11 setembro 2016

Resenha Crítica: "Le goût des merveilles" (O Sentido do Maravilhoso)

 "Le goût des merveilles" (em Portugal, "O Sentido do Maravilhoso") não procura enganar o espectador ou "vender" uma ideia errada daquilo que tem para apresentar, com Éric Besnard a realizar uma "dramédia" pontuada por algum romantismo, simples nos seus propósitos e execução, que sabe utilizar os lugares-comuns ao serviço da narrativa, embora esteja longe de surpreender, inovar ou apresentar ambição. A história é relativamente simples, as reviravoltas mais do que esperadas e previsíveis, a banda sonora surge quase sempre pronta a adensar o tom poético ou melancólico do filme, o desfecho parece anunciado desde o início, embora Virginie Efira e Benjamin Lavernhe, a dupla de protagonistas, contribuam para elevar a obra cinematográfica. Efira e Lavernhe formam uma dupla de protagonistas capaz de despertar empatia, algo que contribui para a criação de um sentimento de simpatia em relação ao filme, com os intérpretes a contarem com uma dinâmica convincente. Virginie Efira interpreta Louise Legrand, uma viúva de trinta e sete anos de idade, que ainda não ultrapassou por completo a morte do esposo, tendo dois filhos desta união, nomeadamente, Emma (Lucie Fagedet), uma adolescente que "cresceu cedo demais", e Félix (Léo Lorléac'h), um jovem que gosta de jogar nas consolas e escapulir-se aos trabalhos de casa. Louise possui uma vasta propriedade, situada na Provença, que pertencia à família do esposo, com este local a contar não só com a habitação da protagonista e dos filhos, mas também com longos terrenos onde a personagem interpretada por Efira cuida de diversas plantações. A habitação conta com uma decoração que mescla um estilo rústico e moderno, algo que evidencia a longevidade da propriedade, enquanto o espaço exterior parece praticamente perfeito para quem adora a vida no campo. O espaço campestre é exposto e utilizado de forma inspirada ao longo do filme, surgindo praticamente como um personagem de relevo, com as suas cores, as suas especificidades e a sua atmosfera radiante a serem captadas com alguma lirismo e acerto. Veja-se os planos bem abertos que nos colocam diante dos tons roxos da Lavanda, ou os espaços verdes que pontuam o território, ou a miríade de árvores imponentes, com Philippe Guilbert a ter um trabalho competente na cinematografia, conseguindo transportar o espectador para o interior deste espaço dotado de enorme beleza e poesia (algo que se torna notório quando ficamos diante de alguns planos que procuram exacerbar a sensibilidade muito particular do protagonista). No entanto, a vida de Louise está longe de atravessar uma fase pontuada pela tranquilidade transmitida por este espaço aparentemente bucólico e capaz de despertar paz interior. Louise procura continuar com o negócio que pertencia ao esposo, embora esteja a lutar contra uma série de adversidades difíceis de contrariar: o banco exige o pagamento de um empréstimo num curto espaço de tempo; Paul (Laurent Bateau), um pretendente, procura aproveitar-se da fragilidade financeira da viúva para comprar um terreno desta a baixo custo; a personagem principal tarda em receber uma verba referente à produção de pêras. A protagonista conta com uma banca no mercado onde vende pêras, damascos, tartes, coscorões, mel, entre outros produtos, embora as receitas das vendas não cheguem para cobrir as despesas. Diga-se que Louise parece apresentar algumas incertezas em relação à sua habilidade e gosto por esta actividade profissional, apesar de tentar manter o negócio que outrora pertenceu ao marido. Absorta nos seus problemas e pensamentos, Louise distrai-se quando se encontra a conduzir e atropela Pierre (Benjamin Lavernhe), naquele que se revela um estranho mas feliz acaso. O casal que se conhece de forma improvável, ou caricata é algo que está longe de ser inovador na Sétima Arte ou na literatura, embora Éric Besnard consiga abordar esta situação de forma relativamente eficiente, com a relação de proximidade que se forma entre Pierre e Louise a crescer de forma relativamente natural ao longo da narrativa.  

 Benjamin Lavernhe consegue transmitir as dificuldades de Pierre em comunicar (é bastante directo a dialogar, mas isso não implica que seja um indivíduo comunicativo), bem como a incapacidade do protagonista para lidar com o cinismo da sociedade contemporânea (não tendo problemas em expor de forma brusca quando não gosta de uma pessoa), com o personagem a contar com Síndrome de Asperger. Pierre tem uma visão peculiar e hipersensível do Mundo (quando está no campo quase que parece entrar num espaço sagrado, algo notório quando contempla o mesmo), teme as multidões e os barulhos (algo exacerbado pelo trabalho de sonoplastia, com o som a ser adensado quando o personagem se encontra em pânico, uma medida simples e eficaz de expor o estado de espírito do protagonista), apresenta uma inteligência notória (veja-se o seu talento para a matemática ou como hacker), um gosto muito particular de colocar autocolantes em diversos locais e uma certa ingenuidade. Diga-se que Pierre não surge como o príncipe encantado que se prepara para salvar a donzela em apuros, bem pelo contrário. O próprio Pierre precisa de ajuda, com Lavernhe a conseguir exprimir as fragilidades emocionais deste indivíduo solitário que apresenta uma visão muito própria do Mundo que o rodeia, uma situação que se torna notória quando está em contacto com a natureza, ou exprime as suas fobias. Veja-se quando Louise decide trazer Pierre para o interior da sua casa, tendo em vista a tratar do mesmo, com este indivíduo a apresentar uma inabilidade latente para a conversação e para mentir, apesar de começar a conquistar a atenção da protagonista e dos rebentos da mesma. Nesse sentido, Pierre consegue melhorar a vida de Louise e vice-versa, com a dinâmica convincente entre Benjamin Lavernhe e Virginie Efira a fazer maravilhas para a narrativa funcionar, mesmo quando o argumento não ajuda e decide enveredar por diálogos excessivamente melosos (tais como o protagonista a prometer que não vai morrer). Se Louise procura tratar dos ferimentos de Pierre, provocados pelo atropelamento, já este último consegue ajudar a primeira a cuidar das plantações, com a habilidade do protagonista para a matemática e para a previsão do tempo a ser essencial para evitar alguns problemas. Pierre encontra no lar de Louise, Emma e Félix um espaço diferente daquele ao qual estava habituado, algo que promete trazer mudanças ao seu quotidiano, bem como ao dia-a-dia daqueles que rodeiam este personagem. O lar de Louise parece trazer diversos ingredientes que faltavam à vida de Pierre, enquanto o estilo peculiar, a inteligência e os talentos deste último trazem uma lufada de ar fresco ao quotidiano da família da protagonista. A relação entre Louise e Pierre conhece uma série de avanços e recuos ao longo do filme. Louise percebe que Pierre está a ganhar um lugar especial no seu lar, embora pareça reticente em deixar este individuo entrar por completo na sua vida, com ambos a surgirem como figuras marcadas por uma miríade de problemas. Pierre perdeu a mãe quando ainda era jovem, tendo sido criado por Jules (Hervé Pierre), um indivíduo que trabalha e habita numa livraria, com a entrada em cena de Louise a acontecer quando o primeiro estava obrigado a apresentar-se a avaliações psicológicas regulares junto de uma médica (Hiam Abbass). Louise ainda não ultrapassou a morte do esposo e evidencia que a sua capacidade de luta contra o destino já conheceu melhores dias. Por sua vez, Emma e Félix começam encarar Pierre como uma espécie de irmão mais velho, ou uma estranha figura paternal, com este indivíduo a procurar ajudar os dois jovens, ainda que à sua maneira, com Lucie Fagedet e Léo Lorléac'h a terem algum tempo para sobressaírem. Temos ainda alguns personagens secundários que contam com alguma relevância na narrativa, tais como Paul, a Dr.ª Mélanie Ferenza e Jules, embora apenas este último seja desenvolvido, enquanto os dois primeiros acabam por cair nos estereótipos.

 Paul aparece como um indivíduo que não desperta a confiança dos filhos da protagonista, com as suas intenções a contarem com um carácter dúbio (tanto parece querer aproveitar-se de Louise como tentar ajudar e demonstrar o seu interesse nesta mulher, com este personagem a surgir como a antítese de Pierre, um indivíduo que não conta com interesses materiais). Por sua vez, Mélanie Ferenza surge como uma médica unidimensional, que raramente tem espaço para crescer na narrativa e apresenta alguma falta de confiança em relação ao protagonista. Já Hervé Pierre interpreta um indivíduo experiente e ponderado que acolheu Pierre quando este ainda era jovem, com a amizade entre Jules e o protagonista a remeter praticamente para as dinâmicas entre um pai e o seu filho. Essa situação é visível no último terço, quando Jules procura aconselhar Pierre, num momento relativamente comum num filme do género, em particular, quando alguém procura avisar o protagonista em relação à relevância que a figura feminina tem na sua vida. O maior destaque de "Le goût des merveilles" vai para Virginie Efira e Benjamin Lavernhe, com a dupla a protagonizar diversos momentos que facilmente despertam a nossa simpatia em relação aos personagens que interpretam. Veja-se quando Pierre ajuda Louise a vender produtos na banca da viúva, com o conhecimento e a franqueza do primeiro a prometer afugentar clientes, ou quando o protagonista belisca a personagem interpretada por Virginie Efira num sinal que gosta de estar junto desta última (o humor também está muito presente ao longo do filme). Efira incute maturidade e experiência a Louise, com a actriz a expor algumas das fragilidades desta mulher que aos poucos começa a perceber a relevância de Pierre na sua vida. Lavernhe expõe as dificuldades que Pierre tem em conviver numa sociedade pragmática e cínica, com este personagem a apresentar uma inteligência indelével e uma personalidade que aos poucos conquista alguns elementos que o rodeiam. Pierre não gosta que lhe toquem, ou coloquem casacos que picam, mas parece começar a sentir algo por Louise que é diferente de tudo aquilo que conhecera, ou não estivéssemos diante de uma figura pouco dada a grandes convívios ou a relações de amizade. Benjamin Lavernhe utiliza regularmente a linguagem corporal para expor o modo diferente de Pierre encarar e sentir o mundo que o rodeia, com "Le goût des merveilles" a abordar os efeitos do Síndrome de Asperger de forma simples e eficaz. Embora a simplicidade e a previsibilidade pareçam ser as palavras de ordem, "Le goût des merveilles" consegue abordar temáticas dotadas de alguma complexidade, tais como as adversidades encontradas pelos elementos que contam com Síndrome de Asperger, a crise financeira de uma família, as dificuldades inerentes à manutenção do lar e de um negócio familiar, a dicotomia entre o campo e a cidade, entre outras, embora tudo seja desenvolvido com enorme leveza. A dinâmica entre Louise e Pierre é relativamente bem trabalhada, apesar de um ou outro diálogo completamente desnecessário, com Éric Besnard a optar quase sempre por um estilo de realização que deixa as atenções recaírem no trabalho dos actores e na beleza natural dos cenários campestres. Com uma abordagem eficaz de situações ligadas aos elementos que contam com Síndrome de Asperger, um tom feel good, algum lirismo, salpicos de romantismo e uma sinceridade notória nos seus propósitos, "Le goût des merveilles" pode contar com um argumento simples e pouco ambicioso mas nem por isso deixa de proporcionar alguns momentos agradáveis e cumprir naquilo a que se propõe, com Virginie Efira e Benjamin Lavernhe a convencerem e a formarem uma dupla que facilmente prende a nossa atenção.

Título original: "Le goût des merveilles".
Título em Portugal: "O Sentido do Maravilhoso".
Realizador:
Éric Besnard
Argumento: Éric Besnard. 
Elenco: Virginie Efira, Benjamin Lavernhe, Hervé Pierre, Lucie Fagedet, Léo Lorléac'h, Hiam Abbass, Laurent Bateau.

Trailer de "O Sentido do Maravilhoso":


10 setembro 2016

Resenha Crítica: "Psycho Raman" (Raman Raghav 2.0)

 Pontuado por personagens imorais, uma banda sonora regularmente intrusiva, um conjunto de figuras femininas que apenas parecem constar na narrativa para serem alvo de agressões físicas e psicológicas, uma dupla de protagonistas pronta a repelir o espectador, "Psycho Raman" surge como um thriller de características negras, com a violência e a imoralidade a contaminarem quase todos os poros desta obra cinematográfica realizada por Anurag Kashyap. O cineasta incute um ritmo dinâmico e fluído ao enredo, dividindo o mesmo em oito capítulos e um prólogo, enquanto concede espaço para Vicky Kaushal e Nawazuddin Siddiqui explorarem a faceta negra dos personagens que interpretam. Siddiqui é o elemento do elenco que mais se destaca, com o actor a interpretar um assassino inspirado em Raman Raghav. O enredo de "Psycho Raman" é livremente inspirado na história de Raman Raghav, um assassino em série que cometeu uma miríade de homicídios na cidade de Bombaim durante a década de 60. Anurag Kashyap transporta a história deste assassino para os dias de hoje, com algumas liberdades à mistura, enquanto nos coloca diante de Raghavan Singh (Vicky Kaushal) e Ramanna (Nawazuddin Siddiqui), uma dupla imoral, violenta, incapaz de manter uma relação pacífica com as mulheres ou seguir as leis. Raghavan é um polícia agressivo, misógino, imoral, viciado em cocaína, que comete quase tantos delitos como aqueles que combate. Ramanna é um serial killer sádico, malicioso e cruel, que desenvolve uma obsessão doentia por Raghavan, um representante das autoridades que está longe de apresentar comportamentos recomendáveis. Raghavan e Ramanna parecem duas faces da mesma moeda, com a obsessão do segundo em relação ao primeiro a ser explicada no oitavo e último capítulo de "Psycho Raman", com este sentimento a entroncar num episódio que decorre no prólogo, quando o polícia exibe a sua imoralidade e ferocidade. O personagem interpretado por Nawazuddin Siddiqui comete homicídios devido ao desejo de colocar os mesmos em prática, com este indivíduo a desprezar as regras da vida em sociedade e a lei, enquanto Raghavan utiliza o estatuto de polícia para conseguir escapulir-se às consequências dos delitos que comete. Ou seja, estamos diante de figuras que causam repelência, receio, ansiedade e imensas dúvidas, com Ramanna a ser mais genuíno nos seus propósitos, inclusive na sua admiração por Raman Raghav, enquanto Raghavan utiliza o poder inerente à sua profissão para cometer actos atrozes. Acompanhar esta dupla é uma tarefa assaz hercúlea, com "Psycho Raman" a propor que o espectador siga dois personagens que despertam facilmente o nosso desprezo, com o polícia e o serial killer a não diferirem assim tanto a nível de comportamentos. Diga-se que Ramanna sente que tem no polícia uma espécie de alma gémea, algo que ajuda a explicar a obsessão que forma em relação ao agente da autoridade, com o encontro final entre ambos a deixar marca e a surgir como um dos grandes momentos de "Psycho Raman", com Anurag Kashyap a ser coerente em relação ao rumo da narrativa e deixar-nos perante um pedaço de cinema deliciosamente imoral e violento. Essa imoralidade pontua quer o quotidiano do polícia, quer o dia-a-dia do serial killer. Raghavan consome imensas doses de cocaína (a espaços parece um personagem saído de um filme de Martin Scorsese), surge quase sempre de óculos escuros, bem como com umas olheiras de "caixão à cova", com o protagonista a contar com uma relação conturbada com o progenitor (algo abordado de forma superficial) e um namoro problemático com Smrutika Naidu (Sobhita Dhulipala), uma das várias figuras femininas que não são devidamente desenvolvidas ao longo do filme. Sobhita Dhulipala interpreta uma mulher que é alvo de abusos por parte de Raghavan, sendo ainda seguida por Ramanna, com a actriz a praticamente não ter espaço para compor uma personagem com significado e interesse.

O argumento escrito por Anurag Kashyap e Vasan Bala é de uma pobreza franciscana no que diz respeito ao desenvolvimento das personagens femininas, parecendo que estas apenas se encontram no enredo com o propósito de serem submetidas a maus-tratos. É um dos grandes deslizes de "Psycho Raman", com o argumento de Anurag Kashyap e Vasan Bala a descurar por completo o desenvolvimento das personagens femininas, algo notório no caso de Smrutika. Esta pretende manter uma relação séria com Raghavan, embora o polícia demonstre por diversas vezes que não conta com esse objectivo, tratando-a como um mero objecto, com o relacionamento entre o protagonista e a primeira a ser deveras venenoso e destrutivo. A relação entre Smrutika e Raghavan raramente convence, com a química entre Vicky Kaushal e Sobhita Dhulipala a não funcionar, com o argumento a não ajudar o actor e a actriz, algo que retira impacto a uma cena que deveria provocar uma comoção indelével. Ao invés disso, esse momento causa indiferença, embora permita expor mais uma vez que a violência circula pelas veias do enredo de "Psycho Raman". A violência tanto é exposta de forma directa como é deixada para a imaginação do espectador, com Anurag Kashyap a ser bastante eficaz a jogar com as nossas sensações. Por vezes basta observarmos um objecto a dirigir-se para um corpo para nos apercebermos do impacto provocado pelo embate, enquanto em alguns trechos os efeitos dos actos mais selvagens de Raghavan e Ramanna são expostos de forma bem viva. Ramanna utiliza um cabo de aço com uma curva para eliminar as suas vítimas, com o assassino a não ter problemas em terminar com a vida de quem quer que seja, uma situação que se torna clarividente quando o criminoso se reúne com a irmã (Amruta Subhash), o cunhado (Ashok Lokhande) e o sobrinho. Lakshmi, a irmã de Ramanna, é mais uma das mulheres que apenas parecem constar na narrativa para serem alvo de violência, com Nawazuddin Siddiqui a exibir o lado mais cruel e dissimulado do personagem que interpreta. Veja-se quando Ramanna começa a utilizar os brincos da irmã, após eliminá-la, quase como se estes surgissem como um troféu, ou o momento em que elimina o sobrinho. O triplo homicídio é cometido no segundo capítulo do filme, com o terceiro a dedicar-se à investigação da polícia, com Raghavan a perceber que outrora deixou escapar um serial killer, nomeadamente, Ramanna. Este entregara-se na esquadra da polícia, tendo revelado que cometeu uma série de assassinatos, embora Raghavan não atribua grande importância e credibilidade às histórias de Ramanna, algo que conduz o polícia a enviar o criminoso para um espaço fechado onde é torturado. Ramanna consegue fugir, acabando posteriormente por entrar em contacto com a família, uma situação que exacerba o estado de perturbação deste personagem que outrora violava a irmã. O pânico dos familiares de Ramanna é latente, com os rostos da irmã, do cunhado e do sobrinho do assassino a transmitirem esse sentimento, bem como os diálogos que proferem. A irmã e o cunhado de Ramanna tentam controlar o assassino, embora este pareça uma bomba relógio que se encontra pronta a explodir à primeira palavra mal utilizada. Veja-se a irritação de Ramanna quando percebe que não existe uma fotografia sua no interior da sala, ou a rispidez com que dialoga a partir do momento em que o cunhado revela saber algo sobre o seu passado. Nawazuddin Siddiqui transmite o lado cruel, brutal e selvagem do personagem que interpreta, enquanto Anurag Kashyap cria todo um ambiente de tensão a envolver a reunião familiar, com o cineasta a incutir temporariamente características de filme de invasões a casas a "Psycho Raman". A chegada de Ramanna contribui para que a casa de Lakshmi se transforme num espaço opressor, onde os sentimentos fervilham de forma imparável, parecendo certo que o assassino não é bem-vindo neste local, com o criminoso a exibir o seu lado mais cruel e sádico.

Se a cicatriz que cobre uma parte do rosto de Ramanna permite facilitar a identificação deste indivíduo, já a análise à sua mente e à sua alma é tarefa assaz intrincada de efectuar. O argumento explora o lado negro deste personagem que começa a desprezar o mundo que o rodeia, com Ramanna a ter na morte alheia um modo de vida, para além de formar uma obsessão por um polícia que considera ser o seu "Raghav" (numa referência a Raman Raghav). A obsessão de Ramanna em relação a Raghavan é doentia, embora, gradualmente, pareça certo que tem alguma razão de ser, com o último terço a expor o estranho vínculo que se forma entre estas duas figuras perturbadas. Após o triplo homicídio, a polícia começa a perseguir Ramanna, embora este indivíduo seja bem mais astuto e inteligente do que deixa transparecer para o exterior. Fica particularmente na memória uma cena de perseguição e fuga, em plenas ruas de Bombaim, com estes momentos a exibirem a capacidade de Anurag Kashyap em utilizar e explorar a cidade ao serviço do enredo. Esta cidade surge representada como um espaço superpovoado, com os planos filmados a partir das zonas superiores a deixarem a entender que não existe um local praticamente livre, uma situação que dificulta o trabalho dos representantes das autoridades e facilita a tarefa ao assassino que tanto pretende aparecer como escapulir-se, pelo menos até cumprir a sua "missão". Por sua vez, a perseguição pelas ruas deixa em evidência os espaços estreitos de Bombaim, algo que dificulta a circulação de forma rápida e precisa, com o próprio enredo a assumir as características labírinticas desta cidade, enquanto a câmara de filmar segue avidamente os personagens. A perseguição ocorre em Dharavi, um bairro de Bombaim, com Anurag Kashyap a fazer questão de filmar neste espaço exterior, enquanto a câmara capta este episódio de forma bem viva, contribuindo para a intensidade desta busca e fuga, com Jay Oza  (director de fotografia) a revelar alguma competência. Ramanna desenvolve uma obsessão doentia por Raghavan, algo notório quando observa quase todos os passos deste último, ou tenta reunir-se com o mesmo, com o representante da autoridade a não perceber inicialmente todos os contornos desta espécie de jogo psicológico. O assassino inspirou-se em Raman Raghav, com Nawazuddin Siddiqui a evidenciar o prazer que o personagem que interpreta tem em eliminar as suas vítimas, com Ramanna a libertar-se das barreiras morais e a exibir o seu descontrolo. É impossível ficar indiferente à interpretação de Nawazuddin Siddiqui, sobretudo a malícia que este incute no olhar, nas falas e gestos de Ramanna (será possível esquecer o seu gesto com as mãos a fingir que está a observar algo a partir de uns binóculos que permitem ver a alma), com o a actor a contar com um trabalho digno de atenção. Já Vicky Kaushal exibe que estamos diante de uma figura imponente, pouco dada a grandes demonstrações de afecto, que não consegue estar muito tempo sem consumir cocaína, com Raghavan a assumir uma postura destrutiva que o conduz gradualmente para o abismo. A facilidade com que Raghavan comete crimes sem ser descoberto pelos colegas é algo que surpreende, com o argumento a revelar não só alguns "furos", mas também imensa preguiça no desenvolvimento das subtramas. Os problemas de Raghavan com o pai são abordados de forma superficial, enquanto a relação do primeiro com as mulheres permite apenas exacerbar o lado misógino deste polícia que procura deter um criminoso embora se deixe prender na teia efectuada pelo adversário e a espaços quase que assuma os seus comportamentos.

Ficamos diante de dois protagonistas imorais, que estão dispostos a cometerem crimes, embora um não tenha problema em assumi-los e assinalar os mesmos no seu diário, enquanto o outro utiliza o seu estatuto para fugir às responsabilidades. "Psycho Raman" coloca-nos ainda diante de uma miríade de personagens secundárias que pouco ou nada são desenvolvidas. Veja-se o caso de Ankita, uma mulher com quem o protagonista tenta fazer sexo, em plena casa de Smrutika, embora tudo falhe, com Raghavan a exibir mais uma vez a sua brutalidade, ou a empregada da segunda (Deepali Suryakant Badekar), uma figura feminina que apenas parece constar no enredo para ser assassinada. A subtileza nem sempre é a palavra de ordem em "Psycho Raman", com Anurag Kashyap a exibir isso mesmo naquilo que diz respeito à representação das personagens femininas, bem como na utilização da banda sonora, com esta a revelar-se desastrosa. Esta situação é visível num momento de grande impacto emocional entre Raghavan e o pai, com a banda sonora a entrar em cena e a transformar um episódio relevante num trecho completamente caricato. A relação problemática entre pai e filho, embora seja abordada de forma superficial, permite evidenciar alguns dos elementos que ajudam a explicar os comportamentos negros de Raghavan, com o polícia a surgir como uma figura atormentada pelos seus demónios interiores. Nesse sentido, Ramanna parece estar certo ao pensar que Raghavan é o seu "Raghav", com estes dois personagens a terem bastantes elementos em comum. Ramanna encara o polícia como alguém que se encontra a cair num lado quase tão negro como o seu, enquanto Raghavan lida com um conjunto de tormentas interiores, algo que expõe de forma bem viva. Raghavan e Ramanna são duas figuras que assumem posturas imorais, com Nawazuddin Siddiqui e Vicky Kaushal a elevarem os personagens que interpretam ao longo deste thriller psicológico com traços de policial, enquanto "Psycho Raman" tem o mérito de nos transportar para o interior de uma narrativa negra, onde o crime e o desrespeito pela lei parecem invadir todos os poros do enredo.

Título original: "Raman Raghav 2.0".
Título em inglês: "Psycho Raman".
Realizador: Anurag Kashyap.
Argumento: Anurag Kashyap e Vasan Bala.
Elenco: Nawazuddin Siddiqui, Vicky Kaushal, Sobhita Dhulipala, Amruta Subhash, Ashok Lokhande.

09 setembro 2016

Resenha Crítica: "Demon" (2015)

 O final de "Demon" desperta uma sensação de estranheza, com algumas peças a encaixarem-se, outras a ficarem soltas, com a última obra cinematográfica realizada por Marcin Wrona a ter a capacidade de nos deixar atordoados. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, inclusive uma homenagem descarada a "The Shining" (a presença de Krzysztof Penderecki na banda sonora é outro dos elementos a ligar os dois filmes), com Marcin Wrona a realizar uma obra cinematográfica que tende a crescer junto do espectador. O terror, o humor, o absurdo, o misticismo, o suspense, surgem bastante presentes em "Demon", bem como diversos elementos da cultura judaica, com uma festa de casamento a revelar-se simultaneamente hilariante e desastrosa, enquanto Marcin Wrona se prepara para fazer a vida negra a Piotr (Itay Tiran), o protagonista do filme. O provérbio português "casamento molhado, casamento abençoado" não se aplica a Piotr e Zaneta (Agnieszka Zulewska), um casal que namora à distância e vê o seu matrimónio ser conspurcado pela chegada de uma entidade demoníaca. O facto do Sol praticamente não dar um ar da sua graça já seria por si só um sinal de aviso bastante negativo, com a chuva e o cinzentismo a dominarem os cenários exteriores de "Demon", com Marcin Wrona e Pawel Flis (director de fotografia) a aproveitarem os elementos naturais para exacerbarem o pessimismo que a espaços toma conta do enredo. A própria presença notória do nevoeiro, quando o filme já vai no seu terceiro acto, transmite a instabilidade e o quão incerto parece ser o futuro dos personagens que ficamos a conhecer em "Demon". A instabilidade parece estar na ordem do dia de Piotr, o protagonista do filme, sobretudo a partir do momento em que regressa à Polónia para casar com Zaneta. Esta é filha de Zygmunt Jasinski (Andrzej Grabowski), um proprietário relativamente abonado, que conta com um vasto conjunto de terrenos num espaço rural da Polónia, com o veterano a apresentar algumas reservas em relação ao matrimónio. Piotr e Zaneta namoravam à distância, com o primeiro a encontrar-se a viver e a trabalhar em Inglaterra, enquanto a segunda habita na Polónia, com as características deste envolvimento a parecerem desagradar a Zygmunt Jasinski, um homem conservador no que diz respeito às relações amorosas. Quem recebe Piotr de braços abertos é Jasny (Tomasz Schuchardt), o irmão de Zaneta, um indivíduo beberrão e extrovertido que já conhecia o primeiro há algum tempo. Já Ronaldo (Tomasz Zietek), uma figura misteriosa que trabalha como escavador para o pai da protagonista, apresenta uma atitude ambígua em relação a Piotr, com este personagem a contar com uma relevância surpreendente no seio da narrativa. Ronaldo representa paradigmaticamente o mistério que a espaços invade o enredo, com Tomasz Zietek a exprimir a estranheza desta figura que nunca chegamos a conhecer totalmente. O mistério e a bizarria também se aplicam ao quotidiano de Piotr neste espaço rural, com a serenidade a ser rompida pela chegada de um espírito que não sossega enquanto não encontrar um corpo onde se instalar. Piotr fica instalado numa casa que necessita de algumas modificações, pontuada por tonalidades frias e uma decoração pouco acolhedora, que outrora pertencera aos avós de Zaneta. O território que pertence a Zygmunt Jasinski parece contar com as condições ideais para o protagonista efectuar planos a longo prazo, com este a pensar reformular o terreno e a habitação onde pretende viver com Zaneta. É precisamente a pensar nestas mudanças que Piotr decide efectuar uma escavação num terreno dos familiares da esposa, um acto que se revela desastroso, com o protagonista a encontrar um esqueleto humano. O esqueleto encontra-se em ampla decomposição, consumido pela terra e pela passagem do tempo, com esta descoberta a surgir como um momento de mudança para o protagonista. Piotr desenterrou não só um esqueleto mas também um dybbuk, um espírito humano que vagueia até encontrar refúgio no corpo de uma pessoa que se encontre viva. A partir desse momento, os comportamentos de Piotr começam a mudar, com Itay Tiran a transmitir o tom mais agressivo e bizarro do protagonista, com este indivíduo a exibir uma faceta que Zaneta e Jasny desconheciam.

A loucura e a paranóia parecem tomar conta da mente de Piotr, com Itay Tiran a evidenciar isso mesmo, enquanto o argumento de Pawel Maslona e Marcin Wrona permite que o actor sobressaia, sobretudo a partir do momento em que o protagonista começa a sofrer ataques aparentes de epilepsia e o seu corpo parece ser controlado por uma entidade externa. Inicialmente crescem as dúvidas se Piotr está mesmo possuído ou se está demente, embora Marcin Wrona esclareça rapidamente a situação, com o protagonista a parecer entrar num beco sem saída. O casamento surge como um momento de festa, mas também de desgraça e consternação, com a música, a dança e o álcool a darem lugar ao desespero, com Piotr a deixar a sua noiva estarrecida. Ninguém encontra o dito esqueleto humano com que Piotr se deparou, embora Zaneta acredite no esposo, algo que se torna notório quando a personagem interpretada por Agnieszka Zulewska coloca mãos à obra e decide averiguar o terreno. Agnieszka Zulewska exprime a convulsão sentimental de Zaneta, com esta mulher a amar o noivo e a procurar fazer de tudo para que este recupere. Por sua vez, Itay Tiran protagoniza momentos de grande intensidade, com o actor a saber tirar partido do corpo e da voz para expor o estado emocionalmente desequilibrado de Piotr. O protagonista depara-se por diversas vezes com a imagem de uma estranha mulher (um espírito que vagueia "docemente"), sangra do nariz, perde a aliança e o controlo do corpo, discute com o sogro, enquanto este último parece estar em ampla negação. A forma completamente desregulada como o personagem interpretado por Andrzej Grabowski tenta esconder o genro e distrair os convidados com álcool exibe tanto o desespero de um homem que não sabe como reagir a tamanha adversidade, como a personalidade peculiar deste indivíduo. Nesse sentido, chega a ser quase tragicómico encontrar o pai da noiva a tentar entorpecer os convidados com álcool, ou a procurar que tudo seja esquecido, embora pareça difícil deixar de lado tudo aquilo que estes personagens estão a presenciar. Ao longo de "Demon", temos ainda um conjunto de personagens secundários que sobressaem em bom nível, com Marcin Wrona e a Pawel Maslona a criarem um argumento cuidado, que sabe balancear os momentos mais tensos com as situações mais surreais e cómicas do enredo, embora a tragédia surja muitas das vezes ao lado do humor. Wlodzimierz Press é um dos actores que beneficia da qualidade do argumento da dupla, com o intérprete a dar vida a um professor com um conhecimento notório deste espaço polaco e da cultura judaica, servindo quase como uma ponte de ligação entre o passado e o presente (ao mesmo tempo que ajuda a explicar as raízes de alguns episódios que ocorrem). Temos ainda casos como Adam Woronowicz, com o actor a destacar-se como um médico beberrão, que inicialmente pensa estar diante de um caso de epilepsia, embora o problema de Piotr esteja longe de se resolver com medicação. Não falta ainda a presença de um padre (Cezary Kosinski), fenómenos sobrenaturais e a noção de que o futuro do protagonista não parece muito risonho, sobretudo a partir do momento em que é possuído.

 O ambiente que rodeia o enredo é muitas das vezes pesado, embora Marcin Wrona não descure o humor, com alguns momentos de "Demon" a contarem com características que roçam a tragicomédia. O humor está presente em alguns trechos do filme, seja devido ao excesso de álcool que é consumido (tudo parece servir de desculpa para "virar" mais um copo ou uma garrafa), ou inerente a situações completamente surreais, com o pai de Zaneta a estar muitas das vezes no cerne destes episódios. Andrzej Grabowski evidencia que o personagem que interpreta está numa situação delicada. Zygmunt Jasinski procura proteger a honra da filha e da família, mas os planos que este veterano efectuou para o casório foram completamente arrasados pelo destino. Tenta efectuar uma cerimónia num dia de Sol, mas a chuva teima em contaminar todos os espaços exteriores, enquanto o palco do evento, um celeiro da família, conhece episódios que variam entre o sobrenatural, o macabro, o surreal e o cómico. Veja-se o discurso do protagonista diante dos convidados, com Itay Tiran a expor as dificuldades que Piotr enfrenta para tentar manter a noção da realidade quando algo está a consumir a sua alma e o seu ser. Num determinado momento de "Demon", Piotr encontra-se preso no interior do espaço fechado do porão, longe de todos os convidados, embora esteja acompanhado por alguns personagens relevantes. O cenário é paradigmático do cuidado colocado no design dos espaços interiores, com o porão a encontrar-se praticamente isolado, recheado de humidade e tonalidades cinzentas, enquanto a desesperança é sentida e adensada. Preso a um demónio e aos seus problemas, Piotr surge como uma figura trágica que sente na pele os efeitos provocados pelo espírito de alguém que outrora foi enterrado sem respeito ou cuidado, com o passado e as tradições a parecerem contar com uma relevância inegável para diversos personagens. Veja-se o caso do professor, um indivíduo vetusto que se lembra do passado do território e do quão mudado este se encontra nos dias de hoje, ou a propriedade que pertence à família de Zaneta, com o presente e o passado a encontrarem-se mais unidos do que esperávamos. No final, uma fotografia surpreende e causa burburinho. É a audácia e o descaramento de Marcin Wrona a surgirem em grande estilo, com o cineasta a não ter problemas em imitar Stanley Kubrick, com a própria banda sonora a trazer ecos de "The Shining" (a participação de Krzysztof Penderecki surge como outro elo de ligação entre os filmes). Simultaneamente intenso, surreal e emocionalmente violento, "Demon" consegue crescer junto do espectador, com Marcin Wrona a criar algo capaz de nos deixar atordoados, que não causa indiferença e desperta uma multitude de sentimentos.

Título original: "Demon".
Realizador: Marcin Wrona.
Argumento: Marcin Wrona e Pawel Maslona.
Elenco: Itay Tiran, Agnieszka Zulewska, Tomasz Schuchardt, Andrzej Grabowski, Adam Woronowicz, Wlodzimierz Press, Tomasz Zietek, Cezary Kosinski.

08 setembro 2016

Resenha Crítica: "Goksung" (The Wailing)

 Entre rituais associados ao misticismo e ao oculto, uma investigação policial intrincada, um japonês misterioso, um agente da autoridade aparentemente pouco dado a grandes esforços, uma figura feminina que aparece em fases cruciais da narrativa, algumas pitadas de humor, uma atmosfera pontuada pelo sobrenatural, possessões, diversos planos de fino recorte e um conjunto de cenários contaminados pela chuva, "Goksung" surge como um thriller marcado por elementos de terror e mistério que ganha contornos gradualmente mais intensos e inquietantes. A ambição e a irreverência parecem ser a palavra de ordem ao longo do filme, com "Goksung" a surpreender e inquietar o espectador, com o humor a permitir uns momentos mais leves para respirarmos de alívio e ganharmos fôlego para os trechos mais pesados, com o ambiente que rodeia a narrativa a ser muitas vezes de "cortar à faca", ou não estivéssemos a ser transportados de mansinho para as entranhas do mal. É filme para permanecer na memória, para se agarrar à nossa mente, ao nosso corpo, à nossa alma, mesmo quando nem tudo faz muito sentido, com Hong-jin Na a exibir uma maturidade notória como cineasta, bem como uma capacidade indelével de arriscar. Essa situação é visível na capacidade do cineasta em mesclar assertivamente os ingredientes de diversos géneros ao longo deste filme de várias facetas. Temos investigação policial. Temos rituais associados ao exorcismo. Temos um pai que procura proteger a sua filha e a restante família. Temos momentos de humor. Temos mistério. Temos a abordagem de temáticas relacionadas com os preconceitos, o misticismo e o ocultismo. Ou seja, "Goksung" surge dotado de uma série de ingredientes que permitem a Hong-jin Na criar uma refeição de luxo para um filme do género. Hong-jin Na volta a exibir um talento latente para inquietar o espectador, algo que já tinha acontecido em "The Chaser" e "The Yellow Sea", embora "Goksung", a terceira longa-metragem realizada pelo cineasta, surja como um filme de terror pontuado por elementos ligados ao sobrenatural e ao misticismo, com a presença de um estranho japonês e uma série de assassinatos violentos a mexerem com a mente de diversos personagens, inclusive de Jong-goo (Do-won Kwak), o protagonista desta obra cinematográfica. Jong-goo é um polícia pouco expedito, que chega quase sempre atrasado ao local de trabalho ou aos territórios onde ocorreram crimes, com este indivíduo a parecer bem intencionado nos seus propósitos, embora nem sempre prime pela eficácia no cumprimento do serviço. Se necessitássemos da ajuda de algum polícia, Jong-goo certamente não seria a nossa primeira escolha, com o protagonista de "Goksung" a revelar um talento inato para tomar más decisões, embora seja bem intencionado e a certa altura da narrativa revele uma enorme coragem, sobretudo quando é colocado à prova e tem de defender o seu lar. Jong-goo vive com a esposa, a filha e a sogra, com o lar do trio a conhecer momentos de convulsão a partir do momento em que a segunda, a jovem Hyo-jin (Hwan-hee Kim), começa a sentir estranhos sintomas que indicam que se encontra possuída. No início de "Goksung" encontramos Jong-goo a ser chamado ao local onde ocorreu um assassinato, apesar de se deparar com um caso ainda mais intrincado. A atmosfera é lúgubre, pontuada pela hostilidade da chuva (quase sempre presente ao longo do filme), a presença de cadáveres, sangue e imensa lama, com os raios solares a parecerem querer escapulir-se a todo o custo deste cenário onde a morte paira por todos os poros.

O sangue permeia o espaço interior da habitação onde jazem os corpos das vítimas, com Jong-goo a ficar chocado com este cenário desolador. Por sua vez, no espaço exterior do local do crime, encontramos um indivíduo que parece em decomposição, aparentemente fatigado, com o corpo recheado de infecções e um semblante semelhante a alguém que aparenta já estar mais morto do que vivo. O mistério em volta deste indivíduo e as razões para ter cometido o assassinato são inicialmente desconhecidas, apesar das culpas para esta estranha conduta serem atribuídas aos cogumelos selvagens ingeridos pelo suposto assassino. Diga-se que existem mais casos do género, com os rumores a apontarem para que a causa desta estranha infecção, ou vírus, não seja os cogumelos, mas sim a presença de um japonês solitário (Jun Kunimura), de nome aparentemente desconhecido e comportamentos capazes de despertarem uma série de questões. Esta estranha epidemia, que provoca degradação corporal e um comportamento violento da parte de quem foi infectado, coincidiu com a chegada deste indivíduo ao espaço florestal de Gokseong, um território praticamente rural que se encontra rodeado por uma série de montanhas que são regularmente exibidas ao longo do filme. As montanhas transmitem uma certa sensação de isolamento, com alguns planos a exibirem a beleza deste território, mas também os perigos que rodeiam o mesmo, com o personagem interpretado por Jun Kunimura a simbolizar esses receios e o medo em relação ao desconhecido. Jun Kunimura não diz praticamente uma única palavra ao longo de cerca de uma hora de duração do filme, com o actor a saber exacerbar o mistério que é criado em volta do personagem que interpreta, embora pareça certo que existe algo bizarro a rodear esta figura. O japonês conta com uma idade relativamente avançada, demonstra pouca habilidade para abrir o jogo em relação à sua personalidade e aos seus objectivos, despertando uma imensidão de dúvidas em volta da sua figura. Será que estas dúvidas dos elementos coreanos em relação ao japonês prendem-se a questões ligadas ao racismo ou à intolerância? Estaremos na presença de um demónio que afecta as mentes de outras pessoas? Será que o japonês é capaz de possuir outros seres humanos? As suspeitas sobre este personagem aumentam cada vez mais, com "Goksung" a não poupar na exposição de casos peculiares, onde o sobrenatural, a bizarria, os delírios e a parvoíce se juntam. Veja-se quando Jong-goo e Seong Bok são chamados para se deslocarem ao local onde decorreu um incêndio (e mais mortes), com este espaço a contar com a presença de uma mulher que apresenta comportamentos deveras estranhos, quase selvagens e irracionais (as vítimas desta "infecção" começam a reagir desta forma). Temos ainda o momento em que Jong-goo e Seong Bok decidem acompanhar Byeong Jae ao vale, tendo em vista a este último expor o local onde se deparou com uma suposta versão demoníaca e animalesca do japonês, embora a queda de um raio anule, ainda que temporariamente, os planos do trio (numa situação recheada de algum humor negro e parvoíce). Jong-goo e Seong Bok formam uma dupla de representantes das autoridades que não prima pela eficácia, ou competência, uma situação que a espaços permite alguns momentos de humor. Diga-se que "Goksung" não é uma obra cinematográfica desprovida de humor, com Hong-jin Na a saber dosear esses momentos mais leves com as situações mais sérias. Veja-se quando encontramos Jong-goo e a esposa a fazerem sexo no carro, com o primeiro a vangloriar-se do seu feito, enquanto a segunda se queixa da rapidez com que o acto foi consumado, apesar do maior problema passar pelo facto do casal ter sido apanhado em flagrante pela filha. Estamos diante de uma família peculiar, com Jong-goo a assumir algumas vezes uma postura irresponsável e temerosa, apesar de ser o primeiro a defender a jovem Hyo-jin quando esta se encontra em perigo. Hyo-jin é afectada, ou possuída, a partir do momento em que adoece e tem um pesadelo que ganha contornos deveras violentos, com Jong-goo a procurar fazer de tudo para travar os problemas que apoquentam a jovem. Do-won Kwak tem uma interpretação segura como Jong-goo com o actor a conseguir expressar a forma intensa como este personagem vive os episódios que o rodeiam, com actor a exibir um timing competente nos momentos de comédia e a convencer nas situações mais sérias. Um desses momentos mais sérios acontece precisamente quando Jong-goo, Seong Bok e Yi San (um diácono que fala japonês) decidem dirigir-se a casa do japonês e inquirir esta figura misteriosa que poderá ou não ser a causa para o vírus que infectou, ou possuiu, parte da população do local do título.

Hong-jin Na consegue despertar o nosso receio em relação às descobertas que poderão ser efectuadas, enquanto exibe um talento notório para criar o suspense em volta do conteúdo que se encontra na casa do japonês, um espaço que exibe mais uma vez o acerto do cineasta no aproveitamento dos cenários ao serviço da narrativa e o cuidado colocado na decoração dos mesmos. Se alguns planos bem abertos permitem explanar o longo território montanhoso que rodeia o espaço praticamente rural onde o protagonista habita e trabalha (o trabalho de Kyung-pyo Hong na cinematografia é um dos pontos positivos a realçar sobre "Goksung"), já o interior da casa do japonês surge como um cenário pouco aprazível, capaz de transmitir uma sensação de claustrofobia, medo e estranheza. A decoração exacerba as características bizarras deste espaço, bem como o mistério em volta deste indivíduo de origem nipónica. Iluminada pela luz das velas, marcada pela presença de várias fotografias de vítimas antes e depois destas serem infectadas pelo suposto vírus, preenchida por cabeças de bode, a casa do japonês contribui para a atmosfera pontuada pelo mistério que rodeia a entrada neste espaço e as descobertas efectuadas no interior do mesmo. A casa do japonês encontra-se localizada num espaço isolado, longe de tudo e todos, algo que lhe atribui características muito específicas que adensam o receio em relação a este indivíduo e ao espaço onde este habita, com Na Hong-jin a saber jogar com os medos do espectador e dos personagens (esse receio conduz Jong-goo a atitudes nem sempre pragmáticas, algo notório quando elimina de forma cruel o cão do japonês, uma situação que irrita o suposto demónio). Os sustos não chegam em doses avulsas, com Hong-jin Na a trabalhar o medo, os receios e as dúvidas que se formam na mente de quem visiona "Goksung", uma situação que se adensa com o avançar da narrativa. Veja-se quando é encontrado um sapato com o nome de Hyo-jin na casa do japonês, com "Goksung" a jogar com os receios de qualquer pai e mãe em relação à possibilidade do filho ou da filha estar em perigo. A piorar toda esta situação, Hyo-jin assume um conjunto de atitudes perturbadoras e agressivas, com a família a perceber que algo de perigoso pode estar prestes a acontecer. A jovem Hwan-hee Kim consegue despertar o receio do espectador e expor o lado mais violento desta rapariga relativamente inocente que tem uma relação peculiar com os seus pais. Os pais da jovem e a avó procuram protegê-la das ameaças externas, enquanto "Goksung" nos coloca diante de uma investigação intrincada, diversas reviravoltas (umas mais convincentes do que outras), xamãs, rituais associados ao misticismo, vinganças, possessões, entre outras situações, com quase tudo e todos a parecerem estar em perigo. Abordar mais sobre a história permitiria efectuar uma análise mais completa do filme, bem como perspectivar algumas teorias em relação ao seu final, mas isso seria retirar o prazer a quem ainda não descobriu esta obra cinematográfica bastante recomendável. É certo que "Goksung" sai valorizada com uma segunda visualização, mas a surpresa inicial em relação a certos episódios e a forma segura como Na Hong-jin assume os riscos, a saudável loucura, as incoerências e as extravagâncias que pontuam a narrativa é meio caminho andado para esta obra cinematográfica nos conquistar à primeira, quando entramos no filme às escuras e tardamos em conseguir soltar-nos do mesmo.

Algumas conclusões podem agradar mais a uns espectadores dos que a outros (nem tudo convence, nem parece ser esse o propósito do realizador, sobretudo quando efectua uma obra cinematográfica pontuada pelo mistério, pelo bizarro, pelos elementos associados ao oculto), mas parece relativamente consensual salientar que Hong-jin Na conseguiu criar um ambiente gradualmente mais intenso em volta do enredo, com o desfecho a permanecer preso ao espectador. Quando salientamos que o desfecho fica preso ao espectador, como algo que teima em não largar a mente com facilidade, convém salientar que o comentário não diz respeito ao facto do filme ser perfeito (isso não existe, embora algumas obras quase que atinjam esse patamar), mas sim pelo impacto que provoca. É como se nos soltássemos de um corpo estranho que nos agarra durante cerca de duas horas e meia, que nos inquieta, arrebata, ultraja, faz sorrir, obriga a questionar a inteligência do protagonista, é capaz de comover e enojar (será possível não contar com esse sentimento quando um indivíduo infectado começa a deixar escorrer sangue para a boca do personagem principal?). A extravagância e os exageros por vezes fazem parte do enredo, bem como o medo, a violência, as más decisões de alguns personagens, o bom aproveitamento dos cenários e dos símbolos utilizados ao longo da narrativa. Não faltam cabeças de bode (a remeter para Baphomet?), corvos (associado ao mal, a presságios, entre outros significados), sacrifícios de cordeiros, supostos fantasmas e figuras monstruosas, com "Goksung" a não poupar nos símbolos, nos rituais, no subtexto que se encontra preso ao texto. O último terço nem sempre tem o mesmo poder do restante filme, embora não deixe de provocar impacto, com diversas dúvidas a serem levantadas, algumas questões a serem respondidas e o amor de um pai pela sua filha a ficar paradigmaticamente representado num momento que tanto tem de violento como de comovente. Até aqui tenho sido injusto para com o elenco secundário, quando este é merecedor de elogios. Veja-se o caso de Woo-hee Chun  como uma jovem mulher que se encontra quase sempre vestida de branco, com os objectivos da mesma a serem uma incógnita ao longo do filme, apesar de esta manter contacto regular com o protagonista. Temos ainda casos como Jung-min Hwang como Il-gwang, um xamã que conduz alguns rituais extravagantes, parecendo praticamente possuído quando se encontra em sessões de exorcismo. Os rituais protagonizados por Il-gwang tanto têm de loucos e extravagantes como de intensos, com Jung-min Hwang a tentar atribuir algum credibilidade a estes momentos onde o misticismo parece tomar conta do filme. Os rituais visam proteger Hyo-jin, com "Goksung" a contar no seu cerne com a procura de um pai em proteger o seu rebento, ou seja, estamos diante de um filme sobre a paternidade, embora a luta contra uma entidade demoníaca, a defesa de um território e diversas outras situações sejam abordadas ao longo desta obra cinematográfica. "Goksung" remete ainda para outros filmes do cineasta como "The Chaser", onde não faltava uma representação da incompetência por parte de alguns elementos das autoridades, os cenários cobertos pela chuva, a violência e a tensão, algo que podemos encontrar na obra cinematográfica em análise. Com um trabalho competente do elenco, uma composição aprumada dos planos, uma atmosfera pontuada pelo mistério e a tensão, diversos cenários marcados pela presença feroz da chuva e da ausência dos raios solares, um pai que procura desesperadamente salvar a sua filha, uma banda sonora pronta a exacerbar o clima que rodeia a narrativa, "Goksung" surge como uma entrada de sucesso de Hong-jin Na pelo universo do terror, com o cineasta a convencer como uma obra cinematográfica que aparece como uma das agradáveis confirmações da programação de 2016 do MOTELx.

Título original: "Goksung".
Título em inglês. "The Wailing".
Realizador: Hong-jin Na.
Argumento: Hong-jin Na.
Elenco: Do-Won Kwak, Hwan-hee Kim, Jun Kunimura, Jung-Min Hwang, Chun Woo-Hee.

07 setembro 2016

Resenha Crítica: "Don't Breathe" (Nem Respires)

 Com a sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge a "rebentar pelas costuras", "Don't Breathe", a segunda longa-metragem realizada por Fede Alvarez, teve a honra de ter sido seleccionada como obra cinematográfica de abertura da décima edição do MOTELx, um festival que se tem revelado um local de culto para quem aprecia filmes de terror ou associados ao fantástico. A falta de oportunidades em espaços citadinos, os problemas de cariz social e a criminalidade surgem como algumas das temáticas abordadas ao longo de "Don't Breathe", uma obra cinematográfica que procura utilizar e subverter os elementos dos filmes de invasão a domicílios e de assalto. "Don't Breathe" coloca-nos diante de Rocky (Jane Levy), Alex (Dylan Minnette) e Money (Daniel Zovatto), três jovens delinquentes que assaltam habitações para ganharem dinheiro de forma rápida e aparentemente fácil. As opções de vida de Rocky não são muitas, com esta a contar com problemas de ordem familiar e a noção de que é praticamente impossível satisfazer as suas pretensões se continuar a viver em Detroit. Money é um indivíduo arisco e pouco ponderado, que namora com Rocky e sabe que Alex está interessado na jovem. Alex evidencia alguma preocupação em relação ao pai, o dono de uma agência de segurança, com o delinquente a utilizar as informações confidenciais do progenitor para planear os furtos. Rocky e Money pretendem viajar para a Califórnia e estabelecerem as suas vidas neste espaço que parece prometer um futuro mais radioso e solarengo, enquanto Alex encontra-se acima de tudo interessado na primeira. O trio escolhe um caminho completamente desastrado e pouco recomendável para atingir o objectivo de ganhar dinheiro rápido, com o futuro dos protagonistas a estar quase sempre em perigo, ou estes não dedicassem uma parte das suas vidas a assaltarem casas alheias. O que acontecerá se algum proprietário se deparar com os ladrões em flagrante delito? Será possível que estes jovens criminosos se consigam escapulir sempre das autoridades? Estamos diante de um trio de protagonistas que está longe de despertar a nossa simpatia, embora seja possível compreender as ansiedades de alguns dos seus elementos. Rocky habita com a mãe e a irmã. A mãe de Rocky mantém uma relação complicada com a filha, com esta última a ter sido alvo de maus tratos por parte da progenitora. A personagem interpretada por Jane Levy tem ainda de cuidar da irmã, com a progenitora a descuidar a educação dos rebentos, uma situação que conduz a primeira a contar com uma postura protectora em relação à petiz. Levy compõe uma personagem relativamente complexa, com Rocky a surgir como uma jovem adulta com uma personalidade muito própria. Esta tanto é capaz de cometer crimes e actos dotados de alguma coragem como evidencia uma fragilidade emocional latente. Essa fragilidade é visível quando Rocky está com a irmã mais nova ou aborda temáticas melindrosas associadas ao passado, com a protagonista a despertar o interesse de Alex e Money. Se Jane Levy capta o nosso interesse como Rocky, já Daniel Zovatto interpreta um indivíduo pouco ponderado, que raramente desperta a nossa simpatia, embora o argumento praticamente não conceda espaço para o actor desenvolver o personagem. Diga-se que o argumento não prima pelo desenvolvimento dos personagens, limitando-se a dar uma primeira pincelada, embora deixe o "quadro" pintado de forma superficial, com Rocky a surgir como a única protagonista digna de interesse, tal como o elemento interpretado por Stephen Lang. Essa superficialidade também afecta o trabalho de Dylan Minnette, com o actor a interpretar um delinquente que aparece muitas das vezes como a voz da consciência do grupo, embora também se envolva em problemas, com Alex a pouco evoluir ao longo da narrativa. O quotidiano destes personagens muda por completo quando decidem efectuar um assalto que promete contribuir para a concretização de diversos sonhos, resolver imensos problemas e possibilitar algumas doses de adrenalina. Este assalto consiste em invadir a casa de Norman Nordstrom (Stephen Lang), um herói de guerra cego, corpulento e lacónico que vive numa habitação de dimensões alargadas numa zona aparentemente desértica. De acordo com as informações recolhidas pelos assaltantes, Norman guarda trezentos mil dólares no interior da sua casa, uma verba que recebeu como indemnização devido ao facto da filha ter sido morta num acidente de automóvel provocado por Cindy Roberts (Franciska Töröcsik).

 A casa de Norman encontra-se protegida por uma série de alarmes, imensas grades e um rottweiler que promete causar alguns calafrios aos assaltantes, embora o planeamento do assalto não pareça deixar margens para dúvidas: a verba está praticamente garantida. Após conseguirem entrar na casa de Norman, tendo adormecido o cão deste indivíduo e gaseado o proprietário da habitação, o trio parte em busca do cofre onde se encontram guardados os trezentos mil dólares. O que o trio não esperava, nem o espectador é que Fede Alvarez utilizasse e subvertesse a premissa de filmes como "Wait Until Dark". Não estamos diante de um invisual com dificuldades em defender-se, bem pelo contrário, com "Don't Breathe" a mudar por completo a sua face e o seu rumo a partir do momento em que Stephen Lang começa a ganhar protagonismo. No caso de "Wait Until Dark", Audrey Hepburn compôs uma protagonista invisual terna, simpática e capaz de se defender, apesar da fragilidade física. Em "Don't Breathe", Stephen Lang cria um personagem ameaçador e perturbador, que não precisa de grandes diálogos para contar com uma aura temível. Lang consegue evidenciar o lado perturbado de Norman, um ex-militar com uma personalidade instável, uma situação que se torna latente quando decide defender a sua propriedade e expor toda a violência que percorre o seu corpo e a sua alma (o actor consegue exprimir imenso através da linguagem corporal). Norman é um personagem que surpreende o espectador e os seus interlocutores, com a cegueira a estar longe de fragilizar totalmente este indivíduo que promete figurar em imensos pesadelos, com este antigo militar a permitir que Fede Alvarez vire o enredo do avesso e altere o rumo do filme. "Don't Breathe" começa por se esgueirar pelas fronteiras dos filmes de assalto e de invasão ao domicilio, até mergulhar pelos elementos das obras cinematográficas que envolvem personagens que lutam pela sobrevivência, enquanto Fede Alvarez demonstra que sabe criar uma atmosfera opressora que permite agarrar o espectador e esconder algumas das limitações do argumento. O trabalho a nível do design sonoro é assinalável e essencial para a criação dessa atmosfera opressora, sobretudo numa cena que decorre praticamente às escuras, com "Don't Breathe" a exibir uma inspiração notória neste quesito. Esse primor no trabalho de som é visível em pequenas situações que permitem incrementar a narrativa e adensar a tensão, tais como a respiração ofegante dos personagens, ou a procura da mesma ser acalmada (o título "Nem Respires" não é obra do acaso), o ranger de uma porta, ou os passos de um indivíduo, ou um vidro que resvala pelo chão, ou o som de um telemóvel a vibrar, enquanto o espaço da habitação de Norman é aproveitado ao pormenor (Fede Alvarez consegue que o espectador fique com a noção dos diferentes espaços deste local). A casa de Norman transforma-se quase numa selva onde as leis dos Homens não têm lugar e apenas os mais aptos serão capazes de sobreviver, com "Don't Breathe" a avançar por caminhos negros, violentos e sinuosos. A habitação surge como uma espécie de personagem secundária de luxo, com Fede Alvarez a saber transformar as limitações orçamentais numa vantagem ao conseguir que a propriedade do antigo militar adquira contornos claustrofóbicos e opressores. Veja-se quando encontramos Rocky a tentar escapulir-se por uma conduta, ou o momento em que os jovens percebem que Norman pode aparecer a qualquer momento e tentar defender-se ou atacar. Fede Alvarez sabe jogar com os nossos medos e dos personagens, com a cinematografia e o design sonoro a exacerbarem os perigos que envolvem Rocky, Alex e Money. A própria banda sonora contribui para essa inquietação, com Fede Alvarez a saber quando deve silenciar a mesma ou deixá-la em evidência. Diga-se que "Don't Breathe" também é um filme de silêncios, sobretudo na segunda metade, quando os diálogos escasseiam e os actos de certos personagens encontram-se inseridos num contexto delicado, ou os predadores não se tornassem nos alvos de um caçador implacável. Os caçadores tornam-se as presas, com "Don't Breathe" a colocar-nos diante de uma situação complicada, ou seja, sentir alguma simpatia para com os assaltantes. Essa decisão é inicialmente difícil de ser tomada, sobretudo quando de um lado da balança está um grupo de delinquentes, enquanto do outro lado encontra-se um cego que se revela uma figura sádica, violenta e completamente imoral, com "Don't Breathe" a jogar com as nossas expectativas em relação aos personagens e a deixar-nos perante uma situação moralmente complicada.

Stephen Lang é a ameaça em pessoa, com o actor a transformar Noman numa figura que inicialmente parece frágil devido a ser invisual, embora prometa figurar em alguns pesadelos, com o actor a saber fazer muito com pouco. Norman pode envolver-se em situações ridículas ou estapafúrdias, mas Lang demonstra estar sempre comprometido com o papel, mesmo quando questionamos o rumo para onde Fede Alvarez decidiu levar "Don't Breathe". Não cabe ao espectador decidir, mas sim a Alvarez, com este a deixar um gancho para uma possível sequela enquanto espreme o argumento até às últimas grainhas. A premissa é simples e eficaz, embora o desenvolvimento da mesma provoque algumas reservas, com "Don't Breathe" a deixar a ideia de que falta um golpe de asa para que o filme seja elevado para um patamar mais honroso do que a mediania. Poderia e deveria ter existido mais consistência no desenvolvimento deste jogo pela sobrevivência que toma conta da narrativa, tal como parece notório que personagens secundários como Money e Alex nunca ganham relevância suficiente para nos preocuparmos com o destino destes elementos. "Don't Breathe" introduz ainda uma personagem secundária numa fase relativamente adiantada da narrativa, embora a entrada em cena desta figura feminina pareça deslocada do rumo que o filme estava a seguir. Se o argumento nem sempre prima pela subtileza ou pela coerência, contando pelo meio com algumas reviravoltas questionáveis e diversas situações que roçam o ridículo, já a capacidade de Fede Alvarez gerir a tensão é notória, bem como a aproveitar o espaço da casa de Norman e as especificidades do território que a circunda. O facto de a habitação de Norman estar situada num território praticamente despovoado permite adensar o sentimento de medo e isolamento em relação aos episódios que decorrem no interior da casa, com o trio de assaltantes a deparar-se com uma série de surpresas indesejáveis. Diga-se que Alvarez demonstra ainda que sabe utilizar o poder dos close-ups a seu favor, algo visível quando foca o rosto de Jane Levy, com a actriz a conseguir transmitir o medo, a raiva, a fúria, o descontrolo, as ansiedades e as fragilidades da personagem que interpreta. Fede Alvarez parece ter estudado relativamente bem aquilo que pretendia para "Don't Breathe": exposição rápida dos personagens e do contexto que os rodeia; preparação e execução do assalto final; reviravolta que deixa os protagonistas em perigo; criar uma atmosfera opressora. Alguns desses pontos foram cumpridos com sucesso, embora Fede Alvarez estenda a narrativa até um ponto onde parece que não existe mais nada para dar, sobretudo no terceiro acto. Com uma atmosfera opressora, uma boa utilização do design sonoro, do trabalho de câmara e da iluminação, "Don't Breathe" nem sempre consegue manter a bitola elevada, embora consiga em diversos momentos inquietar e envolver o espectador, com Fede Alvarez a confirmar mais uma vez que é um nome a seguir com alguma atenção.

Título original: "Don't Breathe".
Título em Portugal: "Nem Respires".
Título no Brasil: "O Homem nas Trevas".
Realizador: Fede Alvarez.
Argumento: Fede Alvarez e Rodo Sayagues.
Elenco: Jane Levy, Dylan Minnette, Daniel Zovatto, Stephen Lang.

05 setembro 2016

Resenha Crítica: "Kubo and the Two Strings" (Kubo e as Duas Cordas)

 Belo, sensível, delicado, emocionalmente poderoso, pronto a aquecer o coração do espectador e a exibir o poder da memória, "Kubo and the Two Strings" (em Portugal: "Kubo e as Duas Cordas) é a prova cabal da maturidade da Laika e de toda a sua equipa, com Travis Knight a realizar um dos grandes filmes de animação do ano. A influência da cultura japonesa, do seu misticismo e das suas lendas é latente, bem como das obras cinematográficas de artes marciais, com "Kubo and the Two Strings" a contar com um argumento aprumado, pronto a encher as medidas a miúdos e graúdos, com as suas mensagens a tocarem bem forte e a mexerem com as emoções dos espectadores. No final de "Kubo and the Two Strings" é praticamente impossível não ter vontade de abraçar os nossos pais, de agradecer o facto de estarem connosco, de partilharem as suas memórias e guardarmos imensos episódios que vivemos na companhia dos mesmos. "Kubo and the Two Strings" é também um filme que nos faz recordar aqueles que perdemos, embora permaneçam nas nossas memórias, bem como nas nossas histórias, com os nossos diálogos sobre certos episódios a permitirem que estes tardem a ser esquecidos pelas areias do tempo. Falo pelo exemplo dado por aqueles que me são próximos, com as histórias do meu pai sobre os seus tempos em Moçambique a praticamente transportarem-me para o local, enquanto os relatos da minha mãe permitem a transmissão de uma percepção muito própria do espaço onde esta cresceu, ou seja, todos esses diálogos contribuem para uma aproximação ao passado dos meus pais, quase como se este período temporal tocasse no presente e permitisse que momentos de outrora regressassem temporariamente aos dias de hoje, ainda que filtrados pela memória dos meus progenitores. É o poder das memórias e das histórias contadas, com "Kubo and the Two Strings" a exacerbar a força que ambas exercem para a manutenção da vivacidade das recordações. Serve esta divagação para salientar que o poder da memória é uma das temáticas fulcrais de "Kubo and the Two Strings", bem como o crescimento de um jovem que é colocado diante de uma série de desafios. Esse jovem é Kubo (voz de Francisco Magalhães Ferreira na versão portuguesa), um rapaz que conta apenas com um olho, talentos inatos para a magia e para contar histórias (o poder de uma boa história é outro dos elementos em foco ao longo do filme), que vive com a mãe no topo de uma montanha. Sariatu, a mãe de Kubo encontra-se num estado debilitado, com a alma desta mulher solitária a parecer cada vez mais desprendida do seu corpo, algo que conduz o jovem a procurar cuidar da progenitora. Embora esteja debilitada, Sariatu tenta proteger o filho dos perigos que o rodeiam, um desiderato que é exposto desde o prólogo (a relação entre mãe e filho é muito forte, algo transmitido por diversas vezes ao longo de "Kubo and the Two Strings", com a progenitora a brindar o rebento com algumas histórias sobre o pai do jovem). O pai de Sariatu tirou um olho a Kubo e pretende retirar o outro olho ao jovem, enquanto as duas tias do protagonista encontram-se a perseguir o rapaz, tendo em vista a cumprirem o desiderato do primeiro. Estas são duas gémeas (voz de Jani Zhao) que contam com uma máscara branca a cobrir o rosto, algo que permite esconder as emoções destas figuras aparentemente desprovidas de sentimentos, que não têm problemas em entrarem em confronto com a irmã para cumprirem o seu objectivo. O visual das irmãs de Sariatu permite exacerbar o lado temível da dupla, com as suas vestes negras a transmitirem a negritude que preenche a alma destas figuras poderosas, prontas a utilizarem os seus poderes para o mal, algo que contrasta com a bondade e o amor transmitido pela primeira. No passado, Sariatu foi incumbida de assassinar Hanzo, um samurai poderoso e ambicioso, mas acabou por se apaixonar pelo mesmo, algo que irritou o Rei Lua (João Ricardo), o pai da primeira, bem como as irmãs da mãe de Kubo. Posteriormente, Hanzo, o pai de Kubo, é morto pelo sogro, enquanto Sariatu é obrigada a fugir e a esconder-se para proteger o rebento, uma situação que explica o isolamento ao qual o protagonista e a progenitora se encontram sujeitos.

 Kubo habita de forma aparentemente calma numa pequena cidade japonesa onde é conhecido por contar histórias com recurso a um shamisen e a bonecos de origami que ganham vida graças aos poderes mágicos do jovem. Embora exiba algumas dificuldades para terminar as histórias que começa a contar, Kubo tem um talento inato para este ofício, bem como para "dar vida" aos bonecos de origami, com o grande protagonista dos seus contos a ser uma figura em formato de samurai que representa Hanzo, com o jovem a fantasiar com os feitos lendários do seu pai (algo que remete para as histórias que Sariatu conta a Kubo sobre Hanzo). O personagem do título conta histórias não só para ganhar algum dinheiro, mas também para transmitir as mesmas e mantê-las bem vivas, com "Kubo and the Two Strings" a exibir a relevância do poder da memória e da palavra para que algo perpasse e não desapareça no tempo. Uma das fãs das histórias de Kubo é Kameyo (Simone de Oliveira), uma senhora idosa e simpática, que ensina o jovem contactar com os mortos, em particular, através de uma cerimónia que faz parte do Festival Obon. O cuidado colocado na representação da cerimónia inerente ao Festival Obon transmite mais uma vez a procura de Travis Knight e da sua equipa em exibirem com aprumo alguns rituais associados à cultura japonesa, aos seus mitos e ritos, com as lanternas a povoarem o espaço fúnebre, enquanto a memória dos espíritos é respeitada. Kubo pretendia entrar em contacto com o pai, tendo uma enorme curiosidade em relação ao progenitor. No entanto, nem tudo corre como o esperado, com Kubo a ser atacado pelas tias, algo que conduz a mãe a proteger este jovem que é obrigado a fugir, sendo transportado para as "terras distantes", enquanto o espaço onde habita é invadido. Kubo tem de iniciar uma jornada para encontrar a armadura sagrada que outrora pertencera ao seu pai, com esta a encontrar-se dividida por três locais, sendo constituída por uma espada indestrutível, uma couraça e um capacete. A armadura parece ser o único meio para Kubo poder combater a ameaça representada pelo avô e pelas tias, com o jovem a ter de iniciar uma jornada de enorme responsabilidade na qual a sua personalidade e os seus limites são colocados à prova. Quem se junta a esta jornada épica e recheada de fantasia é Monkey (Vera Kolodzig), uma macaca que outrora era um talismã de Kubo, bem como o origami de papel que correspondia a Hanzo, com este último a indicar o caminho para as peças da armadura. Monkey ganhou vida graças aos poderes mágicos da mãe de Kubo, com esta macaca a exibir uma atitude maternal junto do jovem, procurando que o rapaz ganhe responsabilidade, aprenda a utilizar os seus poderes e atinja o seu desiderato. Durante a missão, Kubo e Monkey deparam-se ainda com Beetle (Paulo Pires), um samurai que apresenta um aspecto semelhante a um escaravelho antropomórfico devido a ter sido amaldiçoado. Beetle supostamente foi um discípulo de Hanzo, embora tenha perdido grande parte da memória devido à maldição que modificou o seu corpo, tendo uma habilidade inata para se envolver em confusões com Monkey, com os dois a formarem uma relação de "amor/ódio" que promete despertar algumas gargalhadas. A missão é pontuada por diversos perigos, bem como por alguns momentos de humor, com estes personagens a formarem laços, descobrirem alguns segredos relacionados com o passado de cada um e a desafiarem os seus limites, enquanto enfrentam uma miríade de contrariedades, sejam estas associadas a um tempo hostil, a figuras demoníacas ou aos familiares de Sariatu. A narrativa de "Kubo and the Two Strings" é pontuada por imensos momentos de aventura (alguns "à la Indiana Jones" - não falta a busca por objectos aparentemente míticos, uma série de ameaças, entre outros exemplos), bem como por diversas cenas de acção que a espaços nos remetem para os filmes de artes marciais e de samurais. Não faltam lutas com espadas que desafiam a gravidade, combates mirabolantes, códigos de honra muito próprios, mas também situações associadas ao misticismo e aos rituais japoneses. A cultura japonesa influenciou e muito o desenvolvimento de "Kubo and the Two Strings", uma obra cinematográfica que comprova a maturidade da Laika e a paixão pelos elementos retratados. Veja-se o ritual fúnebre, a relevância dada aos espíritos, o origami, as temáticas do foro existencialista, o comportamento dos personagens, o valor simbólico de alguns objectos (as duas cordas mencionadas no título), o guarda-roupa, os cenários que povoam a narrativa (a floresta rodeada de bamboos é sublime), entre outros exemplos, com a cultura nipónica a fazer parte de quase todos os poros de um filme de animação belíssimo que parece puramente japonês.

 A própria presença de uma macaca como uma figura quase maternal parece remeter para diversos mitos e lendas associados a estes animais que existem em países como o Japão e a China. Mesmo o escaravelho pode remeter para o símbolo de ressurreição, atribuído no Antigo Egipto, com as histórias de Monkey e Beetle a contarem com reviravoltas que nos surpreendem e permitem atribuir mais densidade a estes personagens secundários. Outra das qualidades do argumento passa pela riqueza dos seus personagens secundários, com Monkey e Beetle a surgirem como exemplos paradigmáticos dessa situação, com a dupla a estar longe de servir como um mero alívio cómico. Beetle é um samurai caído em desgraça, que tanto tem de intrépido como de cómico, que apresenta uma inabilidade latente para se levantar quando cai de costas e conta com uma ligação muito forte com Monkey. Esta é uma macaca cuja identidade é uma surpresa (a verdadeira identidade de Beetle também é uma surpresa), que surge inicialmente quase como uma figura de mestre que procura ensinar o seu pupilo (a fazer lembrar Luke Skywalker e Yoda). O arco do personagem principal também é bem trabalhado, com Kubo a contar com uma evolução notória ao longo da narrativa, com o protagonista a surgir como um jovem que se depara não só com problemas e dúvidas inerentes a um rapaz de tenra idade, mas também com dificuldades que o obrigam a ter de superar as suas capacidades e a controlar os seus poderes mágicos. Kubo é um dos personagens mais carismáticos criados pela equipa da Laika, com Marc Haimes e Chris Butler, a dupla de argumentistas, a contar com um trabalho meritório. O enredo é bem construído, a história promete satisfazer adultos e crianças (existem piadas e mensagens destinadas para públicos distintos, ou que recebem as mesmas de forma relativamente distinta), os personagens contam com dimensão e evolução ao longo da narrativa (veja-se o caso de Kubo, com o filme a ter no seu cerne toda uma questão familiar que a espaços nos faz lembrar as convulsões no interior da família Skywalker na saga "Star Wars"), com a ameaça proporcionada pelo avô do protagonista a ser bastante efectiva, tal como o desfecho dado a este elemento. O avô de Kubo não apresenta uma confiança inabalável na Humanidade, enquanto o jovem acredita na beleza do Mundo que o rodeia e das suas gentes, com o protagonista a ter de aprender a controlar os seus instintos e os seus medos, a utilizar o poder do perdão e a lidar com a perda daqueles que o amam. Diga-se que "Kubo and the Two Strings" não tem problemas em envolver-se por caminhos mais negros ou violentos, expondo que os actos têm consequências, embora tudo seja relativamente adequado ao público mais novo. Esse lado mais negro é visível quando a paleta cromática atinge níveis mais frios e certos confrontos ameaçam colocar alguns personagens em risco, com Travis Knight a fazer com que nos apeguemos a Kubo, Monkey e Beetle ao ponto de recearmos pelo destino destes personagens, enquanto o realizador coloca os mesmos em perigo. O cineasta tem uma estreia de grande nível na realização de longas-metragens, após ter participado no departamento de animação de diversas obras cinematográficas da Laika como "Coraline", "ParaNorman" e "The Boxtrolls", com esta experiência acumulada a parecer ter surtido efeito e resultado num dos melhores filmes deste estúdio (do qual o cineasta é CEO). O trabalho da animação em stop motion é exemplar, com os gestos dos personagens, os cenários, as cenas de acção ou os momentos mais contemplativos a exibirem todo um cuidado digno de nota e uma classe merecedora de uma miríade de elogios. A atenção aos pormenores é imensa, com uma simples corda a contar com um significado especial, com o espectador a praticamente não poder pestanejar para não perder nada, enquanto a banda sonora composta por Dario Marianelli (um colaborador habitual de Joe Wright, tendo trabalhado com o cineasta em filmes como "Pride & Prejudice", "Atonement" e "Anna Karenina") incute ritmos orientais e prontos a adequarem-se eficazmente ao enredo. O papel da memória surge como uma temática fundamental de "Kubo and the Two Strings", uma situação que Travis Knight respeita ao realizar um filme belíssimo e emocionalmente poderoso, que promete permanecer na mente do espectador e ser recordado como um dos grandes filmes da Laika.

Título original: "Kubo and the Two Strings".
Título em Portugal:
Realizador: Travis Knight.
Argumento: Marc Haimes e Chris Butler.
Elenco vocal (Portugal): Francisco Magalhães Ferreira, Vera Kolodzig, Paulo Pires, João Ricardo, Jani Zhao.

03 setembro 2016

Resenha Crítica: "The Neon Demon - O Demónio de Néon"

 Num determinado momento de "The Neon Demon", Jesse (Elle Fanning), a protagonista do filme, salienta o seguinte: "I can't sing, I can't dance, I can't write... no real talent. But I'm pretty, and I can make money off pretty". Este diálogo serve para ilustrar paradigmaticamente a superficialidade inerente ao mundo da moda, ou, pelo menos, como Nicolas Winding Refn encara o mesmo e as modelos. O cineasta volta a realizar uma obra cinematográfica pronta a despertar as opiniões mais díspares quer entre os seus defensores, quer entre os seus detractores. Diga-se que Refn não faz por menos, ou não estivéssemos diante de um provocador nato, que gosta de desafiar os limites daqueles que o elogiam ou arrasam. Simultaneamente frio, hipnotizante, superficial, repulsivo, violento, misógino e constrangedor, "The Neon Demon" transporta-nos para um universo narrativo que tem muito de Nicolas Winding Refn, onde estilo e substância se encontram e desencontram, com a visão do realizador sobre o mundo da moda, das modelos e das mulheres a evidenciar o lado provocador de um cineasta que parece não saber viver sem polémicas. O provérbio popular "muita parra, pouca uva" aplica-se praticamente em pleno a "The Neon Demon", sobretudo a partir do último terço, quando o realizador perde definitivamente o controlo e deixa o filme à deriva, enquanto o argumento de Mary Laws, Nicolas Winding Refn e Polly Stenham revela todas as suas fraquezas e incoerências. Estamos diante de um filme de contrastes, que utiliza aquilo que crítica (efectua uma representação mordaz e provocadora do mundo da moda e da futilidade que existe no mesmo, apesar de deixar o espectador diante de um enredo que aborda as temáticas de forma superficial), embora não tenha receios em direccionar as suas mensagens e repetir por diversas vezes os seus comentários sobre a moda e a crueldade que existe neste meio. Veja-se quando encontramos Jesse numa sessão fotográfica onde os cenários são marcados pela impessoalidade, algo transmitido pelas paredes brancas, enquanto o fotógrafo despe o corpo da modelo para um ensaio que a pode lançar para o estrelato. Jesse é uma jovem de dezasseis anos de idade, que chegou a Los Angeles para tentar vingar no mundo da moda. Esta começa a ganhar alguns contactos no local, tais como Ruby (Jena Malone), uma maquilhadora profissional que está sempre pronta para preencher o rosto dos outros e mantém durante algum tempo uma atitude sexualmente ambígua em relação à protagonista (até se transformar numa "predadora", com a abordagem da homossexualidade da personagem interpretada por Jena Malone a ser simplesmente ridícula). Ruby apresenta Jesse a Sarah (Abbey Lee) e Gigi (Bella Heathcote), duas modelos, com o quarteto a participar numa festa que é representada muito ao estilo da estética de Nicolas Winding Refn. Não faltam tonalidades vermelhas e azuis (muito presentes ao longo do filme), um trabalho de som e iluminação pronto a desconcertar e hipnotizar o espectador, enquanto os corpos são colocados em destaque. O momento serve desde logo para Refn expor o seu prazer a sobrepor o estilo em relação à substância, enquanto ficamos a conhecer um pouco mais sobre o quarteto. Sarah e Gigi surgem como os estereótipos das modelos dispostas a tudo para manterem o seu estatuto, com Abbey Lee e Bella Heatchote a terem apenas de expor os seus belos corpos e exibirem a frieza e vacuidade das personagens que interpretam. Nicolas Winding Refn não demonstra a mínima preocupação com Sarah e Gigi, com o desfecho destas personagens a permitir uma mensagem exposta de forma tosca sobre a competitividade do mundo da moda e do desejo excessivo de manter um ideal de beleza que permita continuar relevante neste meio onde as rivalidades são imensas ou, pelo menos, é assim que acontece em "The Neon Demon".

 Se Sarah e Gigi aparecem desde logo representadas como figuras superficiais, já Jesse surge como a jovem virgem e inexperiente, embora seja capaz de despertar a atenção de tudo e todos. Elle Fanning surge como uma espécie de boneca de porcelana de Nicolas Winding Refn, com o cineasta a moldar a actriz para os propósitos que tem para a personagem, enquanto somos bombardeados com diálogos relacionados com a beleza especial de Jesse (apesar do cineasta nem sempre conseguir incutir essa aura quase divina à protagonista). A jovem actriz consegue incutir algum mistério e frieza a Jesse, uma figura aparentemente angelical, de dezasseis anos de idade, que perdeu os pais e vive num quarto barato num motel gerido por um tipo machista e pouco polido (Keanu Reeves num papel bastante secundário). A partir do momento em que é chamada por Roberta Hoffman (Christina Hendricks), a dona de uma agência de modelos, Jesse percebe que está prestes a concretizar o sonho de vingar no mundo da moda. Hoffman compele Jesse a mentir em relação à idade, tendo em vista a conseguir ensaios fotográficos e trabalhos com estilistas de renome, com Refn a efectuar mais críticas ao sector da moda, nomeadamente, ao trabalho de menores e à contratação de modelos excessivamente magras e jovens, embora o próprio conte com Elle Fanning como protagonista, para além de ter um elenco secundário composto por actrizes que poderiam facilmente trabalhar como manequins (o que a espaços torna "The Neon Demon" um filme idiota de seguir já que o cineasta parece tropeçar constantemente nos mesmos elementos que representa de forma crítica ou jocosa). Esta crítica é exacerbada no dito ensaio fotográfico no qual Jesse serve de modelo para Jack (Desmond Harrington), um fotógrafo famoso, que pede para esta se despir, enquanto pinta a adolescente de dourado e a molda à sua medida. Ou seja, estamos diante de uma jovem de dezasseis anos, que participa num ensaio pontuado pela nudez, com Jesse a parecer inicialmente pouco à vontade com a situação, até exibir algum lisonjeio devido a ter sido fotografada por um profissional famoso que raramente aceita trabalhar com estreantes. Jesse parece ser perfeita, ou contar com os atributos perfeitos para esta profissão, com a sua juventude, magreza e tez a serem elogiados por quase tudo e todos, com diversos elementos a considerarem-na especial. A arrogância de Jesse aumenta com o avançar da narrativa, sobretudo quando ultrapassa a concorrência de Sarah e é seleccionada por Robert Sarno (Alessandro Nivola), um estilista que fica fascinado com a jovem. Sarno é mais um personagem secundário pouco desenvolvido, uma figura que representa o estereótipo do estilista superficial, que aparentemente contrasta com Dean (Karl Glusman), um amigo de Jesse que se encontra interessado na adolescente. Dean efectuou uma sessão fotográfica amadora que contribuiu para Jesse ser recebida por Roberta Hoffman, embora a relação entre o primeiro e a segunda nunca deixe o nível platónico. Karl Glusman interpreta um indivíduo relativamente prestável, sempre pronto a dizer "frases feitas" e simpático ao ponto de não levantar problemas quando é descartado da narrativa e da vida da protagonista. É mais um actor secundário que é engolido pela pouca preocupação de Refn em relação à maioria dos personagens, com o cineasta a parecer ter confiado em demasia que a estética e o estilo seriam suficientes para conseguirem esconder tudo aquilo que o filme não tem, ou demonstra ser incapaz de ter. Não é algo novo no cineasta, embora seja problemático quando o conteúdo é demasiado pobre para não servir de muleta ao estilo, algo que descompensa "The Neon Demon".

 O enredo de "The Neon Demon" raramente prima pela subtileza ou pela densidade mas aguenta-se relativamente bem até perto do seu último terço. No entanto, a partir do momento em que Refn assume uma postura de provocar por provocar e repetir a utilização dos mesmos símbolos e temáticas de forma excessiva, "The Neon Demon" perde completamente o rumo e ganha contornos completamente banais, machistas e ridículos. Não faltam situações a envolver canibalismo (para uma metáfora óbvia sobre a moda e as modelos), necrofangia (para mais metáforas óbvias), violência física e psicológica (tais como uma tentativa de violação), enquanto "The Neon Demon" exibe a sua verdadeira face, ou seja, é bem menos irreverente do que parece ou pretende ser. É certo que "The Neon Demon" consegue ser ofensivo, machista, misógino, pueril na abordagem das temáticas e nas metáforas, incoerente e hipócrita, mas está longe de ser irreverente, algo que desilude, sobretudo quando a espaços somos inebriados pela atmosfera criada por Refn e pela interpretação meritória de Elle Fanning. Por sua vez, quase todo o elenco secundário é desperdiçado, com Jena Malone, Bella Heathcoate, Abbey Lee, Karl Glusman, Keanu Reeves, entre outros, a serem completamente desaproveitados ao interpretarem personagens que são construídos sem qualquer ponta de inspiração, com o próprio elenco a não contribuir (é tudo muito artificial, muito encenado, demasiado estilizado para comprarmos a conversa fiada que nos é oferecida). O último terço do filme exibe esse pouco aproveitamento dos personagens secundários. Veja-se o caso de Jena Malone como Ruby. É certo que a actriz nem sempre convence, com a artificialidade do argumento a parecer contaminar as interpretações, com Jena Malone a não contar com um arco que permita desenvolver Ruby. Diga-se que é ridículo (perdoem o spoiler) ver Ruby a procurar tirar a virgindade a Jesse, quase como uma predadora em busca de uma presa, com a situação a parecer saída de um fetiche de um adolescente em busca de vídeos pornográficos sobre lésbicas. Falta mais densidade, irreverência e assertividade a "The Neon Demon", embora não falte "fogo de artifício", néones, luzes, brilhantes, provocações infantis e uma utilização repetitiva da paleta cromática, com Refn a não poupar no aproveitamento do branco, vermelho, azul e rosa, tendo em vista a remeter quase sempre para os mesmos significados. Vermelho para representar a tentação, perigo ou instabilidade emocional. Azul associado a uma certa frieza. Rosa para a suposta pureza de Jesse, uma jovem de dezasseis anos e pele rosada. Branca para expor a impessoalidade de alguns cenários como o estúdio onde é efectuada a primeira sessão fotográfica de Jesse, ou o espaço onde decorre um teste de casting para modelos. Curiosamente, para um filme que supostamente quer abordar temáticas sobre a moda, "The Neon Demon" está longe de explorar afincadamente o trabalho efectuado pelas modelos, com a própria rivalidade e competitividade entre colegas de profissão a parecer ser utilizada mais para Refn expor a sua faceta de provocador do que para aflorar os efeitos nocivos destas querelas. Diga-se que Darren Aronofsky aproveitou de forma bem mais complexa e assertiva a rivalidade no feminino no espaço fechado e competitivo do ballet em "Black Swan" (onde as carreiras também acabam de forma precoce), com a densidade psicológica deste filme a fazer "The Neon Demon" corar de vergonha. Se alguns personagens de "The Neon Demon" pensam que a beleza é tudo, já Refn acredita que basta um filme ter estilo para conseguirmos esquecer a falta de substância do mesmo, ou se preferirem, o descontrolo que assola o terceiro acto da obra cinematográfica em análise. A espaços "The Neon Demon" quase que tem um efeito hipnótico, mas, gradualmente, essa sensação começa a desvanecer até restar simplesmente a desilusão. Nicolas Winding Refn é capaz de mais e melhor do que aquilo que demonstrou em "The Neon Demon".

Título original: "The Neon Demon".
Título em Portugal: "The Neon Demon - O Demónio de Néon".
Realizador: Nicolas Winding Refn.
Argumento: Mary Laws, Nicolas Winding Refn, Polly Stenham.
Elenco: Elle Fanning, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee, Karl Glusman, Christina Hendricks, Keanu Reeves.