15 julho 2018

Crítica: "Intouchables" (Amigos Improváveis)

 Buddy movie inspirado numa história real, "Intouchables" (Amigos Improváveis) utiliza uma série de lugares-comuns associados ao subgénero, enquanto beneficia das dinâmicas extremamente convincentes de Omar Sy e François Cluzet e da perícia de ambos para dominarem os ritmos do humor. Uma dessas convenções dos buddy movies é a reunião de dois personagens de características antagónicas ou oriundos de meios distintos, um ingrediente que é inserido com perícia pelos realizadores e argumentistas Olivier Nakache e Éric Toledano. A dupla é formada por Philippe (François Cluzet) e Driss (Omar Sy). O primeiro é um milionário francês, pai de uma adolescente, viúvo, admirador de música clássica, subtil na escolha das palavras e dotado de sentido de humor, que ficou tetraplégico após sofrer um acidente de parapente. O segundo é oriundo do Senegal, habita nos subúrbios, é fã dos Earth, Wind and Fire, gosta de dançar, é mulherengo, extremamente espirituoso, saiu há seis meses da prisão e acaba por ser contratado como cuidador de Phillippe quando apenas queria que carimbassem um papel para obter um subsídio social de desemprego. 

Os dois formam gradualmente uma relação de amizade, respeito e proximidade, com as suas diferenças a complementarem-se e a contribuírem para uma série de momentos que variam entre o terno, o cómico e o dramático, algo arquitectado de modo eficiente pelos realizadores. Olivier Nakache e Éric Toledano não têm problemas em recorrer ao humor politicamente incorrecto, ou a alguns estereótipos e a clichés, com a proposta de ambos a passar acima de tudo pela criação de algo leve. Essa singeleza é particularmente notória não só na construção dos personagens, mas também na abordagem das temáticas, sejam estas relacionadas com o choque de culturas, a imigração, a vida nos subúrbios, com algumas das limitações do argumento a serem ultrapassadas graças à humanidade e genuinidade que Sy e Cluzet incutem aos protagonistas, mesmo quando se embrenham pelos lugares-comuns. Sy insere uma postura descomplexada, extrovertida e divertida ao seu Driss, um indivíduo que inicialmente parece pouco preparado para cuidar do seu novo empregador. Cluzet imprime uma faceta relativamente afável ao seu Philippe, um milionário que lida com o seu funcionário como um igual e parece claramente satisfeito por este não o tratar como alguém incapacitado. 

09 julho 2018

Crítica: "Telle mère, telle fille" (Tal Mãe, Tal Filha)

 Quase todos conhecemos alguém que é bastante espirituoso, embora não apresente o mínimo talento para contar anedotas ou fazer umas graçolas. Ou é a graça que falha, ou é o timing com que é dita, embora lá tenhamos por vezes que soltar um sorriso forçado para não parecermos totalmente indelicados. Se fosse um ser humano, "Telle mère, telle fille" seria essa pessoa. É filme que quer ter graça à força e pensa ser mais engraçado do que é na realidade, que desperdiça as poucas boas ideias que apresenta, estende as piadas até estas perderem o efeito e ainda conta com uma série de personagens que soam quase sempre a falso. A espaços lá acerta, mas as ocasiões são tão raras ao ponto de questionarmos no que os envolvidos estavam a pensar quando desenvolveram esta obra cinematográfica e o que levou Juliette Binoche a integrar o elenco principal. Não é que a actriz acerte sempre nas suas escolhas, embora "Telle mère, telle fille" raramente aproveite o talento da intérprete e a sua capacidade para dominar os ritmos do humor (como demonstrou recentemente em "Ma Loute").

A premissa do filme é muito simples: uma mãe com quarenta e sete anos de idade fica grávida ao mesmo tempo que a sua filha de trinta anos. A primeira é Mado (Juliette Binoche), uma mulher extrovertida, inconsequente, desempregada e divorciada, que se locomove quase sempre numa vespa cor de rosa, comporta-se muitas das vezes como se fosse uma criança de cinco anos de idade ou uma pré-adolescente e vive em casa de Avril (Camille Cottin), a sua filha. Esta trabalha numa empresa que fabrica detergentes e sprays para a casa de banho, gosta de planear tudo e é casada com Louis (Michaël Dichter), um indivíduo que se encontra a terminar a tese de mestrado. Mado vive na casa da filha e do genro, algo que acentua as diferenças entre a primeira e o casal, embora o trio até mantenha uma relação de alguma proximidade. A notícia da gravidez da filha mexe com a personagem interpretada por Juliette Binoche, mas a maior surpresa surge quando a segunda descobre que está grávida de Marc (Lambert Wilson), o seu ex-marido, um maestro deveras peculiar. Como reagir a esta situação? "Telle mère, telle fille" responde à questão da seguinte forma: com muita histeria e algumas doses consideráveis de simplismo.

04 julho 2018

Crítica: "Lean on Pete" (O Meu Amigo Pete)

 Drama sensível e envolvente, que conta com ingredientes de road movie e uma delicadeza assinalável, "Lean on Pete" (O Meu Amigo Pete) parte da história do jovem Charley (Charlie Plummer) para abordar temáticas sobre a adolescência, o luto, o sentimento de perda, a incerteza em relação ao futuro, a população das franjas dos EUA, a importância dos laços familiares e a ligação do protagonista com o cavalo do título. Charley é um jovem de quinze anos de idade, que gosta de correr e vive com Ray, (Travis Fimmel), o seu pai, com quem se mudou recentemente para Portland. Se o protagonista encontra-se a lidar com uma série de incertezas muito próprias da idade, já Ray é um adulto que apresenta comportamentos semelhantes a um adolescente, embora ame o filho e tenha uma relação relativamente próxima com o mesmo, algo exposto desde cedo, em particular, num plano de longa duração em que ambos falam de Lynn (Amy Seimetz), uma secretária casada que passou a noite com o segundo. Travis Fimmel é competente a exibir essa faceta extrovertida, relaxada e irresponsável do seu personagem, um indivíduo com parca disponibilidade financeira e uma enorme capacidade para se envolver em problemas, com o actor a contar com uma dinâmica convincente com Charlie Plummer.

Plummer é essencial para o filme funcionar. Este transmite o feitio reservado e solitário do seu Charley, bem como as dúvidas e a inquietação que assolam a sua mente a partir de uma determinada fase do enredo em que a esperança ameaça ser consumida pela desesperança. Em plenas férias de Verão, o personagem interpretado pelo jovem actor acaba por encontrar trabalho junto de Del (Steve Buscemi), um treinador de cavalos que exibe uma atitude algo fria no que diz respeito à sua profissão. Steve Buscemi alterna entre a afabilidade e a rispidez como este indivíduo peculiar que ensina alguns dos seus conhecimentos ao protagonista e coloca-o a cuidar do cavalo do título, um equídeo que apresenta algumas semelhanças com o adolescente, ou não estivéssemos perante dois corredores que nem sempre se destacam e estão longe de terem um rumo definido. A partir do momento em que começa a trabalhar para Del, o adolescente começa a frequentar os estábulos, os circuitos de corridas e a formar uma ligação com Lean on Pete, algo exposto por Andrew Haigh sem recurso a grandes romantismos ou acordes em falso, com o realizador a optar quase sempre pela perspectiva mais verosímil e honesta.

26 junho 2018

Crítica: "Sade Ma'bar" (Blockage)

 Corrupto, impulsivo, inquieto e errático, Qasem (Hamed Behdad), o protagonista de "Sade Ma'bar", é um inspector municipal que está longe de cumprir as suas funções com idoneidade. Este deveria impedir que os vendedores de rua efectuassem negócios ilegais ou em locais proibidos, mas ao invés disso abusa do poder que tem à disposição para lucrar com subornos ou negociatas. É a partir deste personagem e do contexto que o rodeia que o realizador Mohsen Gharaie aborda temas como a corrupção, a instabilidade laboral, a criminalidade em Teerão, a crise económica e a hipocrisia de alguns sectores da sociedade iraniana, enquanto permite a Hamed Behdad compor uma figura que tem uma habilidade inata para tomar decisões questionáveis. Nem sempre é fácil acompanhar este indivíduo, em grande parte devido às razões mencionadas, mas também é difícil deixar de seguir os acontecimentos que pontuam esta obra marcada por alguns momentos emocionalmente intensos. Essa intensidade emocional é particularmente visível nas dinâmicas entre Qasem e a esposa, Nargess (Baran Kosari), com o casal a contar com objectivos distintos para o futuro próximo. Ela quer utilizar a herança deixada pelo pai para adquirir uma casa. Ele pretende investir num camião e assim ganhar dinheiro com o negócio da reciclagem, algo que não é do agrado da sua cônjuge.

O casal habita no interior da casa do pai de Qasem, um indivíduo ponderado que procura ajudar os filhos como pode, seja a dar conselhos, ou apoio financeiro. As dinâmicas de Nargess e Qasem com a restante família nem sempre são desenvolvidas na justa medida, embora o argumento estabeleça que estes recebem regularmente a visita dos familiares. Note-se que Nargess mantém uma proximidade notória com Mona, a irmã de Qasem, ao ponto de confidenciar-lhe alguns dos seus segredos, inclusive que se encontra grávida. Desta família ficamos ainda a conhecer Alireza, o esposo de Mona, bem como Mohsen e Nafiseh, o irmão e a irmã do protagonista. Quase todos contam com os seus problemas e compreendem os comportamentos e os desejos de Nargess, uma mulher que se encontra claramente desiludida e cansada das atitudes do esposo. Baran Kosari explana de forma competente o desencanto e o desgosto que a sua personagem sente, sobretudo no último terço, quando se torna bastante óbvio que Nargess já não aguenta mais os comportamentos erráticos de Qasem. Por sua vez, este envolve-se numa espiral descendente que contribui e muito para que a sua vida pessoal e profissional entre num turbilhão de emoções. 

23 junho 2018

Crítica: "Lupo" (2018)

 Num determinado momento de "Lupo" somos colocados perante uma frase da autoria de Herberto Hélder, nomeadamente, "Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios, quando alguém morria perguntavam apenas: tinha paixão?". É uma citação que permite realçar a paixão que o metteur en scène do título tinha pela Sétima Arte e pelo risco, ou não estivéssemos perante um filme de pendor documental que se aventura pela peculiar e fascinante história de Rino Lupo. Consciente das limitações impostas pelas fontes disponíveis, o realizador Pedro Lino salienta desde cedo que a obra reúne no seu interior "factos e suposições", enquanto recupera algumas memórias do nosso cinema e deste italiano com espírito de aventureiro. A informação é utilizada de modo dinâmico e articulada com engenho, com Pedro Lino a recorrer a trechos de filmes realizados por Rino Lupo ou que contavam com a presença do mesmo no elenco e a vídeos de arquivo, a apresentar críticas da época e documentos sobre as obras, a refazer o percurso que a figura do título efectuou desde que saiu de Itália e a elaborar um diálogo entre o passado e o presente de certos espaços. Note-se o contraste entre o presente e o passado do local onde estava o Gaumont-Palace, ou o espaço em que se encontrava a Invicta Film.

É notório que existiu todo um cuidado trabalho de investigação e uma tentativa de incutir uma ordem cronológica à informação que foi reunida sobre esta figura maior do que a vida. Rino Lupo teve vários pseudónimos, duas famílias e passou por vários territórios. Note-se que saiu de Itália e permaneceu algum tempo em países como França, Alemanha, Dinamarca, Rússia, Polónia, Portugal e Espanha, onde deixou obra feita e uma série de incertezas para aqueles que pretendem estudar a sua vida. Em Portugal, passou pela Invicta Films e pela Ibéria Film, criou a sua própria produtora, fundou uma "Escola de Arte Cinematográfica" e realizou obras como "Mulheres da Beira", "O Diabo em Lisboa", "Fátima Milagrosa". Pelo meio teve alguns fracassos e ficou conhecido pela sua incapacidade para respeitar o cronograma de filmagens e os orçamentos, bem como por filmar ao ar livre, captar as especificidades dos territórios e apostar na "etnoficção". O documentário apresenta não só estes elementos que envolvem a passagem do realizador por Portugal, mas também algum material relacionado com a sua presença em diversos países, tais como na Alemanha, onde realizou "Wenn Völker streiten", com boa parte destes ingredientes a serem acompanhados pelo discurso do narrador ou por pequenas entrevistas.

20 junho 2018

Crítica: "Matar a Jesús" (2017)

 "Matar a Jesús" transporta-nos para o interior de uma cidade de Medellín marcada pela insegurança, incerteza e criminalidade, um espaço onde vidas se esfumam à velocidade de uma bala, um jogo de futebol mexe com uma parte considerável da população e uma jovem adulta procura eliminar o assassino do seu pai. Muitas das vezes inquieta, a câmara acentua essa instabilidade, enquanto acompanha Paula (Natasha Jaramillo), também conhecida como Lita, uma estudante de artes que é apaixonada por fotografia. Os momentos iniciais desta longa-metragem realizada por Laura Mora Ortega permitem estabelecer de forma rápida e eficaz a personalidade descontraída da protagonista, bem como a proximidade que esta tem com o pai, José Maria Ríos (Camilo Escobar), um professor universitário afável, que tem ideias e ideais que desafiam o sistema. O assassinato deste indivíduo ocorre numa fase inicial do filme, nomeadamente, quando o docente está a sair do carro, após ter vindo da universidade na companhia da filha, com este episódio a mexer imenso com a estudante universitária e a contribuir para o argumento abordar temáticas relacionadas com o luto, a violência na Colômbia, a corrupção policial, o crime e se envolva pelos meandros do filme de vingança.

Na esquadra, Paula depara-se com a indiferença e a corrupção daqueles que deveriam combater o crime. Note-se quando ouvimos um indivíduo a reclamar devido à inoperância das autoridades (em fora de campo), ou o misterioso desaparecimento do relógio que estava no corpo do falecido. Para a família de José Maria Ríos, a morte deste indivíduo é uma catástrofe que abre uma ferida impossível de sarar. Para a polícia, este episódio é apenas mais um assassinato, algo comentado por um dos oficiais encarregues da investigação quando salienta que todos os dias recebem entre cinco a dez casos relacionados com homicídios. É um problema sistémico que contamina uma sociedade colombiana muito marcada pela criminalidade, algo que revolta a protagonista. Numa saída nocturna, pontuada pelo consumo de álcool, tabaco e drogas, Paula encontra na discoteca o possível assassino do seu pai. É um dos vários momentos em que a iluminação, o trabalho de câmara e o design de som são utilizados ao serviço do enredo para adensar a inquietação. Observe-se o rosto da protagonista e a multitude de sentimentos que deixa transparecer, algo intensificado pela música da discoteca e as luzes azuis que percorrem a face da estudante enquanto repara em Jesús (Giovanny Rodríguez), o assassino do seu pai, um jovem que esta conseguira ver de raspão durante o homicídio. Impelida por uma certa curiosidade e desejo de vingança, Paula segue este indivíduo a outra discoteca e trava conversa com o mesmo, embora não revele as suas intenções ao seu interlocutor, com "Matar a Jesús" a estabelecer uma dinâmica complexa entre os dois personagens. 

18 junho 2018

Crítica: "Vinterbrødre" (Winter Brothers)

 Estreia de Hlynur Palmason na realização de longas-metragens, "Vinterbrødre" surge como uma espécie de masterclass sobre como utilizar o design de som e a cinematografia ao serviço do enredo. O trabalho de Maria von Hausswolff na cinematografia acentua a frieza que pontua os cenários, seja a exibir os tapetes de neve que cobrem o território, ou as árvores despidas, ou a escuridão que percorre as minas onde boa parte dos personagens laboram, com a parca iluminação a realçar a dureza que envolve as actividades que decorrem neste espaço e os perigos e a incerteza que permeiam o mesmo. Note-se os trechos iniciais do filme, quando encontramos um grupo de trabalhadores no interior da mina, com a única iluminação a provir dos seus capacetes, uma situação que dificulta a nossa capacidade para discernirmos as acções destes indivíduos.

O barulho das máquinas e dos aparelhos da fábrica e da mina fazem parte da banda sonora do quotidiano do protagonista e da narrativa, algo realçado em diversos momentos do filme. Hlynur Palmason e a sua equipa exibem ainda todo um cuidado a captar e destacar outros sons aparentemente banais que envolvem os personagens e potenciam certas características de alguns episódios ou cenários. Observe-se o destaque que é concedido à queda da chuva e ao barulho da mesma, algo que antecede e acompanha a tempestade que se avizinha no interior de uma habitação, ou o som efusivo das balas que esvoaçam ao ritmo do desespero. A banda sonora também é utilizada com enorme acerto. Atente-se à banda sonora desconcertante que acompanha Emil (Elliott Crosset Hove) durante a colocação de um plano perigoso em prática, com estes ruídos inquietantes a dialogarem imenso com os actos do protagonista e as imagens em movimento. A elevar este personagem está Elliott Crosset Hove, com o actor a inserir um estilo peculiar, solitário, introvertido, intempestivo e invulgar ao seu Emil, um indivíduo que vive com Johan (Simon Sears), o irmão, com quem mantém uma relação nem sempre pacífica.

16 junho 2018

Crítica: "Blue My Mind" (2017)

 Com uma barbatana na realidade e outra na fantasia, "Blue My Mind" aborda uma série de temáticas relacionadas com a adolescência, uma fase onde tudo parece ser vivido e sentido com uma intensidade assinalável. Imensas descobertas são efectuadas, a relação com o corpo conta com especificidades muito próprias e existe uma necessidade de afirmar a personalidade, que o diga Mia (Luna Wedler), a protagonista de "Blue My Mind", uma adolescente que se encontra prestes a completar dezasseis anos de idade. Esta não só tem de lidar com uma miríade de problemáticas e questões próprias da idade, mas também com uma mudança de escola, algo que se deve ao facto dos progenitores (interpretados por Regula Grauwiller e Georg Scharegg) terem mudado de casa. A relação da jovem com os pais é marcada por um certo distanciamento e frieza. É certo que estes lhe dão tudo, mas existe uma barreira que os separa e permite a "Blue My Mind" envolver-se por assuntos relacionados com os choques geracionais, os problemas entre pais e filhos e as dificuldades de comunicação entre os mesmos. 

Essas diferenças e constantes altercações contribuem e muito para que a protagonista acredite que é adoptada, sobretudo quando o seu corpo começa a sofrer um conjunto de modificações que mexem com as suas rotinas e os seus comportamentos. A realizadora e argumentista Lisa Brühlmann explana essas alterações de modo gradual e extremamente convincente, enquanto reúne na justa medida uma série de ingredientes que trazem a fantasia para o interior do realismo e da naturalidade que pontuam diversos pedaços do enredo. Essa situação torna-se particularmente latente quando Mia começa a ser confrontada com mudanças inesperadas no seu corpo. Note-se os dedos que se unem, ou o ímpeto voraz para comer peixe, ou as escamas que começam a aparecer nas suas pernas. A relação dos adolescentes com o corpo nem sempre é pacífica. No caso da protagonista de "Blue My Mind" essa relação ganha um fulgor acrescido devido ao facto da jovem estar a lidar com uma situação inesperada e aparentemente incontrolável, algo que intensifica as suas inseguranças e inquietações. 

09 junho 2018

Crítica: "Les gardiennes" (As Guardiãs)

 Inspirado no livro homónimo de Ernest Pérochon, "Les gardiennes" começa de forma silenciosa, pronto a provocar um enorme impacto e a deixar-nos perante o lado sombrio dos conflitos bélicos, com a câmara a deslizar suavemente e a exibir uma série de corpos de soldados que pereceram num dos palcos da I Guerra Mundial. É uma forma rápida e ágil de Xavier Beauvois explanar um pouco do do que estava a ocorrer num dos cenários do conflito, embora o interesse do cineasta seja outro tipo de palcos e de beligerantes. O foco de "Les gardiennes" está acima de tudo naqueles que permanecem, nomeadamente, nas mulheres que ficam a guardar as terras e as propriedades. É a partir destas que Beauvois aborda temas relacionados com a emancipação, a honra, o desejo, o cultivo da Terra, o amor, o luto, a fé e a família, tendo como cenário primordial a fazenda de Hortense (Nathalie Baye), uma veterana que viu os seus dois filhos, Georges (Cyril Descours) e Constant (Nicolas Giraud), bem como o seu cunhado, Clovis (Olivier Rabourdin), partirem para as trincheiras. Esta conta com uma presença assinalável, em grande parte graças ao trabalho notável de Nathalie Baye, com a actriz a exprimir os receios e a resiliência da sua personagem, uma mulher que preza pela honra da família e luta para manter a sua propriedade a funcionar. 

Essa resistência é realçada pelas roupas da veterana, muitas das vezes marcadas por um tom azulado semelhante à farda militar, com o guarda-roupa a sublinhar eficazmente a ideia de que estamos diante de soldados que se encontram a lutar em campos distintos de batalha e a lidarem com a incerteza do conflito. Regularmente associada à harmonia e serenidade, a tonalidade azul permite ainda realçar as características de Hortense, sejam estas relacionadas com o seu empenho para manter a família unida e a quinta a funcionar, ou com a frieza que demonstra ao tomar uma decisão extremamente insensível e condenável para proteger a honra do seu núcleo familiar. Outra das mulheres da casa é Solange (Laura Smet), a esposa de Clovis e filha de Hortense. É a partir desta que são abordadas temáticas que envolvem o desejo sexual, a honra e a emancipação, com Laura Smet a incutir elegância e personalidade a Solange, uma mulher que conserva alguma dor no seu interior e tenta ajudar nas tarefas que envolvem o funcionamento do Paridier, a propriedade da progenitora.

29 maio 2018

Crítica: "L'atelier" (O Workshop)

 Uma oficina de escrita destinada a jovens que contam com um passado escolar problemático serve como ponto de partida para "L'atelier" abordar temáticas relacionadas com a intolerância, a sensação de insegurança provocada pelos atentados, a violência, a solidão, a escrita, as mutações de uma cidade, a mescla de culturas que existem no interior da França, as ansiedades dos jovens e a incerteza que estes têm em relação ao futuro. O workshop do título decorre durante o Verão, em La Ciotat, uma comuna francesa com um forte passado industrial, um espaço marcado por uma enseada que reúne diversos personagens e pela presença de um estaleiro naval que foi encerrado há mais de vinte anos e convertido num local destinado à manutenção e reparação de iates. A liderar este atelier encontra-se Olivia (Marina Foïs), uma escritora experiente, oriunda de Paris, que procura ensinar os seus sete pupilos a criarem algo em grupo, a desafiarem o ócio e a ganharem ferramentas que sirvam para o futuro de todos, embora lide com a rejeição inicial de boa parte destes elementos, pelo menos até começarem a trabalhar na história.

O enredo do romance policial que estes jovens começam a desenvolver tem de se desenrolar em La Ciotat e abordar elementos sobre este espaço citadino, um recurso que é utilizado pelos idealizadores desta oficina de escrita para colocarem os membros do grupo em contacto com a cidade e consigo próprios. Laurent Cantet consegue explorar as dinâmicas destas reuniões com uma autenticidade notável, com boa parte dos diálogos e ideias trocadas a permitirem abordar diversos temas mencionados no inicio do texto, bem como as divergências que existem entre estes elementos, o modo como encaram o meio que os rodeia e as suas inquietações. A decisão de escolher intérpretes não profissionais ou estreantes joga a favor de Cantet, um pouco à imagem do que já tinha acontecido em "Entre les murs", sobretudo pelo cineasta conseguir retirar dos mesmos uma genuinidade que reforça a credibilidade das interacções entre os personagens e os seus gestos e acções. De "Entre les murs" encontramos ainda a capacidade do realizador para abordar temáticas sobre a sociedade francesa e a sua heterogeneidade, bem como o desenvolvimento de assuntos relacionados com os jovens e as suas dinâmicas com um professor, ou os diálogos improvisados e a presença de um grupo.

27 maio 2018

Crítica: "Fuchi ni tatsu" (Harmonium)

 "Fuchi ni tatsu" começa com os sons cadenciados de um harmónio, quase a transmitir uma sensação de paz e inocência. No final, não escutamos um som controlado, mas sim o barulho proveniente de uma respiração ofegante e descompassada, algo que sublinha de forma paradigmática a tensão crescente e a inquietação que envolvem o enredo desta longa-metragem realizada por Kôji Fukada. Esses sentimentos mais irrequietos tomam forma a partir do momento em que Yasaka (Tadanobu Asano) se envolve no interior da casa de Toshio (Kanji Furutachi) e Akié (Mariko Tsutsui), um casal que mantém uma relação relativamente fria e conta com uma filha, a jovem Hotaru (Momone Shinokawa). Tadanobu Asano é essencial para adensar o mistério em redor de Yasaka, um amigo de longa data de Toshio, que cumpriu pena de prisão, guarda alguns segredos sobre este último e conta com objectivos nem sempre claros. O intérprete incute uma faceta simultaneamente enigmática, perigosa e afável ao seu personagem, um indivíduo algo fechado, que mexe com o quotidiano do casal, sobretudo a partir do momento em que o antigo companheiro o convida para trabalhar consigo e para viver num quarto da sua casa. Akié fica perplexa com a decisão do esposo, embora a relação de ambos seja marcada por um distanciamento notório, algo que ajuda a explicar o facto desta não ter sido consultada. 

Essa distância é exposta de forma bastante precisa nos momentos iniciais do filme, em particular, quando encontramos o casal à mesa com a filha, com Toshio a pouco ou nada a falar com a esposa. Note-se ainda quando observamos Hotaru e Akié a rezarem antes de começarem a comer, um acto que não é partilhado pelo personagem interpretado por Kanji Furutachi, naquele que é um dos vários gestos que sinalizam o afastamento entre ambos. O actor insere uma personalidade fechada ao seu personagem, um indivíduo aparentemente introvertido, que conta no seu interior com um certo sentimento de culpa e receia o amigo de longa data, embora integre o mesmo no seio do seu lar e da sua oficina (situada no interior da habitação). Kôji Fukada deixa inicialmente no ar algum mistério em relação às verdadeiras razões que conduziram Toshio a trazer Yasaka para o seu lar e para o seu local de trabalho, enquanto joga com as emoções dos personagens e dos espectadores. Note-se a amizade que o antigo presidiário forma com Akié, com ambos a partilharem momentos reveladores e sentimentos quentes, com Mariko Tsutsui e Tadanobu Asano a contarem com uma química relativamente convincente e a expressarem com precisão as especificidades que permeiam as dinâmicas dos seus personagens. 

24 maio 2018

Crítica: "Le Redoutable" (Godard, O Temível)

 "Le Redoutable" apresenta Jean-Luc Godard (Louis Garrel) como um destruidor que aniquila o seu cinema e as suas relações, que é extremamente contraditório, idealista, egocêntrico, arrogante, criativo, inseguro, instável e incapaz de proteger a integridade dos seus óculos. Louis Garrel transmite com competência estas características do personagem, enquanto vagueia pelas margens da caricatura, sempre sem descurar alguma da complexidade que envolve Godard. Seria impossível captar todas as especificidades que pontuam a existência e a personalidade deste cineasta. O realizador Michel Hazanavicius está consciente dessa impossibilidade e efectua uma obra maioritariamente leve, a espaços quase a satirizar o cineasta, enquanto brinca com os recursos e artifícios utilizados pelo grande expoente da Nouvelle Vague e aborda o período que envolveu a relação entre Godard e a actriz Anne Wiazemsky (Stacy Martin), em particular, entre as filmagens de "La chinoise" (1967) e "Le vent d'est" (1970). É um ciclo marcado por um contexto histórico fervilhante, pontuado por protestos, conflitos e o Maio de 68, algo retratado de modo muito simples por Hazanavicius, quase como um adorno que permite explanar algumas das mudanças da figura retratada ao longo do filme.

Dividido em capítulos, muitos deles com títulos carregados de ironia e a remeterem para diversas obras de Godard, "Le Redoutable" começa por apresentar os dois protagonistas com recurso à narração em off, tendo como cenário o set de filmagens de "La chinoise". A paleta de cores destes trechos iniciais remete precisamente para essa obra, com Hazanavicius a demonstrar que estudou bem o modo criativo como o biografado utilizava a linguagem cinematográfica. Se Godard utilizava estes recursos com um significado ou para dizer algo, nem que fosse para desestabilizar, já o realizador de "Le Redoutable" emprega estes artifícios para adornar e apimentar o filme. Hazanavicius está longe de querer ser disruptivo, embora tenha algum sucesso a encontrar o humor na vida do retratado e a expor a desintegração do matrimónio deste com Wiazemsky. Stacy Martin imprime maturidade, personalidade e charme à sua personagem, uma jovem mulher que inicialmente sente algum encanto e admiração por Godard, apesar de começar a afastar-se gradualmente do mesmo, fruto das mudanças de comportamento do protagonista. Note-se as atitudes cada vez mais politizadas e irascíveis do realizador, ou a sua incapacidade para aceitar ideias que o contrariem, ou o modo surpreendente como rejeita as suas obras mais populares, ou a dificuldade em lidar com a má recepção de "La chinoise".

23 maio 2018

Críticas e/ou classificações a filmes estreados em 2018 (circuito comercial)

Janeiro:

- The Killing of a Sacred Deer (5/5).
- L'amant d'un jour (4/5).
- Pop Aye (3/5). 
- Aus dem Nichts (4/5). 
- Ôtez-moi d'un doute (3/5).
- Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (4/5).
- Molly's Game (4/5).
- Call Me By Your Name (5/5).
- Mudbound (3.5/5).
- Kedi (3.5/5).
- Faithfull (1.5/5). 

Fevereiro:

- Nelyubov (4/5).
- Visages villages (4.5/5).
- Amor Amor (4/5).
- The Florida Project (4.5/5).
- Alias Maria (3/5).

Março: 

- No Intenso Agora (4/5).
- Como Nossos Pais (4/5).
- Lady Bird (3/5).
- Aparição (3.5/5).
- Sandome no satsujin (4/5).

Abril:

Goksung (4/5).
- La ragazza nella nebbia (3/5).
- Ammore e malavita (3/5).
- The Death of Stalin (3.5/5).
- Insyriated (3/5).
- Death Wish (1.5/5).
- Rampage (2/5).
- Chavela (3/5).
- Au revoir là-haut (3/5).
- The Place (4/5).


Maio:

- Martírio (4/5).
- You Were Never Really Here (1.5/5).
- Frantz (4/5).
- Submergence (2/5).
- Die göttliche Ordnung (2/5).
- As Boas Maneiras (4/5).
- Mr & Mme Adelman (3/5).
- Le Redoutable (3/5).
- L'atelier (4/5).

Junho:

- Les gardiennes (4/5).
- Nico, 1988 (3.5/5).
- Nagai iiwake (4/5).
- Hikari (4/5).
- Western (3.5/5).
- Columbus (4/5).
- Telle mère, telle fille (1/5).
- The Bookshop (1.5/5).
- Banshun (reposição).

Julho:

- Touchez pas au grisbi (reposição).
- Ascenseur pour l'échafaud (reposição).
- Lean on Pete (4/5).
- Happy End (3.5/5).

Sem data definida:

- A Ciambra (3.5/5).
- Vazante (4/5).
- Praça Paris (3/5).
- Sicilian Ghost Story (4/5).

21 maio 2018

Crítica: "Umimachi Diary" (Our Little Sister)

 "Umimachi Diary" contém diversos traços transversais a várias obras de Hirokazu Koreeda, embora estejamos diante de um dos raros trabalhos do cineasta e argumentista que adapta material já existente, em particular, a série de manga homónima. É filme profundamente sensível e terno, onde os conflitos nunca atingem proporções extremas e as temáticas são abordadas com imensa subtileza, tendo no seu centro quatro personagens femininas dotadas de personalidade, carisma e dimensão. A união destas é realçada em diversos planos de conjunto e exposta com enorme precisão por Hirokazu Koreeda, com o cineasta a embrenhar-se pelo interior de temáticas e assuntos que envolvem as relações familiares, as ausências, o luto, as especificidades da cultura e da sociedade japonesa, a religião e as memórias, sempre sem descurar uma enorme atenção a todos os pormenores e aos pequenos gestos do quotidiano que muito dizem sobre os personagens. O realizador é fiel a si próprio, seja na escolha das temáticas ou no modo sublime com que desenvolve os assuntos e as relações dos personagens, tendo ainda o auxílio de um elenco principal que conta com uma enorme química, algo essencial para explorar as dinâmicas de Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa), Chika (Kaho) e Suzu (Suzu Hirose), as quatro irmãs que dominam as atenções desta doce longa-metragem.

No início do filme, Sachi, Yoshino e Chika recebem a notícia de que o pai de ambas faleceu. Estas não contactavam com o progenitor há mais de quinze anos, nomeadamente, após este se ter divorciado de Miyako (Shinobu Ôtake), a mãe do trio. No funeral, encontram Suzu, a meia-irmã, com quem nunca tinham dialogado, embora a adolescente logo desperte a atenção de Sachi, que decide convidá-la para ir viver na casa do trio, em Kamakura. Estão lançadas as peças para a integração da jovem no interior da habitação das irmãs, um espaço que conta com uma atmosfera muito própria, tendo na personagem interpretada por Haruka Ayase a figura mais responsável. A intérprete é eficaz a transmitir a faceta sóbria, madura e honesta de Sachi, a irmã mais velha, uma enfermeira que lida diariamente com pacientes terminais e mantém uma relação com um médico casado (Shin'ichi Tsutsumi), algo que a coloca perante uma série de dilemas interiores. Esta é uma das figuras centrais do filme, bem como Suzu. A integração da jovem num novo espaço e no interior das dinâmicas da família surge como um elemento essencial desta obra, com Suzu Hirose a incutir uma certa candura à sua personagem, uma adolescente que está a formar e a afirmar a sua personalidade, gosta de jogar futebol, tem algum receio de falar sobre o pai com as irmãs e guarda no interior da sua alma uma certa dor pelo facto da mãe pouco se preocupar consigo.

18 maio 2018

Crítica: "Kono sekai no katasumi ni" (In This Corner of the World)

 Tendo maioritariamente como pano de fundo os territórios japoneses de Kure e Eba entre 1933 e 1946, "Kono sekai no katasumi ni" deixa-nos perante aqueles que lidam de perto com os efeitos da Segunda Guerra Mundial. O contexto histórico que envolve os personagens poderia contribuir para que o realizador Sunao Katabuchi decidisse enveredar por caminhos excessivamente melodramáticos. No entanto, aquilo que este consegue é algo bem mais fascinante e impressionante, com o cineasta e a sua equipa a conseguirem construir um filme de animação dotado de esperança, que balanceia com enorme acerto os momentos mais dramáticos com as situações de maior leveza. Pelo caminho, Sunao Katabuchi explana a realidade deste período, seja através do guarda-roupa ou dos hábitos dos personagens, ou do modo como a entrada do Japão na II Guerra Mundial começou a afectar o quotidiano de cada um e do território. Alguns episódios são pontuados por uma enorme delicadeza e subtileza, embora, em vários momentos, os bombardeamentos ou a entrada em cena de um clarão tragam consigo a destruição e o perigo, com os acontecimentos históricos a serem expostos e incluídos de forma precisa no interior da história dos personagens

No centro do enredo está Suzu (Rena Nônen), uma jovem sonhadora. Esta tem um grande talento para o desenho, uma afabilidade contagiante e uma aparente fragilidade que esconde uma enorme força interior. A partir do momento em que se foca em algo, Suzu esquece praticamente tudo aquilo que a rodeia, enquanto deixa a sua mente viajar pelos meandros da ilusão. Os momentos iniciais do filme servem para apresentar algumas destas características da protagonista, bem como o meio em que habita, em particular, a sua casa, em Eba (Hiroshima), onde vive com os pais (Masumi Tsuda como Kiseno e Tsuyoshi Koyama como Juro) e os irmãos. Esta mantém uma relação algo afastada com Yoichi, o irmão mais velho, embora seja próxima de Sumi (Megumi Han), a irmã, algo notório quando as encontramos a partilharem alguns momentos de maior leveza, ou proximidade. Em Abril de 1943, ainda com dezoito anos de idade, Suzu é pedida em casamento por Shusaku (Yoshimasa Hosoya), um indivíduo um pouco mais velho, com quem partilhara um episódio peculiar, embora já nem se lembre do semblante deste último. Embora não conheça bem o noivo, a jovem aceita o pedido de casamento, indo viver para a casa do primeiro e dos sogros, em Kure (também em Hiroshima), onde se depara com um espaço muito marcado pela presença da marinha e das embarcações militares, algo exposto com acerto.