05 setembro 2016

Resenha Crítica: "Kubo and the Two Strings" (Kubo e as Duas Cordas)

 Belo, sensível, delicado, emocionalmente poderoso, pronto a aquecer o coração do espectador e a exibir o poder da memória, "Kubo and the Two Strings" (em Portugal: "Kubo e as Duas Cordas) é a prova cabal da maturidade da Laika e de toda a sua equipa, com Travis Knight a realizar um dos grandes filmes de animação do ano. A influência da cultura japonesa, do seu misticismo e das suas lendas é latente, bem como das obras cinematográficas de artes marciais, com "Kubo and the Two Strings" a contar com um argumento aprumado, pronto a encher as medidas a miúdos e graúdos, com as suas mensagens a tocarem bem forte e a mexerem com as emoções dos espectadores. No final de "Kubo and the Two Strings" é praticamente impossível não ter vontade de abraçar os nossos pais, de agradecer o facto de estarem connosco, de partilharem as suas memórias e guardarmos imensos episódios que vivemos na companhia dos mesmos. "Kubo and the Two Strings" é também um filme que nos faz recordar aqueles que perdemos, embora permaneçam nas nossas memórias, bem como nas nossas histórias, com os nossos diálogos sobre certos episódios a permitirem que estes tardem a ser esquecidos pelas areias do tempo. Falo pelo exemplo dado por aqueles que me são próximos, com as histórias do meu pai sobre os seus tempos em Moçambique a praticamente transportarem-me para o local, enquanto os relatos da minha mãe permitem a transmissão de uma percepção muito própria do espaço onde esta cresceu, ou seja, todos esses diálogos contribuem para uma aproximação ao passado dos meus pais, quase como se este período temporal tocasse no presente e permitisse que momentos de outrora regressassem temporariamente aos dias de hoje, ainda que filtrados pela memória dos meus progenitores. É o poder das memórias e das histórias contadas, com "Kubo and the Two Strings" a exacerbar a força que ambas exercem para a manutenção da vivacidade das recordações. Serve esta divagação para salientar que o poder da memória é uma das temáticas fulcrais de "Kubo and the Two Strings", bem como o crescimento de um jovem que é colocado diante de uma série de desafios. Esse jovem é Kubo (voz de Francisco Magalhães Ferreira na versão portuguesa), um rapaz que conta apenas com um olho, talentos inatos para a magia e para contar histórias (o poder de uma boa história é outro dos elementos em foco ao longo do filme), que vive com a mãe no topo de uma montanha. Sariatu, a mãe de Kubo encontra-se num estado debilitado, com a alma desta mulher solitária a parecer cada vez mais desprendida do seu corpo, algo que conduz o jovem a procurar cuidar da progenitora. Embora esteja debilitada, Sariatu tenta proteger o filho dos perigos que o rodeiam, um desiderato que é exposto desde o prólogo (a relação entre mãe e filho é muito forte, algo transmitido por diversas vezes ao longo de "Kubo and the Two Strings", com a progenitora a brindar o rebento com algumas histórias sobre o pai do jovem). O pai de Sariatu tirou um olho a Kubo e pretende retirar o outro olho ao jovem, enquanto as duas tias do protagonista encontram-se a perseguir o rapaz, tendo em vista a cumprirem o desiderato do primeiro. Estas são duas gémeas (voz de Jani Zhao) que contam com uma máscara branca a cobrir o rosto, algo que permite esconder as emoções destas figuras aparentemente desprovidas de sentimentos, que não têm problemas em entrarem em confronto com a irmã para cumprirem o seu objectivo. O visual das irmãs de Sariatu permite exacerbar o lado temível da dupla, com as suas vestes negras a transmitirem a negritude que preenche a alma destas figuras poderosas, prontas a utilizarem os seus poderes para o mal, algo que contrasta com a bondade e o amor transmitido pela primeira. No passado, Sariatu foi incumbida de assassinar Hanzo, um samurai poderoso e ambicioso, mas acabou por se apaixonar pelo mesmo, algo que irritou o Rei Lua (João Ricardo), o pai da primeira, bem como as irmãs da mãe de Kubo. Posteriormente, Hanzo, o pai de Kubo, é morto pelo sogro, enquanto Sariatu é obrigada a fugir e a esconder-se para proteger o rebento, uma situação que explica o isolamento ao qual o protagonista e a progenitora se encontram sujeitos.

 Kubo habita de forma aparentemente calma numa pequena cidade japonesa onde é conhecido por contar histórias com recurso a um shamisen e a bonecos de origami que ganham vida graças aos poderes mágicos do jovem. Embora exiba algumas dificuldades para terminar as histórias que começa a contar, Kubo tem um talento inato para este ofício, bem como para "dar vida" aos bonecos de origami, com o grande protagonista dos seus contos a ser uma figura em formato de samurai que representa Hanzo, com o jovem a fantasiar com os feitos lendários do seu pai (algo que remete para as histórias que Sariatu conta a Kubo sobre Hanzo). O personagem do título conta histórias não só para ganhar algum dinheiro, mas também para transmitir as mesmas e mantê-las bem vivas, com "Kubo and the Two Strings" a exibir a relevância do poder da memória e da palavra para que algo perpasse e não desapareça no tempo. Uma das fãs das histórias de Kubo é Kameyo (Simone de Oliveira), uma senhora idosa e simpática, que ensina o jovem contactar com os mortos, em particular, através de uma cerimónia que faz parte do Festival Obon. O cuidado colocado na representação da cerimónia inerente ao Festival Obon transmite mais uma vez a procura de Travis Knight e da sua equipa em exibirem com aprumo alguns rituais associados à cultura japonesa, aos seus mitos e ritos, com as lanternas a povoarem o espaço fúnebre, enquanto a memória dos espíritos é respeitada. Kubo pretendia entrar em contacto com o pai, tendo uma enorme curiosidade em relação ao progenitor. No entanto, nem tudo corre como o esperado, com Kubo a ser atacado pelas tias, algo que conduz a mãe a proteger este jovem que é obrigado a fugir, sendo transportado para as "terras distantes", enquanto o espaço onde habita é invadido. Kubo tem de iniciar uma jornada para encontrar a armadura sagrada que outrora pertencera ao seu pai, com esta a encontrar-se dividida por três locais, sendo constituída por uma espada indestrutível, uma couraça e um capacete. A armadura parece ser o único meio para Kubo poder combater a ameaça representada pelo avô e pelas tias, com o jovem a ter de iniciar uma jornada de enorme responsabilidade na qual a sua personalidade e os seus limites são colocados à prova. Quem se junta a esta jornada épica e recheada de fantasia é Monkey (Vera Kolodzig), uma macaca que outrora era um talismã de Kubo, bem como o origami de papel que correspondia a Hanzo, com este último a indicar o caminho para as peças da armadura. Monkey ganhou vida graças aos poderes mágicos da mãe de Kubo, com esta macaca a exibir uma atitude maternal junto do jovem, procurando que o rapaz ganhe responsabilidade, aprenda a utilizar os seus poderes e atinja o seu desiderato. Durante a missão, Kubo e Monkey deparam-se ainda com Beetle (Paulo Pires), um samurai que apresenta um aspecto semelhante a um escaravelho antropomórfico devido a ter sido amaldiçoado. Beetle supostamente foi um discípulo de Hanzo, embora tenha perdido grande parte da memória devido à maldição que modificou o seu corpo, tendo uma habilidade inata para se envolver em confusões com Monkey, com os dois a formarem uma relação de "amor/ódio" que promete despertar algumas gargalhadas. A missão é pontuada por diversos perigos, bem como por alguns momentos de humor, com estes personagens a formarem laços, descobrirem alguns segredos relacionados com o passado de cada um e a desafiarem os seus limites, enquanto enfrentam uma miríade de contrariedades, sejam estas associadas a um tempo hostil, a figuras demoníacas ou aos familiares de Sariatu. A narrativa de "Kubo and the Two Strings" é pontuada por imensos momentos de aventura (alguns "à la Indiana Jones" - não falta a busca por objectos aparentemente míticos, uma série de ameaças, entre outros exemplos), bem como por diversas cenas de acção que a espaços nos remetem para os filmes de artes marciais e de samurais. Não faltam lutas com espadas que desafiam a gravidade, combates mirabolantes, códigos de honra muito próprios, mas também situações associadas ao misticismo e aos rituais japoneses. A cultura japonesa influenciou e muito o desenvolvimento de "Kubo and the Two Strings", uma obra cinematográfica que comprova a maturidade da Laika e a paixão pelos elementos retratados. Veja-se o ritual fúnebre, a relevância dada aos espíritos, o origami, as temáticas do foro existencialista, o comportamento dos personagens, o valor simbólico de alguns objectos (as duas cordas mencionadas no título), o guarda-roupa, os cenários que povoam a narrativa (a floresta rodeada de bamboos é sublime), entre outros exemplos, com a cultura nipónica a fazer parte de quase todos os poros de um filme de animação belíssimo que parece puramente japonês.

 A própria presença de uma macaca como uma figura quase maternal parece remeter para diversos mitos e lendas associados a estes animais que existem em países como o Japão e a China. Mesmo o escaravelho pode remeter para o símbolo de ressurreição, atribuído no Antigo Egipto, com as histórias de Monkey e Beetle a contarem com reviravoltas que nos surpreendem e permitem atribuir mais densidade a estes personagens secundários. Outra das qualidades do argumento passa pela riqueza dos seus personagens secundários, com Monkey e Beetle a surgirem como exemplos paradigmáticos dessa situação, com a dupla a estar longe de servir como um mero alívio cómico. Beetle é um samurai caído em desgraça, que tanto tem de intrépido como de cómico, que apresenta uma inabilidade latente para se levantar quando cai de costas e conta com uma ligação muito forte com Monkey. Esta é uma macaca cuja identidade é uma surpresa (a verdadeira identidade de Beetle também é uma surpresa), que surge inicialmente quase como uma figura de mestre que procura ensinar o seu pupilo (a fazer lembrar Luke Skywalker e Yoda). O arco do personagem principal também é bem trabalhado, com Kubo a contar com uma evolução notória ao longo da narrativa, com o protagonista a surgir como um jovem que se depara não só com problemas e dúvidas inerentes a um rapaz de tenra idade, mas também com dificuldades que o obrigam a ter de superar as suas capacidades e a controlar os seus poderes mágicos. Kubo é um dos personagens mais carismáticos criados pela equipa da Laika, com Marc Haimes e Chris Butler, a dupla de argumentistas, a contar com um trabalho meritório. O enredo é bem construído, a história promete satisfazer adultos e crianças (existem piadas e mensagens destinadas para públicos distintos, ou que recebem as mesmas de forma relativamente distinta), os personagens contam com dimensão e evolução ao longo da narrativa (veja-se o caso de Kubo, com o filme a ter no seu cerne toda uma questão familiar que a espaços nos faz lembrar as convulsões no interior da família Skywalker na saga "Star Wars"), com a ameaça proporcionada pelo avô do protagonista a ser bastante efectiva, tal como o desfecho dado a este elemento. O avô de Kubo não apresenta uma confiança inabalável na Humanidade, enquanto o jovem acredita na beleza do Mundo que o rodeia e das suas gentes, com o protagonista a ter de aprender a controlar os seus instintos e os seus medos, a utilizar o poder do perdão e a lidar com a perda daqueles que o amam. Diga-se que "Kubo and the Two Strings" não tem problemas em envolver-se por caminhos mais negros ou violentos, expondo que os actos têm consequências, embora tudo seja relativamente adequado ao público mais novo. Esse lado mais negro é visível quando a paleta cromática atinge níveis mais frios e certos confrontos ameaçam colocar alguns personagens em risco, com Travis Knight a fazer com que nos apeguemos a Kubo, Monkey e Beetle ao ponto de recearmos pelo destino destes personagens, enquanto o realizador coloca os mesmos em perigo. O cineasta tem uma estreia de grande nível na realização de longas-metragens, após ter participado no departamento de animação de diversas obras cinematográficas da Laika como "Coraline", "ParaNorman" e "The Boxtrolls", com esta experiência acumulada a parecer ter surtido efeito e resultado num dos melhores filmes deste estúdio (do qual o cineasta é CEO). O trabalho da animação em stop motion é exemplar, com os gestos dos personagens, os cenários, as cenas de acção ou os momentos mais contemplativos a exibirem todo um cuidado digno de nota e uma classe merecedora de uma miríade de elogios. A atenção aos pormenores é imensa, com uma simples corda a contar com um significado especial, com o espectador a praticamente não poder pestanejar para não perder nada, enquanto a banda sonora composta por Dario Marianelli (um colaborador habitual de Joe Wright, tendo trabalhado com o cineasta em filmes como "Pride & Prejudice", "Atonement" e "Anna Karenina") incute ritmos orientais e prontos a adequarem-se eficazmente ao enredo. O papel da memória surge como uma temática fundamental de "Kubo and the Two Strings", uma situação que Travis Knight respeita ao realizar um filme belíssimo e emocionalmente poderoso, que promete permanecer na mente do espectador e ser recordado como um dos grandes filmes da Laika.

Título original: "Kubo and the Two Strings".
Título em Portugal:
Realizador: Travis Knight.
Argumento: Marc Haimes e Chris Butler.
Elenco vocal (Portugal): Francisco Magalhães Ferreira, Vera Kolodzig, Paulo Pires, João Ricardo, Jani Zhao.

03 setembro 2016

Resenha Crítica: "The Neon Demon - O Demónio de Néon"

 Num determinado momento de "The Neon Demon", Jesse (Elle Fanning), a protagonista do filme, salienta o seguinte: "I can't sing, I can't dance, I can't write... no real talent. But I'm pretty, and I can make money off pretty". Este diálogo serve para ilustrar paradigmaticamente a superficialidade inerente ao mundo da moda, ou, pelo menos, como Nicolas Winding Refn encara o mesmo e as modelos. O cineasta volta a realizar uma obra cinematográfica pronta a despertar as opiniões mais díspares quer entre os seus defensores, quer entre os seus detractores. Diga-se que Refn não faz por menos, ou não estivéssemos diante de um provocador nato, que gosta de desafiar os limites daqueles que o elogiam ou arrasam. Simultaneamente frio, hipnotizante, superficial, repulsivo, violento, misógino e constrangedor, "The Neon Demon" transporta-nos para um universo narrativo que tem muito de Nicolas Winding Refn, onde estilo e substância se encontram e desencontram, com a visão do realizador sobre o mundo da moda, das modelos e das mulheres a evidenciar o lado provocador de um cineasta que parece não saber viver sem polémicas. O provérbio popular "muita parra, pouca uva" aplica-se praticamente em pleno a "The Neon Demon", sobretudo a partir do último terço, quando o realizador perde definitivamente o controlo e deixa o filme à deriva, enquanto o argumento de Mary Laws, Nicolas Winding Refn e Polly Stenham revela todas as suas fraquezas e incoerências. Estamos diante de um filme de contrastes, que utiliza aquilo que crítica (efectua uma representação mordaz e provocadora do mundo da moda e da futilidade que existe no mesmo, apesar de deixar o espectador diante de um enredo que aborda as temáticas de forma superficial), embora não tenha receios em direccionar as suas mensagens e repetir por diversas vezes os seus comentários sobre a moda e a crueldade que existe neste meio. Veja-se quando encontramos Jesse numa sessão fotográfica onde os cenários são marcados pela impessoalidade, algo transmitido pelas paredes brancas, enquanto o fotógrafo despe o corpo da modelo para um ensaio que a pode lançar para o estrelato. Jesse é uma jovem de dezasseis anos de idade, que chegou a Los Angeles para tentar vingar no mundo da moda. Esta começa a ganhar alguns contactos no local, tais como Ruby (Jena Malone), uma maquilhadora profissional que está sempre pronta para preencher o rosto dos outros e mantém durante algum tempo uma atitude sexualmente ambígua em relação à protagonista (até se transformar numa "predadora", com a abordagem da homossexualidade da personagem interpretada por Jena Malone a ser simplesmente ridícula). Ruby apresenta Jesse a Sarah (Abbey Lee) e Gigi (Bella Heathcote), duas modelos, com o quarteto a participar numa festa que é representada muito ao estilo da estética de Nicolas Winding Refn. Não faltam tonalidades vermelhas e azuis (muito presentes ao longo do filme), um trabalho de som e iluminação pronto a desconcertar e hipnotizar o espectador, enquanto os corpos são colocados em destaque. O momento serve desde logo para Refn expor o seu prazer a sobrepor o estilo em relação à substância, enquanto ficamos a conhecer um pouco mais sobre o quarteto. Sarah e Gigi surgem como os estereótipos das modelos dispostas a tudo para manterem o seu estatuto, com Abbey Lee e Bella Heatchote a terem apenas de expor os seus belos corpos e exibirem a frieza e vacuidade das personagens que interpretam. Nicolas Winding Refn não demonstra a mínima preocupação com Sarah e Gigi, com o desfecho destas personagens a permitir uma mensagem exposta de forma tosca sobre a competitividade do mundo da moda e do desejo excessivo de manter um ideal de beleza que permita continuar relevante neste meio onde as rivalidades são imensas ou, pelo menos, é assim que acontece em "The Neon Demon".

 Se Sarah e Gigi aparecem desde logo representadas como figuras superficiais, já Jesse surge como a jovem virgem e inexperiente, embora seja capaz de despertar a atenção de tudo e todos. Elle Fanning surge como uma espécie de boneca de porcelana de Nicolas Winding Refn, com o cineasta a moldar a actriz para os propósitos que tem para a personagem, enquanto somos bombardeados com diálogos relacionados com a beleza especial de Jesse (apesar do cineasta nem sempre conseguir incutir essa aura quase divina à protagonista). A jovem actriz consegue incutir algum mistério e frieza a Jesse, uma figura aparentemente angelical, de dezasseis anos de idade, que perdeu os pais e vive num quarto barato num motel gerido por um tipo machista e pouco polido (Keanu Reeves num papel bastante secundário). A partir do momento em que é chamada por Roberta Hoffman (Christina Hendricks), a dona de uma agência de modelos, Jesse percebe que está prestes a concretizar o sonho de vingar no mundo da moda. Hoffman compele Jesse a mentir em relação à idade, tendo em vista a conseguir ensaios fotográficos e trabalhos com estilistas de renome, com Refn a efectuar mais críticas ao sector da moda, nomeadamente, ao trabalho de menores e à contratação de modelos excessivamente magras e jovens, embora o próprio conte com Elle Fanning como protagonista, para além de ter um elenco secundário composto por actrizes que poderiam facilmente trabalhar como manequins (o que a espaços torna "The Neon Demon" um filme idiota de seguir já que o cineasta parece tropeçar constantemente nos mesmos elementos que representa de forma crítica ou jocosa). Esta crítica é exacerbada no dito ensaio fotográfico no qual Jesse serve de modelo para Jack (Desmond Harrington), um fotógrafo famoso, que pede para esta se despir, enquanto pinta a adolescente de dourado e a molda à sua medida. Ou seja, estamos diante de uma jovem de dezasseis anos, que participa num ensaio pontuado pela nudez, com Jesse a parecer inicialmente pouco à vontade com a situação, até exibir algum lisonjeio devido a ter sido fotografada por um profissional famoso que raramente aceita trabalhar com estreantes. Jesse parece ser perfeita, ou contar com os atributos perfeitos para esta profissão, com a sua juventude, magreza e tez a serem elogiados por quase tudo e todos, com diversos elementos a considerarem-na especial. A arrogância de Jesse aumenta com o avançar da narrativa, sobretudo quando ultrapassa a concorrência de Sarah e é seleccionada por Robert Sarno (Alessandro Nivola), um estilista que fica fascinado com a jovem. Sarno é mais um personagem secundário pouco desenvolvido, uma figura que representa o estereótipo do estilista superficial, que aparentemente contrasta com Dean (Karl Glusman), um amigo de Jesse que se encontra interessado na adolescente. Dean efectuou uma sessão fotográfica amadora que contribuiu para Jesse ser recebida por Roberta Hoffman, embora a relação entre o primeiro e a segunda nunca deixe o nível platónico. Karl Glusman interpreta um indivíduo relativamente prestável, sempre pronto a dizer "frases feitas" e simpático ao ponto de não levantar problemas quando é descartado da narrativa e da vida da protagonista. É mais um actor secundário que é engolido pela pouca preocupação de Refn em relação à maioria dos personagens, com o cineasta a parecer ter confiado em demasia que a estética e o estilo seriam suficientes para conseguirem esconder tudo aquilo que o filme não tem, ou demonstra ser incapaz de ter. Não é algo novo no cineasta, embora seja problemático quando o conteúdo é demasiado pobre para não servir de muleta ao estilo, algo que descompensa "The Neon Demon".

 O enredo de "The Neon Demon" raramente prima pela subtileza ou pela densidade mas aguenta-se relativamente bem até perto do seu último terço. No entanto, a partir do momento em que Refn assume uma postura de provocar por provocar e repetir a utilização dos mesmos símbolos e temáticas de forma excessiva, "The Neon Demon" perde completamente o rumo e ganha contornos completamente banais, machistas e ridículos. Não faltam situações a envolver canibalismo (para uma metáfora óbvia sobre a moda e as modelos), necrofangia (para mais metáforas óbvias), violência física e psicológica (tais como uma tentativa de violação), enquanto "The Neon Demon" exibe a sua verdadeira face, ou seja, é bem menos irreverente do que parece ou pretende ser. É certo que "The Neon Demon" consegue ser ofensivo, machista, misógino, pueril na abordagem das temáticas e nas metáforas, incoerente e hipócrita, mas está longe de ser irreverente, algo que desilude, sobretudo quando a espaços somos inebriados pela atmosfera criada por Refn e pela interpretação meritória de Elle Fanning. Por sua vez, quase todo o elenco secundário é desperdiçado, com Jena Malone, Bella Heathcoate, Abbey Lee, Karl Glusman, Keanu Reeves, entre outros, a serem completamente desaproveitados ao interpretarem personagens que são construídos sem qualquer ponta de inspiração, com o próprio elenco a não contribuir (é tudo muito artificial, muito encenado, demasiado estilizado para comprarmos a conversa fiada que nos é oferecida). O último terço do filme exibe esse pouco aproveitamento dos personagens secundários. Veja-se o caso de Jena Malone como Ruby. É certo que a actriz nem sempre convence, com a artificialidade do argumento a parecer contaminar as interpretações, com Jena Malone a não contar com um arco que permita desenvolver Ruby. Diga-se que é ridículo (perdoem o spoiler) ver Ruby a procurar tirar a virgindade a Jesse, quase como uma predadora em busca de uma presa, com a situação a parecer saída de um fetiche de um adolescente em busca de vídeos pornográficos sobre lésbicas. Falta mais densidade, irreverência e assertividade a "The Neon Demon", embora não falte "fogo de artifício", néones, luzes, brilhantes, provocações infantis e uma utilização repetitiva da paleta cromática, com Refn a não poupar no aproveitamento do branco, vermelho, azul e rosa, tendo em vista a remeter quase sempre para os mesmos significados. Vermelho para representar a tentação, perigo ou instabilidade emocional. Azul associado a uma certa frieza. Rosa para a suposta pureza de Jesse, uma jovem de dezasseis anos e pele rosada. Branca para expor a impessoalidade de alguns cenários como o estúdio onde é efectuada a primeira sessão fotográfica de Jesse, ou o espaço onde decorre um teste de casting para modelos. Curiosamente, para um filme que supostamente quer abordar temáticas sobre a moda, "The Neon Demon" está longe de explorar afincadamente o trabalho efectuado pelas modelos, com a própria rivalidade e competitividade entre colegas de profissão a parecer ser utilizada mais para Refn expor a sua faceta de provocador do que para aflorar os efeitos nocivos destas querelas. Diga-se que Darren Aronofsky aproveitou de forma bem mais complexa e assertiva a rivalidade no feminino no espaço fechado e competitivo do ballet em "Black Swan" (onde as carreiras também acabam de forma precoce), com a densidade psicológica deste filme a fazer "The Neon Demon" corar de vergonha. Se alguns personagens de "The Neon Demon" pensam que a beleza é tudo, já Refn acredita que basta um filme ter estilo para conseguirmos esquecer a falta de substância do mesmo, ou se preferirem, o descontrolo que assola o terceiro acto da obra cinematográfica em análise. A espaços "The Neon Demon" quase que tem um efeito hipnótico, mas, gradualmente, essa sensação começa a desvanecer até restar simplesmente a desilusão. Nicolas Winding Refn é capaz de mais e melhor do que aquilo que demonstrou em "The Neon Demon".

Título original: "The Neon Demon".
Título em Portugal: "The Neon Demon - O Demónio de Néon".
Realizador: Nicolas Winding Refn.
Argumento: Mary Laws, Nicolas Winding Refn, Polly Stenham.
Elenco: Elle Fanning, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee, Karl Glusman, Christina Hendricks, Keanu Reeves.

24 agosto 2016

Em Setembro...

Contava efectuar uma paragem bastante longa, ou provavelmente não voltar a escrever no Rick's Cinema. No entanto, a realidade é bem mais complexa e caricata do que a ficção. Nesse sentido, se a realidade não voltar a atraiçoar os meus planos, o Rick's Cinema regressa em Setembro.  




08 agosto 2016

Uma pausa inevitável

 Nos próximos tempos o Rick's Cinema vai estar praticamente parado. O blog não vai acabar, não seria capaz de terminar de vez com este espaço. Foram horas e mais horas dedicadas ao blog para terminar de vez com o Rick's Cinema (a própria imagem que acompanha este texto indica que desistir não é uma opção). No entanto, também não sei precisar ao certo quando regressa e como regressa. Se tudo correr mal, o blog regressa depressa, se tudo correr bem, o regresso promete ser demorado. Por enquanto tudo é incerto quer para mim, quer para o blog. Primeiro preciso de me adaptar a novas rotinas. Posteriormente terei de repensar o funcionamento deste espaço. Não deixa também de ser relativamente irónico que o momento no qual percebo o quanto sou apaixonado por este hobby seja precisamente quando tenho de me afastar temporariamente do mesmo. Penso que qualquer pessoa adoraria que o seu blog funcionasse praticamente como o Omelete e o Cinema em Cena, ou seja, conseguisse ser rentável (pelo menos, eu gostava), com a grande paixão de uma vida a transformar-se no emprego de sonho. No entanto, esse desejo é impossível, pelo menos com este espaço e acredito que praticamente com qualquer blog de cinema nacional (e sites). É impossível não encarar esta paragem com um misto de alegria e nostalgia. No caso do regresso não se proporcionar, algo é certo e completamente sentido: não me esqueço das entrevistas efectuadas, dos momentos de bloqueio e da minha incompetência a rever textos, das resenhas escritas, dos visionamentos e das sensações únicas de cobrir festivais, das discussões acaloradas (seja com outros bloggers ou pessoal de algumas distribuidoras) e das amizades criadas, da colaboração com a Take, entre tantos outros momentos que simplesmente são impossíveis de esquecer de um dia para o outro. Muito obrigado a quem acompanhou e acompanha este espaço. Até já.  

Resenha Crítica: "Brutti, sporchi e cattivi" (Feios, Porcos e Maus)

 Entre a comédia à italiana e a tragédia, o drama e a sátira social, "Brutti, sporchi e cattivi" não tem problemas em abraçar os exageros e o grotesco, enquanto nos coloca diante de uma família completamente disfuncional que vive num bairro localizado nas margens da cidade de Roma. Ettore Scola não poderia ser mais claro ao exibir o centro da cidade em pano de fundo, ou, pelo menos, o seu espaço mais desenvolvido, enquanto deixa em primeiro plano as gentes sem grandes perspectivas de vida, empobrecidas, rudes e maioritariamente iletradas, que procuram acima de tudo sobreviver. O plano final assim o indica, ou não ficássemos diante de uma jovem grávida, sem grandes perspectivas de futuro a não ser repetir o estilo de vida dos familiares, enquanto encontramos o centro de Roma como pano de fundo, em particular a Basílica de São Pedro. Ficamos diante do contraste entre centro e periferia, entre esperança e desesperança, enquanto Ettore Scola apresenta tudo num jeito muito italiano, onde o humor e a tragédia se unem e a espaços chamam ainda o grotesco e o drama. Diga-se que não faltam elementos das comédias à italiana em "Brutti, sporchi e cattivi", com Ettore Scola a colocar-nos diante de situações cómicas a partir da tragédia, figuras depauperadas, traições, personagens com um desejo sexual bastante activo, enquanto nos deixa perante uma família de dimensões alargadas que vive num espaço claramente diminuto e degradado (tal como os valores dos elementos que habitam nesta casa). A exposição das margens de Roma como um território marcado pelo lixo, pela falta de condições e gentes empobrecidas é algo que Ettore Scola já tinha efectuado, ainda que num tom mais leve em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)". Em ambas as obras cinematográficas mencionadas não existe espaço para dúvidas de que o final está longe de transmitir esperança, com Ettore Scola a conseguir despertar uma miríade de sentimentos no âmago do espectador. É fácil sorrir em alguns momentos, mas também sentir desconforto ou simplesmente levar um murro no estômago, ou perceber que estes personagens estão destinados a viver no caos, ou a agredirem-se constantemente, seja a nível físico ou psicológico. A casa do protagonista, onde habita boa parte do núcleo familiar do mesmo, encontra-se claramente degradada, enquanto os elementos que vivem na mesma apresentam comportamentos rudes e violentos, não tendo problemas em disparar ofensas ou partirem para as agressões físicas, com o cadastro destes personagens a ser particularmente conhecido na esquadra local. Nem todos são personagens agradáveis, bem pelo contrário, a começar por Giacinto Mazzatella (Nino Manfredi), o protagonista de "Brutti, sporchi e cattivi", um indivíduo que recebeu uma soma avultada de dinheiro devido a um acidente no trabalho que o deixou cego de um olho.

Giacinto não quer dividir o dinheiro com ninguém, nem mesmo com Matilde (Linda Moretti), a sua esposa, exibindo uma atitude peculiar e avarenta diante dos familiares, encarando os mesmos como inimigos. As noites de Giacinto são passadas praticamente em claro, com o protagonista a dormir acompanhado por uma espingarda, tendo em vista a evitar que furtem o dinheiro que tem escondido no interior da sua casa. Nino Manfredi é o actor que mais sobressai ao longo do enredo ao interpretar um indivíduo que tanto tem de violento como de patético, machista, beberrão e trágico, que agride a esposa e envolve-se com uma prostituta, tendo uma família alargada embora quase ninguém goste de si, com a própria progenitora de Giacinto a não ter problemas em aceitar o plano de envenenar este indivíduo. De cabelos acinzentados a descaírem para o branco, um físico pouco cuidado, tal como o seu visual, Nino Manfredi incute uma presença física notória a este personagem, beneficiando não só de um bom trabalho a nível de caracterização e de um argumento bem escrito, mas também do seu talento para a interpretação. Manfredi eleva Giacinto, conseguindo expressar o estilo agressivo e pouco polido deste personagem que apenas parece despertar a atenção de Iside (Maria Luisa Santella), uma prostituta anafada que o protagonista decide levar para a sua casa, tendo em vista a viver com a mesma, algo que coloca a família em polvorosa. Maria Luisa Santella apresenta uma enorme desenvoltura e capacidade para encarnar esta figura que adensa o lado grotesco da narrativa de "Brutti, sporchi e cattivi", com a intérprete a incutir uma naturalidade notória aos episódios protagonizados por esta mulher de seios avantajados, vestimentas peculiares e um físico robusto. Veja-se quando um pedaço de macarrão cai no seios de Iside e esta não tem problemas em apanhar o mesmo e comê-lo, ou quando um cunhado de Giacinto invade a cama do protagonista e começa a fornicar com a primeira, com Ettore Scola a parecer jogar com os limites dos personagens e do espectador, sempre sem ter receio de abraçar o grotesco. A habitação de Giacinto é uma barraca que se encontra superpovoada e desprovida de condições, contando com a presença dos dez filhos do primeiro e Matilde, para além de outros familiares. O design deste cenário interior é fulcral para adensar a atmosfera abrasiva que envolve estes personagens, com o espaço da casa a apresentar condições diminutas para contar com tantos elementos, algo que ainda piora no último terço. Veja-se a presença de colchões e tralha pelas várias divisórias da casa, enquanto a presença humana é notória, com este espaço habitacional a contar com mais de uma dezena de residentes. O próprio trabalho de Dario di Palma na cinematografia permite exponenciar essa sensação quase claustrofóbica que rodeia o espaço da casa, como se este local não conseguisse albergar todas as emoções que se vivem no seu interior. Diga-se que parece faltar quase tudo a estes personagens, incluindo valores morais e bom senso. Tudo isso está em falta, enquanto ficamos diante deste grupo de personagens peculiares, com quase todos a apresentarem personalidades muito próprias e comportamentos que parecem muitas das vezes serem fruto do meio duro onde habitam.

 Os sentimentos são expostos de forma bem viva, quase sem travão, enquanto a violência parece fazer parte do quotidiano de todos estes personagens, bem como o desejo sexual, com Giacinto a não ter problemas em fazer sexo com a esposa de um familiar, tal como um cunhado do protagonista não exibe grandes tabus ao invadir a cama do mesmo para fornicar com Iside. A maioria dos filhos de Giacinto e os restantes familiares do protagonista não trabalham ou não conseguem arranjar emprego, com quase todos a dependerem deste indivíduo e da sua mãe. A mãe de Giacinto é uma idosa de personalidade peculiar, que se locomove numa cadeira de rodas e passa os seus dias a ver televisão e a procurar aprender inglês através dos programas televisivos (protagonizando gags a falar inglês que a espaços trazem à memória a tentativa da personagem interpretada por Monica Vitti aprender inglês em "Dramma della gelosia"), com boa parte dos personagens a depender da pensão desta figura vetusta. Por sua vez, Linda Moretti interpreta uma personagem intempestiva e vingativa, de buço saliente, que sofre abusos por parte de Giacinto, com a actriz a conseguir expressar a rudeza de Matilde. A relação entre Giacinto e Matilde já conheceu melhores dias, ou pelo menos pensamos que outrora contou com momentos de felicidade. Giacinto não quer dividir as suas finanças com os familiares, enquanto a esposa depara-se com uma situação matrimonial ainda mais degradante quando o primeiro traz Iside para viver com a família, com a cama do casal a ser dividida pelo trio. Temos ainda elementos como Nando (Franco Merli), um dos filhos de Giacinto e Matilde, um jovem que se gosta de vestir de mulher e fornicar com figuras femininas, incluindo com a esposa de um familiar, com as trocas e baldrocas no interior deste espaço habitacional a serem mais do que muitas. A certa altura, Matilde decide organizar um plano para assassinar Giacinto, com a narrativa a ganhar contornos mais negros, embora nem tudo corra como o esperado, enquanto Ettore Scola explora as dinâmicas intrincadas e peculiares destes personagens. A violência parece fazer parte do quotidiano da maioria dos elementos que povoam o enredo de "Brutti, sporchi e cattivi", com quase todos os personagens a parecem incapazes de exibirem grandes demonstrações de afecto. Giacinto ainda exibe alguma estranha ternura para com Iside, embora pareça acima de tudo desejar fisicamente esta mulher, ou o desejo sexual não surgisse como uma das temáticas das comédias à italiana. Não faltam piadas com personagens a mexerem em seios ou traseiros, bem como discussões mais acaloradas ou buscas pelo local onde Giacinto escondeu o dinheiro. Giacinto encontra-se no cerne de quase toda a narrativa, enquanto Ettore Scola coloca-nos diante de um conjunto de personagens que parece ter perdido a habilidade para conviver harmoniosamente em sociedade, se é que estas figuras alguma vez tiveram essa sensibilidade, com o próprio espaço onde habitam a revelar-se algo abrasivo e propiciador destes comportamentos. 

O lixo, os ratos, as poucas condições de saneamento básico parecem fazer parte do espaço onde Giacinto e a sua família habitam, com este território das margens a contar com uma quantidade assinalável de barracas que se encontram longe de garantirem a qualidade de vida destes personagens. Veja-se o espaço onde ficam instalados os jovens durante o dia, transportados por Maria Libera (Marina Fasoli), uma das familiares de Giacinto e Matilde, um parque improvisado que conta com poucas ou nenhumas condições de segurança. As parcas condições dos homens e mulheres que habitam este espaço é uma das temáticas que marca a narrativa, enquanto Ettore Scola não parece apresentar problemas em recorrer ao grotesco e ao humor negro. Não falta um cão perneta, ratos a circularem pelas casas, mulheres com buço, um protagonista que roça o grotesco, casas com poucas condições e gentes com parcas perspectivas de vida, algo latente na figura da jovem Maria Libera. Esta é uma pré-adolescente ou adolescente que trabalha, conta com uma personalidade algo passiva e habita num espaço pouco propício para ganhar bases a nível de escolaridade que lhe permitam almejar um futuro mais risonho. A personagem interpretada por Marina Fasoli é uma das raras figuras que parecem pouco interessadas no dinheiro de Giacinto, enquanto os restantes familiares procuram roubar a quantia que este esconde, algo que adensa a paranóia deste indivíduo peculiar e agressivo. Maria Libera tem em Tommasina (Clarisse Monaco) uma figura que a intriga. Tommasina ganha a vida a despir-se para ensaios fotográficos, algo que orgulha a sua progenitora, embora seja alvo de troça dos jovens locais, ou não estivéssemos diante de um espaço conservador, onde a ascensão social parece praticamente impossível e o machismo parece inculcado em diversas figuras masculinas. Ettore Scola expõe-nos aos espaços degradados das margens de Roma, enquanto nos apresenta a um grupo peculiar de personagens, com Nino Manfredi a sobressair acima de todos os outros elementos do elenco ao dar vida a Giacinto, numa obra cinematográfica que tem muito das comédias à italiana, ou seja, pontuada por muito humor mas também por situações trágicas e dramáticas.  

Título original: "Brutti, sporchi e cattivi".
Título em Portugal: "Feios, Porcos e Maus".
Realizador: Ettore Scola.
Argumento: Sergio Citti, Ettore Scola, Ruggero Maccari.
Elenco: Nino Manfredi, Marcella Michelangeli, Marcella Battisti, Francesco Crescimone, Silvia Ferluga, Zoe Incrocci, Adriana Russo, Franco Merli, Maria Bosco, Clarisse Monaco,
Marina Fasoli.

07 agosto 2016

Resenha Crítica: "Gorbaciof" (2010)

 Com uma mancha na pele inerente a uma malformação capilar que lhe valeu a alcunha de Gorbaciof, (a remeter para Mikhail Gorbachev, o oitavo e último líder da União Soviética, um indivíduo que tinha uma marca semelhante), uma personalidade introvertida e um enorme vício pelo jogo, Marino Pacileo (Toni Servillo) é um caixeiro solitário, que trabalha num estabelecimento prisional situado em Poggioreale. Pacileo é o protagonista de "Gorbaciof", um drama que tanto tem de delicado como de violento, onde os gestos e os olhares contam com tanta ou mais importância do que as parcas palavras que ouvimos a serem emitidas pelo personagem principal ou Lila (Yang Mi). Esta é uma imigrante chinesa que se encontra a trabalhar no restaurante do pai (Hal Yamanouchi), um local onde decorrem jogos de póquer ilegais, com a jovem a despertar a atenção do protagonista, embora Lila não saiba uma única palavra de italiano. A dinâmica entre Pacileo e Lila é trabalhada de forma sublime por Stefano Incerti, com o cineasta a atribuir uma enorme atenção aos gestos destes personagens, enquanto beneficia da capacidade de Toni Servillo e Yang Mi conseguirem expressar-se facilmente através das expressões corporais, com o actor e a actriz a convencerem em relação aos estranhos e ternos sentimentos que se formam entre esta dupla. Yang Mi concede uma candura e sensibilidade a Lila que nos desarma com facilidade, com esta personagem a deparar-se com uma realidade nem sempre agradável no interior do território de Nápoles, com o próprio pai a parecer ter planos pouco recomendáveis para o futuro da jovem. Toni Servillo surge imponente, construindo um personagem que tanto tem de problemático como de sensível, com o actor a conseguir transmitir que estamos diante de uma figura que se encontra numa zona cinzenta, deambulando entre o bem e o mal. Gorbaciof tanto é capaz de roubar dinheiro e envolver-se em assaltos como proteger Lila e protagonizar alguns momentos de enorme candura ao lado da jovem, com a dupla a parecer complementar-se praticamente na perfeição. Ele é solitário, fala pouco, habita num espaço decorado de forma simples e não tem grandes amizades. Ela é bastante observadora, não fala italiano, apresenta uma sensibilidade latente e parece curiosa em relação a Pacileo. O momento-chave para o início desta peculiar relação de amizade - que parece conter no seu interior outro tipo de sentimentos - acontece quando Lila é alvo de comentários insultuosos por parte de dois clientes, com Pacileo a defendê-la e a avançar com violência contra a dupla. Diga-se que Pacileo conta uma compleição física relativamente imponente e uma força capaz de meter respeito, com o protagonista a não ter problemas em envolver-se em situações de pancadaria, embora demonstre por diversas vezes alguns sinais de fraqueza. O vício pelo jogo é a maior fraqueza de Pacileo, com este a contar com uma rotina monótona e solitária, pelo menos até conhecer Lila. A rotina de Pacileo centra-se sobretudo em dirigir-se de casa para o trabalho e, ao sair do espaço prisional, deslocar-se para diversos locais de jogo, tais como o restaurante chinês do pai de Lila, um estabelecimento onde decorrem jogos de póquer ilegais. Os jogos são organizados por um advogado (Geppy Gleijeses) moralmente corrupto, que conta quase sempre com a companhia de um capanga para recolher as verbas em falta, enquanto tudo decorre no interior de uma sala recôndita do restaurante. Muito dinheiro é colocado em jogo, enquanto as cartas ditam o azar ou a sorte de alguns jogadores, com Pacileo e o pai de Lila a perceberem da pior maneira que tudo pode mudar rapidamente de um momento para o outro.

 Mais do que jogar para ganhar dinheiro ou enriquecer, Pacileo parece jogar devido ao vício que formou em relação à jogatana, com este indivíduo a furtar regularmente o dinheiro do cofre da prisão, embora devolva o mesmo de forma amiúde, pelo menos enquanto ganha. Por sua vez, o pai de Lila mete-se numa enrascada que pode colocar a jovem em perigo, embora Gorbaciof exiba um instinto protector latente em relação à sua "protegida". A personagem interpretada por Yang Mi é uma das muitas jovens que partem da China sem saberem uma única palavra da língua do país para onde se deslocam, parecendo um "peixe fora de água" no interior deste território napolitano. O restaurante chinês onde Lila trabalha conta com um ambiente semelhante a tantos outros espaços do género com que nos deparamos pelas ruas, com o trabalho a nível da decoração do cenário e a atmosfera criada em volta do mesmo a contribuírem para essa sensação. Não falta a música genérica, a decoração muito própria dos restaurantes chineses baratos, embora o estabelecimento acabe por servir para outro tipo de actividades ilegais. A cinematografia adapta-se com sobriedade àquilo que o filme pede, com a câmara a tanto contribuir para adensar o sentido de urgência e intensidade em volta de alguns episódios, tais como o momento em que o pai de Lila perde um jogo e fica subentendido que o advogado encara a jovem como um bem que está em disputa, ou para incrementar a estranha ternura de alguns trechos protagonizados pelos personagens interpretados por Toni Servillo e Yang Mi. Diga-se que o trabalho de câmara é ainda essencial para nos apresentar de forma rápida e prática a alguns cenários, algo notório quando Gorbaciof entra no restaurante, a câmara de filmar desloca-se ligeiramente para a esquerda para exibir a sala onde se encontram sentados os clientes, até avançar pela cozinha e pelo espaço que permite chegar ao local de jogo, com o personagem interpretado por Toni Servillo a ser quase sempre acompanhado por Stefano Incerti e Pasquale Mari (director de fotografia). O restaurante encontra-se localizado num espaço de Nápoles, em particular, na Campânia, conhecido pela sua natureza multiétnica, com a presença asiática a ser sentida. Veja-se quando encontramos um grupo de origem asiática a jogar às cartas numa rua, ou o restaurante do pai de Lila. A personalidade dura de alguns italianos, tais como Pacileo, remete para a dureza deste espaço algo periférico, com o protagonista a contactar de perto com uma realidade pontuada pela crueza. Esta situação é desde logo visível pela forma muitas das vezes rude e directa como Pacileo dialoga, com o passado deste indivíduo a nem sempre ter sido fácil, com a ida a um cemitério para visitar o túmulo de um familiar a indicar isso mesmo (o próprio facto de dormir numa cama de casal pode indicar que este é viúvo, ou simplesmente que este blogger é um nabo a interpretar filmes). Diga-se que o quotidiano de Pacileo passa por matar a fome com comida rápida, jogar (seja em máquinas, no bingo ou póquer) e trabalhar, com os seus desfalques a prometerem trazer-lhe problemas, sobretudo quando começa a perder no póquer e a contrair empréstimos. Os momentos de maior felicidade de Pacileo acontecem quando este se encontra ao lado de Lila, com a banda sonora, o argumento, o trabalho dos actores e de Stefano Incerti a contribuírem para incutir uma enorme naturalidade e estranha ternura a esta dinâmica entre os personagens interpretados por Toni Servillo e Yang Mi, algo que contribui para que sejamos conquistados por esta dupla. Veja-se quando encontramos Lila e Pacileo a divertirem-se numa loja e no espaço do aeroporto, ou quando visitam o jardim zoológico durante a noite.

 Os passeios protagonizados por Lila e Pacileo permitem aumentar a intimidade entre estes dois personagens, com a relação de proximidade entre ambos a ser construída à base de gestos, olhares, silêncios e emoções, enquanto Stefano Incerti desenvolve a dinâmica destas duas figuras de forma sublime. A certa altura de "Gorbaciof", torna-se praticamente impossível não torcer para que Pacileo e Lila encontrem a felicidade e ultrapassem as adversidades, embora esse desejo pareça improvável ou praticamente impossível de ser concretizado. Pacileo envolve-se por um caminho negro, sobretudo a partir do momento em que se endivida junto de um guarda prisional corrupto (Nello Mascia) e do advogado, para além de furtar divisas do cofre da prisão, ou seja, o percurso problemático que percorre não augura nada de bom para o seu futuro. A juntar a tudo isso, a violência permeia o quotidiano de Pacileo, com o próprio a envolver-se em confusões escusadas que prometem colocar em perigo o objectivo de ser feliz ao lado de Lila. No final, o poder dos close-ups fica paradigmaticamente representado quando ficamos quer diante do olhar de Pacileo, quer de Lila. O estado de espírito de ambos os personagens é distinto, embora estejam a pensar um no outro, enquanto ficamos com a certeza do sucesso de Stefano Incerti na construção destes dois elementos e das suas dinâmicas. Com um sorriso que a espaços traz à memória o personagem interpretado por Conrad Veidt em "The Man Who Laughs", com o riso do protagonista a nem sempre ser sinónimo de alegria, Gorbaciof permite a Toni Servillo ter espaço para compor um personagem que capta facilmente a nossa atenção, mesmo quando comete actos pouco recomendáveis. Por sua vez, Yang Mi consegue exprimir o mistério, ingenuidade e ternura de Lila, uma jovem que desperta a atenção do protagonista, com muito a ser sentido e pouco a ser dito entre esta e Pacileo. Já elementos secundários como Geppy Gleijeses (o advogado corrupto unidimensional que permite explanar a teia de corrupção que existe neste território), Hal Yamanouchi (como um indivíduo que parece pouco preocupado com a filha), Nello Mascia (como o polícia corrupto que promete envolver o protagonista numa enrascada ainda maior) não têm grande espaço para sobressair, apesar das acções dos personagens que interpretam contarem com alguma relevância para o destino de Lila e Pacileo. Stefano Incerti quase que nos brinda com um filme praticamente sem diálogos, com as falas de Lila e Pacileo a serem reduzidas ao máximo, algo que permite explanar quer o talento de Yang Mi, quer de Toni Servillo, com a actriz e o actor a conseguirem exprimir de forma sublime aquilo que vai no interior da alma dos personagens que interpretam ao longo deste drama bastante recomendável. 

Título original: "Gorbaciof".
Realizador: Stefano Incerti.
Argumento: Stefano Incerti e Diego De Silva.
Elenco: Toni ServilloYang Mi, Geppy Gleijeses, Nello Mascia, Hal Yamanouchi.

03 agosto 2016

Resenha Crítica: "Fargo" (1996)

  Realizado com enorme mestria, criatividade e classe pelos irmãos Coen, "Fargo" coloca-nos diante de um rapto rocambolesco e uma investigação peculiar, sempre com algum humor negro e violência à mistura. Os cenários pontuados pela neve transmitem uma certa frieza e exacerbam as características inóspitas de alguns locais onde se desenrola o enredo, embora "Fargo" seja um filme que desperta os sentimentos mais quentes, enquanto nos deleita com alguns elementos típicos das obras cinematográficas realizadas por Joel e Ethan Coen. Não falta um rapto, os personagens que procuram obter dinheiro fácil, o papel relevante do destino, os diálogos bem escritos, um sentido de humor afiado, a capacidade de Joel e Ethan Coen conseguirem extrair boas interpretações por parte do elenco principal, a procura de explorar espaços muito próprios dos EUA, os nomes bizarros, a violência, entre outros exemplos. Um desses personagens com nomes peculiares é Jerry Lundegaard (William H. Macy), um vendedor de automóveis aparentemente panhonha, algo trapalhão e pouco competente no cumprimento das actividades em que se envolve. Jerry orquestra um plano para raptarem a sua esposa, tendo em vista a dividir a verba do resgate com os criminosos que contratou para efectuarem essa tarefa, embora tudo fuja rapidamente do seu controlo. O verdadeiro alvo de Jerry é Wade Gustafson (Harve Presnell), o seu sogro, um empresário financeiramente abastado e poderoso, com o protagonista a tentar extorquir o familiar a todo o custo, mesmo que isso implique simular o rapto da esposa. Jean Lundegaard, a esposa de Jerry, não tem conhecimento do plano do marido, com Kristin Rudrüd a incutir um tom apagado e ingénuo a esta dona de casa que dedica boa parte do seu tempo ao esposo e ao filho. Se William H. Macy introduz um tom aparentemente confiável a Jerry, que aos poucos se desfaz quando este comete actos como planear o rapto da esposa, enganar clientes e efectuar uma fraude, já Harve Presnell não tem problemas em assumir com gosto a personalidade rude, arrogante e peculiar de Wade, um fã de hóquei no gelo, que despreza por completo o genro. Este desprezo de Wade em relação a Jerry torna-se latente quando o segundo propõe um negócio ao sogro, embora este último ironize com as pretensões megalómanas do genro. Jerry necessita de obter fundos quer para esconder uma fraude financeira que cometeu no local de trabalho, quer para efectuar um investimento num parque de estacionamento, com William H. Macy a interpretar um dos vários personagens peculiares que marcam a narrativa de "Fargo", um thriller neo-noir que contém elementos de comédia negra, com um rapto a trazer uma série de consequências imprevisíveis e a envolver uma miríade de figuras. Entre essas figuras encontram-se Carl Showalter (Steve Buscemi) e Gaear Grimsrud (Peter Stormare), os criminosos contratados por Jerry, com este último a dirigir-se inicialmente à cidade de Fargo, localizada na Dakota do Norte, tendo em vista a acertar os últimos pormenores relacionados com o rapto de Jean. Jerry entrega um carro a Carl e Gaear, nomeadamente, um Oldsmobile Cutlass Ciera, de 1987 (o ano em que decorre a narrativa), prometendo ainda pagar quarenta mil dólares aos raptores, ou seja, metade do preço do resgate. Diga-se que o protagonista pretende ainda enganar Carl e Gaear, com a dupla a não saber que o plano envolve uma verba muito mais elevada, ou o primeiro não salientasse ao sogro que os raptores pediram um milhão de dólares.

Carl e Gaear apresentam características bastante distintas mas igualmente ameaçadoras, com Steve Buscemi e Peter Stormare a conseguirem expor aquilo que une e separa estes dois criminosos. Steve Buscemi incute um estilo falador e extrovertido ao personagem que interpreta, com Carl a não conseguir estar em silêncio, mesmo quando promete o contrário, com o actor a aproveitar o bom argumento da autoria dos irmãos Coen para compor uma figura deveras peculiar. A agressividade de Gaear fica paradigmaticamente demonstrada quando este assassina um polícia e dois transeuntes que viram o crime a ser cometido, com Peter Stormare a não precisar de grandes diálogos para exibir a personalidade violenta e lacónica do personagem que interpreta. O assassinato ocorre numa estrada de Brainerd, com o cenário a encontrar-se coberto de neve, uma característica que permite exacerbar a violência e a tensão inerente ao triplo homicídio, enquanto Carl e Gaear demonstram paradigmaticamente que tanto apresentam características patéticas como perigosas, que o digam aqueles que se envolvem no seu caminho. Carl e Gaear envolvem-se com prostitutas, encontram-se numa casa isolada com a refém, deixam pistas pelos locais por onde circulam, enquanto aguardam ansiosamente pelo dinheiro, embora a relação profissional de ambos seja problemática. O próprio rapto é marcado pela falta de subtileza dos assaltantes, bem como por uma queda aparatosa e caricata, com o futuro de Jean a estar em jogo, embora Jerry apenas esteja preocupado é com o dinheiro que pode embolsar com esta jogada, enquanto o filho do protagonista teme pela vida da progenitora. Em paralelo com estes episódios, temos ainda a investigação que se encontra a ser protagonizada por Marge Gunderson (Frances McDormand), a chefe do departamento da polícia de Brainerd, o território onde ocorre o assassinato de um agente e de mais dois elementos às mãos de Carl e Gaear. Se Jerry, Carl e Gaear surgem como figuras que cedem ao desejo de dinheiro fácil, já Marge mantém os seus fortes valores morais intactos, com a polícia a apresentar um sentido de justiça e dever acima de qualquer suspeita. Marge trabalha em Brainerd, um espaço citadino relativamente pequeno, com esta representante das autoridades a parecer estar quase sempre à frente dos seus colegas no que diz respeito a reunir pistas. A personagem interpretada por Frances McDormand encontra-se grávida de Norm (John Carroll Lynch), o esposo, um indivíduo com pouco sucesso a nível profissional, com o casal a contar com uma relação pouco calorosa, marcada por alguma frieza de parte a parte na exposição dos sentimentos, bem como por alguns momentos de silêncio constrangedores, embora o casamento esteja bastante seguro. A intrujice de Jerry e a investigação de Marge acabam por se cruzar num determinado momento da narrativa, com esta mulher a surgir como uma figura intrépida, que se desloca a uma miríade de locais, enquanto procura encontrar os dois criminosos, qual detective dos filmes noir que se envolve numa investigação intrincada.

Marge não sabe inicialmente que a esposa de Jerry foi raptada, enquanto este procura que a polícia se afaste da sua loja de automóveis, algo que parece improvável, ou a dupla de criminosos não utilizasse um veículo com a matrícula do estabelecimento do protagonista. A representante das autoridades envolve-se numa série de peripécias, tais como encontrar um antigo colega de escola que apresenta problemas do foro psicológico, enquanto Frances McDormand brinda o espectador com uma interpretação notável. A actriz incute um tom simultaneamente simples e inteligente a esta polícia que enceta uma investigação com contornos caricatos e perigosos, com Marge a ser mais competente do que aparenta, enquanto Frances McDormand tem um desempenho muito recomendável quer nos trechos mais sérios, quer naqueles que contam com algum humor. Veja-se a dinâmica muito própria de Frances McDormand e John Carrol Lynch, com ambos a exacerbarem o estranho desconforto que a espaços parece pontuar a relação dos personagens que interpretam, ou a habilidade da primeira a incutir um tom deliciosamente peculiar às falas de Marge, sobretudo quando esta surpreende tudo e todos com aquilo que tem para dizer. Esse estilo muito próprio de Marge é visível quando esta resolve mudar repentinamente de assunto, trocando as voltas aos seus interlocutores e ao espectador. Veja-se quando Marge resolve perguntar se uma loja está aberta, tendo em vista a comprar minhocas para o esposo, ou pedir informações a um colega de trabalho sobre a localização de um restaurante barato, após um diálogo sobre a investigação. O argumento dos irmãos Coen é dotado de criatividade e um conjunto de diálogos que sobressaem com facilidade, enquanto a dupla aproveita para explorar sagazmente este universo narrativo dotado de figuras peculiares, situações bizarras e imensa violência. Essa criatividade dos Coen torna-se notória logo no início do filme, em particular, quando é salientado que "Fargo" aborda um caso verídico, algo que contrasta com os créditos finais onde é exposto que os personagens são ficcionais, com os realizadores e argumentistas a procurarem jogar com a percepção do espectador em relação aos episódios apresentados, enquanto realizam um filme neo-noir dotado de uma estrutura narrativa onde as tramas e as subtramas contam quase sempre com algum interesse, mesmo quando não se encontram directamente relacionadas com o caso do rapto. Os eventos que marcam o filme apresentam características rocambolescas que figurariam que nem uma luva num tablóide, com os irmãos Coen a explorarem sagazmente um universo narrativo onde a violência e o humor negro andam lado a lado e uma mala recheada de dinheiro se pode perder diante de um destino nem sempre agradável.

O dinheiro surge como um dos grandes estímulos de diversos personagens, seja Jerry ou a dupla de criminosos, algo que tolda muitas das vezes o discernimento dos mesmos. O próprio sogro de Jerry também apresenta um interesse indelével no dinheiro e no lucro fácil, algo latente quando descura inicialmente um negócio do genro que parece trazer água no bico, pelo menos até perceber que a proposta é rentável, embora não tenha problemas em tirar o protagonista da jogada. Esta miríade de personagens secundários, aliada à qualidade do argumento, permite que alguns intérpretes se destaquem ao longo do enredo de "Fargo", tais como John Carroll Lynch como o estranho esposo de Marge, um indivíduo que pouco comunica; Steve Park como Mike Yanagita, um antigo colega da protagonista, um tipo perturbado que é conhecido pela sua faceta de stalker; Shep Proudfoot (Steeve Reevis), um mecânico violento que forneceu o contacto de Grimsrud a Jerry, bem como os já mencionados Peter Stormare, Steve Buscemi e Harve Presnell. No entanto, William H. Macy e Frances McDormand são os principais destaques do elenco de "Fargo". Macy pela capacidade de explorar quer o lado mais maldoso de Jerry, quer a personalidade mais ingénua e idiota do protagonista, enquanto os elogios a McDormand já foram efectuados ao longo do texto embora mereçam sempre ser reforçados. McDormand transmite o sentido de dever da personagem que interpreta, bem como a personalidade muito própria desta representante das autoridades, com a actriz a apresentar ainda uma habilidade notável para controlar os timings dos momentos de humor, uma situação notória quer nas suas expressões, quer na forma como expõe os diálogos. Recheado de personagens peculiares, eventos rocambolescos, episódios dotados de alguma violência, algum humor negro e tensão, uma cinematografia aprimorada e uma banda sonora que contribui para incrementar a narrativa, "Fargo" surpreende, agarra a nossa atenção e delicia-nos, enquanto os irmãos Coen realizam uma das grandes obras cinematográficas da década de 90.

Título original: "Fargo". 
Título no Brasil: "Fargo - Uma Comédia de Erros".
Realizadores: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Harve Presnell, Peter Stormare.

02 agosto 2016

Resenha Crítica: "The Postman Always Rings Twice" (1946)

 A loira fatal, tão frágil e ao mesmo tempo tão sedutora. O tipo imoral, que é seduzido, tenta seduzir e deixa-se levar pelo destino e pela femme fatale, procurando despertar a atenção da mesma. As sombras que envolvem os cenários e as almas. O fumo dos cigarros que desaparece com tanta facilidade como a felicidade ou os valores morais de alguns personagens. A atmosfera de malaise. Os personagens de carácter ambíguo. O crime, as reviravoltas e as traições. A narração do protagonista na primeira pessoa a expor o seu estado de espírito. O desejo que se acerca da alma e parece inebriar os sentidos. Tudo isto está presente em "The Postman Always Rings Twice", uma obra cinematográfica realizada por Tay Garnett, tendo como base o livro homónimo da autoria de James M. Cain, com o cineasta a brindar o espectador com um filme noir magnífico que conta com diversas características deste subgénero, algo assinalado nos exemplos mencionados no início do texto. O destino dos personagens principais não é o melhor, nem esperaríamos outra coisa, ou estes não se envolvessem por caminhos labirínticos onde a imoralidade e o medo começam a consumir as suas almas. A cinematografia é sublime, bem como a banda sonora e até o guarda-roupa, com a personagem interpretada por Lana Turner a tanto surgir com vestes brancas que lhe dão um falso ar de loira angelical como aparece de vestimentas negras no último terço, algo que praticamente nos leva a conseguir prever o seu destino e o seu estado de alma. Tay Garnett seduz-nos para o interior deste universo narrativo negro, consegue que partilhemos a imoralidade da sua dupla de protagonistas e os seus medos, faz com que sejamos seduzidos por Lana Turner e compelidos a acreditar que a personagem que esta interpreta também foi seduzida. Turner dá vida a Cora Smith, a femme fatale, uma mulher que se encontra presa a um casamento sem amor com Nick (Cecil Kellaway), um indivíduo mais velho do que a protagonista. Nick sabia que esta não se encontrava apaixonada, embora essa situação não o tenha impedido de contrair matrimónio com a loira sensual, misteriosa e ambiciosa. É fácil perceber as razões para Cora conseguir encantar Nick, com Lana Turner a atribuir características de femme fatale à personagem que interpreta. O seu olhar é hipnotizador e magnético. A sua beleza é visível ao olhar da maioria dos homens, com as suas vestes a contribuírem para adensar todo o encanto que desperta nas figuras masculinas. Inicialmente surge de roupas brancas (o que não deixe de ser irónico, já que transmite uma falsa ideia de pureza), mais tarde estará de luto, com as tonalidades negras a surgirem como um indicador que permite prever o destino de Cora. Se esta é uma mulher sem grandes escrúpulos, já Nick, o seu esposo, é um indivíduo de personalidade afável, algo castiço, beberrão, sempre pronto a cortar nas despesas a não ser que estas sejam para o bem estar de Cora. Nick é um indivíduo pouco ambicioso, que evita arriscar nos seus negócios, um restaurante e um posto de gasolina, embora a contratação de Frank Chambers (John Garfield) traga toda uma dose de intrigas e traições para o seio da sua habitação, um espaço situado no interior do local de trabalho. O personagem interpretado por John Garfield é um indivíduo sem grandes objectivos de vida, que anda de local em local, sem se estabelecer muito tempo num emprego, pelo menos até se deparar com Cora.

 Frank não encara o anúncio de emprego do restaurante de Nick com seriedade, pese a simpatia do dono do estabelecimento. No entanto, quando observa um rolo de batom a ir em sua direcção, Frank logo olha com atenção para o local de onde surgiu este objecto. A câmara aproxima-se das pernas de Cora, a face de espanto de Frank é exposta, até a personagem interpretada por Lana Turner ser exibida pela primeira vez em corpo inteiro. Deslumbra o protagonista e o espectador, preparando-se para fazer com que o primeiro fique com "a cabeça à roda". A banda sonora, o trabalho de montagem e a cinematografia contribuem para incrementar este momento de enorme impacto onde Cora e Frank evidenciam ter sentido uma atracção mútua. Cora surge com uma touca ou toalha a tapar os seus belos e cuidados cabelos loiros, uma camisola atada que lhe permite ter a barriga destapada e uns calções deveras curtinhos. Frank pega no rolo do batom e entrega a Cora. A iluminação proveniente dos estores não engana, Frank já está preso a esta mulher e ainda nem sabe da "missa a metade". A loira vai dar a volta à cabeça deste indivíduo, enquanto o personagem interpretado por John Garfield também procura seduzi-la, com ambos a parecerem "farinha do mesmo saco", protagonizando um perigoso jogo de sedução onde é notório que não conseguem ficar indiferentes à presença um do outro. O close-up no rosto de Lana Turner, no momento em que Cora se depara com Frank pela primeira vez, permite transmitir imenso sobre esta personagem que tanto tem de frágil como de sedutora e maliciosa, com a actriz a ter uma interpretação sublime como esta mulher que decide tomar medidas drásticas para se livrar do marido. A dinâmica entre John Garfield e Lana Turner é assinalável (consta que na vida real também tiveram um affair), com ambos a contribuírem para nos convencerem em relação à atracção mútua que é sentida pelos personagens que interpretam, duas figuras hábeis na arte da sedução e dissimulação. John Garfield atribui um estilo meio durão a Frank, típico dos protagonistas dos filmes noir, embora, tal como estes, seja facilmente seduzido pela femme fatale, apesar de também procurar despertar o interesse desta. A relação entre Cora e Frank mescla o mais puro dos venenos com o mais fervilhante dos desejos, com os instintos primitivos a parecerem levar muitas das vezes a melhor sobre a racionalidade, com o argumento de Harry Ruskin e Niven Busch (marcado por falas típicas dos noir) a explorar esta situação de forma exímia. Cora procura desprezar Frank, embora não consiga ficar indiferente em relação a este indivíduo. Frank procura inicialmente controlar-se, embora o esforço não seja muito, surgindo como um indivíduo bem falante, capaz de vender facilmente a "banha da cobra", roubando um beijo a Cora pouco tempo depois de a conhecer. No meio destes dois surge Nick, o esposo de Cora e dono deste restaurante e gasolineira, um indivíduo que sabe que a esposa contraiu matrimónio devido a interesse, embora procure zelar pelo bem estar desta. Cecil Kellaway consegue fazer com que Nick desperte a nossa simpatia, com o actor a contar com uma interpretação eficaz como este indivíduo demasiado compreensivo, embora o intérprete seja quase sempre abafado pelas chamas emanadas por John Garfield e Lana Turner, com a dupla a incendiar o ecrã como este casal explosivo. Ele é impulsivo, decidido e não conta com grandes objectivos profissionais, com o seu maior plano para o imediato a passar sobretudo por conseguir conquistar Cora. Ela é ambiciosa, quer mandar no restaurante e ser a dona do mesmo, embora também ceda ao desejo, apesar de não ter problemas em travar uma fuga por não querer viver na incerteza. Quando estão na praia, durante a noite, Frank e Cora parecem soltar alguns dos seus sentimentos, com o regresso a casa a ser marcado por mais um beijo e a certeza que o interesse é mútuo. O avançar da relação entre Frank e Cora conduz a que esta resolva pensar num plano para eliminar o esposo, uma situação que promete trazer problemas a ambos os personagens, com as consequências deste acto a incitar uma divisão entre o casal adúltero.

Não vão faltar ainda elementos de filme de tribunal a "The Postman Always Rings Twice", algo que permite a personagens como Kyle Sackett (Leon Ames), o promotor do Ministério Público, e Arthur Keats (Hume Cronyn), o advogado de Cora, sobressaírem. Sackett é um indivíduo aparentemente sagaz e duro, que suspeita dos protagonistas desde a primeira tentativa, ainda que falhada, de assassinato a Nick. Keats é um advogado que se insere na perfeição no meio da imoralidade que rodeia o enredo, com Hume Cronyn a conceder a este personagem uma safadeza típica de alguém que é inteligente o suficiente para saber as leis ao pormenor para contornar as mesmas e utilizá-las com a minúcia de um jogador de xadrez. Tay Garnett explora este universo narrativo negro com enorme minúcia e atenção aos pormenores. Desde o desenvolvimento da tensão sexual entre Frank e Cora, passando pela inquietação em volta da tentativa de assassinato, até ao último terço onde a atmosfera de malaise toma conta de todos os poros do filme, tudo parece funcionar, com o cineasta a alicerçar-se ainda no magnífico trabalho de Sidney Wagner na cinematografia. Os close-ups são aproveitados e arquitectados de forma exímia, o jogo entre luz e sombras é utilizado com enorme simbolismo e sapiência, com tudo a parecer funcionar de forma imaculada ao longo desta obra cinematográfica onde o destino tem um papel importante e os actos dos seres humanos nem sempre são os mais recomendáveis. A atmosfera é muitas das vezes tensa, tal como o jogo de sedução entre Frank e Cora, com John Garfield e Lana Turner a atribuírem credibilidade aos actos dos personagens que interpretam, com esta jogatana com os sentimentos a desembocar numa teia de crimes e mentiras. Frank passa a viver na casa de Cora e Nick, situada no interior do restaurante, parecendo formar amizade com este último embora esteja é interessado na esposa do seu patrão. A espaços a relação entre Frank e Cora traz à memória o enredo de "Double Indemnity" (também inspirado num livro de James M. Cain), onde a protagonista também procurou convencer Walter Neff (Fred MacMurray), o amante, a eliminar o esposo, numa obra onde também não faltam traições, a femme fatale, a utilização do chiaroscuro, entre outros elementos associados aos noir. A tensão também faz parte da narrativa de "The Postman Always Rings Twice", seja devido à preparação de um assassinato, ou à atmosfera associada a um julgamento, ou inerente a um gato que sobe umas escadas no pior dos momentos, com Tay Garnett a conseguir inquietar-nos em alguns trechos desta magnífica obra cinematográfica. Com um enredo tão sedutor como a personagem interpretada por Lana Turner, "The Postman Always Rings Twice" prende-nos a este universo narrativo negro, marcado por mentiras, traições, mortes, actos imorais, sedução e uma atmosfera de malaise tão típica deste subgénero, com Tay Garnett a realizar um dos bons exemplares do mesmo.

Título original: "The Postman Always Rings Twice".
Título em Portugal: "O Destino Bate à Porta".
Realizador: Tay Garnett.
Argumento: Harry Ruskin e Niven Busch.
Elenco: Lana Turner, John Garfield, Cecil Kellaway, Hume Cronyn.

01 agosto 2016

Resenha Crítica: "The Man Who Wasn't There" (O Barbeiro)

 Quase sempre acompanhado pelo seu cigarro, pouco dado a grandes diálogos ou demonstrações de afecto, Ed Crane (Billy Bob Thornton), o protagonista de "The Man Who Wasn't There" é um barbeiro lacónico e fumador, que trabalha para Frank (Michael Badalucco), o seu cunhado, um indivíduo que fala pelos cotovelos. A barbearia onde Frank e Ed trabalham é um espaço de proporções relativamente diminutas, embora seja frequentada por uma miríade de clientes, com o segundo a demonstrar logo no início do filme que domina o seu ofício de forma quase mecânica e impecável. Veja-se quando Ed exibe os cortes de cabelo mais pedidos pelos clientes, num momento que tanto tem de cómico como de deprimente, ou o protagonista não contasse com um quotidiano aparentemente desprovido de interesse. Ed é casado com Doris (Frances McDormand), a contabilista da Nirdlingers, uma loja que vende perfumes, meias, maquilhagem, bem como outros produtos do género, com o matrimónio deste casal a ser marcado por alguma frieza e poucas demonstrações de afecto. Essa frieza é visível quando Ed descreve alguns episódios do dia-a-dia com a esposa, com a relação entre ambos a ser marcada sobretudo pela comodidade e pelo facto dos cônjuges não se chatearem muito um com o outro. Doris mantém um affair com Dave Brewster (James Gandolfini), o seu chefe, um indivíduo que é casado com Ann Nirdlinger Brewster (Katherine Borowitz), uma figura feminina relativamente apática, que não desconfia que se encontra a ser traída e acredita na existência de extraterrestres. Se Ed é um indivíduo lacónico e aparentemente passivo, já Dave aparece como uma figura completamente dicotómica do barbeiro, com James Gandolfini a compor um personagem extrovertido e gabarola, que gosta de contar piadas e dialogar sobre o seu passado como militar. A loja de Dave pertence a Ann, com o primeiro e Doris a procurarem esconder o affair de tudo e todos, embora Ed descubra a traição, algo que expõe junto do espectador, apesar de inicialmente não efectuar nada para resolver o caso. Billy Bob Thornton incute um estilo letárgico a Ed (algo que consegue expor nas suas expressões faciais, bem como na forma de dialogar), o protagonista e narrador de serviço de "The Man Who Wasn't There", com o actor a interpretar um personagem aparentemente pouco dado a aventuras, pelo menos até aparecer um cliente com uma proposta que parece simultaneamente disparatada e sedutora. O cliente é Creighton Tolliver (Jon Polito), um empresário bastante falador, que procura convencer alguém a investir dez mil dólares num negócio relacionado com a lavagem a seco. Tolliver pretende constituir uma sociedade para abrir uma lavandaria especializada na lavagem a seco, considerando que este negócio é o futuro, enquanto Ed ouve a proposta com alguma atenção, embora inicialmente encare a mesma como uma tentativa de venda da banha da cobra. No entanto, Ed decide arriscar e compromete-se a investir os dez mil dólares, com o protagonista a encetar um plano rocambolesco para obter essa quantia. Ed envia uma carta anónima a Dave, tendo em vista a tentar extorquir este último, ameaçando revelar a Ann que o empresário mantém um affair com Doris. Dave fica desesperado e acaba por ceder a quantia, enquanto Ed pensa ter efectuado o plano aparentemente perfeito, com o protagonista a revelar um apreço pela obtenção de dinheiro fácil que é muito típico dos filmes dos irmãos Coen.

"The Man Who Wasn't There" conta com diversos ingredientes dos filmes noir e de conspiração, bem como de thrillers, com os irmãos Coen utilizarem esses componentes de forma muito própria, com a obra cinematográfica em análise a possuir vários elementos transversais aos trabalhos da dupla. Não faltam as traições, a busca pelo dinheiro fácil, um argumento aprumado, a violência, o narrador a expor alguns dos acontecimentos ou o seu estado de espírito em voice-over (de forma bastante pormenorizada), a utilização exímia da banda sonora (novamente a cargo de Carter Burwell), os apelidos estranhos, o destino a imiscuir-se de forma inexorável no quotidiano dos personagens, o estilo de humor muito peculiar, a atenção aos pormenores, um protagonista aparentemente comum que se envolve em situações intrincadas, entre outros exemplos. Temos ainda a procura dos irmãos Coen em abordarem situações muito específicas de territórios e gentes dos EUA, com "The Man Who Wasn't There" a desenrolar-se em 1949, na cidade de Santa Rosa na Califórnia, com a dupla a abordar alguns elementos inerentes a este período (não falta inclusive uma menção ao facto dos russos terem explodido uma bomba nuclear), bem como das obras cinematográficas lançadas nesta década e na seguinte. Veja-se o guarda-roupa de Doris, ou os cigarros utilizados por Ed (Chesterfield, como se fossem da época), ou a decoração da habitação do casal, com Joel e Ethan Coen a exibirem todo um cuidado na representação da época. Diga-se que existe todo um cuidado colocado na decoração dos cenários interiores, com a barbearia onde Ed e Frank trabalham a ser um exemplo paradigmático dessa situação. Este é um espaço que conta com jornais e revistas, diversas cadeiras para os clientes se sentarem enquanto esperam, dois espelhos, imensos pincéis, pentes, tesouras, ventoinhas, algo que atribui credibilidade ao local de trabalho de Ed e ao seu quotidiano a cortar o cabelo de estranhos. Ed tenta manter uma distância notória dos clientes, enquanto Frank apresenta sempre um estilo falador, com ambos a contarem com estilos antagónicos a exercerem o seu ofício no interior desta barbearia, com os irmãos Coen a concederem um tom credível aos episódios protagonizados neste espaço. Não faltam ainda alguns momentos de humor no interior da barbearia, algo notório quando Ed tenta cortar o cabelo de Tolliver, enquanto este último não pára quieto, dialogando de forma demasiado entusiasmada, algo que parece desagradar ao protagonista (as expressões que Billy Bob Thornton incute ao barbeiro conduzem a que muitas das vezes apenas nos apercebamos do estado de espírito do protagonista quando este aborda as situações em voice-over). Quase todos os personagens de "The Man Who Wasn´t There" parecem contar com um gostinho especial para dialogar, algo que a espaços irrita Ed, com Billy Bob Thornton a interpretar um indivíduo preciso e conciso na hora de falar, que traz à memória os protagonistas dos filmes noir. A influência dos filmes noir é latente, algo que vai desde a utilização exímia do chiaroscuro, a fotografia a preto e branco, a escolha de ângulos inusitados e a narração em off por parte do personagem principal, passando pelas figuras de carácter ambíguo e fumadoras, até à personalidade do protagonista e à atmosfera de malaise. Fumador, lacónico, moralmente ambíguo, com uma relação complicada com as mulheres e propenso a envolver-se em confusões, Ed permite que Billy Bob Thornton sobressaia no interior desta narrativa povoada por uma miríade de personagens, com o actor a deixar transparecer o estilo letárgico do elemento que interpreta, enquanto expõe as falas com uma subtileza latente. Veja-se quando encontramos Ed a apresentar uma calma surpreendente quando escuta Dave a evidenciar a sua preocupação devido ao facto de alguém pretender extorqui-lo, com o empresário a desconfiar de Tolliver, um indivíduo que outrora contactara o personagem interpretado por James Gandolfini, ou a impassibilidade do protagonista perante as notícias menos agradáveis sobre a sua esposa. Frances McDormand, uma colaboradora habitual dos irmãos Coen (esposa de Joel Coen), insere-se praticamente na perfeição no interior dos universos narrativos criados pela dupla, com a actriz a incutir um estilo aparentemente distante a esta personagem que mantém um affair com o seu chefe e conta com problemas relacionados com o consumo excessivo de álcool. Doris aprecia jogar bingo, um hobbie que pratica com regularidade, contando muitas das vezes com a companhia de Ed, embora este não seja um entusiasta do jogo, com o casal a raramente parecer estar em sintonia.

A personagem interpretada por Frances McDormand sempre foi bastante meticulosa no cumprimento do seu trabalho, embora um pedido de Dave conduza Doris a contribuir para um desfalque na firma, com este acto a trazer consequências intrincadas para esta mulher, sobretudo quando ocorre um assassinato. A narrativa de "The Man Who Wasn't There" sofre uma série de reviravoltas, com os irmãos Coen a aproveitarem essa situação para surpreenderem o espectador em relação ao rumo do enredo e introduzirem uma série de personagens secundários que têm oportunidade para se evidenciarem ao longo do filme. Veja-se o caso de Rachel (Scarlett Johansson), uma adolescente com algum talento para tocar piano, que surge como uma espécie de "Lolita" que desperta a atenção do protagonista. Scarlett Johansson incute um tom aparentemente ingénuo à personagem que interpreta, enquanto Ed parece ter sentimentos ambíguos em relação a esta jovem. Diga-se que algumas das poucas demonstrações de entusiasmo de Ed acontecem quando o barbeiro se encontra junto desta jovem, uma situação que percebemos de forma paradigmática quando este resolve transportar Rachel para ser avaliada por um conceituado professor de piano. Ed aprecia ouvir a jovem a tocar piano, em particular, as sonatas de Beethoven, com as músicas tocadas neste instrumento musical a pontuarem por diversas vezes o enredo de "The Man Who Wasn't There". Rachel é filha de Walter Abundas (Richard Jenkins), um indivíduo de personalidade calma, que é amigo de Ed. Walter aconselha o barbeiro a procurar um bom advogado para que o protagonista prepare a defesa de uma personagem relevante, algo que proporciona mais um momento mordaz por parte dos irmãos Coen, com Ed a seleccionar um elemento disposto a quase tudo para vencer. O advogado seleccionado é Freddy Riedenschneider (Tony Shalhoub), um profissional conhecido por receber honorários elevados e contar com uma conduta nem sempre recomendável, com Tony Shalhoub a incutir um tom excessivamente confiante e arrogante a este personagem. Diga-se que quase todos os personagens de "The Man Who Wasn't There" não apresentam problemas em dialogar, com excepção do protagonista, algo que é aproveitado pelos irmãos Coen, com estes a explorarem o contraste entre Ed e as figuras que o rodeiam. Veja-se quando Creighton Tolliver procura insinuar-se sexualmente junto de Ed, com este último a apresentar um tom completamente lacónico, mantendo a mesma expressão durante algum tempo, até salientar que o primeiro ultrapassou as marcas. Os timings dos momentos de humor são bem geridos, com um diálogo demasiado pormenorizado, ou a atenção a situações extremamente específicas (os penteados expostos em série, a roda de um carro a girar, a câmara "presa" ao protagonista durante uns segundos para expor o seu desconforto), ou a interacção entre os personagens, a contribuírem para alguns trechos mais leves, com os irmãos Coen a controlarem estas situações de forma exímia. A dupla de realizadores e argumentistas demonstra também uma atenção notória aos pormenores, seja Ed a depilar a esposa, ou o cabelo a ser cortado quando um cliente se mexe em demasia, ou o estilo simpático mas fanfarrão de Dave, ou a infantilidade de Frank, com os detalhes a ganharem uma relevância enorme no interior da narrativa, contribuindo e muito para atribuir dimensão e características muito específicas a diversos personagens.

 Um dos personagens secundários que conta com características muito próprias é Riedenschneider, um advogado que divaga com facilidade, aprecia boa comida e gosta de desfrutar de certos luxos, com Tony Shalhoub a ter espaço para sobressair ao longo de momentos muito específicos do filme. Por sua vez, Michael Badalucco incute um estilo simultaneamente bem intencionado e infantil a Frank, com o actor a transmitir a personalidade extrovertida deste personagem que tanto é capaz de montar um porco e participar num concurso de comida de tartes que decorre numa festa familiar como demonstra um espírito de sacrifício enorme para ajudar Doris, a sua irmã. Outro dos elementos do elenco secundário que tem espaço para sobressair é Jon Polito como um empresário que coloca o capachinho quando é necessário falar de negócios, que procura um sócio "silencioso", ou seja, que invista o dinheiro e não se imiscua em demasia na empresa, com o actor a incutir um tom pouco confiável a este personagem que fala imenso e outrora tentou fazer negócios com Dave. Não podemos ainda deixar de realçar Katherine Borowitz, com a actriz a interpretar uma figura paranóica em relação à presença dos extraterrestres e às teorias da conspiração sobre os mesmos, com estes elementos ligados ao paranormal a marcarem alguns trechos da narrativa, algo que contribui para conceder um tom meio surreal a determinados momentos de "The Man Who Wasn't There". No final, o grande destaque vai para Billy Bob Thornton, com o actor a imprimir um estilo fatalista ao personagem que interpreta, um barbeiro pouco falador, moralmente ambíguo, que se envolve em situações deveras intrincadas e tem de lidar com uma série de reviravoltas na sua vida. Ao longo do filme, o fumo dos cigarros tragados por Ed parece contaminar os cenários e os estados de alma. O fumo emanado pelos cigarros remete para a fugacidade da vida de diversos personagens, bem como para o quotidiano aparentemente banal do protagonista, enquanto "The Man Who Whasn't There" surge como um exemplo paradigmático da criatividade dos Coen, com estes a conseguirem mesclar assertivamente vários elementos de diversos géneros e subgéneros cinematográficos e reuni-los num filme com um tom que muito tem da dupla.

Título original: "The Man Who Wasn't There".
Título em Portugal: "O Barbeiro".
Título no Brasil: "O Homem que Não Estava Lá".
Realizador: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, James Gandolfini, Jon Polito, Michael Badalucco, Tony Shalhoub, Scarlett Johansson, Katherine Borowitz, Richard Jenkins.

Quatro críticas mais lidas - Julho de 2016

1º - Resenha Crítica: "Equals" (Iguais)














2º - Resenha Crítica: "Deadpool" (2016)














3º - Resenha Crítica: "Demolition" (2015)














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