13 junho 2016

Resenha Crítica: "As Good as It Gets" (Melhor É Impossível)

 Comédia romântica dotada de um argumento relativamente coeso, uma interpretação marcante de Jack Nicholson, uma dinâmica assinalável entre a dupla de protagonistas e um trabalho inspirado de James L. Brooks na realização, "As Good as It Gets" é um triunfo para todos os envolvidos. É certo que conta com alguns lugares-comuns associados aos romances, mas estes são aproveitados de forma assertiva, com James L. Brooks a conseguir algo essencial: criar personagens que conquistam a nossa atenção. Jack Nicholson e Helen Hunt conseguem que os lugares-comuns e os momentos a descair para o melodrama sejam facilmente esquecidos ou perdoados, enquanto desfrutamos desta comédia romântica capaz de nos envolver com uma facilidade indelével, com "As Good as It Gets" a despertar alguns risos, comover e apresentar uma figura que promete permanecer na nossa memória. Essa figura é Melvin Udall (Jack Nicholson), um escritor de sucesso, que vive num apartamento de luxo em Nova Iorque. Melvin é um individuo misantropo, homofóbico, xenófobo, misógino e anti-social, que padece de Perturbação Obsessivo-Compulsiva, ou seja, um conjunto de atributos pouco recomendáveis. Diga-se que, quando conhecemos Melvin, este não conta com um único amigo, mantendo uma relação conturbada com os vizinhos, sobretudo com Simon Bishop (Greg Kinnear), um pintor homossexual. Simon tem um cachorrinho chamado Verdell, que o protagonista não suporta, algo que podemos comprovar no início do filme quando Melvin despeja o animal de estimação do vizinho na conduta do lixo. Esta situação desperta a fúria de Frank Sachs (Cuba Gooding, Jr. num papel secundário de luxo), um vendedor de obras de arte, que mantém uma relação de grande proximidade com o pintor. Melvin costuma frequentar regularmente um restaurante, embora apenas goste de ser atendido por Carol Connelly (Helen Hunt), a única empregada de mesa que parece capaz de aturar o protagonista e despertar o lado menos antipático do mesmo. Carol é uma mãe solteira que vive com Spence (Jesse James), o seu rebento, um jovem que padece de debilidades no sistema imunitário e problemas respiratórios. A vida social de Carol é praticamente nula, com esta mulher a dedicar boa parte do seu tempo ao trabalho e ao filho, contando ainda com a ajuda da progenitora. James L. Brooks aborda o quotidiano da personagem interpretada por Helen Hunt com alguma delicadeza, evitando transformar a vida pessoal de Carol em algo digno de pertencer a uma telenovela mexicana, com esta figura feminina a assumir um destaque indelével no interior da narrativa. A paciência de Carol é enorme, embora tenha limites, algo que Melvin vai perceber quando efectua um comentário indelicado sobre Spence, com a personagem interpretada por Helen Hunt a ameaçar expulsar o protagonista do estabelecimento. Esta ameaça deixa Melvin melindrado, embora o protagonista coloque-se imensas vezes a jeito, com o escritor a parecer incapaz de se preocupar com o impacto negativo das suas palavras e dos seus actos, algo que acaba por magoar ou irritar aqueles que o rodeiam.

James L. Brooks não nos faz rir dos elementos que são alvo dos comentários pouco agradáveis de Melvin, mas sim do próprio escritor e da sua personalidade, algo que contribui para atenuar o efeito de algumas falas pouco recomendáveis do protagonista. Jack Nicholson é fundamental para o personagem funcionar, com o actor a incutir carisma, humanidade, energia e um tom sardónico a este escritor peculiar, que tanto nos repele como prende a nossa atenção. Nicholson domina na perfeição os timings para expor as falas de Melvin, incutindo um carisma indelével a este escritor de cinquenta e poucos anos de idade, que parece apresentar mais habilidade para escrever do que para contactar directamente com a humanidade. Apesar de contar com uma inabilidade notável para se expressar de forma delicada, pelo menos a nível oral, Melvin começa a tentar mudar os seus comportamentos, ainda que gradualmente, com "As Good as It Gets" a avançar muitas das vezes por "terrenos" relativamente previsíveis, embora tudo seja elevado pelo trabalho de Jack Nicholson e Helen Hunt. Não são pouco os diálogos de "As Good as It Gets" que são elevados pela interpretação marcante de Jack Nicholson, com o actor a apresentar uma química convincente com Helen Hunt, algo notório durante o desenrolar do filme. Hunt não se apaga diante de Nicholson, bem pelo contrário, com a actriz a responder com uma interpretação de peso, embora Carol apresente uma personalidade distinta de Melvin. Helen Hunt consegue transmitir as fragilidades emocionais e inseguranças da personagem que interpreta, uma mulher que nem sempre é compreendida por aqueles que a rodeiam, com Melvin a surgir como um estranho interesse amoroso. A certa altura do filme, Melvin decide ajudar esta mulher ao enviar um médico privado (Harold Ramis) a casa de Carol, um especialista que detecta o problema de Spence. Esta subtrama relacionada com o tratamento de Spence é exposta e abordada de forma algo simplista, embora permita efectuar uma crítica aos serviços de saúde dos EUA e expor uma faceta mais agradável do personagem interpretado por Jack Nicholson. Com o problema de saúde de Spence controlado, Carol começa a ficar com a vida mais desafogada, uma situação que permite o regresso desta ao trabalho, algo que alivia Melvin. Este apenas pretende ser atendido por Carol, uma figura feminina com quem forma uma estranha relação de proximidade, apesar desta não estar totalmente certa se deve aceitar a aproximação do protagonista. Melvin começa a procurar mudar os seus comportamentos, ainda que apresente um conjunto de atitudes destrambelhadas, enquanto Carol procura compreender este estranho indivíduo que a espaços contribui para melhorar a sua vida. É a típica relação improvável, com diversos avanços e recuos, embora o argumento de Mark Andrus e James L. Brooks consiga explorar as dinâmicas entre Carol e Melvin com alguma inspiração.

As mudanças de Melvin não se limitam ao relacionamento com Carol. Veja-se quando Simon é assaltado e agredido, com Melvin a tomar conta de Verdell e a demonstrar um estranho afecto pelo cão. No entanto, é importante realçar que alterações comportamentais do protagonista não são bruscas, com Melvin a parecer gostar de exibir uma postura anti-social e puxar pelos limites daqueles que o rodeiam. Essa situação é paradigmaticamente visível quando Melvin é praticamente obrigado a transportar Simon até Baltimore, quando o personagem interpretado por Greg Kinnear (outro dos destaques do filme) se encontra na falência e decide recorrer aos progenitores. O momento é delicado, embora Melvin não tenha problemas em colocar a canção "Y.M.C.A." dos Village People a tocar no rádio do carro, apenas para gozar com o facto de Simon ser homossexual. Simon é um indivíduo sensível, que apresenta uma relação complicada com os pais e atravessa um bloqueio criativo após ter sido brutalmente agredido por um grupo de assaltantes. Melvin convida Carol para participar nesta viagem até Baltimore, com esta a aceitar acompanhar o escritor e Simon, com o trio a formar estranhos laços de amizade. O personagem interpretado por Jack Nicholson é bem sucedido na escrita, embora seja infantil nos seus gestos, acabando por magoar ou irritar boa parte daqueles que o rodeiam, parecendo incapaz de expressar aquilo que sente em relação a Carol. Veja-se quando se encontram num restaurante de luxo, em Baltimore, com Melvin a exibir um lado completamente destrambelhado. Carol surge como uma mulher de personalidade relativamente vincada, capaz de desafiar e despertar a atenção de Melvin, embora também conte com as suas fragilidades. Esta situação fica particularmente latente quando o filho melhora e Carol não sabe como gastar o tempo livre, com "As Good as It Gets" a colocar-nos diante de várias figuras solitárias, que contam com diversos dilemas, receios, ansiedades e sentimentos para expressar. Simon também conta com os seus problemas, em particular uma grave crise financeira e criativa, encontrando um apoio inesperado na figura de Melvin, com James L. Brooks a aproveitar para desenvolver, ainda que gradualmente, uma amizade improvável entre estes dois indivíduos. A transformação de Melvin está longe de ser original num filme do género, embora o argumento seja inteligente o suficiente para jogar com as nossas expectativas até "oferecer" aquilo que estamos muitas das vezes à espera. Diga-se que, a certa altura, Melvin surpreende Simon e o espectador com a sua humanidade, com "As Good as It Gets" a colocar-nos diante de uma figura complexa e solitária, que inicialmente procura afastar tudo e todos. James L. Brooks não tem problemas em usar e abusar das situações previsíveis, algo latente nestas mudanças que o protagonista conhece ao longo do filme, embora as convenções sejam relativamente bem utilizadas ao serviço da narrativa, com "As Good as It Gets" a beneficiar imenso de contar com uma dupla de protagonistas talentosa. Jack Nicholson e Helen Hunt convencem como estes personagens pontuados por personalidades muito próprias, com Melvin e Carol a protagonizarem uma série de episódios que ficam na memória e conquistam o espectador, enquanto James L. Brooks cria um romance convincente e envolvente.

Título original: "As Good as It Gets".
Título em Portugal: "Melhor É Impossível".
Realizador: James L. Brooks.
Argumento: Mark Andrus e James L. Brooks.
Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding, Jr., Jesse James.

11 junho 2016

Resenha Crítica: "Like Crazy" (2011)

 Parte do enredo de "Like Crazy" é inspirado em episódios vividos por Drake Doremus, o realizador e co-argumentista do filme, algo que parece ser fundamental para a sinceridade que é transmitida por este romance terno e delicado. Diga-se que sinceridade é a palavra-chave para definir este romance que é capaz de encantar, desferir rudes golpes e embalar o espectador para o interior da história dos personagens principais. A banda sonora "dialoga" com o enredo e os sentimentos dos personagens, com canções como "I Guess I'm Floating" dos M83, a permanecerem na nossa mente, bem como diversos momentos vividos pelos protagonistas. Drake Doremus concede atenção aos pequenos pormenores, aos objectos que ganham valor sentimental, aos gestos que possuem enorme significado, bem como aos diálogos e aos silêncios entre Anna Gardner (Felicity Jones) e Jacob Helm (Anton Yelchin), a dupla de personagens principais. Felicity Jones e Anton Yelchin convencem e contam com uma química que nos faz acreditar na relação de Anna e Jacob, com Drake Doremus a permitir que o actor e a actriz improvisem, enquanto estes transmitem uma sinceridade e credibilidade desarmantes na exposição dos sentimentos dos protagonistas. É a história de Anna e Jacob, dois jovens adultos na casa dos vinte e poucos anos de idade, que acompanhamos em "Like Crazy", em particular, a partir do momento em que estes se conheceram e iniciaram uma relação, quando ainda eram estudantes universitários relativamente ingénuos. Felicity Jones destaca-se como Anna, uma inglesa que se encontra a estudar numa universidade de Los Angeles, que pretende trabalhar como jornalista e conta com uma enorme apetência para a escrita. A actriz consegue transmitir as dúvidas, certezas e paixões desta jovem que tem uma relação muito próxima com os pais e inicia um romance intrincado com Jacob. Anna gosta de elaborar livros onde reúne informações, fotografias e documentos relacionados com episódios protagonizados ao lado de Jacob, com estes "anuários" a surgirem como uma forma da protagonista preservar alguns momentos que foram relevantes para o casal. Jacob é um jovem adulto relativamente introvertido, que estuda na mesma universidade de Anna, pretende trabalhar no design e construção de móveis, gosta de viver nos EUA e fica encantado com a personalidade peculiar da protagonista. Drake Doremus desenvolve esta relação com enorme graciosidade, candura, sinceridade e crueza, com o trabalho do cineasta e dos actores a contribuir para que acreditemos nos sentimentos de Anna e Jacob quer quando os protagonistas conhecem um período positivo, quer quando atravessam fases mais complicadas. Todas as relações atravessam fases menos positivas, ou de menor fulgor, algo que não é diferente no namoro de Anna e Jacob, com "Like Crazy" a colocar-nos diante de fragmentos da vida destes personagens. Anna tem de partir para Londres, após terminar o seu visto de estudante, embora esta quebre as regras para poder desfrutar do Verão ao lado de Jacob. Este acto aparentemente inconsequente promete trazer graves consequências para Anna, bem como para a relação que esta mantém com Jacob. Anna é temporariamente proibida de entrar nos EUA, após ter quebrado as regras do visto de estudante, enquanto Jacob fica desesperado, com o imbróglio legal a trazer consequências para esta relação que parecia quase perfeita.

 A distância parece impossibilitar a relação, com Jacob e Anna a decidirem manter a amizade, embora tentem terminar o namoro. Será possível que estes dois continuem separados? A relação à distância é uma possibilidade viável? Drake Doremus consegue transmitir a passagem do tempo, bem como os efeitos desta separação temporária, até expor que este desiderato da dupla de protagonistas é praticamente impossível de ser cumprido, algo visível quando Anna quebra por completo e exibe as suas fragilidades emocionais. Anna pede para Jacob visitá-la em Londres, enquanto este parece sentir uma alegria imensa por poder voltar a estar diante da amada. Ambos tiveram casos com outras pessoas, mas nada tão forte como o namoro que mantiveram quando viviam em Los Angeles, embora algo pareça diferente. Jacob sente que é um estranho em Londres, enquanto Anna sabe que tudo aquilo que estão a viver é temporário. Será que o casamento poderá resolver o problema? A distância e as ausências parecem minar a relação destes personagens, bem como os envolvimentos que estes iniciaram com outras pessoas. Veja-se quando Jacob inicia uma relação com Samantha (Jennifer Lawrence), uma funcionária da oficina onde trabalha, ou Anna começa a namorar com Simon (Charlie Bewley). Jennifer Lawrence, ainda numa fase pré-sucesso, raramente consegue sobressair, com a actriz a interpretar uma personagem que pouco ou nada é aproveitada ao longo da narrativa (não ajuda Felicity Jones brindar o espectador com uma interpretação que arrasa por completo a "concorrência"). Charlie Bewley tem o "mérito" de ter aceite interpretar o estereótipo do tipo que ganha muito mais respeito quando está calado, com Simon a surgir como um indivíduo bem intencionado mas completamente idiota. Simon e Samantha nunca ganham relevância na narrativa, com ambos a funcionarem como um mero artifício para Drake Doremus expor que a dupla de protagonistas tentou seguir em frente, embora esse objectivo pareça deveras complicado, sobretudo quando a relação anterior foi marcada por sentimentos bem fortes. "Like Crazy" está longe de apresentar apenas os momentos de felicidade entre Anna e Jacob. A relação da dupla de protagonistas é bem mais complexa, algo notório com o avançar da narrativa, quando a candura inicial dá lugar a um envolvimento marcado pelas feridas que tardam em sarar. Será possível que ambos voltem a ser felizes? Torcemos que sim, ou melhor, somos compelidos a isso, com Drake Doremus a criar uma obra cinematográfica capaz de enternecer ou despertar um aperto no coração, sempre sem fugir aos convencionalismos, embora estes sejam superados por um argumento pontuado por falas dotadas de enorme sinceridade, intérpretes capazes de elevarem os diálogos (diga-se que muitos dos diálogos são improvisados, com Drake Doremus a exibir uma competência notória a conduzir a sua dupla de protagonistas) e momentos que facilmente ganham um significado especial. Num determinado momento de "Like Crazy", Jacob oferece uma cadeira de madeira a Anna. Este é o primeiro móvel criado por Jacob, com Anna a habituar-se a escrever na cadeira que conta com a inscrição "Like Crazy", algo que diz muito da relação deste casal, com o objecto a ganhar um significado especial para os protagonistas e para o espectador.

Se Jacob oferece uma cadeira, já Anna prefere elaborar um "livro de amor" com cartas, fotografias, textos e apontamentos relacionados com o quotidiano do casal. Diga-se que Jacob oferece ainda uma pulseira a Anna, um objecto que tarda em sair do pulso desta personagem, mesmo quando a relação parece ter sido atomizada pelas decisões da dupla de protagonistas. Anna e Jacob expõem os sentimentos de forma muito própria, com ambos a apresentarem personalidades distintas apesar de contarem com diversos gostos em comum, algo visível quando o segundo descobre que a primeira é fã de Paul Simon. Anton Yelchin incute uma certa melancolia a Jacob, um personagem relativamente solitário e pouco falador, que ama Anna, embora nem sempre pareça conseguir conviver com os revezes que a relação conhece. Felicity Jones convence em relação à personalidade delicada e encantadora de Anna, com esta a parecer atrair facilmente as atenções para a sua pessoa, enquanto a actriz quase que enfeitiça o espectador com uma interpretação que provoca impacto. Anna é bastante próxima de Bernard (Oliver Muirhead) e Jackie (Alex Kingston), os seus pais (provavelmente os personagens secundários que mais se destacam ao longo do filme), um casal extrovertido que aprecia imenso a presença de Jacob. Um erro, daqueles habitualmente cometidos pelos jovens, promete trazer consequências gravosas para Jacob e Anna, com a burocracia inerente à obtenção e desbloqueamento dos vistos para a entrada nos EUA a ser criticada, enquanto os protagonistas são obrigados a ficarem temporariamente separados devido a essas regras. É certo que ambos poderiam ter ido viver para Londres e ficavam com o problema resolvido mas, ao sairmos da faculdade, quantos de nós é que optamos pelas decisões mais pragmáticas para a vida? Jacob e Anna ainda são inexperientes e demonstram isso por diversas vezes ao longo de "Like Crazy" quer quando estão juntos, quer quando estão separados. O problema é que a experiência e a aprendizagem com os erros tiram parte do brilho daquela relação que começara de forma meio impulsiva, louca e sonhadora, com Jacob e Anna a conhecerem longos períodos de afastamento e aproximação. A certa altura de "Like Crazy", Jacob liga para Anna, com esta a tentar manter a calma, enquanto esconde que se encontra emocionalmente arrasada. Pouco tempo depois, Anna liga a Jacob e pede se este pode viajar para Inglaterra. Ambos parecem arrasados do ponto de vista emocional e desejosos para que esta reunião se torne realidade, enquanto Drake Doremus consegue compelir-nos a torcer por estes personagens ao ponto de querermos que este reencontro seja feliz. No entanto, nada é assim tão simples. É certo que o reencontro é pontuado por momentos de felicidade, tais como Jacob trazer a cadeira que construiu para Anna e ambos partilharem alguns episódios em conjunto, embora o personagem interpretado por Anton Yelchin se sinta um estranho no meio dos amigos da amada. Tudo piora quando começam a surgir as dúvidas. Veja-se quando Simon toca à porta do apartamento de Anna, com esta última a não revelar que Jacob está em casa, enquanto a câmara de filmar se move em direcção a este último (o trabalho de John Guleserian é bastante competente, com o director de fotografia a contribuir para o tom romântico e sincero do filme), com Anton Yelchin a transmitir as dúvidas que assolam a mente deste designer e construtor de móveis.

 Jacob e Anna chegam a ponderar a possibilidade de contraírem matrimónio, um acto que oficializaria a união de ambos e poderia facilitar algumas questões do foro legal. Será que o matrimónio resolveria todos os problemas de Jacob e Anna? A resposta a esta questão é deveras complicada e Drake Doremus não parece estar disponível para nos facilitar a vida e aos seus protagonistas. Anna encontrou estabilidade profissional em Inglaterra. Jacob encontrou estabilidade profissional nos EUA. Ao longo do filme, Anna e Jacob reúnem-se, separam-se, vivem episódios em conjunto ou sem contarem com a companhia um do outro, embora pareçam tardar em esquecer aquele romance meio louco que conduziu a primeira a furar a lei. Na sua crítica a "Like Crazy", Roger Ebert, um crítico que respeito imenso, salientou que o enredo do filme "(...) tilts too much in the direction of a weepie and not enough in the direction of the facts of life". É provável que "Like Crazy" seja irrealista, ou não caminhe na direcção dos "factos da vida", sejam estes quais forem, mas, num filme, aquilo que me interessa é se o realizador e a restante equipa conseguem criar uma narrativa que funcione. O cinema não tem que dar o real, ou procurar imitar uma ideia de realidade. Diga-se que a realidade atinge situações bem mais caricatas, absurdas e "irreais" do que "Like Crazy", com Drake Doremus a criar uma obra cinematográfica capaz de conseguir que nos identifiquemos regularmente com a sua dupla de protagonistas e os seus actos. Veja-se quando Anna está no metro, acompanhada por Jacob, com a viagem de ida a ser bem distinta da volta, ou esta não fosse levar o amado até ao aeroporto. No regresso, Anna aparece sozinha, a observar os outros no metro, enquanto a sua mente parece recheada de incertezas. O momento no metro, no qual a melancolia e tristeza parecem tomar conta do estado de espírito de Anna, é um dos diversos trechos de "Like Crazy" onde Drake Doremus consegue criar algo que é desferido de forma certeira no "coração" do espectador, com este último a conseguir rever-se na situação da protagonista. Quantos locais aparentemente banais não ganham um significado distinto consoante a nossa companhia? A própria atenção a um simples entrelaçar dos pés, ou a duas mãos que se encontram separadas por um espelho, dizem muito da candura e humanismo que Drake Doremus incute a "Like Crazy", com o cineasta a realizar um romance que nos consome, faz apaixonar pelos seus personagens e pelos momentos protagonizados pelos mesmos, enquanto assistimos aos avanços e recuos de uma relação. O argumento permite que Anton Yelchin e Felicity Jones componham personagens credíveis, com a dupla a explanar assertivamente as características distintas dos elementos que interpretam e o modo como os acontecimentos protagonizados por Anna e Jacob contribuem para modificar a personalidade dos protagonistas e a maneira como estes encaram a relação que formaram e o mundo que os rodeia. É certo que "Like Crazy" conta com algumas situações convencionais e Drake Doremus apresenta uma certa preguiça no desenvolvimento de personagens secundários como Simon e Samantha, com estes a constarem na narrativa apenas com o propósito de expor que Anna e Jacob não conseguem encontrar parceiros que os façam esquecer daquela relação que começou com uma carta deixada pela personagem interpretada por Felicity Jones no carro do protagonista. Ela pede para que este não a ache louca. Ele está longe de pensar isso. Tudo aquilo que é exibido em "Like Crazy" está longe da loucura, com Drake Doremus a envolver-se pelos meandros dos sentimentos humanos e pela complexidade que envolve uma relação sentimental, enquanto cria um pedaço de cinema que tem o condão de encantar e apaixonar.

Título original: "Like Crazy".
Realizador: Drake Doremus.
Argumento: Drake Doremus e Ben York Jones.
Elenco: Felicity Jones, Anton Yelchin, Jennifer Lawrence, Oliver Muirhead, Alex Kingston, Charlie Bewley.

09 junho 2016

Resenha Crítica: "Layer Cake" (2004)

 Depois de ter produzido obras cinematográficas realizadas por Guy Ritchie, tais como "Lock, Stock and Two Smoking Barrels" e "Snatch", Matthew Vaughn aventurou-se na realização de longas-metragens com "Layer Cake", um thriller protagonizado por Daniel Craig, com o estilo do primeiro a parecer ter influenciado o estreante de forma indelével. Não faltam reviravoltas delirantes, traições, cenas de acção estilizadas, violência, personagens que se encontram envolvidos no mundo do crime, uma criatividade notória na utilização da banda sonora, enquanto estilo e substância se reúnem de forma explosiva. Matthew Vaughn não tem problemas em exibir e explorar a violência e os perigos que envolvem o quotidiano do protagonista, um traficante de cocaína que conhece paradigmaticamente as regras do seu ofício e o modo de operar no mundo do crime. Esse conhecimento não implica que o protagonista esteja completamente livre de ser surpreendido, bem pelo contrário, com "Layer Cake" a conseguir transmitir a sensação dos perigos que envolvem o quotidiano deste indivíduo e daqueles que o rodeiam. Aos poucos, as mortes, traições, enganos, revelações e reviravoltas avolumam-se de tal maneira que parece praticamente impossível que o protagonista e boa parte daqueles que o rodeiam consigam sobreviver, com Matthew Vaughn a explanar que os personagens que povoam a narrativa bailam muitas das vezes ao lado da morte, com esta a não ser propriamente a parceira ideal para dançar o tango. O protagonista é interpretado por Daniel Craig, com o actor a ter espaço para sobressair e exibir o seu carisma como um traficante arguto e cheio de estilo, que não gosta de utilizar armas e evita negociar com elementos que dão muito nas vistas, embora nem sempre consiga fugir à obrigação de lidar com tipos completamente chanfrados. O nome do personagem interpretado por Daniel Craig nunca é revelado, com os créditos finais a mencionarem o traficante de cocaína como XXXX, algo que diz muito do modo de actuar deste indivíduo que, com o avançar do enredo, é obrigado a gerir toda uma situação intrincada para conseguir o melhor negócio possível e sobreviver. XXXX não se descreve a si próprio como um gangster, mas sim como um homem de negócios, sendo conhecido como um dos melhores da sua área, embora pretenda abandonar este ofício e desfrutar dos recursos financeiros que alcançou. Durante a chamada "lei seca", diversos gangsters e traficantes aproveitaram para vender bebidas alcoólicas ilegalmente e enriquecerem. Por sua vez, XXXX procura lucrar com as drogas antes que estas sejam legalizadas, algo exposto pelo próprio na introdução de "Layer Cake". A introdução serve para Matthew Vaughn agarrar desde logo o espectador e aproveitar para expor o tom do filme: cheio de estilo, pontuado por boa música, consumo de drogas, violência e a certeza de que o protagonista vive de forma arriscada. O protagonista trabalha para Jimmy Price (Kenneth Cranham), um fornecedor de droga, aparentemente bem relacionado, que é respeitado por quase todos os seus funcionários e se encontra no "topo da pirâmide", embora conte com uns quantos esqueletos no armário e esconda um lado traiçoeiro.

O braço direito de Jimmy é Gene (Colm Meaney), um tipo duro e inflexível que lida de perto com XXXX, bem como com os elementos que colaboram com este último, em particular, Morty (George Harris), Terry (Tamer Hassan) e Clarkie (Tom Hardy). Morty é um antigo presidiário, leal, aparentemente calmo, que trabalha com Terry, um indivíduo relativamente apagado; Clarkie é um licenciado em química que trata das substâncias estupefacientes, com Tom Hardy a praticamente não ter espaço para sobressair. Morty é o elemento do grupo que parece mais próximo do protagonista, com o personagem interpretado por George Harris a apresentar uma personalidade relativamente discreta, embora seja capaz de cometer actos completamente brutais. O quotidiano de XXXX fica ainda mais movimentado a partir do momento em que Jimmy incumbe o protagonista de cumprir duas missões: negociar e vender um milhão de comprimidos de ecstasy que se encontram na posse de Duke (Jamie Foreman), um traficante conhecido pela sua personalidade irritadiça e pela parca inteligência; encontrar a filha de Eddie Temple (Michael Gambon), uma toxicodependente que se encontra desaparecida. Eddie é um mafioso que supostamente mantém uma relação de amizade com Jimmy, uma situação que conduz este último a incumbir XXXX de realizar uma missão diferente em relação às ordens que o protagonista costuma cumprir. Sem grande paciência, ou engenho para descobrir o paradeiro da filha de Eddie, o protagonista decide contratar os serviços de Cody (Dexter Fletcher - num papel secundário de alguma relevância) e Tiptoes (Steve John Shepherd), dois vigaristas com enormes conhecimentos no submundo de Londres, tendo em vista a que estes encontrem a jovem. Por sua vez, o próprio XXXX assume as negociações com Duke, com o primeiro a exibir a sua faceta de negociador nato e uma inteligência superior à do seu interlocutor, enquanto este último demonstra que é um barril de pólvora prestes a explodir. Tudo piora quando XXXX descobre que os comprimidos de ecstasy pertenciam a Slavo (Marcel Iureş), um chefe da máfia sérvia, que opera a partir da Holanda. Duke e o seu gang roubaram o gangster sérvio, algo que desperta a fúria deste indivíduo que incumbe Dragan (Dragan Mićanović), um assassino letal, de "resolver" o problema e trazer a cabeça do responsável por este golpe. A vida de XXXX fica em risco, tal como a de Duke, com o protagonista a ter de enganar Dragan, resolver uma série de problemas que envolvem Eddie, Jimmy, entre outros personagens, enquanto Matthew Vaughn dá espaço para uma miríade de elementos secundários sobressaírem. Daniel Craig é a figura central de "Layer Cake", com o actor a convencer nas facetas distintas de XXXX, com o protagonista a surgir quer como negociador implacável, quer como uma figura vulnerável que parece ter receio de utilizar uma arma, quer como um elemento recheado de dúvidas quando percebe que tudo está a sair do seu controlo, quer como um conquistador nato. O lado conquistador é visível quando XXXX contacta com Tammy (Sienna Miller), uma mulher ousada que se encontra envolvida com Sidney (Ben Whishaw), o sobrinho de Duke, um indivíduo falador e algo atrapalhado que tem uma relevância surpreendente no final de "Layer Cake".

Sienna Miller incute um estilo sensual e provocador a Tammy, com esta a seduzir e deixar-se seduzir pelo protagonista, com Daniel Craig a exibir uma série de atributos que demonstram algumas das razões para ter sido seleccionado para interpretar James Bond. No entanto, o protagonista praticamente não tem tempo para estar com mulheres, com este a envolver-se num jogo perigoso onde a melhor estratégia nem sempre parece ser suficiente para conseguir sobreviver. Veja-se quando é obrigado a contactar de perto com Eddie, com Michael Gambon a incutir um estilo altivo e pragmático ao personagem que interpreta, com o mafioso a surgir como um dos elementos que personificam o perigo que rodeia o protagonista. Essa ameaça é ainda visível na figura de Dragan, um indivíduo que praticamente não aparece fisicamente diante do espectador, embora os efeitos da sua faceta implacável sejam bem sentidos. Matthew Vaughn consegue criar uma certa tensão em volta da figura de Dragan, com a violência a fazer parte do quotidiano destes personagens, que o diga XXXX. A violência é exposta em grande estilo, embora seja sentida, com Matthew Vaughn a conseguir mesclar assertivamente estilo e substância. Veja-se quando Morty agride brutalmente um indivíduo que contribuíra para o gangster ter sido preso por um crime que não cometeu, naquele que é um momento inspiradíssimo de "Layer Cake", com George Harris a surpreender pelo sadismo que incute ao personagem que interpreta, enquanto o criminoso expele o ódio que tinha contido e Matthew Vaughn utiliza a canção "Ordinary World" com grande estilo e significado. Na cena mencionada, ficamos muitas das vezes diante da perspectiva do agredido, com o trabalho de câmara, montagem, a banda sonora e os gestos de George Harris a contribuírem para um dos vários trechos marcantes de "Layer Cake". Também Gene não tem problemas em utilizar a violência para resolver os problemas, com Matthew Vaughn a exibir que o quotidiano destes personagens é marcado pela brutalidade. O personagem interpretado por Daniel Craig está longe de surgir como o estereótipo do criminoso simplesmente frio, com XXXX a apresentar alguns receios e fragilidades emocionais, sendo enganado algumas vezes pelo caminho devido a confiar em demasia em alguns elementos, embora seja um estratega hábil e inteligente. O protagonista procura desenvencilhar-se dos vários imbróglios nos quais se encontra envolvido, com o seu destino a ser incerto até ao último segundo, enquanto Matthew Vaughn se parece divertir a jogar com a vida deste traficante. O argumento é sólido o suficiente para conseguir que a miríade de personagens que povoa a narrativa de "Layer Cake" ganhe credibilidade, enquanto o pulso forte de Matthew Vaughn é sentido, com o cineasta a realizar um thriller enérgico, dinâmico, violento e pontuado por alguns momentos de humor.

Título original: "Layer Cake".
Título em Portugal: "Layer Cake - Crime Organizado".
Realizador: Matthew Vaughn.
Argumento: J. J. Connolly.
Elenco: Daniel Craig, George Harris, Kenneth Cranham, Michael Gambon, Sienna Miller, Tom Hardy, Colm Meaney, Jamie Foreman, Ben Whishaw, Dexter Fletcher.

07 junho 2016

Resenha Crítica: "Triple 9" (2016)

 A tonalidade vermelha remete para a violência, sangue, sentimentos fervilhantes e poder, algo que explica a utilização recorrente desta cor em "Triple 9", um thriller marcado por cenas de acção intensas e um elenco de luxo, embora o argumento esteja longe de primar pela originalidade ou pela coerência, contribuindo e muito para que a nova longa-metragem realizada por John Hillcoat não ultrapasse a mediania. A cor vermelha encontra-se presente quer na iluminação de um clube nocturno (a adensar a inquietação), quer nos sapatos de uma mafiosa russa (a simbolizar o poder), quer no sangue que escorre de forma amiúde, com John Hillcoat a não poupar na violência, enquanto nos coloca diante de assaltos intrincados, golpes mirabolantes e um grupo alargado de personagens. Não faltam polícias sérios, bem como alguns agentes corruptos, mafiosos russos, seguranças violentos, informadores, entre outros personagens, com "Triple 9" a contar com uma narrativa povoada por uma miríade de figuras que permitem que intérpretes como Casey Affleck, Chiwetel Ejiofor, Woody Harrelson, Kate Winslet e Anthony Mackie sobressaiam, bem como Michael Kenneth Williams numa curta mas inesquecível aparição. No entanto, actrizes como Gal Gadot e Teresa Palmer limitam-se apenas a servir de colírio para os olhos, com as personagens que interpretam a nunca ganharem relevância na narrativa, caindo por completo nos estereótipos fáceis, enquanto John Hillcoat denota uma falta de preocupação notória em relação ao desenvolvimento destas duas figuras femininas. Já Kate Winslet assume os estereótipos de mafiosa russa com gosto, exuberância, exagero propositado e um tom que surpreende, com a actriz a parecer desfrutar da oportunidade de interpretar Irina, a esposa de Vassili (Igor Komar), um poderoso chefe da máfia russa. Irina controla os negócios do esposo, enquanto este se encontra detido, com Kate Winslet a transmitir a frieza desta figura feminina forte, uma mafiosa que não tem problemas em mandar eliminar quase todos aqueles que lhe desobedecem. John Hillcoat não poupa na violência visceral e na brutalidade, algo visível nos momentos iniciais de "Triple 9", quando encontramos Michael Atwood (Chiwetel Ejiofor), Russell Welch (Norman Reedus), Gabe (Aaron Paul), Marcus Belmont (Anthony Mackie) e Franco Rodriguez (Clifton Collins, Jr.), a assaltarem um banco, em Atlanta, com a câmara a encontrar-se em constante movimento, pronta a adensar a inquietação em volta do furto. Os criminosos falam em espanhol, tendo em vista a confundirem inicialmente as autoridades, aproveitando o racismo que existe em relação aos latinos, levando consigo dinheiro e uma caixa que contém elementos relevantes para libertar Vassili. Michael e Russell são dois antigos Navy Seals que comandam a operação, a mando de Irina, com o primeiro a ter um filho e a manter uma estranha relação com a irmã da mafiosa (é uma das várias subtramas abordadas de forma pueril), nomeadamente, Elena (Gal Gadot). A juntar a estes elementos temos Gabe, o irmão de Russell, um antigo polícia, completamente destruído pelo consumo de álcool e drogas, com este a recomendar a presença de Marcus e Franco. Os personagens interpretados por Anthony Mackie e Clifton Collins, Jr. são dois polícias corruptos, com o primeiro a parecer recear cometer alguns actos mais violentos, enquanto o segundo apresenta uma atitude completamente niilista, representando o estereótipo do agente da autoridade corrupto.

O assalto ao banco é pontuado pela intensidade e violência, com a câmara na mão a ser utilizada com engenho, embora a fuga não decorra como os criminosos esperavam, ou o dinheiro não estivesse protegido com um dispositivo que solta tinta e fumo vermelho, algo que cobre as notas e as roupas dos protagonistas. A situação dos assaltantes piora quando Irina não paga a verba combinada, deixando Michael estarrecido, com a mafiosa a obrigar o grupo criminoso a efectuar um furto no Departamento de Segurança Nacional, tendo em vista a resgatar documentos que permitem a libertação definitiva de Vassili. Um dos elementos do grupo é morto, fruto da acção dos homens ao serviço de Irina, com a mafiosa a não ter problemas em jogar com Michael, procurando que este não visite o filho, enquanto ameaça constantemente a vida do criminoso. Chiwetel Ejiofor incute um tom duro e perigoso a Michael, embora exponha regularmente as fragilidades deste indivíduo, algo que contrasta com a frieza que Clifton Collins, Jr. transmite como Franco. Diga-se que o personagem interpretado por Clifton Collins Jr. parece ter sido criado com recurso a um ficheiro de powerpoint, onde se encontravam bullet points com os clichés do polícia corrupto que não tem problemas em eliminar os colegas. Por sua vez, Aaron Paul, embora tenha um personagem com umas pitadas de densidade, nem sempre convence como um antigo polícia que estorva mais os golpes do que ajuda os seus companheiros, tendo uma tendência latente para se destruir e àqueles que o rodeiam. Já Anthony Mackie interpreta um dos personagens mais carismáticos do filme, em particular, um polícia que se envolve pelo mundo do crime organizado, embora também procure cumprir as suas funções como agente da autoridade. Tendo em vista a dispersar a atenção da polícia e roubar a documentação necessária, o grupo decide simular um alerta de 999, um código que significa que um polícia foi ferido. O elemento seleccionado como alvo é Chris Allen (Casey Affleck), um polícia cumpridor, que é colocado como parceiro de Marcus, com a personalidade de ambos a ser bastante distinta, algo que é exposto por John Hillcoat numa subtrama que envolve uma investigação relacionada com três assassinatos que ocorreram num bairro povoado por latinos (desenvolvida de forma sensaborona). Escusado será dizer que Marcus fica numa situação pouco recomendável, sobretudo quando é salvo por Chris, com John Hillcoat a avançar muitas das vezes para caminhos previsíveis e para reviravoltas que a certa altura deixam de provocar efeito. Quem se encontra a investigar o assalto ao banco é Jeffrey Allen (Woody Harrelson), um inspector de personalidade peculiar que é tio de Chris, com a dupla a manter uma relação bastante próxima. Woody Harrelson não precisa de um argumento demasiado aprumado ou complexo para sobressair, com o actor a espelhar mais uma vez uma capacidade inexorável para criar personagens que deixam marca na narrativa. A investigação de Jeffrey conduz a que este descubra uma teia de mentiras, tal como Chris, com ambos a surgirem como figuras sérias que tentam cumprir nas suas funções profissionais. Se a relação entre Chris e Jeffrey é abordada com alguma eficácia, com o tio a procurar proteger o sobrinho, já o casamento entre o primeiro e Michelle (Teresa Palmer) praticamente não é desenvolvido de forma convincente, com Teresa Palmer a surgir como o estereótipo da esposa compreensiva que procura apoiar o marido.

A personagem interpretada por Teresa Palmer não é desenvolvida ao longo do enredo, algo que se repete no caso de Elena, com John Hillcoat a raramente conseguir dar a devida atenção às figuras femininas, com excepção de Irina, embora esta seja uma mafiosa completamente caricatural. O que faz Irina funcionar é Kate Winslet ou, talvez, nem seja a interpretação da actriz que eleve a personagem, mas sim a surpresa de ver a intérprete a assumir uma figura quase cartunesca, com o seu sotaque russo a raramente convencer. Já intérpretes como Michael Kenneth Williams conseguem efectuar muito com pouco. Veja-se quando Sweet Pea (Michael Kenneth Williams), um transexual e informador, contacta com Jeffrey, com Woody Harrelson e Michael Kenneth Williams a protagonizarem um dos bons momentos do filme. "Triple 9" conta ainda com uma série de personagens mal aproveitados, tais como Luis Pinto (Luis Da Silva), um latino que se envolve num desaguisado com Chris, tendo alguma relevância num episódio do último terço, ou Russell, um criminoso que "salta" cedo do enredo. A segunda metade de "Triple 9" é marcada pela investigação de Jeffrey, tendo em vista a descobrir quem roubou o banco no início do filme, bem como pela tentativa dos criminosos obterem a documentação pretendida por Irina e orquestrarem um golpe para dispersar a atenção das autoridades. No seio da polícia encontramos corruptos, mas também figuras cumpridoras, enquanto o grupo de criminosos conta quer com elementos frios, quer pontuados por alguma fragilidade emocional, com o argumento de Matt Cook a esboçar uma tentativa de incutir alguma densidade ao enredo de "Triple 9", embora o argumentista e John Hillcoat estejam longe de conseguirem abordar com sucesso as temáticas que lançam para o interior da narrativa. A corrupção no seio da polícia, as relações pessoais dos personagens principais, as reviravoltas excessivas, surgem como alguns exemplos de elementos que saem muitas das vezes ao lado desta narrativa, com John Hillcoat a ser bem mais assertivo a arquitectar as cenas de acção. A violência parece surgir como um modo do realizador conseguir expressar aquilo que tem para dizer e exibir a crueza do modo de vida dos personagens que povoam o enredo de "Triple 9", com John Hillcoat a não poupar em tiroteios, assaltos, perseguições e momentos inquietantes. Diga-se que "Triple 9" remete para diversos filmes do género, com a influência de "Heat" a parecer notória quer nas cenas de acção, sobretudo na brutalidade dos assaltos e tiroteios, quer na exposição do quotidiano dos criminosos e dos polícias, embora John Hillcoat esteja longe de apresentar o mesmo engenho de Michael Mann. Veja-se a abordagem da vida privada dos protagonistas, com as relações de Chris e Michael com as respectivas caras metades a raramente convencerem. John Hillcoat tem um trabalho irregular em "Triple 9", usando e abusando das reviravoltas e dos lugares-comuns dos filmes de assalto, policiais e thrillers, embora beneficie de um elenco de luxo para manter "Triple 9" no limiar da mediania, com a obra cinematográfica a contar com algumas doses de tensão e inquietação, embora deixe a amarga sensação de que o seu potencial não foi totalmente aproveitado.

Título original: "Triple 9"
Realizador: John Hillcoat.
Argumento: Matt Cook.
Elenco: Casey Affleck, Chiwetel Ejiofor, Anthony Mackie, Aaron Paul, Michael Kenneth Williams, Clifton Collins, Jr., Woody Harrelson, Kate Winslet, Norman Reedus.

05 junho 2016

Resenha Crítica: "Louder Than Bombs" (Ensurdecedor)

 Depois de realizar "Reprise" e "Oslo, 31. august", Joachim Trier teria sempre uma tarefa hercúlea pela frente, ou seja, manter a toada de sucesso e continuar a marcar território como uma das vozes a ter em clara atenção. "Louder Than Bombs" (em Portugal estreou com o título "Ensurdecedor"), a terceira longa-metragem realizada por Joachim Trier, a primeira fora da Noruega, não está ao nível dos dois trabalhos anteriores do cineasta (confesso que "Reprise" ganha uma simpatia crescente da minha parte a cada nova visualização), embora surja como um drama sensível e delicado, que aborda as temáticas com classe e sobriedade. Se "Reprise" e "Oslo, 31. august" abordavam temáticas relativamente universais, embora inseridas no contexto muito específico da Noruega, já "Louder Than Bombs" é falado em inglês e conta com Nova Iorque como pano de fundo, com Joachim Trier a efectuar a transição com alguma eficácia, embora não consiga captar as especificidades do território com a mesma arte que demonstrara nas longas-metragens que realizara anteriormente. O enredo de "Louder Than Bombs" deambula entre o presente e o passado, entre a sensação da presença daqueles que já não estão vivos e a noção de que a dor provocada pela morte de um ente querido é difícil de superar, enquanto ficamos diante de personagens que desafiam muitas das vezes as nossas expectativas e nos compelem a reflectir sobre os seus dilemas. "Louder Than Bombs" aborda temáticas e elementos como um núcleo familiar que lida com as dores provocadas por uma perda relevante, a solidão, a depressão, a falta de comunicação, os problemas existenciais, as dificuldades no seio do casamento, as divergências entre pais e filhos, a amizade entre dois irmãos, o poder da memória, entre outros exemplos. Joachim Trier volta a colocar-nos diante de personagens principais que se encontram a atravessar uma fase menos positiva das suas vidas, ou lidam com problemas existenciais, algo latente nas figuras de Gene Reed (Gabriel Byrne), Jonah (Jesse Eisenberg) e Conrad (Devin Druid), uma trio que conta com uma relevância indelével no enredo de "Louder Than Bombs". Gene é um professor do ensino secundário, viúvo de Isabelle (Isabelle Huppert), uma repórter fotográfica, com quem teve dois filhos, Jonah e Conrad. Gabriel Byrne tem uma interpretação convincente como Gene, com o actor a conseguir expressar as dúvidas e inquietações que assolam a mente deste professor de personalidade relativamente discreta. Nos flashbacks, ou nas memórias do passado que nos são exibidas em pequenos fragmentos, percebemos que a relação entre Gene e Isabelle conheceu alguns problemas. Gene por vezes estava ausente, tal como Isabelle, com a vida profissional de ambos a ditar esta situação, sobretudo no caso desta última. Isabelle fez carreira como repórter fotográfica, tendo trabalhado em territórios marcados por conflitos bélicos, com Huppert a incutir um tom simultaneamente frágil e forte a esta personagem ambiciosa que marcou de forma indelével aqueles que a rodearam. Isabelle Huppert dá um ar da sua graça, transmitindo imenso apenas com alguns gestos, ou quando a câmara se fecha sobre o seu rosto e permite que a intérprete exiba o poder do seu olhar.

Joachim Trier percebe o poder dos close-ups e o efeito que estes podem provocar no espectador, com o cineasta a utilizar esta técnica de forma amiúde. Veja-se quando encontramos Conrad na sala de aulas, a pensar na mãe, ou o personagem interpretado por Jesse Eisenberg a ler um texto escrito pelo irmão, ou o rosto de Isabelle após ficarmos diante da exposição de algumas das inquietações desta mulher. A personagem interpretada por Isabelle Huppert permite que Joachim Trier e Eskil Vogt, a dupla de argumentistas (trabalharam juntos em "Reprise" e "Oslo, 31. august"), abordem temáticas relacionadas com a depressão e os efeitos desta doença. Isabelle começou a padecer de depressão a partir do momento em que decidiu efectuar uma pausa na carreira profissional ou, pelo menos, este episódio pareceu agravar a doença. Gene nunca impôs esta paragem, embora tenha exibido a sua preocupação em relação ao futuro da esposa, com a presença de Isabelle nos palcos de guerra a apoquentar este indivíduo, bem como as ausências constantes da fotógrafa. Diga-se que Gene apresentou algumas dificuldades a lidar com a depressão de Isabelle, algo que levou esta última a procurar conforto junto dos filhos, desabafando sobre os seus problemas com Jonah, o mais velho. Esta situação conduz a que Gene, Conrad e Jonah recordem Isabelle de forma distinta, enquanto ficamos diante de pequenos fragmentos das memórias conservadas por estes personagens, com "Louder Than Bombs" a apresentar uma estrutura narrativa que ziguezagueia entre episódios do presente, recordações do passado e sonhos que assolam a mente dos protagonistas. Gene recorda Isabelle como uma mulher de contradições, que tanto era capaz de apresentar uma personalidade forte e decidida como exibia uma fragilidade notória. Jonah lidou de perto com o lado mais frágil da progenitora, pensando ser aquele que conhece melhor a mesma, enquanto Conrad recorda-se da mãe como uma figura protectora. Todos os personagens principais guardam recordações de momentos que viveram na companhia uns dos outros, mas também de episódios muito particulares com Isabelle e das suas longas ausências, embora tardem em abrir o jogo. A falta de comunicação é uma das temáticas centrais do filme, algo bem expresso no quotidiano deste núcleo familiar, com tudo e todos a parecerem condenados a cometerem os mesmos erros, apesar de se encontrarem unidos por laços de sangue e sentimentos fortes. No presente, ou seja, três anos após a morte de Isabelle, Gene mantém um caso com Hannah (Amy Ryan), uma das professoras de Conrad, embora procure esconder o namoro, algo que promete minar a relação. Gene procura não magoar Conrad, embora a relação entre ambos seja problemática, uma situação que podemos observar quer quando somos colocados do ponto de vista do primeiro, quer do segundo, com ambos a parecerem ainda marcados pela morte de Isabelle. Veja-se quando encontramos Gene a observar Conrad à distância, enquanto este último percebe que está a ser seguido e resolve efectuar um acto delirante para inquietar o progenitor. Gene não sabe que o filho percebeu que estava a ser seguido, com Gabriel Byrne a expressar a dificuldade que este professor tem em dialogar com os rebentos, sobretudo após a morte da esposa.

 Os momentos de dor são reavivados devido à organização de uma exposição em homenagem à carreira de Isabelle. Esta atingiu uma fama indelével como fotógrafa, com Joachim Trier a povoar a narrativa de fotografias captadas por Isabelle, mas também de alguns trechos nos quais a falecida assume a narração. A juntar à exposição, que se encontra a ser organizada por uma galeria, Richard (David Strathairn), um antigo colega e amante de Isabelle, pretende publicar um artigo sobre a fotógrafa para o New York Times. Richard vai aproveitar este artigo para revelar que Isabelle cometeu suicídio, algo que expõe ao viúvo. Gene e Jonah sabem que Isabelle pode ter cometido suicídio, embora o primeiro não tenha revelado essa informação a Conrad, algo que pretende efectuar, embora o filho mais velho rejeite essa ideia. Conrad pensa que a mãe faleceu num acidente de viação, algo que pode não ser verdade. A publicação do artigo promete mudar um pouco a percepção que a opinião pública tinha em relação a Isabelle, com Gene e Jonah a temerem a reacção de Conrad, embora Joachim Trier se prepare para surpreender o espectador. O suicídio de Isabelle permite que "Louder Than Bombs" aborde os efeitos gravosos da depressão, bem como a possibilidade de podermos mudar a nossa opinião sobre uma determinada pessoa devido a descobrirmos um episódio que desconhecíamos sobre a mesma. Veja-se quando Erin (Rachel Brosnahan), uma ex-namorada de Jonah, descreve a fotógrafa como frágil, algo que provavelmente não efectuaria se desconhecesse que Isabelle cometeu suicídio. Isabelle trabalhou em diversos palcos de guerra e apresentou uma coragem indelével, embora não tenha resistido a uma espiral depressiva que contaminou o seu gosto pela vida, com o último acto da sua existência a ser relevante para interpretarmos a fotógrafa, embora não retire o enorme valor dos seus feitos pessoais e profissionais. Jonah regressa a casa para ajudar o pai a seleccionar os negativos, os ficheiros e as fotografias que Isabelle não chegou a publicar ou a divulgar publicamente, tendo em vista a enviar o material para os elementos que se encontram a organizar a exposição. O regresso de Jonah permite ainda que este surja como uma espécie de apoio a Conrad, um adolescente problemático, que tanto é capaz de cometer o acto mais grosseiro como consegue apresentar uma criatividade e sensibilidade notórias. Conrad é um adolescente de quinze anos de idade, relativamente solitário, que gosta de jogar computador e dançar, raramente consegue comunicar com o pai e tem uma paixoneta por Melanie (Ruby Jerins), uma colega de escola que praticamente não sabe da sua existência. Gene mantém uma relação relativamente distante com os filhos, apesar de tentar comunicar com os mesmos, algo que permite um momento cómico onde o personagem interpretado por Gabriel Byrne explica a Hannah que criou um avatar, tendo em vista a jogar online com Conrad, embora os resultados não sejam os pretendidos. Conrad tarda em perceber o progenitor, algo que é recíproco, com "Louder Than Bombs" a aproveitar para abordar as relações complicadas entre pais e filhos.

 A morte de Isabelle marcou Jonah, Conrad e Gene, com o aproximar da exposição e da publicação do artigo a fazerem regressar memórias que nunca serão totalmente esquecidas. Veja-se quando encontramos Jonah, em plena sala de revelação, a mexer na máquina fotográfica utilizada pela mãe e a cheirar um pano ou uma peça de roupa que pertencia a Isabelle. A presença de Jonah neste espaço da habitação permite que Jesse Eisenberg exiba de forma subtil como este regresso a casa mexeu com o personagem que interpreta, enquanto Joachim Trier aborda a maneira específica como cada elemento encara a perda e enfrenta o luto. Embora tenha falecido, Isabelle continua bastante presente quer nas recordações e nos sonhos daqueles que continuam vivos, quer nos objectos que permaneceram na casa, com "Louder Than Bombs" a evitar abordar o luto a partir do período imediatamente posterior à morte de um ente querido, algo que permite explorar os efeitos sentidos a longo prazo. Joachim Trier desenvolve a narrativa a partir das perspectivas distintas dos três protagonistas, quase como se cada um surgisse como uma peça de um puzzle que é impossível de completar, ou não faltasse uma das peças fulcrais deste núcleo familiar. Esta decisão permite que Gabriel Byrne, Jesse Eisenberg e Devin Druid construam personagens pontuados por idiossincrasias, que se encontram a enfrentar uma série de problemas e dilemas. Conrad tem uma relação problemática com o pai, pensa regularmente na mãe e tarda em conseguir meter conversa com Melanie. Gene procura dialogar com os filhos embora falhe imensas vezes nesse quesito, tendo outrora desistido da carreira de actor para se dedicar à família. Jonah é um professor universitário que se encontra a viver a seis horas de distância (de carro) do pai, embora pouco contacte com o mesmo. A relação conjugal de Jonah e Amy (Megan Ketch) está longe de atravessar uma fase positiva. Joachim Trier procura enganar o espectador ao exibir inicialmente um diálogo recheado de humor e intimidade entre Amy e Jonah, quando ainda se encontram no hospital, devido à esposa do personagem interpretado por Jesse Eisenberg ter dado à luz uma rapariga, embora o cineasta e argumentista logo desfaça esse possível engano. É no hospital que Jonah reencontra Erin, uma ex-namorada que deixou marca na sua pessoa. Erin encontra-se a visitar a mãe, uma doente em estado terminal, enquanto um mal-entendido conduz a primeira a pensar que a esposa de Jonah contou com um destino trágico, algo que o primeiro não tenta esclarecer no imediato. Diga-se que o contacto entre o antigo casal não se limita a esta breve conversa no espaço do hospital, com Jonah e Erin a protagonizarem um episódio mais intimo quando regressam temporariamente a casa dos pais.

A estadia de Jonah em casa do pai demora mais tempo do que aquilo que estava inicialmente programado, com o personagem interpretado por Jesse Eisenberg a apresentar imensas dúvidas em relação ao futuro. Estas incertezas tornam-se particularmente visíveis quando encontramos Jonah a visitar Erin, ou a mentir a Amy e evitar dialogar com a esposa. Erin representa o passado, uma figura que conviveu com a mãe do protagonista e parece mexer com os sentimentos do professor universitário. Amy representa o presente, bem como um período com o qual o protagonista parece ter problemas em conviver, em particular, após a morte da mãe. Este ama a filha e a esposa, embora pareça demasiado preso ao passado, com Erin a representar esse período da vida de Jonah. O regresso a casa permite ainda que Jonah volte a conviver com Conrad. A relação de amizade entre Jonah e Conrad é exposta e desenvolvida de forma credível, com Jesse Eisenberg e Devin Druid a convencerem quer nos momentos de maior leveza, quer quando dialogam sobre situações mais sérias, com o primeiro a procurar evitar que o irmão mais novo se magoe. Num determinado momento de "Louder Than Bombs", encontramos Jonah a ler um texto escrito por Conrad no qual este último expõe muito da sua personalidade e do seu modo de ser. É um dos momentos mais inspirados e inspiradores do filme, com Devin Druid a narrar o texto em voice-over (um recurso muito utilizado por Trier ao longo de "Louder Than Bombs" para expor algumas das inquietações e estados de espírito dos personagens, com o cineasta a repetir algo efectuara nas suas duas primeiras longas-metragens), enquanto a banda sonora e o trabalho de montagem contribuem para um trecho simultaneamente frenético e poético. Neste trecho, Joachim Trier coloca-nos ainda diante do poder da fotografia, em particular, como o significado de uma foto pode mudar consoante o enquadramento ou a edição da mesma. Diga-se que Joachim Trier efectua este "jogo" entre a fotografia, a vida e o cinema quando coloca Gene a observar o filho, enquanto este último procura trocar as voltas ao pai, com o cineasta a expor quer a perspectiva do personagem interpretado por Gabriel Byrne, quer do adolescente, com ambos a interpretarem os acontecimentos de forma distinta, enquanto "Louder Than Bombs" demonstra paradigmaticamente que é uma obra cinematográfica bem mais complexa e intrincada do que uma leitura superficial do filme poderá indicar. Essa complexidade é visível na representação que Joachim Trier efectua de Isabelle, com esta mulher a surgir como uma fotografia impossível de interpretar e decifrar na totalidade, enquanto permanece viva nas memórias dos filhos e do esposo. "Louder Than Bombs" demonstra que "Respire" e "Oslo, 31. august" não foram um mero acaso no currículo de Joachim Trier, com o cineasta a realizar um drama delicado e envolvente, pontuado por uma estrutura narrativa dinâmica, interpretações convincentes e um trabalho de montagem competente.

Título original: "Louder Than Bombs".
Realizador: Joachim Trier.
Argumento: Joachim Trier e Eskil Vogt.
Elenco: Gabriel Byrne, Isabelle Huppert, Jesse Eisenberg, Devin Druid, Rachel Brosnahan, Ruby Jerins, David Strathairn, Amy Ryan.

02 junho 2016

Resenha Crítica: "Hail, Caesar!" (2016)

 Entre a sátira e a homenagem a um período marcante da História de Hollywood, "Hail, Caesar!" conta com o estilo de humor muito próprio dos irmãos Coen, um guarda-roupa merecedor de todos os elogios, um trabalho notável na concepção dos cenários, um elenco de luxo que nem sempre é aproveitado, enquanto a dupla de cineastas e argumentistas volta a inserir um rapto num dos seus filmes. É certo que não existe sentido de urgência, ou perigo, em volta do rapto, com Joel e Ethan Coen a preferirem seguir um rumo distinto, disparando para várias direcções, embora nem sempre acertem no alvo, enquanto aproveitam Hollywood dos anos 50 como se fosse um brinquedo que manuseiam a seu bel-prazer e exibem para os amigos ou, neste caso, para os espectadores. Não faltam filmagens de musicais, westerns, dramas de prestígio, estrelas fabricadas pelos estúdios, um "fixer" a procurar controlar os rumores relacionados com as vedetas e as películas, a paranóia anti-Comunista, quase tudo tendo como de pano de fundo o Capitol Pictures, um estúdio de cinema, enquanto Joel e Ethan Coen demonstram de forma amiúde que se inspiraram em diversas obras cinematográficas e a figuras associadas a Hollywood. No centro de quase tudo está a figura de Eddie Mannix (Josh Brolin), um indivíduo católico que é conhecido pela sua eficiência implacável quer como head of physical production, quer como "fixer". Eddie procura coordenar o desenvolvimento de todas as produções cinematográficas, tendo em vista a que estas sejam filmadas dentro dos prazos e orçamentos estipulados, para além de "cuidar" da imagem pública das estrelas de cinema. Nesse sentido, logo no início de "Hail, Caesar!", encontramos Mannix a evitar que Gloria DeLamour, uma actriz, seja fotografada por um indivíduo aproveitador, quando se encontrava aparentemente alcoolizada. Outra das estrelas que entra na esfera do trabalho de Eddie é DeeAnna Moran (Scarlett Johansson), uma actriz conhecida pela sua beleza e suposta ingenuidade, que se encontra a trabalhar num filme onde interpreta uma sereia. No entanto, DeeAnna Moran encontra-se grávida, fruto de um caso com Arne Slessum (Christopher Lambert), um realizador europeu, que é casado e conta com dois filhos. Tendo em conta os falsos moralismos da época, Eddie procura que esta informação sobre DeeAnna e Arne não salte para a imprensa e para o público, enquanto tenta encontrar uma solução que agrade quer à actriz, quer ao realizador. Johansson é exímia a desfazer a falsa imagem de castidade e ingenuidade associada a Moran, com a actriz a parecer divertir-se imenso a dar vida a esta figura que representa os falsos mitos criados em volta de algumas estrelas de Hollywood, embora os irmãos Coen nem sempre aproveitem esta subtrama, com os cineastas a fazerem questão de introduzir e retirar personagens da narrativa sem que estas tenham tempo de "crescer" no interior do filme. Scarlett Johansson destaca-se no pouco tempo que tem no grande ecrã, com DeeAnna a ter de interpretar uma sereia, algo que remete para a imagem "pura" que o Capitol Pictures criou à sua volta, com os irmãos Coen a exibirem como os estúdios procuravam utilizar e forjar a reputação das estrelas. Eddie tem a tarefa de evitar que essa imagem das estrelas se desfaça, ou de criar vedetas junto da opinião pública, ou simplesmente de prever os problemas antes que estes aconteçam, com "Hail, Caesar!" a transportar-nos para outros tempos de Hollywood que, em certa medida, não andam assim tão distantes da actualidade.

Os problemas parecem chegar a Eddie com facilidade ou, quando assim não acontece, é o próprio a chamar pelas confusões. Veja-se quando reúne elementos de diversas crenças religiosas para tentar perceber se o retrato que efectuam de Jesus Cristo em "Hail, Caesar!", uma obra cinematográfica na qual o estúdio depositou enormes expectativas, não ofende ninguém dos diferentes espectros religiosos. A obra cinematográfica que partilha o título com o novo trabalho dos irmãos Coen é um épico religioso, um subgénero que se encontrava em voga na época representada, com "Hail, Caesar!" a colocar-nos diante de episódios das filmagens e de alguns trechos deste filme ficcional, bem como dos seus cenários, com tudo a parecer decorrer conforme as previsões iniciais. No entanto, tudo se descontrola quando Baird Whitlock (George Clooney), a principal estrela do Capitol Pictures e protagonista do filme, é raptado por alguns figurantes. Eddie tenta esconder o rapto orquestrado por um grupo de argumentistas comunistas, bem como por uma estrela de cinema, com o "fixer" a procurar evitar que a informação salte para a imprensa, enquanto envida esforços para resolver todo este caso e conseguir que Whitlock regresse a tempo de concluir as filmagens de "Hail, Caesar!". A juntar a tudo isto, Eddie tem ainda de lidar com uma miríade de episódios a rodearem as diversas produções cinematográficas, algo que possibilita que intérpretes como Alden Ehrenreich sobressaiam, com este a dar vida a Hobie Doyle, um actor pouco talentoso, meio parolo, incapaz de proferir falas longas, que é alçado a estrela pelo estúdio. Perante a falta de actores disponíveis, Eddie obriga Laurence Laurentz (Ralph Fiennes), um realizador europeu, conhecido pelo seu enorme prestígio, a utilizar Hobie Doyle como protagonista, algo que coloca os nervos em franja ao cineasta, sobretudo quando percebe que o actor, uma estrela dos westerns, é incapaz de proferir as falas de forma correcta. Entretanto seleccionado para interpretar Han Solo no filme a solo do personagem, Alden Ehrenreich é, muito provavelmente, a maior surpresa de "Hail, Caesar!", a par da faceta "Gene Kelly" de Channing Tatum. Alden Ehrenreich transmite a inocência e o carisma de Hobie, um actor pouco competente e ingénuo, mas bem intencionado, que se envolve no caso da investigação do rapto de Whitlock. George Clooney interpreta um actor carismático mas pouco inteligente, que contacta pela primeira vez com os ideias do Comunismo, acabando por se encontrar num estranho cativeiro, onde é colocado diante de um grupo que se sente marginalizado em Hollywood. Baird Whitlock gosta de falar sobre os bastidores dos filmes que protagonizou, bem como dos episódios da vida privada, enquanto demonstra interesse pelos valores do Comunismo e George Clooney aproveita para incutir um tom delirante a um personagem que poderia perfeitamente ser um parente de Everett, um dos protagonistas de "O Brother, Where Art Thou?". Tanto Everett como Baird procuram parecer mais inteligentes do que realmente são, enquanto protagonizam alguns momentos caricatos, com Joel e Ethan Coen a aproveitarem o carisma de Clooney ao serviço do humor em ambos os filmes mencionados.

O rapto de Whitlock permite que Joel e Ethan Coen abordem e satirizem as teorias da conspiração contra os comunistas durante o período da Guerra Fria e do Macartismo (o grupo de raptores também é alvo do humor dos Coen, ou os seus integrantes não se reunissem num espaço luxuoso e contassem com um cão chamado Engels), algo que afectou diversos elementos ligados ao cinema (ainda este ano estreou nas salas de cinema nacionais um filme biográfico sobre Dalton Trumbo). Diga-se que "Hail, Caesar!" apesar de perder excessivamente o foco, sobretudo no que diz respeito ao rapto do personagem interpretado por George Clooney, apresenta um argumento de excelência a nível do aproveitamento das referências e da História de Hollywood e dos EUA. Diversos actores e actrizes foram inspirados em figuras reais (Whitlock em Robert Taylor; Hobie Doyle em Kirby Grant; DeeAnna Moran em Esther Williams; Carlotta Valdez  - aqui poderá existir ainda uma referência a "Vertigo" - em Carmen Miranda, entre outros exemplos), enquanto as referências às obras cinematográficas da época são mais do que muitas, algo que enriquece a narrativa. Para além das diversas menções efectuadas ao longo do texto, essas referências utilizadas em "Hail, Caesar!" são ainda visíveis quando encontramos Channing Tatum como Burt Gurney, um actor e dançarino misterioso, a protagonizar um número musical muito "à Gene Kelly" em "Anchors Aweigh", com os irmãos Coen a brindarem o espectador com um trecho memorável e subversivo, que pouco ou nada acrescenta ao enredo, embora faça parte do pacote integral desta louca viagem à história de Hollywood dos anos 50 que é oferecida pela dupla de cineastas aos espectadores. Joel e Ethan Coen funcionam como guias turísticos, enquanto reverenciam e ironizam com Hollywood, onde se encontram inseridos nos dias de hoje, embora não tenham perdido o cunho autoral. A procura de encontrar traços próprios de locais e da sociedade dos EUA é algo comum nos filmes dos irmãos Coen, com estes a abordarem diversos elementos deste país recheado de dicotomias, onde a realidade ultrapassa muitas das vezes a ficção, enquanto observam as suas transformações e as suas gentes. Veja-se o caso de "Fargo" ou "The Big Lebowski", onde tínhamos personagens bem peculiares, o humor típico dos Coen e ingredientes de neo-noir, ou "No Country for Old Men" no qual ficamos entre as dicotomias e semelhanças entre o passado e o presente no Texas. Nos casos de "Fargo" e "The Big Lebowski", tal como em "Hail, Caesar!" também contamos com raptos, bem como com figuras peculiares, mal-entendidos e situações rocambolescas, com o novo filme dos irmãos Coen a inserir-se ainda nas obras cinematográficas sobre Hollywood. Nesse sentido, quase que podemos colocar "Hail, Caesar!" como um ramo de uma linhagem que conta com obras cinematográficas como "The Bad and the Beautiful", onde um produtor conhece a ascensão e a queda, com Vincente Minnelli a abordar diversos episódios relacionados com os bastidores dos filmes; "The Big Knife", uma obra cinematográfica realizada por Robert Aldrich que expunha de forma bem viva a coerção efectuada pelos grandes estúdios aos actores; "Sunset Boulevard", um filme no qual Gloria Swanson interpreta uma estrela do tempo do cinema mudo que perdeu a relevância com o advento dos talkies, embora continue a pensar que é recordada por tudo e todos, entre outros exemplos.

 "Hail, Caesar!" consegue simultaneamente homenagear e satirizar Hollywood e os seus bastidores, com algumas temáticas retratadas a continuarem ainda na ordem do dia. A forma como os escândalos da vida privada podem afectar a carreira de um intérprete, a procura dos estúdios que os filmes de largo orçamento não ofendam ninguém e agradem a tudo e a todos, a criação de uma "imagem" em volta dos actores e actrizes, entre outros exemplos. Em "Hail, Caesar!" a imprensa surge representada através de Thora Thacker e Thessaly Thacker (ambas interpretadas pela brilhante Tilda Swinton), irmãs gémeas e rivais, que trabalham como colunistas de fofocas, com ambas a procurarem saber toda a informação sobre as estrelas, embora Eddie procure controlar ao máximo o trabalho de ambas. Veja-se como controla um possível escândalo relacionado com Baird Whitlock, ou tenta lançar os rumores sobre um hipotético romance entre Hobie Doyle e Carlotta Valdez. Josh Brolin é o actor que mais se destaca ao longo de "Hail, Caesar!", conseguindo incutir um estilo duro e inflexível a Mannix, mas também transmitir as suas dúvidas e inquietações. Brolin cria um personagem católico, que acredita ou tenta acreditar nos valores de Hollywood, ou na falta deles, enquanto gere os ritmos de produção do estúdio com enorme vigor e envolve-se nos episódios mais estapafúrdios. No entanto, a vida matrimonial de Mannix pouco é aproveitada e desenvolvida, com os irmãos Coen a apresentarem-nos à esposa do mesmo (Alison Pill), embora pouco abordem a relação, parecendo um daqueles trechos que poderiam ter caído por completo na sala de edição sem que ninguém tivesse dado pela sua falta. A estrutura da narrativa é propositadamente caótica, com os irmãos Coen a atirarem com diversos personagens e subtramas para o interior de "Hail, Caesar!", embora nem sempre consigam aproveitar todos os elementos que utilizaram, algo latente nos casos dos personagens interpretados por Channing Tatum, Scarlett Johansson, Ralph Fiennes, Alison Pill, entre outros, que apenas aparecem para um ou outro momento marcante que "salva o dia". O elenco é competente, tal como a equipa que trabalhou nos bastidores para conseguir transmitir a visão dos cineastas em relação à época representada, algo evidente na concepção dos cenários, bem como no guarda-roupa e maquilhagem dos personagens. Veja-se o caso dos cenários que envolvem a gravação do filme que empresta o seu nome ao título da nova obra cinematográfica dos Coen, com o guarda-roupa, o número de figurantes, a paleta cromática, o modo de falar dos personagens, a remeter para as filmagens de um épico neste período. Os diálogos são típicos das comédias dos irmãos Coen, com "Hail, Caesar" a inserir-se mais na senda de "The Big Lebowski", "O Brother, Where Art Thou?" do que de filmes da dupla como "Inside Llewyn Davis" ou "No Country for Old Men", com o enredo a contar com alguns momentos delirantes onde muito e pouco é para levar totalmente a sério. Com um cuidado notório no guarda-roupa, bem como nos cenários e nos diálogos, diversas referências cinéfilas (consultar neste link), um rapto rocambolesco e situações completamente delirantes, "Hail, Caesar!" nem sempre consegue parece fazer justiça a todo o seu potencial, ou aproveitar o elenco de luxo que os irmãos Coen têm à sua disposição, embora contenha elementos de sobra para merecer ser catalogado como uma das boas obras cinematográficas que chegaram às salas de cinema portuguesas em 2016.

Título original: "Hail, Caesar!".
Título em Portugal:
Realizadores: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumentistas: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Channing Tatum, Ralph Fiennes.

01 junho 2016

Quatro críticas mais lidas - Maio de 2016

1º -  Resenha Crítica: "Maresia" (2015)






















 2º - Resenha Crítica: "Por Trás do Céu" (2016)






















3º - Resenha Crítica: "Truman" (2015)






















4º - Resenha Crítica: "Mon Roi" (Meu Rei)






Arquivo de críticas do Rick's Cinema

Caros leitores,

Para tornar mais simples a leitura das críticas que, ao longo do tempo, temos publicado no blogue, vamos passar a organizá-las neste post, de acordo com o ano em que foram lançados os respectivos filmes ou séries. O post poderá ser sempre consultado através do menu, na secção das críticas, que conta com uma secção que remete para este arquivo.

A indexação das críticas será feita de forma constante, sendo elaborada de forma a facilitar a leitura e descoberta das críticas. Aqui está a nossa lista (ainda incompleta):


29 maio 2016

Resenha Crítica: "The Big Short" (A Queda de Wall Street)

 Com um trabalho de montagem que permite dinamizar a narrativa, um tom enérgico, uma criatividade indelével na exposição de termos ligados ao mercado financeiro que pouco dizem aos leigos na matéria, "The Big Short" beneficia ainda do facto de contar com um elenco de peso, enquanto Adam McKay percebe que as temáticas que aborda e as repercussões que alguns episódios tiveram não são propriamente o material mais apelativo para uma obra cinematográfica, algo que conduz o cineasta a recorrer a uma série de artimanhas para prender o espectador. Nesse sentido, Adam McKay opta por medidas que vão desde interromper a narrativa e colocar celebridades como Margot Robbie ou Selena Gomez a explicarem determinados termos intrincados associados ao sector da banca, passando por exibir imagens icónicas dos períodos representados, ou deixar o personagem interpretado por Ryan Gosling a assumir as funções de narrador de serviço e a dialogar com o espectador, com o cineasta a conseguir expor o absurdo e a loucura de toda uma situação que se não fosse tão grave e séria até teria alguma piada. Um dos trunfos de Adam McKay é saber utilizar o humor, sempre sem perder a noção de que o caso que retrata é grave e afectou demasiadas pessoas para ser exposto de forma pueril, com o cineasta a exibir que estamos diante de uma narrativa onde não existem heróis, com quase tudo e todos a procurarem o lucro. Diga-se que quem tratou as temáticas abordadas em "The Big Short" de forma pueril foram os diversos elementos que contribuíram para a crise financeira de 2008, com Adam McKay a expor a maneira completamente destravada como bancos, agências de rating e o mercado financeiro actuavam, com poucos elementos a preverem o desastre que viria a acontecer, embora os sinais parecessem bem evidentes. Os empréstimos eram concedidos com enorme facilidade e sem grande critério, praticamente qualquer pessoa podia aspirar a comprar uma casa, até se gerar uma bolha imobiliária e uma crise cujos contornos e repercussões ainda continuam a ser sentidos. As temáticas de "The Big Short" e as terminologias utilizadas nem sempre são as mais palatáveis, bem pelo contrário, mas Adam McKay consegue abordar as mesmas com engenho e criatividade, enquanto demonstra que é um bom condutor de actores. É certo que a tarefa de McKay é facilitada quando se tem um elenco talentoso composto por intérpretes como Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, entre outros, que incrementam um enredo inspirado nos episódios que antecederam a crise financeira de 2008, embora o cineasta tenha o mérito de conseguir que os vários elementos funcionem em prol da narrativa.

 Christian Bale interpreta Michael Burry, um neurologista com um olho de vidro, que padece de Síndroma de Asperger, apresenta uma enorme dificuldade em comunicar com as outras pessoas (o trabalho do actor a nível da voz e alguns diálogos permitem expor isso mesmo), embora tenha uma habilidade indelével para "ler os números" e interpretar a realidade económica. Bale transmite o tom peculiar deste personagem, uma figura de expressões nem sempre discerníveis, que toma decisões sem consultar os outros, tendo fundado a Scion Capital, uma empresa de investimentos privados. Burry trabalha descalço, ao som de música heavy metal, apresenta um estilo meio peculiar, percebendo uma situação que parecia impossível ao olhar daqueles que o rodeavam, algo que o conduziu a apostar na queda do sistema, ou se preferirem, contra o mercado imobiliário. As terminologias são complexas (o título original do filme remete para a chamada "venda a descoberto"), algo que ajuda a explicar como todos estes casos retratados passaram praticamente ao lado de quase tudo e todos ao longo dos anos, pelo menos até a "bolha" rebentar. Michael Burry não é o único personagem de "The Big Short" a apostar contra o mercado financeiro, ou melhor, contra o sistema imobiliário. Jared Vennett (Ryan Gosling), um vendedor de acções do Deutsche Bank, tenta alertar elementos como Mark Baum (Steve Carell) para investirem em credit default swaps. Conhecido pela sua personalidade desconfiada, pelo pragmatismo e frontalidade, Mark Baum é o manager do FrontPoint Capital, um fundo de cobertura que se encontra inserido no interior da Morgan Stanley. A morte do irmão afectou Baum, com Steve Carell a interpretar um indivíduo que se irrita com facilidade, inteligente e arguto nos negócios, que sempre acreditou na queda do sistema financeiro e decidiu apostar contra Wall Street. Se Ryan Gosling incute um estilo desprendido, sacana e pouco escrupuloso a Vennett, já Carell consegue transmitir que Mark encontra-se verdadeiramente preocupado com as repercussões deste caso, em particular, com as consequências que vão ser sentidas pelos inocentes. Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois pequenos investidores que fundaram a Brownfield Capital, também decidem investir contra o sistema, com a dupla a contar com o apoio do experiente Ben Rickert (Brad Pitt), um indivíduo excêntrico e conhecedor do mercado. Ao longo do filme encontramos diversos negócios a serem concluídos, muitos nervos à flor da pele, enquanto ficamos perplexos diante de alguns episódios representados, com "The Big Short" a surgir como um testamento, ainda que ficcional, da chico-espertice daqueles que contribuíram para uma crise financeira que causou lastro pelo Mundo. Elementos como Vennett (inspirado em Greg Lippmann), Baum (baseado em Steve Eisman), Geller (inspirado em Charlie Ledley), Shipley (baseado em Jamie Mai), Rickert (inspirado em Ben Hockett) e Burry souberam interpretar os acontecimentos, algo que conduziu a que lucrassem com a queda do sistema em Wall Street, enquanto milhares ficaram sem empregos, casas e diversos bens, embora imensos indivíduos responsáveis pela crise tenham praticamente "passado ao lado da chuva".

 A certa altura de "The Big Short", encontramos Charlie e Jamie a entrarem nos gabinetes do Lehman Brothers, após a crise eclodir, com este espaço a encontrar-se completamente desértico. Outrora um dos maiores bancos de investimento dos EUA, o Lehman Brothers caiu com estrondo e comprovou a crise no mercado do crédito imobiliário de alto risco. No entanto, outros bancos foram resgatados graças ao dinheiro dos contribuintes, com estes resgates a instituições bancárias e medidas do género a continuarem na ordem do dia em países como Portugal, algo que evidencia os contornos alargados desta crise. "The Big Short" embrenha-se pelos meandros dos mercados, enquanto surge como um testamento relevante sobre os bastidores de uma crise que ainda não foi totalmente ultrapassada, ao mesmo tempo que nos apresenta a diversos personagens que se envolvem numa série de negociatas para ganharem algo com a estupidez alheia. Adam McKay deixa elementos como Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt e Christian Bale sobressaírem, com os intérpretes a conseguirem explorar as características muito próprias dos personagens a quem dão vida. Veja-se o estilo nervoso e revoltado de Mark, ou a incapacidade de Michael em contar uma piada ou perceber uma anedota, ou o entusiasmo de Charlie e Jamie em relação a este mundo onde acabam de entrar. É certo que nem todos os personagens são aproveitados, algo latente em figuras como os funcionários de Mark e Michael, ou a esposa do personagem interpretado por Steve Carell, embora o elenco principal consiga destacar-se a interpretar estes elementos que se surpreendem com o panorama caótico que encontram, com a maioria dos reguladores e dos banqueiros a parecer ignorar os indicadores negativos que lhes chegavam. Nesse sentido, chega a ser quase revoltante verificar a forma despreocupada e negligente como diversos elementos encaravam os empréstimos de alto risco, ou as operações financeiras que efectuavam, com quase tudo e todos a parecerem viver numa ilusão de prosperidade condenada a terminar. O argumento de "The Big Short" foi inspirado no livro homónimo da autoria de Michael Lewis, com Adam McKay e Charles Randolph, a dupla de argumentistas, a procurarem evitar conceder lições rápidas sobre o "mercado financeiro para totós", conseguindo construir algo fluido, capaz de mesclar a tragédia e a sátira, bem como de prender a atenção, mesmo quando não percebemos nada das terminologias apresentadas. Apesar das temáticas e o caso que retrata não serem propriamente apetecíveis, "The Big Short" consegue contrariar uma possível rejeição inicial ao surgir como uma obra cinematográfica dotada de algumas doses de irreverência, criatividade e humor, com Adam McKay a comprovar o seu valor como realizador num registo relativamente distinto em relação a comédias como "Anchorman: The Legend of Ron Burgundy", "Step Brothers", "The Other Guys", entre outras.

Título original: "The Big Short".
Título em Portugal: "A Queda de Wall Street".
Realizador: Adam McKay.
Argumento: Charles Randolph e Adam McKay.
Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, John Magaro, Finn Wittrock.

27 maio 2016

Resenha Crítica: "Heat" (1995)

 Neil McCauley (Robert De Niro) é um assaltante experiente, um estratega nato, inteligente, aparentemente frio, que construiu uma equipa capaz de realizar os assaltos mais intrincados. McCauley tem como lema: "Queres ser bem sucedido? Não tenhas laços afectivos. Não tenhas nada na vida que não possas largar se vires a polícia chegar". É um indivíduo aparentemente duro e implacável, com valores muito próprios, que se prepara para protagonizar um jogo entre "o gato e o rato" com Vincent Hanna (Al Pacino), o tenente da divisão de roubos e homicídios da polícia de Los Angeles. A cidade de Los Angeles surge como cenário e protagonista de "Heat", a quinta longa-metragem realizada por Michael Mann, com o cineasta a apresentar este espaço urbano de forma simultaneamente bela e violenta. Tanto podemos ser colocados perante assaltos meticulosamente planeados, ou tiroteios intensos e mortais, como diante de planos que exacerbam a grandiosidade e beleza de Los Angeles, uma cidade pontuada por diversas dicotomias. Michael Mann utiliza as ruas, as estradas, os bancos, as habitações, os clubes nocturnos de Los Angeles ao serviço do enredo, parecendo procurar transportar a alma desta cidade para o grande ecrã, ou uma versão da mesma, enquanto nos apresenta a uma série de personagens que marcam esta obra cinematográfica que mescla elementos dos filmes policiais e de gangsters. Neil e Vincent encontram-se entre essas figuras marcantes, com a dupla de protagonistas a apresentar diversos elementos em comum, embora o primeiro dedique a sua vida ao crime, enquanto o segundo procura travar e deter indivíduos como o personagem interpretado por Robert De Niro. Vincent e Neil são obstinados e intrépidos, lideram equipas que se dedicam às causas que defendem, apresentam valores muito próprios e deixam que os seus ofícios afectem em demasia a vida privada. Diga-se que a atenção que Michael Mann concede à vida privada dos protagonistas é algo que exibe o cuidado colocado no desenvolvimento destas figuras e dos seus relacionamentos, com o cineasta a procurar incutir alguma complexidade a uma obra cinematográfica que sabe mesclar praticamente na perfeição as cenas de acção de cortar a respiração com o desenvolvimento dos personagens. É exactamente esse desenvolvimento dos personagens que potencia dois momentos protagonizados por McCauley e Hanna, com o conhecimento prévio que temos destes elementos a contribuir e muito para a intensidade destes trechos. Michael Mann comete a "maldade" de reunir os dois protagonistas quando o filme já se encontra com mais de uma hora de duração, algo que revela a coragem e confiança do cineasta, mas também o cuidado no desenvolvimento dos personagens. Existe algo mais intrincado do que uma mera disputa entre polícias e criminosos, ou entre o bem e o mal, com McCauley e Hanna a surgirem como duas figuras complexas, que a certa altura parecem desenvolver uma admiração mútua. Michael Mann dá-nos a conhecer os métodos de trabalho de Hanna e McCauley, a maneira com que cada um lida com as suas equipas e as mulheres, enquanto os protagonistas se envolvem numa miríade de situações intensas.

Vincent Hanna já vai no seu terceiro casamento, contando com uma relação complicada com Justine (Diane Venora), a sua esposa. A casa de Justine e Vincent, pertencente ao ex-marido da primeira, apresenta uma decoração moderna, embora o protagonista raramente tenha tempo para desfrutar dos prazeres deste espaço e da vida em família. Por sua vez, McCauley tem uma casa de largas dimensões, pontuada por paredes de vidro, com vista para o mar, embora esteja praticamente vazia, com este a não pretender formar grandes laços, algo inerente ao lema citado no início do texto. As paredes de vidro da casa de Neil contribuem para Michael Mann brindar o espectador com alguns planos bastante inspirados e cheios de significado. Veja-se quando encontramos Neil a observar o mar, durante a noite, através das paredes espelhadas, com as tonalidades azuis a dominarem o ecrã, simbolizando a solidão do protagonista, enquanto o mar tanto parece transmitir uma ideia de liberdade como de prisão. É um dos vários momentos de "Heat" onde temos oportunidade de observar o lado mais calmo de Neil, enquanto Robert De Niro cria um personagem complexo e marcante, com o actor a demonstrar que quando quer é um intérprete magnífico. Se a cena descrita anteriormente indica alguma calmaria, já o primeiro encontro entre Neil e Vincent promete aquecer e bem o enredo. Michael Mann deixa a narrativa a ferver em banho-maria, enquanto explana e desenvolve as personalidades dos dois protagonistas e os seus planos, até colocá-los frente a frente. Não existe volta a dar, o encontro teria de acontecer, com Michael Mann a deixá-lo ocorrer no momento certo. Robert De Niro e Al Pacino aparecem com uma aura típica dos predestinados que conseguem elevar as falas que proferem, algo latente quando os encontramos no café e os personagens que interpretam conseguem expor rapidamente as suas personalidades, bem como aquilo que marca e define as suas vidas, para além de exibirem algumas semelhanças e diferenças. Essas diferenças e semelhanças ficam paradigmaticamente visíveis quando Vincent questiona Neil se este nunca pretendeu ter uma vida normal, enquanto o criminoso riposta: "O que é isso? Churrascadas e futebol? (...) A sua vida é assim?". A resposta de Vincent não se faz esperar: "A minha vida? Não, a minha vida... a minha vida é uma catástrofe. Tenho uma enteada completamente desorientada porque o pai dela é uma besta. Tenho uma mulher, e vejo o meu terceiro casamento a desmoronar-se porque passo o tempo a perseguir tipos como tu". Vincent e Neil não conseguem ter um estilo de vida calmo e "normal", algo comprovado no último terço, quando ambos poderiam seguir outro rumo, embora os seus instintos falem mais alto. A cena no restaurante é intensa, com os diálogos entre Vincent e Neil a parecerem atingir quase o poder das balas que são disparadas ao longo do filme, ou "Heat" não surgisse como uma obra cinematográfica inquietante, violenta e estilizada, com Michael Mann a reunir harmoniosamente elementos de filme policial e de gangsters.

Os momentos iniciais de "Heat" são marcados por um assalto a uma carrinha que transportava divisas e acções ao portador. O assalto é coreografado com enorme precisão e inspiração, com Michael Mann a reunir estilo e substância, enquanto nos apresenta a um roubo violento. O grupo de assaltantes é formado por Neil McCauley, Chris Shiherlis (Val Kilmer), Michael Cheritto (Tom Sizemore), Trejo (Danny Trejo), bem como por Waingro (Kevin Gage), a nova adição a esta trupe de criminosos. Tudo parecia planeado ao pormenor, com os assaltantes a conseguirem roubar as acções, embora o comportamento imprevisível e violento de Waingro venha ao de cima, com este assaltante a assassinar um dos três guardas da carrinha de valores, algo que obriga à eliminação dos outros dois elementos. Waingro consegue fugir de McCauley, com este último a demonstrar que não permite veleidades, nem alterações despropositadas aos planos delineados. Esta não é a última vez que "Heat" nos coloca diante de Waingro, um psicopata que parece apreciar a morte alheia, com Kevin Gage a conseguir sobressair em diversos momentos, sobretudo na segunda metade do filme. As acções roubadas pertenciam a Roger Van Zant (William Fichtner), um indivíduo conhecido pelos negócios obscuros, em particular, pela lavagem de dinheiro oriundo de tráfico de droga. As verbas do assalto são completamente cobertas pelo seguro, algo que conduz Nate (Jon Voight), o indivíduo responsável por vender o material roubado por McCauley e organizar novos golpes, a tentar negociar com Van Zant. A parceria não resulta, com Van Zant a tentar eliminar McCauley, com este último a prometer vingança, enquanto o primeiro tem de se preparar para uma ofensiva que pode chegar a qualquer momento. McCauley recebe ainda uma proposta aparentemente segura para assaltar um banco, algo que conduz à reunião do grupo formado pelo primeiro Shiherlis, Cheritto e Trejo, com todos a apresentarem uma relação de amizade e aparente lealdade. Veja-se a relação de amizade e cumplicidade entre McCauley e Shiherlis, algo que comprova que estamos diante de personagens guiados por alguns valores morais, com o argumento de Michael Mann a procurar evitar retratar estes elementos como meros assassinos frios e unidimensionais. Val Kilmer interpreta um dos vários personagens secundários que sobressaem, com o actor a conseguir expor as vulnerabilidades emocionais de Shiherlis, um indivíduo que ama a esposa (Ashley Judd) e o filho, embora o vício pelo jogo, o seu estilo de vida e a sua personalidade impulsiva conduzam a diversos desaguisados e traições. Se Shiherlis, Cheritto e Trejo formaram famílias, já McCauley prefere assumir uma faceta de "lobo solitário", embora acabe por iniciar uma relação com Eady (Amy Brenneman). Esta apresenta uma personalidade algo recatada e discreta, trabalhando numa livraria enquanto aguarda por conseguir singrar como designer gráfica, com Brenneman a transmitir o tom frágil da personagem que interpreta. A relação entre McCauley e Eady conta com alguns momentos de acalmia e romance, com os elementos do casal a surgirem como figuras solitárias que não parecem ter uma propensão elevada para criarem novas amizades.

 A certa altura de "Heat", encontramos Neil e Eady a observarem a cidade, durante a noite, a partir da varanda da casa da segunda, com Michael Mann a brindar-nos com alguns planos abertos belíssimos (mérito também para o trabalho de fotografia de Dante Spinotti). As luzes da cidade sobressaem, bem como a grandeza e beleza deste território, com Los Angeles a surgir representada como um espaço que tanto tem de belo como de violento. Diga-se que Mann não poupa na violência, com o cineasta a brindar o espectador com um tiroteio intenso, que promete causar estragos e trazer a morte a diversos personagens, enquanto o trabalho de câmara, de montagem e do elenco sobressai, bem como a banda sonora. O tiroteio é marcado por uma violência extrema, com as balas a irromperem e os sentimentos a explodirem, enquanto polícias e assaltantes tomam as ruas e prometem iniciar um duelo inquietante. Se existe lugar para algum lirismo quando Neil e Eady se encontram juntos, o mesmo não pode ser dito quando as balas começam a esvoaçar pelos ares e a morte se parece aproximar de diversos personagens. Mann conduz o filme com uma mestria imensa, algo que contribui para a intensidade do último terço, quando os silêncios entre De Niro e Pacino podem valer mais do que mil palavras (aqueles close-ups no rosto de Al Pacino, nos momentos finais de "Heat", permitem expor de forma vincada os sentimentos contraditórios que assolam a mente de Vincent). Al Pacino surge intenso, fervilhante, marcante e carismático como Vincent Hanna, um polícia que não tem problemas em gritar, gesticular e apresentar comportamentos nem sempre correctos, inclusive com informantes, embora pareça assumir alguma admiração em relação a McCauley. Vincent não gosta de expor os problemas do foro laboral quando está em casa, algo que contribui para pequenas fissuras no casamento que, com o passar no tempo, prometem colocar em causa o matrimónio, com o protagonista a parecer incapaz de conciliar a vida profissional e social/familiar. Diga-se que este é um dos pontos que une Vincent a Neil, com este último a fingir que é um vendedor, tendo em vista a esconder da amada que é um assaltante. Vincent e Neil apresentam diversas semelhanças, embora representem lados distintos da lei, com Michael Mann a representar isso mesmo ao longo deste thriller intenso, marcante e esteticamente apurado. Se Vincent procura engendrar a "armadilha" perfeita para capturar os criminosos em pleno delito, já Neil tenta efectuar um roubo praticamente à prova de falhas a um banco, embora os planos de ambos nem sempre decorram como o esperado, com o mínimo deslize a poder ser fatal para uma das partes. Com uma banda sonora pronta a incrementar os episódios da narrativa, um aproveitamento notório da cidade de Los Angeles ao serviço do enredo, interpretações de grande nível de Robert De Niro e Al Pacino, um argumento inteligente, "Heat" não poupa nos momentos memoráveis, daqueles que tardam em sair da memória, seja um tiroteio barulhento ou uma perseguição silenciosa, enquanto a dupla de protagonistas procura cumprir os seus intentos e Michael Mann apodera-se da mente e da alma do espectador ao longo da duração do filme.

Título original: "Heat".
Título em Portugal: "Heat - Cidade Sob Pressão".
Realizador: Michael Mann.
Argumento: Michael Mann.
Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Val Kilmer, Diane Venora, Amy Brenneman, Ashley Judd.