12 novembro 2018

Sobre a programação da 24ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português

 Local de reunião do Cinema Português e de união entre este e o público, o festival Caminhos do Cinema Português chega à sua 24ª edição com uma programação marcada pela heterogeneidade e um número assinalável de obras lusas a descobrir ou reencontrar. Ao todo foram seleccionadas vinte e seis longas-metragens, cento e dez curtas, dezassete documentários e vinte e uma animações. Se quisermos ser mais precisos, contamos com setenta e quatro horas, cinco minutos e cinquenta e cinco segundos dedicados à exibição de fitas. A jóia da Coroa do evento é a Selecção Caminhos, onde podemos encontrar uma mescla de experiência e sangue novo. Tanto somos colocados diante de nomes bem conhecidos como João Botelho ("Peregrinação"), Eugène Green ("Como Fernando Pessoa Salvou Portugal"), Lúcia Murat ("Praça Paris"), Edgar Pêra ("O Homem-Pykante" e "Caminhos Magnétykos") e Bruno de Almeida ("Cabaret Maxime") como de cineastas em busca de afirmação no formato de longas como Paulo Carneiro ("Bostofrio oú le ciel rejoindre la terre"), Justin Amorim ("Leviano"), Bruno Gascon ("Carga"), Leonor Teles ("Terra Franca"), entre outros.

A duração não é motivo para separação entre as diferentes secções da Selecção Caminhos. Curtas e longas convivem entre si, algo que podemos observar desde logo na secção de documentários. Observe-se como curtas como "Madness", um documentário de João Viana, vencedor do Grande Prémio de Documentário na edição de 2018 do Curtas de Vila do Conde, ou "Os Mortos" (Gonçalo Robalo) e "Pele da Luz" (André Guiomar) convivem com longas como "Terra Franca", "Turno do Dia" (Pedro Florêncio) e "O Canto do Ossobó" (Silas Tiny). O mesmo se aplica para a riquíssima secção de ficção, onde encontramos longas como "A Árvore" (André Gil Mata), "Aparição" (Fernando Vendrell), "Amantes na Fronteira" (Atsushi Funahashi), "Mariphasa" (Sandro Aguilar), "Soldado Milhões" (Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa) a partilharem o mesmo espaço com curtas como "Aquaparque" (Ana Moreira), "A Estranha Casa na Bruma" (Guilherme Daniel), "Equinócio" (Ivo M. Ferreira), "Russa" (João Salaviza e Ricardo Alves Jr.") entre outras películas que fazem parte do certame. Já as animações aparecem curtas em formato mas grandes em qualidade, ou não estivéssemos perante a secção que conta com duas das grandes obras desta edição do Caminhos do Cinema Português: "Entre Sombras" (Mónica Santos e Alice Guimarães) e "Porque este é o meu ofício" (Paulo Monteiro).

05 novembro 2018

Crítica: "Fahavalo, Madagascar 1947"

 A presença colonial francesa em Madagáscar ainda continua bem viva nas memórias de diversos habitantes desta nação insular. Em "Fahavalo, Madagascar 1947" a realizadora Marie Clémence Andriamonta-Paes regressa a um pedaço dessas memórias que marcaram a identidade e a História do seu país, em particular, a revolta malgaxe contra as autoridades coloniais gaulesas. A rebelião ocorreu entre 1947 e 1948, tendo resultado em fortes medidas repressivas da França e num número elevado de mortos. Marie Clémence Andriamonta-Paes revisita estes anos a partir da fala de diversos sobreviventes que recordam as suas experiências. "Existem algumas coisas que não consigo esquecer. Vou tentar contar aquilo que aconteceu. Não fique surpreendida no caso de algumas coisas escorregarem da minha mente ou parecerem enlameadas" diz Martial Korambelo à realizadora. Um dos participantes na insurreição, Martial esteve preso oito anos e nove meses, sendo um dos vários elementos que permitem a "Fahavalo, Madagascar 1947" apanhar o comboio do passado e transportá-lo para o presente a partir das recordações e das palavras daqueles que sobreviveram.

Todas as nossas memórias encontram-se rodeadas por uma névoa de subjectividade inerente ao facto de conterem no seu interior o modo como percepcionamos diversos acontecimentos das nossas vidas. Esta subjectividade resulta a favor de "Fahavalo, Madagascar 1947" ao contribuir para que o documentário aborde o contexto histórico e alguns eventos marcantes a partir da perspectiva muito particular daqueles que a viveram de perto. Note-se o caso de Iamby, um indivíduo de idade avançada que acredita no poder dos talismãs e das poções. Não é situação para menos. Se o contingente francês, pontuado pela presença senegalesa e argelina, contava com armamento pesado e mortal, já os guerrilheiros malgaxes tinham apenas ao seu dispor lanças, machetes, a magia e o desejo de se tornarem independentes. O combate era extremamente desigual, sendo marcado pela violência das forças gaulesas, algo notório quando encontramos os relatos da destruição e dos massacres provocados pelos colonialistas. Diga-se que o ressentimento e a desilusão fazem parte do discurso de Iamby, sobretudo para com a França e a atitude de alguns elementos de Nosy Varika que apoiaram os gauleses.

03 novembro 2018

Crítica: "Friedkin Uncut" (2018)

 "Eu não estou à procura da perfeição nos filmes que faço, estou à procura de espontaneidade" comenta William Friedkin em determinado ponto de "Friedkin Uncut". Essa originalidade que o cineasta procura captar e transmitir está presente não só nos seus trabalhos, mas também no seu modo de se expressar, algo notório ao longo desta masterclass em formato de documentário. O realizador Francesco Zippel aproveita o carisma, o talento nato de William Friedkin para dialogar e a relevância das obras que este criou para efectuar um documentário dinâmico, interessante e capaz de escapar a algumas armadilhas inerentes aos convencionalismos que fazem parte desta película. Marcado por uma reunião de entrevistas, trechos de filmes, vídeos e imagens de arquivo, "Friedkin Uncut" leva-nos a uma viagem guiada às fitas do cineasta do título, bem como às peripécias que envolveram o desenvolvimento das mesmas e aos métodos de trabalho deste nome de relevo da Sétima Arte.

"Para mim, as duas principais figuras da História do Mundo são Hitler e Jesus" diz William Friedkin numa fase inicial do documentário, quase como aquecimento para falar sobre a relação entre o bem e o mal, um tema que serve para Francesco Zippel chegar a "The Exorcist". Ficamos diante de algumas cenas poderosas do filme e de um dos principais atributos de "Friedkin Uncut", nomeadamente, a assertividade com que coloca em diálogo a matéria-prima que tem à disposição, seja esta as falas dos entrevistados, os trechos das fitas ou as imagens de arquivo. No caso de "The Exorcist" encontramos nomes como Wes Anderson, Ellen Burstyn, Walter Hill, Francis Ford Coppola a abordarem elementos sobre o que torna a obra tão especial, a sua relação com a mesma, ou algumas curiosidades relacionadas com os bastidores ou o contexto da época. Note-se o caso de Ellen Burstyn a salientar o momento em que Max Von Sydow bloqueou a proferir um diálogo, ou a ocasião em que encontramos o realizador de "Pulp Fiction" a mencionar que foi proibido pela progenitora de ir ao cinema ver aquele que foi um filme-evento em 1973.

01 novembro 2018

Crítica: "Yonlu" (2018)

 A depressão e os pensamentos suicidas andam regularmente lado a lado. Formam uma companhia difícil de travar, que ataca muitas das vezes quando menos se espera e pode provocar estragos irreparáveis. É algo complicado de enfrentar em qualquer idade. Na adolescência esta combinação explosiva chega acompanhada das inseguranças próprias da idade e das emoções fervilhantes que a espaços contribuem para tudo ser sentido de modo mais intenso. Junte-se à equação uma sensação de deslocamento constante e a dificuldade dessa pessoa em conviver consigo própria nos momentos de solidão e tudo pode ganhar um carácter mais perigoso. Essa situação é particularmente notória quando observamos os receios, desejos, angústias e anseios do protagonista de "Yonlu". Simultaneamente sensível, angustiante, bela e poética, a primeira longa-metragem realizada por Hique Montanari capta a essência do personagem principal, o jovem Vinicius Gageiro Marques, mais conhecido como Yoñlu. Natural de Porto Alegre, fluente em cinco línguas, músico, ilustrador, participante em diversos fóruns online, Vinicius cometeu suicídio aos dezasseis anos de idade, um acto desesperado que provocou perplexidade e debate.

Nos momentos iniciais do filme, encontramos o terapeuta (Nélson Diniz) do protagonista a ser entrevistado por uma jornalista. Nélson Diniz incute credibilidade e sobriedade aos diálogos do seu personagem, enquanto este fala sobre os perigos dos fóruns online, a sua relação com o paciente e expõe algumas das especificidades do caso do mesmo, tendo em vista a alertar a opinião pública e a gerar debate sobre o tema. Estes trechos contribuem e muito para atribuir uma faceta positivamente pedagógica ao filme e expor alguns dos elementos que conduziram o protagonista a cometer este acto. Observe-se a posição contundente do psicólogo contra o fórum frequentado por pessoas potencialmente suicidas, um espaço do qual Yoñlu fazia parte e de onde tirou ideias e recebeu uma parte do gatilho para avançar para a morte. A partir daqui, Hique Montanari apresenta-nos o personagem do título em toda a sua complexidade. Para essa tarefa recorre não só a um argumento de grande nível e a uma interpretação sublime de Thalles Cabral, mas também a uma mistura de linguagens. Não faltam trechos de animação, linguagem de videoclipe e elementos musicais, com esta reunião a remeter para as diferentes facetas deste jovem e para a sua criatividade. Diga-se que as músicas, boa parte dos desenhos e algumas falas de Yoñlu são da autoria do jovem e introduzidas de modo harmonioso e preciso no interior do enredo.

31 outubro 2018

2016 em revista

 Não faltaram acontecimentos históricos marcantes em 2016. Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito o 20º Presidente da República Portuguesa e começou a distribuir abraços e a tirar selfies como poucos. Barack Obama visitou Cuba e Donald Trump foi eleito Presidente dos EUA. Por sua vez, Dilma Rouseff foi afastada da Presidência da República do Brasil e David Cameron renunciou ao cargo de Primeiro-Ministro do Reino Unido. Pelo meio ocorreram uma série de atentados que chocaram o Mundo, Portugal ganhou o Europeu de futebol com um golo do improvável Éder e estrearam uma série de obras cinematográficas que prometem deixar marca ao longo do tempo, bem como outras que vão ser esquecidas com uma facilidade assinalável. É precisamente sobre esses filmes que se centra este artigo que procura traçar um breve retrato de um ano profícuo em termos da Sétima Arte.

Desde Ah-ga-ssi, Lumière! e Paterson, passando por I Am Not Your Negro e Forushande, até Ma vie de Courgette, Elle e Silence, a colheita cinematográfica de 2016 conta com uma série de exemplares extremamente recomendáveis, pontuados por alguma diversidade e oriundos de uma miríade de proveniências. Como é que cada uma destas obras vai enfrentar o teste do tempo? Filmes como La La Land, Hail Caesar! e Lumière! respondem a essa questão com um recuperar das memórias do cinema, enquanto fitas como I Am Not Your Negro, Hidden Figures, Aquarius, Martírio, Moonlight envolvem-se por temas relacionados com os direitos LGBT, as questões raciais, os direitos indígenas, ou a desregulação do mercado imobiliário. E como sobreviverão alguns dos campeões das bilheteiras como Captain America: Civil War e Finding Dory? Ou os grandes vencedores da temporada de prémios? Ou fracassos de crítica e público como Gods of Egypt e Ben-Hur?

30 outubro 2018

Crítica: "The Endless" (O Interminável)

 Pontuado por uma atmosfera que regularmente desperta o receio ou a sensação de que algo nefasto está para acontecer, "The Endless" esgueira-se habilmente pelas margens do drama familiar, do terror, da ficção-científica e das obras que envolvem cultos, enquanto reforça a ideia de que Justin Benson e Aaron Moorhead merecem o nosso interesse e admiração. Esse ambiente misterioso que pontua o filme não é obra do acaso. Uma parte advém do argumento e da ligação que criamos com os personagens. A outra parte remete e muito para o trabalho de Aaron Moorhead na cinematografia e de Jimmy Lavalle na banda sonora, bem como para o labor dos elementos responsáveis pelo design sonoro. Observe-se um plongée absoluto que realça o carro dos protagonistas a percorrer o território, quase que a transmitir a sensação de que estão a ser observados por uma entidade, ou o modo como a iluminação é utilizada para adensar a incerteza em volta de um convívio nocturno, ou a faceta desvanecida das cores que percorrem o âmago do filme, um recurso que sublinha a dubiedade e o cepticismo que envolvem alguns episódios do enredo.

Inseridos de maneira extremamente harmoniosa, a banda sonora e os efeitos sonoros permitem potenciar essa sensação de receio. Note-se como os elementos mencionados sublinham a faceta bizarra de um desenho e o seu significado, ou como uma caminhada solitária de um dos protagonistas ganha uma tensão acrescida devido à utilização precisa desses ingredientes. Diga-se que não estamos perante um filme de sustos avulsos, ou que permite que os mesmos dominem a narrativa. Já "Resolution", com quem "The Endless" partilha o mesmo universo narrativo, era assim, com Justin Benson e Aaron Moorhead a criarem uma espécie de franquia de baixo orçamento que tem na mescla de géneros e no ambiente misterioso alguns dos seus principais atributos. Em "The Endless", a dupla assume o protagonismo quer atrás das câmaras, quer à frente das mesmas, nomeadamente, a dar vida aos dois personagens principais, com quem partilha os nomes próprios. Ou seja, Aaron Moorhead interpreta Aaron, enquanto Justin Benson é Justin, com a dupla de intérpretes a contar com um trabalho eficiente quer a expor as especificidades de cada um dos irmãos, quer a explanar aquilo que os une e separa.

28 outubro 2018

Crítica: "Over the Limit" (2017)

 Como enfrentar a pressão? Será possível que um desportista de alta competição consiga despir a mente e o corpo dos problemas ou das emoções que o rodeiam antes de alguns momentos relevantes da sua carreira? Com acesso privilegiado aos bastidores da caminhada da atleta russa Margarita Mamun rumo aos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, "Over the Limit" coloca-nos diante destas questões, enquanto exibe as inquietações, dilemas, desafios e o enorme talento da ginasta, bem como a larga pressão a que esta estava sujeita. "Não és um ser humano, mas sim uma atleta" diz Amina Zaripova, a treinadora adjunta de Margarita, em um momento onde a jovem ameaça deixar-se controlar pelas emoções. É uma frase que resume paradigmaticamente o rigor inerente ao treino desta atleta especializada em ginástica rítmica, um desporto que exige talento, treino e uma enorme capacidade de sofrimento, uma combinação que nem é sempre fácil de colocar em prática quando se tem apenas vinte anos de idade. Curiosamente, Amina é quase o "polícia bom" da dupla de treinadoras, com a técnica a exibir regularmente uma faceta mais carinhosa e humana junto da ginasta, ainda que a espaços também tenha os seus ataques de fúria.

Se Amina é o Raul José de Jorge Jesus, já Irina Viner assume uma postura que a espaços traz à memória o antigo timoneiro de Benfica e Sporting. Pronta a praguejar como um pirata, dura com os atletas e a roçar uma insensibilidade que faz com que a associemos facilmente ao estereótipo do treinador da União Soviética, Irina Viner quer transformar Margarita Mamun numa máquina de vencer, livre de falhas e de receios. "Vai-te foder, tu e a porra da tua gentileza! Vaca estúpida" vocifera a técnica durante um treino no Rio de Janeiro, na véspera da atleta entrar na competição. A realizadora Marta Prus não julga a treinadora, mas também não matiza os seus comportamentos, enquanto exibe em diversas ocasiões o olhar estupefacto ou simplesmente revoltado de Amina perante as atitudes e as palavras da colega, quase como se esta surgisse como um duplo do espectador. No entanto, embora seja possível questionar estes métodos de treino desumanos, também não deixa de ser notório que estes resultam no contexto de espicaçar a ginasta. Será que os fins justificam os meios? Valerá tudo para desafiar os limites de um atleta e extrair todo o seu potencial? São perguntas que ficam em aberto, com a cineasta a deixar quase sempre que o espectador julgue estas figuras por si próprio, enquanto evita utilizar as imagens que captou para criar um enredo com heróis e vilões.

27 outubro 2018

Crítica: "Fotbal Infinit" (2018)

 A premissa de "Fotbal Infinit" é relativamente simples. Ao ser confrontado com a informação de que Laurentiu Ginghina, o irmão de um amigo, inventou um desporto a partir da alteração das regras do futebol, o realizador Corneliu Porumboiu partiu para Vaslui, a sua terra Natal, acompanhado por uma pequena equipa e imensa curiosidade, tendo em vista a saber um pouco mais sobre o tema. Essa simplicidade é contrastada com a capacidade do cineasta para aproveitar este ponto de partida e as falas do entrevistado para abordar assuntos como as expectativas frustradas, os sonhos por realizar, a burocracia da Roménia, a sensação de imobilidade laboral e a procura de fugir às regras, enquanto se exibe como um excelente entrevistador e co-protagonista. Capaz de fazer as perguntas certas e de captar a realidade de Laurentiu Ginghina, Corneliu Porumboiu conta com algo fundamental para elevar uma entrevista ou um documentário: um entrevistado disponível e interessante. Ginghina expõe diversos pormenores que atribuem vivacidade ao seu discurso, lança-se em quase monólogos que estimulam a nossa curiosidade e a nossa capacidade de imaginar ao mesmo tempo em que demonstra a sua criatividade e obstinação para alterar as regras do futebol ou contribuir para uma espécie de segunda versão deste desporto.

Como surge esta ligação do protagonista ao desporto-rei? Os momentos iniciais do documentário permitem que fiquemos a conhecer um pouco dessa relação, com a figura central de "Fotbal Infinit" a exibir o espaço onde jogava futebol com os amigos durante o Verão e a relatar os episódios que viveu no local, sobretudo um que deixou marcas no seu corpo, em particular, um jogo no qual levou um forte pontapé numa disputa de bola que resultou num perónio partido e na impossibilidade de efectuar os testes para entrar no curso que pretendia. Diga-se que essa lesão contribuiria ainda para outro problema, nomeadamente, uma tíbia partida durante o cumprimento de uma tarefa, um episódio que ocorreu a 31 de Dezembro de 1987, quando esta figura se encontrava a trabalhar numa fábrica. Ginghina relata este acontecimento com detalhe quer através das palavras, quer dos gestos, uma situação particularmente notória quando o encontramos a simular o esforço que teve de fazer para ir a pé do trabalho até casa. É então que "Fotbal Infinit" começa a apresentar-nos as ideias do protagonista para o futebol: o campo perde a sua faceta rectangular e adquire características octogonais, a regra do fora de jogo é repensada, tal como o posicionamento dos jogadores em campo. Todos estes processos têm sido maturados ao longo do tempo e conhecido uma série de avanços e recuos, com estas transformações a estarem umbilicalmente ligadas ao contexto pessoal e profissional de Ginghina. 

25 outubro 2018

Crítica: "Of Fathers and Sons" (2017)

 "O Kathab queria matá-lo. Colocou uma faca no peito do pássaro e ele começou a chiar. Colocámos a cabeça dele para baixo e cortámos, tal como fizeste com aquele homem" diz Osama, um adolescente de treze anos de idade, junto de Abu Osama, o seu pai. O facto de Osama saber que o progenitor cortou a cabeça a alguém e tratar o acto de eliminar a pequena ave como uma brincadeira sublinha e muito o quanto estes elementos estão habituados a lidar com a violência – uma atitude que também remete para o contexto caótico que os rodeia. É Abu Osama e o seu núcleo familiar que ficamos a conhecer em "Of Fathers and Sons", um documentário que se envolve pelo interior de uma família islâmica radical da Síria tendo em vista a captar o quotidiano da mesma e a tentar perceber o que leva alguém a radicalizar-se e a participar num conflito que não parece ter fim à vista. Para ser bem-sucedido nessa tarefa o realizador Talal Derki finge não só que é um repórter fotográfico, mas também que comunga destes ideais radicais – isto enquanto ganha a confiança de Abu Osama, um dos fundadores da Al-Nusra, o "braço" sírio da Al-Qaeda.

Com uma barba farta, crente, conservador nos seus valores, Abu Osama acredita piamente na Xaria e no Califado, é um dedicado pai de família e extremista até ao tutano. Note-se como escolheu os nomes dos seus filhos: Mohammad-Omar em homenagem ao príncipe dos Talibans no Afeganistão; Osama devido ao amor por Osama bin Laden; Ayman em honra do Dr. Ayman Al-Zawari. A felicidade por Mohammad-Omar ter nascido a 11 de Setembro 2007, seis anos após um episódio que o enche de orgulho, também é reveladora do fanatismo deste indivíduo, um pouco à imagem dos seus actos quotidianos. Observe-se quando o encontramos a disparar contra inimigos ou a capturar sunitas em conjunto com outros membros da Al-Nusra, entre outras práticas pontuadas pela violência que marcam as rotinas deste especialista a desarmar armas e a detectar minas. No rádio escuta acima de tudo canções que evocam a sua luta e os seus ideais extremistas, enquanto em casa procura transmitir os seus ideais e valores aos seus filhos. Diga-se que as dinâmicas deste indivíduo com os rebentos e o dia-a-dia dos petizes são alguns dos ingredientes fulcrais do documentário, algo que permite atribuir alguma complexidade a estas figuras.

24 outubro 2018

Crítica: "Les tombeaux sans noms" (2018)

 Rithy Panh sabe utilizar o poder da imagem e da palavra de forma sublime. Se dúvidas existissem, "Les tombeaux sans noms" está aqui para as dissipar por completo, bem como para demonstrar a perícia do cineasta a revisitar as memórias de um passado que ainda se encontra bem vivo no âmago do seu povo. Em determinado momento do documentário encontramos um machado a embater contra uma árvore. Não sai apenas madeira, mas também sangue. É uma maneira simultaneamente poética e dura de Rithy Panh explanar o quanto o território de Trum contém no interior do seu corpo e da sua alma uma série de feridas por sarar. Estas foram abertas pelas várias atrocidades cometidas neste espaço durante o Regime do Khmer Vermelho. Nas suas areias podemos encontrar pedaços de ossos, memórias perdidas, uma certa desilusão e a ilusão de um possível reencontro com os espíritos daqueles cujos corpos foram enterrados em lugar incerto. Foi precisamente para Trum que o cineasta foi deportado em 1976 com a sua família. Onze membros deste núcleo familiar partiram de Phnom Pehn, mas apenas dois elementos sobreviveram, algo que deixou marcas no realizador. Nesse sentido, "Les tombeaux sans noms" resulta em parte da decisão deste regressar ao local para onde foi deportado tendo em vista a efetuar uma busca espiritual e pessoal, enquanto revisita a História do seu país e deste espaço.

No início do filme ficamos perante um ritual que visa um certo contacto com os espíritos. Um contacto que pode ou não acontecer e mexe com o nosso lado mais pragmático, com "Les tombeaux sans noms" a convidar-nos a conhecer uma série de rituais e crenças que remetem não só para a religião, mas também para um profundo desejo de um povo em comunicar com os seus ancestrais, com a sua identidade e sarar feridas profundas. Ao convocar os espíritos, Rithy Panh traz também o passado para o presente. Para isso recorre a entrevistas a alguns dos sobreviventes destes massacres, enquanto exibe ser exímio quer a extrair profundidade do discurso dos entrevistados, quer a utilizar essas palavras bem vivas e descritivas para compelir o espectador a sentir estas memórias quase como se fossem suas. Claro que é impossível de acontecer, até por nunca termos sentido a fome, a dor, a violência e o desespero que estes homens e mulheres sentiram. No entanto, podemos nutrir empatia e perceber o impacto daquilo que visualizamos através destes elementos. As privações, a violência, a morte e o desespero surgem bem patentes nestas falas, bem como a sensação de um certo vazio e uma tristeza própria de quem sentiu na pele as atrocidades cometidas pelos Khmer Vermelhos.