11 abril 2016

Resenha Crítica: "Sangue del mio sangue" (2015)

 Entre o passado e o presente, "Sangue del mio sangue", a nova longa-metragem realizada por Marco Bellocchio, coloca o espectador diante de duas histórias que se desenrolam em períodos de tempo distintos, unidas pelo espaço de Bobbio, bem como por elementos associados ao misticismo, ao catolicismo e à sociedade da época representada. É uma obra de enorme elegância, onde a música é utilizada de forma inspirada, sobretudo "Nothing Else Matters", enquanto elementos do elenco como Pier Giorgio Bellocchio, Lidiya Liberman e Roberto Herlitzka conseguem explanar o seu talento para a representação. "Sangue del mio sangue" coloca o espectador perante duas histórias aparentemente distintas, com a primeira parte do filme a surgir como o seu ponto forte, embora o seu final poderossísimo tarde em sair da memória, bem como a banda sonora de Carlo Crivelli. Nem sempre tudo é devidamente explorado ou aproveitado, algo visível na sociedade de vampiros da segunda metade de "Sangue del mio sangue", uma subtrama que praticamente permitiria fornecer material para outro filme, embora Marco Bellocchio prefira atirar um conjunto de ingredientes para o "interior da panela" e deixar o espectador cozinhar a gosto na sua memória. É uma obra cinematográfica que provoca um estranho efeito, que encanta e a espaços repele, com as suas imagens a seduzirem, a sua história, ou melhor, histórias, a conseguirem captar a atenção, com as duas metades a contarem com figuras tão distintas como supostas bruxas, vampiros, vigaristas, tresloucados, cavaleiros que se deixam cair em jogos de sedução ou iniciam os mesmos, com o desejo a parecer algo transversal aos dois capítulos de "Sangue del mio sangue", bem como o território de Bobbio, a cidade onde nasceu Marco Bellocchio (vale a pena salientar que "I pugni in tasca", a primeira longa-metragem realizada pelo cineasta, foi filmada em Bobbio). Na primeira metade de "Sangue del mio sangue", Marco Bellocchio apresenta-nos a Federico (Pier Giorgio Bellocchio), um cavaleiro que se dirige ao convento de Santa Chiara, tendo em vista a expor o seu desagrado devido ao facto de Fabrizio, o seu irmão, um padre, ter sido enterrado num espaço destinado aos criminosos. A razão oficial é que o padre cometeu suicídio e quebrou o voto de castidade, embora alguns eclesiásticos, tais como Cacciapuoti (Fausto Russo Alesi), um elemento da Inquisição, acreditem que o irmão do protagonista foi alvo de um feitiço por parte da irmã Benedetta (Lidiya Liberman), uma figura feminina sedutora. Federico pretende que o corpo de Fabrizio seja transferido para o cemitério da catedral, mas esse desejo só pode ser concretizado se os elementos eclesiásticos conseguirem provas de que Benedetta fez um pacto com o Diabo. Muitos elementos eclesiásticos acreditam que Benedetta é uma bruxa, com "Sangue del mio sangue" a abordar e explorar diversas superstições populares e actos pouco recomendáveis da Igreja durante diferentes períodos da nossa História, enquanto exibe um lado mais negro desta instituição. Estamos em pleno Século XVII, com o guarda-roupa, os cenários e os comportamentos dos personagens a remeterem para esta época, enquanto "Sangue del mio sangue" joga com alguns tabus desse período. Veja-se que o irmão de Federico deixou-se cair em tentação, enquanto o protagonista não tem problemas em procurar seduzir Maria (Alba Rohrwacher) e Marta Perletti (Federica Fracassi), duas irmãs católicas, bastante religiosas e castas, com quem vive temporariamente enquanto espera a resolução do julgamento de Benedetta.

 Maria e Marta vestem-se praticamente da mesma maneira, com ambas a apresentarem uma postura discreta, embora nem sempre consigam esconder que desejam Federico. A casa de Maria e Marta permite espelhar todo o requinte que "Sangue del mio sangue" conta na decoração de alguns cenários interiores, com este espaço a surgir recheado de tapeçaria e porcelanas, sendo muitas das vezes iluminado à luz das velas, permitindo reflectir a personalidade aparentemente certinha das duas irmãs, com estas a apresentarem uma postura inicialmente recatada. A presença de Federico parece mexer com os sentimentos das duas irmãs, enquanto este se prepara para viver um furacão de emoções, sobretudo a partir do momento em que se depara com Benedetta. Lidiya Liberman é uma das actrizes que mais se destaca ao longo do enredo, com esta a conseguir manter o mistério em volta da personagem que interpreta. Veja-se quando a freira é emparedada e ficamos diante do seu olhar misterioso, com Lidiya Liberman a conseguir ser bastante eficaz a expressar-se com o seu olhar, algo que contribui para adensar o estranho efeito que Benedetta provoca em Federico. Benedetta cometeu "o pecado" de despertar a paixão de um padre, com Federico a parecer odiar inicialmente esta mulher, embora não consiga ficar indiferente ao chamamento da mesma. De cabelos compridos, um ar galanteador, uma personalidade aparentemente impulsiva, Federico é o personagem em maior destaque nesta primeira parte de "Sangue del mio sangue", com Pier Giorgio Bellocchio a conseguir transmitir a intensidade deste cavaleiro e as dúvidas que o protagonista sente em relação a Benedetta. A personagem interpretada por Lidiya Liberman é alvo de três testes desumanos, que servem praticamente para que esta confesse que manteve um pacto com o Diabo. Inicialmente cortam o cabelo da jovem, tendo em vista a aferirem se esta conta ou não com a marca do Diabo, até testarem-na em situações degradantes. Uma desses testes passa por acorrentarem Benedetta e atirarem a freira para o lago, tendo em vista a provar se esta tem ou não um pacto com o Diabo. O momento é de enorme impacto e violência emocional, embora seja exposto de forma simultaneamente dura e bela, com Marco Bellocchio a incutir algum lirismo a esta cena. Veja-se quando encontramos Benedetta debaixo de água, com a música a fazer-se sentir, ou quando o cineasta opta por expor a queda a partir deste espaço aquático. Quase tudo e todos parecem querer que Benedetta confesse que mantém um pacto com o Diabo, com os actos praticados por estes elementos a trazerem à memória algumas medidas de coacção contemporâneas, que são efectuadas para obter informações junto de suspeitos, ou criminosos (basta recordar os casos relativamente recentes de Guantanamo, com Bellocchio a parecer criticar quem abusa do poder). Benedetta exibe, pelo menos a nível inicial, uma enorme força interior para resistir a estas provações, com Lidiya Liberman a interpretar uma personagem de personalidade forte, que representa um certo sentimento de liberdade, algo que contrasta com as figuras ligadas à Igreja que procuram coartar as acções desta figura feminina misteriosa. Como reagir diante da tortura? Falar a verdade, ou contar uma mentira para terminar com o sofrimento? No final, Benedetta acaba emparedada, embora ainda protagonize um jogo de sedução com Federico. Este parece nutrir algum desejo por Benedetta, mas também receio, algo latente quando teme as repercussões do resultado do julgamento, com Marco Bellocchio a explorar assertivamente a estranha dinâmica entre esta dupla.

  O momento em que Benedetta é emparedada surge como mais um trecho onde Marco Bellocchio exibe uma enorme classe (mérito também para Daniele Ciprì, o director de fotografia), com o cineasta a conseguir transmitir o sentimento de claustrofobia que envolve este acto desumano. A câmara de filmar é posicionada, ainda que a espaços, no interior do local onde Benedetta vai ficar emparedada, um recurso que permite transmitir uma sensação de claustrofobia e colocar o espectador praticamente na mesma posição desta mulher, algo que é acompanhado por planos dos elementos que se encontram a assistir à colocação dos tijolos em volta da freira, enquanto somos envolvidos para o interior deste momento marcante de "Sangue del mio sangue". Um dos elementos que apresenta um papel fundamental no julgamento é Cacciapuoti, com Fausto Russo Alesi a conseguir transmitir o rigor com que o padre procura seguir as regras religiosas, parecendo notório que este personagem se encontra empenhado em tentar que Benedetta confesse uma ligação com o Diabo. O desejo, a sedução, o pecado, o mistério, o misticismo, o catolicismo e a liturgia encontram-se presentes em ambas as partes de "Sangue del mio Sangue". A segunda parte conta com a presença de elementos como Federico Mai (Pier Giorgio Bellocchio - em dose dupla), um suposto inspector das finanças, que mais tarde descobrimos ser um vigarista que se encontra a procurar ludibriar Rikalkov (Ivan Franek), um comprador russo, tendo em vista a intermediar uma possível venda da prisão de Bobbio. A chegada inesperada de Federico e Rikalkov surpreende Angelo (Bruno Cariello), o indivíduo que se encontra a guardar este imóvel. Quem se encontra a habitar nesta prisão é o Conde Basta (Roberto Herlitzka), um vampiro de idade algo avançada e uma compleição física aparentemente frágil, que tem em Angelo um fiel ajudante. Roberto Herlitzka consegue transmitir a postura melancólica e experiente deste vampiro que parece ter perdido o desejo pelo sangue alheio, com o Conde Basta a encontrar-se a lidar com os efeitos da passagem do tempo. O Conde Basta apenas é avistado durante a noite, tentando evitar entrar em contacto com a Humanidade, sobretudo quando se trata da sua esposa (Patrizia Bettini), uma mulher com quem não contacta há oito anos. O vampiro procura manter uma postura discreta, tendo em vista a não ser descoberto, nem dar a conhecer os seus pares. Numa das suas saídas nocturnas, o Conde visita o Doutor Cavanna (Toni Bertorelli), um dentista e vampiro, que trata da dentição do primeiro, com ambos a apresentarem uma visão algo conservadora do Mundo. Cavanna e Basta têm uma visão muito própria sobre a sociedade que os rodeia, algo exposto com alguma mordacidade. Veja-se a aversão que estes exibem em relação ao acto de emitir facturas, ou as críticas que efectuam aos elementos que expõem o quotidiano na Internet. A menção à exposição excessiva da vida privada surge como uma crítica ou comentário sobre a sociedade actual, onde não faltam homens e mulheres a colocarem praticamente todos os episódios do seu dia-a-dia nas redes sociais, com Marco Bellocchio a procurar abordar as mudanças e as permanências que a cidade de Bobbio conheceu ao longo do tempo, quer a nível do território, quer dos valores dos seus habitantes. Para Basta, a condição de vampiro requer uma certa dose de reclusão, com este indivíduo a estar envolvido numa série de esquemas, enquanto procura afastar Federico, um indivíduo que contacta ainda com a esposa do primeiro (Patrizia Bettini) e um suposto louco (Filippo Timi).

 Patrizia Bettini incute um tom espalhafatoso à esposa do Conde Basta, uma mulher que não contacta com o marido há oito anos, enquanto Filippo Timi exibe a personalidade caótica do personagem que interpreta. Tanto Patrizia Bettini como Filippo Timi protagonizam alguns momentos mais leves, enquanto Roberto Herlitzka incute um tom melancólico a Basta, um vampiro que parece bastante apegado ao território de Bobbio e ao espaço onde habita. Este não parece lidar bem com as mudanças, algo visível no saudosismo que apresenta em relação ao passado. A unir as duas histórias encontra-se não só o espaço prisional, mas também temáticas e elementos como o desejo, a cidade de Bobbio (quase uma personagem), bem como a procura de Marco Bellocchio em criar uma obra cinematográfica pronta a mexer com as sensações e emoções do espectador. Se o personagem interpretado por Pier Giorgio Bellocchio gerou uma estranha obsessão em relação a Benedetta, já o conde parece sentir algo que não sabe explicar de forma paradigmática quando encontra Elena (Elena Bellocchio), a irmã de Federico, o indivíduo que o procura enganar e desmascarar, com estas duas histórias a estarem ligadas por diversas temáticas. No segundo segmento não temos a Igreja a dominar, embora a sociedade de vampiros actue nas sombras, com o Conde Basta a apresentar uma enorme afeição pelo espaço da prisão do convento, um local onde outrora Benedetta vira a sua liberdade ser coartada. A prisão está longe de ser um local acolhedor, embora permita que Basta consiga viver em reclusão, pelo menos até aparecer Federico. Não vão faltar temáticas sobre o vampirismo, fraudes, obsessões e desejo, entre outras ao longo deste segundo "capítulo", com Marco Bellocchio a abrir uma série de possibilidades sem estar propriamente preocupado em criar algo que nos ofereça todas as respostas ou conclusões previsíveis. Se a Inquisição é uma entidade que procura exercer a sua acção no primeiro segmento, já os inspectores das finanças parecem surgir como os elementos mais temidos pelos personagens do segundo segmento, algo notório no pânico que Federico desperta, pelo menos a nível inicial. A fuga aos impostos de elementos como Basta, bem como as falsas pensões de invalidez (algo salientado pelo personagem interpretado por Filippo Timi), a crise financeira em Itália (a procura de um milionário comprar um imóvel público é algo encarado a sério, pelo menos a nível inicial, devido a essa situação económica), aparecem como temáticas modernas, expostas com alguma mordacidade, enquanto a cidade de Bobbio apresenta semelhanças e diferenças entre as duas histórias. Marco Bellocchio faz com que o espectador viaje entre o presente e o passado, entre as memórias do cineasta sobre Bobbio e o imaginário colecctivo, ao mesmo tempo que nos desafia e intriga. Veja-se que temos três personagens chamados de Federico Mai, alguns actores a interpretarem personagens distintos nos dois segmentos (tais como Pier Giorgio Bellocchio e Fausto Russo Alesi), quase como se o cineasta nos estivesse a colocar entre as permanências e as mudanças deste local através do seu elenco e dos seus personagens. O espaço de Bobbio surge como um dos grandes pontos de ligação entre as duas histórias, com Marco Bellocchio a procurar aproveitar o mesmo e as suas tradições, ao mesmo tempo que conjuga o presente e o passado do território, aquilo que permaneceu e mudou no mesmo, sempre num tom que mescla o realismo e a fantasia. O final é pontuado por essa mescla, com Marco Bellocchio a criar um momento emocionalmente intenso e marcante, com "Sangue del mio sangue" a surgir como mais uma entrada de sucesso no currículo deste cineasta.

Título original: "Sangue del mio sangue".
Realizador: Marco Bellocchio.
Argumento: Marco Bellocchio.
Elenco: Pier Giorgio Bellocchio, Lidiya Liberman, Roberto Herlitzka, Alba Rohrwacher, Filippo Timi, Federica Fracassi, Fausto Russo Alesi.

09 abril 2016

Entrevista a Piero Messina sobre "L'attesa" (A Espera)

 "L'attesa" (A Espera) estreia em Portugal a 14 de Abril de 2016 (distribuído pela Alambique Filmes). O filme foi exibido em antestreia no 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, um certame onde Piero Messina esteve presente, tendo em vista a apresentar o "A Espera" e a conceder algumas entrevistas. Para quem ainda não sabe, o "L'attesa" foi o meu filme preferido entre aqueles que foram exibidos (em estreia) na edição de 2016 do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, pelo que a oportunidade de entrevistar o Piero Messina foi encarada com um entusiasmo acima da média, algo que resultou numa entrevista a rondar os cinquenta minutos, quando aquilo que estava previsto é que esta durasse cerca de vinte minutos. Culpa minha que não conseguia parar de colocar questões ao realizador. Mérito do Piero Messina devido a ser um excelente entrevistado e um cineasta apaixonado pela sua arte. A entrevista foi conduzida por mim (Aníbal Santiago), com auxílio da tradutora do Festival, que teve um trabalho meritório a procurar acompanhar tudo aquilo que foi dito pelo Piero Messina. Diga-se que o trabalho dos elementos do Festival foi inexcedível quer na marcação das entrevistas, quer na confiança depositada, quer pelo apoio na tradução. Não poderia ainda deixar de destacar o ENORME trabalho do José Carlos Maltez (do muito recomendável A Janela Encantada), a traduzir e transcrever algumas partes que se perderam na tradução. Fotografia retirada do Facebook da página oficial do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano (de Ben do Rosário).

Rick's Cinema: O "L'attesa" é muitas das vezes marcado por enormes silêncios, mas também por uma utilização exímia do som e da banda sonora, com as canções a surgirem cheias de significado, como o caso de Missing dos The XX. O Piero Messina realizou curtas-metragens, trabalhou como assistente, mas também consta no seu currículo alguns trabalhos como compositor. O quanto procurou trazer de si para a banda sonora? 

Piero Messina: Como compositor, o filme tem tudo de mim. A música foi composta e escrita por mim, com a formação com que toco habitualmente. Quando digo tudo, é algo que vai para além da banda sonora. Quando realizo um filme, a minha relação com a mise-en-scène aproxima-se à de um compositor. As minhas preocupações na realização do filme são iguais às preocupações e à maneira de pensar de um músico, ou de um dirigente de orquestra, não tanto como de um realizador. As minhas preocupações principais estão sobretudo ligadas ao ritmo e à dinâmica, que são mais comuns num músico ou num compositor do que num realizador de filmes. Às vezes acontece-me encontrar a dinâmica de uma cena, ao piano. Tocando piano encontro o ritmo que quero imprimir como realizador. A dinâmica e, sobretudo, o ritmo, são os elementos mais importantes, é a partir de ambos que podemos sentir como um artista, como narrador, sente as emoções do filme que está a realizar.
É como quando vês um músico a tocar, como usa a força que imprime numa tecla do piano, a dinâmica que dá às várias teclas, podes compreender o que ele naquele momento está a sentir. Não é por acaso que na música clássica, quando deves definir as emoções de uma peça, nas partituras basta uma palavra. Essa palavra refere-se ao ritmo, e diz tudo: lento, presto, allegro, largo. São todas palavras que se referem ao ritmo, e que descrevem o sentimento. Um maestro, quando lê aquela palavra, sabe a emoção que a peça deve transmitir.

RC: No caso de "Missing", a música transmite uma certa sensação de melancolia, parecendo adaptar-se quer para Anna quer para Jeanne, com ambas a lidarem, ainda que de forma distinta, com uma ausência. Ambas são oriundas da França, embora Anna se encontre a viver há muitos anos na Sicília. Podemos falar que o território influencia a forma como Anna encara o luto e a perda?

PM: Para mim, o território não é apenas uma paisagem, é sempre uma extensão do sentimento da personagem. Eu insiro o personagem no interior de uma paisagem, ou território, que reflicta essa sensação ou sentimento. É um pouco como os pintores românticos faziam nas suas obras, por exemplo Friedrich [Caspar David Friedrich], ou seja, as paisagens não são colocadas como um enquadramento ou um background, mas sim como a visualização das emoções que não podes ver por estarem dentro daquela pessoa. Isso é também o que me guia na escolha de um lugar em vez de outro, ou seja, é o quanto aquele lugar faz reverberar o que a actriz ou o actor está a fazer naquele momento. Usei a Sicília, a qual já mudou muito, mas a Sicília de que falo é muito similar à melancolia que salientas. A canção Missing é melancólica, mas também a paisagem. Por isso procurei combinar todos estes elementos, tanto a música, como os sons, e a paisagem, tendo em vista a transmitir esse sentimento, que resulta na melancolia de que falas.




RC: A ideia que fiquei, pela forma como representa este espaço, é que existe algo de muito pessoal. O Piero Messina nasceu na Sicília. Procurou incutir no enredo algumas das suas memórias sobre a sua vivência neste território? 

PM: O meu imaginário é fundado na Sicília. Os anos mais importantes para uma pessoa que trabalha com a imaginação são os da infância. E eu passei a minha infância na Sicília, naquela atmosfera. E é algo que ficou gravado na minha imaginação. Os materiais que utilizo para as imagens dos meus filmes são sempre relativos àqueles lugares, àquela atmosfera e ritmos. A Sicília é como se fosse a matéria-prima do meu trabalho. Não a Sicília como região, mas a Sicília como imaginário. Coloquei todas as minhas referências no filme. "L'attesa" conta a história da minha mãe. Eu escrevi a Anna a pensar na minha mãe. A história da Anna é sobre a minha mãe. A história da Anna com o esposo é a história da minha mãe com o meu pai. E até a piada que a Anna faz sobre a sogra divorciada é a história da minha avó. Escrevi o filme a pensar naquilo que a minha mãe faria se eu morresse. Nunca me afastei muito, nem penso que isso se faça. Nós sempre colocamos algo da nossa experiência pessoal no trabalho que fazemos.


RC: A religião parece fazer parte do território, ou, pelo menos do enredo, com o início do filme a contar com um funeral e a exposição de uma imagem de Jesus Cristo, enquanto o último terço conta com uma procissão num momento bastante relevante. O facto da narrativa desenrolar-se nas vésperas da Páscoa é algo casual ou está ligado ao próprio simbolismo desta época? A Anna espera por um milagre?

PM: O filme nasceu nesta procissão, nestas imagens, ou seja, está muito ligado à minha infância. Lembro-me de ver estas pessoas adultas, que choravam em frente a um pedaço de madeira e eu não percebia, ou seja, o filme nasceu com esta minha imagem dessas pessoas que choravam numa procissão diante de uma figura de madeira. É esta imagem que funda o filme. Para mim há uma separação entre religião e liturgia. O que me fascina nesta temática não é a religião propriamente dita. Eu não sou uma pessoa religiosa. É a linguagem religiosa, a qual tem um carisma que faz com que aquilo que conta, e o que se insere dentro dessa mensagem, assuma um significado maior. Como, por exemplo, ao ler-se a Bíblia, cada palavra significa muito mais do que a própria palavra. É essa a grandeza das representações sacras, conseguir dar muito mais significado ao seu conteúdo. É isto que, como realizador me fascina, e não o seu significado. Esse é muito relativo. Interessa-me estudar o modo como a literatura ou as representações conseguem multiplicar os significados.
Desde o início, a Anna não sabe aquilo que está a fazer. Não sei se ela está à espera de um milagre ou não. Ela está a fazer algo que pensa ser justo, mas sem saber exactamente aquilo que está a fazer. É como se ela se agarrasse ao pouco que ficou do filho na tentativa de esticar ao máximo este tempo e estas pequenas coisas que ficaram para evitar a perda completa. Não é algo pensado. Não é algo calculado. O filme é construído levando isto ao extremo. Como uma bola de neve, começa muito lentamente e depois vai aumentando, tornando-se cada vez mais absurdo, até se tornar próximo de um milagre. Um milagre laico, mas um milagre ainda assim.




RC: No início, Anna não começa logo a falar com Jeanne, mas a certa altura parece querer aproximar-se da jovem. Num momento chega mesmo a espreitar Jeanne a partir de uma fresta, parecendo querer descobrir aquilo que conduziu o filho a sentir-se atraído por esta jovem. Podemos falar que a Jeanne surge também como um meio para a Anna descobrir algo mais sobre o filho e enfrentar o luto, ou a presença da jovem dificulta ainda mais este processo?

PM: Estou muito contente com o facto de teres acolhido esta cena, que é bastante difícil, em que uma mãe espia uma jovem despida, é exactamente essa a sensação que eu queria transmitir. A Jeanne funciona como uma transição: tanto um modo de Anna descobrir coisas novas do filho, mas também uma maneira desta conseguir que ele continue vivo. Este é um confronto entre duas maneiras de amar diferentes, uma como mãe e outra como amante. Ambas têm uma maneira de conhecer e de amar diferente, que entram por vezes em confronto, mas também que ajudam a conhecer o Giuseppe de uma maneira diversificada. Interessava-me explicar estas duas vertentes do amor.


RC: O telemóvel de Giuseppe encontra-se na posse de Anna, com esta a ouvir as mensagens de voz deixadas por Jeanne. Quando se decidiu por utilizar este recurso, que permite dar a conhecer um pouco mais sobre Jeanne?

PM: Este objecto foi um problema para o filme. Tinha escrito outras versões do argumento, nas quais o enredo se desenrolava durante o Século XIX. Esta história seria possível no Século XIX, no sentido em que nessa época uma pessoa poderia demorar três a quatro dias para receber a notícia da morte de alguém. Hoje em dia, basta uma pessoa receber um telefonema e sabe-se logo aquilo que se passa. Por isso escrevi uma versão passada no século XIX, apenas para resolver esse problema. Mas não me interessava fazer um filme passado no século XIX. Um dia falei com um colega e ele disse-me algo importantíssimo: "quando tens um problema, coloca-o em cena". Quando temos um problema no argumento, temos duas opções, ou evitá-lo, ou torná-lo relevante. Foi isso que eu fiz com o telemóvel.
 A pergunta era: como é que eu posso mostrar o telemóvel? Encontrei esta maneira: a Jeanne tenta telefonar ao namorado, mas este não atende e ela deixa mensagens. Procurei transformar estas mensagens em vozes off, tendo em vista a mostrar o estado de espírito desta rapariga. O telemóvel tornou-se num elemento fundamental e estrutural do filme, porque graças a ele podemos ouvir as vozes dos personagens, e podemos saber o que aconteceu antes.


RC: Inicialmente percebemos que Jeanne não sabe a verdade sobre Giuseppe mas, com o desenrolar do enredo, fica a ideia que esta procura evitar juntar a informação que lhe chega. Esta incerteza em relação àquilo que Jeanne começa a saber é algo propositado ou parte simplesmente da minha interpretação? 

PM: Foi propositado. E mais uma vez fico contente que tenhas compreendido, pois uma das maiores críticas que fizeram ao filme, foi que aquilo que tu perguntaste e disseste, não é evidente. O que para mim é completamente evidente, que a Jeanne não procura chegar a essa conclusão, a essa verdade. Mas é uma coisa normal. Todo o fazemos. O que eu disse à Lou de Laâge foi exactamente isso: "ok, tu estás aqui nesta casa, com esta senhora, que te conta coisas que são verosímeis, ou seja que tu podes acreditar, mas suspeitas de que há uma porta entreaberta e atrás dessa porta existe algo horrível. Podes ficar aqui e acreditar nesta verdade, ou podes abrir a porta." Mas ela, tal como acho que todos nós faríamos, não procura enfrentar essa porta, tentando manter um equilíbrio entre a credibilidade do que diz Anna e aquilo que começa a suspeitar que existe atrás dessa porta. Para mim isto é muito evidente, mas as pessoas atacaram o filme porque acharam que a Jeanne era apenas uma rapariga ingénua que não percebia nada. Mas para mim ela é activa na sua crença, e com Anna tornam-se duas mulheres que querem crer em algo que pode ser inverosímil, mas é melhor que a verdade.




RC: Parece praticamente impossível imaginar Anna sem a presença de Juliette Binoche, com esta a conseguir transmitir imenso apenas com os seus gestos e olhares. A certa altura, quase que nos esquecemos que é uma actriz que se encontra a representar, com a Juliette Binoche a transformar-se em Anna. Como foi construir esta personagem com Juliette Binoche? Existiram mudanças no argumento, ou não?

PM: Não existiram alterações a nível do argumento. Comigo isso é algo que não acontece. No entanto, algumas coisas nasceram no próprio set de filmagens. Por exemplo, a cena da Anna a abraçar o colchão de ar nasceu quando vi, noutra cena, que a Juliette abraçava instintivamente as roupas do Giuseppe. Eu não queria isso, mas aquele gesto de abraçar algo que fosse do filho permaneceu na minha memória. A certa altura, um assistente estava a tirar o ar do colchão que, por acaso, ele utilizava para dormir no set. Foi então que chamei a Juliette Binoche para tentar esta cena do abraço, com o colchão de ar e disse-lhe: "imagina que o último respiro do teu filho está neste colchão". Esta cena durou cerca de seis minutos. Eu não conseguia dar o stop, porque fiquei muito emocionado. 
 A Juliette Binoche trouxe todo o seu talento e toda a sua capacidade de sentir, de trazer as sensações verdadeiras através de gestos e olhares. Eu escolhi a Juliette Binoche porque sabia que ela podia trazer as coisas que me interessavam. É uma das melhores do mundo com esta sua capacidade de contar sensações secretas, com um olhar. O nosso modo de trabalho foi com muitas repetições, como nunca fiz, algo que nos levou muitas das vezes ao cansaço. Este cansaço ajudou-nos a trazer também o cansaço que é da personagem. Com a Lou foi o contrário, fazíamos pouquíssimos takes.


RC: Aproveitando a o simbolismo do colchão e do ar. A Jeanne utiliza o vestido vermelho porque é o favorito do namorado. O quarto deste continua com o mesmo poster, os discos de música são mantidos nos mesmos locais. Vocês procurou colocar propositadamente elementos simbólicos que transmitissem essa sensação de ausência mas também de continuidade nos personagens, quase como se o Giuseppe ainda se mantivesse no local? 

PM: Eu dei uma atenção muito importante à escolha dos objectos, mas não por uma questão de simbolismo. Aquilo que procurei foi dar a conhecer um personagem que não está presente e dar a entender aquilo que fica de quem já não está, de quem já morreu. O Giuseppe é mostrado através dos objectos. O meu interesse era contar algo sobre um personagem sem o mostrar. O facto de que escutava música, como eram dispostos os objectos do seu quarto, as roupas de que gostava. Os objectos que lhe interessavam ajudam a contar quem ele era. Por isso a escolha dos objectos é uma escolha narrativa, não simbólica, eles caracterizam o que ele amava. Em relação ao quarto é uma história muito simples. Eu disse ao cenógrafo para ir ao meu quarto, em casa da minha mãe na Sicília, pegar em todos os meus objectos e colocá-los no quarto de Giuseppe, ou seja esses objectos são os meus objectos de adolescência


RC: O "L'attesa" teve a sua estreia no Festival de Veneza, foi exibido no Festival de Toronto, em Londres, agora está em exibição no 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. As suas curtas-metragens também foram exibidas em diversos festivais. Podemos dizer que os festivais de cinema têm sido fundamentais para o público contactar com as suas obras?

PM: Até agora foi assim. Os festivais são fundamentais para um certo tipo de filmes. Um filme como “L’attesa”, sem Veneza e Toronto não teria o mesmo impacto. Ir a um festival como Veneza ou Toronto permite-me conseguir distribuição e vendas para um número mais elevado de países. Os festivais não só dão a possibilidade de encontrar um público que combina com o tipo de filme que faça, mas também a possibilidade de fazer os filmes que eu quero e o cinema que me interessa. No futuro, espero continuar a fazer filmes que vão a festivais importantes, mas que dependam cada vez menos dos festivais.

RC: Já conta com mais projectos?

PM. Estou a escrever o argumento para um filme, embora me tenha sido proposto realizar uma obra cinematográfica. Daqui a um mês vou decidir se realizo o filme que estou a escrever, ou aquele que me foi proposto.

RC: Em Itália ou fora?

PM: (risos) Ambos são fora de Itália.

RC: Muito obrigado ao Piero Messina por conceder esta entrevista. 

Quatro críticas mais lidas - Março de 2016

1º - Resenha Crítica: "Batman v Superman: Dawn of Justice"














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Resenha Crítica: "Non essere cattivo" (2015)

 Vittorio (Alessandro Borghi) e Cesare (Luca Marinelli) são amigos de infância, na casa dos vinte anos de idade, que praticam crimes como tráfico de droga e burlas, com as suas vidas a estarem muitas das vezes em risco, enquanto estes procuram encontrar um meio de se afirmarem. Cesare e Vittorio são os protagonistas de "Non essere cattivo", a última longa metragem realizada por Claudio Caligari, com o cineasta a atirar o espectador para o interior de Ostia, em 1995, enquanto nos apresenta a um grupo de personagens que vive "nas margens", com este espaço da periferia a parecer um viveiro de deslocados da sociedade, com tudo e todos a procurarem a sua afirmação, embora nem sempre escolham o caminho mais correcto. Claudio Caligari interessa-se por estes personagens que se procuram afirmar num meio algo hostil, onde as oportunidades não parecem abundar e os negócios ilícitos são encarados de forma quase banal. Veja-se quando encontramos Vittorio e Cesare a procurarem traficar droga, mas também a consumirem substâncias estupefacientes em quantidades assinaláveis, com Alessandro Borghi e Luca Marinelli a contarem com interpretações de grande nível. No início de "Non essere cattivo", encontramos Vittorio e Cesare em êxtase, após consumirem drogas, com estes a parecerem caminhar para um abismo, ou o quotidiano de ambos não fosse marcado por rotinas completamente destrutivas. Ambos praticam um estilo de vida marcado por excessos, crimes, consumo e tráfico de droga, com a noite a ser muitas das vezes uma companheira e cúmplice de Cesare e Vittorio. Cesare é uma bomba-relógio, surgindo como um elemento pouco ponderado e dado a alguns excessos. Vittorio é amigo de longa data de Cesare, algo notório nos momentos iniciais de "Non essere cattivo", embora, a certa altura, decida seguir um caminho distinto do segundo. O consumo de drogas marca e marcou o quotidiano de Vittorio e Cesare, embora o primeiro comece a reagir mal a esta situação, algo notório quando alucina e perde o controlo. Este episódio parece ter contribuído para Vittorio tentar mudar de estilo de vida, sobretudo a partir do momento em que inicia uma relação amorosa com Linda (Roberta Mattei), com esta a contribuir para despertar um lado mais apolíneo do personagem interpretado por Alessandro Borghi. Se Vittorio começa a exibir objectivos de vida distintos, já Cesare parece ter alguma dificuldade em começar a abrandar. Com o cabelo comprido, roupa simples, uma expressividade e intensidade notórias, Luca Marinelli incute um estilo intempestivo a Cesare, um indivíduo que a espaços apresenta enormes demonstrações de humanidade, embora pareça destinado a errar e a ser incapaz de sair do estilo de vida errático que definiu para a sua existência. O actor é capaz de nos conseguir compelir a querer seguir este personagem, a esperar que este mude, tal como acontece com algumas figuras que o rodeiam, tais como Vittorio e Viviana (Silvia D'Amico), a ex-namorada do amigo, uma mulher visualmente vistosa que iniciou uma relação com Cesare.

Cesare ainda pensa em casar e ter filhos com Viviana, o problema é que escolhe muitas das vezes o caminho errado, ou simplesmente não parece ponderar as consequências dos seus actos, enquanto o destino tem o condão de lhe pregar umas quantas partidas, algo que contribui para adensar o estilo auto-destrutivo e rebelde do personagem interpretado por Luca Marinelli. Veja-se que Cesare perdeu a irmã devido a esta última ter contraído SIDA, com o protagonista a apresentar uma enorme afinidade e cuidado para com Debora (Alice Clementi), a sua sobrinha, uma jovem que se encontra gravemente doente. Diga-se que a SIDA, a toxicodependência, as relações "tóxicas", o tráfico de droga, a procura de afirmação, os clubes nocturnos e os bares como espaço de encontro entre os jovens, surgem como elementos e temáticas abordadas ao longo do filme, com Claudio Caligari a efectuar um retrato bem vivo do quotidiano dos personagens principais de "Non essere cattivo". Cesare é algo conservador no que diz respeito à família, com este a procurar cuidar da mãe, bem como de Debora, protagonizando alguns momentos mais ternos com esta última, que exibem a capacidade de Luca Marinelli em interpretar uma figura que tanto tem de violenta como apresenta uma humanidade desarmante. Já a relação entre os personagens interpretados por Luca Marinelli e Alessandro Borghi é marcada por alguns momentos mais intensos, inclusive quando ambos parecem querer tomar rumos distintos para as suas vidas, algo que chega a conduzir a um ou outro desaguisado mais inquietante. Vittorio procura começar a trabalhar nas obras e levar uma vida estável ao lado de Linda, tentando arrastar Cesare consigo, embora este último não pareça capaz de se desfazer da ideia de ganhar dinheiro fácil. Diga-se que, no final, Claudio Caligari traça um retrato simultaneamente pessimista e optimista, com um nascimento inesperado a acontecer, enquanto Vittorio percebe que as dificuldades financeiras inerentes ao parco salário do trabalho nas obras se encontram a minar o quotidiano com Linda e o filho (Andrea Orano) desta. Vittorio e Cesare procuram afirmar-se no interior de sociedade que os rodeia, com o mundo do crime a parecer o caminho mais fácil e prático para enriquecer, ou pelo menos para sobreviver, com o segundo a sentir-se bastante atraído por este estilo de vida. Diga-se que Vittorio ainda apresenta alguns recuos, algo notório quando tenta abrir um espaço dedicado ao jogo ilegal e tem uma recaída no consumo de drogas, embora a presença de Linda pareça fundamental para este endireitar a sua vida. Cesare ainda esboça uma tentativa de estabelecer uma família com Viviana, mas é demasiado intempestivo e ambicioso para conseguir levar um estilo de vida completamente calmo, parecendo sentir-se atraído pelos perigos. Viviana e Cesare ainda vão viver juntos, com a decoração da habitação a parecer reflectir a personalidade intempestiva do segundo. Veja-se que não faltam objectos vermelhos, com esta tonalidade a remeter exactamente para sentimentos mais quentes ou confusos, com a casa de Cesare e Viviana a remeter ainda para todo um cuidado colocado na decoração dos cenários interiores ao serviço do enredo.

A dupla de protagonistas comete muitos erros ao longo do enredo de "Non essere cattivo", enquanto o território de Ostia parece fundamental para propiciar alguns comportamentos apresentados por Cesare e Vittorio, com Claudio Caligari a procurar capturar o espírito e a alma deste local durante o período de tempo representado, uma situação que vai desde a maneira dos personagens falarem e vestirem, passando pelas suas inquietações, até aos espaços por onde estes circulam, incluindo clubes nocturnos, ruas e praias. O espaço da praia permite expor o quão abrasivo pode ser este território, com Cesare a picar-se acidentalmente numa agulha de uma seringa que se encontrava no local. Ainda espera pelos toxicodependentes que se costumam injectar no local, tendo em vista a vingar-se, ainda que a espera não resulte em nada, embora permita expor quer o carácter abrasivo deste espaço, quer a personalidade impulsiva de Cesare, que não tem problemas em partir para a violência. Veja-se quando procura roubar os clientes de Vittorio na sala de jogo ilegal criada pelo amigo, algo que conduz a um confronto entre os dois, embora o personagem interpretado por Alessandro Borghi, tal como Viviana, pareça guardar a esperança de que Cesare ainda vai mudar. Diga-se que o momento na sala de jogo é um dos trechos mais inspirados de "Non essere cattivo", com Claudio Caligari a colocar dois "irmãos" em confronto, enquanto deixa as luzes azuis e vermelhas do local adensarem o tom inquietante desta cena. Se Alessandro Borghi e Luca Marinelli são os destaques óbvios do elenco, com estes a contarem com interpretações intensas e carismáticas, capazes de nos convencerem dos defeitos, virtudes e enorme união dos personagens que interpretam, também Roberta Mattei e Silvia D'Amico merecem algum destaque. Roberta Mattei dá vida a uma figura feminina que entra em contacto com Vittorio de forma peculiar, com este a procurar esconder a arma de Cesare da polícia, após a dupla de protagonistas ameaçar um grupo de traficantes rival, algo que proporciona o estranho início de uma relação que promete mudar o personagem interpretado por Alessandro Borghi. Linda é uma das várias personagens de classe trabalhadora deste local, que vive sem grandes luxos ou comodidades, com a habitação desta mulher a ser bastante simples. A personagem interpretada por Roberta Mattei trabalha como empregada de limpezas, tendo em Tommasino, o seu filho, a melhor companhia. Vittorio começa a procurar mudar a partir do momento em que conhece Linda. A mudança não é extemporânea, com Claudio Caligari a saber gerir o ritmo do enredo e as interpretações dos seus actores, conseguindo que este arco de Vittorio seja convincente. Vittorio ainda procura arrastar Cesare, mas este parece demasiado impulsivo e ambicioso para evitar sair do mundo do crime, embora a relação com a personagem interpretada por Silvia D'Amico pareça trazer alguma esperança para o segundo. Claudio Caligari expõe o quotidiano destes personagens sem contemplações, com alguma crueza à mistura, ou Vittorio e Cesare não fossem inicialmente dois viciados em drogas e traficantes, que praticam uma série de excessos.

"Non essere cattivo" é o último volume de uma trilogia de Claudio Caligari, que foi iniciada em "Amore tossico" (1983), contando ainda com "L'odore della notte" (1998), com o cineasta a ter aqui uma última obra cinematográfica de grande nível. Caligari explora as temáticas sem contemplações, conseguindo que sejamos praticamente presos a todo este enredo onde a noite é muitas das vezes companheira e testemunha. Imensa droga é consumida e traficada (sempre com enorme realismo, parecendo que estamos no meio destes personagens), alguns actos violentos são cometidos, enquanto somos colocados diante de personagens que escolheram modos de vida distintos, algo latente na dupla de protagonistas. A dinâmica entre Alessandro Borghi e Luca Marinelli é essencial para boa parte de "Non essere cattivo" funcionar, com estes a convencerem o espectador da amizade de longa data entre Vittorio e Cesare, uma dupla que se conhece desde a infância e apresenta uma enorme união e lealdade. Diga-se que os valores de lealdade muito próprios, o respeito pela família, entre outros, remete para algo de "muito italiano", com o território a parecer essencial para os comportamentos de alguns personagens. É um espaço onde as oportunidades não abundam, os crimes ocorrem com regularidade, as relações são marcadas por alguma intensidade, algo que acontece com Vittorio e Cesare. A própria banda sonora procura muitas das vezes servir como uma extensão dos momentos protagonizados pelos personagens, algo latente quando encontramos Cesare e Viviana no carro, a beberem, com a música, os gestos dos personagens e os seus diálogos a exibirem paradigmaticamente o estilo de vida da maioria destas figuras. O consumo e o tráfico de droga marcam boa parte da narrativa, com Claudio Caligari a colocar-nos diante de uma miríade de substâncias e todo o meio "venenoso" que envolve as mesmas quer a nível do consumo, quer do tráfico, algo latente no quotidiano de Vittorio e Cesare no início do filme. Com uma dinâmica assinalável entre Alessandro Borghi e Luca Marinelli, dois actores de talento praticamente inegável, uma representação crua, intensa e realista dos episódios que pontuam o enredo, "Non essere cattivo" mostra mais uma vez a relevância de festivais como o 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, ou este certame não trouxesse até nós esta recomendável obra cinematográfica de Claudio Caligari.

Título original: "Non essere cattivo".
Título em inglês: "Don't Be Bad".
Realizador: Claudio Caligari.
Argumento: Claudio Caligari, Francesca Serafini, Giordano Meacci.
Elenco: Luca Marinelli, Alessandro Borghi, Silvia D'Amico, Roberta Mattei.

07 abril 2016

Resenha Crítica: "Alaska" (2015)

 O poder do cinema é algo de fascinante. Por vezes esperamos muito de um filme e este revela-se uma desilusão. Por vezes não contamos com grandes expectativas em relação a uma obra cinematográfica e sai uma agradável surpresa. "Alaska", a nova longa-metragem realizada por Claudio Cupellini, insere-se no lote das surpresas muito agradáveis. O nome Alasca provém da palavra Alakshak, que significa "grande terra" ou "grande península". No caso de "Alaska", Claudio Cupellini deixa-nos diante de um filme de grandes emoções e sensações, ou se preferirem, perante uma dupla de protagonistas que nos arrasta consigo para o interior de uma relação intensa, que parece tardar em encontrar o equilíbrio necessário. Se a região do Alasca é famosa pelo estereótipo do clima frio durante o ano inteiro, já "Alaska" não nos provoca indiferença ou frieza, bem pelo contrário. É um filme que nos aquece a alma, que faz com que nos aproximemos dos seus personagens e nos embrenhemos no interior da sua relação intrincada, com o argumento a apresentar alguns momentos de classe, enquanto Elio Germano e Astrid Bergès-Frisbey nos surpreendem com interpretações de relevo e uma química indelével. Germano e Bergès-Frisbey interpretam personagens de personalidades distintas, unidas pela solidão e pela procura de afirmação, mas também por sentimentos mais fortes, seja este um amor louco ou um desejo fervoroso que é incapaz de ser totalmente apagado pelas adversidades. A balança do destino parece andar quase sempre desequilibrada no que diz respeito à relação entre Fausto (Elio Germano) e Nadine (Astrid Bergès-Frisbey), com Claudio Cupellini a não ter problemas em testar estes dois personagens e colocá-los diante de situações mais negras. No início do filme, é Fausto quem se encontra numa posição mais confortável e confiante. Por sua vez, Nadine está numa posição pouco favorável. Nadine participa num processo de casting, em Paris, para ser modelo, a pedido de Nicolas (Antoine Oppenheim), um indivíduo que considera que a protagonista tem hipóteses de enveredar nesta profissão. Fausto é um italiano que vive em Paris, que trabalha num hotel cheio de regras de etiqueta, onde os clientes pouco ou nada se parecem preocupar com os funcionários. Nadine e Fausto encontram-se no terraço, com ambos a procurarem descontrair. Fausto procura descomprimir do stress diário, inerente ao facto de ter que apresentar uma enorme amabilidade e cuidado para com os clientes, mesmo quando estes apresentam comportamentos incorrectos. Nadine pelo facto do casting não ter começado da melhor maneira. Ela é frágil, quase como se fosse uma boneca que acabou de sair da embalagem e se depara com a crueza do mundo real, embora esta descrição não signifique que Nadine não conta com uma enorme vivacidade e determinação, bem pelo contrário. Ele é galanteador, bastante ambicioso e um pouco mais experiente do que Nadine. Esta encontra-se coberta com um casaco, a tapar parte do bikini, apresentando uma fragilidade latente quando se depara com Fausto no terraço do hotel. Fausto procura meter conversa com esta jovem, animá-la e conquistá-la, enquanto Nadine não tem problemas em brincar com a farda de "pinguim" do primeiro, embora pareça agradada com a conversa, após rejeitar uma aproximação inicial do protagonista. 

 A conversa no terraço, pontuada pela afabilidade, conduz Fausto a decidir mostrar um dos quartos mais caros do hotel a Nadine, daqueles que custam quinze mil euros a noite, com este espaço a ter sido alugado por um indivíduo que supostamente não deveria estar naquele local, àquela hora, ou pelo menos, é isso que o personagem interpretado por Elio Germano pensava. Ledo engano. O cliente chega, chama a gerência do hotel e Fausto perde a cabeça, acabando por agredir violentamente o primeiro. Os momentos mais cândidos e belos, quase infantis, entre Fausto e Nadine, neste espaço de luxo que inclui uma piscina, acabam por ser contrastados com a tensão e inquietação inerente à fuga, com o primeiro a procurar que a jovem fuja sem ser vista pela polícia. Claudio Cupellini desarma-nos por completo. Coloca-nos diante de dois estranhos, conseguindo que gostemos facilmente dos mesmos e geremos uma certa empatia em relação aos protagonistas, até desfazer a oportunidade destes se conhecerem melhor, pelo menos nos tempos mais próximos, ou Fausto não fosse preso, pelo período de dois anos. Por sua vez, Nadine é aceite e consegue o emprego como modelo. A balança entre estes personagens desequilibra-se por completo, com Fausto a encontrar-se agora na posição mais frágil. Ela ainda tenta visitá-lo uma vez, parecendo surgir como a única esperança de Fausto. Os dois anos na prisão parecem ter sido duros para Fausto, algo que este salienta quando reencontra Nadine e apresenta alguma rudeza nos seus gestos. As cartas que escreveu para Nadine, na prisão, surgiram como um meio para evitar perder o controlo ou o contacto com a humanidade e sanidade, com o espaço prisional a parecer mexer com Fausto de forma indelével. O espaço prisional pode contar com paredes verdes, mas este cor está longe de representar a esperança para a maioria dos presidiários, embora esta tonalidade quase que simbolize a confiança que Fausto deposita em Nadine, mesmo que esta não o visite, até ao dia da soltura. O reencontro demorou praticamente dois anos. Ambos mudaram e sabem disso, tal como o espectador. Ela já sabe falar italiano, fruto de trabalhar como modelo em Milão, tirou a carta de condução e comprou um carro, enquanto ele pura e simplesmente não parece ter ideia do que fazer da vida, com os sonhos que tinha a desfazerem-se a partir do momento em que foi preso. Na prisão, este encontra uma solidão atroz, tendo em Benoit (Roschdy Zem) uma das poucas companhias, com este último a desenvolver uma relação de respeito em relação a Fausto. Diga-se que Fausto é uma figura solitária, pelo menos no início do filme, algo latente quando é preso e não tem uma única visita, uma situação que adensa as dificuldades de viver neste espaço. A saída da prisão é marcada pela estranheza, mas também por uma condução magistral dos actores. Elio Germano transmite a ideia de que Fausto parece querer recuperar o tempo perdido, aquele que não teve ao lado de Nadine e finalmente poder estar ao lado desta figura que idealizou e venerou, enquanto esteve preso. Astrid Bergès-Frisbey exibe as dúvidas desta mulher, com os seus silêncios, num bar, bem como os seus gestos algo inseguros, a demonstrarem que Nadine não sabe bem aquilo que ainda sente em relação a Fausto. Diga-se que Astrid Bergès-Frisbey consegue muitas das vezes convencer-nos com gestos aparentemente simples. Veja-se quando Nadine se encontra no casting, com os gestos das suas mãos a indicarem alguma insegurança, com Astrid Bergès-Frisbey a incutir sobriedade e candura a esta figura feminina que procura encontrar o seu lugar no Mundo

 Fausto fica a viver na casa de Nadine, em Itália, embora a relação entre ambos nem sempre seja marcada por uma enorme felicidade, com o casal a raramente conseguir encontrar o equilíbrio necessário para conseguir viver de forma estável. Traições, mentiras, reviravoltas, surpresas do destino, ambição desmedida, obsessões e actos nem sempre pensados acabam por afectar a vida de Nadine e Fausto, com estes dois elementos a estarem quase sempre no centro de todo o enredo de "Alaska". Elio Germano incute uma intensidade latente a Fausto, conseguindo exprimir os sentimentos deste personagem de forma bem viva e convincente, ou não estivéssemos diante de uma figura que tanto parte facilmente para a violência, ou comete actos menos ponderados, como apresenta uma ternura latente em relação a Nadine. Astrid Bergès-Frisbey aparece mais frágil como Nadine, mas nem por isso menos complexa, com a actriz a convencer e surpreender, com a dupla de protagonistas a compelir o espectador a sentir-se quase um intruso no interior desta relação, que a espaços nos parece dizer imenso. Os sentimentos entre Fausto e Nadine são completamente universais, bem como as suas ansiedades, frustrações, obsessões e desilusões, algo que contribui para a afinidade entre os espectadores e os personagens. A banda sonora é muitas das vezes essencial para adensar os sentimentos que nos são transmitidos e os episódios vividos por estes personagens. Veja-se quando os protagonistas estão em fuga, no elevador, com a música a apresentar ritmos mais tensos e inquietantes, ou quando Fausto escreve a Nadine e é transmitida toda uma sensação de melancolia e esperança, ou os trechos no Alaska, um clube nocturno que promete surgir como um espaço essencial do enredo. A certa altura, Fausto conhece Sandro (Valerio Binasco), um indivíduo com uma personalidade peculiar e extrovertida, que necessita de dinheiro para abrir o Alaska, um clube nocturno que parece uma excelente oportunidade de negócio. Fausto utiliza as poupanças de Nadine, após estar farto de não conseguir um emprego que o motivasse, algo que irrita esta mulher. É a ambição de Fausto a falar mais alto, com este indivíduo a procurar afirmar-se a todo o custo, enquanto é colocado diante de uma tentação difícil de resistir. A discussão entre Nadine e Fausto ocorre, em parte, no carro da primeira, com um acidente a acontecer e a trazer uma nova reviravolta na vida do casal. Nadine fica ferida, necessitando de fazer um tratamento demorado para voltar a andar sem o auxílio de muletas, algo que altera novamente o equilíbrio entre a primeira e Fausto. A personagem interpretada por Astrid Bergès-Frisbey perde o trabalho como modelo. Fausto prospera. A relação entre Nadine e Fausto degrada-se, com o casal a ser colocados diante de diversas tentações e inquietações, com Claudio Cupellini a deixar-nos a certa altura na dúvida em relação àquilo que irá acontecer a ambos. Fausto e Nadine magoam-se, amam-se, discutem, apresentam comportamentos nem sempre correctos, com o Alaska a surgir como um espaço que representa paradigmaticamente a ambição do protagonista e o seu desejo de ascensão social. Não iremos revelar o desfecho do filme. No entanto, é quase impossível não torcer por estas duas figuras que facilmente despertam a nossa atenção e captam todo o nosso interesse, com "Alaska" a surgir como um romance de pendor dramático que consegue mexer com os sentimentos do espectador. 

 O argumento de Claudio Cupellini, Filippo Gravino, Guido Iuculano apresenta uma assertividade assinalável a explorar esta relação intensa e problemática, enquanto o cineasta consegue criar toda uma dinâmica envolvente que nos prende à história de Fausto e Nadine, algo elevado pela dupla de protagonistas. O filme conta ainda com alguns elementos secundários que sobressaem, tais como Antoine Oppenheim, Elena Radonicich, Paolo Pierobon e Valerio Binasco. Paolo Pierobon como Marco, o chefe de Nadine, a partir do momento em que esta decide trabalhar num bar, com o primeiro a surgir como uma figura algo violenta, que promete provocar estragos; Elena Radonicich como Francesca, uma mulher de largas posses financeiras, que chega a ficar noiva de Fausto; Valerio Binasco como Sandro, um indivíduo de personalidade completamente destrutiva, que não parece conseguir manter um negócio ou levar um estilo de vida estável; Antoine Oppenheim como Nicolas, um elemento que se chega a envolver com Nadine. Todos estes elementos contam com espaço para sobressair em determinados momentos do enredo, enquanto Claudio Cupellini nos deixa diante dos avanços e recuos de Nadine e Fausto, dois jovens que se amam, mas tardam em conseguir encontrar um equilíbrio. Quando é preso, Fausto pergunta a Nadine se esta vai visitá-lo à prisão de La Santé, com a protagonista a responder que não sabe. Numa fase mais avançada do enredo, quando Fausto se encontra noivo de Francesca e se reencontra num momento mais emotivo com Nadine, é este quem diz que não sabe se é o último encontro entre os dois. No final, Cupellini quase que nos deixa diante de um movimento circular, bem como com a certeza de que Nadine e Fausto vão encontrar sempre grandes dificuldades para manterem uma relação estável, embora tenham uma ligação demasiado forte para se conseguirem afastar por completo um do outro. É certo que no final, pelo menos um dos personagens parece ter encontrado o seu equilíbrio e percebido aquilo que mais importa na sua vida, mas essa percepção custou imenso a chegar. Aqueles momentos iniciais, onde Nadine e Fausto estão no terraço, em Paris, não pareciam indicar que este casal viria a conhecer tantos episódios marcantes em Itália. Nadine marca a vida de Fausto e vice-versa. Ambos marcam o espectador. São figuras solitárias, que cometem muitos erros, encontram sucessos e insucessos profissionais, procuram encontrar alguma estabilidade emocional e conciliar as suas ambições com a vida amorosa, enquanto Claudio Cupellini procura explorar esta relação ao máximo. Não quer dizer que Nadine e Fausto estejam sempre juntos, bem pelo contrário, mas é impossível conter o desejo de ver esta dupla a ser feliz. Pelo meio, "Alaska" aborda temáticas como as dificuldades em conseguir emprego, a vida na prisão, as ansiedades, sonhos, ambições e desilusões dos jovens, entre outras. O título do filme remete quer para o clube nocturno de Fausto, quer para uma região considerada algo hostil, um pouco a fazer recordar a relação por vezes abrasiva entre os protagonistas e os territórios que os rodeiam. No caso de Fausto, as suas ambições minam muitas das vezes o seu bom senso, tal como a sua personalidade impulsiva, agressiva e obsessiva, embora seja um personagem complexo, que facilmente consegue compelir o espectador a torcer para que este seja feliz. A influência dos filmes de François Truffaut, tais como "La Femme d'à cotê" e "La sirène du Mississipi", parece notória em "Alaska", com Claudio Cupellini a colocar-nos diante de uma relação amorosa marcada por alguns excessos, obsessões, traições, episódios conturbados e momentos de maior ternura. Em "La sirène du Mississipi", a personagem interpretada por Catherine Deneuve furtou o dinheiro do protagonista, algo que se inverte em "Alaska", enquanto em "La Femme d'à cotê" ficamos diante de uma dupla de protagonistas que mantém uma relação obsessiva. Com uma dinâmica e química assinaláveis entre Elio Germano e Astrid Bergès-Frisbey, uma banda sonora capaz de incrementar diversos episódios da narrativa e uma cinematografia primorosa, "Alaska" surge como um romance marcante e envolvente, que facilmente agarra a nossa atenção.

Título original: "Alaska".
Realizador: Claudio Cupellini.
Argumento: Claudio Cupellini, Filippo Gravino, Guido Iuculano.
Elenco: Elio Germano, Valerio Binasco, Paolo Pierobon, Astrid Berges-Frisbey, Elena Radonicich, Antoine Oppenheim, Roschdy Zem.

05 abril 2016

Entrevista a Greta Scarano sobre "Suburra"

 "Suburra" estreia em Portugal a 21 de Abril de 2016, tendo sido exibido em antestreia na nona edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. O Rick's Cinema, através da figura deste blogger (Aníbal Santiago), teve a oportunidade de entrevistar Greta Scarano, a intérprete de Viola, uma personagem que ganha uma relevância surpreendente com o decorrer da narrativa. O filme é realizado por Stefano Sollima, um cineasta que é cada vez mais uma certeza no panorama do cinema italiano contemporâneo, algo que "ACAB" e "Suburra" comprovam. Na entrevista, Greta Scarano falou sobre a sua colaboração com Stefano Sollima, bem como sobre a preparação efectuada para interpretar a personagem, as desigualdades entre homens e mulheres no cinema, o papel da Netflix, entre outros assuntos. Pelo meio, uma história sobre um episódio caricato que ocorreu nas filmagens, que envolve Claudio Amendola, o intérprete de Samurai e a certeza de que Greta Scarano é uma excelente entrevistada e uma actriz que cada vez mais está a perder o rótulo de "promissora" para ganhar o estatuto de certeza. Fotos da autoria da Kirane Project.

Rick's Cinema: A Greta Scarano já trabalhou com o Stefano Sollima em "Romanzo Criminale". Trabalhou com o Pierfrancesco Favini em "Senza nessuna pietà". Como foi reencontrar todas estas caras conhecidas em "Suburra"?

Greta Scarano: Foram experiências diferentes. O Stefano Sollima dirigiu-me em "Romanzo Criminale", mas eu tinha um papel muito pequeno. No "Suburra" é que tive uma verdadeira oportunidade para trabalhar com o Stefano Sollima. Ele é um excelente realizador. O Stefano dá-te os instrumentos para trabalhares, algo que não é muito comum. Ele dá-te tempo, insere-te na cena e faz com que te sintas viva nessa cena.
 No caso do Pierfrancesco Favino, foi algo completamente diferente, pois em "Senza nessuna pietà" estávamos muito ligados, já que interpretámos um casal de namorados. No "Suburra", eu nunca o vi, podemos nos ter cruzado uma vez nas filmagens, mas não no decorrer do filme. Não tive a oportunidade de trabalhar novamente com ele, mas penso que o Pierfrancesco Favino fez um excelente trabalho. Ele criou um personagem a sério, ele não é nada assim na realidade.

GS: O La Republica, através de Arianna Finos, intitulou-a de "la nuova star". Qual foi o impacto que "Suburra" trouxe para a sua carreira? 

GS: Fiquei contente e lisonjeada quando li o artigo. É difícil de dizer. Eu sinto que fiz parte de algo grande, que muita gente pode ver. Ao estar disponível na Netflix, o "Suburra" pode ser visto praticamente em todo o Mundo, algo que é incrível. Pode ser visto na América do Norte, na França, no Reino Unido, entre outros territórios.
 Eu estou aqui (em Lisboa, no âmbito do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano), então é sinal de que o "Suburra" provocou um impacto. A Viola deu-me a hipótese de demonstrar que posso fazer algo como interpretar uma personagem de pendor dramático. Não é que eu quisesse provar algo. Em alguns casos fazes um filme, esforças-te imenso, mas praticamente ninguém o consegue ver. No caso de "Suburra", o filme foi visto por muita gente. Fiquei muito contente, penso que teve um grande impacto na minha carreira.

RC: A Viola consome drogas, tem uma relação intensa, ou venenosa, com Número 8, para além de não ter problemas em pegar numa arma e disparar. Interpretar a Viola foi uma experiência intensa? O que a atraiu nesta personagem?

GS: Foi difícil devido a todas essas razões mencionadas. Aquilo que é mais fascinante é o arco narrativo de Viola. Ela começa como uma pequena parte da grande estrutura. Inicialmente não tem impacto na estrutura narrativa. No final, ela quebra a estrutura. Ela é o "anjo da morte", o "Apocalipse", a "vingadora". Foi fantástico. Quando li o argumento fiquei bastante feliz, pois percebi o poder da personagem. A Viola tem um relacionamento doentio com o Número 8, mas esse é o único motivo que a mantém viva. Se ela não o tivesse conhecido, muito provavelmente estaria morta, ou completamente perdida. Se ela tem um pequeno papel no Mundo, essa situação acontece devido ao Número 8. Quando ele não está lá, ela poderia morrer, mas não é isso que acontece. A Viola encontra força para matar o Samurai. A vingança torna-se na única razão desta viver, porque ela não tem nada a perder. O que realmente me fascinou é que a Viola acaba por ter um grande impacto na vida de quase todos os personagens e ninguém espera isso dela. Foi isso que despertou o meu interesse.

RC: A Greta Scarano protagoniza uma cena de grande impacto nos momentos finais do filme, com o Stefano Sollima a incutir um tom relativamente estilizado à cena, enquanto a chuva cai, a sua personagem dispara e a música Outro dos M83 ganha um impacto indelével. O que sentiu quando filmou esta cena e posteriormente observou a mesma no grande ecrã?

GS: Estava a ocorrer tanta coisa naquele momento, quando filmámos aquela cena. Aconteceu algo muito engraçado. Eu disparei sobre o Samurai, o personagem interpretado pelo Claudio Amendola. Ele caiu, mas não estava na água. No entanto, o Claudio não podia ouvir se ainda estávamos a filmar, porque estava a cair imensa chuva. Ele estava a fingir que estava morto, ou seja, não podia respirar. É então que se levanta do nada, apercebe-se que ainda estamos a filmar e tenta rapidamente fingir de morto. Eu ri imenso. Foi muito divertido. No entanto, a certa altura estava a dar em louca. A minha personagem estava tão perdida e eu também estava tão perdida. A arma muitas das vezes não trabalhava devido à água. É uma arma falsa, como é óbvio, mas deixou de funcionar. Eu procurava puxar o gatilho mas não funcionava, a minha expressão naquele momento deve-se e muito à repetição que tive de efectuar desse movimento. Nós tivemos alguma diversão naquela altura, mas também foi difícil. Quando vi o filme pela primeira vez, parece que todas as memórias das filmagens regressaram, toda a energia, toda a tensão, toda a pressão, mas também me senti aliviada por finalmente ter visto o "Suburra". Eu coloquei muito de mim no filme. Muita paixão e muita dor. Chorei imenso no primeiro visionamento do filme. Quando ouvi as músicas dos M83 eu só senti: "Oh meu Deus". Existe muito de mim.

RC: Teve de efectuar alguma pesquisa para interpretar a Viola?

GS: Sim, eu pesquiso sempre. Neste caso, eu tive de pesquisar temas relacionados com a toxicodependência. Eu não sou viciada em drogas e não uso heroína, então tive de pesquisar. A Internet encontra-se recheada de documentários sobre o consumo de drogas. É terrível. Estava muito assustada, embora tenha conseguido ultrapassar esses receios para interpretar a Viola. Agora estou novamente assustada. Eu tenho medo de agulhas. Eu estou surpresa em relação àquilo que consegui fazer enquanto dava vida a Viola.

 RC: O debate sobre a igualdade de oportunidades laborais e salariais para as mulheres no cinema e televisão (e não só) é algo que tem sido mais intenso. No conta do Twitter do "Suburra", retweetado por si, podemos encontrar: "Don't mess with Viola" e a hashtag AddAWomanImproveAMovie. Embora interprete uma personagem que é capaz de fazer frente à maioria das figuras masculinas, sente que ainda existe alguma distinção a nível dos papéis atribuídos aos homens e às mulheres?

GS: Sim, penso que existe uma grande diferença quer em termos de quantidade de papéis, quer no tipo de papéis. Penso que o universo feminino devia ser mais explorado. Eu odeio clichés. Não sei como é aqui, mas as mulheres lutam imenso em Itália, porque não existem papéis para mulheres. Existe uma quantidade muito diminuta de papéis interessantes para mulheres. Não percebo porquê. Eu quero ser representada nos filmes. Eu quero ir ao cinema e sentir que posso ser aquela personagem que está no filme. Sonho com o dia em que o público masculino sinta uma ligação com uma protagonista. Eu sinto uma ligação com protagonistas masculinos. Penso que deveríamos ter as mesmas hipóteses. Penso que algo está a mudar em Itália. Estamos a começar a colocar o destaque nas mulheres. Estamos a começar. Nós vamos lá chegar.

RC: O "Suburra" foi co-financiado pela Netflix e pela RAI. A Greta Scarano conta com trabalhos quer no cinema, quer na televisão. Como é que encara a mudança de paradigma que a Netflix trouxe, com os episódios de cada série a serem disponibilizados em simultâneo e a não estarem dependentes de uma audiência imediata?

GS: Traz uma grande liberdade para o público. Eu utilizo. Eu tenho Netflix e Pay TV. Ainda não sei se vou integrar o elenco da série de "Suburra", mas penso que vai ser uma grande oportunidade para Itália. É a primeira série produzida pela Netflix em Itália. Penso que a Pay TV e a Netflix mudaram o modo como assistimos televisão e vemos os filmes. Estou bastante agradada porque me dá a oportunidade de ver coisas muitas boas, que anteriormente não tinha a hipótese de assistir. 

RC: Como se encontra o desenvolvimento de "La Verità sta in cielo"? O que podemos saber sobre o seu papel neste filme?

GS: Já terminei as filmagens. Penso que vai ser lançado no Outono de 2016, em princípio em Outubro. É um filme realizado por Roberto Faenza, um autor intelectual famoso. É inspirado numa história real, sobre o aparecimento de uma rapariga, nos anos 70. Eu interpreto uma mulher quando esta tem vinte e cinco anos e quando tem cinquenta anos de idade. Estou muito curiosa. Ainda não vi nada do filme.

RC: Muito obrigada à Greta Scarano pelo tempo disponibilizado, bem como à assessoria de imprensa do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano.

Resenha Crítica: "Latin Lover" (2015)

 Entre intrigas familiares, revelações surpreendentes, discussões, traições, momentos acalorados e a desconstrução da imagem do "amante latino", "Latin Lover" coloca-nos diante de um núcleo familiar disfuncional, pontuado por diversas figuras femininas com personalidades muito próprias. A unir estas personagens encontra-se o décimo aniversário da morte de Saverio Crispo (Francesco Scianna), um actor que granjeou o estatuto de galã e conquistador, tendo (supostamente) cinco filhas de cinco mulheres distintas. Este foi um pai ausente e um amante incapaz de manter uma relação estável, com "Latin Lover", a décima segunda longa-metragem realizada por Cristina Comencini, a colocar-nos diante do confrontar das memórias do passado por parte de diversas figuras que foram marcadas pela existência de Saverio. O falecido é apresentado com recurso a excertos de obras cinematográficas protagonizadas pelo actor ficcional, que remetem para filmes como "Divorzio all'italiana", "La classe operaia va in paradiso", "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", spaghetti westerns, entre outros, com este intérprete a parecer mesclar elementos de diversos artistas italianos, entre os quais Marcello Mastroianni e Gian Maria Volontè. Francesco Scianna convence e exibe um carisma indelével para conseguir compelir o espectador a acreditar que este actor era capaz de gerar os sentimentos mais assolapados em volta da sua figura, embora "Latin Lover" apenas nos apresente aos trabalhos e entrevistas de Saverio, ainda que de forma bastante inspirada. A certa altura de "Latin Lover", a imagem de conquistador e mulherengo, que Saverio construiu ao longo da sua carreira, começa a ser desmontada, sobretudo quando percebemos que este é um homem de muitas mulheres, embora tenha sido fiel a uma figura masculina, em particular a Pedro del Rio (Lluís Homar), o seu duplo. Pedro del Rio é um indivíduo falador, pronto a defender as familiares de Saverio e a memória deste actor, embora não tenha problemas em assumir algum destaque junto dos holofotes da fama, após vários anos na sombra do falecido. Esta desconstrução da figura do conquistador latino a espaços traz à memória "Casanova '70", um filme onde Marcello Mastroianni interpreta um "Casanova" que apenas consegue colocar a "máquina" a funcionar se estiver em perigo. A ligar "Casanova '70" e "Latin Lover" encontra-se Virna Lisi, com a actriz a ter aqui a sua última participação numa obra cinematográfica. Lisi interpreta Rita, a primeira esposa de Saverio, uma das várias mulheres que foram traídas pelo actor, um indivíduo sobre o qual quase todos sabem imensas histórias, embora pareçam incapazes de chegar ao âmago de quem foi este intérprete famoso e icónico. É na casa de Rita, em Itália, uma habitação espaçosa, que se reúnem as várias filhas de Saverio, com quase todas a terem contactado muito pouco umas com as outras ao longo do tempo, algo que promete uma reunião pontuada por emoções fortes, com as incompatibilidades de diversas personagens a virem ao de cima, bem como aquilo que as une.

A filha mais velha de Saverio é Susanna (Angela Finocchiaro), fruto da relação entre o primeiro e Rita, com a primogénita a apresentar uma animosidade latente em relação a Stephanie (Valeria Bruni Tedeschi), o segundo rebento do actor. Stephanie é o resultado de um affair entre Saverio e uma figurinista francesa, apresentando uma falta de confiança notória, sobretudo devido a ser alvo da má língua de Susanna e de Rita, com esta última a não ter problemas em errar propositadamente o nome da filha do falecido. A personagem interpretada por Valeria Bruni Tedeschi é uma actriz que tem três filhos de três pais diferentes, embora apenas traga para o evento um dos seus rebentos, o jovem Saverio. Se Stephanie tem três filhos de três pais distintos e continua solteira, já Segunda (Candela Peña) apresenta um núcleo familiar que parece saído de um catálogo, apesar dos problemas não tardarem a surgir, sobretudo quando Alfonso (Jordi Mollà), o seu esposo, apresenta a sua veia mulherenga e exibe o interesse por Solveig (Pihla Viitala), a quarta irmã. Segunda é a única destas mulheres que é casada, trazendo consigo os seus dois filhos, bem como Ramona (Marisa Paredes), a mãe, com esta última a contar com uma estranha relação de amizade com Rita, ou ambas não tivessem sido as figuras femininas que mais marcaram a vida do falecido. Rita e Ramona apresentam personalidades mordazes, frustrações, algumas dores devido a certas diatribes do destino, enquanto Virna Lisi e Marisa Paredes sobressaem a interpretar estas duas figuras femininas. Veja-se quando encontramos Rita e Ramona a exibirem as suas facetas mais venenosas quando dialogam sobre a mãe de Stephanie, ou o desprezo que espelham em relação a esta última. Mais tarde, estas mulheres recebem ainda a companhia de Shelley (Nadeah Miranda), outra filha de Saverio, fruto de um affair que este manteve quando se encontrou a filmar nos EUA. Diga-se que a carreira de Saverio conheceu diversos períodos, algo exposto por Picci (Toni Bertorelli), um crítico de cinema e especialista na vida do actor, logo nos momentos iniciais de "Latin Lover", com o primeiro a ter coleccionado trabalhos bem sucedidos e imensas relações amorosas. "Latin Lover" apresenta Saverio como um mistério nem sempre fácil de decifrar, mesmo para aqueles que o rodearam, com Cristina Comencini a realizar uma obra cinematográfica que varia entre a comédia e o drama, enquanto dá espaço para as actrizes que compõem o elenco principal sobressaírem e exibirem as personalidades e problemas das personagens que interpretam. Angela Finocchiaro transmite a mescla de pragmatismo e nervosismo de Susanna, uma mulher que dirige a Fundação Crispo e mantém um caso secreto com Walter (Neri Marcorè), um indivíduo que trabalhou na montagem de alguns filmes de Saverio. É Susanna quem se encontra a procurar organizar a cerimónia de comemoração, em honra do pai, embora não disfarce que mantém alguma animosidade em relação a Stephanie, uma actriz que nunca esconde a frustração por ser olhada de soslaio por diversas familiares. Diga-se que a mãe de Stephanie é encarada como aquela que contribuiu para arruinar com o casamento entre Rita e Saverio, enquanto este último coleccionou casos em diversos países: Stephanie nasceu em França; Segunda é fruto de uma relação de Saverio em Espanha; Solveig é sueca; Shelley é oriunda dos EUA. A mãe de Segunda é encarada de forma relativamente simpática por Rita, com ambas a parecerem partilhar os mesmos sentimentos em relação a Saverio. Candela Peña interpreta uma figura inicialmente pacífica, que procura apenas recordar os bons momentos e unir a família, embora seja surpreendida pela negativa. Por sua vez, Solveig é a mais nova, pelo menos até chegar Shelley, com a "filha sueca" de Saverio a despertar a atenção de Alfonso, um produtor de vinhos que apresenta uma personalidade mulherenga. 

A juntar a estes elementos, temos ainda Marco Serra (Claudio Gioè), um jornalista que procura descobrir mais informações sobre a história de Saverio e as figuras que fizeram parte da vida deste homem. Se Alfonso surge como o estereótipo do latino mulherengo que não resiste a um bom rabo de saias, já Marco Serra aparece como um indivíduo curioso, que apresenta alguma afinidade com Stephanie. Esta é uma actriz que nem sempre apresenta uma confiança inabalável em si própria, embora quase todas as mulheres que povoam o enredo de "Latin Lover", sobretudo as mais velhas, contem com alguns problemas e neuroses. A narrativa decorre ao longo de quarenta e oito horas, contando com episódios como comemorações em honra a Saverio, uma conferência de imprensa peculiar, discussões acaloradas, revelações sobre o passado destas mulheres e do falecido, enquanto Cristina Comencini procura desenvolver uma narrativa onde as figuras femininas se encontram em destaque. Veja-se o caso das personagens interpretadas por Virna Lisi (uma colaboradora habitual de Comencini) e Marisa Paredes, com ambas a interpretarem figuras femininas mordazes, de personalidade forte, embora não tenham problemas em exibirem as suas fraquezas. A casa onde Rita habita encontra-se pontuada por diversos quadros e retratos, com a presença do falecido a parecer que ainda se faz sentir, com este espaço a surgir como um dos cenários primordiais da narrativa. Embora entregue um filme demasiado redondinho, que não incomoda, mas também não deixa marca ou gera entusiasmo, Cristina Comencini consegue desenvolver de forma relativamente eficaz as temáticas a que se propõe abordar, com o seu final, meio feel good, a surgir como um dos momentos mais interessantes de "Latin Lover". A arte surge como um ponto de união entre a vida e a morte, enquanto a nossa mente viaja para os sentimentos que nutrimos por certos actores, actrizes, realizadores, músicos, escritores, que não conhecemos mas permanecem vivos através dos seus trabalhos, sempre prontos a encontrar novos públicos e a despertar uma miríade de emoções. Nesse sentido, "Latin Lover" também é um filme sobre o poder da arte, que relembra um período de ouro do cinema italiano, sempre com alguma nostalgia, surgindo como uma dramédia que procura mesclar elementos de tragédia e comédia, apresentando um conjunto de personagens que conseguem manter o nosso interesse. Lluís Homar protagoniza aquele que é muito provavelmente um dos momentos mais comoventes do filme. Veja-se quando começa a falar sobre os sentimentos que Saverio transmitiu em vida, comentando alguns dos trechos dos filmes protagonizados pelo actor e os bastidores dos mesmos, enquanto Comencini corta de forma amiúde para Ramona, Rita, Stephanie, Susanna, Segunda e Solveig, com estas a encontrarem-se comovidas com as imagens que são transmitidas no grande ecrã, bem como com as palavras ternas de Pedro. Também "Latin Lover" surge como uma carta de despedida, em particular, a Virna Lisi, com Cristina Comencini a criar uma obra cinematográfica onde a actriz e as restantes figuras femininas têm oportunidade para sobressair, enquanto apresenta uma nostalgia desarmante em relação ao mistério das grandes estrelas de outrora e à História do Cinema Italiano, com "Latin Lover" a desmontar a figura do amante latino e a exibir uma reunião familiar fervilhante, sempre com algum drama e humor à mistura.

Título original: "Latin Lover".
Realizadora: Cristina Comencini.
Argumento: Giulia Calenda e Cristina Comencini.
Elenco: Marisa Paredes, Angela Finocchiaro, Valeria Bruni Tedeschi, Candela Peña, Francesco Scianna, Pihla Viitala, Jordi Mollà, Virna Lisi.