Como reagir à notícia de que um familiar cometeu um crime? Encobrir o familiar ou denunciar o mesmo à polícia? O que conduziu esse familiar a cometer um crime? Os protagonistas de "I nostri ragazzi" têm de lidar com estas questões,
com Ivano De Matteo a conseguir
estabelecer de forma simples e eficaz a personalidade dos personagens
principais, bem como as suas dinâmicas, até nos tirar o tapete ao expor
como tudo muda em situações de desespero. Os personagens que pareciam funcionar como
um barómetro moral acabam por evidenciar características mais egoístas e
agressivas, enquanto outros que indicavam alguma frieza e imoralidade
surpreendem pela forma intensa como são consumidos pelas dúvidas
relacionadas com aquilo que devem ou não fazer para ficarem em paz consigo próprios. O argumento é
inteligente e bem construído, com "I nostri ragazzi" a afastar-se de soluções ou caminhos fáceis, enquanto procura
explorar as motivações de ambos os lados da contenda e dar espaço para os intérpretes sobressaírem. O elenco exibe-se em bom nível, com Alessandro Gassman a fazer justiça ao apelido, embora nomes como
Luigi Lo Cascio, Giovanna Mezzogiorno, Barbora Bobulova, Jacopo Olmo Antinori, Rosabell Laurenti Sellers, também mereçam alguns adjectivos positivos, com Ivano De Matteo a saber construir a teia narrativa que une os personagens principais, enquanto nos surpreende com alguns episódios que permitem abordar uma série de temáticas e levantar uma miríade de questões. Desde as relações entre pais e filhos, passando pela forma como os primeiros conhecem ou não os segundos e as divergências entre irmãos, até à forma como a violência nos meios televisivos e online pode ou não influenciar os adolescentes, "I nostri ragazzi" aborda uma série de temáticas de relevo, enquanto nos deixa diante de uma família que se depara com uma situação intrincada. Tudo começa com uma altercação no meio do trânsito, com dois indivíduos a iniciarem uma discussão que termina da pior maneira, ou seja, com um assassinato. Um dos interlocutores é polícia, apesar de contar com uma personalidade pouco ponderada e provocadora. O outro indivíduo conta com o filho no interior do carro, embora não tenha problemas em sair do veículo e ameaçar o seu interlocutor. O polícia sente-se ameaçado, algo que o conduz a disparar na direcção do seu interlocutor. Este acto resulta no assassinato do elemento que ameaçava o polícia, bem como no ferimento do petiz, com o jovem a encontrar-se em risco de ficar paraplégico. Por sua vez, a progenitora do jovem fica em choque, com a viúva a procurar que se faça justiça em tribunal, embora o polícia conte com um advogado de prestígio. O advogado do polícia é Massimo (Alessandro Gassman), um profissional experiente que é conhecido por defender todo o tipo de casos, independentemente dos seus clientes serem culpados ou inocentes. O destino pode ser irónico, ou uma dupla de argumentistas, que o diga Paolo (Luigi Lo Cascio), um pediatra ponderado e afável que é designado para tratar de Stefano, o jovem que foi ferido. O personagem interpretado por Luigi Lo Cascio é irmão de Massimo, com os dois familiares a apresentarem personalidades francamente distintas, pelo menos no início de "I nostri ragazzi", com o caso do assassinato do polícia e do ferimento do jovem a ser fundamental para Ivano De Matteo dar a conhecer um pouco do pediatra e do advogado, embora estes nos surpreendam ao longo do filme, com a moralidade do primeiro a ser colocada em jogo, bem como o pragmatismo do segundo.
Paolo é casado com Chiara (Giovanna Mezzogiorno), uma guia de um museu situado em Roma, com quem tem um filho adolescente. Michele (Jacopo Olmo Antinori), o filho de Paolo e Chiara, tem dezasseis anos de idade, passa boa parte do seu tempo a ver vídeos violentos, atravessa uma fase menos positiva na escola, conta com uma personalidade problemática e uma relação de amizade com Benedetta (Rosabell Laurenti Sellers), a sua prima. Benedetta é filha de Massimo, com a adolescente a ser mimada pelo pai e Sofia (Barbora Bobulova), a madrasta, apresentando uma personalidade rebelde e uma postura despreocupada em relação às consequências dos actos que comete. Michele e Benedetta são dois adolescentes problemáticos, fãs de "Jackass" e da série online "Next Stop", com a dupla a encarar os programas como um exemplo, uma situação que se revela problemática. "I nostri ragazzi" não condena ou diaboliza estes programas, embora exiba o poder negativo de ambos quando interpretados de forma incorrecta pelos espectadores, sobretudo quando quem se encontra a ver os mesmos são dois adolescentes dotados de alguma rebeldia e sadismo. Tanto Michele como Benedetta contam com progenitores protectores, embora quer Massimo, quer Paolo disponibilizem pouco tempo para os rebentos. Massimo passa boa parte do dia no seu escritório, enquanto Paolo tem de cumprir uma miríade de turnos, ou seja, os dois irmãos estão pouco informados sobre os filhos. Paolo e Massimo procuram reunir-se uma vez por mês, com a companhia das respectivas esposas, no mesmo restaurante de sempre, embora estejam longe de apresentar uma grande intimidade, com estes encontros a parecerem acima de tudo uma tradição que mantêm de forma burocrática. Veja-se quando Paolo e Chiara exibem o desprezo para com estes encontros, ou a discussão entre o primeiro e Massimo, com o médico a questionar os valores morais do advogado. Paolo exibe algum desconforto por Massimo representar o polícia que assassinou um inocente e feriu gravemente uma criança, enquanto o irmão assume uma postura aparentemente fria em relação ao caso, apesar das palavras do familiar não lhe serem indiferentes. Alessandro Gassman e Luigi Lo Cascio conseguem transmitir as personalidades distintas dos personagens que interpretam, com o primeiro a incutir um tom mais pragmático e altivo a Massimo, embora a situação se altere com o avançar da narrativa, enquanto o segundo demonstra a simplicidade e os fortes valores morais de Paolo, apesar de "I nostri ragazzi" fazer questão de exibir que este último também está longe de ser infalível. Massimo e Paolo apresentam uma situação financeira segura, algo que se torna notório quando observamos as suas habitações, contam com casamentos pontuados pela solidez, embora o médico e o advogado pareçam reger-se por valores distintos. No entanto, um episódio violento altera por completo a percepção que temos destes personagens, bem como o modo como estes encaram a vida. O episódio acontece após Michele e Benedetta abandonarem uma festa, com o primeiro a beber mais do que a conta, enquanto a segunda acompanha-o, com ambos a saírem ao mesmo tempo. Não sabemos ao certo aquilo que aconteceu nos momentos que antecederam à chegada de Michele e Benedetta às respectivas casas, pelo menos até Chiara visionar o seu programa preferido e assistir a um vídeo de segurança relacionado com um casal de adolescentes que agrediu brutalmente uma sem-abrigo.
Chiara desconfia que Michele e Benedetta são os agressores da sem-abrigo, confrontando o filho com esta situação, embora o adolescente rechace inicialmente as acusações da mãe. Por sua vez, Benedetta dialoga com o pai sobre a possibilidade deste defender dois amigos que supostamente cometeram o crime, com Massimo a perceber que a filha e Michele são culpados. A piorar tudo isto, a sem-abrigo morre após ter estado em coma, uma situação adversa que promete despertar o lado mais selvagem de alguns personagens, com Ivano De Matteo a saber explorar as tensões familiares de forma exímia, beneficiando e muito do bom argumento do próprio e de Valentina Ferlan (inspirado no livro "Het diner" de Herman Koch), bem como de um elenco competente. Luigi Lo Cascio consegue explorar e transmitir os sentimentos contraditórios do personagem que interpreta, com a ponderação e o bom humor de Paolo a darem lugar a um sentimento de culpa e raiva, enquanto o médico começa a descarregar as suas frustrações em tudo e todos. Se no início do filme encontrámos Paolo a criticar o irmão por defender um criminoso, já no último terço a situação muda de figura, com o médico a parecer esperar que o advogado assuma uma postura suja. Alessandro Gassman é o actor que mais se destaca, com Ivano De Matteo a parecer divertir-se a desfazer a ideia que formámos inicialmente em relação a Massimo, enquanto o intérprete transmite essas transformações de forma orgânica. Massimo é um advogado que gosta de desfrutar de alguns luxos, pratica boxe e frequenta bons restaurantes, embora passe pouco tempo em casa, apesar de amar a esposa e as suas duas filhas, com o protagonista a ter uma filha ainda bebé, fruto do casamento com Sofia. Tudo e todos esperam que Massimo utilize as suas artimanhas para deixar os jovens livres de perigo, embora o advogado assuma uma postura inesperada e complexa, parecendo querer que os adolescentes percebam o crime que cometeram. O rosto de Alessandro Gassman exibe as dúvidas que assolam a alma de Massimo, com o modo de falar do actor a apresentar uma certa fragilidade, enquanto o advogado entra em mais discussões com Chiara e Paolo. Chiara procura desculpar a atitude do filho, atirando constantemente as culpas para Benedetta ao mesmo tempo que exibe o seu desprezo para com Sofia. Tal como Luigi Lo Cascio e Alessandro Gassman, também Giovanna Mezzogiorno tem de incutir uma mudança de postura na personagem que interpreta, com Chiara a começar a exibir as suas opiniões de forma frontal, enquanto transmite uma estranha frieza a lidar com os actos dos jovens, procurando desculpabilizar o filho por ter assassinado uma sem-abrigo quando estava alcoolizado, embora pareça que esta mulher está em negação. Sofia assume quase sempre uma postura ponderada, de poucos confrontos, com Barbara Boulova a interpretar a personagem que parece mais estável ao longo de toda a narrativa, mesmo quando Chiara assume todo o desprezo em relação à cunhada, com as duas figuras femininas a contarem com uma relação afastada. O trabalho dos actores é de grande nível, sobretudo quando Ivano De Matteo reúne Massimo, Paolo, Chiara e Sofia e coloca estes personagens a dialogarem em cenários fechados, com estes elementos a travarem-se de razões e a exporem aquilo que os une e separa.
O amor aos filhos é algo que une estes dois casais, bem como o desafogo financeiro, embora Massimo, Paolo, Sofia e Chiara apresentem personalidades claramente distintas, algo que dificulta e muito as reuniões familiares. "I nostri ragazzi" aborda a forma como uma situação-limite pode alterar por completo o modo como o ser humano encara as situações e o meio que o rodeia. Veja-se o caso de Paolo, com o médico a não ter problemas em condenar o irmão por contribuir para que criminosos não sejam presos, embora seja o primeiro a ameaçar Massimo quando este pondera denunciar os adolescentes. Paolo parece claramente transtornado pelo acto violento protagonizado pelo filho e pela sobrinha, com Luigi Lo Cascio a transmitir os sentimentos contraditórios deste pediatra que tem de decidir entre manter os seus valores ou abdicar dos mesmos para proteger o rebento. Já Jacopo Olmo Antinori e Rosabell Laurenti Sellers assumem a postura quase sempre despreocupada dos personagens que interpretam, com Michele e Benedetta a surgirem como dois adolescentes aburguesados e mimados, que conseguem tudo aquilo que querem. Num determinado momento de "I nostri ragazzi", encontramos Massimo a ouvir um diálogo entre Michele e Benedetta no qual os jovens assumem uma postura francamente inadmissível em relação ao assassinato, enquanto demonstram que sabiam aquilo que faziam. Os adolescentes confiam que Massimo vai fazer de tudo para livrá-los de possíveis problemas, embora o advogado fique diante de um dilema moral. Nesse sentido, Ivano De Matteo consegue surpreender-nos em relação às características dos personagens, exibindo o verdadeiro carácter dos mesmos a partir do momento em que os coloca em situações adversas, enquanto desfaz gradualmente as percepções que tínhamos em relação a certos elementos e deixa-nos na dúvida sobre qual seria a nossa reacção numa situação semelhante. Esconder a verdade ou denunciar um familiar? Aos poucos, os ânimos exaltam-se, as animosidades antigas surgem ao de cima, as personalidades de alguns protagonistas assumem características até então desconhecidas, enquanto Ivano De Matteo conduz os actores e actrizes como um grande maestro dirige a sua orquestra, com o cineasta a saber gerir os ritmos das revelações, a desenvolver assertivamente as dinâmicas entre os personagens e a conseguir que o espectador reflicta e se envolva nas questões que apoquentam Massimo, Paolo, Chiara e Sofia.
Título original: "I nostri ragazzi".
Realizador: Ivano De Matteo.
Argumento: Ivano De Matteo e Valentina Ferlan.
Elenco: Alessandro Gassman, Luigi Lo Cascio, Giovanna Mezzogiorno, Barbora Bobulova, Jacopo Olmo Antinori, Rosabell Laurenti Sellers.
Trailer de "I nostri ragazzi":
11 julho 2016
08 julho 2016
Resenha Crítica: "Tangerine" (2015)
Entre a comédia e a tragédia, os exageros e a contenção, os diálogos expostos de forma exuberante e os silêncios cortantes, os palavrões disparados com uma enorme naturalidade e as falas mais brandas, discussões e momentos de acalmia, "Tangerine" merece ser recordado pela forma sagaz como Sean Baker joga com as emoções do espectador, extrai uma interpretação inesquecível de Kitana Kiki Rodriguez e realiza um obra cinematográfica que se envolve sem medos ou receios pelo submundo de Los Angeles. A prostituição, a transfobia, a pobreza, o crime, as repressões sexuais, as traições amorosas e o poder da amizade são temáticas abordadas com acerto e inspiração, com Sean Baker a incutir um ritmo latente a "Tangerine", uma situação que advém das características do espaço citadino onde se desenrola o enredo, bem como da personalidade de Sin-Dee (Kitana Kiki Rodriguez), a protagonista, uma prostituta transexual afro-americana que saiu da prisão na véspera de Natal. Kitana Kiki Rodriguez incute carisma e uma energia aparentemente inesgotável a Sin-Dee, com a actriz a disparar as falas a uma velocidade impressionante, enquanto a protagonista grita, pragueja e exibe as suas emoções de forma bem viva. No final do filme, Rodriguez surpreende ainda pela capacidade de expor as emoções de forma contida, com a actriz a ter uma estreia de grande nível nas lides cinematográficas, compondo uma personagem que promete não ser esquecida com facilidade. Após sair da prisão, onde cumpriu uma pena de vinte e oito dias, Sin-Dee reúne-se com Alexandra (Mya Taylor), a sua melhor amiga, uma prostituta transexual afro-americana, com esta última a revelar que Chester (James Ransone), um proxeneta que namora com a primeira, iniciou um affair com outra mulher. A reacção de Sin-Dee não se faz esperar, com esta a tentar encontrar Chester ou a amante deste, tendo em vista a "esclarecer" tudo. Sin-Dee descobre que o namorado se encontra envolvido com Dinah (Mickey O'Hagan), uma prostituta, com a protagonista a procurar confrontar todas as partes envolvidas nesta traição. Alexandra ainda ajuda inicialmente a amiga a procurar por Dinah, embora desista da ideia devido a ter alguns trabalhos confirmados, tais como cantar num bar que se encontra praticamente vazio. A personagem interpretada por Mya Taylor é uma prostituta que sonha iniciar uma carreira como cantora, embora tarde em concretizar esse desejo, com Alexandra a contar com uma forte relação de amizade com Sin-Dee, enquanto colecciona revezes e episódios peculiares com clientes. Veja-se quando um cliente não quer pagar devido a não ter conseguido ejacular, com Alexandra a não ter problemas em reagir de forma enérgica para receber pelo serviço que prestou. A história de Sin-Dee e Alexandra é intercalada com a de Razmik (Karren Karagulian), um taxista arménio, introvertido, casado e pai de uma jovem rapariga, que conta com uma série de clientes peculiares. A trama de Razmik é inicialmente exposta de forma relativamente desconjuntada em relação à história de Sin-Dee e Alexandra, até Sean Baker exibir o gosto que o taxista tem por prostitutas transexuais, algo que lhe promete trazer uma série de problemas, sobretudo quando a sogra e a esposa descobrem esse segredo, com o personagem interpretado por Karren Karagulian a contar com uma proximidade notória com a dupla de protagonistas.
Os acontecimentos sucedem-se em grande ritmo, com os destinos de Sin-Dee, Alexandra, Razmik, Dinah e Chester a acabarem por se cruzar, uma situação que conduz a momentos emocionalmente explosivos, ou a primeira não procurasse vingar a traição. Sean Baker incute um tom enérgico à narrativa de "Tangerine", com o cineasta a abordar os arcos dos personagens principais de forma eficaz, enquanto aproveita as possibilidades inerentes ao facto de filmar com recurso a três iPhones 5. A mobilidade da câmara é bem utilizada, a fotografia é propositadamente saturada, pronta a captar as cores quentes que envolvem o território de Los Angeles durante o dia, com as tonalidades a contribuírem para exacerbar os sentimentos fervilhantes que permeiam o quotidiano das protagonistas. A ideia de visionar uma obra cinematográfica que foi filmada com iphones (ainda que propositadamente alterados para o efeito) parece inicialmente estranha, ou dada a provocar preconceitos prévios, embora o resultado final seja extremamente eficaz, com o método de filmar combativo a ajustar-se aos ritmos e personalidades dos personagens que nos são apresentados, enquanto ficamos diante de uma série de temáticas associadas a estas mulheres que procuram viver para o momento, bem como da jornada de Sin-Dee, tendo em vista a confrontar Dinah e Chester. O encontro entre Sin-Dee e Dinah é marcado pela violência, com a primeira a arrastar a segunda pela cidade, enquanto trocam diálogos menos simpáticos e protagonizam episódios que variam entre o rocambolesco e o tocante. Simultaneamente cómica, trágica e violenta, a relação entra estas duas mulheres é complicada, sobretudo quando algumas revelações incómodas começam a surgir ao de cima, embora a dupla ainda protagonize um ou outro momento de acalmia. Veja-se quando Sin-Dee percebe que está atrasada para o concerto de Alexandra, obrigando Dinah a deslocar-se consigo até ao bar onde a amiga se prepara para cantar. Sean Baker deixa a narrativa "respirar", com Alexandra a assumir temporariamente o destaque do enredo, com as cortinas vermelhas do palco do bar a atribuírem uma atmosfera quente a este momento, enquanto Mya Taylor se destaca. Diga-se que Mya Taylor interpreta uma personagem com uma história semelhante à sua, ou a actriz não tivesse trabalhado como prostituta e contasse com talento para a cantoria, com Alexandra a tomar conta das atenções quando se encontra a cantar no clube nocturno. O espaço do bar é desolador, com quase todos os elementos que foram convidados por Alexandra a não aparecerem, apesar desta contar com o forte apoio de Sin-Dee. O momento de cantoria é contrastado com a confusão que envolve a reunião entre Sin-Dee, Dinah, Alexandra e Chester. A reunião acontece no interior de uma loja de donuts chamada "Donut Time", com estes personagens a transformarem este cenário num pandemónio (digno das confusões das comédias screwball), algo que piora quando Razmik se junta à confusão, bem como a sogra e a esposa do taxista, enquanto tudo e todos parecem falar ao mesmo tempo. Diversos segredos são revelados, os sentimentos ficam à flor da pele, enquanto os personagens procuram expor aquilo que pensam e sentem, com o elenco e o argumento a sobressaírem. Sean Baker procura que as actrizes e os actores dialoguem como se vivessem neste meio citadino que rodeia os personagens que interpretam, algo que explica o vernáculo de Sin-Dee e a sua personalidade arisca, com quase todos estes elementos a conhecerem dificuldades para se imporem no interior deste território que se revela abrasivo. Sin-Dee e Alexandra são alvo de transfobia, Dinah é encarada como uma mulher descartável, enquanto Razmik procura reprimir os seus instintos e desejos de cariz sexual, ou seja, estamos longe de nos encontrarmos diante de figuras vencedoras e bem-sucedidas.
Se James Ransome incute um tom sacana a Chester, um proxeneta que gosta de testar o "produto" que tem para fornecer aos clientes, já Karren Karagulian tem uma interpretação pontuada pela sobriedade, com o actor a conseguir exprimir que Razmik é um indivíduo introvertido, criado e educado numa sociedade conservadora, que se encontra furtivamente com prostitutas transexuais para praticar sexo oral com as mesmas. Sean Baker aborda ainda um pouco do núcleo familiar de Razmik e expõe mais uma vez a mescla de culturas no interior de Los Angeles, com este indivíduo a fazer parte da comunidade arménia que vive no território (os clientes do táxi de Razmik são outro exemplo dessa heterogeneidade). A relação de Razmik com a esposa é pontuada por alguma frieza, enquanto a sogra praticamente não o pode ver à frente, com a filha a ser demasiado nova para perceber que a sua casa parece um vulcão prestes a entrar em erupção. Temos ainda Mickey O'Hagan como uma prostituta que perde um sapato, é alvo de agressões, apresenta um tom mordaz, embora as suas atitudes menos polidas pareçam acima de tudo um meio para se defender do destino. A maneira como Sin-Dee fala e reage parece exactamente advir do contexto que a rodeia, bem como do seu quotidiano, uma situação que se torna bem evidente no último terço, quando a sua energia inesgotável é contrastada com a crueza da realidade. A banda sonora e o trabalho de montagem contribuem para essa energia emanada por "Tangerine", com Sean Baker a saber juntar os ingredientes e a desenvolver uma obra cinematográfica onde os elementos aparentemente à parte da sociedade ganham protagonismo e ficamos diante da violência, o humor, a tensão e as amizades que se formam no interior deste mundo onde Alexandra e Sin-Dee se encontram inseridas (a dinâmica entre estas duas figuras femininas é essencial para elevar a narrativa). Sean Baker aproveita ainda os cenários citadinos ao serviço da narrativa, com estes espaços a parecerem contribuir para a ostracização de Sin-Dee e Alexandra, bem como de outras figuras, com o cineasta a explorar as idiossincrasias deste território e das suas gentes. Veja-se ainda a forma exímia como Baker utiliza e conduz os actores e as actrizes nas cenas que decorrem no interior da loja de donuts, com o elenco a destacar-se pela positiva, enquanto o espírito natalício parece ter sido ignorado pela maioria dos personagens. Entre a capacidade de despertar o mais largo dos sorrisos e uma estranha sensação de tristeza, "Tangerine" surge como um feito assinalável de Sean Baker, com o cineasta a ter o mérito de extrair interpretações de bom nível por parte de Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor e Karren Karagulian, enquanto nos coloca diante de um enredo enérgico, intenso, trágico e envolvente.
Título original: "Tangerine".
Realizador: Sean Baker.
Argumento: Sean Baker e Chris Bergoch.
Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian, James Ransone e Mickey O'Hagan.
Trailer de "Tangerine":
Os acontecimentos sucedem-se em grande ritmo, com os destinos de Sin-Dee, Alexandra, Razmik, Dinah e Chester a acabarem por se cruzar, uma situação que conduz a momentos emocionalmente explosivos, ou a primeira não procurasse vingar a traição. Sean Baker incute um tom enérgico à narrativa de "Tangerine", com o cineasta a abordar os arcos dos personagens principais de forma eficaz, enquanto aproveita as possibilidades inerentes ao facto de filmar com recurso a três iPhones 5. A mobilidade da câmara é bem utilizada, a fotografia é propositadamente saturada, pronta a captar as cores quentes que envolvem o território de Los Angeles durante o dia, com as tonalidades a contribuírem para exacerbar os sentimentos fervilhantes que permeiam o quotidiano das protagonistas. A ideia de visionar uma obra cinematográfica que foi filmada com iphones (ainda que propositadamente alterados para o efeito) parece inicialmente estranha, ou dada a provocar preconceitos prévios, embora o resultado final seja extremamente eficaz, com o método de filmar combativo a ajustar-se aos ritmos e personalidades dos personagens que nos são apresentados, enquanto ficamos diante de uma série de temáticas associadas a estas mulheres que procuram viver para o momento, bem como da jornada de Sin-Dee, tendo em vista a confrontar Dinah e Chester. O encontro entre Sin-Dee e Dinah é marcado pela violência, com a primeira a arrastar a segunda pela cidade, enquanto trocam diálogos menos simpáticos e protagonizam episódios que variam entre o rocambolesco e o tocante. Simultaneamente cómica, trágica e violenta, a relação entra estas duas mulheres é complicada, sobretudo quando algumas revelações incómodas começam a surgir ao de cima, embora a dupla ainda protagonize um ou outro momento de acalmia. Veja-se quando Sin-Dee percebe que está atrasada para o concerto de Alexandra, obrigando Dinah a deslocar-se consigo até ao bar onde a amiga se prepara para cantar. Sean Baker deixa a narrativa "respirar", com Alexandra a assumir temporariamente o destaque do enredo, com as cortinas vermelhas do palco do bar a atribuírem uma atmosfera quente a este momento, enquanto Mya Taylor se destaca. Diga-se que Mya Taylor interpreta uma personagem com uma história semelhante à sua, ou a actriz não tivesse trabalhado como prostituta e contasse com talento para a cantoria, com Alexandra a tomar conta das atenções quando se encontra a cantar no clube nocturno. O espaço do bar é desolador, com quase todos os elementos que foram convidados por Alexandra a não aparecerem, apesar desta contar com o forte apoio de Sin-Dee. O momento de cantoria é contrastado com a confusão que envolve a reunião entre Sin-Dee, Dinah, Alexandra e Chester. A reunião acontece no interior de uma loja de donuts chamada "Donut Time", com estes personagens a transformarem este cenário num pandemónio (digno das confusões das comédias screwball), algo que piora quando Razmik se junta à confusão, bem como a sogra e a esposa do taxista, enquanto tudo e todos parecem falar ao mesmo tempo. Diversos segredos são revelados, os sentimentos ficam à flor da pele, enquanto os personagens procuram expor aquilo que pensam e sentem, com o elenco e o argumento a sobressaírem. Sean Baker procura que as actrizes e os actores dialoguem como se vivessem neste meio citadino que rodeia os personagens que interpretam, algo que explica o vernáculo de Sin-Dee e a sua personalidade arisca, com quase todos estes elementos a conhecerem dificuldades para se imporem no interior deste território que se revela abrasivo. Sin-Dee e Alexandra são alvo de transfobia, Dinah é encarada como uma mulher descartável, enquanto Razmik procura reprimir os seus instintos e desejos de cariz sexual, ou seja, estamos longe de nos encontrarmos diante de figuras vencedoras e bem-sucedidas.
Se James Ransome incute um tom sacana a Chester, um proxeneta que gosta de testar o "produto" que tem para fornecer aos clientes, já Karren Karagulian tem uma interpretação pontuada pela sobriedade, com o actor a conseguir exprimir que Razmik é um indivíduo introvertido, criado e educado numa sociedade conservadora, que se encontra furtivamente com prostitutas transexuais para praticar sexo oral com as mesmas. Sean Baker aborda ainda um pouco do núcleo familiar de Razmik e expõe mais uma vez a mescla de culturas no interior de Los Angeles, com este indivíduo a fazer parte da comunidade arménia que vive no território (os clientes do táxi de Razmik são outro exemplo dessa heterogeneidade). A relação de Razmik com a esposa é pontuada por alguma frieza, enquanto a sogra praticamente não o pode ver à frente, com a filha a ser demasiado nova para perceber que a sua casa parece um vulcão prestes a entrar em erupção. Temos ainda Mickey O'Hagan como uma prostituta que perde um sapato, é alvo de agressões, apresenta um tom mordaz, embora as suas atitudes menos polidas pareçam acima de tudo um meio para se defender do destino. A maneira como Sin-Dee fala e reage parece exactamente advir do contexto que a rodeia, bem como do seu quotidiano, uma situação que se torna bem evidente no último terço, quando a sua energia inesgotável é contrastada com a crueza da realidade. A banda sonora e o trabalho de montagem contribuem para essa energia emanada por "Tangerine", com Sean Baker a saber juntar os ingredientes e a desenvolver uma obra cinematográfica onde os elementos aparentemente à parte da sociedade ganham protagonismo e ficamos diante da violência, o humor, a tensão e as amizades que se formam no interior deste mundo onde Alexandra e Sin-Dee se encontram inseridas (a dinâmica entre estas duas figuras femininas é essencial para elevar a narrativa). Sean Baker aproveita ainda os cenários citadinos ao serviço da narrativa, com estes espaços a parecerem contribuir para a ostracização de Sin-Dee e Alexandra, bem como de outras figuras, com o cineasta a explorar as idiossincrasias deste território e das suas gentes. Veja-se ainda a forma exímia como Baker utiliza e conduz os actores e as actrizes nas cenas que decorrem no interior da loja de donuts, com o elenco a destacar-se pela positiva, enquanto o espírito natalício parece ter sido ignorado pela maioria dos personagens. Entre a capacidade de despertar o mais largo dos sorrisos e uma estranha sensação de tristeza, "Tangerine" surge como um feito assinalável de Sean Baker, com o cineasta a ter o mérito de extrair interpretações de bom nível por parte de Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor e Karren Karagulian, enquanto nos coloca diante de um enredo enérgico, intenso, trágico e envolvente.Título original: "Tangerine".
Realizador: Sean Baker.
Argumento: Sean Baker e Chris Bergoch.
Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian, James Ransone e Mickey O'Hagan.
Trailer de "Tangerine":
07 julho 2016
"Tulip Fever" ou Serena 2.0
A The Weinstein Company adiou a estreia de "Tulip Fever" para 24 de Fevereiro de 2017, ou seja, é provável que Harvey Weinstein tenha um fracasso entre mãos que se prepara para envergonhar tudo e todos. O filme iria estrear a 15 de Julho de 2016 nos EUA.
"Tulip Fever" conta no elenco com Alicia Vikander, Christoph Waltz, Dane DeHaan, Judi Dench, Jack O’Connell, entre outros. A realização ficou a cargo de Justin Chadwick. As explicações oficiosas salientam que a alteração foi efectuada devido a algumas condicionantes inerentes ao mercado, embora pareça que "Tulip Fever" tenha tudo para ser uma espécie de "Serena", ou seja, um filme que se estampa ao comprido apesar de contar com um elenco famoso. Imagem via Indiewire.
"Tulip Fever" conta no elenco com Alicia Vikander, Christoph Waltz, Dane DeHaan, Judi Dench, Jack O’Connell, entre outros. A realização ficou a cargo de Justin Chadwick. As explicações oficiosas salientam que a alteração foi efectuada devido a algumas condicionantes inerentes ao mercado, embora pareça que "Tulip Fever" tenha tudo para ser uma espécie de "Serena", ou seja, um filme que se estampa ao comprido apesar de contar com um elenco famoso. Imagem via Indiewire.
Mel Gibson no novo trailer e posters de "Blood Father"
Mel Gibson está em destaque no novo trailer e nos posters de "Blood Father", um filme realizado por Jean-François Richet ("Un moment d'égarement"). O argumento está a cargo de Peter Craig e Andrea Berloff. Posters via IMP Awards.
O enredo de "Blood Father" centra-se num antigo condenado (Mel Gibson) que procura proteger a sua filha, uma adolescente que se encontra a ser perseguida por traficantes de droga. O filme conta no elenco com Mel Gibson, Elisabeth Röhm, William H. Macy, Diego Luna, Raoul Max Trujillo, Erin Moriarty, entre outros.
"Blood Father" estreia a 12 de Agosto de 2016 nos EUA.
O enredo de "Blood Father" centra-se num antigo condenado (Mel Gibson) que procura proteger a sua filha, uma adolescente que se encontra a ser perseguida por traficantes de droga. O filme conta no elenco com Mel Gibson, Elisabeth Röhm, William H. Macy, Diego Luna, Raoul Max Trujillo, Erin Moriarty, entre outros.
"Blood Father" estreia a 12 de Agosto de 2016 nos EUA.
Alicia Vikander e Michael Fassbender no poster de "The Light Between Oceans"
Foi divulgado um poster da adaptação
cinematográfica
de "The Light Between Oceans", um livro escrito por M.L. Stedman. O poster centra-se nos personagens interpretados por Alicia Vikander e Michael Fassbender. Via Flickering Myth e IMP Awards.
O filme é realizado por Derek Cianfrance ("Blue Valentine"), através do argumento do próprio. "The Light Between Oceans" conta no elenco com Rachel Weisz ("The Mummy"), Michael Fassbender ("Shame"), Alicia Vikander ("The Man From U.N.C.L.E.), entre outros.
O enredo de "The Light Between Oceans" desenrola-se na Austrália, algum tempo depois da I Guerra Mundial. A história acompanha o guarda de um farol e a sua esposa, um casal que encontra um barco perdido onde se encontra uma bebé de dois meses. Estes decidem educar a bebé, mas aquilo que parecia ser uma bênção logo se transforma em algo trágico, com a moralidade e o amor a serem colocados à prova.
"The Light Between Oceans" estreia a 2 de Setembro de 2016 nos EUA.
O filme é realizado por Derek Cianfrance ("Blue Valentine"), através do argumento do próprio. "The Light Between Oceans" conta no elenco com Rachel Weisz ("The Mummy"), Michael Fassbender ("Shame"), Alicia Vikander ("The Man From U.N.C.L.E.), entre outros.
O enredo de "The Light Between Oceans" desenrola-se na Austrália, algum tempo depois da I Guerra Mundial. A história acompanha o guarda de um farol e a sua esposa, um casal que encontra um barco perdido onde se encontra uma bebé de dois meses. Estes decidem educar a bebé, mas aquilo que parecia ser uma bênção logo se transforma em algo trágico, com a moralidade e o amor a serem colocados à prova.
"The Light Between Oceans" estreia a 2 de Setembro de 2016 nos EUA.
05 julho 2016
Resenha Crítica: "Equals" (Iguais)
Drake Doremus é um cineasta competente a conceder uma atenção indelével aos "pequenos gestos" que contam com um enorme significado, bem como a abordar a complexidade dos sentimentos humanos e
das relações amorosas. Foi assim em "Like Crazy" e "Breathe In", dois filmes pontuados por uma enorme atenção aos gestos, aos olhares e aos silêncios dos personagens, com o cineasta a repetir a façanha em "Equals", uma obra cinematográfica que reúne elementos de ficção-científica e romance (mais romance do que ficção-científica). Doremus percebe o poder dos close-ups, das mãos que se entrelaçam, dos pés que se tocam, dos
olhares que tanto transmitem, do desejo que nasce e do amor que floresce, enquanto aproveita a química convincente entre Kristen Stewart e Nicholas Hoult, a dupla de protagonistas. O romance entre os protagonistas é bem desenvolvido e aproveitado por Drake Doremus, embora o cineasta pareça estar sempre mais à vontade a abordar esta relação do que a explorar o contexto e os elementos que rodeiam os personagens interpretados por Kristen Stewart e Nicholas Hoult. Este contexto futurista permite que Drake Doremus efectue alguns comentários
sobre a sociedade actual, com "Equals" a abordar temáticas como a solidão, a necessidade de sentirmos e expormos as
nossas emoções, o excesso de rotinas, enquanto nos apresenta a um futuro distópico onde o planeta Terra se encontra dividido em duas zonas, nomeadamente, o "Colectivo" e a Península. Esta divisão ocorreu
após um conflito bélico que destruiu boa parte da Terra, com a Península a ser descrita como uma área
selvagem e primitiva, onde os seres humanos vivem de acordo com as
emoções e os desejos. Por sua vez, o espaço do "Colectivo" é dominado pela frieza, com tudo e todos a estarem proibidos de evidenciarem sentimentos ou emoções. As tonalidades azuis,
brancas e cinzentas dominam este local, com a arquitectura a transmitir a frieza do espaço onde os protagonistas habitam e laboram (bom trabalho na elaboração dos cenários e no aproveitamento dos mesmos ao serviço do enredo). Quase todos os habitantes do "Colectivo" vestem-se de
branco, procuram dialogar de maneira lacónica, escolhem as suas refeições de forma praticamente mecânica, com as rotinas dos personagens a serem maioritariamente
seleccionadas pelos elementos que regem este espaço, embora as
"anomalias" comecem a surgir em grande número. De acordo com os responsáveis deste espaço, as "anomalias" acontecem devido a uma doença denominada de S.O.S. (Switched on syndrome), com os sintomas a consistirem no facto dos personagens começarem a sentir emoções, uma situação aparentemente inesperada. Todos os habitantes do "Colectivo", denominados de "iguais", são incentivados a evitarem o toque e as emoções, bem como a denunciarem aqueles que necessitam de "tratamento", com o território a encontrar-se dotado de enormes medidas de segurança. As alterações genéticas (tendo em vista a "adormecer" a capacidade dos "iguais" sentirem emoções), as apertadas regras de segurança, a proibição de relações amorosas, surgem como medidas repressivas que foram criadas pelos líderes do "Colectivo", com estes elementos a procurarem evitar novos conflitos bélicos, embora privem os habitantes desta área territorial de algo essencial, ou seja, sentirem emoções, com a dupla de protagonistas a quebrar estes regulamentos.
As relações amorosas e o sexo são proibidos, com as mulheres a terem filhos por inseminação, enquanto tudo e todos são sujeitos a regras rígidas que apenas são questionadas por uma minoria. Os cidadãos desta sociedade repressiva são considerados quase todos como "iguais", com o seu quotidiano a ser excessivamente controlado, embora a dupla de protagonistas consiga transgredir as leis locais e iniciar um romance "proibido". O contexto que rodeia os protagonistas é exposto logo nos momentos iniciais, com Drake Doremus a aproveitar para informar o espectador sobre as regras e o quotidiano dos habitantes e trabalhadores do "Colectivo", enquanto nos apresenta a Silas (Nicholas) e Nia (Kristen Stewart), os personagens principais. Um dos personagens que começa a "padecer" da suposta "anomalia" é Silas, um ilustrador que sente uma estranha atracção por Nia, uma escritora que desperta as emoções adormecidas deste indivíduo. Nia e Silas laboram no Atmos, um jornal dedicado às ciências e recolha de informação, com a a nova condição do segundo a começar afectar o seu desempenho no local de trabalho. Nicholas Hoult efectua uma composição competente do personagem que interpreta, com o actor a convencer em relação ao arco de Silas e às mudanças conhecidas pelo protagonista ao longo de "Equals" (a ambiguidade transmitida por Silas nos momentos finais do filme exibem paradigmaticamente o bom trabalho de Hoult). Silas é apresentado inicialmente como uma figura fria, que conta com um quotidiano monótono e desprovido de sentimento, fruto da educação que teve desde a infância e do facto dos seus genes terem sido modificados antes de ter nascido, algo que supostamente permitiria evitar que este contasse com "emoções" (um método aplicado a todos os habitantes do "Colectivo"). Tudo muda quando Silas começa a sentir emoções e depara-se com uma série de sensações novas, algo expresso de forma muito assertiva por Nicholas Hoult. O design sonoro contribui para adensar estas mudanças de Silas, algo notório quando encontramos o protagonista a mastigar os alimentos ou a cheirar Nia, com os sons destes gestos a serem bem audíveis. A própria voz da personagem interpretada por Kristen Stewart começa a provocar um estranho fascínio em Silas, com este a apreciar a presença de Nia como provavelmente nunca esperaria. A dinâmica entre a dupla de protagonistas não é estabelecida de forma imediata e extemporânea, com Drake Doremus a dar tempo para Silas conviver com a estranha sensação de sentir, ter dúvidas e questionar toda a realidade que o rodeia. Como conviver com algo considerado proibido? Como encarar o despertar de sensações até então desconhecidas? Silas procura conter as suas emoções e escondê-las daqueles que o rodeiam, tal como Nia. Kristen Stewart tem mais uma interpretação de bom nível, com a actriz a surgir como o exemplo paradigmático de uma intérprete que soube contornar o estigma negativo que existia sobre a sua pessoa e utilizar algumas das suas limitações ao serviço do seu trabalho. Nesse sentido, Kristen Stewart surpreende com uma interpretação pontuada pela subtileza, pela capacidade de expor e esconder imenso com o seu olhar, ou Nia não surgisse como uma personagem que procura ludibriar tudo e todos. Nia pode e consegue sentir, embora evite demonstrar as suas emoções, apesar de Silas colocar os seus planos em causa, com ambos a formarem uma relação secreta que tem tudo para correr mal.
A certa altura de "Equals", um indivíduo comete suicídio. Tudo e todos observam o acontecimento como se nada de relevante tivesse acontecido. No entanto, Silas repara em Nia, enquanto a câmara de filmar expõe aquilo que este personagem observa. O olhar da personagem interpretada por Kristen Stewart demonstra que esta sentiu algo e sabe mais do que pode falar, enquanto um plano fechado sobre a mão de Nia exibe que a protagonista não ficou indiferente ao episódio. Diga-se que a cinematografia, a banda sonora, o trabalho de montagem, as interpretações de Hoult e Stewart contribuem para a relevância deste momento, com "Equals" a alternar entre close-ups extremos dos olhos e lábios de Nia, bem como das mãos desta, mesclados com planos aproximados de Silas, enquanto ficamos ainda diante de algumas explicações sobre o suicídio, com tudo a contribuir para que este trecho se torne num dos pedaços mais memoráveis do filme. Drake Doremus deixa-nos diante de um momento-chave de "Equals", com o cineasta incutir uma relevância notória aos gestos e aos olhares da dupla de protagonistas. É nesse momento que Silas percebe definitivamente que Nia é diferente, que esta nutre emoções, embora tente controlar as mesmas, com o próprio ilustrador a começar a deparar-se com um conjunto de sentimentos que desconhecia e parece incapaz de conter. Aos poucos, Silas procura conhecer mais informações sobre Nia, até iniciarem um romance no interior deste espaço pontuado pela alta vigilância, onde aqueles que quebram as regras são "convidados" a cometerem suicídio, embora a dupla de protagonistas procure fintar essa possibilidade. Os cenários e a sociedade quase totalitária que rodeia Nia e Silas contribuem para toda uma atmosfera de frieza, embora os sentimentos partilhados por esta dupla estejam longe de ser desprovidos de calor, amor e desejo. É certo que o contexto que rodeia Nia e Silas poderia e deveria ter sido abordado com mais complexidade e irreverência, mas Drake Doremus prefere apostar quase todas as suas fichas no desenvolvimento da relação da dupla de protagonistas, acertando por completo neste quesito, embora exija muitas das vezes que desliguemos o nosso lado mais pragmático quando se trata de conseguir que acreditemos no meio que rodeia os personagens principais (o argumento de Nathan Parker conta com alguns desequilíbrios). Veja-se a facilidade com que a dupla de protagonistas se reúne de forma furtiva, uma situação relativamente incoerente com o contexto que nos é apresentado, sobretudo se tivermos em conta que Nia e Silas vivem no interior de uma sociedade distópica, altamente vigiada, onde a exibição das emoções são proibidas. As temáticas abordadas por "Equals" não são propriamente novas, com Drake Doremus a estar consciente disso, com "Equals" a sobressair exactamente pela sua dupla de protagonistas. Diga-se que as referências de "Equals" parecem ir desde "1984, passando por "Fahrenheit 451", até "Romeu e Julieta", com o filme realizado por Drake Doremus a abordar temáticas como a repressão protagonizada por um Governo excessivamente controlador, a proibição do livre arbítrio, entre outras, não faltando pelo caminho a simulação de uma morte, um acto que pode trazer consequências desastrosas.
Doremus demonstra novamente que é um excelente condutor de actores, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a beneficiarem não só de contarem com uma química indelével, mas também de um argumento que constrói uma dupla de protagonistas que capta facilmente a atenção e um cineasta que sabe explorar as especificidades das relações amorosas. No entanto, Doremus volta a exibir um dos seus calcanhares de Aquiles, em particular, a falta de desenvolvimento de personagens secundários, algo que remete intérpretes como Bel Powley (como uma habitante do "Colectivo") para um degradante plano secundário, bem como David Selby (como um dos elementos que coordenam o Atmos). Já Guy Pearce ("a musa" de Doremus) tem melhor sorte, bem como Jacki Weaver. Pearce interpreta um elemento que "padece" de S.O.S., com o actor a exibir a simpatia e as fragilidades emocionais deste personagem que participa num grupo de apoio secreto onde consta Bess (Weaver), uma Médica da DEN (Unidade de Neuropatias Emocionais Defeituosas). Bess consegue esconder que é capaz de sentir emoções, tal como Nia, com a primeira e Jonas (Pearce) a contarem com alguma relevância no último terço, embora Doremus nem sempre explore assertivamente a trama do grupo de apoio. Nia e Silas estão no centro de tudo, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a assumirem a responsabilidade desta tarefa e a convencerem em relação aos sentimentos que se desenvolvem entre estes personagens. O local onde Silas e Nia se reúnem habitualmente, pontuado pelas tonalidades azuis, ganha características especiais devido aos momentos românticos protagonizados por estes personagens, com Drake Doremus a entrar num terreno onde é perito. Um simples abraço, uma mão que toca na outra, um beijo, um olhar trocado entre Nia e Silas, tudo parece ganhar um poder e romantismo notório graças à atmosfera criada por Drake Doremus e à sua capacidade em compreender a complexidade das relações amorosas. No caso de "Equals", a relação da dupla de protagonistas conhece ainda alguns perigos, sobretudo se ambos forem descobertos ou obrigados a tomarem inibidores que adormecem a capacidade de sentir, com Drake Doremus a fazer questão de nos relembrar regularmente destas possibilidades, algo latente quando diversos elementos descobrem que Silas padece de S.O.S. Esta "doença" conta com diferentes estágios, com "Equals" a simular que vai entrar pelo caminho de uma alegoria à SIDA, embora Nathan Parker e Drake Doremus não estejam para aí virados (a falta de complexidade e ambição é um dos problemas de "Equals"). O cineasta incute ainda algum lirismo a esta obra cinematográfica pontuada por alguns planos requintados, com Drake Doremus a completar com algum sucesso esta sua trilogia informal sobre o "amor". Em "Moulin Rouge", Christian, o personagem interpretado por Ewan McGregor salienta que "The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return". Duvido muito que o personagem principal de "Equals" discorde desta frase de Christian, com o romance da dupla de protagonistas a convencer e de que maneira, com Nia e Silas a mudarem a vida um do outro. Romance terno e delicado, pontuado por alguns elementos de ficção-científica, "Equals" compensa a sua falta de ambição com a capacidade de Drake Doremus desenvolver o relacionamento da dupla de protagonistas e atribuir uma atenção notória às "pequenas" subtilezas que envolvem a relação de Nia e Silas, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a convencerem como este casal que desperta a simpatia do espectador.
Título original: "Equals".
Título em Portugal: "Iguais".
Realizador: Drake Doremus.
Argumento: Nathan Parker.
Elenco: Nicholas Hoult, Kristen Stewart, Guy Pearce, Jacki Weaver.
As relações amorosas e o sexo são proibidos, com as mulheres a terem filhos por inseminação, enquanto tudo e todos são sujeitos a regras rígidas que apenas são questionadas por uma minoria. Os cidadãos desta sociedade repressiva são considerados quase todos como "iguais", com o seu quotidiano a ser excessivamente controlado, embora a dupla de protagonistas consiga transgredir as leis locais e iniciar um romance "proibido". O contexto que rodeia os protagonistas é exposto logo nos momentos iniciais, com Drake Doremus a aproveitar para informar o espectador sobre as regras e o quotidiano dos habitantes e trabalhadores do "Colectivo", enquanto nos apresenta a Silas (Nicholas) e Nia (Kristen Stewart), os personagens principais. Um dos personagens que começa a "padecer" da suposta "anomalia" é Silas, um ilustrador que sente uma estranha atracção por Nia, uma escritora que desperta as emoções adormecidas deste indivíduo. Nia e Silas laboram no Atmos, um jornal dedicado às ciências e recolha de informação, com a a nova condição do segundo a começar afectar o seu desempenho no local de trabalho. Nicholas Hoult efectua uma composição competente do personagem que interpreta, com o actor a convencer em relação ao arco de Silas e às mudanças conhecidas pelo protagonista ao longo de "Equals" (a ambiguidade transmitida por Silas nos momentos finais do filme exibem paradigmaticamente o bom trabalho de Hoult). Silas é apresentado inicialmente como uma figura fria, que conta com um quotidiano monótono e desprovido de sentimento, fruto da educação que teve desde a infância e do facto dos seus genes terem sido modificados antes de ter nascido, algo que supostamente permitiria evitar que este contasse com "emoções" (um método aplicado a todos os habitantes do "Colectivo"). Tudo muda quando Silas começa a sentir emoções e depara-se com uma série de sensações novas, algo expresso de forma muito assertiva por Nicholas Hoult. O design sonoro contribui para adensar estas mudanças de Silas, algo notório quando encontramos o protagonista a mastigar os alimentos ou a cheirar Nia, com os sons destes gestos a serem bem audíveis. A própria voz da personagem interpretada por Kristen Stewart começa a provocar um estranho fascínio em Silas, com este a apreciar a presença de Nia como provavelmente nunca esperaria. A dinâmica entre a dupla de protagonistas não é estabelecida de forma imediata e extemporânea, com Drake Doremus a dar tempo para Silas conviver com a estranha sensação de sentir, ter dúvidas e questionar toda a realidade que o rodeia. Como conviver com algo considerado proibido? Como encarar o despertar de sensações até então desconhecidas? Silas procura conter as suas emoções e escondê-las daqueles que o rodeiam, tal como Nia. Kristen Stewart tem mais uma interpretação de bom nível, com a actriz a surgir como o exemplo paradigmático de uma intérprete que soube contornar o estigma negativo que existia sobre a sua pessoa e utilizar algumas das suas limitações ao serviço do seu trabalho. Nesse sentido, Kristen Stewart surpreende com uma interpretação pontuada pela subtileza, pela capacidade de expor e esconder imenso com o seu olhar, ou Nia não surgisse como uma personagem que procura ludibriar tudo e todos. Nia pode e consegue sentir, embora evite demonstrar as suas emoções, apesar de Silas colocar os seus planos em causa, com ambos a formarem uma relação secreta que tem tudo para correr mal.
A certa altura de "Equals", um indivíduo comete suicídio. Tudo e todos observam o acontecimento como se nada de relevante tivesse acontecido. No entanto, Silas repara em Nia, enquanto a câmara de filmar expõe aquilo que este personagem observa. O olhar da personagem interpretada por Kristen Stewart demonstra que esta sentiu algo e sabe mais do que pode falar, enquanto um plano fechado sobre a mão de Nia exibe que a protagonista não ficou indiferente ao episódio. Diga-se que a cinematografia, a banda sonora, o trabalho de montagem, as interpretações de Hoult e Stewart contribuem para a relevância deste momento, com "Equals" a alternar entre close-ups extremos dos olhos e lábios de Nia, bem como das mãos desta, mesclados com planos aproximados de Silas, enquanto ficamos ainda diante de algumas explicações sobre o suicídio, com tudo a contribuir para que este trecho se torne num dos pedaços mais memoráveis do filme. Drake Doremus deixa-nos diante de um momento-chave de "Equals", com o cineasta incutir uma relevância notória aos gestos e aos olhares da dupla de protagonistas. É nesse momento que Silas percebe definitivamente que Nia é diferente, que esta nutre emoções, embora tente controlar as mesmas, com o próprio ilustrador a começar a deparar-se com um conjunto de sentimentos que desconhecia e parece incapaz de conter. Aos poucos, Silas procura conhecer mais informações sobre Nia, até iniciarem um romance no interior deste espaço pontuado pela alta vigilância, onde aqueles que quebram as regras são "convidados" a cometerem suicídio, embora a dupla de protagonistas procure fintar essa possibilidade. Os cenários e a sociedade quase totalitária que rodeia Nia e Silas contribuem para toda uma atmosfera de frieza, embora os sentimentos partilhados por esta dupla estejam longe de ser desprovidos de calor, amor e desejo. É certo que o contexto que rodeia Nia e Silas poderia e deveria ter sido abordado com mais complexidade e irreverência, mas Drake Doremus prefere apostar quase todas as suas fichas no desenvolvimento da relação da dupla de protagonistas, acertando por completo neste quesito, embora exija muitas das vezes que desliguemos o nosso lado mais pragmático quando se trata de conseguir que acreditemos no meio que rodeia os personagens principais (o argumento de Nathan Parker conta com alguns desequilíbrios). Veja-se a facilidade com que a dupla de protagonistas se reúne de forma furtiva, uma situação relativamente incoerente com o contexto que nos é apresentado, sobretudo se tivermos em conta que Nia e Silas vivem no interior de uma sociedade distópica, altamente vigiada, onde a exibição das emoções são proibidas. As temáticas abordadas por "Equals" não são propriamente novas, com Drake Doremus a estar consciente disso, com "Equals" a sobressair exactamente pela sua dupla de protagonistas. Diga-se que as referências de "Equals" parecem ir desde "1984, passando por "Fahrenheit 451", até "Romeu e Julieta", com o filme realizado por Drake Doremus a abordar temáticas como a repressão protagonizada por um Governo excessivamente controlador, a proibição do livre arbítrio, entre outras, não faltando pelo caminho a simulação de uma morte, um acto que pode trazer consequências desastrosas.
Doremus demonstra novamente que é um excelente condutor de actores, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a beneficiarem não só de contarem com uma química indelével, mas também de um argumento que constrói uma dupla de protagonistas que capta facilmente a atenção e um cineasta que sabe explorar as especificidades das relações amorosas. No entanto, Doremus volta a exibir um dos seus calcanhares de Aquiles, em particular, a falta de desenvolvimento de personagens secundários, algo que remete intérpretes como Bel Powley (como uma habitante do "Colectivo") para um degradante plano secundário, bem como David Selby (como um dos elementos que coordenam o Atmos). Já Guy Pearce ("a musa" de Doremus) tem melhor sorte, bem como Jacki Weaver. Pearce interpreta um elemento que "padece" de S.O.S., com o actor a exibir a simpatia e as fragilidades emocionais deste personagem que participa num grupo de apoio secreto onde consta Bess (Weaver), uma Médica da DEN (Unidade de Neuropatias Emocionais Defeituosas). Bess consegue esconder que é capaz de sentir emoções, tal como Nia, com a primeira e Jonas (Pearce) a contarem com alguma relevância no último terço, embora Doremus nem sempre explore assertivamente a trama do grupo de apoio. Nia e Silas estão no centro de tudo, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a assumirem a responsabilidade desta tarefa e a convencerem em relação aos sentimentos que se desenvolvem entre estes personagens. O local onde Silas e Nia se reúnem habitualmente, pontuado pelas tonalidades azuis, ganha características especiais devido aos momentos românticos protagonizados por estes personagens, com Drake Doremus a entrar num terreno onde é perito. Um simples abraço, uma mão que toca na outra, um beijo, um olhar trocado entre Nia e Silas, tudo parece ganhar um poder e romantismo notório graças à atmosfera criada por Drake Doremus e à sua capacidade em compreender a complexidade das relações amorosas. No caso de "Equals", a relação da dupla de protagonistas conhece ainda alguns perigos, sobretudo se ambos forem descobertos ou obrigados a tomarem inibidores que adormecem a capacidade de sentir, com Drake Doremus a fazer questão de nos relembrar regularmente destas possibilidades, algo latente quando diversos elementos descobrem que Silas padece de S.O.S. Esta "doença" conta com diferentes estágios, com "Equals" a simular que vai entrar pelo caminho de uma alegoria à SIDA, embora Nathan Parker e Drake Doremus não estejam para aí virados (a falta de complexidade e ambição é um dos problemas de "Equals"). O cineasta incute ainda algum lirismo a esta obra cinematográfica pontuada por alguns planos requintados, com Drake Doremus a completar com algum sucesso esta sua trilogia informal sobre o "amor". Em "Moulin Rouge", Christian, o personagem interpretado por Ewan McGregor salienta que "The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return". Duvido muito que o personagem principal de "Equals" discorde desta frase de Christian, com o romance da dupla de protagonistas a convencer e de que maneira, com Nia e Silas a mudarem a vida um do outro. Romance terno e delicado, pontuado por alguns elementos de ficção-científica, "Equals" compensa a sua falta de ambição com a capacidade de Drake Doremus desenvolver o relacionamento da dupla de protagonistas e atribuir uma atenção notória às "pequenas" subtilezas que envolvem a relação de Nia e Silas, com Kristen Stewart e Nicholas Hoult a convencerem como este casal que desperta a simpatia do espectador.
Título original: "Equals".
Título em Portugal: "Iguais".
Realizador: Drake Doremus.
Argumento: Nathan Parker.
Elenco: Nicholas Hoult, Kristen Stewart, Guy Pearce, Jacki Weaver.
04 julho 2016
Resenha Crítica: "La Loi du Marché" (A Lei do Mercado)
Vincent Lindon tem uma interpretação pontuada pela subtileza e pela contenção na exposição dos sentimentos em "La Loi du Marché", com o actor a transmitir a tentativa de Thierry Taugourdeau, o personagem que interpreta, um indivíduo na casa dos cinquenta anos de idade, em manter a humanidade num meio selvagem como o mercado de trabalho. Taugourdeau é um antigo operário que se encontra desempregado há quinze meses, sendo casado e pai de Matthieu (Matthieu Schaller), um adolescente que padece de paralisia cerebral, com "La Loi du Marché" a abordar assertivamente as preocupações profissionais e pessoais do protagonista. Thierry procura ultrapassar esta fase problemática da sua vida,
algo que o conduz a desistir de lutar ao lado de antigos colegas e
sindicalistas contra a empresa que o despediu, com o protagonista a preferir centrar os esforços na busca por um emprego. O antigo operário está consciente de que manter esta batalha quixotesca não vai resolver os seus problemas imediatos, ou seja, encontrar um novo trabalho e alcançar a estabilidade necessária para pagar as contas, sejam estas inerentes aos estudos do filho ou à renda da casa, com Thierry a ser obrigado a optar por uma atitude pragmática, embora tenha sentido na pele os efeitos do despedimento. O despedimento de Thierry reflecte toda uma problemática inerente à sociedade contemporânea, em particular, a procura das grandes empresas lucrarem cada vez mais, ignorando o trabalhador, algo que Stéphane Brizé salienta no press kit do filme: "This man is not kicked out because he didn’t do his job well. He’s kicked out because some people want to make more money. Thierry is the mechanical consequence of a few invisible shareholders whose bank accounts needed a boost. He is the face of the unemployment statistics we hear about everyday in the news". A vida de Thierry não está fácil. No centro de emprego atiram com Thierry para o interior de cursos inúteis, as entrevistas de trabalho ganham contornos completamente desumanos e caricatos, as reuniões no banco atingem proporções revoltantes apesar do protagonista estar a pagar as contas, com as aulas de dança a parecerem os únicos momentos em que o personagem principal tem espaço para descontrair. Thierry procura manter a dignidade e a postura, mesmo quando se depara com situações delicadas e propiciadoras de outro tipo de comportamentos, com Vincent Lindon a compor um personagem que permite abordar uma série de questões sobre o mercado de trabalho, o capitalismo e a desumanização que por vezes paira pela nossa sociedade. A semelhança entre alguns episódios de "La Loi du Marché" e a realidade não são mera coincidência, com Stéphane Brizé a realizar uma obra cinematográfica com um forte pendor social, pouco dada a situações melodramáticas, com o exemplo de Thierry a servir para o cineasta abordar problemáticas mais latas. Nesse sentido, Stéphane Brizé aborda temáticas relacionadas com o desemprego, as políticas laborais desumanas (veja-se as tentativas gerência de um hipermercado para que os funcionários com mais tempo de duração sejam despedidos), a ineficácia dos centros de emprego e os seus cursos de formação, com o contexto francês a não ser assim tão distante do caso português. Stéphane Brizé realiza um filme de ficção que procura despertar a atenção do espectador para problemas reais, com o cineasta a problematizar as temáticas que apresenta, enquanto evita efectuar uma abordagem unidimensional sobre a nossa sociedade e o mercado laboral.
Aquilo que nos é apresentado ao longo de "La Loi du Marché" é o reflexo de uma sociedade que tarda em recuperar de uma grave crise económica, social e de valores, com as medidas de combate ao desemprego a parecerem incapazes de surtirem efeito e desfasadas da realidade (ignorar as desistências de inscrições nos centros de emprego é "batota"), enquanto a precariedade no mercado laboral conduz a uma série de situações desagradáveis para aqueles que tardam em conseguir encontrar trabalho. Veja-se quando encontramos Thierry numa reunião caricata e humilhante no centro de emprego onde o seu modo de agir nas entrevistas é analisado e debatido quer pelo "professor", quer pelos colegas, com "La Loi du Marché" a exibir o desconforto do protagonista diante das críticas que lhe são feitas, embora este tente aceitar as mesmas de forma ponderada. É certo que Thierry não é a figura mais polida ou eloquente mas, na prática, aquilo que lhe pedem é para pura e simplesmente mentir nas entrevistas, tendo em vista a transmitir uma imagem que não corresponde à sua pessoa. Diga-se que este não é o único episódio caricato de Thierry no centro de emprego. No início de "La Loi du Marché", encontramos Thierry no interior do centro de emprego, a dialogar com o funcionário deste local. A troca de palavras não poderia ser mais honesta e devastadora, com "La Loi du Marché" a dar um murro no estômago do espectador desde o início, enquanto ficamos diante da realidade inerente à puerilidade como os cursos do centro de emprego são organizados, bem como das respostas padronizadas dos funcionários destes espaços. Na teoria, o curso que Thierry concluiu poderia e deveria ter servido para este encontrar uma solução profissional, embora o protagonista não consiga encontrar trabalho devido a não ter experiência na função, ou seja, andou a perder tempo para nada. O funcionário do centro de emprego (Yves Dry) faz questão de salientar que as entidades empregadoras é que fazem o recrutamento, enquanto assume o erro de terem colocado o protagonista (e várias outras pessoas sem experiência) no curso, apresentando uma postura própria de quem lida com diversos casos do género, com este a ser um dos muitos fragmentos do quotidiano de Thierry que nos é apresentado ao longo de "La Loi du Marché". Stéphane Brizé opta por uma estrutura narrativa relativamente episódica, que nos dá a conhecer um pouco da realidade que envolve o protagonista, algo que vai desde este episódio no centro de emprego, passando por uma entrevista escabrosa via Skype, até a uma incursão de Thierry pelo trabalho de segurança, com as elipses a serem utilizadas de forma praticamente irretocável. Filmado com um estilo quase documental, com o trabalho de Éric Dumont na cinematografia a contribuir e muito para o tom "realista" do filme (a câmara na mão é utilizada de forma amiúde), "La Loi du Marché" permite que Vincent Lindon sobressaia, bem como diversos elementos secundários, com Stéphane Brizé a optar regularmente por actores e actrizes não profissionais para acompanharem a estrela da companhia, algo que contribui para atribuir maior credibilidade à representação do quotidiano do protagonista, sobretudo quando Thierry trabalha como segurança de um hipermercado. Stéphane Brizé opta muitas das vezes por nos colocar diante das imagens a partir da perspectiva das câmaras de segurança, enquanto nos deixa perante as práticas dos seguranças, com estes a terem de lidar com uma série de situações que prometem provocar dilemas morais no interior da mente do protagonista. Tanto encontramos o chico-esperto que rouba um carregador de um telemóvel como somos colocados diante de um indivíduo que não tem dinheiro e rouba uma embalagem de carne, com os procedimentos para ambos os casos a serem semelhantes, enquanto Vincent Lindon exibe a procura de Thierry em manter a calma, com o protagonista a não parecer confortável nesta função.
Stéphane Brizé desenvolve a história de Thierry de forma praticamente imaculada, com o cineasta a expor a série de problemas e humilhações com que o protagonista se deparou, até colocá-lo num emprego onde tem de aplicar actos quase tão desumanos como aqueles com os quais teve de lidar durante boa parte da narrativa. Essa situação é visível quando tem de confrontar colegas que trabalham na caixa, com estas a cometerem irregularidades que têm de ser denunciadas pelos seguranças, algo que coloca o emprego das mesmas em risco. Nesse sentido, Stéphane Brizé opta por expor quer a perspectiva da empresa que procura despedir funcionários, quer a do trabalhador que acaba por cometer erros que precipitam os intentos da entidade empregadora. Thierry nem sempre parece estar preparado para lidar com estas situações, embora não o demonstre de forma paradigmática, com Vincent Lindon a incutir algum mistério a este personagem bastante contido na exposição das emoções, com a nova parceria entre o actor e Stéphane Brizé a funcionar na perfeição. Diga-se que Stéphane Brizé soube rodear-se de uma equipa competente, com nada a parecer ter sido deixado ao acaso, algo latente na escolha do director de fotografia, uma situação comentada pelo cineasta: "(...) I chose to take on a cinematographer who had only made documentaries. I wanted someone who was used to being completely autonomous with framing, focussing and aperture. I worked with Éric Dumont, a young director of photography, who was barely 30 years old and had never shot a fiction film (...)". No entanto, um dos maiores poderes de "La Loi du Marché" é a sua capacidade de transmitir as temáticas sem contemplações ou falsos moralismos, com Stéphane Brizé a criar um drama poderoso, que nos faz reflectir sobre a nossa sociedade, bem como sobre qual seria a nossa reacção se estivéssemos na mesma situação de Thierry. A própria capacidade de fugir aos clichés é algo de elogiar, com "La Loi du Marché" a efectuar uma representação dos seguranças que foge aos estereótipos relacionados com esta profissão, com o protagonista e os colegas a procurarem evitar os furtos na loja, embora Thierry não pareça ter "estômago" para lidar com a aspereza do quotidiano neste espaço. O argumento é elevado pela realização segura de Stéphane Brizé, com "La Loi du Marché" a abordar com enorme acerto a procura de Thierry encontrar emprego, a relação deste com a esposa e o filho, a preocupação com o rendimento escolar do adolescente, os novos dilemas com que o protagonista se depara quando trabalha como segurança, enquanto o cineasta realiza um drama social que promete figurar nas listas os melhores filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas em 2016.
Título original: "La Loi du Marché".
Título em Portugal: "A Lei do Mercado".
Realizador: Stéphane Brizé.
Argumento: Stéphane Brizé e Olivier Gorce.
Elenco: Vincent Lindon, Matthieu Schaller, Karine De Mirbeck, Yves Ory.
Aquilo que nos é apresentado ao longo de "La Loi du Marché" é o reflexo de uma sociedade que tarda em recuperar de uma grave crise económica, social e de valores, com as medidas de combate ao desemprego a parecerem incapazes de surtirem efeito e desfasadas da realidade (ignorar as desistências de inscrições nos centros de emprego é "batota"), enquanto a precariedade no mercado laboral conduz a uma série de situações desagradáveis para aqueles que tardam em conseguir encontrar trabalho. Veja-se quando encontramos Thierry numa reunião caricata e humilhante no centro de emprego onde o seu modo de agir nas entrevistas é analisado e debatido quer pelo "professor", quer pelos colegas, com "La Loi du Marché" a exibir o desconforto do protagonista diante das críticas que lhe são feitas, embora este tente aceitar as mesmas de forma ponderada. É certo que Thierry não é a figura mais polida ou eloquente mas, na prática, aquilo que lhe pedem é para pura e simplesmente mentir nas entrevistas, tendo em vista a transmitir uma imagem que não corresponde à sua pessoa. Diga-se que este não é o único episódio caricato de Thierry no centro de emprego. No início de "La Loi du Marché", encontramos Thierry no interior do centro de emprego, a dialogar com o funcionário deste local. A troca de palavras não poderia ser mais honesta e devastadora, com "La Loi du Marché" a dar um murro no estômago do espectador desde o início, enquanto ficamos diante da realidade inerente à puerilidade como os cursos do centro de emprego são organizados, bem como das respostas padronizadas dos funcionários destes espaços. Na teoria, o curso que Thierry concluiu poderia e deveria ter servido para este encontrar uma solução profissional, embora o protagonista não consiga encontrar trabalho devido a não ter experiência na função, ou seja, andou a perder tempo para nada. O funcionário do centro de emprego (Yves Dry) faz questão de salientar que as entidades empregadoras é que fazem o recrutamento, enquanto assume o erro de terem colocado o protagonista (e várias outras pessoas sem experiência) no curso, apresentando uma postura própria de quem lida com diversos casos do género, com este a ser um dos muitos fragmentos do quotidiano de Thierry que nos é apresentado ao longo de "La Loi du Marché". Stéphane Brizé opta por uma estrutura narrativa relativamente episódica, que nos dá a conhecer um pouco da realidade que envolve o protagonista, algo que vai desde este episódio no centro de emprego, passando por uma entrevista escabrosa via Skype, até a uma incursão de Thierry pelo trabalho de segurança, com as elipses a serem utilizadas de forma praticamente irretocável. Filmado com um estilo quase documental, com o trabalho de Éric Dumont na cinematografia a contribuir e muito para o tom "realista" do filme (a câmara na mão é utilizada de forma amiúde), "La Loi du Marché" permite que Vincent Lindon sobressaia, bem como diversos elementos secundários, com Stéphane Brizé a optar regularmente por actores e actrizes não profissionais para acompanharem a estrela da companhia, algo que contribui para atribuir maior credibilidade à representação do quotidiano do protagonista, sobretudo quando Thierry trabalha como segurança de um hipermercado. Stéphane Brizé opta muitas das vezes por nos colocar diante das imagens a partir da perspectiva das câmaras de segurança, enquanto nos deixa perante as práticas dos seguranças, com estes a terem de lidar com uma série de situações que prometem provocar dilemas morais no interior da mente do protagonista. Tanto encontramos o chico-esperto que rouba um carregador de um telemóvel como somos colocados diante de um indivíduo que não tem dinheiro e rouba uma embalagem de carne, com os procedimentos para ambos os casos a serem semelhantes, enquanto Vincent Lindon exibe a procura de Thierry em manter a calma, com o protagonista a não parecer confortável nesta função.
Stéphane Brizé desenvolve a história de Thierry de forma praticamente imaculada, com o cineasta a expor a série de problemas e humilhações com que o protagonista se deparou, até colocá-lo num emprego onde tem de aplicar actos quase tão desumanos como aqueles com os quais teve de lidar durante boa parte da narrativa. Essa situação é visível quando tem de confrontar colegas que trabalham na caixa, com estas a cometerem irregularidades que têm de ser denunciadas pelos seguranças, algo que coloca o emprego das mesmas em risco. Nesse sentido, Stéphane Brizé opta por expor quer a perspectiva da empresa que procura despedir funcionários, quer a do trabalhador que acaba por cometer erros que precipitam os intentos da entidade empregadora. Thierry nem sempre parece estar preparado para lidar com estas situações, embora não o demonstre de forma paradigmática, com Vincent Lindon a incutir algum mistério a este personagem bastante contido na exposição das emoções, com a nova parceria entre o actor e Stéphane Brizé a funcionar na perfeição. Diga-se que Stéphane Brizé soube rodear-se de uma equipa competente, com nada a parecer ter sido deixado ao acaso, algo latente na escolha do director de fotografia, uma situação comentada pelo cineasta: "(...) I chose to take on a cinematographer who had only made documentaries. I wanted someone who was used to being completely autonomous with framing, focussing and aperture. I worked with Éric Dumont, a young director of photography, who was barely 30 years old and had never shot a fiction film (...)". No entanto, um dos maiores poderes de "La Loi du Marché" é a sua capacidade de transmitir as temáticas sem contemplações ou falsos moralismos, com Stéphane Brizé a criar um drama poderoso, que nos faz reflectir sobre a nossa sociedade, bem como sobre qual seria a nossa reacção se estivéssemos na mesma situação de Thierry. A própria capacidade de fugir aos clichés é algo de elogiar, com "La Loi du Marché" a efectuar uma representação dos seguranças que foge aos estereótipos relacionados com esta profissão, com o protagonista e os colegas a procurarem evitar os furtos na loja, embora Thierry não pareça ter "estômago" para lidar com a aspereza do quotidiano neste espaço. O argumento é elevado pela realização segura de Stéphane Brizé, com "La Loi du Marché" a abordar com enorme acerto a procura de Thierry encontrar emprego, a relação deste com a esposa e o filho, a preocupação com o rendimento escolar do adolescente, os novos dilemas com que o protagonista se depara quando trabalha como segurança, enquanto o cineasta realiza um drama social que promete figurar nas listas os melhores filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas em 2016.
Título original: "La Loi du Marché".
Título em Portugal: "A Lei do Mercado".
Realizador: Stéphane Brizé.
Argumento: Stéphane Brizé e Olivier Gorce.
Elenco: Vincent Lindon, Matthieu Schaller, Karine De Mirbeck, Yves Ory.
03 julho 2016
Resenha Crítica: "O Filho de Saul" (Saul fia)
Saul Ausländer (Géza Röhrig) é o rosto do desespero, do descontrolo, da dor, de alguém que é obrigado a trabalhar num campo de concentração, em Auschwitz, um espaço onde a morte e os actos atrozes fazem parte da ordem do dia. É o quotidiano deste personagem que acompanhamos em "O Filho de Saul", uma obra cinematográfica emocionalmente devastadora, que nos arrasa com uma história que tem como pano de fundo um dos capítulos mais negros da História da Humanidade, em particular, o Holocausto. É o rosto de Saul que nos intriga, persegue, inquieta e marca em "O Filho de Saul", com László Nemes, o realizador, a pontuar a narrativa com um conjunto de planos fechados, maioritariamente de longa duração, compostos de forma exímia (magnífico trabalho de Mátyás Erdély na cinematografia), enquanto Géza Röhrig transforma-se em Saul e protagoniza alguns momentos poderosíssimos. O olhar de Géza Röhrig parece muitas das vezes vazio, com o intérprete a transmitir que estamos diante de um personagem habituado a esconder os sentimentos, pronto a obedecer a ordens, com os gestos do actor a contribuírem para atribuir algum mistério a Saul, um indivíduo aparentemente comum, que está longe de ser apresentado como uma figura heróica. Saul é um judeu de nacionalidade húngara, membro de um
Sonderkommando, um grupo de prisioneiros que é forçado a trabalhar em campos de concentração, com o quotidiano destes elementos a ser exposto
através do primeiro. Tal como é explicado no início de "O Filho de Saul", os
integrantes dos Sonderkommando não permaneciam muito tempo nas suas
funções, sendo exterminados após alguns meses de serviço, com os nazis a procurarem eliminar aqueles que presenciavam o extermínio dos judeus. É um trabalho
cruel e desumano, algo exposto de forma crua e claustrofóbica em "Saul fia",
com o protagonista e diversos integrantes dos Sonderkommando a serem obrigados a lavarem as
câmaras de gás, a tirarem as roupas e os bens dos prisioneiros, a
arrastarem os corpos para serem autopsiados ou cremados, com este
espaço do campo de concentração a parecer uma fábrica onde a morte e a desumanização são produzidas em massa (junte-se a esta situação o facto dos nazis procurarem colocar judeus contra judeus). A vida parece ter sido expurgada das paredes do campo de concentração, com este cenário a apresentar uma atmosfera lúgubre, onde a felicidade foi eliminada, enquanto a violência, a frieza e a morte parecem preencher todos os poros deste local. Os
prisioneiros entram em grande número, tendo na morte o destino mais
provável, com "O Filho de Saul" a abordar estes episódios negros a partir da
perspectiva de Saul, com a câmara de filmar a acompanhar regularmente o protagonista. Muito do poder de "O Filho de Saul" está naquilo
que László Nemes não exibe, com o cineasta a manter o
personagem interpretado por Géza Rörhig em foco, enquanto desfoca regularmente aquilo
que o rodeia ou deixa alguns acontecimentos decorrerem no fora de campo. Veja-se quando Saul aguarda no espaço exterior
de uma câmara de gás, enquanto ouvimos os gritos de desespero oriundos
do fora de campo, com László Nemes a não exibir as mortes, mas sim como o
protagonista vive toda esta situação desumana (uma situação que exponencia o efeito destes episódios, com o realizador a deixar a mente do espectador a funcionar). Os judeus são colocados contra judeus, algo adensado pelos estatutos hierárquicos nos Sonderkommando, com a morte a ser aguardada a qualquer momento, enquanto os representantes nazis não têm problemas em exibir a sua frieza, com László Nemes a transmitir o quotidiano negro dos campos de concentração.
O trabalho de Tamás Zányi no design de som contribui e muito para adensar a atmosfera lúgubre e claustrofóbica que domina a narrativa e o espaço do campo de concentração, uma situação notória quer nos gritos que ouvimos, quer nas vozes anónimas que surgem sem aviso. Os gritos oriundos do interior da câmara de gás (em fora de campo), os corpos que se encontram amontados pelo chão e são exibidos de forma desfocada, o fumo proveniente da incineração dos cadáveres, as vozes e os sons que marcam o espaço do campo de concentração, bem como outras situações igualmente negras, surgem como elementos que parecem praticamente saídos de um filme de terror, embora aquilo que nos é apresentado seja inspirado em factos, com László Nemes a respeitar a gravidade e complexidade dos episódios representados. László Nemes evita "embelezar" o filme ou transformar o protagonista num herói trágico, com o cineasta a transmitir que estamos diante de um cenário atroz, onde decorrem actos que representam um capítulo negro da História Mundial, com Saul a surgir quase como o nosso guia para o terror. É através dos actos de Saul e do seu quotidiano que começamos a conhecer os espaços e as gentes que rodeiam o protagonista, com a vida deste indivíduo a mudar a partir do momento em que encontra o corpo de um jovem que foi eliminado após ter sobrevivido à câmara de gás. Saul pensa que o jovem é o seu filho, algo que o leva a tentar que Miklós (Sándor Zsótér), o médico, não autopsie o petiz. O médico reluta mas não fica indiferente ao pedido de Saul, enquanto este último procura encontrar um rabino e conceder um funeral relativamente digno ao filho. Inicialmente não sabemos ao certo se o corpo pertence ao filho de Saul ou se estamos diante de um delírio do protagonista, embora a descoberta do cadáver permita que László Nemes alargue o foco da narrativa. A busca por um rabino conduz Saul a contactar com uma multitude de personagens, bem como a envolver-se por diferentes locais do campo de concentração, com Géza Rörhig a transmitir a estranha obsessão do protagonista, enquanto László Nemes nos dá a conhecer pequenos fragmentos da realidade que envolve o quotidiano do personagem principal. A tentativa de sepultar condignamente o jovem parece dar um algum sentido à vida de Saul, com o protagonista a procurar encontrar paz interior, enquanto anseia alcançar o feito de ver um corpo a ser enterrado de forma respeitável. Saul contacta inicialmente com Frankel (Jerzy Walczak), o rabino que se encontra na sua unidade, embora este rejeite correr o risco de enterrar o jovem, apesar de se oferecer para recitar o Kadish, algo que não satisfaz as pretensões do protagonista. A rejeição de Frankel conduz Saul a procurar por outro rabino, em particular, um grego conhecido como "Renegado", que se encontra a trabalhar na unidade do Oberkapo Mietek (Kamil Dobrowolski). Saul obtém esta informação graças a Abraham (Levente Molnár), um membro do Sonderkommando que defende uma atitude musculada contra os elementos das SS, procurando formar um grupo que se revolte e fuja do campo de concentração, algo que envolve a participação de homens e mulheres de outras unidades. O protagonista acaba por se envolver nos eventos que Abraham organiza com Biedermann (Urs Rechn), uma dupla que procura tomar medidas contra as atrocidades perpetradas pelos nazis, embora a preocupação principal de Saul seja encontrar um rabino e enterrar o filho. Biedermann é um Oberkapo que lidera a unidade onde se encontra Saul, com Urs Rechn a transmitir a credibilidade deste indivíduo que procura manter uma postura discreta, enquanto tenta encontrar um meio de fotografar os acontecimentos que decorrem nos campos de concentração, tendo em vista a divulgá-los para o Mundo. Saul acaba por se oferecer para ajudar Abraham e Biedermann, enquanto procura penetrar na unidade de Mietek e dialogar com o "Renegado", uma tarefa assaz complicada.
A reunião entre Saul e Mietek não é pacífica, com este último a exibir um desprezo indelével para com os judeus, enquanto tenta conservar o seu poder e estatuto no interior deste espaço. Mesmo quando assume contornos que parecem demasiado particulares, a jornada do protagonista ganha, ainda que gradualmente, toda uma dimensão alargada, ou não estivéssemos diante de alguém que procura efectuar um "acto humano" após participar em episódios completamente desumanos. A câmara de filmar segue atentamente o protagonista, parecendo movimentar-se muitas das vezes ao ritmo do mesmo, com a vida deste indivíduo a conhecer um "abanão" quando se depara com o corpo de um jovem. Esta busca de Saul, tendo em vista a conceder um enterro condigno ao filho, conduz o protagonista a participar em situações como ajudar a tirar fotografias das cremações, atirar as cinzas dos mortos para o rio, ameaçar denunciar o "Renegado" quando este se recusa a auxiliá-lo, transportar pólvora, entre outros episódios, com László Nemes a apresentar esta jornada de forma crua, conseguindo transmitir a atmosfera claustrofóbica que rodeia o dia-a-dia do personagem principal. László Nemes consegue criar a sensação de que estamos praticamente ao lado de Saul e a presenciar os acontecimentos de "O Filho de Saul" bem de perto, uma medida fulcral para potenciar o poder dos episódios exibidos, parecendo praticamente impossível ficar indiferente quer em relação àquilo que é exibido, quer aos elementos que são sugeridos. No início do filme, o espectador é colocado diante da chegada de um comboio com judeus que são obrigados a deslocarem-se para o interior dos campos de concentração, sendo guiados por membros dos Sonderkommando. Os movimentos das gentes anónimas são quase mecânicos, com os prisioneiros a surgirem propositadamente desfocados, com László Nemes a expor o enredo a partir de uma perspectiva muito particular, enquanto reproduz o quotidiano num campo de concentração. Veja-se a forma como Saul evita olhar os elementos das SS nos olhos, ou o seu modo submisso de andar, ou a maneira muito própria como este encara os episódios que o rodeiam. O próprio foco ou falta do mesmo remete a espaços para aquilo que Saul observa e concede relevância, com este a encontrar-se num meio onde a brutalidade impera. A pouca profundidade de campo contribui para adensar a atmosfera claustrofóbica que envolve o enredo, com "O Filho de Saul" a criar a incómoda situação de parecer que estamos a presenciar alguns actos atrozes que ganham um poder acrescido devido a sabermos que existiram situações iguais ou piores àquelas que são representadas ao longo do filme. Nemes procura inserir diversos elementos do contexto histórico no interior do enredo, algo mencionado no press kit de "O Filho de Saul", em particular, quando o cineasta aborda a questão das fotografias que Biedermann pretende tirar para expor aquilo que acontecia nos campos de concentração: "Something that was strictly forbidden by the SS, of course. In Birkenau, the Polish resistance was able to get one or a few cameras to the Sonderkommando in order to document the extermination. At unbelievably great risk, they were able to take a photograph just before the doors to a gas chamber were closed and then immediately afterwards: naked women approaching the shot; then their piled-up corpses, which were taken outside and burned right there on the ground. And the four photographs shown".
A noção de que esta história ficcional é inspirada em factos históricos contribui para atribuir um poder acrescido à jornada do protagonista, com László Nemes a ter a inteligência de criar um personagem principal que está longe de ser infalível ou incapaz de ser influenciado pelo meio que o rodeia. A humanidade de Saul, as suas qualidades e defeitos, a sua jornada pessoal que a espaços é entrelaçada por missões mais latas, contribuem e muito para que este personagem nos intrigue e desperte a nossa atenção, com Géza Röhrig, um actor não profissional, a contar com uma interpretação notável. Com uma marca vermelha nas costas do seu casaco, tal como diversos elementos judeus, Saul é um alvo em movimento, com este indivíduo a apresentar uma postura reservada, pouco dada a grandes ligações, uma situação notória nos diálogos curtos que troca com Abraham e Biedermann, parecendo certo que o quotidiano destes elementos é pontuado pela frieza. As hierarquias entre judeus parecem contribuir para aumentar as divisões, com cada membro dos Sonderkommando a reagir de forma distinta às contingências encontradas no interior deste antro da morte. Biedermann tenta lutar por uma causa mais lata, bem como Abraham. Saul inicia uma jornada muito pessoal, que envolve uma certa dose de egoísmo, com o protagonista a colocar muitas das vezes o seu plano acima dos objectivos de todos aqueles que o rodeiam, embora esteja em causa a salvação de um corpo, de uma alma, de alguém que procura a redenção ao sepultar um jovem de forma condigna. A certa altura do filme, parece que Saul está a procurar a sua própria salvação, com a defesa do corpo do jovem a indicar uma espécie de revolta contra a destruição de todos os outros cadáveres, embora não seja algo premeditado, com este indivíduo a surgir simultaneamente como vítima, testemunha e protagonista das atrocidades cometidas pelos nazis. A procura de Abraham organizar uma revolta e a forma como o protagonista acaba envolvido nesses planos, nomeadamente, devido à sua jornada pessoal, é um exemplo dessa procura de László Nemes distanciar Saul do estereótipo do herói, embora o cineasta nunca se esqueça de nos relembrar que o quotidiano no campo de concentração não se cinge ao personagem interpretado por Géza Röhrig. O enredo desenrola-se em Outubro de 1944, uma data que não foi seleccionada ao acaso, algo comentado por Nemes: "(...) And there are several ways to resist. In the film, we witness an attempted rebellion, which in fact took place in 1944, the only armed revolt in the history of Auschwitz". O argumento entrelaça assertivamente a jornada de Saul com este episódio da fuga, com László Nemes e Clara Royer a terem bebido alguma da sua inspiração no livro "We Wept Without Tears: Testimonies of the Jewish Sonderkommando from Auschwitz", da autoria de Gideon Greif, com "O Filho de Saul" a evidenciar que a dupla efecutou um bom trabalho de pesquisa. No final, a morte parece o destino mais certo para estes personagens, com "O Filho de Saul" a apresentar-nos ao quotidiano de Saul de forma crua, claustrofóbica, pouco dada a falsos optimismos, enquanto nos deixa diante de uma realidade que representa um dos capítulos negros da História da Humanidade, com László Nemes a ter uma estreia notável na realização de longas-metragens.
Título original: "Saul fia".
Título em Portugal: "O Filho de Saul".
Realizador: László Nemes.
Argumento: László Nemes e Clara Royer.
Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Sándor Zsótér.
O trabalho de Tamás Zányi no design de som contribui e muito para adensar a atmosfera lúgubre e claustrofóbica que domina a narrativa e o espaço do campo de concentração, uma situação notória quer nos gritos que ouvimos, quer nas vozes anónimas que surgem sem aviso. Os gritos oriundos do interior da câmara de gás (em fora de campo), os corpos que se encontram amontados pelo chão e são exibidos de forma desfocada, o fumo proveniente da incineração dos cadáveres, as vozes e os sons que marcam o espaço do campo de concentração, bem como outras situações igualmente negras, surgem como elementos que parecem praticamente saídos de um filme de terror, embora aquilo que nos é apresentado seja inspirado em factos, com László Nemes a respeitar a gravidade e complexidade dos episódios representados. László Nemes evita "embelezar" o filme ou transformar o protagonista num herói trágico, com o cineasta a transmitir que estamos diante de um cenário atroz, onde decorrem actos que representam um capítulo negro da História Mundial, com Saul a surgir quase como o nosso guia para o terror. É através dos actos de Saul e do seu quotidiano que começamos a conhecer os espaços e as gentes que rodeiam o protagonista, com a vida deste indivíduo a mudar a partir do momento em que encontra o corpo de um jovem que foi eliminado após ter sobrevivido à câmara de gás. Saul pensa que o jovem é o seu filho, algo que o leva a tentar que Miklós (Sándor Zsótér), o médico, não autopsie o petiz. O médico reluta mas não fica indiferente ao pedido de Saul, enquanto este último procura encontrar um rabino e conceder um funeral relativamente digno ao filho. Inicialmente não sabemos ao certo se o corpo pertence ao filho de Saul ou se estamos diante de um delírio do protagonista, embora a descoberta do cadáver permita que László Nemes alargue o foco da narrativa. A busca por um rabino conduz Saul a contactar com uma multitude de personagens, bem como a envolver-se por diferentes locais do campo de concentração, com Géza Rörhig a transmitir a estranha obsessão do protagonista, enquanto László Nemes nos dá a conhecer pequenos fragmentos da realidade que envolve o quotidiano do personagem principal. A tentativa de sepultar condignamente o jovem parece dar um algum sentido à vida de Saul, com o protagonista a procurar encontrar paz interior, enquanto anseia alcançar o feito de ver um corpo a ser enterrado de forma respeitável. Saul contacta inicialmente com Frankel (Jerzy Walczak), o rabino que se encontra na sua unidade, embora este rejeite correr o risco de enterrar o jovem, apesar de se oferecer para recitar o Kadish, algo que não satisfaz as pretensões do protagonista. A rejeição de Frankel conduz Saul a procurar por outro rabino, em particular, um grego conhecido como "Renegado", que se encontra a trabalhar na unidade do Oberkapo Mietek (Kamil Dobrowolski). Saul obtém esta informação graças a Abraham (Levente Molnár), um membro do Sonderkommando que defende uma atitude musculada contra os elementos das SS, procurando formar um grupo que se revolte e fuja do campo de concentração, algo que envolve a participação de homens e mulheres de outras unidades. O protagonista acaba por se envolver nos eventos que Abraham organiza com Biedermann (Urs Rechn), uma dupla que procura tomar medidas contra as atrocidades perpetradas pelos nazis, embora a preocupação principal de Saul seja encontrar um rabino e enterrar o filho. Biedermann é um Oberkapo que lidera a unidade onde se encontra Saul, com Urs Rechn a transmitir a credibilidade deste indivíduo que procura manter uma postura discreta, enquanto tenta encontrar um meio de fotografar os acontecimentos que decorrem nos campos de concentração, tendo em vista a divulgá-los para o Mundo. Saul acaba por se oferecer para ajudar Abraham e Biedermann, enquanto procura penetrar na unidade de Mietek e dialogar com o "Renegado", uma tarefa assaz complicada.
A reunião entre Saul e Mietek não é pacífica, com este último a exibir um desprezo indelével para com os judeus, enquanto tenta conservar o seu poder e estatuto no interior deste espaço. Mesmo quando assume contornos que parecem demasiado particulares, a jornada do protagonista ganha, ainda que gradualmente, toda uma dimensão alargada, ou não estivéssemos diante de alguém que procura efectuar um "acto humano" após participar em episódios completamente desumanos. A câmara de filmar segue atentamente o protagonista, parecendo movimentar-se muitas das vezes ao ritmo do mesmo, com a vida deste indivíduo a conhecer um "abanão" quando se depara com o corpo de um jovem. Esta busca de Saul, tendo em vista a conceder um enterro condigno ao filho, conduz o protagonista a participar em situações como ajudar a tirar fotografias das cremações, atirar as cinzas dos mortos para o rio, ameaçar denunciar o "Renegado" quando este se recusa a auxiliá-lo, transportar pólvora, entre outros episódios, com László Nemes a apresentar esta jornada de forma crua, conseguindo transmitir a atmosfera claustrofóbica que rodeia o dia-a-dia do personagem principal. László Nemes consegue criar a sensação de que estamos praticamente ao lado de Saul e a presenciar os acontecimentos de "O Filho de Saul" bem de perto, uma medida fulcral para potenciar o poder dos episódios exibidos, parecendo praticamente impossível ficar indiferente quer em relação àquilo que é exibido, quer aos elementos que são sugeridos. No início do filme, o espectador é colocado diante da chegada de um comboio com judeus que são obrigados a deslocarem-se para o interior dos campos de concentração, sendo guiados por membros dos Sonderkommando. Os movimentos das gentes anónimas são quase mecânicos, com os prisioneiros a surgirem propositadamente desfocados, com László Nemes a expor o enredo a partir de uma perspectiva muito particular, enquanto reproduz o quotidiano num campo de concentração. Veja-se a forma como Saul evita olhar os elementos das SS nos olhos, ou o seu modo submisso de andar, ou a maneira muito própria como este encara os episódios que o rodeiam. O próprio foco ou falta do mesmo remete a espaços para aquilo que Saul observa e concede relevância, com este a encontrar-se num meio onde a brutalidade impera. A pouca profundidade de campo contribui para adensar a atmosfera claustrofóbica que envolve o enredo, com "O Filho de Saul" a criar a incómoda situação de parecer que estamos a presenciar alguns actos atrozes que ganham um poder acrescido devido a sabermos que existiram situações iguais ou piores àquelas que são representadas ao longo do filme. Nemes procura inserir diversos elementos do contexto histórico no interior do enredo, algo mencionado no press kit de "O Filho de Saul", em particular, quando o cineasta aborda a questão das fotografias que Biedermann pretende tirar para expor aquilo que acontecia nos campos de concentração: "Something that was strictly forbidden by the SS, of course. In Birkenau, the Polish resistance was able to get one or a few cameras to the Sonderkommando in order to document the extermination. At unbelievably great risk, they were able to take a photograph just before the doors to a gas chamber were closed and then immediately afterwards: naked women approaching the shot; then their piled-up corpses, which were taken outside and burned right there on the ground. And the four photographs shown".
A noção de que esta história ficcional é inspirada em factos históricos contribui para atribuir um poder acrescido à jornada do protagonista, com László Nemes a ter a inteligência de criar um personagem principal que está longe de ser infalível ou incapaz de ser influenciado pelo meio que o rodeia. A humanidade de Saul, as suas qualidades e defeitos, a sua jornada pessoal que a espaços é entrelaçada por missões mais latas, contribuem e muito para que este personagem nos intrigue e desperte a nossa atenção, com Géza Röhrig, um actor não profissional, a contar com uma interpretação notável. Com uma marca vermelha nas costas do seu casaco, tal como diversos elementos judeus, Saul é um alvo em movimento, com este indivíduo a apresentar uma postura reservada, pouco dada a grandes ligações, uma situação notória nos diálogos curtos que troca com Abraham e Biedermann, parecendo certo que o quotidiano destes elementos é pontuado pela frieza. As hierarquias entre judeus parecem contribuir para aumentar as divisões, com cada membro dos Sonderkommando a reagir de forma distinta às contingências encontradas no interior deste antro da morte. Biedermann tenta lutar por uma causa mais lata, bem como Abraham. Saul inicia uma jornada muito pessoal, que envolve uma certa dose de egoísmo, com o protagonista a colocar muitas das vezes o seu plano acima dos objectivos de todos aqueles que o rodeiam, embora esteja em causa a salvação de um corpo, de uma alma, de alguém que procura a redenção ao sepultar um jovem de forma condigna. A certa altura do filme, parece que Saul está a procurar a sua própria salvação, com a defesa do corpo do jovem a indicar uma espécie de revolta contra a destruição de todos os outros cadáveres, embora não seja algo premeditado, com este indivíduo a surgir simultaneamente como vítima, testemunha e protagonista das atrocidades cometidas pelos nazis. A procura de Abraham organizar uma revolta e a forma como o protagonista acaba envolvido nesses planos, nomeadamente, devido à sua jornada pessoal, é um exemplo dessa procura de László Nemes distanciar Saul do estereótipo do herói, embora o cineasta nunca se esqueça de nos relembrar que o quotidiano no campo de concentração não se cinge ao personagem interpretado por Géza Röhrig. O enredo desenrola-se em Outubro de 1944, uma data que não foi seleccionada ao acaso, algo comentado por Nemes: "(...) And there are several ways to resist. In the film, we witness an attempted rebellion, which in fact took place in 1944, the only armed revolt in the history of Auschwitz". O argumento entrelaça assertivamente a jornada de Saul com este episódio da fuga, com László Nemes e Clara Royer a terem bebido alguma da sua inspiração no livro "We Wept Without Tears: Testimonies of the Jewish Sonderkommando from Auschwitz", da autoria de Gideon Greif, com "O Filho de Saul" a evidenciar que a dupla efecutou um bom trabalho de pesquisa. No final, a morte parece o destino mais certo para estes personagens, com "O Filho de Saul" a apresentar-nos ao quotidiano de Saul de forma crua, claustrofóbica, pouco dada a falsos optimismos, enquanto nos deixa diante de uma realidade que representa um dos capítulos negros da História da Humanidade, com László Nemes a ter uma estreia notável na realização de longas-metragens.
Título original: "Saul fia".
Título em Portugal: "O Filho de Saul".
Realizador: László Nemes.
Argumento: László Nemes e Clara Royer.
Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Sándor Zsótér.
02 julho 2016
01 julho 2016
Resenha Crítica: "Anime Nere" (Almas Negras)
É praticamente impossível começar a abordar "Anime Nere", a terceira longa-metragem realizada por Francesco Munzi, sem destacar a interpretação notável de Fabrizio Ferracane como Luciano, um pastor que procura fugir aos problemas inerentes ao facto de quase toda a sua família contar com ligações ao mundo do crime. Curiosamente, ou talvez não, Luciano é um dos personagens mais lacónicos de "Anime Nere", com o pastor a surgir como um elemento de poucas falas, contido na exposição dos sentimentos, aparentemente ponderado nas suas acções, com Fabrizio Ferracane a conseguir transmitir paradigmaticamente as características deste indivíduo veterano, que habita em Africo, uma aldeia montanhosa da Calábria. Africo encontra-se afastada da confusão dos grandes espaços urbanos, transmitindo a falsa ideia de que estamos diante de um local idílico e pacífico, embora "Anime Nere" exiba que a realidade no interior deste território difere imenso da primeira impressão que podemos formar em relação ao mesmo. Os momentos de acalmia escondem a aproximação de algumas
explosões pontuais de violência, com Francesco Munzi a saber gerir os
ritmos da narrativa de forma exímia, algo que atribui um poder indelével aos
trechos de maior aspereza. A violência surge muitas das vezes quando menos se espera, embora não seja por falta de aviso de Francesco Munzi, com o cineasta a não poupar nas cenas que contam com a noite como pano de fundo, com as sombras a cobrirem este cenário onde decorrem jogos de poder, diversos assassinatos e um poderoso drama familiar. As montanhas marcam este território de forma indelével, bem como os seus acessos, algo exposto em alguns planos bem abertos que transmitem uma certa sensação de isolamento, quase como se estivéssemos numa aldeia que fica relativamente à parte de tudo e todos. As características do território parecem influenciar as suas gentes, com a maioria dos habitantes a contar com valores religiosos vincados (a presença da cruz de Cristo em diversos cenários é exemplo disso), a desprezar a polícia e os políticos e a atribuir uma relevância indelével à família, embora exista uma ou outra excepção. A casa de Luciano evidencia exactamente estas características do território, com a passagem do tempo a fazer-se notar neste cenário rústico, pontuado por diversas fotografias nas paredes (de familiares do pastor), iconografia religiosa e um núcleo familiar em crise, com Leo, o filho do primeiro, a desrespeitar constantemente o progenitor. As fotografias de familiares de Luciano transmitem algum apego ao passado, embora o pastor procure evitar relacionar-se com Luigi (Marco Leonardi) e Rocco (Peppino Mazzotta), os seus irmãos mais novos, dois indivíduos ligados ao mundo do crime. Diga-se que o crime parece impregnado no interior do território de Africo, com a 'Ndrangheta, uma associação criminosa, a dominar o local (Rocco e Luigi fazem parte deste grupo criminoso), ainda que nas sombras, com "Anime Nere" a apresentar semelhanças latentes com "Gomorra". Não falta um território dominado por um grupo criminoso (no caso de "Gomorra", a Camorra), o fascínio de alguns personagens pelo mundo do crime, as rivalidades entre clãs/famílias, a forma crua como o espaço onde se desenrola boa parte do enredo é representado, o tom quase documental, a procura de diversos elementos manterem o poder e o respeito, com Francesco Munzi a realizar um filme negro, cru, pontuado por um doses consideráveis de pessimismo, que surge praticamente como um dardo que nos atordoa com os episódios que nos apresenta.
A violência assombra o quotidiano dos personagens que povoam a narrativa, com quase todos os elementos masculinos a envolverem-se ou a serem envolvidos em episódios onde a morte parece surgir como o destino mais provável. Aceitar o destino ou contrariá-lo? Luciano procura contrariar o passado da sua família e evitar o estilo de vida dos seus dois irmãos, mas Leo admira Luigi e pretende seguir os passos do tio, algo que estraga os planos deste pastor que assume estranhos hábitos religiosos. Diga-se que os hábitos religiosos de Luciano surgem como um meio para Francesco Munzi expor algumas das tradições locais, algo mencionado pelo cineasta em entrevista ao Cineuropa: "I had to choose a certain number of beliefs from the region for realism’s sake, and I elected to film the one about the saint’s ashes, which, once swallowed by a believer, are said to cure you of your spiritual ills. Luciano drinks them by diluting them in a glass of water, but they’re not pure. He mixes them with a drug – he combines the old with the new". Se Luciano é um elemento veterano, na casa dos cinquenta e poucos anos de idade, oriundo de uma família da máfia, já Leo representa uma nova geração, embora o crime pareça estar no sangue deste jovem interpretado por Giuseppe Fumo, com o actor a transmitir a rebeldia do aspirante a criminoso. As gerações sucedem-se mas o crime tarda em sair das entranhas da família de Luciano, uma situação que talvez ajude a explicar o acto desesperado deste personagem no final do filme. Leo é um jovem adulto que se encontra constantemente revoltado com a inércia do pai, parecendo fascinado pelo mundo do crime, embora não tenha maturidade para se mover nos meandros deste meio cruel e implacável. Luciano tenta evitar que o filho siga os passos de Luigi, embora seja incapaz de convencer o jovem a mudar de ideias, com ambos a protagonizarem uma série de discussões. O enredo de "Anime Nere" é pontuado por diversos ingredientes de drama familiar, com Francesco Munzi a colocar-nos diante das divergências entre elementos de diferentes gerações, discussões entre um pai e o seu filho, conflitos entre irmãos, com esta família que nos é apresentada a nunca parecer conseguir encontrar a estabilidade necessária para que os seus integrantes consigam conviver pacificamente. Leo abomina o trabalho no campo, descura os estudos e promete colocar o quotidiano de tudo e todos em polvorosa quando decide destruir as janelas do bar de Ferraro, um indivíduo protegido por Don Nino Barreca, um mafioso poderoso. Barreca foi o responsável pelo assassinato do pai de Luciano, Luigi e Rocco, com o acto de Leo a parecer reacender ódios antigos que nunca foram totalmente esquecidos. Se Luciano procura controlar os ímpetos violentos de Don Nino e acalmar Luigi, já este último, um traficante financeiramente abonado, conhecido por ser o líder da família Carbone, decide dirigir-se a Africo, acompanhado por Rocco e diversos elementos da sua confiança, tendo em vista a exibir um sinal de força. Luciano discorda desta atitude de Luigi, antevendo as possíveis consequências do irmão parecer estar a tentar apagar fogo com gasolina, ou Barreca não surgisse como uma das figuras mais temidas da região. Veja-se o diálogo entre Luciano e Don Nino, com o primeiro a apresentar uma postura receosa, enquanto o segundo procura utilizar o acto intempestivo de Leo para efectuar negociatas com Luigi e Rocco, embora estes últimos estejam longe de apresentarem a passividade do pastor.
No início do filme encontramos Luigi a exibir as suas habilidades negociais como traficante de droga, contando com ajudantes fiéis como Nicola (Stefano Priolo), um indivíduo calmo, de feições rígidas e experiente a tratar de situações complicadas. Os momentos iniciais permitem que Marco Leonardi exiba desde logo a personalidade carismática deste mafioso que gosta de apreciar os luxos inerentes ao dinheiro que granjeia como traficante de armas e drogas, parecendo pouco preocupado com os perigos do seu ofício, enquanto o actor consegue compor um personagem que gera alguma empatia com o espectador. Luigi encontra-se relativamente afastado de Luciano, embora respeite o irmão, com os dois a contarem com objectivos de vida completamente antagónicos. Rocco nem sempre aprecia os actos de Luigi, apesar de também estar envolvido em negócios obscuros, com Peppino Mazzotta a interpretar um indivíduo relativamente calmo, que é casado com Valeria (Barbora Bobulova), de quem tem uma filha. Valeria não aprecia o espaço de Africo, em particular os perigos que este representa, algo exposto de forma paradigmática quando a primeira se dirige a esta aldeia. Africo é representado como um território pontuado por gentes conservadoras, onde as mulheres contam com um papel muito secundário, embora Rosa (Aurora Quattrocchi), a mãe de Rocco, Luigi e Luciano protagonize um momento marcante quando toca no caixão de um personagem relevante. Rosa é uma mulher simples e conservadora, que ama os filhos e odeia a polícia, com este núcleo familiar a sofrer uma série de rudes golpes ao longo do enredo, algo que devasta esta veterana. Os laços de sangue parecem ser relativamente respeitados pela maioria dos personagens principais, embora a espaços este elo de ligação pareça funcionar mais como uma maldição para Luciano, Luigi, Rocco e Leo do que como uma bênção, com "Anime Nere" a mesclar assertivamente alguns ingredientes de filmes de gangster com elementos de drama familiar. A chegada de Luigi, Rocco, Nicola, Cosimo (Cosimo Spagnolo como um traficante ao serviço de Luigi), Pasquale (Vito Facciolla - um dos homens da confiança de Rocco) a Africo promete colocar este espaço em polvorosa. Luciano não aprecia a presença de Luigi, enquanto este último procura ganhar influência junto dos diversos criminosos locais, entre os quais os Tallura, tendo em vista a amedrontar Don Nino. Esta não parece ser a opção mais acertada, com Luciano a procurar avisar o irmão, embora Luigi tente desafiar o poder de Barreca. Luigi opera a partir de espaços como Amesterdão e Milão, com estas cidades a contarem com características muito distintas de Africo, algo evidenciado ao longo de "Anime Nere". Note-se a casa de Rocco, um cenário decorado com algum requinte, situado em Milão, onde o personagem interpretado por Peppino Mazzotta vive de forma aparentemente calma ao lado da esposa e da filha, procurando que estas duas estejam afastadas dos problemas. A modernidade de Milão e da habitação de Rocco é contrastada com o espaço rural onde decorre boa parte da narrativa de "Anime Nere", bem como com a casa de Luciano, um cenário rústico, situado no campo, permitindo que este trabalhe a cuidar das suas cabras e das suas plantações. Os próprios acessos ao território de Africo evidenciam o isolamento desta aldeia, com as montanhas a permearem as redondezas deste espaço onde quase tudo e todos se conhecem.
O facto de Francesco Munzi ter filmado "Anime Nere" no espaço de Africo é fulcral para termos a noção das especificidades deste território e das suas gentes, bem como para atribuir maior credibilidade aos episódios representados, com o cineasta a conseguir ainda abordar a acção dos tentáculos da máfia quer no interior de um espaço citadino, quer numa região rural, embora no cerne da narrativa estejam as relações intrincadas dos Carbone. Africo e Milão partilham as "almas negras" de Luigi, Rocco, Leo e até Luciano, com este último a conter uma revolta que promete ser exposta de forma inesperada, intensa, violenta e brutal no último terço de "Anime Nere". O argumento, inspirado no livro "Anime Nere" de Gioacchino Criaco, contribui para que Munzi consiga desenvolver assertivamente a personalidade de Luciano, bem como as relações familiares intrincadas dos personagens principais e a violência que permeia o território de Africo. O trabalho de Vladan Radovic na cinematografia contribui para a crueza que a espaços toma conta da narrativa, com "Anime Nere" a conseguir captar as especificidades muito próprias deste território de Africo, tais como a dicotomia entre as características aparentemente idílicas desta aldeia e a violência que permeia a mesma. As tonalidades frias parecem a espaços tomar conta do enredo, inclusive na preparação de um assassinato que tem tudo para correr mal, com a noite a surgir muitas das vezes como uma (má) companheira destes personagens. As vinganças sucedem-se, enquanto um desejo revanchista perigoso parece tomar de assalto as almas de alguns personagens e enchê-las de negrume, com o acto imponderado de Leo, de disparar sobre um bar, a trazer consequências mortais para vários elementos, com tudo e todos a procurarem mostrar "quem manda" naquela zona específica do território. Luigi não renega o seu passado e o seu território, com este e o seu grupo a regerem-se por regras ancestrais que prometem causar estragos. A confiança de Luigi é latente, embora esta situação conduza a que descure os perigos inerentes à sua conduta, uma característica que parece ser partilhada por Leo. Veja-se a suposta amizade entre Leo e Peppe, com o primeiro a confiar em demasia no segundo, algo latente no último terço, num momento onde a parca iluminação e a inquietação tomam conta do enredo. A morte parece o destino mais provável para a maioria dos personagens principais de "Anime Nere", com Francesco Munzi a transportar o espectador para o interior de um território onde as tradições, os laços de sangue e os jogos de poder trazem uma série de problemas a alguns dos protagonistas, sobretudo quando as emoções toldam a razão. Num determinado momento de "Anime Nere", encontramos Rosa a tocar num caixão negro, onde se encontra o corpo de um ente querido, que esta classifica como alguém que é do "seu sangue". Os valores tradicionais contam e muito para os protagonistas de "Anime Nere", com o título a não enganar o espectador em relação a diversos personagens. As almas de Luigi, Luciano, Rocco e Leo são negras desde a nascença, embora alguns personagens procurem evitar que esse negrume consuma o seu âmago e tolde a razão, com "Anime Nere" a fazer justiça ao título e a surgir como um filme negro que apresenta um tom seco e evita falsos sentimentalismos.
Título original: "Anime Nere".
Título em Portugal: "Almas Negras".
Realizador: Francesco Munzi.
Argumento: Francesco Munzi, Maurizio Braucci e Fabrizio Ruggirello.
Elenco: Marco Leonardi, Peppino Mazzotta, Fabrizio Ferracane, Barbora Bobulova, Giuseppe Fumo.
Texto escrito no âmbito da cobertura da Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano.
A violência assombra o quotidiano dos personagens que povoam a narrativa, com quase todos os elementos masculinos a envolverem-se ou a serem envolvidos em episódios onde a morte parece surgir como o destino mais provável. Aceitar o destino ou contrariá-lo? Luciano procura contrariar o passado da sua família e evitar o estilo de vida dos seus dois irmãos, mas Leo admira Luigi e pretende seguir os passos do tio, algo que estraga os planos deste pastor que assume estranhos hábitos religiosos. Diga-se que os hábitos religiosos de Luciano surgem como um meio para Francesco Munzi expor algumas das tradições locais, algo mencionado pelo cineasta em entrevista ao Cineuropa: "I had to choose a certain number of beliefs from the region for realism’s sake, and I elected to film the one about the saint’s ashes, which, once swallowed by a believer, are said to cure you of your spiritual ills. Luciano drinks them by diluting them in a glass of water, but they’re not pure. He mixes them with a drug – he combines the old with the new". Se Luciano é um elemento veterano, na casa dos cinquenta e poucos anos de idade, oriundo de uma família da máfia, já Leo representa uma nova geração, embora o crime pareça estar no sangue deste jovem interpretado por Giuseppe Fumo, com o actor a transmitir a rebeldia do aspirante a criminoso. As gerações sucedem-se mas o crime tarda em sair das entranhas da família de Luciano, uma situação que talvez ajude a explicar o acto desesperado deste personagem no final do filme. Leo é um jovem adulto que se encontra constantemente revoltado com a inércia do pai, parecendo fascinado pelo mundo do crime, embora não tenha maturidade para se mover nos meandros deste meio cruel e implacável. Luciano tenta evitar que o filho siga os passos de Luigi, embora seja incapaz de convencer o jovem a mudar de ideias, com ambos a protagonizarem uma série de discussões. O enredo de "Anime Nere" é pontuado por diversos ingredientes de drama familiar, com Francesco Munzi a colocar-nos diante das divergências entre elementos de diferentes gerações, discussões entre um pai e o seu filho, conflitos entre irmãos, com esta família que nos é apresentada a nunca parecer conseguir encontrar a estabilidade necessária para que os seus integrantes consigam conviver pacificamente. Leo abomina o trabalho no campo, descura os estudos e promete colocar o quotidiano de tudo e todos em polvorosa quando decide destruir as janelas do bar de Ferraro, um indivíduo protegido por Don Nino Barreca, um mafioso poderoso. Barreca foi o responsável pelo assassinato do pai de Luciano, Luigi e Rocco, com o acto de Leo a parecer reacender ódios antigos que nunca foram totalmente esquecidos. Se Luciano procura controlar os ímpetos violentos de Don Nino e acalmar Luigi, já este último, um traficante financeiramente abonado, conhecido por ser o líder da família Carbone, decide dirigir-se a Africo, acompanhado por Rocco e diversos elementos da sua confiança, tendo em vista a exibir um sinal de força. Luciano discorda desta atitude de Luigi, antevendo as possíveis consequências do irmão parecer estar a tentar apagar fogo com gasolina, ou Barreca não surgisse como uma das figuras mais temidas da região. Veja-se o diálogo entre Luciano e Don Nino, com o primeiro a apresentar uma postura receosa, enquanto o segundo procura utilizar o acto intempestivo de Leo para efectuar negociatas com Luigi e Rocco, embora estes últimos estejam longe de apresentarem a passividade do pastor.
No início do filme encontramos Luigi a exibir as suas habilidades negociais como traficante de droga, contando com ajudantes fiéis como Nicola (Stefano Priolo), um indivíduo calmo, de feições rígidas e experiente a tratar de situações complicadas. Os momentos iniciais permitem que Marco Leonardi exiba desde logo a personalidade carismática deste mafioso que gosta de apreciar os luxos inerentes ao dinheiro que granjeia como traficante de armas e drogas, parecendo pouco preocupado com os perigos do seu ofício, enquanto o actor consegue compor um personagem que gera alguma empatia com o espectador. Luigi encontra-se relativamente afastado de Luciano, embora respeite o irmão, com os dois a contarem com objectivos de vida completamente antagónicos. Rocco nem sempre aprecia os actos de Luigi, apesar de também estar envolvido em negócios obscuros, com Peppino Mazzotta a interpretar um indivíduo relativamente calmo, que é casado com Valeria (Barbora Bobulova), de quem tem uma filha. Valeria não aprecia o espaço de Africo, em particular os perigos que este representa, algo exposto de forma paradigmática quando a primeira se dirige a esta aldeia. Africo é representado como um território pontuado por gentes conservadoras, onde as mulheres contam com um papel muito secundário, embora Rosa (Aurora Quattrocchi), a mãe de Rocco, Luigi e Luciano protagonize um momento marcante quando toca no caixão de um personagem relevante. Rosa é uma mulher simples e conservadora, que ama os filhos e odeia a polícia, com este núcleo familiar a sofrer uma série de rudes golpes ao longo do enredo, algo que devasta esta veterana. Os laços de sangue parecem ser relativamente respeitados pela maioria dos personagens principais, embora a espaços este elo de ligação pareça funcionar mais como uma maldição para Luciano, Luigi, Rocco e Leo do que como uma bênção, com "Anime Nere" a mesclar assertivamente alguns ingredientes de filmes de gangster com elementos de drama familiar. A chegada de Luigi, Rocco, Nicola, Cosimo (Cosimo Spagnolo como um traficante ao serviço de Luigi), Pasquale (Vito Facciolla - um dos homens da confiança de Rocco) a Africo promete colocar este espaço em polvorosa. Luciano não aprecia a presença de Luigi, enquanto este último procura ganhar influência junto dos diversos criminosos locais, entre os quais os Tallura, tendo em vista a amedrontar Don Nino. Esta não parece ser a opção mais acertada, com Luciano a procurar avisar o irmão, embora Luigi tente desafiar o poder de Barreca. Luigi opera a partir de espaços como Amesterdão e Milão, com estas cidades a contarem com características muito distintas de Africo, algo evidenciado ao longo de "Anime Nere". Note-se a casa de Rocco, um cenário decorado com algum requinte, situado em Milão, onde o personagem interpretado por Peppino Mazzotta vive de forma aparentemente calma ao lado da esposa e da filha, procurando que estas duas estejam afastadas dos problemas. A modernidade de Milão e da habitação de Rocco é contrastada com o espaço rural onde decorre boa parte da narrativa de "Anime Nere", bem como com a casa de Luciano, um cenário rústico, situado no campo, permitindo que este trabalhe a cuidar das suas cabras e das suas plantações. Os próprios acessos ao território de Africo evidenciam o isolamento desta aldeia, com as montanhas a permearem as redondezas deste espaço onde quase tudo e todos se conhecem.
O facto de Francesco Munzi ter filmado "Anime Nere" no espaço de Africo é fulcral para termos a noção das especificidades deste território e das suas gentes, bem como para atribuir maior credibilidade aos episódios representados, com o cineasta a conseguir ainda abordar a acção dos tentáculos da máfia quer no interior de um espaço citadino, quer numa região rural, embora no cerne da narrativa estejam as relações intrincadas dos Carbone. Africo e Milão partilham as "almas negras" de Luigi, Rocco, Leo e até Luciano, com este último a conter uma revolta que promete ser exposta de forma inesperada, intensa, violenta e brutal no último terço de "Anime Nere". O argumento, inspirado no livro "Anime Nere" de Gioacchino Criaco, contribui para que Munzi consiga desenvolver assertivamente a personalidade de Luciano, bem como as relações familiares intrincadas dos personagens principais e a violência que permeia o território de Africo. O trabalho de Vladan Radovic na cinematografia contribui para a crueza que a espaços toma conta da narrativa, com "Anime Nere" a conseguir captar as especificidades muito próprias deste território de Africo, tais como a dicotomia entre as características aparentemente idílicas desta aldeia e a violência que permeia a mesma. As tonalidades frias parecem a espaços tomar conta do enredo, inclusive na preparação de um assassinato que tem tudo para correr mal, com a noite a surgir muitas das vezes como uma (má) companheira destes personagens. As vinganças sucedem-se, enquanto um desejo revanchista perigoso parece tomar de assalto as almas de alguns personagens e enchê-las de negrume, com o acto imponderado de Leo, de disparar sobre um bar, a trazer consequências mortais para vários elementos, com tudo e todos a procurarem mostrar "quem manda" naquela zona específica do território. Luigi não renega o seu passado e o seu território, com este e o seu grupo a regerem-se por regras ancestrais que prometem causar estragos. A confiança de Luigi é latente, embora esta situação conduza a que descure os perigos inerentes à sua conduta, uma característica que parece ser partilhada por Leo. Veja-se a suposta amizade entre Leo e Peppe, com o primeiro a confiar em demasia no segundo, algo latente no último terço, num momento onde a parca iluminação e a inquietação tomam conta do enredo. A morte parece o destino mais provável para a maioria dos personagens principais de "Anime Nere", com Francesco Munzi a transportar o espectador para o interior de um território onde as tradições, os laços de sangue e os jogos de poder trazem uma série de problemas a alguns dos protagonistas, sobretudo quando as emoções toldam a razão. Num determinado momento de "Anime Nere", encontramos Rosa a tocar num caixão negro, onde se encontra o corpo de um ente querido, que esta classifica como alguém que é do "seu sangue". Os valores tradicionais contam e muito para os protagonistas de "Anime Nere", com o título a não enganar o espectador em relação a diversos personagens. As almas de Luigi, Luciano, Rocco e Leo são negras desde a nascença, embora alguns personagens procurem evitar que esse negrume consuma o seu âmago e tolde a razão, com "Anime Nere" a fazer justiça ao título e a surgir como um filme negro que apresenta um tom seco e evita falsos sentimentalismos.
Título original: "Anime Nere".
Título em Portugal: "Almas Negras".
Realizador: Francesco Munzi.
Argumento: Francesco Munzi, Maurizio Braucci e Fabrizio Ruggirello.
Elenco: Marco Leonardi, Peppino Mazzotta, Fabrizio Ferracane, Barbora Bobulova, Giuseppe Fumo.
Texto escrito no âmbito da cobertura da Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano.
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