18 julho 2016

Dois novos trailers e poster do remake de "The Magnificent Seven" (Os Sete Magníficos)

 Foram divulgados dois novos trailers e um novo poster do "The Magnificent Seven" (Os Sete Magníficos), o remake do icónico western de 1960 (por sua vez, um remake do filme "Seven Samurai" de Akira Kurosawa). Poster via IMP Awards.

O remake de "The Magnificent Seven" é realizado por Antoine Fuqua, através do argumento de Nic Pizzolatto e Richard Wenk. O filme conta no elenco com Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vincent D'Onofrio, Haley Bennett, Manuel Garcia-Rulfo, Byung-hun Lee, Peter Sarsgaard, Vinnie Jones, Matt Bomer, entre outros.

Sinopse: Com a cidade de Rose Creek sob o cruel domínio do industrial Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard), a população desesperada contrata a protecção de sete marginais, caçadores de prémios, jogadores e pistoleiros a soldo: Sam Chisolm (Denzel Washington), Josh Faraday (Chris Pratt), Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke), Jack Horne (Vincent D'Onofrio), Billy Rocks (Byung-Hun Lee), Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo) e Red Harvest (Martin Sensmeier). Enquanto preparam a cidade para o confronto violento que sabem estar a aproximar-se, os sete mercenários acabam a lutar por mais do que apenas dinheiro.

"The Magnificent Seven" (Os Sete Magníficos) estreia em Portugal a 22 de Setembro de 2016.






Adèle Haenel no trailer de "La fille inconnue", o novo filme de Jean-Pierre e Luc Dardenne

 Foi divulgado um trailer de "La fille inconnue", um filme protagonizado pela nossa mui adorada Adèle Haenel e realizado por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. O filme conta no elenco com Adèle Haenel, Jérémie Renier, Thomas Doret, Olivier Bonnaud, entre outros.

 O enredo de "La fille inconnue" centra-se em Jenny (Adèle Haenel), uma médica que trabalha numa clínica. Jenny fica claramente abalada quando recebe a notícia do falecimento de uma jovem que tentou ser atendida na clínica, embora a desconhecida não tenha alcançado esse desiderato devido ao facto de ter chegado após o horário de encerramento. A curiosidade conduz Jenny a iniciar uma investigação, tendo em vista a descobrir a identidade da falecida.

 O filme é distribuído em Portugal pela Leopardo Filmes. "La fille inconnue" ainda não tem uma data de estreia definida em Portugal.


Novo trailer e poster de "The Girl on the Train"

 Foi divulgado um novo trailer e um novo poster da adaptação cinematográfica do livro "The Girl on the Train". O filme é realizado por Tate Taylor, através do argumento de Erin Cressida Wilson. "The Girl on the Train" conta no elenco com Rebecca Ferguson, Emily Blunt, Luke Evans, Laura Prepon, Haley Bennett, Justin Theroux, Lisa Kudrow, Édgar Ramírez, entre outros. Poster via IMP Awards.
 
"The Girl on the Train" foi escrito por Paula Hawkins, tendo sido publicado em Portugal com o título "A Rapariga no Comboio". O livro tem a seguinte sinopse (via Wook): Todos os dias, Rachel apanha o comboio... No caminho para o trabalho, ela observa sempre as mesmas casas durante a sua viagem. Numa das casas ela observa sempre o mesmo casal, ao qual ela atribui nomes e vidas imaginárias. Aos olhos de Rachel, o casal tem uma vida perfeita, quase igual à que ela perdeu recentemente. Até que um dia...
 Rachel assiste a algo errado com o casal... É uma imagem rápida, mas suficiente para a deixar perturbada.
 Não querendo guardar segredo do que viu, Rachel fala com a polícia. A partir daqui, ela torna-se parte integrante de uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, afetando as vidas de todos os envolvidos.

"The Girl on the Train" estreia a 7 de Outubro de 2016 nos EUA.

17 julho 2016

Resenha Crítica: "La Piscine" (A Piscina)

 Filme dotado de algum erotismo e sensualidade, que nos hipnotiza para o interior do seu universo narrativo quente e envolvente, onde os sentimentos tanto se encontram à flor da pele como se apresentam escondidos nos recantos mais profundos da alma, "La Piscine" surge como um drama pontuado por elementos de thriller e romance, que nos brinda com interpretações bastante recomendáveis de elementos como Alain Delon, Romy Schneider, Maurice Ronet e Jane Birkin. O desejo de cariz sexual está sempre muito presente, bem como algumas dúvidas e a sensação de que a atmosfera aparentemente pacífica que envolve os personagens principais se pode quebrar a qualquer momento. A tempestade parece estar a aproximar-se, não a nível da temperatura, mas sim no plano dos sentimentos, com Jacques Deray, o realizador, a controlar assertivamente os ritmos da narrativa, enquanto nos dá a conhecer os personagens principais que povoam este enredo apelativo e envolvente. Alain Delon interpreta Jean-Paul, um escritor falhado, ex-alcoólico, que desistiu temporariamente da escrita para trabalhar no ramo publicitário, encontrando-se envolvido com Marianne (Romy Schneider). Esta é uma mulher de enorme beleza e elegância, que se encontra temporariamente sem trabalhar, embora tenha talento para a escrita. Jean-Paul e Marianne encontram-se a desfrutar de um mês de férias numa villa situada na Côte d'Azur, com esta habitação, dotada de enormes luxos no seu interior e no seu exterior, a pertencer a um casal de amigos dos personagens interpretados por Alain Delon e Romy Schneider. A química entre Alain Delon e Romy Schneider é latente, com Jacques Deray a aproveitar a mesma para reforçar o calor sexual e sentimental que envolve o relacionamento da dupla de protagonistas. Schneider e Delon mantiveram uma relação na vida real (entre 1958 e 1963, enquanto que o filme foi lançado em 1969), algo que pode ajudar a explicar a dinâmica convincente entre a dupla de protagonistas ao longo de "La Piscine", com o actor e a actriz a elevarem e muito os personagens a quem dão vida. A relação deste casal é marcada por algumas dúvidas e um enorme apetite de cariz sexual, com ambos os elementos a parecerem desejar-se e amar-se, embora mantenham alguns sentimentos em segredo, algo que promete ser problemático, sobretudo quando recebem a visita de Harry (Maurice Ronet), um ex-namorado de Marianne e amigo de Jean-Paul. A chegada de Harry promete mudar por completo o quotidiano do casal, com os ciúmes de Jean-Paul a ficarem implícitos, bem como o desejo de Harry em relação a Marianne, enquanto esta última é um mistério. É certo que Marianne parece querer manter um namoro sério com Jean-Paul, embora exiba uma enorme felicidade devido à presença do personagem interpretado por Maurice Ronet, algo que desperta os ciúmes do antigo escritor. Harry chega acompanhado de um bólide topo de gama e da sua filha, a jovem Pénélope (Jane Birkin), uma figura feminina que promete mexer com as rotinas do casal.

 A personagem interpretada por Jane Birkin apresenta uma postura inicialmente observadora e misteriosa, com a jovem de dezoito anos de idade a dialogar pouco, encontrando-se relativamente afastada do pai. Pénélope desperta a curiosidade de Jean-Paul, com os olhares de Alain Delon a não enganarem que o personagem que interpreta parece ter ficado agradavelmente surpreendido com o aspecto físico da filha do amigo. Por sua vez, a jovem apresenta uma postura inicialmente misteriosa e sedutora, enquanto Harry tenta manter o diálogo em dia com a ex-namorada e exibir que ainda parece desejá-la. Marianne pouco ou nada falou com Jean-Paul sobre o namoro que manteve com Harry, algo que apoquenta o segundo, com a chegada do personagem interpretado por Maurice Ronet a mexer com um relacionamento que é bem mais frágil do que aparenta nos momentos iniciais de "La Piscine". Harry é um produtor musical de sucesso, que mantém uma vasta rede de amigos e uma enorme apetência para seduzir as figuras femininas, existindo quase sempre uma enorme tensão sexual entre este e Marianne. O desejo parece toldar muitas das vezes os pensamentos destes personagens, bem como os sentimentos mais obscuros, com tudo e todos a não parecerem abrir o jogo todo logo de início. O calor invade os sentimentos e os cenários, com o guarda-roupa dos personagens a evidenciar que estamos diante de um espaço pontuado pela temperatura elevada, com quase todos os elementos do quarteto de protagonistas a aparecerem com vestimentas leves ou em trajes próprios para irem para a piscina, ou para desfrutarem de longos banhos de Sol. O cuidado na escolha do guarda-roupa dos personagens é latente, bem como o aproveitamento do cenário da villa ao serviço da narrativa, com Jacques Deray e a sua equipa a contribuírem para que "La Piscine" surja como uma obra cinematográfica marcante e sedutora. Jacques Deray concede ainda uma enorme relevância aos gestos e aos olhares dos protagonistas, algo que ajuda a explicar as tensões que começam a surgir, sobretudo a partir do momento em que Jean-Paul começa a demonstrar algum interesse em Pénélope. Jane Birkin incute uma faceta misteriosa à personagem a quem dá vida, uma figura feminina que parece constantemente entediada, que conta com um enorme poder de sedução e um desprezo notório pelo progenitor, um elemento que apenas conheceu numa fase mais adiantada da sua vida. Diga-se que Pénélope chega a colocar a nu as figuras patéticas de Harry, um indivíduo bem-falante, que parece gostar de ser o centro das atenções. Veja-se a festa-surpresa que Harry organiza, enchendo a casa onde Marianne e Jean-Paul se encontram a desfrutar das férias de Verão, algo que não parece agradar a este último. A festa permite exibir a tensão sexual que existe entre Harry e Marianne, bem como entre Jean-Paul e Pénélope, com o período de férias destes personagens a conhecer ainda um episódio negro, ou não ocorresse um assassinato que vai afectar o quotidiano de diversos elementos. O assassinato ocorre na piscina da villa, um dos cenários primordiais de "La Piscine". Diga-se que o título do filme remete exactamente para este espaço onde decorrem episódios tão distintos como um momento mais quente entre Marianne e Jean-Paul, ou uma morte após uma discussão intensa.

 Jean-Paul gosta de desfrutar de longos momentos na piscina, bem como de apanhar banhos de Sol, com este indivíduo a parecer preso a um quotidiano repetitivo, dotado de muitos luxos, embora estas mordomias não pareçam estimular o protagonista. A representação do quotidiano destes personagens permite expor o desafogo financeiro do quarteto, com tudo e todos a parecerem não ter grandes problemas neste quesito, sobretudo Harry, com o produtor musical a procurar exibir o seu novo bólide, enquanto planeia um conjunto de viagens para fazer com a filha. Inicialmente não sabemos se este percebe que está a nascer algo mais entre Pénélope e Jean-Paul, embora demonstre gradualmente as suas suspeitas, com a narrativa de "La Piscine" a seguir um rumo onde parece certo que mais cedo ou mais tarde vão surgir alguns conflitos. Jacques Deray mescla assertivamente elementos de drama, romance e thriller, com algumas pitadas de erotismo pelo meio, enquanto aproveita o talento do quarteto de protagonistas. Todos interpretam personagens que parecem incapazes de se sentirem totalmente satisfeitos ou completos em relação à vida, sobretudo Jean-Paul, com a relação entre este e Marianne a estar longe de apresentar uma solidez a toda a prova. Alain Delon sobressai como Jean-Paul, um indivíduo lacónico, com o actor a conseguir transmitir imenso apenas com o seu olhar, enquanto interpreta um escritor falhado que pretende sempre aquilo que não pode alcançar, seja o sucesso na escrita, ou uma relação proibida com a filha de um suposto amigo. Jean-Paul parece encontrar-se numa fase pouco estimulante da sua vida, desfrutando de um período de férias num local luxuoso, embora praticamente não saia da habitação e da piscina, com Pénélope a parecer apimentar, ainda que temporariamente, a existência deste indivíduo. Alain Delon consegue destacar-se ainda nos momentos mais soturnos, com um episódio na piscina a prometer colocar o quotidiano de Jean-Paul e Marianne a fervilhar. Romy Schneider é capaz de transmitir a sensualidade e fragilidade da personagem que interpreta, uma mulher aparentemente confiante, que parece balancear entre Jean-Paul e Harry, embora goste do namorado, acabando por se deparar com uma situação intrincada no último terço do enredo. Vale ainda a pena realçar Maurice Ronet como um produtor musical falador, que gosta de obter a atenção daqueles que o rodeiam, embora se prepare para entrar em choque com Jean-Paul, um antigo amigo do qual se afastou a partir do momento em que este se envolveu com Marianne. Veja-se o jantar organizado por Marianne e Harry, um momento antecedido por episódios de alguma cumplicidade entre estes dois personagens, embora a chegada de Pénélope e Jean-Paul, bastante tempo depois da refeição ter sido confeccionada, após terem ido passear e nadar na praia, prometa tornar toda esta situação ainda mais desconfortável. A cinematografia contribui para exacerbar o desconforto em volta deste jantar, com os planos que colocam o quarteto em conjunto a exporem que os silêncios e os diálogos de circunstância podem ser mais incómodos do que a franqueza na exposição dos sentimentos. Diga-se que o trabalho de câmara permite ainda adensar os momentos mais tórridos entre os personagens, enquanto os encontramos em diversas situações de sedução, com a narrativa de "La Piscine" a contar com alguns trechos pontuados pelo erotismo e pela sensualidade.

 O último terço de "La Piscine" ganha um carácter mais negro, com os dias solarengos de Verão a não conseguirem contaminar as almas de sentimentos mais apolíneos, sobretudo quando ocorre um assassinato disfarçado de morte acidental e uma investigação protagonizada por Lévêque (Paul Crauchet), um inspector desconfiado e perspicaz, que percebe que "a bota não joga com a perdigota" no que diz respeito ao suposto acidente mortal. O argumento, sempre assertivo, contribui para o desenvolvimento das personalidades e das dinâmicas destes personagens, com o elenco a elevar e muito os episódios entre os elementos que interpretam, enquanto Jacques Deray aproveita a espaços para estimular a nossa imaginação. Veja-se quando encontramos Jean-Paul a abraçar Pénélope, durante a festa organizada por Harry, com "La Piscine" a não exibir aquilo que estes fizeram durante a noite. Fica a dúvida sobre aquilo que Jean-Paul e Pénélope terão feito, embora pareça certo que estes iniciaram um affair, com Jacques Deray a jogar com o poder de sugestão e deixar a mente do espectador a trabalhar. Marcado por uma atmosfera quente e sensual, "La Piscine" surge como uma obra cinematográfica pontuada por sentimentos intensos e interpretações dignas de interesse, com Jacques Deray a conseguir hipnotizar-nos para o interior deste enredo onde as emoções e o desejo parecem levar muitas das vezes a melhor sobre a razão, enquanto Alain Delon, Romy Schneider, Jane Birkin e Maurice Ronet sobressaem e contribuem para elevar um filme inebriante e envolvente.

Título original: "La Piscine".
Título em Portugal: "A Piscina".
Realizador: Jacques Deray.
Argumento: Jacques Deray e Jean-Claude Carrière.
Elenco: Alain Delon, Romy Schneider, Maurice Ronet, Jane Birkin.

14 julho 2016

Da secção: novos posters de filmes que quero ver (1)

"La La Land":














"Café Society":














"El hombre de las mil caras".














Posters via IMP Awards.

Resenha Crítica: "No Country for Old Men" (Este País Não É Para Velhos)

  A violência, a ganância, a morte e os longos silêncios permeiam a narrativa de "No Country for Old Men", bem como as interpretações de grande nível, com Joel e Ethan Coen a colocarem o espectador diante de um enredo pontuado por personagens dotados de valores muito próprios. A ganância tolda a racionalidade de alguns personagens, enquanto outros parecem encontrar motivação na morte alheia, apesar de diversos elementos apresentarem fortes valores morais, com "No Country for Old Men" a contar com um enredo pontuado por uma miríade de figuras complexas. O enredo tem inicialmente como pano de fundo o território do Texas, em meados da década de 80, com os irmãos Coen a explorarem mais uma vez alguns espaços bastante específicos dos EUA, enquanto observam as suas transformações e as suas gentes. No início de "No Country for Old Men" ficamos exactamente diante dessas dicotomias entre o passado e o presente, com o Xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um veterano de Guerra, a narrar o seguinte: "Some of the old time sheriffs never even wore a gun. A lotta folks find that hard to believe. Jim Scarborough'd never carried one; that's the younger Jim. Gaston Boykins wouldn't wear one up in Comanche County. I always liked to hear about the oldtimers. Never missed a chance to do so. You can't help but compare yourself against the oldtimers. Can't help but wonder how they would have operated these times. (...) The crime you see now, it's hard to even take its measure. It's not that I'm afraid of it. I always knew you had to be willing to die to even do this job. But, I don't want to push my chips forward and go out and meet something I don't understand. (...)". Ed Tom Bell é um indivíduo lacónico e ponderado, que conta com valores morais elevados, aprecia a companhia da sua esposa e exibe algum orgulho no seu ofício. O Xerife parece deveras cansado e frustrado em relação às mudanças negativas que ocorrem no território onde trabalha e habita, algo que expressa de forma paradigmática nos momentos iniciais de "No Country for Old Men", quando expõe que se encontra preocupado com os crimes bizarros que se encontram a ser cometidos. Ed Tom Bell é claramente o representante do passado, um Xerife que parece saído do Velho Oeste, com Tommy Lee Jones a conseguir transmitir a sapiência ao personagem que interpreta e espelhar as preocupações que atormentam a mente deste veterano que a espaços entra em divagações que dizem muito sobre a sua pessoa. Ao longo do filme, Bell prepara-se para sentir a ameaça de uma dessa figuras que não compreende, nem provavelmente será capaz de entender, embora tente travar o criminoso. Essa figura que Ed não consegue compreender é Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino a soldo que mata quer pelo dinheiro, quer por prazer, com Javier Bardem a interpretar um criminoso soturno que atormenta tudo e todos. Anton Chigurh promete ser recordado como um dos personagens mais relevantes da carreira de Javier Bardem, com o actor a contar com um trabalho brilhante. Bardem praticamente não tem de dialogar ao longo do filme. As suas expressões, o seu olhar e a aura que transmite permitem incutir um tom ameaçador a Chigurh, um assassino de tez pálida, aparentemente impassível na hora da matança, que conta com um conjunto de valores bizarros e parece ter um certo prazer em jogar com a vida dos seus interlocutores. Veja-se quando se encontra num estabelecimento comercial e obriga o dono a escolher entre cara ou coroa, com uma simples moeda a poder decidir o destino do indivíduo que teve o azar de se deparar com o personagem interpretado por Javier Bardem.

Anton Chigurh protagoniza uma espécie de jogo entre o gato e o rato com Llewelyn Moss (Josh Brolin), um indivíduo que estava no local errado à hora errada, ou se preferirem, decidiu tomar a pior das decisões quando presenciou uma situação macabra (o destino volta a fazer das suas num filme dos irmãos Coen, bem como a sede pelo dinheiro fácil). Quando se encontrava a caçar no meio do deserto, Llewelyn depara-se com alguns mortos, um indivíduo gravemente ferido, uma quantidade assinalável de droga e uma mala com dois milhões de dólares. O que fazer numa situação destas? Llewelyn decide levar a mala, desconhecendo inicialmente que esta conta com um aparelho que permite rastrear a sua localização. O dinheiro pertence a um grupo de traficantes, com o negócio a não ter sido concluído da melhor maneira, algo que conduziu a uma onda de violência e mortes. Llewelyn poderia apenas ter chamado as autoridades. Ao invés disso, Llewelyn preferiu seguir um caminho mais negro que promete colocar a sua vida em perigo. Llewelyn é um veterano de Guerra (esteve na Guerra do Vietname, sendo um velho conhecido de Ed), que trabalha como soldador e é casado com Carla Jean Moss (Kelly Macdonald), uma mulher aparentemente ingénua, embora esta figura feminina surpreenda no último terço de "No Country for Old Men" ao assumir uma demonstração de força que promete deixar marca no espectador (é um grande momento de interpretação de Kelly Macdonald). O protagonista ainda envia Carla Jean para Odessa, o local onde habita a mãe da esposa, embora a vida deste núcleo familiar esteja em perigo, sobretudo quando Chigurh começa a perseguir o soldador. No início do filme, encontramos Chigurh a ser detido, embora elimine facilmente o polícia, espalhando a morte por onde circula. A arma primordial do personagem interpretado por Javier Bardem é uma espécie de tanque de oxigénio que se encontra acompanhado por um tubo, com o assassino a eliminar de forma brutal aqueles que se atravessam no seu caminho. Chigurh é contratado para recuperar o dinheiro, embora elimine dois indivíduos que o contrataram, com o assassino a iniciar uma perseguição a Llewelyn, enquanto este último percebe que entrou num jogo perigoso e violento. Estão lançados os dados: morrer ou matar. Não existe outra escolha para Llewelyn e Chigurh, com este último a não dar outra opção ao primeiro. Josh Brolin interpreta um indivíduo complexo que, tal como diversos personagens que povoam a narrativa dos filmes dos irmãos Coen, acaba por sucumbir aos encantos e ao engodo do dinheiro fácil, tendo de lidar com as consequências dessa decisão. Tal como Javier Bardem, também Josh Brolin consegue destacar-se por conseguir transmitir imenso com poucas falas, com Chigurh e Llewelyn a protagonizarem momentos de enorme tensão e inquietação, enquanto os irmãos Coen se "divertem" a despertar um nervoso miudinho no espectador. Brolin interpreta uma espécie de cowboy que se deparou com uma situação que mexeu com os seus valores morais. Dois milhões de dólares é muito dinheiro, sobretudo para alguém como Llewelyn, que vive com a sua esposa numa habitação pouco luxuosa, de forma remediada, algo que pode ajudar a explicar a decisão do protagonista. Os actos de Llewelyn colocam-no numa zona cinzenta entre o bem e o mal, algo que contrasta com Ed Tom Bell (representante dos bons valores morais) e Chigurh (o representante do mal, ou não estivesse muitas das vezes envolvido pelas sombras), com "No Country for Old Men" a abordar as idiossincrasias destes personagens.

A vida de Llewelyn muda por completo a partir do momento em que resolve ficar com a mala e iniciar um plano para permanecer com o dinheiro. Entramos no território de Joel e Ethan Coen, com a imprevisibilidade a tomar conta da narrativa, bem como a violência, com esta a ser exposta de forma amiúde, ou a ficar implícita, com a morte a fazer parte do quotidiano de diversos personagens. Os cineastas jogam com as nossas expectativas, enquanto exibem a brutalidade do universo narrativo que rodeia estas figuras, com a narração inicial a dar o mote para aquilo que vai ocorrer, assim como acontecera em "Blood Simple", a primeira longa-metragem realizada por Joel e Ethan Coen. Se "Blood Simple", "Fargo", "The Big Lebowski", entre outros trabalhos de Joel e Ethan Coen, partiram de argumentos originais, já "No Country for Old Men" é inspirado no livro homónimo da autoria de Cormac McCarthy, com a dupla a incutir um estilo muito próprio ao enredo deste neo-western onde assistimos ao choque entre o presente e o passado, com o território do Texas a parecer inóspito para "Velhos" e "Novos". Este é ainda um filme de grandes interpretações, com os irmãos Coen a valorizarem novamente o trabalho do elenco que têm à disposição quer por fornecerem um argumento coeso, bem estruturado e recheado de personagens com dimensão, quer por deixarem os actores e actrizes brilharem. Javier Bardem, Josh Brolin, Tommy Lee Jones e Kelly Macdonald já foram elogiados, embora "No Country for Old Men" ainda deixe espaço para elementos como Woody Harrelson sobressaírem. Harrelson interpreta Carson Wells, um caçador de recompensas com uma personalidade sardónica e confiante, que conhece Chigurh, tendo sido contratado para recuperar o dinheiro que se encontra na posse de Llewelyn. Carson ainda contacta com Llewelyn e Chigurh, intrometendo-se por breves momentos neste jogo perigoso entre o gato e o rato que os dois últimos protagonizam por diversos espaços dos EUA e do México. Diga-se que Harrelson interpreta um personagem que contrasta com as figuras lacónicas que permeiam a narrativa, com Carson a surgir como um indivíduo falador e excessivamente confiante. O elenco sobressai, mas também a dupla de realizadores e Roger Deakins. O trabalho de Roger Deakins na cinematografia contribui para incrementar a tensão que invade quase todos os poros do filme e a atmosfera claustrofóbica de alguns momentos. Veja-se os momentos no deserto, quando Llewlyn se depara com os mortos e a mala, com as cores quase esbatidas, inerentes ao calor excessivo, a contrastarem com o aparecimento de nuvens cinzentas que prometem atacar o cenário e a vida do protagonista. O céu é colocado regularmente em destaque, em planos bem abertos, seja quando as nuvens estão carregadas, ou o Sol brilha, ou o azul nocturno toma conta dos cenários, algo que permite transmitir a passagem do tempo, com a noite a parecer trazer sempre mais perigos. Diga-se que Llewelyn ainda regressa ao "local do crime", embora este trecho seja marcado por uma fuga violenta, com os irmãos Coen a aproveitarem os momentos sem diálogos de forma exímia, bem como a pouca iluminação desta cena que decorre durante a noite.

 O trabalho sublime dos irmãos Coen é ainda visível noutros momentos marcantes do filme. Veja-se quando encontramos Chigurh e Carla Jean isolados no mesmo cenário fechado (com a dicotomia entre as luzes e as sombras a ser representada em cada um dos personagens, com a personagem interpretada por Kelly Macdonald a encontrar-se envolvida pelas primeiras, enquanto o assassino é "absorvido" pelas segundas), ou a cena em que Ed Tom Bell decide entrar num local escuro onde o primeiro se encontra presente, ou a tensão numa chamada telefónica que envolve o assassino e Llewelyn, entre outras situações. Os cenários interiores são aproveitados com precisão, bem como os exteriores, algo latente na forma como o deserto é exposto, com a hostilidade, mistério e estranha beleza deste espaço a ser explanada de forma sublime. No caso dos cenários interiores, a decoração da habitação de Carla Jean e Llewelyn permite explanar que o casal não conta com uma situação financeira próspera, enquanto os espaços por onde este último circula permitem adensar a tensão em volta dos episódios que protagoniza. Veja-se quando o personagem interpretado por Javier Bardem se encontra à porta do quarto que Llewelyn alugara, apagando as luzes que permitiam observar a sua sombra através da fresta inferior da porta, com a inquietação e o perigo a serem exacerbados, enquanto o contraste entre luz e sombras é utilizado com enorme primor e precisão (algo recorrente ao longo do filme, bem como a boa utilização da iluminação). O duelo entre os personagens interpretados por Javier Bardem e Josh Brolin é pontuado pela violência física e psicológica, com o segundo a ser obrigado a lidar com as opções que tomou e a lutar pela sobrevivência, enquanto o primeiro exibe o seu carácter praticamente frio e implacável. O destino tem um papel fulcral nas escolhas de Llewelyn. Se Llewelyn não estivesse a caçar naquela hora, muito provavelmente não se iria deparar com aquela maleta com dois milhões de dólares. É certo que poderia ter ignorado a mala, mas será que isso seria possível? É improvável que nós próprios não nos sentíssemos tentados a pegar na maleta, a não ser que soubéssemos todos os efeitos colaterais dessa decisão. Ed Tom Bell ainda tenta proteger Llewelyn, enquanto Carla Jean teme pela vida do esposo. Diga-se que Ed não chega a encontrar Llewelyn, com "No Country for Old Men" a jogar muitas das vezes com as nossas expectativas e a subverter aquilo que poderia ser esperado, enquanto tudo parece funcionar. As dinâmicas entre os elementos do elenco são bem aproveitadas, o trabalho a nível do design de produção é praticamente imaculado, os sotaques dos personagens funcionam e contribuem para atribuir credibilidade aos mesmos, com os irmãos Coen a parecerem ter em atenção todos os pequenos detalhes que, ao serem reunidos, permitem criar uma obra cinematográfica magnífica. Entre dilemas morais, decisões questionáveis, imensa violência e situações perturbadoras, planos bem arquitetados e interpretações memoráveis, "No Country for Old Men" é um hino ao trabalho dos actores e ao cinema, com os irmãos Coen a realizarem uma obra cinematográfica pontuada por momentos marcantes onde exibem um domínio praticamente imaculado do seu ofício.

Título original: "No Country for Old Men". 
Título em Portugal: "Este País Não É Para Velhos".
Título no Brasil: "Onde os Fracos não Têm Vez".
Realizador: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Kelly Macdonald, Woody Harrelson.

Trailer de "No Country for Old Men":


13 julho 2016

Trailer de "Loving", o novo filme de Jeff Nichols. Candidato ao Oscar a caminho?

 Foi divulgada o trailer de "Loving", um filme realizado por Jeff Nichols ("Midnight Special"), através do argumento do próprio. "Loving" conta no elenco com Joeal Edgerton, Ruth Negga, Michael Shannon, Nick Kroll, Jon Bass, Marton Csokas, entre outros. Candidato ao Oscar a caminho?

  O argumento de "Loving" é baseado numa história verídica retratada no documentário "The Loving Story". O enredo de "Loving" acompanha Richard (Joel Edgerton) e Mildred Loving (Ruth Negga), um casal interracial que se casou em Junho de 1958. Estes foram detidos e presos, tendo posteriormente sido exilados do Estado onde viviam nos EUA. Nos nove anos que se seguiram, Richard e Mildred procuraram lutar pelo seu casamento e pelos seus direitos, incluindo o direito de poderem regressar a casa como uma família. Kroll vai dar vida a Bernie Cohen, enquanto Bass vai interpretar Phil Hirschkop. Csokas vai interpretar o Xerife Brooks, enquanto Camp vai dar vida a Frank Beazley. Shannon vai interpretar Grey Villet, um fotógrafo da LIFE Magazine que captou algumas fotos icónicas do casal em 1965.

"Loving" estreia a  4 de Novembro de 2016 nos EUA.


O novo adversário de Rocky....

Um vídeo publicado por Sly Stallone (@officialslystallone) a

Novo trailer de "A Monster Calls"

 Foi divulgado um novo trailer de "A Monster Calls", um filme realizado por Juan Antonio Bayona ("The Impossible"), tendo como base a obra literária homónima de Patrick Ness. O filme conta no elenco com Felicity Jones, Tobby Kebbell, Sigourney Weaver, Liam Neeson, Lewis MacDougall, entre outros.

O enredo de "A Monster Calls" centra-se num jovem rapaz que lida de forma muito própria com a doença da sua mãe e o bullying praticado pelos colegas. Este embrenha-se para o interior de um mundo fantástico onde existem monstros e fadas, lidando com questões relacionadas com coragem, fé e perda.

"A Monster Calls" estreia a 21 de Outubro de 2016 nos EUA.

Rendido ao trailer "La La Land"

 Foi divulgado o primeiro trailer de "La La Land", um musical protagonizado por Ryan Gosling e Emma Stone. O trailer merece toda a atenção e deixa "água na boca" para aquilo que aí vem.

"La La Land" é realizado por Damien Chazelle ("Whiplash"), através do argumento do próprio. O filme conta no elenco com Emma Stone, Ryan Gosling, J.K. Simmons, Finn Wittrock, entre outros.

 O enredo de "La La Land" centra-se em Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). Mia é uma aspirante a actriz, enquanto que Sebastian é um pianista que toca música jazz. Os dois apaixonam-se em Los Angeles, uma cidade que os aproximou mas também os pode afastar, sobretudo quando Mia e Sebastian descobrem que conciliar o amor e a arte não é tão fácil como pensavam.


"La La Land" estreia a 16 de Dezembro de 2016 nos EUA (circuito alargado).



12 julho 2016

Resenha Crítica: "Io la conoscevo bene" (I Knew Her Well)

 A entrada e saída de personagens sucede-se em grande ritmo ao longo de "Io la conoscevo bene", a penúltima longa-metragem realizada por Antonio Pietrangeli, embora o quotidiano aparentemente vazio e sem rumo de Adriana (Stefania Sandrelli), a protagonista do filme, pareça uma constante. Esta é uma aspirante a actriz, que deseja ser famosa, embora apenas perceba tardiamente que o mundo no qual pretende entrar está longe de ser um local aprazível. A queda em desgraça é fácil de "conquistar", enquanto o acesso aos luxos e à fama apenas está ao alcance de um núcleo restrito de homens e mulheres, com "Io la conoscevo bene" a transmitir eficazmente o espírito de uma época (lançado em 1965), com o aparente "milagre económico italiano" a mexer com a sociedade, os costumes e os valores deste país. A presença regular dos carros (símbolo de prosperidade nesta fase), da rádio, das grandes marcas internacionais, das mini-ventoinhas, dos discos em vinil, a organização de festas de luxo, os apartamentos modernos, permitem que "Io la conoscevo bene" transmita algumas dessas mudanças que ocorreram no seio da sociedade italiana, com uma boa parte da população a não querer perder o comboio da prosperidade, embora nem todos consigam ser bem sucedidos. Adriana gosta de dar nas vistas, estar bem vestida, expor o seu corpo esbelto, utilizar os penteados mais diversificados, participar em festas, coleccionar casos amorosos, dançar e ouvir música (a banda sonora tem um papel fundamental no interior da narrativa), embora não pareça saber muito bem aquilo que pretende para o futuro, com os seus planos a limitarem-se a querer ser actriz e famosa. É o cocktail quase perfeito para tudo terminar mal para Adriana, com esta a surgir como uma jovem relativamente ingénua e infantil, que acaba muitas das vezes por sofrer uma série de reveses pouco agradáveis. Acima de tudo, Adriana pretende divertir-se, embora esse desiderato apenas seja alcançado de forma temporária, ou esta não acabasse muitas das vezes por ser enganada, parecendo ser encarada como uma figura descartável por parte de vários elementos masculinos. O quotidiano desta mulher é praticamente tão vazio como as suas ideias para o futuro, algo que é exposto por um escritor (Joachim Fuchsberger), que se inspira em Adriana para criar uma personagem para um dos seus livros. Adriana apenas se apercebe da puerilidade do seu estilo de vida, bem como das consequências dos seus fracassos, perto do final do filme, embora as palavras do escritor, um dos muitos homens que se envolvem com a protagonista ao longo de "Io la conoscevo bene" e a tratam de forma fria, apareçam como um descrição crua daquilo que conhecemos desta figura feminina até esse momento: "(...) sempre contente, não quer nada, não inveja ninguém, não é curiosa, não se surpreende com nada, não sente as humilhações. Entretanto, pobre menina, acontecem coisas todos os dias. Ela livra-se de tudo sem deixar marca, como em certos tecidos impermeáveis. Ambição, zero. Moral, nenhuma (...)". Stefania Sandrelli incute um tom simultaneamente sedutor e ingénuo a esta figura feminina que parece iludida em relação à vida, com esta descrição efectuada pelo escritor a não fazer totalmente justiça à complexidade da jovem, embora Adriana apresente um conjunto de comportamentos que se adequam à interpretação efectuada pelo personagem interpretado por Joachim Fuchsberger.

 O que motiva Adriana? Quais as ambições da protagonista? Qual o rumo que esta vai escolher para a sua vida? Será que os reveses vão deixar uma marca indelével nesta figura feminina? Estas são questões que colocamos, ainda que silenciosamente, ao longo da duração de "Io la conoscevo bene", com Antonio Pietrangeli a realizar um drama que é capaz de captar parte das inquietações de uma geração e de uma época a partir da sua protagonista e das figuras que a rodeiam. Adriana parece atraída pelos luxos e pela obtenção de fama fácil, pretendendo formar contactos relevantes e desfrutar dos prazeres da vida, enquanto colecciona casos amorosos que duram quase tão pouco tempo como os seus empregos, embora tarde em conseguir encontrar um rumo para a sua existência ou afirmar-se no interior de uma sociedade machista. É certo que Adriana encontra-se inicialmente pouco preocupada com o futuro, embora essa situação não seja assim tão linear no final do filme, sobretudo quando a realidade faz questão de entrar de rompante e desferir rudes golpes nos sonhos da protagonista. No início de "Io la conoscevo bene" (um título bastante enganador), encontramos Adriana na praia, a desfrutar de uns bons banhos de Sol, com a câmara a avançar delicadamente pelo corpo desta mulher e a expor a sua enorme beleza. Antonio Pietrangeli oferece-nos inicialmente uma noção da beleza, capacidade de sedução e ingenuidade desta jovem, até expor pequenos pedaços da personalidade de Adriana, uma personagem que nunca chegamos a conhecer na totalidade. Adriana trabalha inicialmente num cabeleireiro, embora esteja mais preocupada consigo própria do que com as clientes, mantendo um caso com o dono do estabelecimento, um homem casado que gosta de visitar regularmente a sua funcionária. Quando encontramos Adriana apenas com uma bata a cobrir o bikini, tendo em vista a atender apressadamente uma cliente, percebemos que esta jovem ainda apresenta uma enorme imaturidade, enquanto Antonio Pietrangeli aproveita para incutir algum humor a um enredo onde o drama predomina (a mescla entre a comédia e a tragédia é algo que os cineastas italianos sabem efectuar na perfeição, com o argumento a contar com um dos mestres nessa matéria, Ettore Scola). Adriana trabalha ainda numa sala de cinema (o contraste entre o cinema e a vida, entre o ecrã que seduz e traz um sabor amargo é algo exposto ao longo do filme), a guiar os clientes para os respectivos lugares, para além de desfilar em locais como um ringue de boxe e coleccionar uma série de trabalhos de pouca monta. A protagonista ainda tenta investir na sua formação, embora nada de muito sério, com Antonio Pietrangeli a deixar-nos diante desta mulher a ter lições de colocação de voz e dicção. É numa dessas aulas que encontramos Pietrangeli a utilizar mais uma vez os movimentos de câmara ao serviço do enredo, com a colaboração entre o cineasta e Armando Nannuzzi (director de fotografia) a contribuir para elevar a narrativa. Diga-se que o trabalho de Nannuzzi na cinematografia é muito assertivo, com os movimentos de câmara a surgirem certeiros, prontos a captarem os sentimentos e as características dos locais por onde a protagonista circula. No caso mencionado, a câmara gira de forma aparentemente imparável, pronta a expor a inquietação que percorre a mente da protagonista e a transpor uma sensação de desconforto para o espectador, com este último a sentir um efeito vertiginoso, tal como Adriana.

 A personagem interpretada por Stefania Sandrelli é oriunda de Pistoia, uma comuna italiana da região da Toscana, com Adriana a representar uma das muitas jovens que partem de um espaço rural, tendo em vista a tentarem triunfar na cidade. Adriana procura ser bem sucedida em Roma, um espaço urbano moderno mas cheio de história e monumentos, com o território a parecer contribuir para uma espécie de alienação do ser humano, algo que remete para diversas obras de Michelangelo Antonioni, tais como "La Notte", "L'eclisse" e "Il deserto rosso", que abordavam esta temática. A arquitectura de Roma é exposta, mas também a facilidade com que os homens e as mulheres se "perdem" neste local, com Adriana a surgir como uma jovem que se tarda em impor no interior de um território propício ao isolamento e ao fracasso. Se Adriana preferiu partir para Roma, já os pais e o irmão continuam a habitar em Pistoia, um local pontuado por gentes conservadoras. A casa dos pais de Adriana permite efectuar um contraste entre as habitações rurais isoladas e os apartamentos dos espaços citadinos, com "Io la conoscevo bene" exibir essa oposição entre o campo e a cidade quando a protagonista decide efectuar uma breve visita aos familiares. Note-se o contraste entre as cerimónias religiosas que decorrem no interior do espaço rural com as festas que Adriana visita em Roma, ou os valores conservadores dos progenitores da protagonista em oposição à maior abertura que esta apresenta (veja-se quando a mãe tapa o corpo da filha devido às vestimentas desta última não se adequarem àquele espaço rural). Adriana habita num apartamento de um prédio relativamente moderno, situado em Roma, embora esteja longe de viver em condições luxuosas. Diga-se que "Io la conoscevo bene" não tem problemas em expor os contrastes que existem no interior da cidade de Roma, com a protagonista a tanto aventurar-se por festas e espaços luxuosos como por locais degradados onde o elevador não funciona, com Adriana a tentar o sucesso neste espaço urbano embora a mudança não tenha corrido como esta planeava. Antonio Pietrangeli evitou incutir um tom próximo a um dramalhão a esta obra cinematográfica que aborda uma série de episódios protagonizados por uma jovem que tarda em concretizar os seus sonhos, com a narrativa de "Io la conoscevo bene" a contar com diversos momentos mais leves, seja uma aula onde a dicção dos alunos está longe de ser a mais eficaz, ou um interrogatório onde Adriana faz questão de expor o seu lado mais naïf. A personagem interpretada por Stefania Sandrelli tem uma propensão enorme para se envolver em situações caóticas, bem como em relacionamentos amorosos problemáticos. Veja-se a relação problemática e fugaz entre Adriana e Dario (Jean-Claude Brialy), um criminoso com uma personalidade extrovertida, que atrai facilmente a atenção da protagonista, embora seja um sacana de primeira. Jean-Claude Brialy consegue sobressair como este indivíduo que não resiste a efectuar uma boa conquista, com "Io la conoscevo bene" a contar com uma série de personagens secundários que se destacam, permitindo que os seus intérpretes componham algumas figuras que ficam na memória, enquanto ficamos diante de diversos fragmentos do quotidiano de Adriana, com esta figura feminina a circular por uma miríade de locais.

 Existe ainda um cuidado indelével no design de produção, com os cenários interiores a encontrarem-se decorados a preceito. O escritório do director da Week-end, a "rivista che lancia le dive", é um exemplo paradigmático desse cuidado, com esta pequena sala a contar com uma série de fotografias de mulheres que pretendem ascender ao estrelato, com todas a pagarem para contarem com artigos favoráveis neste tipo de publicações, algo revelador do desejo pela fama por parte de um sector alargado da sociedade. Adriana dirigiu-se a este espaço na companhia de Cianfanna, um empresário, produtor e proxeneta, que procura gerir a carreira da primeira a seu bel-prazer, seja para ajudar a mesma ou para a destruir, com Nino Manfredi a destacar-se como este indivíduo que pensa acima de tudo em si próprio. A protagonista começa a descobrir, ainda que gradualmente, o lado negro deste mundo, bem como a facilidade com que se pode cair no ridículo, com Sandrelli a transmitir as fragilidades desta figura feminina que facilmente prende a nossa atenção (aquele close-up no rosto de Adriana, quando esta descobre que desvirtuaram o conteúdo de uma entrevista, tendo em vista a ridicularizá-la publicamente, é simplesmente arrasador e inesquecível). Quando a câmara se foca no rosto de Stefania Sandrelli é quase certo que a actriz consegue dominar as atenções e despertar alguma simpatia, com a intérprete a convencer quer quando se encontra isolada, quer quando se encontra acompanhada. Adriana parece optimista em relação à vida ou, pelo menos, pouco preocupada com o futuro, até começarem a surgir os reveses indesejáveis. Diga-se que "Io la conoscevo bene" conta com uma série de personagens que levaram "pancada" da vida, entre os quais Emilio Ricci (Mario Adorf), um pugilista falhado, de personalidade introvertida, com quem Adriana tem alguns dos diálogos mais ternos e sinceros. Temos ainda Baggini, um antigo actor, outrora bem sucedido, que agora não tem problemas em humilhar-se publicamente, com Ugo Tonazzi a incutir um tom trágico a este personagem, algo latente quando suplica por um emprego a Roberto (Enrico Maria Salerno), um conhecido que alcançou o estatuto de estrela. A cena de Baggini a sapatear em cima de uma mesa, tendo em vista a expor o seu talento, representa paradigmaticamente a crueldade e as humilhações a que este indivíduo é sujeito, enquanto a câmara, as expressões e movimentos do actor, bem como o trabalho de montagem, adensam o esforço que este efectua para agradar a Cianfanna, com tudo e todos a divertirem-se das figuras feitas por este indivíduo no interior de uma festa em homenagem a Roberto. Diga-se que Baggini também se tenta aproveitar de Adriana, com este indivíduo a procurar utilizar a protagonista para cair nas boas graças de Roberto, enquanto a jovem parece destinada a ser um mero joguete daqueles que a rodeiam. Adriana queria apreciar os prazeres da vida, ser bem sucedida como actriz e desfrutar dos novos luxos que pontuam a sociedade italiana, embora encontre uma realidade bem distinta daquela que criara na sua mente quando saíra de casa dos pais. Antonio Pietrangeli coloca o espectador diante de uma série de episódios relacionados com a protagonista, enquanto ficamos com a sensação que o título nos engana e nem sempre conseguimos conhecer Adriana na sua totalidade, com esta a surgir como uma figura que tanto aprecia os prazeres fugazes como demonstra uma fragilidade latente. Entre sonhos desfeitos, embates dolorosos com a realidade, imensas festas, personagens pontuados pela vacuidade de valores, algum humor e elementos de tragédia, "Io la conoscevo bene" consegue captar o espírito da época, enquanto permite que Stefania Sandrelli tenha uma interpretação magnífica como uma jovem ingénua e sem grandes planos alternativos para o futuro, com Adriana a conhecer uma série de reveses que prometem ser desastrosos.

Título original: "Io la conoscevo bene". 
Título inglês: "I Knew Her Well".
Realizador: Antonio Pietrangeli.
Argumento: Antonio Pietrangeli, Ruggero Maccari, Ettore Scola.
Elenco: Stefania Sandrelli, Jean-Claude Brialy, Mario Adorf, Ugo Tognazzi, Nino Manfredi, Enrico Maria Salerno.