientes de géneros distintos, com Billy Wilder e a sua equipa a transmitirem com acerto a personalidade deste espaço. Observe-se a presença da baía onde sentimentos e corpos libertam-se temporariamente de amarras sociais, ou um passeio que permite explanar algumas das especificidades das ruas, estradas e gentes da ilha, bem como a sensação de libertação que este lugar começa a trazer a uma personagem. Algumas dessas particularidades do território são expostas com recurso ao humor, tais como a burocracia local, a presença do crime, a personalidade temperamental de alguns habitantes, ou os hábitos de trabalho de diversos elementos. Note-se o modo quase religioso como as longas horas de almoço são respeitadas, ou como os Domingos são dias em que praticamente tudo pára, com "Avanti!" a aproveitar alguns dos lugares-comuns associados aos italianos ao serviço da comédia, ainda que a sua acutilância também esteja bem calibrada quando o assunto envolve cidadãos dos EUA.

10 dezembro 2018

Crítica: "Zimna wojna" (Cold War - Guerra Fria)

 É trágico quando duas pessoas se amam mas tardam em conseguir estar juntas. Se a vida não nos ensinou isso, François Truffaut já tratou de o fazer em obras como "Jules et Jim" e "La femme d'à côté" e Pawel Pawlikowski comprova com subtileza, perícia e classe em "Zimna wojna" (em Portugal: "Cold War - Guerra Fria"). Uma parte considerável dos ingredientes desta fita respeita os constantes avanços e recuos que marcam a relação da dupla de protagonistas. A câmara de filmar movimenta-se com graciosidade em busca dos sentimentos e dos corpos de onde estes fervilham. As elipses omitem informação, avançam o enredo e compelem-nos a imaginar o que terá acontecido aos personagens principais, sobretudo nos longos períodos em que se encontram separados, enquanto utilizamos as nossas experiências pessoais para ligar alguns pontos, uma situação que contribui para adensar um certo vínculo entre o espectador e os primeiros. Diga-se que para estes saltos temporais funcionarem e criarem no nosso âmago o desejo de especularmos o que terá acontecido nos tempos omitidos muito contribui a densidade dos protagonistas, as interpretações sublimes de Tomasz Kot e Joanna Kulig e a exposição eficaz do contexto histórico.

Pawel Pawlikowski volta a envolver-se pelo passado da sua Polónia, um pouco como em "Ida", com os acontecimentos que decorrem entre o final da década de 40 e a primeira metade dos anos 60 a influenciarem as dinâmicas de Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig), duas figuras com personalidades amplamente distintas. A história do amor impossível desta dupla é exposta em fragmentos que deambulam pelo tempo e pelos diversos territórios. Polónia, Alemanha, França e Jugoslávia são alguns dos países por onde circulam por um período de quinze anos. O enredo começa precisamente na Polónia, em 1947, quando encontramos Irena (Agata Kulesza) e Wiktor a gravarem músicas tradicionais junto da população rural polaca, tendo a companhia de Kaczmarek (Borys Szyc), o gerente administrativo da Mazurka. Estes pretendem reunir canções e danças típicas da Polónia e atribuir-lhes novos arranjos de forma a tornarem-nas mais apelativas para o público. Nesse sentido, decidem efectuar um concurso para encontrarem alguns elementos com potencial para integrar a banda. É neste concurso que Zula sobressai. Primeiro a cantar em dueto com uma colega. Posteriormente a solo, quando capta toda a atenção do olhar de Wiktor, com este a não esconder o forte efeito provocado pela jovem.

07 dezembro 2018

Entrevista a Bruno Gascon sobre "Carga"

Filme-denúncia duro, onde a felicidade raramente é sentida, a redenção é improvável de ser alcançada e a desesperança percorre os seus poros, "Carga" é uma das agradáveis surpresas do panorama cinematográfico nacional em 2018. O filme estreou originalmente a 8 de Novembro do corrente ano, tendo efectuado um percurso interessante em circuito comercial. O Rick's Cinema (via Take Cinema Magazine) teve a oportunidade de entrevistar o realizador Bruno Gascon sobre a sua primeira longa-metragem. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o que compeliu o cineasta a abordar o tema do tráfico humano, o trabalho de preparação com o elenco, a escolha dos cenários, entre outros assuntos. Entrevista originalmente publicada na Take Cinema Magazine.

Take Cinema Magazine: O Bruno Gascon escreveu o argumento de todos os filmes que realizou. Sente que essa é uma forma de manter os seus projectos mais pessoais? Como é que o "Bruno Gascon realizador" convive com o "Bruno Gascon argumentista" e vice-versa? Pode falar um pouco do seu processo de escrita? 

Bruno Gascon: É sempre mais pessoal quando é algo que é escrito por mim, claro. Por vezes é desafiante porque nem sempre tudo o que escrevemos é viável do ponto de vista da realização e nesse sentido tenho que fazer cedências como argumentista para bem do filme. Por outro lado, acaba por ser uma vantagem porque quando chega a hora de filmar garantidamente sei o que quero fazer e qual era a intenção de cada cena quando a escrevi e permite-me também conseguir lidar melhor com imprevistos que levem a eventuais alterações durante a filmagem. Quanto ao processo de escrita, antes de escrever seja o que for investigo bastante e, sobretudo, falo com algumas pessoas ligadas ao tema sobre o qual vou escrever, mas na verdade o essencial para mim é perceber de que forma eu, ou as pessoas que me rodeiam reagiriam a determinadas situações de forma a conseguir que o argumento se torne o mais real possível. Acima de tudo é um trabalho de observação.

TCM: Sabemos que já respondeu a esta questão várias vezes. No entanto, é praticamente impossível deixar de perguntar. O que o compeliu a abordar a temática do tráfico humano? Pode falar um pouco do trabalho que efectuou para pesquisar elementos sobre o assunto?

BG: Quando estudei em Amesterdão foi algo com que tive contacto, pois o tráfico para fins sexuais era algo bastante frequente, portanto já existia um interesse pelo tema. Ao regressar a Portugal comecei a trabalhar sobretudo na área documental e pude ter contacto com sobreviventes e as suas histórias ficaram-me na memória e inspiraram-me a pesquisar mais e a escrever o guião da Carga. Em termos de pesquisa foi muito importante esse background e também tudo o que pude ler sobre o tema. De igual modo foi muito importante ouvir o lado de quem trabalha no resgate às vítimas, ou seja, a Associação para o Planeamento da Família que se tornaram parceiros do filme. Queria que o argumento e o filme levassem a que as pessoas se colocassem nos sapatos de quem passa por esta situação (tanto das vítimas como dos traficantes e que as personagens tivessem zonas cinzentas levando a que o espectador saísse do cinema a pensar que isto não só acontece, como lhe poderia acontecer a ele.

06 dezembro 2018

Crítica: "Kimi no na wa." (Your Name)

 Não são raros os momentos em que "Kimi no na wa." deixa que as emoções tomem conta do enredo e do espectador. É um filme dotado de romantismo, candura e sentimento, que engloba no seu interior uma série de especificidades da cultura e sociedade japonesa e uma miríade de temáticas amplamente universais. No centro do enredo encontram-se Mitsuha (Mone Kamishiraishi) e Taki (Ryûnosuke Kamiki), a dupla de protagonistas, dois adolescentes que despertam empatia e um certo fascínio. Estranhamente, começam a trocar de corpo, algo que os obriga a terem de aprender a conviver com a situação e provoca uma panóplia de situações mais leves e alguns momentos de maior comoção. O argumento explora eficazmente esta premissa e consegue que ela se desenvolva em algo complexo, enérgico, fascinante e extremamente terno ao mesmo tempo em que ficamos a conhecer a personalidade dos dois protagonistas. Estes encontram-se numa fase fervilhante das suas vidas, a lidar com dilemas muito próprias da idade, a afirmar as suas personalidades e a sentir tudo com a intensidade típica desta etapa, com a troca de corpo a fazer não só com que se deparem com uma nova realidade, mas também que se comecem a conhecer melhor a si próprios e um ao outro.

Mitsuha vive com Hitoha (Etsuko Ichihara) e Yotsuha (Kanon Tani), respectivamente, a avó e a irmã mais nova, em Itomori, uma pequena cidade situada na região de Hida. O seu pai, com quem mantém uma relação afastada, é o presidente da câmara local, enquanto a sua mãe faleceu pouco tempo depois de dar à luz a jovem Yotsuha, com a adolescente a ter em Tessie (Ryô Narita) e Sayaka (Aoi Yûki), os seus melhores amigos. Taki é um adolescente que habita em Tóquio, está a completar o ensino secundário, trabalha em part-time num restaurante, vive com o pai (Kazuhiko Inoue) e gosta de desenhar. Os seus melhores amigos são Tsukasa (Nobunaga Shimazaki) e Shinta (Kaito Ishikawa), dois prestáveis e simpáticos companheiros de escola, tendo ainda um fraquinho por Okudera (Masami Nagasawa), uma colega de trabalho. Se Taki tem uma vida atarefada em Tóquio, já Mitsuha aborrece-se imenso com o sossego excessivo do local onde vive, um espaço onde quase todos se conhecem e a tradição está muito presente. Note-se os rituais religiosos levados a cabo pela avó da protagonista, uma senhora que respeita as memórias do território e das divindades. Diga-se que existe uma faceta quase mística a rodear o enredo de "Kimi no na wa.", seja no ritual efectuado para fabricar kuchikamizake, protagonizado por Hitoha e as netas, ou na entrega dessa bebida como oferenda num trecho dotado de imensa poesia.