Por muitas fontes históricas que existam, ou obras deixadas por um artista, é praticamente impossível saber tudo sobre o mesmo e os seus trabalhos, algo que se complica quando a informação oficial é escassa, uma situação que "Maresia", a primeira longa-metragem realizada por Marcos Guttmann, evidencia de forma pertinente. Este é um problema colocado quer ao historiador, quer ao perito em arte, ou seja, mesmo que existam fontes históricas, é praticamente impossível reconstituir factualmente tudo aquilo que aconteceu no passado. A escassez de fontes fidedignas é um problema com o qual Gaspar (Júlio Andrade) se depara, embora essa situação não impeça este perito e crítico de arte de efectuar uma série de teorias sobre Emilio Vega (Júlio Andrade), um pintor de origem galega, desaparecido há cinquenta anos. Inspirado no livro "Barco a Seco", de Rubens Figueiredo, "Maresia" não coloca o espectador perante a corrosão provocada pela água do mar, mas sim diante de um perito que se depara com o desabar das certezas e teorias que tinha sobre os trabalhos de um pintor. Nesse sentido, as revelações prometem corroer as percepções que Gaspar tinha em relação a Emilio Vega, enquanto "Maresia" coloca o espectador diante de duas histórias separadas, que contam com diversos pontos de união e separação. O mar é um dos pontos de união entre Gaspar e Emilio Vega. Gaspar gosta de nadar no alto mar de Copacabana, o mesmo que um dia teria tragado a vida do pintor. Emilio Vega gosta de habitar no mar, ou melhor, no seu barco, onde pinta, come e bebe imenso, com o contacto com a natureza a parecer contribuir para a sua arte. Júlio Andrade é uma das pedras de toque do filme, com o actor a conseguir elaborar composições distintas e bem sucedidas para os dois personagens que interpreta. Ambos são teimosos, apreciam pintura e contam com ideais vincados, embora Gaspar pareça ter formado uma série de ideias pré-concebidas sobre Vega. É certo que o interesse de elementos como Gaspar contribuem para manter a arte de Vega bem viva ou, pelo menos, a ser falada e discutida, embora o primeiro, tal como qualquer crítico ou historiador, não pode, nem deve pensar que tem certezas absolutas sobre o trabalho de um artista. Gaspar permite ainda que Marcos Guttmann aborde um certo sentimento de
pertença que pode existir entre o crítico e uma obra de arte, ou entre o historiador e o tema que analisa, com o primeiro a
exibir isso mesmo, enquanto procura escrever um livro sobre o pintor. Se Vega vive num barco que parece estar praticamente encalhado, ou sem sair do mesmo local, já Gaspar encontra-se preso às suas ideias e a uma obsessão em relação ao primeiro, com o livro que está a escrever sobre o pintor e as obras de arte que analisa a surgirem como partes fundamentais do seu quotidiano.
Vega é um galego impulsivo, um espírito livre que pinta por instinto e apresenta uma relação difícil com aqueles que o procuram mudar, que o diga Vicenzo Valente (Roberto Birindelli), um pintor italiano que chega ao território e apresenta um método de trabalho completamente distinto do protagonista. Veja-se quando Vicenzo tenta "treinar" o modo de pintar de Vega, embora o personagem interpretado por Júlio Andrade prefira seguir os seus instintos. Nesse sentido, é curioso encontrarmos Vega e Vicenzo a discutirem, enquanto Gaspar pensa, pelo menos a nível inicial, que o segundo teve alguma influência no modo de pintar do primeiro. O que é verdade ou mentira em relação a Vega? Entre a história de Vega e Gaspar, "Maresia" expõe-nos o quotidiano de
dois homens solitários, que amam a arte, embora tenham papéis distintos
para a valorização da mesma. Marcos Guttmann consegue apresentar e desenvolver as histórias de Gaspar e Vega de forma pertinente, com ambas a serem reunidas de forma orgânica, enquanto conhecemos estas duas figuras que captam facilmente a nossa atenção. Gaspar trabalha numa galeria de arte que pertence a Angelina (Vera Holtz), uma mulher que conta com uma relação problemática com o filho (Álamo Facó), embora esta subtrama raramente seja explorada, algo que a torna como um dos pontos fracos do filme. Angelina e Gaspar apresentam uma cumplicidade notória, com a primeira a confiar no funcionário, embora comece a questionar a rigidez do mesmo, em particular, a facilidade com que rejeita potenciais obras de Vega devido a acreditar que são falsificações. Gaspar é um perito algo frio, meticuloso e rígido, com Júlio Andrade a conseguir compor dois personagens distintos, unidos pelo amor à pintura e ao mar, bem como pela teimosia. As convicções de Gaspar são abaladas quando este se depara com a chegada inesperada de Inácio Cabrera (Pietro Bogianchini), um idoso que procura autenticar um quadro da autoria de Emilio Vega. Gaspar rejeita a pintura devido a considerar que esta é uma falsificação, mas a revelação de que Inácio, um imigrante galego, foi amigo de Vega, promete trazer descobertas que colocam em causa as ideias do protagonista. A partir daqui assistimos a uma espécie de jogo entre o gato e o rato entre ambas as partes, mas também à formação de uma relação de respeito mútuo, com Gaspar a procurar falar com Inácio, um indivíduo de idade algo avançada, que promete abalar as ideias que o primeiro tinha sobre Vega. "Maresia" acaba por proporcionar um debate interessante sobre a arte, enquanto joga com as verdades e mentiras em relação a Vega. Veja-se quando Gaspar fala sobre as fases artísticas distintas da carreira de Vega, algo que Inácio desmente, com este último a trazer algum mistério ao enredo, enquanto abala as ideias que o primeiro tinha sobre o pintor.
A interpretação de uma obra de arte conta quase sempre com
alguma dose de subjectividade, com a análise do crítico e a opinião do
artista a poderem divergir ou convergir em diversos assuntos. A juntar a essa subjectividade, Gaspar conta ainda com as incertezas relacionadas com o facto de nem sempre saber se as pinturas que analisa foram pintadas por Vega, embora apresente um sentimento de pertença em
relação aos trabalhos do pintor. Gaspar é considerado um
especialista no que diz respeito a Vega, embora comece a ver as certezas que tomava como absolutas a serem gradualmente abaladas pelas descobertas que efectua. A autenticidade das obras de arte, a procura de
encontrar um sentido para a existência, a relação entre um artista e o seu trabalho, a subjectividade da análise crítica, o Rio de Janeiro de hoje e de há cinquenta
anos, surgem como temáticas e elementos apresentados em "Maresia". O mar, o Sol, o contacto com a natureza e o consumo de álcool, surgem como elementos que fazem parte do quotidiano de Vega, algo que contrasta com o espaço frio e fechado onde Gaspar trabalha. O espaço da praia aparece representado de forma distinta nas duas histórias, com o enredo relacionado com Gaspar a decorrer nos dias de hoje, enquanto a narrativa centrada em Vega desenrola-se maioritariamente há cinquenta anos. No caso da história de Vega, as cores apresentam tonalidades mais quentes, enquanto o cenário da praia é banhado pelo Sol. Na história de Gaspar, a própria praia surge a espaços marcada por algum cinzentismo, algo notório quando Inácio se reúne com o primeiro no local onde o pintor passou boa parte do seu tempo. O guarda-roupa e o trabalho de caracterização permite exacerbar algumas idiossincrasias da dupla de protagonistas, enquanto Júlio Andrade surge como um ponto de união entre Gaspar e Vega (quase como se fossem duas faces da mesma moeda). De cabelo comprido, barba por fazer, roupas simples e intenso como
Vega, Júlio Andrade aparece com um penteado curtinho, roupas
formais e uma meticulosidade notória como Gaspar, com ambos os personagens a contarem com ideias vincadas, embora a "maresia" do destino acabe por fazer com que estes tenham de entrar em confronto consigo próprios. Vega é um indivíduo lacónico e depauperado, que pinta aquilo que vê e não gosta de tirar fotografias. Este pouco ou nada ganha com os seus trabalhos, parecendo ter na pintura um modo de se expressar, com Júlio Andrade a compor um personagem que apresenta um conjunto de atitudes peculiares. Veja-se a forma como pega no pincel e se lança para a pintura, com Júlio Andrade a atribuir credibilidade a estes momentos. Vega é um lobo solitário que não procura a fama, mas sim viver de acordo com os seus valores, que gosta de pintar barcos encalhados e aquilo que observa. Ironicamente, as obras de Vega apenas começam a ser devidamente valorizadas após a sua morte, com "Maresia" a abordar assertivamente esta situação simultaneamente macabra e irónica que serve para os diversos ramos artísticos. A pintura faz parte da vida de Vega, embora este pinte por instinto, sem seguir regras, parecendo, tal como Gaspar, ter alguns
problemas em aceitar que lhe sugiram alterações ao método de trabalho. Nesse sentido, estas duas histórias acabam por se complementar, com os episódios que nos são expostos sobre Vega a permitirem dar a conhecer aquela que é uma figura quase mítica para Gaspar, ao mesmo tempo que nos apercebemos do aumentar das tensões internas deste último, sobretudo quando percebe que pode estar errado (o trabalho a nível de montagem merece elogios, com a ligação entre as histórias de Vega e Gaspar a ser efectuada de forma assertiva, com as mudanças a raramente parecerem bruscas, ou inadequadas ao momento).
As teorias de Gaspar sobre Vega, tal como a sua metodologia para avaliar a autenticidade das obras do pintor, acabam por ser colocadas em causa a partir do momento em que o primeiro se depara com chegada de Inácio. Júlio Andrade e Pietro Bogianchini surgem como os elementos do elenco que mais sobressaem, com a entrada em cena deste último a surgir acompanhada por algum mistério e uma série de revelações. Bogianchini incute inicialmente algum mistério ao personagem que interpreta, mas também uma certa nostalgia e melancolia, com este veterano a guardar uma surpresa que no último terço se torna óbvia, embora seja incutida na narrativa de forma pertinente e orgânica. Vale ainda a pena realçar o trabalho de Mariana Nunes como Maria, uma pescadora que desperta o interesse de Vega, algo que é recíproco, com ambos a iniciarem uma relação. No entanto, este é o filme de Júlio Andrade, com os planos fechados a permitirem muitas das vezes que o actor se exprima através do seu rosto e arrebate o ecrã para si, enquanto cria dois personagens que captam facilmente a nossa atenção. Diga-se que a espaços somos colocados diante de alguns planos belíssimos, dignos de permanecerem na memória, com o trabalho de Alexandre Ramos (cinematografia) a merecer ser realçado. Veja-se alguns planos quando Vega se encontra no
barco, ou uma cena de um beijo entre o pintor e Maria onde a tinta e as
emoções se reúnem, com Marcos Guttmann e a sua equipa a colocarem-nos diante de alguns belos momentos. Na sua estreia na realização de longas-metragens, Marcos Guttmann cria um filme que permite confrontar as certezas e incertezas daqueles que avaliam obras de arte e efectuam estudos sobre as mesmas, mas também as inseguranças e peculiaridades dos artistas, com Gaspar a deparar-se com o facto das suas teorias nem sempre estarem certas, enquanto Vega procura manter o seu modo de viver e pintar. Gaspar procura concluir um livro sobre Vega, algo que tarda em acontecer e promete complicar-se quando conhece Cabrera, com este último a mexer com o quotidiano do primeiro. O som do Mar invade muitas das vezes o ecrã, mas também as dúvidas que assolam a mente de Gaspar, com Marcos Guttmann a saber gerir a história dos seus dois protagonistas, enquanto joga com aquilo que é verdadeiro e falso em relação ao passado do pintor. "Maresia" coloca o espectador diante de duas histórias que contam com temas que permitem debates sobre a arte, o trabalho do artista, a relação do crítico com as obras que analisa, a relevância das fontes e a capacidade de saber utilizar as mesmas para a elaboração de artigos ou livros, enquanto somos brindados com uma dupla interpretação digna de atenção por parte de Júlio Andrade, com Marcos Guttmann a contar com uma estreia muito interessante na realização de longas-metragens.
Título original: "Maresia".
Realizador: Marcos Guttmann.
Argumento: Marcos Guttmann, Melanie Dimantas e Rafael Cardoso.
Elenco: Júlio Andrade, Vera Holtz, Pietro Bogianchini, Mariana Nunes.
11 maio 2016
09 maio 2016
Resenha Crítica: "Por Trás do Céu" (2016)
Entre a inocência de uma mente sonhadora e a crueza da realidade, a curiosidade em relação ao desconhecido e o
medo das descobertas, a tentativa de cicatrizar as feridas do passado e
a incapacidade de estancar as mesmas, "Por Trás do Céu" surge como um
filme onde o céu e a terra quase se tocam, com a vida a destroçar
muitas das vezes a imaginação e a inocência, enquanto ficamos a conhecer
figuras como Aparecida (Nathalia Dill), Edivaldo (Emilio Orciollo
Neto), Micuim (Renato Góes) e Valquíria (Paula Burlamaqui), quatro
personagens de características distintas, embora sejam unidos por um
destino nem sempre aprazível. O trabalho de fotografia contribui para atribuir algum lirismo ao filme, algo notório na forma quase poética como "Por Trás do Céu" nos apresenta o céu, com as tonalidades azuis do mesmo e as nuvens que o cobrem a surgirem em destaque, parecendo a espaços que este vai alcançar a terra. Não toca na terra, mas contribui para estimular a mente imaginativa e criativa de Aparecida, uma mulher algo ingénua, marcada por um episódio traumático, um desejo enorme de conhecer a cidade e uma revolta notória em relação a Deus, uma entidade que questiona. O elenco é relativamente competente, embora Nathalia Dill roube as atenções como Aparecida, com a actriz a
convencer em relação à ingenuidade e candura da personagem que interpreta, algo latente na forma como expõe as suas falas ou explana os sentimentos desta figura feminina que pretende conhecer algo mais e largar o território desolador onde vive. Diga-se que não vão faltar episódios que exibem a personalidade naïf e a enorme imaginação de Aparecida, algo latente quando esta procura fabricar um foguetão, ou utiliza um descascador de pensamentos que permite expurgar as ideias menos agradáveis da mente. Os momentos poderiam descambar para um lado mais caricatural, mas Nathalia Dill atribui credibilidade aos mesmos, uma situação que se torna essencial para acreditarmos nesta personagem que pouco ou nada sabe sobre o mundo que a rodeia, embora já tenha conhecido alguns episódios traumáticos. O argumento nem sempre consegue sustentar a duração de "Por Trás do Céu", mas o trabalho dos actores e a atmosfera envolvente criada por Caio Sóh contribuem muitas das vezes para que sejamos arrastados para o interior deste universo narrativo muito particular e peculiar, onde a fantasia e a realidade parecem andar lado a lado. Se Aparecida conta com uma imaginação enorme, pretendendo saber aquilo que está por trás do céu e conhecer a cidade, já Edivaldo, o esposo da protagonista, surge como uma figura lacónica, que ama a esposa, gosta de caçar, traz sucata para casa e não pretende sair do espaço onde habita.
Edivaldo parece demasiado marcado pelas dores e agruras de outrora, algo que consome a sua alma, com "Por Trás do Céu" a mesclar cenas do presente e do passado, tendo em vista a desenvolver elementos da personalidade dos protagonistas e a explanar as razões para o casal se encontrar a viver numa habitação precária, situada num espaço praticamente isolado. A casa conta com uma série de tralha e a presença do Leproso, uma tartaruga decorada com penas que surge como o animal de estimação e companhia de Aparecida. A presença da tartaruga, bem como algumas canções da banda sonora (nem sempre bem utilizada) e as diversas atitudes da protagonista, contribuem para o tom sonhador e fantasioso que pontua a narrativa de "Por Trás do Céu". Aparecida passa boa parte do tempo em casa, enquanto questiona tudo aquilo que a rodeia, inclusive o facto de se encontrar presa a um lugar pouco estimulante, situado no interior do sertão. Edivaldo ama a esposa, embora não partilhe a postura sonhadora e corajosa da amada, com ambos a lidarem de forma distinta com os traumas do passado, algo que é explorado em "Por Trás do Céu". Estes modos distintos de lidar com a dor e os traumas do passado ficam latentes no apego que Edivaldo apresenta em relação ao local onde habita, um espaço no qual se encontra enterrado o "seu sonho", embora o casal viva em condições praticamente miseráveis. A habitação assemelha-se a uma barraca que se encontra situada num local isolado, longe de tudo e todos, mas ao mesmo tempo tão perto de outros personagens. Os planos mais abertos permitem expor que esta casa se encontra localizada num espaço isolado, com este afastamento da sociedade a parecer contribuir para a ingenuidade e falta de conhecimentos da protagonista. Esta situação contribui para Aparecida encarar a cidade como um território quase mítico e místico, onde poderá encontrar a felicidade e divertir-se, deixando de lado um espaço que aparece associado a um período negro da sua vida. Nas cenas do passado, a felicidade parece marcar a relação entre Edivaldo e Aparecida, pelo menos a nível inicial, com o primeiro a aparecer como a figura que conheceu mais mudanças ao longo do tempo. Emilio Orciollo Neto consegue transmitir as alterações de Edivaldo, com o actor a convencer quer nas cenas do presente, quer nos momentos do passado, com o próprio trabalho a nível do guarda-roupa e caracterização a expor essas diferenças. No presente, Edivaldo aparece de cabelos compridos, barba por fazer, roupas semelhantes a um cavaleiro maltrapilho e comportamentos algo rígidos. No passado, este conta com cabelo curto e um visual cuidado, com a descoberta da gravidez de Aparecida a surgir como um momento pontuado por enorme alegria. A certa altura de "Por Trás do Céu", encontramos Edivaldo a ponderar disparar sobre um indivíduo, embora as razões para este desejo apenas sejam reveladas numa fase mais adiantada do enredo. O alvo do ódio de Edivaldo é o antigo chefe de Aparecida, um indivíduo que nunca chega a ganhar dimensão ao longo do enredo, embora protagonize um acto que deixa marcas negativas no casal de protagonistas. Esta cena exibida em flashback, embora conte com uma péssima utilização da banda sonora (que se sobrepõe ao episódio exibido), surge como um dos momentos fundamentais para ajudar a explicar os comportamentos que Edivaldo e Aparecida apresentam no presente, com "Por Trás do Céu" a abordar temáticas como a perda, a relação de um casal, a violência cometida sobre as mulheres, entre outras.
Aparecida e Edivaldo são amigos de Micuim, um indivíduo pouco culto, que visita esporadicamente a cidade e traz consigo presentes como uma revista, chocolate e uma garrafa com areia e água do mar. É uma figura expansiva e divertida, que pouco evolui ao longo de "Por Trás do Céu", embora desperte alguns risos e pareça, em alguns momentos, a estranha voz da razão, com Renato Góes a criar um personagem que protagoniza algumas situações cómicas. Veja-se os erros a pronunciar palavras aparentemente banais, ou a relação peculiar que forma com Valquíria. Esta é uma prostituta que foge do esposo, um proxeneta violento, com Caio Sóh a utilizar a personagem interpretada por Paula Burlamaqui para efectuar um contraste com a protagonista. Se Aparecida conta com uma ingenuidade excessiva e contagiante, indo ao ponto de se impressionar com uma mera revista, já Valquíria apresenta uma personalidade pragmática, própria de quem já conheceu o lado mais duro da vida. Paula Burlamaqui incute um estilo prático e mordaz a Valquíria, com esta a surgir quase como um duplo do espectador, uma situação que fica bem evidente quando a prostituta se depara com a ingenuidade excessiva de Aparecida e Micuim. O próprio guarda-roupa de Valquíria ("Por Trás do Céu" apresenta um bom trabalho neste departamento), marcado por poucas vestimentas, realça as distinções entre a primeira e Aparecida, com a prostituta a conhecer o lado mais duro da cidade, enquanto a personagem interpretada por Nathalia Dill criou uma visão idealizada do espaço citadino, algo que promete ser desfeito quando a protagonista embater de frente com a realidade. A ingenuidade de Aparecida é desarmante, com o momento em que esta tenta fabricar um foguetão a surgir como algo simultaneamente cândido, belo e trágico, ou esta mulher não tivesse criado uma realidade muito própria no interior da sua mente. Caio Sóh incute uma atmosfera simultaneamente sonhadora, ingénua e crua a "Por Trás do Céu", com os sonhos a desfazerem-se muitas das vezes perante a realidade, enquanto somos colocados diante de um grupo de personagens relativamente à parte da sociedade, que se reúnem num espaço isolado. O cineasta utiliza eficazmente alguns territórios de Lajedo de Pai Mateus, em Cabeceiras, enquanto nos apresenta a uma narrativa que a espaços pode ganhar contornos redundantes e perder-se em metáforas óbvias (o pássaro numa gaiola para representar Aparecida, ou o carro com o nome Jesus num momento em que a primeira parece ter perdido a fé), mas nem por isso deixa de despertar um estranho fascínio. Ancorado por uma interpretação convincente de Nathalia Dill, um tom que mescla a fantasia dos sonhos por concretizar e a crueza da realidade, "Por Trás do Céu" não exibe aquilo que está para além do céu embora quase transforme o mesmo num personagem, com este a ser exibido de forma amiúde, enquanto ficamos diante de um grupo de personagens solitários, que contam com os seus próprios traumas, desejos e limitações, mas também personalidades que facilmente despertam a nossa atenção.
Título original: "Por Trás do Céu".
Realizador: Caio Sóh.
Argumento: Caio Sóh.
Elenco: Nathalia Dill, Emílio Orciollo Netto, Renato Góes, Paula Burlamaqui.
Edivaldo parece demasiado marcado pelas dores e agruras de outrora, algo que consome a sua alma, com "Por Trás do Céu" a mesclar cenas do presente e do passado, tendo em vista a desenvolver elementos da personalidade dos protagonistas e a explanar as razões para o casal se encontrar a viver numa habitação precária, situada num espaço praticamente isolado. A casa conta com uma série de tralha e a presença do Leproso, uma tartaruga decorada com penas que surge como o animal de estimação e companhia de Aparecida. A presença da tartaruga, bem como algumas canções da banda sonora (nem sempre bem utilizada) e as diversas atitudes da protagonista, contribuem para o tom sonhador e fantasioso que pontua a narrativa de "Por Trás do Céu". Aparecida passa boa parte do tempo em casa, enquanto questiona tudo aquilo que a rodeia, inclusive o facto de se encontrar presa a um lugar pouco estimulante, situado no interior do sertão. Edivaldo ama a esposa, embora não partilhe a postura sonhadora e corajosa da amada, com ambos a lidarem de forma distinta com os traumas do passado, algo que é explorado em "Por Trás do Céu". Estes modos distintos de lidar com a dor e os traumas do passado ficam latentes no apego que Edivaldo apresenta em relação ao local onde habita, um espaço no qual se encontra enterrado o "seu sonho", embora o casal viva em condições praticamente miseráveis. A habitação assemelha-se a uma barraca que se encontra situada num local isolado, longe de tudo e todos, mas ao mesmo tempo tão perto de outros personagens. Os planos mais abertos permitem expor que esta casa se encontra localizada num espaço isolado, com este afastamento da sociedade a parecer contribuir para a ingenuidade e falta de conhecimentos da protagonista. Esta situação contribui para Aparecida encarar a cidade como um território quase mítico e místico, onde poderá encontrar a felicidade e divertir-se, deixando de lado um espaço que aparece associado a um período negro da sua vida. Nas cenas do passado, a felicidade parece marcar a relação entre Edivaldo e Aparecida, pelo menos a nível inicial, com o primeiro a aparecer como a figura que conheceu mais mudanças ao longo do tempo. Emilio Orciollo Neto consegue transmitir as alterações de Edivaldo, com o actor a convencer quer nas cenas do presente, quer nos momentos do passado, com o próprio trabalho a nível do guarda-roupa e caracterização a expor essas diferenças. No presente, Edivaldo aparece de cabelos compridos, barba por fazer, roupas semelhantes a um cavaleiro maltrapilho e comportamentos algo rígidos. No passado, este conta com cabelo curto e um visual cuidado, com a descoberta da gravidez de Aparecida a surgir como um momento pontuado por enorme alegria. A certa altura de "Por Trás do Céu", encontramos Edivaldo a ponderar disparar sobre um indivíduo, embora as razões para este desejo apenas sejam reveladas numa fase mais adiantada do enredo. O alvo do ódio de Edivaldo é o antigo chefe de Aparecida, um indivíduo que nunca chega a ganhar dimensão ao longo do enredo, embora protagonize um acto que deixa marcas negativas no casal de protagonistas. Esta cena exibida em flashback, embora conte com uma péssima utilização da banda sonora (que se sobrepõe ao episódio exibido), surge como um dos momentos fundamentais para ajudar a explicar os comportamentos que Edivaldo e Aparecida apresentam no presente, com "Por Trás do Céu" a abordar temáticas como a perda, a relação de um casal, a violência cometida sobre as mulheres, entre outras.
Aparecida e Edivaldo são amigos de Micuim, um indivíduo pouco culto, que visita esporadicamente a cidade e traz consigo presentes como uma revista, chocolate e uma garrafa com areia e água do mar. É uma figura expansiva e divertida, que pouco evolui ao longo de "Por Trás do Céu", embora desperte alguns risos e pareça, em alguns momentos, a estranha voz da razão, com Renato Góes a criar um personagem que protagoniza algumas situações cómicas. Veja-se os erros a pronunciar palavras aparentemente banais, ou a relação peculiar que forma com Valquíria. Esta é uma prostituta que foge do esposo, um proxeneta violento, com Caio Sóh a utilizar a personagem interpretada por Paula Burlamaqui para efectuar um contraste com a protagonista. Se Aparecida conta com uma ingenuidade excessiva e contagiante, indo ao ponto de se impressionar com uma mera revista, já Valquíria apresenta uma personalidade pragmática, própria de quem já conheceu o lado mais duro da vida. Paula Burlamaqui incute um estilo prático e mordaz a Valquíria, com esta a surgir quase como um duplo do espectador, uma situação que fica bem evidente quando a prostituta se depara com a ingenuidade excessiva de Aparecida e Micuim. O próprio guarda-roupa de Valquíria ("Por Trás do Céu" apresenta um bom trabalho neste departamento), marcado por poucas vestimentas, realça as distinções entre a primeira e Aparecida, com a prostituta a conhecer o lado mais duro da cidade, enquanto a personagem interpretada por Nathalia Dill criou uma visão idealizada do espaço citadino, algo que promete ser desfeito quando a protagonista embater de frente com a realidade. A ingenuidade de Aparecida é desarmante, com o momento em que esta tenta fabricar um foguetão a surgir como algo simultaneamente cândido, belo e trágico, ou esta mulher não tivesse criado uma realidade muito própria no interior da sua mente. Caio Sóh incute uma atmosfera simultaneamente sonhadora, ingénua e crua a "Por Trás do Céu", com os sonhos a desfazerem-se muitas das vezes perante a realidade, enquanto somos colocados diante de um grupo de personagens relativamente à parte da sociedade, que se reúnem num espaço isolado. O cineasta utiliza eficazmente alguns territórios de Lajedo de Pai Mateus, em Cabeceiras, enquanto nos apresenta a uma narrativa que a espaços pode ganhar contornos redundantes e perder-se em metáforas óbvias (o pássaro numa gaiola para representar Aparecida, ou o carro com o nome Jesus num momento em que a primeira parece ter perdido a fé), mas nem por isso deixa de despertar um estranho fascínio. Ancorado por uma interpretação convincente de Nathalia Dill, um tom que mescla a fantasia dos sonhos por concretizar e a crueza da realidade, "Por Trás do Céu" não exibe aquilo que está para além do céu embora quase transforme o mesmo num personagem, com este a ser exibido de forma amiúde, enquanto ficamos diante de um grupo de personagens solitários, que contam com os seus próprios traumas, desejos e limitações, mas também personalidades que facilmente despertam a nossa atenção.
Título original: "Por Trás do Céu".
Realizador: Caio Sóh.
Argumento: Caio Sóh.
Elenco: Nathalia Dill, Emílio Orciollo Netto, Renato Góes, Paula Burlamaqui.
08 maio 2016
Resenha Crítica: "Mon Roi" (Meu Rei)
No início de "Mon Roi", a nova longa-metragem realizada por Maïwenn, encontramos Tony (Emmanuelle Bercot), a protagonista, a sofrer um acidente durante um momento de lazer, em particular, a esquiar. Esta situação leva a que Tony tenha de ser internada num centro de recuperação, tendo em vista a efectuar tratamento específico para a grave lesão que sofreu no joelho, com a protagonista a depender da ajuda de pessoal especializado e de uma enorme força mental para superar os efeitos provocados por uma ruptura de ligamentos cruzados, embora pareça certo que a sua alma se encontra quase tão ferida como o seu corpo. Ao longo de "Mon Roi", as cenas no centro de recuperação são intercaladas com episódios da relação entre Tony e Georgio (Vincent Cassel), com as memórias da protagonista a surgirem em flashback, enquanto Maïwenn nos coloca diante de um envolvimento venenoso, onde ambas as partes não parecem conseguir viver uma sem a outra, apesar de não encontrarem um ponto de equilíbrio. A relação entre Georgio e Tony é intensa e pontuada por episódios pouco ponderados desde o início, com Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot a convencerem-nos dos sentimentos dos personagens que interpretam, enquanto Maïwenn exibe que é uma excelente condutora de actores. A dinâmica entre Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot é essencial para "Mon Roi" funcionar, sobretudo quando o enredo a espaços ganha características redundantes, com o actor e a actriz a exporem as emoções do casal de forma exímia. Georgio e Tony amam-se, agridem-se psicologicamente, cometem traições, expõem os seus medos, discutem, protagonizam momentos cheios de humor, com os sentimentos bem fortes a marcarem uma relação obsessiva que bem poderia ter saído dos filmes de François Truffaut. O amor parece dar simultaneamente a felicidade e a tristeza a Georgio e Tony, algo notório ao longo do filme, com Maïwenn a apresentar-nos ao início da relação destes dois personagens, aos problemas que estes conhecem até se divorciarem, entre outros episódios de uma jornada pontuada por emoções fortes. Tudo começa quando Georgio e Tony conversam de forma amena, após saírem de uma discoteca. A hora era tardia, com Tony a contar com a companhia de Solal (Louis Garrel), o seu irmão e, Babeth (Isild le Besco), a namorada do familiar da protagonista. Todos são convidados para comerem algo na casa de Georgio, um espaço decorado de forma moderna, que exibe o estatuto financeiro desafogado deste indivíduo, bem como alguns indícios da sua personalidade caótica. Georgio possui um restaurante, uma personalidade impulsiva, egocêntrica e recheada de contradições. Tony é uma advogada, que se divorciara recentemente, que pretende segurar a relação com Georgio a partir do momento em que casa com o mesmo.
Georgio e Tony começam um envolvimento que gradualmente ganha e perde força, com ambos a conhecerem o melhor e o pior de cada um, uma situação que promete ser pouco agradável, ou não estivéssemos diante de um amor louco, ou de uma paixão intensa, onde tudo parece ser vivido com uma energia acima da média. O humor faz parte da relação, bem como as confidências (algo que é essencial para acreditarmos nos sentimentos que unem os protagonistas ao longo de "Mon Roi"), mas tudo se desmorona quando Tony percebe que Georgio está longe de ser o homem que idealizara, enquanto o personagem interpretado por Vincent Cassel exibe os seus demónios interiores. Emmanuelle Bercot consegue transmitir as inseguranças iniciais da personagem que interpreta, mas também o amor que esta começa a sentir por Georgio e a dor pelo facto da relação conhecer um caminho destrutivo. O casamento, a gravidez de Tony e o nascimento do jovem Simbad não parecem melhorar a relação, com o primeiro golpe no "conto de fadas" a surgir na figura de Agnès (Chrystèle Saint Louis Augustin), a ex-namorada de Georgio, uma modelo de características suicidas que parece mexer com os sentimentos deste último. Georgio é um indivíduo bem-falante, dotado de um enorme sentido de humor, embora apresente atitudes completamente erráticas, tais como descurar a gravidez da esposa, decidir morar noutro apartamento, trair Tony e mentir, com Vincent Cassel a compor um personagem que tanto tem de afável e vulnerável como de misterioso e intratável. Tony nem sempre parece saber aquilo que deve fazer, encontrando-se presa a uma relação venenosa, uma situação notória quando a encontramos a perder as estribeiras. Como explicar a manutenção de uma relação onde ambas as partes se amam e magoam? Maïwenn não procura responder inequivocamente a esta questão, ou melhor, exibe-nos uma relação do género, enquanto deixa Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot brilharem, com o primeiro a apresentar uma intensidade notória, que contrasta com as fragilidades emocionais que a segunda incute a Tony. Esta não depende financeiramente de Georgio, bem pelo contrário, com Maïwenn a não transformar a protagonista numa vítima. Tony é uma advogada bem sucedida e inteligente, o problema é que os sentimentos toldam muitas das vezes a razão e a racionalidade, algo que "Mon Roi" expõe de forma paradigmática. As cenas de Tony na fisioterapia permitem não só exibir o lado mais frágil desta mulher, mas também que esta se encontra a recuperar de algo mais complexo do que uma lesão grave no joelho, algo latente nos diversos flashbacks que são exibidos. É a alma de Tony que precisa de recuperar, bem como o seu amor próprio, com esta a manter uma relação pontuada por enorme carinho com Simbad, o seu filho. Os momentos de Tony na fisioterapia nunca ganham o poder dos trechos nos quais encontramos Bercot e Cassel a interagirem, com Maïwenn a apresentar uma inspiração assinalável quando desenvolve e explora os sentimentos intrincados que envolvem a relação da dupla de protagonistas ao longo do período de tempo da narrativa.
A cineasta e argumentista desgasta-nos com a relação da dupla de protagonistas. É certo que existem alguns momentos redundantes, ou que parecem não levar a lado nenhum, mas essa é a essência da relação entre Georgio e Tony, ou seja, por mais voltas e reviravoltas que as suas vidas conheçam, esta dupla não parece conseguir esquecer os sentimentos que nutre ou nutriu. Tony não parece querer acreditar no poder destrutivo da relação que mantém com Georgio, enquanto este último exibe uma série de contradições, sobretudo se tivermos em conta os momentos do protagonista com o filho. Georgio é um bom pai, que procura educar o filho da melhor maneira, embora a relação do protagonista com Tony ganhe características intensas, com esta última a procurar manter a família reunida embora tarde em perceber que este desiderato é praticamente inalcançável. Tony e Georgio surgem como figuras complexas, que amam o filho e procuram educar o mesmo da melhor forma possível. Veja-se quando encontramos Tony a espreitar o filho e Georgio, através de uma fresta, com este último a exibir uma enorme cumplicidade com o jovem, ou um momento num restaurante entre o trio, que permite exibir a capacidade com que o personagem interpretado por Vincent Cassel atrai as atenções daqueles que o rodeiam. A narrativa poderia ser encurtada, sobretudo os episódios de Tony na fisioterapia, mas é um prazer observar alguém dar tempo para Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot comporem personagens complexos, dotados de dimensão e propícios a que os intérpretes exponham o seu talento, com a química entre a dupla a funcionar, algo que alavanca o filme e convence, mesmo quando "Mon Roi" se parece tornar redundante quer na sua estrutura, quer nas suas temáticas. Os episódios no centro exibem essa redundância, com Maïwenn a interessar-se pelo corpo e estado de alma da protagonista, enquanto esta reavalia uma relação e separação que ocupou cerca de dez anos da sua vida, embora a interacção entre Tony e os outros elementos do espaço onde recupera raramente convença. Louis Garrel, Isild Le Besco e vários outros elementos secundários não conseguem sobressair, com o primeiro a surgir como o irmão protector que tenta avisar a irmã sobre Georgio, embora o intérprete nunca consiga explanar totalmente o seu talento. Diga-se que os vários elementos que Tony conhece no centro também não são desenvolvidos, com os momentos na fisioterapia a surgirem como um dos pontos fracos deste filme que deambula constantemente entre o presente e o passado. É o filme de Vincent Cassel e de Emmanuelle Bercot, bem como de Maïwenn, com esta a realizar um drama intenso e desgastante, que nos envolve para o interior da relação tumultuosa da dupla de protagonistas.
Título original: "Mon Roi".
Título em Portugal: "Meu Rei".
Realizadora: Maïwenn.
Argumento: Maïwenn e Etienne Comar.
Elenco: Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot, Louis Garrel.
Georgio e Tony começam um envolvimento que gradualmente ganha e perde força, com ambos a conhecerem o melhor e o pior de cada um, uma situação que promete ser pouco agradável, ou não estivéssemos diante de um amor louco, ou de uma paixão intensa, onde tudo parece ser vivido com uma energia acima da média. O humor faz parte da relação, bem como as confidências (algo que é essencial para acreditarmos nos sentimentos que unem os protagonistas ao longo de "Mon Roi"), mas tudo se desmorona quando Tony percebe que Georgio está longe de ser o homem que idealizara, enquanto o personagem interpretado por Vincent Cassel exibe os seus demónios interiores. Emmanuelle Bercot consegue transmitir as inseguranças iniciais da personagem que interpreta, mas também o amor que esta começa a sentir por Georgio e a dor pelo facto da relação conhecer um caminho destrutivo. O casamento, a gravidez de Tony e o nascimento do jovem Simbad não parecem melhorar a relação, com o primeiro golpe no "conto de fadas" a surgir na figura de Agnès (Chrystèle Saint Louis Augustin), a ex-namorada de Georgio, uma modelo de características suicidas que parece mexer com os sentimentos deste último. Georgio é um indivíduo bem-falante, dotado de um enorme sentido de humor, embora apresente atitudes completamente erráticas, tais como descurar a gravidez da esposa, decidir morar noutro apartamento, trair Tony e mentir, com Vincent Cassel a compor um personagem que tanto tem de afável e vulnerável como de misterioso e intratável. Tony nem sempre parece saber aquilo que deve fazer, encontrando-se presa a uma relação venenosa, uma situação notória quando a encontramos a perder as estribeiras. Como explicar a manutenção de uma relação onde ambas as partes se amam e magoam? Maïwenn não procura responder inequivocamente a esta questão, ou melhor, exibe-nos uma relação do género, enquanto deixa Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot brilharem, com o primeiro a apresentar uma intensidade notória, que contrasta com as fragilidades emocionais que a segunda incute a Tony. Esta não depende financeiramente de Georgio, bem pelo contrário, com Maïwenn a não transformar a protagonista numa vítima. Tony é uma advogada bem sucedida e inteligente, o problema é que os sentimentos toldam muitas das vezes a razão e a racionalidade, algo que "Mon Roi" expõe de forma paradigmática. As cenas de Tony na fisioterapia permitem não só exibir o lado mais frágil desta mulher, mas também que esta se encontra a recuperar de algo mais complexo do que uma lesão grave no joelho, algo latente nos diversos flashbacks que são exibidos. É a alma de Tony que precisa de recuperar, bem como o seu amor próprio, com esta a manter uma relação pontuada por enorme carinho com Simbad, o seu filho. Os momentos de Tony na fisioterapia nunca ganham o poder dos trechos nos quais encontramos Bercot e Cassel a interagirem, com Maïwenn a apresentar uma inspiração assinalável quando desenvolve e explora os sentimentos intrincados que envolvem a relação da dupla de protagonistas ao longo do período de tempo da narrativa.
A cineasta e argumentista desgasta-nos com a relação da dupla de protagonistas. É certo que existem alguns momentos redundantes, ou que parecem não levar a lado nenhum, mas essa é a essência da relação entre Georgio e Tony, ou seja, por mais voltas e reviravoltas que as suas vidas conheçam, esta dupla não parece conseguir esquecer os sentimentos que nutre ou nutriu. Tony não parece querer acreditar no poder destrutivo da relação que mantém com Georgio, enquanto este último exibe uma série de contradições, sobretudo se tivermos em conta os momentos do protagonista com o filho. Georgio é um bom pai, que procura educar o filho da melhor maneira, embora a relação do protagonista com Tony ganhe características intensas, com esta última a procurar manter a família reunida embora tarde em perceber que este desiderato é praticamente inalcançável. Tony e Georgio surgem como figuras complexas, que amam o filho e procuram educar o mesmo da melhor forma possível. Veja-se quando encontramos Tony a espreitar o filho e Georgio, através de uma fresta, com este último a exibir uma enorme cumplicidade com o jovem, ou um momento num restaurante entre o trio, que permite exibir a capacidade com que o personagem interpretado por Vincent Cassel atrai as atenções daqueles que o rodeiam. A narrativa poderia ser encurtada, sobretudo os episódios de Tony na fisioterapia, mas é um prazer observar alguém dar tempo para Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot comporem personagens complexos, dotados de dimensão e propícios a que os intérpretes exponham o seu talento, com a química entre a dupla a funcionar, algo que alavanca o filme e convence, mesmo quando "Mon Roi" se parece tornar redundante quer na sua estrutura, quer nas suas temáticas. Os episódios no centro exibem essa redundância, com Maïwenn a interessar-se pelo corpo e estado de alma da protagonista, enquanto esta reavalia uma relação e separação que ocupou cerca de dez anos da sua vida, embora a interacção entre Tony e os outros elementos do espaço onde recupera raramente convença. Louis Garrel, Isild Le Besco e vários outros elementos secundários não conseguem sobressair, com o primeiro a surgir como o irmão protector que tenta avisar a irmã sobre Georgio, embora o intérprete nunca consiga explanar totalmente o seu talento. Diga-se que os vários elementos que Tony conhece no centro também não são desenvolvidos, com os momentos na fisioterapia a surgirem como um dos pontos fracos deste filme que deambula constantemente entre o presente e o passado. É o filme de Vincent Cassel e de Emmanuelle Bercot, bem como de Maïwenn, com esta a realizar um drama intenso e desgastante, que nos envolve para o interior da relação tumultuosa da dupla de protagonistas.
Título original: "Mon Roi".
Título em Portugal: "Meu Rei".
Realizadora: Maïwenn.
Argumento: Maïwenn e Etienne Comar.
Elenco: Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot, Louis Garrel.
06 maio 2016
Resenha Crítica: "Mundo Cão" (2016)
Recheado de reviravoltas, raptos, mortes, situações intensas, uma banda sonora pronta a adequar-se aos ritmos do enredo, "Mundo Cão" surge como um thriller competente, salpicado por elementos de drama, acção e humor negro, com Marcos Jorge a desenvolver uma obra cinematográfica inquietante e envolvente, pontuada por interpretações de bom nível de Babu Santana e Lázaro Ramos. Tudo começa com um mal-entendido, com o excesso de zelo no cumprimento da lei a contribuir para o abate de um rottweiler que pertencia a Nenê
(Lázaro Ramos), um antigo polícia, agora gangster, que se encontra ligado ao jogo ilegal. Quem recolhe o cão é Santana (Babu Santana), bem como Ramiro (Paulinho Serra), dois funcionários do Departamento de Combate às Zoonoses, com o personagem interpretado por Babu Santana a confrontar Nenê, após este último exibir um comportamento exaltado e violento quando descobre que o seu rottweiler foi alvo de eutanásia. A lei permite que os cães que se encontrem nas ruas sejam abatidos no espaço de três dias, a não ser que alguém reclame a posse do canídeo, algo que conduz à eliminação do animal de estimação de Nenê. Este não considera os cães como meros animais de estimação, com Nenê a adorar o convívio com os mesmos, para além de utilizá-los como armas contra potenciais inimigos ou traidores. Veja-se desde logo no prólogo quando encontramos Nenê a confrontar um indivíduo que o traiu, com o gangster a utilizar dois dobermans para penalizar o traidor. Lázaro Ramos incute um estilo temível, exagerado e imprevisível a Nenê, embora no último terço exiba um lado mais frágil do personagem, em particular, quando o jogo vira e este passa de uma posição de poder para uma situação onde o seu destino se encontra em jogo. A imprevisibilidade é uma das características que marcam a personalidade de Nenê, algo notório quando rapta o filho do protagonista, com "Mundo Cão" a manter inicialmente a dúvida em relação ao futuro do jovem, enquanto Marcos Jorge, o realizador, se prepara para nos conceder uma narrativa recheada de reviravoltas. Após o prólogo, a narrativa recua nove meses, até ao episódio no qual o cão de Nenê
é morto, algo que desperta a fúria deste último. Quem tem de lidar com a fúria do gangster é Santana, algo que promete mudar a vida deste funcionário do canil. Babu Santana incute um estilo afável e calmo ao personagem que interpreta, um indivíduo que procura fugir aos confrontos, que apenas pretende cumprir os afazeres da sua profissão e regressar para casa, onde mora com a sua esposa e os dois filhos.
Dilza (Adriana Esteves), a esposa de Santana, é uma mulher conservadora, evangélica, que vende roupa interior fabricada pela própria e procura proteger os filhos, com Marcos Jorge a expor desde os momentos iniciais que estamos diante de uma família relativamente feliz, de classe média, religiosa, que conta com algumas discussões, mas nada fora do comum. Antonio Santana e Dilza têm dois filhos, João (Vini Carvalho), o mais novo e, Isaura (Thainá Duarte), uma adolescente surda-muda, que se encontra perto de atingir a maioridade. Dilza é uma mãe extremamente zelosa, que procura evitar que Isaura saia à noite ou utilize roupas mais ousadas, para além de tentar que João não assista a um jogo de futebol no estádio, devido a considerar que o ambiente nestes recintos é perigoso. João é adepto do Palmeiras, enquanto que Santana torce pelo Corinthians, algo que gera alguns momentos de humor. A relação entre estes quatro elementos é saudável, pelo menos até Nenê decidir raptar João, tendo em vista a vingar a morte do seu cão, algo que promete mexer com o quotidiano do núcleo familiar de Santana. A dinâmica entre Santana e a família é relativamente convincente, algo que contribui para compreendermos a dor deste homem quando Nenê e o destino começam a "corroer" o seu lar. Babu Santana e Lázaro Ramos são os elementos do elenco que mais se destacam. Santana como um pai de família que gosta de tocar bateria, bem disposto e calmo, que começa a perder a ponderação quando se depara com o rapto do filho e a ocorrência de outro episódio trágico. Ramos como um gangster de gestos a espaços exagerados, temível, imprevisível e impulsivo, que não tem problemas em amedrontar os seus colaboradores, parecendo apenas gostar dos seus cães. Este conta com o apoio de elementos como Cebola (Milhem Cortaz num papel muito secundário, que não faz justiça ao talento do intérprete), um polícia corrupto, que mantém uma enorme lealdade para com Nenê. O gangster treina os seus cães para obedecerem às suas ordens, com o filme a demonstrar que a violência de alguns animais pode estar ligada aos donos e aos actos irracionais de alguns seres humanos. A partir do rapto de João, um jovem que ainda se encontra na escola primária, a narrativa ganha contornos distintos e mais uma série de reviravoltas que prometem surpreender o espectador ou, pelo menos, dinamizar o enredo. Nem sempre tudo faz sentido, nem parece existir um esforço para atribuir mais profundidade ao enredo, com Marcos Jorge a procurar acima de tudo criar um thriller intenso, onde os episódios exibidos são sentidos e o último terço ganha contornos claustrofóbicos e inquietantes, algo adensado pelo trabalho de câmara.
Marcos Jorge procura ainda efectuar uma crítica a alguns problemas que continuam a ocorrer no Brasil, algo que se torna relativamente visível no comentário final de "Mundo Cão": "Em São Paulo, a eutanásia indiscriminada de animais cessou em 2008. Os outros crimes continuam acontecendo". Veja-se a burocracia necessária para que a polícia inicie o registo do desaparecimento de João; a celeridade com que o cão de Nenê é eliminado (o enredo decorre em 2007); a relação promiscua entre as autoridades e alguns elementos ligados ao crime organizado; a crítica à inoperância do sistema judicial, entre outros exemplos. Nem sempre tudo é devidamente desenvolvido ao longo do filme, mas muito é sentido, em particular a partir do momento em que Santana decide tomar um acto violento, quase irracional, com "Mundo Cão" a colocar-nos diante de uma espécie de jogo entre "causa e efeito", com o personagem interpretado por Babu Santana e Nenê a serem os protagonistas do mesmo. O sentimento de vingança parece soltar os instintos, ou toldar a racionalidade de Nenê e Santana, embora este último hesite num momento decisivo, com Marcos Jorge a parecer querer estabelecer uma espécie de barreira moral entre o primeiro e o protagonista. "Mundo Cão" não efectua uma apologia à "justiça pelas próprias mãos", embora não tenha problemas em criticar a incapacidade da justiça em deter os criminosos, algo que não chega a ser devidamente aprofundado (surpreende que não surja uma subtrama relacionada com a procura da polícia em saber como é que o jovem apareceu). Diga-se que "Mundo Cão" não parece ter propósitos maiores a não ser inquietar e entreter o espectador ao longo da sua duração, enquanto nos coloca diante de um enredo cheio de ritmo e algum suspense, marcado por algumas temáticas do foro social (pouco desenvolvidas) e situações que nos deixam quer diante da perspectiva do antagonista, quer do protagonista. Até onde estaríamos dispostos a ir para vingar a morte do nosso animal de estimação? O que faríamos se descobríssemos o elemento que raptou o nosso filho? A primeira questão é colocada a Nenê e respondida pelo mesmo, enquanto a segunda serve para Santana, com estes dois personagens a protagonizarem um jogo intenso, que promete terminar mal para alguma das partes, ou para ambas (não vamos aqui revelar o final de "Mundo Cão"). Diga-se que Lázaro Ramos e Babu Santana não são os únicos integrantes do elenco que sobressaem em "Mundo Cão". Thainá Duarte assume uma proeminência crescente na narrativa, algo latente no último terço, com esta e Lázaro Ramos a iniciarem um jogo ambíguo que termina de forma inesperada. Pontuado por emoções fortes, vinganças violentas, reviravoltas e interpretações competentes de Babu Santana e Lázaro Ramos, "Mundo Cão" surge como um thriller envolvente, com Marcos Jorge a gerir os ritmos da narrativa de forma certeira e competente.
Título original: "Mundo Cão".
Realizador: Marcos Jorge .
Argumento: Marcos Jorge e Luca Silvestre.
Elenco: Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Milhem Cortaz, Thainá Duarte, Vini Carvalho.
Dilza (Adriana Esteves), a esposa de Santana, é uma mulher conservadora, evangélica, que vende roupa interior fabricada pela própria e procura proteger os filhos, com Marcos Jorge a expor desde os momentos iniciais que estamos diante de uma família relativamente feliz, de classe média, religiosa, que conta com algumas discussões, mas nada fora do comum. Antonio Santana e Dilza têm dois filhos, João (Vini Carvalho), o mais novo e, Isaura (Thainá Duarte), uma adolescente surda-muda, que se encontra perto de atingir a maioridade. Dilza é uma mãe extremamente zelosa, que procura evitar que Isaura saia à noite ou utilize roupas mais ousadas, para além de tentar que João não assista a um jogo de futebol no estádio, devido a considerar que o ambiente nestes recintos é perigoso. João é adepto do Palmeiras, enquanto que Santana torce pelo Corinthians, algo que gera alguns momentos de humor. A relação entre estes quatro elementos é saudável, pelo menos até Nenê decidir raptar João, tendo em vista a vingar a morte do seu cão, algo que promete mexer com o quotidiano do núcleo familiar de Santana. A dinâmica entre Santana e a família é relativamente convincente, algo que contribui para compreendermos a dor deste homem quando Nenê e o destino começam a "corroer" o seu lar. Babu Santana e Lázaro Ramos são os elementos do elenco que mais se destacam. Santana como um pai de família que gosta de tocar bateria, bem disposto e calmo, que começa a perder a ponderação quando se depara com o rapto do filho e a ocorrência de outro episódio trágico. Ramos como um gangster de gestos a espaços exagerados, temível, imprevisível e impulsivo, que não tem problemas em amedrontar os seus colaboradores, parecendo apenas gostar dos seus cães. Este conta com o apoio de elementos como Cebola (Milhem Cortaz num papel muito secundário, que não faz justiça ao talento do intérprete), um polícia corrupto, que mantém uma enorme lealdade para com Nenê. O gangster treina os seus cães para obedecerem às suas ordens, com o filme a demonstrar que a violência de alguns animais pode estar ligada aos donos e aos actos irracionais de alguns seres humanos. A partir do rapto de João, um jovem que ainda se encontra na escola primária, a narrativa ganha contornos distintos e mais uma série de reviravoltas que prometem surpreender o espectador ou, pelo menos, dinamizar o enredo. Nem sempre tudo faz sentido, nem parece existir um esforço para atribuir mais profundidade ao enredo, com Marcos Jorge a procurar acima de tudo criar um thriller intenso, onde os episódios exibidos são sentidos e o último terço ganha contornos claustrofóbicos e inquietantes, algo adensado pelo trabalho de câmara.
Marcos Jorge procura ainda efectuar uma crítica a alguns problemas que continuam a ocorrer no Brasil, algo que se torna relativamente visível no comentário final de "Mundo Cão": "Em São Paulo, a eutanásia indiscriminada de animais cessou em 2008. Os outros crimes continuam acontecendo". Veja-se a burocracia necessária para que a polícia inicie o registo do desaparecimento de João; a celeridade com que o cão de Nenê é eliminado (o enredo decorre em 2007); a relação promiscua entre as autoridades e alguns elementos ligados ao crime organizado; a crítica à inoperância do sistema judicial, entre outros exemplos. Nem sempre tudo é devidamente desenvolvido ao longo do filme, mas muito é sentido, em particular a partir do momento em que Santana decide tomar um acto violento, quase irracional, com "Mundo Cão" a colocar-nos diante de uma espécie de jogo entre "causa e efeito", com o personagem interpretado por Babu Santana e Nenê a serem os protagonistas do mesmo. O sentimento de vingança parece soltar os instintos, ou toldar a racionalidade de Nenê e Santana, embora este último hesite num momento decisivo, com Marcos Jorge a parecer querer estabelecer uma espécie de barreira moral entre o primeiro e o protagonista. "Mundo Cão" não efectua uma apologia à "justiça pelas próprias mãos", embora não tenha problemas em criticar a incapacidade da justiça em deter os criminosos, algo que não chega a ser devidamente aprofundado (surpreende que não surja uma subtrama relacionada com a procura da polícia em saber como é que o jovem apareceu). Diga-se que "Mundo Cão" não parece ter propósitos maiores a não ser inquietar e entreter o espectador ao longo da sua duração, enquanto nos coloca diante de um enredo cheio de ritmo e algum suspense, marcado por algumas temáticas do foro social (pouco desenvolvidas) e situações que nos deixam quer diante da perspectiva do antagonista, quer do protagonista. Até onde estaríamos dispostos a ir para vingar a morte do nosso animal de estimação? O que faríamos se descobríssemos o elemento que raptou o nosso filho? A primeira questão é colocada a Nenê e respondida pelo mesmo, enquanto a segunda serve para Santana, com estes dois personagens a protagonizarem um jogo intenso, que promete terminar mal para alguma das partes, ou para ambas (não vamos aqui revelar o final de "Mundo Cão"). Diga-se que Lázaro Ramos e Babu Santana não são os únicos integrantes do elenco que sobressaem em "Mundo Cão". Thainá Duarte assume uma proeminência crescente na narrativa, algo latente no último terço, com esta e Lázaro Ramos a iniciarem um jogo ambíguo que termina de forma inesperada. Pontuado por emoções fortes, vinganças violentas, reviravoltas e interpretações competentes de Babu Santana e Lázaro Ramos, "Mundo Cão" surge como um thriller envolvente, com Marcos Jorge a gerir os ritmos da narrativa de forma certeira e competente.
Título original: "Mundo Cão".
Realizador: Marcos Jorge .
Argumento: Marcos Jorge e Luca Silvestre.
Elenco: Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Milhem Cortaz, Thainá Duarte, Vini Carvalho.
05 maio 2016
Resenha Crítica: "A História da Eternidade"
Entre o lirismo e a crueza, o sonho e a realidade, um calor abrasador que parece secar tudo menos os sentimentos e uma tempestade que se prepara para estimular os desejos contidos, os planos bem abertos que nos dão a conhecer as especificidades de um território e os close-ups que tanto dizem sobre os rostos dos personagens, "A História da Eternidade" é uma proposta que tanto tem de poética como de bizarra e estimulante. Agarra, solta o espectador, deixa-o à deriva com os personagens, enquanto o elenco convence e a banda sonora se faz sentir, seja a música diegética ou não diegética. No final, nem sempre temos a certeza de ter conhecido totalmente as figuras que rodeiam a narrativa de "A História da Eternidade", embora seja notório que ficamos a conhecer um pouco mais destas gentes e do espaço onde habitam. O enredo tem como pano de fundo um pequeno vilarejo no Sertão, um território ermo, pontuado por espaços arenosos e despovoados, parecendo quase separado do resto do Mundo, ou melhor, da cidade. O telefone encontra-se num espaço exterior às habitações, a luz das velas é utilizada com regularidade, enquanto que o bar do Galo Cego surge como um dos poucos pontos de convívio e a Igreja como um local onde os habitantes se reúnem com regularidade. Camilo Cavalcante, um estreante na realização de longas-metragens, transmite de forma exímia a noção da dimensão deste vilarejo e dos espaços por onde se movem as diversas figuras que povoam a narrativa, enquanto explora e expõe este cenário. É um espaço com cerca de quarenta moradores, embora apenas fiquemos a conhecer alguns elementos ao longo de uma narrativa onde o destino, o desejo e este cenário parecem exercer uma influência indelével nos homens e mulheres que nos são apresentados. Não é a realidade que nos é apresentada, nem parece existir a tentativa de replicar a mesma, embora os sentimentos sejam bem reais, tal como alguns comportamentos das figuras que povoam a narrativa, com "A História da Eternidade" a apresentar-nos a três grupos de personagens cujas histórias por vezes se unem ao longo do enredo. No início temos um funeral, de um familiar próximo de Querência (Marcelia Cartaxo), uma mulher na casa dos quarenta anos de idade, solitária, que é cortejada por Aderaldo (Leonardo França), um indivíduo invisual que passa boa parte dos seus dias a tocar acordeão em frente à casa da primeira. Tanto Querência como Aderaldo são figuras solitárias para quem a vida nem sempre parece ter sido simpática. Ela perdeu o seu filho, vive sozinha, enquanto ele é cego e passa os seus dias a tocar música, parecendo certo que, mais cedo ou mais tarde, algo vai reunir ou afastar estes personagens. Se Querência vive sozinha, já Alfonsina (Débora Ingrid) habita com o seu pai (Claudio Jaborandy), os irmãos e Joãozinho (Irandhir Santos), o seu tio. Alfonsina é uma adolescente que se encontra prestes a completar quinze anos de idade, que sonha ver o mar e tem uma relação de enorme cumplicidade com Joãozinho.
O mar surge como uma metáfora para a liberdade, para Alfonsina conhecer algo distinto e soltar-se dos grilhões aos quais se encontra presa, ou não contasse praticamente com as funções de dona de casa. Veja-se quando encontramos a jovem a encher um copo de água com sal, tendo em vista a reproduzir um efeito semelhante ao mar, num momento que tanto tem de delicado como de naïf e desolador. Débora Ingrid consegue transmitir a curiosidade de Alfonsina, bem como o facto desta jovem começar a sentir um fervilhar de sentimentos próprios da adolescência, embora habite num território isolado de quase tudo e todos, algo que promete contribuir para algumas decisões estranhas tomadas por esta personagem. Alfonsina tem uma relação de enorme amizade e cumplicidade com Joãozinho, um indivíduo que apresenta uma visão muito própria do espaço que o rodeia. O pai de Alfonsina considera que Joãozinho é louco, enquanto este último prefere definir-se como um artista. Joãozinho tenta estimular a imaginação e criatividade da adolescente. Veja-se quando Joãozinho leva a sobrinha até um local relativamente desértico e montanhoso, enquanto os planos belissimamente arquitectados permitem transmitir a noção de que este território é circundado por um espaço arenoso, embora o primeiro procure estimular a imaginação da familiar, tendo em vista a que esta consiga sentir a presença do mar. É um momento simultaneamente belo e triste, onde o sonho e a realidade se misturam, embora estejamos diante de uma jovem que tarda em cumprir o desejo de ver o mar, ou de ganhar a sua liberdade. A relação entre Alfonsina e o pai é marcada por momentos nem sempre calorosos, com Nataniel, o progenitor da primeira, a apresentar gestos algo rudes, uma personalidade conservadora e retrógrada, procurando defender a honra da filha, embora não pareça ter a sensibilidade para perceber que esta se encontra em transição para a idade adulta. Essa situação é visível quando esta pede para ver o mar no dia em que completar quinze anos, embora o progenitor tenha outros planos, em particular matar quatro cabritos e organizar uma festa local. Este é um indivíduo que vive do trabalho da terra, que se encontra preocupado devido ao facto de uma seca assolar o território, embora a chegada de uma tempestade traga um turbilhão de sentimentos desejados ou indesejados. Se Irandhir Santos consegue transmitir o tom algo naïf de Joãozinho, também Claudio Jablonsky evidencia eficazmente a personalidade brusca e rude de Nataniel, um indivíduo meio "casca grossa", que parece ter sido educado desta forma. Todos estes personagens reúnem-se na Igreja local, outro dos espaços deste vilarejo que nos é dado a conhecer. A religião tem um papel relevante na vida de alguns personagens, sobretudo de Das Dores (Zezita Matos), uma mulher experiente, devota confessa, com a decoração da sua casa e os seus hábitos a remeterem para essa situação. Das Dores recebe a visita de Geraldo (Maxwell Nascimento), o seu neto, um jovem que promete perturbar o quotidiano desta figura feminina.
A personagem interpretada por Zezita Matos é outra das figuras solitárias de "A História da Eternidade", com esta mulher a ter no neto uma estranha companhia, mas também um enigma inicialmente complicado de decifrar, ou este não tivesse viajado misteriosamente de São Paulo para o vilarejo, com os pecados do passado a marcarem o jovem de forma indelével. Geraldo surge quase como uma novidade no interior deste espaço conservador, com o personagem interpretado por Maxwell Nascimento a aparecer com uma tatuagem e brincos, para além de chegar acompanhado de revistas pornográficas e uma arma, com o actor a conseguir incutir algum mistério a esta figura que procura encontrar conforto e protecção junto da avó. Tal como Querência e Alfonsina, também Das Dores é colocada diante do desejo, enquanto Camilo Cavalcante se prepara para mexer com os sentimentos do espectador e dos personagens. O cineasta não poupa no choque, ou na subversão das expectativas, quase que brincando com o espectador, ou jogando com o mesmo, deixando-o perante o inevitável, enquanto a audiência é conduzida para o interior deste universo narrativo que parece à parte do Mundo e da realidade mas, ao mesmo tempo, sem fugir totalmente ao real, ou do real. A escolha do termo inevitável não foi ao acaso, com Camilo Cavalcante a parecer incutir um certo fatalismo ao destino dos personagens que povoam o enredo de "A História da Eternidade". Tudo parece desenrolar-se a um ritmo muito próprio, com "A História da Eternidade" a expor que estes personagens estão destinados a sentir, errar, amar, pecar, desejar e a exibirem a sua enorme humanidade. Diga-se que a passagem do tempo é transmitida de forma harmoniosa, com a presença de quatro bodes a permitir expor que se passou um mês entre o final do capítulo intitulado de "Pé de Galinha" e o início de "Pé de Cabra", com o enredo a encontrar-se dividido em três capítulos ("Pé de Galinha", "Pé de Cabra", "Pau de Urubu"). A própria transição entre as cenas é efectuada com alguma harmonia, com uma música a poder reunir duas figuras solitárias, mesmo que uma até esteja acompanhada pelos seus familiares. Estes personagens parecem viver numa realidade quase à parte, onde a tecnologia não parece ter penetrado totalmente e os tabus são mais do que muitos, bem como os valores conservadores de um espaço do interior do Brasil. O desejo aparece muitas das vezes associado à repressão a nível dos sentimentos, mas também ao próprio território, com este espaço e as suas gentes a apresentarem ritmos e modos de vida muito próprios. Veja-se que Alfonsina reprime os seus sentimentos devido à sua educação e à acção do seu pai; Das Dores procura controlar o libido devido aos valores religiosos que professa; Querência parece presa ao passado, nomeadamente, a perdas importantes.
Aos poucos ficamos a conhecer mais sobre estes personagens, ao longo destas três histórias, ao ritmo da banda sonora criada por Zibgniew Preisner e Dominguinhos, com a música a incrementar alguns episódios deste filme que inicialmente se estranha e depois se entranha. Camilo Cavalcante parece estar consciente dessa situação, sobretudo no último terço, quando uma tempestade assola o território, os sentimentos fluem de forma arrebatadora e o primoroso trabalho de Beto Martins (cinematografia) sobressai de forma indelével. Os planos surgem arquitectados de forma meticulosa, conseguindo transmitir quer a forma como calor assola o território (boa utilização da luz natural), quer as consequências que uma tempestade traz para os corpos, as almas e o vilarejo. Veja-se logo de início, quando ficamos diante de uma cerimónia fúnebre, com Camilo Cavalcante e a sua equipa a conseguirem transmitir quer a noção do espaço que envolve os personagens, quer as figuras que o rodeiam, quer os sentimentos de Querência. Os planos mais abertos transmitem a alma deste pequeno vilarejo onde quase todos se parecem conhecer, enquanto que, aos poucos, somos transportados para o interior do mesmo, quase como se fizéssemos parte deste espaço. É um local onde o sonho e a realidade se podem mesclar e atomizar, onde uma jovem sonha ver o mar, ou melhor, ganhar a sua liberdade, com a maioria dos personagens a protagonizarem episódios nos quais o desejo, o amor e as relações são vividos de forma muito própria. Diga-se que não poderia ser de outra forma, ou não estivéssemos diante de um vilarejo dotado de regras muito próprias, onde o cemitério parece estar mais povoado do que os espaços nos quais se encontram instalados os vivos, uma situação que reforça o isolamento deste local do interior. A própria decoração do quarto de Alfonsina evidencia esse isolamento, com a parede a encontrar-se recheada de imagens do mar, algo que transmite o desejo desta jovem em conhecer este espaço e libertar-se dos grilhões impostos pelo progenitor. Com interpretações convincentes por parte do elenco principal, um conjunto de planos que parecem ter sido pensados ao pormenor e uma banda sonora que contribui para incrementar a narrativa, "A História da Eternidade" surge como uma estreia interessante de Camilo Cavalcante na realização de longas-metragens, com o cineasta a procurar desafiar o espectador e os seus personagens, algo que consegue, ou não estivéssemos diante de um filme que está longe de conseguir provocar indiferença.
Título original: "A História da Eternidade".
Realizador: Camilo Cavalcante.
Argumento: Camilo Cavalcante.
Elenco: Marcelia Cartaxo, Leonardo França, Débora Ingrid, Claudio Jaborandy, Zezita Matos, Maxwell Nascimento.
O mar surge como uma metáfora para a liberdade, para Alfonsina conhecer algo distinto e soltar-se dos grilhões aos quais se encontra presa, ou não contasse praticamente com as funções de dona de casa. Veja-se quando encontramos a jovem a encher um copo de água com sal, tendo em vista a reproduzir um efeito semelhante ao mar, num momento que tanto tem de delicado como de naïf e desolador. Débora Ingrid consegue transmitir a curiosidade de Alfonsina, bem como o facto desta jovem começar a sentir um fervilhar de sentimentos próprios da adolescência, embora habite num território isolado de quase tudo e todos, algo que promete contribuir para algumas decisões estranhas tomadas por esta personagem. Alfonsina tem uma relação de enorme amizade e cumplicidade com Joãozinho, um indivíduo que apresenta uma visão muito própria do espaço que o rodeia. O pai de Alfonsina considera que Joãozinho é louco, enquanto este último prefere definir-se como um artista. Joãozinho tenta estimular a imaginação e criatividade da adolescente. Veja-se quando Joãozinho leva a sobrinha até um local relativamente desértico e montanhoso, enquanto os planos belissimamente arquitectados permitem transmitir a noção de que este território é circundado por um espaço arenoso, embora o primeiro procure estimular a imaginação da familiar, tendo em vista a que esta consiga sentir a presença do mar. É um momento simultaneamente belo e triste, onde o sonho e a realidade se misturam, embora estejamos diante de uma jovem que tarda em cumprir o desejo de ver o mar, ou de ganhar a sua liberdade. A relação entre Alfonsina e o pai é marcada por momentos nem sempre calorosos, com Nataniel, o progenitor da primeira, a apresentar gestos algo rudes, uma personalidade conservadora e retrógrada, procurando defender a honra da filha, embora não pareça ter a sensibilidade para perceber que esta se encontra em transição para a idade adulta. Essa situação é visível quando esta pede para ver o mar no dia em que completar quinze anos, embora o progenitor tenha outros planos, em particular matar quatro cabritos e organizar uma festa local. Este é um indivíduo que vive do trabalho da terra, que se encontra preocupado devido ao facto de uma seca assolar o território, embora a chegada de uma tempestade traga um turbilhão de sentimentos desejados ou indesejados. Se Irandhir Santos consegue transmitir o tom algo naïf de Joãozinho, também Claudio Jablonsky evidencia eficazmente a personalidade brusca e rude de Nataniel, um indivíduo meio "casca grossa", que parece ter sido educado desta forma. Todos estes personagens reúnem-se na Igreja local, outro dos espaços deste vilarejo que nos é dado a conhecer. A religião tem um papel relevante na vida de alguns personagens, sobretudo de Das Dores (Zezita Matos), uma mulher experiente, devota confessa, com a decoração da sua casa e os seus hábitos a remeterem para essa situação. Das Dores recebe a visita de Geraldo (Maxwell Nascimento), o seu neto, um jovem que promete perturbar o quotidiano desta figura feminina.
A personagem interpretada por Zezita Matos é outra das figuras solitárias de "A História da Eternidade", com esta mulher a ter no neto uma estranha companhia, mas também um enigma inicialmente complicado de decifrar, ou este não tivesse viajado misteriosamente de São Paulo para o vilarejo, com os pecados do passado a marcarem o jovem de forma indelével. Geraldo surge quase como uma novidade no interior deste espaço conservador, com o personagem interpretado por Maxwell Nascimento a aparecer com uma tatuagem e brincos, para além de chegar acompanhado de revistas pornográficas e uma arma, com o actor a conseguir incutir algum mistério a esta figura que procura encontrar conforto e protecção junto da avó. Tal como Querência e Alfonsina, também Das Dores é colocada diante do desejo, enquanto Camilo Cavalcante se prepara para mexer com os sentimentos do espectador e dos personagens. O cineasta não poupa no choque, ou na subversão das expectativas, quase que brincando com o espectador, ou jogando com o mesmo, deixando-o perante o inevitável, enquanto a audiência é conduzida para o interior deste universo narrativo que parece à parte do Mundo e da realidade mas, ao mesmo tempo, sem fugir totalmente ao real, ou do real. A escolha do termo inevitável não foi ao acaso, com Camilo Cavalcante a parecer incutir um certo fatalismo ao destino dos personagens que povoam o enredo de "A História da Eternidade". Tudo parece desenrolar-se a um ritmo muito próprio, com "A História da Eternidade" a expor que estes personagens estão destinados a sentir, errar, amar, pecar, desejar e a exibirem a sua enorme humanidade. Diga-se que a passagem do tempo é transmitida de forma harmoniosa, com a presença de quatro bodes a permitir expor que se passou um mês entre o final do capítulo intitulado de "Pé de Galinha" e o início de "Pé de Cabra", com o enredo a encontrar-se dividido em três capítulos ("Pé de Galinha", "Pé de Cabra", "Pau de Urubu"). A própria transição entre as cenas é efectuada com alguma harmonia, com uma música a poder reunir duas figuras solitárias, mesmo que uma até esteja acompanhada pelos seus familiares. Estes personagens parecem viver numa realidade quase à parte, onde a tecnologia não parece ter penetrado totalmente e os tabus são mais do que muitos, bem como os valores conservadores de um espaço do interior do Brasil. O desejo aparece muitas das vezes associado à repressão a nível dos sentimentos, mas também ao próprio território, com este espaço e as suas gentes a apresentarem ritmos e modos de vida muito próprios. Veja-se que Alfonsina reprime os seus sentimentos devido à sua educação e à acção do seu pai; Das Dores procura controlar o libido devido aos valores religiosos que professa; Querência parece presa ao passado, nomeadamente, a perdas importantes.
Aos poucos ficamos a conhecer mais sobre estes personagens, ao longo destas três histórias, ao ritmo da banda sonora criada por Zibgniew Preisner e Dominguinhos, com a música a incrementar alguns episódios deste filme que inicialmente se estranha e depois se entranha. Camilo Cavalcante parece estar consciente dessa situação, sobretudo no último terço, quando uma tempestade assola o território, os sentimentos fluem de forma arrebatadora e o primoroso trabalho de Beto Martins (cinematografia) sobressai de forma indelével. Os planos surgem arquitectados de forma meticulosa, conseguindo transmitir quer a forma como calor assola o território (boa utilização da luz natural), quer as consequências que uma tempestade traz para os corpos, as almas e o vilarejo. Veja-se logo de início, quando ficamos diante de uma cerimónia fúnebre, com Camilo Cavalcante e a sua equipa a conseguirem transmitir quer a noção do espaço que envolve os personagens, quer as figuras que o rodeiam, quer os sentimentos de Querência. Os planos mais abertos transmitem a alma deste pequeno vilarejo onde quase todos se parecem conhecer, enquanto que, aos poucos, somos transportados para o interior do mesmo, quase como se fizéssemos parte deste espaço. É um local onde o sonho e a realidade se podem mesclar e atomizar, onde uma jovem sonha ver o mar, ou melhor, ganhar a sua liberdade, com a maioria dos personagens a protagonizarem episódios nos quais o desejo, o amor e as relações são vividos de forma muito própria. Diga-se que não poderia ser de outra forma, ou não estivéssemos diante de um vilarejo dotado de regras muito próprias, onde o cemitério parece estar mais povoado do que os espaços nos quais se encontram instalados os vivos, uma situação que reforça o isolamento deste local do interior. A própria decoração do quarto de Alfonsina evidencia esse isolamento, com a parede a encontrar-se recheada de imagens do mar, algo que transmite o desejo desta jovem em conhecer este espaço e libertar-se dos grilhões impostos pelo progenitor. Com interpretações convincentes por parte do elenco principal, um conjunto de planos que parecem ter sido pensados ao pormenor e uma banda sonora que contribui para incrementar a narrativa, "A História da Eternidade" surge como uma estreia interessante de Camilo Cavalcante na realização de longas-metragens, com o cineasta a procurar desafiar o espectador e os seus personagens, algo que consegue, ou não estivéssemos diante de um filme que está longe de conseguir provocar indiferença.
Título original: "A História da Eternidade".
Realizador: Camilo Cavalcante.
Argumento: Camilo Cavalcante.
Elenco: Marcelia Cartaxo, Leonardo França, Débora Ingrid, Claudio Jaborandy, Zezita Matos, Maxwell Nascimento.
Resenha Crítica: "Cartas de Amor São Ridículas"
Ainda pensei iniciar o texto sobre "Cartas de Amor São Ridículas", o filme de abertura da sétima de edição do FESTin, com um paralelismo relacionado com o futebol, em particular, o clube grande que perde o jogo da primeira jornada e tem uma entrada em falso, apesar de ter um plantel superior à equipa adversária. "Cartas de Amor São Ridículas" não é uma entrada em falso, mas um autogolo num momento decisivo de um festival que conta com filmes de enorme qualidade como "A História da Eternidade" e "Maresia", para citar apenas dois exemplos, embora se espalhe ao comprido com uma escolha completamente desastrosa para a abertura. A obra cinematográfica realizada por Alvarina Souza e Silva comprova que não são apenas as cartas de amor que são ridículas, ou não estivéssemos diante de um filme destrambelhado, amador, superficial, sem um mínimo de brio estético, que efectua uma representação ofensiva das mulheres e revela uma incapacidade gritante para desenvolver as personagens. No filme, quase todas as mulheres que nos são apresentadas querem casar, ser boas donas de casa e ter filhos, ou seja, um retrato que certamente agradará a um machista extremamente conservador. Diga-se que o casamento como modo de felicidade e de resolver todos os problemas caberia que nem uma luva naquelas comédias à portuguesa efectuadas durante o período do Estado Novo (não é um elogio), nas quais os valores conservadores também são defendidos. É certo que o enredo de "Cartas de Amor São Ridículas" tem como pano de fundo o território de Goiás, há cinquenta anos, mas isso não explica a representação totalmente retrógrada das mulheres e do casamento que é apresentada ao longo do filme. Também não justifica a falta de capacidade para explorar o território ao serviço da narrativa, com o filme fazer desesperar o mais optimista dos cinéfilos perante os tropeções que dá ao longo da sua duração. A espaços ainda desejamos que "Cartas de Amor São Ridículas" se envolva por caminhos de "Orgulho e Preconceito", mas o feminismo e mulheres fortes não combinam com esta visão patética das mulheres que nos é exposta, enquanto ansiamos que o martírio termine, perdão, o filme. Numa fase em que se discute cada vez mais a igualdade de oportunidades a nível laboral e salarial para as mulheres, surpreende que Alvarina Souza e Silva tenha decidido realizar uma obra cinematográfica que poderia ter sido escrita e dirigida por um machista do tempo da outra senhora. A certa altura de "Cartas de Amor São Ridículas", Gardênia (Ana Paula Lopes), a parideira de serviço (não parece ter outra utilidade na narrativa), morre a dar à luz mais um rebento. Esta é uma das cinco filhas de Lázaro (Roberto Bonfim) e Rosa (Sandra Barsotti). Poderíamos esperar momentos de grande consternação, mas isso seria demasiado subtil para "Cartas de Amor São Ridículas". Não existe luto, mas sim a tentativa de casar o viúvo com outra das filhas, com o casamento a resolver tudo. É simplesmente idiota, perdoem a franqueza, mas não consigo escamotear que me senti ofendido a ver o filme quer pela sua falta de brio a nível técnico, quer pelo seu argumento pueril, quer pela forma como representa as mulheres, quer pela falta de desenvolvimento das personagens.
"Cartas de Amor São Ridículas" representa uma época distinta, mas isso não explica a falta de desenvolvimento das personagens femininas, ou a parvoíce que povoa a narrativa. Veja-se quando Açucena (Carolina Oliveira) corta os pulsos, após o noivo colocar o casamento em causa. Açucena faz sexo com Cassiano (Alejandro Claveaux), o noivo, para provar que é virgem, embora este comece a duvidar da seriedade da jovem. Ora bem, perder a virgindade para se mostrar que é virgem é estúpido, mas também exibir de forma tão leviana os resultados inócuos do corte de pulsos (não sei o que é pior, se a falta de sangue e efeitos no corpo, ou a atitude de uma das irmãs da jovem, pronta a tentar que ninguém descubra que a familiar foi "desonrada"). Açucena e Gardênia contam ainda com mais três irmãs, embora uma tenha decidido ir para o convento (para não ficar solteira), pelo que apenas nos são apresentadas (não confundir com desenvolvidas ao longo do enredo), Violeta (Marcela Moura) e Dália (Bela Carrijo). Violeta é tratada como se fosse uma aberração quer pelas irmãs, quer pela mãe, devido a continuar solteira aos quarenta anos de idade. Por sua vez, Dália, aos vinte e cinco anos, prepara-se para contrair matrimónio com Eugênio (Tiago Benetti), um médico, com quem se corresponde inicialmente através de cartas. Quem escreve as cartas é Violeta, utilizando poemas de Fernando Pessoa, com o poeta a provavelmente andar a revirar no túmulo perante a puerilidade com que os seus escritos são utilizados. A poesia de Fernando Pessoa é introduzida a martelo, quase como uma forma de justificar uma ligação com Portugal, enquanto esperamos a reviravolta mais ou menos óbvia em relação ao triângulo amoroso que se forma entre Eugênio, Violeta e Dália. Quer dizer, não é assim tão óbvia já que não esperamos uma saída a cavalo, quase como se estivéssemos diante de um príncipe encantado, com "Cartas de Amor São Ridículas" a efectuar uma representação caricatural das relações amorosas e dos personagens que povoam a narrativa. Não existe massa humana que sustente "Cartas de Amor São Ridículas". Os personagens masculinos pouco evoluem (Tiago Benetti e Alejandro Claveaux dão um espectáculo de canastrice), as figuras femininas ainda menos, com pouco ou nada a convencer ao longo de "Cartas de Amor São Ridículas". Se o objectivo era transmitir uma ideia completamente errada daquilo que o FESTin já deu e pode dar, "Cartas de Amor São Ridículas" cumpre o mesmo com distinção. O problema é que para descobrirmos isso temos de perder quase uma hora e quarenta minutos das nossas vidas com uma obra cinematográfica que de cinema tem muito pouco, embora apresente uma mescla quase perfeita de um argumento pueril e uma realização incapaz. Tecnicamente e esteticamente irrelevante, incapaz de desenvolver os personagens ou aproveitar o seu elenco, com uma montagem mal oleada e uma representação tosca da época apresentada, "Cartas de Amor São Ridículas" é... simplesmente ridículo.
Título original: "Cartas de Amor São Ridículas".
Realizadora: Alvarina Souza e Silva.
Argumento: Alvarina Souza e Silva.
Elenco: Roberto Bonfim, Carolina Oliveira, Sandra Barsotti, Alejandro Claveaux, Bela Carrijo, Marcelo Moura.
"Cartas de Amor São Ridículas" representa uma época distinta, mas isso não explica a falta de desenvolvimento das personagens femininas, ou a parvoíce que povoa a narrativa. Veja-se quando Açucena (Carolina Oliveira) corta os pulsos, após o noivo colocar o casamento em causa. Açucena faz sexo com Cassiano (Alejandro Claveaux), o noivo, para provar que é virgem, embora este comece a duvidar da seriedade da jovem. Ora bem, perder a virgindade para se mostrar que é virgem é estúpido, mas também exibir de forma tão leviana os resultados inócuos do corte de pulsos (não sei o que é pior, se a falta de sangue e efeitos no corpo, ou a atitude de uma das irmãs da jovem, pronta a tentar que ninguém descubra que a familiar foi "desonrada"). Açucena e Gardênia contam ainda com mais três irmãs, embora uma tenha decidido ir para o convento (para não ficar solteira), pelo que apenas nos são apresentadas (não confundir com desenvolvidas ao longo do enredo), Violeta (Marcela Moura) e Dália (Bela Carrijo). Violeta é tratada como se fosse uma aberração quer pelas irmãs, quer pela mãe, devido a continuar solteira aos quarenta anos de idade. Por sua vez, Dália, aos vinte e cinco anos, prepara-se para contrair matrimónio com Eugênio (Tiago Benetti), um médico, com quem se corresponde inicialmente através de cartas. Quem escreve as cartas é Violeta, utilizando poemas de Fernando Pessoa, com o poeta a provavelmente andar a revirar no túmulo perante a puerilidade com que os seus escritos são utilizados. A poesia de Fernando Pessoa é introduzida a martelo, quase como uma forma de justificar uma ligação com Portugal, enquanto esperamos a reviravolta mais ou menos óbvia em relação ao triângulo amoroso que se forma entre Eugênio, Violeta e Dália. Quer dizer, não é assim tão óbvia já que não esperamos uma saída a cavalo, quase como se estivéssemos diante de um príncipe encantado, com "Cartas de Amor São Ridículas" a efectuar uma representação caricatural das relações amorosas e dos personagens que povoam a narrativa. Não existe massa humana que sustente "Cartas de Amor São Ridículas". Os personagens masculinos pouco evoluem (Tiago Benetti e Alejandro Claveaux dão um espectáculo de canastrice), as figuras femininas ainda menos, com pouco ou nada a convencer ao longo de "Cartas de Amor São Ridículas". Se o objectivo era transmitir uma ideia completamente errada daquilo que o FESTin já deu e pode dar, "Cartas de Amor São Ridículas" cumpre o mesmo com distinção. O problema é que para descobrirmos isso temos de perder quase uma hora e quarenta minutos das nossas vidas com uma obra cinematográfica que de cinema tem muito pouco, embora apresente uma mescla quase perfeita de um argumento pueril e uma realização incapaz. Tecnicamente e esteticamente irrelevante, incapaz de desenvolver os personagens ou aproveitar o seu elenco, com uma montagem mal oleada e uma representação tosca da época apresentada, "Cartas de Amor São Ridículas" é... simplesmente ridículo.
Título original: "Cartas de Amor São Ridículas".
Realizadora: Alvarina Souza e Silva.
Argumento: Alvarina Souza e Silva.
Elenco: Roberto Bonfim, Carolina Oliveira, Sandra Barsotti, Alejandro Claveaux, Bela Carrijo, Marcelo Moura.
04 maio 2016
Entrevista a Roni Nunes sobre a edição de 2016 do FESTin
A edição de 2016 do FESTin decorre entre os dias 4 e 11 de Maio de 2016. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar online Roni Nunes, um dos programadores do Festival. Tal como no ano passado, o Roni Nunes apresentou uma enorme disponibilidade para responder às questões. As perguntas vão desde o processo de selecção dos filmes, passando por questões específicas sobre as obras cinematográficas, até a novidades como o FESTin Arte e o Júri Imprensa.
Rick's Cinema: A edição de 2015 do FESTin correspondeu às expectativas relacionadas com o número de espectadores e da cobertura dos meios online e da imprensa profissional? O que consideras que funcionou melhor e pior na edição do ano passado?
RC: No caso do "O Touro", encontramos algo que parece marcar algumas obras do Festin, que passa por uma parceria entre Portugal e o Brasil. O "O Touro" conta com a Joana de Verona. A Beatriz Batarda encontra-se no elenco de "Beatriz". Podemos dizer que estes dois exemplos encaixam paradigmaticamente num dos objectivos do Festival, nomeadamente "Fomentar a interculturalidade, a inclusão social e o intercâmbio cultural nos países de língua portuguesa (...)"? Aproveitando ainda a temática do intercâmbio e da interculturalidade, consideras que os filmes oriundos dos países dos PALOP é um dos elementos fundamentais do FESTin?"
Rick's Cinema: A edição de 2015 do FESTin correspondeu às expectativas relacionadas com o número de espectadores e da cobertura dos meios online e da imprensa profissional? O que consideras que funcionou melhor e pior na edição do ano passado?
RN: Sim, de uma maneira geral
penso que correu bem. De qualquer forma também foi uma edição muito
complexa, com mais de um espaço e várias mostras paralelas. Esse ano
investimos radicalmente numa racionalização da programação, até para
fazermos uma divulgação mais precisa e focada. Quanto à cobertura não
temos razões de queixa – o festival foi noticiado na maior parte dos
veículos.
RC: Como decorreu o processo de selecção dos filmes?
RN: Este ano recebemos um
número recorde de inscrições e alguns filmes da competição saíram deste
lote – assim como as obras que compõem todas as outras seções. A
competição de longas-metragens de ficção, a Mostra de Cinema Brasileiro e
o FESTin Arte, no entanto, foram compostas também através de um olhar
atento aos principais festivais de cinema do Brasil. Neste caso, o
Festival do Rio, por exemplo, tinha uma quantidade impressionante de
títulos e fomos atrás de alguns; o de Brasília contribuiu com dois e
“Ausência”, que tinha passado por Berlim, foi o grande vencedor de
Gramado.
RC: Nesta fase estamos na "época
alta" dos festivais e mostras de cinema, as distribuidoras chegam a
marcar catorze estreias para o mesmo dia, ou cinco visionamentos de
imprensa para a mesma data, ou seja existe uma torrente de obras
cinematográficas para o público e crítica ver, parecendo impossível
absorver tudo, ou pior do que isso, conseguir dar o devido valor a cada
filme. Tendo em conta este cenário relativamente caótico, como é que
consideras que o FESTin se pode posicionar para conseguir chegar quer ao
público, quer à imprensa? Basta uma boa programação ou também é preciso
ser certeiro na comunicação?
RN: Bom, os festivais têm a grande
vantagem de terem um público alternativo – justamente aquele que
procura filmes diferentes dos que estão disponíveis no cinema comercial.
Essa enorme quantidade de filmes lançados no mês de maio não ajuda esse
circuito, mas penso que não afecta os festivais. Quanto à imprensa, no
que se refere às notícias o festival não se ressente, pois recebe sempre
espaço depois do anúncio da programação e na véspera do arranque.
RC: O ano passado a programação
contou com surpresas, ou confirmações, bastante boas. Veja-se os casos
de "A Despedida", "A Vizinhança do Tigre", "O Rio nos Pertence", "Quando
eu era vivo", entre outros exemplos. Quais os principais desafios para
programar um festival que procura chegar a um leque alargado de público?
Conseguiram todos os filmes que pretendiam?
RN: O desafio é equilibrar-se
entre o acessível e o exigente – correndo sempre o risco de não agradar
a nenhum deles. Mas pelo retorno que tivemos do público no ano passado,
todos os filmes, mesmo aqueles mais experimentais, tiveram uma boa
acolhida. No entanto, houve uma exceção, o que nos fez ter isso em
mente.
De qualquer forma, não abrimos
mão de manter-nos fiel ao espírito dos festivais – de oferecer
propostas alternativas e experimentais. Uma das formas de enquadramento
foi a criação do FESTin Arte, mesmo contando com o quão vago e
abrangente o termo “arte” pode ser. Mas a competição está cheia de
títulos que desafiam o espectador, embora convivam com filmes de género.
Estes, no entanto, são maioria na Mostra do Cinema Brasileiro. Quanto
aos filmes que queríamos, conseguimos todos.
RC: O filme de abertura é "Cartas
de Amor são Ridículas", enquanto a fechar temos "Jonas", com o primeiro
a ser realizado por uma cineasta experiente e o segundo por realizadora
estreante em longas-metragens. Existiu essa procura de contrabalançar
entre a experiência e os novos rostos do cinema brasileiro? Quais as
razões para a escolha destes filmes para abrir e fechar o festival?
RN: Segundo a minha experiência
como alguém que percorre os festivais todos de Lisboa, as aberturas e
encerramentos funcionam bem quando são “feel good movies”. É isto que
estes dois filmes são – com o primeiro ainda a estabelecer um vínculo
interessante entre Brasil e Portugal, já que o título foi inspirado num
poema de Fernando Pessoa. “Jonas” é um filme bastante divertido, que tem
romance, policial, drama e aventura – tudo muito bem equilibrado pela
realizadora Lô Politi.
RC: Quer o "Cartas de Amor são
Ridículas", quer o "Jonas", quer o "O Touro", entre outros exemplos são
realizados por mulheres. Numa fase onde o debate sobre a igualdade de
oportunidades no Cinema (e não só) encontra-se cada vez mais vivo,
existiu essa procura de atribuir um destaque às vozes femininas do
cinema brasileiro?
RN: Na verdade foi coincidência, o
que prova que as mulheres vão cada vez menos precisando de
protecionismos, pois podem realizar filmes tanto quanto qualquer homem.
Não quero com isso tornar leviano o debate das reivindicações femininas.
O ano passado um filme realizado por uma mulher, “Que Horas Ela Volta”,
fez uma grande carreira internacional e a realizadora, Anna Muylaert,
queixou-se muito do enorme machismo da indústria. No nosso caso posso
dizer que foi uma feliz coincidência.
RC: O ano passado tiveram o "A
Vizinhança do Tigre" na secção de documentários. Este ano voltam a
apostar na docuficção, ou pelo menos, num filme que se parece esgueirar
entre os diversos géneros e fugir às catalogações fáceis, em particular
"O Touro". Existiu esse cuidado de apresentar uma visão da diversidade a
nível de documentários que existe no cinema brasileiro? Aproveitando a
deixa, o que podemos esperar de "O Touro"?
RN: A docuficção é uma das mais
fortes tendências dos grandes festivais internacionais dos últimos anos.
Veja-se o caso recente, para dar um pequeno exemplo, de “O Olmo e a
Gaivota”, novo trabalho de Petra Costa. O filme ganhou o prémio de
Melhor Documentário no Festival do Rio, mas traz, claramente, vários
diálogos e cenas inventadas para enquadrar o drama da protagonista.
No ano passado tínhamos “A
Vizinhança do Tigre” como representante deste tipo de registo, que tanto
pode competir em ficção quanto em documentário. Este ano dois filmes
enquadram-se na tendência – e ambos, cada um a sua maneira, são
surpreendentes. De um lado temos “O Touro”, que você cita, um filme que é
um documentário tradicional até um certo ponto, quando se transforma em
outra coisa… O caso de “Fome” é ainda mais desestabilizador, mas sobre
isso não digo nada para não estragar a surpresa.
RC: No caso do "O Touro", encontramos algo que parece marcar algumas obras do Festin, que passa por uma parceria entre Portugal e o Brasil. O "O Touro" conta com a Joana de Verona. A Beatriz Batarda encontra-se no elenco de "Beatriz". Podemos dizer que estes dois exemplos encaixam paradigmaticamente num dos objectivos do Festival, nomeadamente "Fomentar a interculturalidade, a inclusão social e o intercâmbio cultural nos países de língua portuguesa (...)"? Aproveitando ainda a temática do intercâmbio e da interculturalidade, consideras que os filmes oriundos dos países dos PALOP é um dos elementos fundamentais do FESTin?"
RN: Sim, certamente. Há outros
exemplos, como “África Abençoada”, que é uma produção portuguesa sobre
um ciclista da Guiné que viaja por vários países do seu continente. Já
em “O Outro Lado do Atlântico” vai-se ainda mais longe – relatando um
intercâmbio de estudantes provenientes de países lusófonos numa pequena
cidade brasileira. Certamente que a presença destes filmes é que define a
identidade do FESTin como um Festival de Cinema Itinerante da Língua
Portuguesa.
RC: Na Competição de
Longas-metragens, um dos filmes que mais tem dividido a crítica é "Mundo
Cão", realizado por Marcos Jorge. O Rodrigo Fonseca deu quatro estrelas
no Omelete e considerou "Mundo Cão": "(...) um
filme sólido, que consolida a trajetória autoral de Jorge e sua
parceria com Lusa em diálogos que traduzem brutalidade, inquietação e o
senso de revanche". Por sua vez o Pablo Villaça deu duas estrelas ao filme e salientou que "(...) a obra não consegue disfarçar sua falta de ambição ou mesmo sua covardia (...)". Como é que te posicionas em relação ao filme e aos trabalhos do Marcos Jorge?
RN: Bom, concordo com o Fonseca
(risos). Acho que o filme é um grande momento do cinema de género, com
um argumento magnífico e atores muito bem dirigidos – em especial Lázaro
Ramos como um vilão aterrador. A tensão está sempre no pico e há várias
cenas memoráveis.
RC: Outro dos destaques, ou muito
provavelmente, o maior destaque é a presença de "A História da
Eternidade", uma obra cinematográfica que foi recebida de forma calorosa
pela crítica. Podemos dizer que é um dos grandes destaques desta edição
do FESTin? Quais são as justificações para este sucesso junto da
crítica?
RN: Este filme tem sido
unanimemente considerado como um exemplo de união de rigor plástico e
técnico com emotividade. Há um trabalho de fotografia e arte magníficos,
para além dos atores de primeira linha – como o incontornável Irhandir
Santos.
RC: A secção "FESTin Arte"
permite englobar algumas obras cinematográficas destinadas a um público
que espera ser desafiado nas salas de cinema. Esse foi um dos objectivos
para a criação desta secção? O FESTin Arte é para continuar ou está
dependente do sucesso junto dos espectadores?
RN: Dias Gomes dizia algo como “se
não for para provocar, não vale a pena viver”. Bom, as palavras não
eram bem essas, mas o sentido é precisamente este: o FESTin Arte é como
entrar num outro mundo, numa outra perceção de cinema… é um desafio. E,
como tal, veio para ficar. É o caso de “Clarisse ou Alguma Coisa sobre
Nós Dois” – um desafio absoluto à sensibilidade do espectador.
RC: A FESTin Arte permite ainda
exibir a diversidade das produções cinematográficas brasileiras. Veja-se
que nesta edição do FESTin contamos com filmes como o "O Touro", ou
exemplos que se esgueiram quase para o género como "Mundo Cão", ou "A
Floresta que se move", para além de obras cinematográficas que contam
com um apelo mais alargado como "Cartas de Amor São Ridículas". Podemos
dizer que o cinema brasileiro (com todas as limitações que esta
designação envolve) vive um bom período?
RN: O cinema brasileiro vive um
excelente momento em termos de produção – sofrendo, como todos os países
que não os Estados Unidos, de imensas dificuldades na hora da
distribuição. E o FESTin tenta captar esse momento – trazendo obras de
género e de autor – e, principalmente, muitos trabalhos entre um e
outro. O bom cinema de género foi uma das apostas notórias da
programação – encontrar exemplares feitos com inteligência e emoção. Mas
trazer propostas ousadas é um dever de um bom festival.
RC: Sei que é uma pergunta
delicada para um programador, mas não poderia deixar de efectuar a
questão. Quais são os cinco filmes da edição de 2016 do FESTin que
aconselharias os leitores a não perderem por nada deste Mundo?
RN: Muito difícil, realmente.
Gosto de pensar que criamos uma competição de longas-metragens de ficção
de grande qualidade – de um modo geral.
RC: Em termos de júris, existe uma novidade este ano, que é o Júri Imprensa…
RN: Sim, é muito recorrente nos
festivais terem vários júris. Não acho que no FESTin, dada a nossa
dimensão, tais artifícios se apliquem, mas achamos que havia um espaço
para um júri especial, composto exclusivamente por quem vê o cinema do
ângulo da crítica. E tivemos sorte de construir um de alto nível – com
jornalistas que estiveram no comando das duas maiores revistas de cinema
de Portugal e da editoria de cinema num jornal de grande circulação.
Foi o caso da Sara Afonso (Empire), do Jorge Pinto (Premiere) e da Aisha
Rahim (jornal O Sol).
RC: Fazes parte da equipa de
programadores e assessores, mas também escreves em meios online como o
Sapo e o C7nema. Quais as principais diferenças entre os meios online e
impressos, ou imprensa online e escrita, naquilo que diz respeito à
cobertura do FESTin/festivais de cinema?
RC: A imprensa escrita costuma se
interessar por menos eventos e dedica-se, principalmente, a entrevistas e retrospectivas. No online faz-se de tudo! (risos). Talvez pela própria
rapidez de propagação que o online permite - para além de ser menos
efémero: um jornal impresso vai para o lixo no mesmo dia; no online as
críticas e artigos e ficam visíveis por vários dias, para além de irem
parar à uma base de dados que pode ser consultada depois.
RC: Este ano efectuaste a
cobertura da Berlinale. Para além disso, costumas ainda cobrir diversos
festivais de cinema nacionais. Essas experiências têm contribuído para o
teu trabalho como programador? Existe algum festival a nível nacional
que encares como exemplo a seguir a nível da programação e do
relacionamento com a imprensa?
RN: Bom, a Berlinale, tal como o
IndieLisboa e Lisbon & Estoril Film Festival, são festivais
dedicados, essencialmente, ao cinema de autor. Como jornalista claro que
gosto imenso de todos eles e o Festival de Berlim foi uma experiência
maravilhosa. Mas, como programador, penso que o FESTin está em melhor
sintonia com mostras como as dos cinemas Italiano e Francês, por não
trazerem apenas registos autorais mas também bastante espaço ao cinema
de género. E, normalmente, com excelente qualidade.
O Queer também costuma ter uma
seleção equilibrada e o Motelx não serve como exemplo para o FESTin,
mas serve para mim pessoalmente! Não só por ser fã de terror, mas por
também observar um raro trabalho de prospeção que eles fazem de obras
obscuras do cinema português.
Eu gosto de cinema como um
todo – na verdade o cinema com o qual ando com bem menos paciência é o
de Hollywood, com as suas fórmulas, suas pirotecnias para garotos e a
sua propaganda política grosseira. Talvez por isso goste tanto de
festivais. A nível de imprensa, gosto de todas as assessorias, como uma
desonrosa exceção… que obviamente não vou mencionar! (risos).
RC: O Cinema Brasileiro continua a
ser mal-tratado em circuito comercial (em Portugal). Veja-se o ano
passado a forma pouco criteriosa e praticamente despercebida como o "O
Lobo atrás da Porta" foi lançado. O 8 1/2 Festa do Cinema Italiano tem
conseguido distribuir alguns filmes que lança no festival. A pergunta
que te faço é se está no vosso horizonte conseguir que o FESTin se
expanda a esse ponto, ou seja, conseguir trazer e valorizar o cinema
brasileiro para o circuito comercial?
RN: Adoraria que o FESTin
conseguisse fazer isso. Talvez no futuro, quem sabe… De resto o cinema
brasileiro apenas com raras exceções é lançado por uma distribuidora que
o consiga colocar em salas de Lisboa e que faça um mínimo esforço de
divulgação. Na verdade só conheço uma – o resto é para queimar filmes.
RC: Última pergunta (que costuma ser a primeira). Expectativas para a edição de 2016 do FESTin?
RN: Espero que consigamos, com os
nossos poucos recursos, divulgar o FESTin o suficiente para que o
público apareça para a nossa melhor programação de sempre.
RC: Obrigado Roni Nunes pelo tempo despendido nas respostas às questões.
02 maio 2016
Resenha Crítica: "Truman" (2015)
"Truman" é uma pequena preciosidade que se encontra escondida no interior da sua falsa simplicidade, com esta co-produção entre a Espanha e a Argentina a contribuir para muitos risos, várias lágrimas e reforçar a noção de que Ricardo Darín é um actor soberbo. É um filme que está longe de ser simples, com Cesc Gay, o realizador, a abordar temáticas relacionadas como o aproximar da morte, uma doença terminal, a cumplicidade inerente a uma amizade de longa duração, a paternidade, o papel que um cão pode ganhar no quotidiano de um ser humano, entre outras que são desenvolvidas com uma sinceridade desarmante. Dois dos pontos fortes de "Truman" passam pela sinceridade dos diálogos e pela dinâmica sublime entre Ricardo Darín e Javier Cámara, a dupla de protagonistas. É um filme onde o trabalho dos actores é valorizado e dignificado, com Cesc Gay a deixar muitas das vezes que as atenções recaiam na dupla de protagonistas, enquanto estes protagonizam uma série de episódios marcantes e envolventes. Cesc Gay não deixa que o filme descaia por completo para o drama, nem utiliza a comédia nos momentos mais inapropriados, conseguindo mesclar a faceta cómica e dramática de "Truman" com uma naturalidade surpreendente, ao mesmo tempo que dá espaço para os seus intérpretes brilharem, incluindo o canino que encarna o personagem do título, o animal de estimação de Julián (Ricardo Darín). Este é um actor na casa dos quarenta e poucos, ou cinquenta anos de idade, que padece de cancro nos pulmões, encontrando-se em estado terminal, tendo decidido não avançar para a quimioterapia devido a não pretender gastar os últimos dias da sua vida em tratamentos dolorosos. O actor é sublime na forma como transmite os sentimentos, com um simples diálogo, ou um abraço, a ganharem outra dimensão graças à arte de Darín, enquanto este nos compele a querer seguir Julián, um solteirão que tem dois filhos, Nico (Oriol Pla), um jovem que se encontra a estudar em Amesterdão e Truman, um cão simpático e afável. A relação entre Julián e Truman é desarmante, com uma cena onde o primeiro se dirige ao veterinário, tendo em vista a procurar aferir a forma como um cão lida com a perda do dono, a surgir como um momento que tanto tem de humano como promete dizer imenso a quem encara o seu cachorro praticamente como se fosse um membro da família. Julián
procura uma família, ou alguém de confiança, que acolha Truman, embora pareça devastado com
a possibilidade de ter de se afastar do seu grande companheiro de todas
as horas, com quem fala e lida como se estivesse diante de um ser
humano. Se Julián é um actor argentino, outrora um galã, que se encontra a viver e trabalhar em Madrid, embora conte com algumas dificuldades financeiras, já Tomás (Javier Cámara) habita e labora no Canadá (como professor), onde formou família, apesar dos melhores anos da sua juventude terem sido passados em Espanha, com o primeiro a ser um dos seus melhores amigos.
Tomás e Julián já não dialogavam há algum tempo, embora o primeiro conseguisse obter informações sobre o amigo através de Paula (Dolores Fonzi), a prima do actor, uma mulher temperamental e divorciada, que apresenta uma enorme intimidade com o personagem interpretado por Javier Cámara. O actor consegue transmitir a maior ponderação de Tomás em relação a Julián, com Cámara e Darín a apresentarem uma dinâmica desarmante, com ambos a convencerem que são amigos de longa data. Um simples olhar, ou uma curta troca de palavras permite exprimir essa cumplicidade entre Julián e Tomás, com este último a preparar-se para passar quatro dias junto do amigo, tendo em vista a formar novas memórias, despedir-se do mesmo e celebrar a vida. Diga-se que "Truman" tem o condão quer de nos confrontar com o aproximar da morte e a inevitabilidade da mesma, quer com a alegria de viver, com Cesc Gay a conseguir conciliar estes momentos de forma delicada e inspirada. A reunião entre Julián e Tomás é marcada pela dificuldade inicial do segundo em lidar com a doença do primeiro, embora admire a coragem do amigo, com Ricardo Darín a incutir um carisma indelével ao personagem que interpreta. "Truman" consegue que os personagens e os episódios protagonizadas pelos mesmos pareçam credíveis e sinceros, pelo menos para esta pessoa que escreve o texto, mesmo quando Cesc Gay cede aos lugares-comuns ou a uma ou outra opção mais fácil (sobretudo no último terço), embora o trabalho do cineasta mereça ser valorizado e elogiado. Entre uma visita ao médico, uma reunião para decidir a urna de Jávier, uma viagem à Holanda para o personagem interpretado por Ricardo Darín se reunir com o filho, festas e momentos mais depressivos, a dupla de protagonistas vive uma miríade de episódios ao longo destes quatro dias, enquanto o espectador é transportado para o interior do dia-a-dia destas duas figuras masculinas que facilmente despertam a nossa atenção e curiosidade. Num determinado momento de "Truman", Tomás salienta que os quatro dias passaram demasiado depressa, um sentimento que é partilhado pelo espectador, ou a duração do filme praticamente não se fizesse notar. Aos poucos, parece que também somos amigos de Tomás e Julián, que partilhamos os seus momentos de cumplicidade, seja de dor ou alegria, com "Truman" a abordar a questão da doença e da decisão do personagem interpretado por Ricardo Darín com uma complexidade latente. Essa complexidade fica particularmente visível na demonstração das diversas formas como os vários conhecidos de Julián lidam com o facto deste padecer de uma doença terminal: uns fingem que não o vêem para não terem de falar sobre a doença, outros procuram transmitir palavras de conforto, com "Truman" a abordar esta situação de forma delicada e inspirada. Tomás procura apoiar o amigo quer a nível moral, quer financeiro (é sempre o professor quem paga as contas), com ambos a protagonizarem alguns episódios que tanto despertam risos como um nó na garganta, com a narrativa a contar com uma estrutura relativamente episódica. Veja-se quando encontramos Julián e Tomás numa consulta, com o primeiro a rejeitar recorrer à quimioterapia e aos tratamentos que apenas prometem adiar o inevitável, enquanto o segundo fica sem saber lá muito bem aquilo que deve dizer ou pensar, num trecho onde Darín exibe quer o carácter bem disposto do personagem que interpreta, quer o seu lado mais dramático, quer a sua coragem.
Temos ainda a reunião entre Julián e o filho, com Cesc Gay a criar um dos momentos mais intensos e comoventes de "Truman", com poucas palavras sobre a doença a serem trocadas, embora um abraço prometa dizer mais do que longos diálogos. Não poderíamos ainda deixar de realçar, mais uma vez, a relação peculiar entre Julián e Truman, com o animal de estimação a ganhar um destaque especial em diversos momentos da narrativa, bem como Paula, a prima do protagonista. Dolores Fonzi tem alguns momentos para se destacar como esta mulher que parece ter um passado em comum com Tomás, com a actriz e Javier Cámara a apresentarem uma química convincente, embora, a espaços, a decisão tomada por Cesc Gay, em relação aos personagens, num determinado momento do enredo, pareça demasiado fácil e preguiçosa. Já a relação de amizade entre Tomás e Julián é abordada com enorme arte e engenho, com a dupla a contar com uma cumplicidade latente. A dinâmica entre Darín e Cámara é essencial para "Truman" funcionar, com os actores a contribuírem para que os diálogos pareçam completamente sinceros, enquanto elevam o argumento e a colocam o espectador diante de situações que tanto prometem despertar risos como a queda de uma lágrima (ou mais) de tristeza. Darín sobressai como este actor que outrora fora um galã, que se depara com o aproximar do "final da linha", enquanto tenta aproveitar as últimas semanas que lhe restam. O actor consegue transmitir a incerteza que a espaços paira na mente de Julián, com o protagonista a exibir alguns sinais de fragilidade, algo notório quando se urina nas calças antes de chegar à casa de banho. Veja-se ainda quando reencontra a ex-mulher (Elvira Mínguez), num momento onde fica clara a capacidade de Cesc Gay em reunir as várias peças da narrativa de forma quase sempre harmoniosa, enquanto coloca Julián a procurar organizar e viver os últimos momentos da sua existência. Cámara destaca-se como um indivíduo que inicialmente não sabe como lidar com o facto da morte se estar a aproximar de um dos seus melhores amigos, com o intérprete a exibir uma dinâmica com Darín que é praticamente irrepreensível. Julián procura organizar o tempo que falta da sua vida, enquanto Tomás tenta reavivar uma amizade de longa data, com ambos a trocarem diálogos que vão desde o mais simples ao mais filosófico. Veja-se quando Julián comenta que se encontra a sonhar constantemente com os pais, ou salienta que deixou de ser ateu, com "Truman" a abordar os efeitos que a doença terminal provoca na mente e no corpo do protagonista. A amizade entre Julián e Tomás é uma das pedras basilares desta obra cinematográfica, enquanto Cesc Gay nos deixa diante de dois amigos que são colocados diante de dificuldades, episódios que variam entre o agradável e o desagradável, embora a união de ambos nunca seja colocada em causa, com "Truman" a surgir como uma surpresa que é capaz de envolver, comover e fazer rir o espectador.
Título original: "Truman".
Realizador: Cesc Gay.
Argumento: Tomàs Aragay e Cesc Gay.
Elenco: Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi.
Tomás e Julián já não dialogavam há algum tempo, embora o primeiro conseguisse obter informações sobre o amigo através de Paula (Dolores Fonzi), a prima do actor, uma mulher temperamental e divorciada, que apresenta uma enorme intimidade com o personagem interpretado por Javier Cámara. O actor consegue transmitir a maior ponderação de Tomás em relação a Julián, com Cámara e Darín a apresentarem uma dinâmica desarmante, com ambos a convencerem que são amigos de longa data. Um simples olhar, ou uma curta troca de palavras permite exprimir essa cumplicidade entre Julián e Tomás, com este último a preparar-se para passar quatro dias junto do amigo, tendo em vista a formar novas memórias, despedir-se do mesmo e celebrar a vida. Diga-se que "Truman" tem o condão quer de nos confrontar com o aproximar da morte e a inevitabilidade da mesma, quer com a alegria de viver, com Cesc Gay a conseguir conciliar estes momentos de forma delicada e inspirada. A reunião entre Julián e Tomás é marcada pela dificuldade inicial do segundo em lidar com a doença do primeiro, embora admire a coragem do amigo, com Ricardo Darín a incutir um carisma indelével ao personagem que interpreta. "Truman" consegue que os personagens e os episódios protagonizadas pelos mesmos pareçam credíveis e sinceros, pelo menos para esta pessoa que escreve o texto, mesmo quando Cesc Gay cede aos lugares-comuns ou a uma ou outra opção mais fácil (sobretudo no último terço), embora o trabalho do cineasta mereça ser valorizado e elogiado. Entre uma visita ao médico, uma reunião para decidir a urna de Jávier, uma viagem à Holanda para o personagem interpretado por Ricardo Darín se reunir com o filho, festas e momentos mais depressivos, a dupla de protagonistas vive uma miríade de episódios ao longo destes quatro dias, enquanto o espectador é transportado para o interior do dia-a-dia destas duas figuras masculinas que facilmente despertam a nossa atenção e curiosidade. Num determinado momento de "Truman", Tomás salienta que os quatro dias passaram demasiado depressa, um sentimento que é partilhado pelo espectador, ou a duração do filme praticamente não se fizesse notar. Aos poucos, parece que também somos amigos de Tomás e Julián, que partilhamos os seus momentos de cumplicidade, seja de dor ou alegria, com "Truman" a abordar a questão da doença e da decisão do personagem interpretado por Ricardo Darín com uma complexidade latente. Essa complexidade fica particularmente visível na demonstração das diversas formas como os vários conhecidos de Julián lidam com o facto deste padecer de uma doença terminal: uns fingem que não o vêem para não terem de falar sobre a doença, outros procuram transmitir palavras de conforto, com "Truman" a abordar esta situação de forma delicada e inspirada. Tomás procura apoiar o amigo quer a nível moral, quer financeiro (é sempre o professor quem paga as contas), com ambos a protagonizarem alguns episódios que tanto despertam risos como um nó na garganta, com a narrativa a contar com uma estrutura relativamente episódica. Veja-se quando encontramos Julián e Tomás numa consulta, com o primeiro a rejeitar recorrer à quimioterapia e aos tratamentos que apenas prometem adiar o inevitável, enquanto o segundo fica sem saber lá muito bem aquilo que deve dizer ou pensar, num trecho onde Darín exibe quer o carácter bem disposto do personagem que interpreta, quer o seu lado mais dramático, quer a sua coragem.
Temos ainda a reunião entre Julián e o filho, com Cesc Gay a criar um dos momentos mais intensos e comoventes de "Truman", com poucas palavras sobre a doença a serem trocadas, embora um abraço prometa dizer mais do que longos diálogos. Não poderíamos ainda deixar de realçar, mais uma vez, a relação peculiar entre Julián e Truman, com o animal de estimação a ganhar um destaque especial em diversos momentos da narrativa, bem como Paula, a prima do protagonista. Dolores Fonzi tem alguns momentos para se destacar como esta mulher que parece ter um passado em comum com Tomás, com a actriz e Javier Cámara a apresentarem uma química convincente, embora, a espaços, a decisão tomada por Cesc Gay, em relação aos personagens, num determinado momento do enredo, pareça demasiado fácil e preguiçosa. Já a relação de amizade entre Tomás e Julián é abordada com enorme arte e engenho, com a dupla a contar com uma cumplicidade latente. A dinâmica entre Darín e Cámara é essencial para "Truman" funcionar, com os actores a contribuírem para que os diálogos pareçam completamente sinceros, enquanto elevam o argumento e a colocam o espectador diante de situações que tanto prometem despertar risos como a queda de uma lágrima (ou mais) de tristeza. Darín sobressai como este actor que outrora fora um galã, que se depara com o aproximar do "final da linha", enquanto tenta aproveitar as últimas semanas que lhe restam. O actor consegue transmitir a incerteza que a espaços paira na mente de Julián, com o protagonista a exibir alguns sinais de fragilidade, algo notório quando se urina nas calças antes de chegar à casa de banho. Veja-se ainda quando reencontra a ex-mulher (Elvira Mínguez), num momento onde fica clara a capacidade de Cesc Gay em reunir as várias peças da narrativa de forma quase sempre harmoniosa, enquanto coloca Julián a procurar organizar e viver os últimos momentos da sua existência. Cámara destaca-se como um indivíduo que inicialmente não sabe como lidar com o facto da morte se estar a aproximar de um dos seus melhores amigos, com o intérprete a exibir uma dinâmica com Darín que é praticamente irrepreensível. Julián procura organizar o tempo que falta da sua vida, enquanto Tomás tenta reavivar uma amizade de longa data, com ambos a trocarem diálogos que vão desde o mais simples ao mais filosófico. Veja-se quando Julián comenta que se encontra a sonhar constantemente com os pais, ou salienta que deixou de ser ateu, com "Truman" a abordar os efeitos que a doença terminal provoca na mente e no corpo do protagonista. A amizade entre Julián e Tomás é uma das pedras basilares desta obra cinematográfica, enquanto Cesc Gay nos deixa diante de dois amigos que são colocados diante de dificuldades, episódios que variam entre o agradável e o desagradável, embora a união de ambos nunca seja colocada em causa, com "Truman" a surgir como uma surpresa que é capaz de envolver, comover e fazer rir o espectador.
Título original: "Truman".
Realizador: Cesc Gay.
Argumento: Tomàs Aragay e Cesc Gay.
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