09 abril 2016

Resenha Crítica: "Non essere cattivo" (2015)

 Vittorio (Alessandro Borghi) e Cesare (Luca Marinelli) são amigos de infância, na casa dos vinte anos de idade, que praticam crimes como tráfico de droga e burlas, com as suas vidas a estarem muitas das vezes em risco, enquanto estes procuram encontrar um meio de se afirmarem. Cesare e Vittorio são os protagonistas de "Non essere cattivo", a última longa metragem realizada por Claudio Caligari, com o cineasta a atirar o espectador para o interior de Ostia, em 1995, enquanto nos apresenta a um grupo de personagens que vive "nas margens", com este espaço da periferia a parecer um viveiro de deslocados da sociedade, com tudo e todos a procurarem a sua afirmação, embora nem sempre escolham o caminho mais correcto. Claudio Caligari interessa-se por estes personagens que se procuram afirmar num meio algo hostil, onde as oportunidades não parecem abundar e os negócios ilícitos são encarados de forma quase banal. Veja-se quando encontramos Vittorio e Cesare a procurarem traficar droga, mas também a consumirem substâncias estupefacientes em quantidades assinaláveis, com Alessandro Borghi e Luca Marinelli a contarem com interpretações de grande nível. No início de "Non essere cattivo", encontramos Vittorio e Cesare em êxtase, após consumirem drogas, com estes a parecerem caminhar para um abismo, ou o quotidiano de ambos não fosse marcado por rotinas completamente destrutivas. Ambos praticam um estilo de vida marcado por excessos, crimes, consumo e tráfico de droga, com a noite a ser muitas das vezes uma companheira e cúmplice de Cesare e Vittorio. Cesare é uma bomba-relógio, surgindo como um elemento pouco ponderado e dado a alguns excessos. Vittorio é amigo de longa data de Cesare, algo notório nos momentos iniciais de "Non essere cattivo", embora, a certa altura, decida seguir um caminho distinto do segundo. O consumo de drogas marca e marcou o quotidiano de Vittorio e Cesare, embora o primeiro comece a reagir mal a esta situação, algo notório quando alucina e perde o controlo. Este episódio parece ter contribuído para Vittorio tentar mudar de estilo de vida, sobretudo a partir do momento em que inicia uma relação amorosa com Linda (Roberta Mattei), com esta a contribuir para despertar um lado mais apolíneo do personagem interpretado por Alessandro Borghi. Se Vittorio começa a exibir objectivos de vida distintos, já Cesare parece ter alguma dificuldade em começar a abrandar. Com o cabelo comprido, roupa simples, uma expressividade e intensidade notórias, Luca Marinelli incute um estilo intempestivo a Cesare, um indivíduo que a espaços apresenta enormes demonstrações de humanidade, embora pareça destinado a errar e a ser incapaz de sair do estilo de vida errático que definiu para a sua existência. O actor é capaz de nos conseguir compelir a querer seguir este personagem, a esperar que este mude, tal como acontece com algumas figuras que o rodeiam, tais como Vittorio e Viviana (Silvia D'Amico), a ex-namorada do amigo, uma mulher visualmente vistosa que iniciou uma relação com Cesare.

Cesare ainda pensa em casar e ter filhos com Viviana, o problema é que escolhe muitas das vezes o caminho errado, ou simplesmente não parece ponderar as consequências dos seus actos, enquanto o destino tem o condão de lhe pregar umas quantas partidas, algo que contribui para adensar o estilo auto-destrutivo e rebelde do personagem interpretado por Luca Marinelli. Veja-se que Cesare perdeu a irmã devido a esta última ter contraído SIDA, com o protagonista a apresentar uma enorme afinidade e cuidado para com Debora (Alice Clementi), a sua sobrinha, uma jovem que se encontra gravemente doente. Diga-se que a SIDA, a toxicodependência, as relações "tóxicas", o tráfico de droga, a procura de afirmação, os clubes nocturnos e os bares como espaço de encontro entre os jovens, surgem como elementos e temáticas abordadas ao longo do filme, com Claudio Caligari a efectuar um retrato bem vivo do quotidiano dos personagens principais de "Non essere cattivo". Cesare é algo conservador no que diz respeito à família, com este a procurar cuidar da mãe, bem como de Debora, protagonizando alguns momentos mais ternos com esta última, que exibem a capacidade de Luca Marinelli em interpretar uma figura que tanto tem de violenta como apresenta uma humanidade desarmante. Já a relação entre os personagens interpretados por Luca Marinelli e Alessandro Borghi é marcada por alguns momentos mais intensos, inclusive quando ambos parecem querer tomar rumos distintos para as suas vidas, algo que chega a conduzir a um ou outro desaguisado mais inquietante. Vittorio procura começar a trabalhar nas obras e levar uma vida estável ao lado de Linda, tentando arrastar Cesare consigo, embora este último não pareça capaz de se desfazer da ideia de ganhar dinheiro fácil. Diga-se que, no final, Claudio Caligari traça um retrato simultaneamente pessimista e optimista, com um nascimento inesperado a acontecer, enquanto Vittorio percebe que as dificuldades financeiras inerentes ao parco salário do trabalho nas obras se encontram a minar o quotidiano com Linda e o filho (Andrea Orano) desta. Vittorio e Cesare procuram afirmar-se no interior de sociedade que os rodeia, com o mundo do crime a parecer o caminho mais fácil e prático para enriquecer, ou pelo menos para sobreviver, com o segundo a sentir-se bastante atraído por este estilo de vida. Diga-se que Vittorio ainda apresenta alguns recuos, algo notório quando tenta abrir um espaço dedicado ao jogo ilegal e tem uma recaída no consumo de drogas, embora a presença de Linda pareça fundamental para este endireitar a sua vida. Cesare ainda esboça uma tentativa de estabelecer uma família com Viviana, mas é demasiado intempestivo e ambicioso para conseguir levar um estilo de vida completamente calmo, parecendo sentir-se atraído pelos perigos. Viviana e Cesare ainda vão viver juntos, com a decoração da habitação a parecer reflectir a personalidade intempestiva do segundo. Veja-se que não faltam objectos vermelhos, com esta tonalidade a remeter exactamente para sentimentos mais quentes ou confusos, com a casa de Cesare e Viviana a remeter ainda para todo um cuidado colocado na decoração dos cenários interiores ao serviço do enredo.

A dupla de protagonistas comete muitos erros ao longo do enredo de "Non essere cattivo", enquanto o território de Ostia parece fundamental para propiciar alguns comportamentos apresentados por Cesare e Vittorio, com Claudio Caligari a procurar capturar o espírito e a alma deste local durante o período de tempo representado, uma situação que vai desde a maneira dos personagens falarem e vestirem, passando pelas suas inquietações, até aos espaços por onde estes circulam, incluindo clubes nocturnos, ruas e praias. O espaço da praia permite expor o quão abrasivo pode ser este território, com Cesare a picar-se acidentalmente numa agulha de uma seringa que se encontrava no local. Ainda espera pelos toxicodependentes que se costumam injectar no local, tendo em vista a vingar-se, ainda que a espera não resulte em nada, embora permita expor quer o carácter abrasivo deste espaço, quer a personalidade impulsiva de Cesare, que não tem problemas em partir para a violência. Veja-se quando procura roubar os clientes de Vittorio na sala de jogo ilegal criada pelo amigo, algo que conduz a um confronto entre os dois, embora o personagem interpretado por Alessandro Borghi, tal como Viviana, pareça guardar a esperança de que Cesare ainda vai mudar. Diga-se que o momento na sala de jogo é um dos trechos mais inspirados de "Non essere cattivo", com Claudio Caligari a colocar dois "irmãos" em confronto, enquanto deixa as luzes azuis e vermelhas do local adensarem o tom inquietante desta cena. Se Alessandro Borghi e Luca Marinelli são os destaques óbvios do elenco, com estes a contarem com interpretações intensas e carismáticas, capazes de nos convencerem dos defeitos, virtudes e enorme união dos personagens que interpretam, também Roberta Mattei e Silvia D'Amico merecem algum destaque. Roberta Mattei dá vida a uma figura feminina que entra em contacto com Vittorio de forma peculiar, com este a procurar esconder a arma de Cesare da polícia, após a dupla de protagonistas ameaçar um grupo de traficantes rival, algo que proporciona o estranho início de uma relação que promete mudar o personagem interpretado por Alessandro Borghi. Linda é uma das várias personagens de classe trabalhadora deste local, que vive sem grandes luxos ou comodidades, com a habitação desta mulher a ser bastante simples. A personagem interpretada por Roberta Mattei trabalha como empregada de limpezas, tendo em Tommasino, o seu filho, a melhor companhia. Vittorio começa a procurar mudar a partir do momento em que conhece Linda. A mudança não é extemporânea, com Claudio Caligari a saber gerir o ritmo do enredo e as interpretações dos seus actores, conseguindo que este arco de Vittorio seja convincente. Vittorio ainda procura arrastar Cesare, mas este parece demasiado impulsivo e ambicioso para evitar sair do mundo do crime, embora a relação com a personagem interpretada por Silvia D'Amico pareça trazer alguma esperança para o segundo. Claudio Caligari expõe o quotidiano destes personagens sem contemplações, com alguma crueza à mistura, ou Vittorio e Cesare não fossem inicialmente dois viciados em drogas e traficantes, que praticam uma série de excessos.

"Non essere cattivo" é o último volume de uma trilogia de Claudio Caligari, que foi iniciada em "Amore tossico" (1983), contando ainda com "L'odore della notte" (1998), com o cineasta a ter aqui uma última obra cinematográfica de grande nível. Caligari explora as temáticas sem contemplações, conseguindo que sejamos praticamente presos a todo este enredo onde a noite é muitas das vezes companheira e testemunha. Imensa droga é consumida e traficada (sempre com enorme realismo, parecendo que estamos no meio destes personagens), alguns actos violentos são cometidos, enquanto somos colocados diante de personagens que escolheram modos de vida distintos, algo latente na dupla de protagonistas. A dinâmica entre Alessandro Borghi e Luca Marinelli é essencial para boa parte de "Non essere cattivo" funcionar, com estes a convencerem o espectador da amizade de longa data entre Vittorio e Cesare, uma dupla que se conhece desde a infância e apresenta uma enorme união e lealdade. Diga-se que os valores de lealdade muito próprios, o respeito pela família, entre outros, remete para algo de "muito italiano", com o território a parecer essencial para os comportamentos de alguns personagens. É um espaço onde as oportunidades não abundam, os crimes ocorrem com regularidade, as relações são marcadas por alguma intensidade, algo que acontece com Vittorio e Cesare. A própria banda sonora procura muitas das vezes servir como uma extensão dos momentos protagonizados pelos personagens, algo latente quando encontramos Cesare e Viviana no carro, a beberem, com a música, os gestos dos personagens e os seus diálogos a exibirem paradigmaticamente o estilo de vida da maioria destas figuras. O consumo e o tráfico de droga marcam boa parte da narrativa, com Claudio Caligari a colocar-nos diante de uma miríade de substâncias e todo o meio "venenoso" que envolve as mesmas quer a nível do consumo, quer do tráfico, algo latente no quotidiano de Vittorio e Cesare no início do filme. Com uma dinâmica assinalável entre Alessandro Borghi e Luca Marinelli, dois actores de talento praticamente inegável, uma representação crua, intensa e realista dos episódios que pontuam o enredo, "Non essere cattivo" mostra mais uma vez a relevância de festivais como o 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, ou este certame não trouxesse até nós esta recomendável obra cinematográfica de Claudio Caligari.

Título original: "Non essere cattivo".
Título em inglês: "Don't Be Bad".
Realizador: Claudio Caligari.
Argumento: Claudio Caligari, Francesca Serafini, Giordano Meacci.
Elenco: Luca Marinelli, Alessandro Borghi, Silvia D'Amico, Roberta Mattei.

07 abril 2016

Resenha Crítica: "Alaska" (2015)

 O poder do cinema é algo de fascinante. Por vezes esperamos muito de um filme e este revela-se uma desilusão. Por vezes não contamos com grandes expectativas em relação a uma obra cinematográfica e sai uma agradável surpresa. "Alaska", a nova longa-metragem realizada por Claudio Cupellini, insere-se no lote das surpresas muito agradáveis. O nome Alasca provém da palavra Alakshak, que significa "grande terra" ou "grande península". No caso de "Alaska", Claudio Cupellini deixa-nos diante de um filme de grandes emoções e sensações, ou se preferirem, perante uma dupla de protagonistas que nos arrasta consigo para o interior de uma relação intensa, que parece tardar em encontrar o equilíbrio necessário. Se a região do Alasca é famosa pelo estereótipo do clima frio durante o ano inteiro, já "Alaska" não nos provoca indiferença ou frieza, bem pelo contrário. É um filme que nos aquece a alma, que faz com que nos aproximemos dos seus personagens e nos embrenhemos no interior da sua relação intrincada, com o argumento a apresentar alguns momentos de classe, enquanto Elio Germano e Astrid Bergès-Frisbey nos surpreendem com interpretações de relevo e uma química indelével. Germano e Bergès-Frisbey interpretam personagens de personalidades distintas, unidas pela solidão e pela procura de afirmação, mas também por sentimentos mais fortes, seja este um amor louco ou um desejo fervoroso que é incapaz de ser totalmente apagado pelas adversidades. A balança do destino parece andar quase sempre desequilibrada no que diz respeito à relação entre Fausto (Elio Germano) e Nadine (Astrid Bergès-Frisbey), com Claudio Cupellini a não ter problemas em testar estes dois personagens e colocá-los diante de situações mais negras. No início do filme, é Fausto quem se encontra numa posição mais confortável e confiante. Por sua vez, Nadine está numa posição pouco favorável. Nadine participa num processo de casting, em Paris, para ser modelo, a pedido de Nicolas (Antoine Oppenheim), um indivíduo que considera que a protagonista tem hipóteses de enveredar nesta profissão. Fausto é um italiano que vive em Paris, que trabalha num hotel cheio de regras de etiqueta, onde os clientes pouco ou nada se parecem preocupar com os funcionários. Nadine e Fausto encontram-se no terraço, com ambos a procurarem descontrair. Fausto procura descomprimir do stress diário, inerente ao facto de ter que apresentar uma enorme amabilidade e cuidado para com os clientes, mesmo quando estes apresentam comportamentos incorrectos. Nadine pelo facto do casting não ter começado da melhor maneira. Ela é frágil, quase como se fosse uma boneca que acabou de sair da embalagem e se depara com a crueza do mundo real, embora esta descrição não signifique que Nadine não conta com uma enorme vivacidade e determinação, bem pelo contrário. Ele é galanteador, bastante ambicioso e um pouco mais experiente do que Nadine. Esta encontra-se coberta com um casaco, a tapar parte do bikini, apresentando uma fragilidade latente quando se depara com Fausto no terraço do hotel. Fausto procura meter conversa com esta jovem, animá-la e conquistá-la, enquanto Nadine não tem problemas em brincar com a farda de "pinguim" do primeiro, embora pareça agradada com a conversa, após rejeitar uma aproximação inicial do protagonista. 

 A conversa no terraço, pontuada pela afabilidade, conduz Fausto a decidir mostrar um dos quartos mais caros do hotel a Nadine, daqueles que custam quinze mil euros a noite, com este espaço a ter sido alugado por um indivíduo que supostamente não deveria estar naquele local, àquela hora, ou pelo menos, é isso que o personagem interpretado por Elio Germano pensava. Ledo engano. O cliente chega, chama a gerência do hotel e Fausto perde a cabeça, acabando por agredir violentamente o primeiro. Os momentos mais cândidos e belos, quase infantis, entre Fausto e Nadine, neste espaço de luxo que inclui uma piscina, acabam por ser contrastados com a tensão e inquietação inerente à fuga, com o primeiro a procurar que a jovem fuja sem ser vista pela polícia. Claudio Cupellini desarma-nos por completo. Coloca-nos diante de dois estranhos, conseguindo que gostemos facilmente dos mesmos e geremos uma certa empatia em relação aos protagonistas, até desfazer a oportunidade destes se conhecerem melhor, pelo menos nos tempos mais próximos, ou Fausto não fosse preso, pelo período de dois anos. Por sua vez, Nadine é aceite e consegue o emprego como modelo. A balança entre estes personagens desequilibra-se por completo, com Fausto a encontrar-se agora na posição mais frágil. Ela ainda tenta visitá-lo uma vez, parecendo surgir como a única esperança de Fausto. Os dois anos na prisão parecem ter sido duros para Fausto, algo que este salienta quando reencontra Nadine e apresenta alguma rudeza nos seus gestos. As cartas que escreveu para Nadine, na prisão, surgiram como um meio para evitar perder o controlo ou o contacto com a humanidade e sanidade, com o espaço prisional a parecer mexer com Fausto de forma indelével. O espaço prisional pode contar com paredes verdes, mas este cor está longe de representar a esperança para a maioria dos presidiários, embora esta tonalidade quase que simbolize a confiança que Fausto deposita em Nadine, mesmo que esta não o visite, até ao dia da soltura. O reencontro demorou praticamente dois anos. Ambos mudaram e sabem disso, tal como o espectador. Ela já sabe falar italiano, fruto de trabalhar como modelo em Milão, tirou a carta de condução e comprou um carro, enquanto ele pura e simplesmente não parece ter ideia do que fazer da vida, com os sonhos que tinha a desfazerem-se a partir do momento em que foi preso. Na prisão, este encontra uma solidão atroz, tendo em Benoit (Roschdy Zem) uma das poucas companhias, com este último a desenvolver uma relação de respeito em relação a Fausto. Diga-se que Fausto é uma figura solitária, pelo menos no início do filme, algo latente quando é preso e não tem uma única visita, uma situação que adensa as dificuldades de viver neste espaço. A saída da prisão é marcada pela estranheza, mas também por uma condução magistral dos actores. Elio Germano transmite a ideia de que Fausto parece querer recuperar o tempo perdido, aquele que não teve ao lado de Nadine e finalmente poder estar ao lado desta figura que idealizou e venerou, enquanto esteve preso. Astrid Bergès-Frisbey exibe as dúvidas desta mulher, com os seus silêncios, num bar, bem como os seus gestos algo inseguros, a demonstrarem que Nadine não sabe bem aquilo que ainda sente em relação a Fausto. Diga-se que Astrid Bergès-Frisbey consegue muitas das vezes convencer-nos com gestos aparentemente simples. Veja-se quando Nadine se encontra no casting, com os gestos das suas mãos a indicarem alguma insegurança, com Astrid Bergès-Frisbey a incutir sobriedade e candura a esta figura feminina que procura encontrar o seu lugar no Mundo

 Fausto fica a viver na casa de Nadine, em Itália, embora a relação entre ambos nem sempre seja marcada por uma enorme felicidade, com o casal a raramente conseguir encontrar o equilíbrio necessário para conseguir viver de forma estável. Traições, mentiras, reviravoltas, surpresas do destino, ambição desmedida, obsessões e actos nem sempre pensados acabam por afectar a vida de Nadine e Fausto, com estes dois elementos a estarem quase sempre no centro de todo o enredo de "Alaska". Elio Germano incute uma intensidade latente a Fausto, conseguindo exprimir os sentimentos deste personagem de forma bem viva e convincente, ou não estivéssemos diante de uma figura que tanto parte facilmente para a violência, ou comete actos menos ponderados, como apresenta uma ternura latente em relação a Nadine. Astrid Bergès-Frisbey aparece mais frágil como Nadine, mas nem por isso menos complexa, com a actriz a convencer e surpreender, com a dupla de protagonistas a compelir o espectador a sentir-se quase um intruso no interior desta relação, que a espaços nos parece dizer imenso. Os sentimentos entre Fausto e Nadine são completamente universais, bem como as suas ansiedades, frustrações, obsessões e desilusões, algo que contribui para a afinidade entre os espectadores e os personagens. A banda sonora é muitas das vezes essencial para adensar os sentimentos que nos são transmitidos e os episódios vividos por estes personagens. Veja-se quando os protagonistas estão em fuga, no elevador, com a música a apresentar ritmos mais tensos e inquietantes, ou quando Fausto escreve a Nadine e é transmitida toda uma sensação de melancolia e esperança, ou os trechos no Alaska, um clube nocturno que promete surgir como um espaço essencial do enredo. A certa altura, Fausto conhece Sandro (Valerio Binasco), um indivíduo com uma personalidade peculiar e extrovertida, que necessita de dinheiro para abrir o Alaska, um clube nocturno que parece uma excelente oportunidade de negócio. Fausto utiliza as poupanças de Nadine, após estar farto de não conseguir um emprego que o motivasse, algo que irrita esta mulher. É a ambição de Fausto a falar mais alto, com este indivíduo a procurar afirmar-se a todo o custo, enquanto é colocado diante de uma tentação difícil de resistir. A discussão entre Nadine e Fausto ocorre, em parte, no carro da primeira, com um acidente a acontecer e a trazer uma nova reviravolta na vida do casal. Nadine fica ferida, necessitando de fazer um tratamento demorado para voltar a andar sem o auxílio de muletas, algo que altera novamente o equilíbrio entre a primeira e Fausto. A personagem interpretada por Astrid Bergès-Frisbey perde o trabalho como modelo. Fausto prospera. A relação entre Nadine e Fausto degrada-se, com o casal a ser colocados diante de diversas tentações e inquietações, com Claudio Cupellini a deixar-nos a certa altura na dúvida em relação àquilo que irá acontecer a ambos. Fausto e Nadine magoam-se, amam-se, discutem, apresentam comportamentos nem sempre correctos, com o Alaska a surgir como um espaço que representa paradigmaticamente a ambição do protagonista e o seu desejo de ascensão social. Não iremos revelar o desfecho do filme. No entanto, é quase impossível não torcer por estas duas figuras que facilmente despertam a nossa atenção e captam todo o nosso interesse, com "Alaska" a surgir como um romance de pendor dramático que consegue mexer com os sentimentos do espectador. 

 O argumento de Claudio Cupellini, Filippo Gravino, Guido Iuculano apresenta uma assertividade assinalável a explorar esta relação intensa e problemática, enquanto o cineasta consegue criar toda uma dinâmica envolvente que nos prende à história de Fausto e Nadine, algo elevado pela dupla de protagonistas. O filme conta ainda com alguns elementos secundários que sobressaem, tais como Antoine Oppenheim, Elena Radonicich, Paolo Pierobon e Valerio Binasco. Paolo Pierobon como Marco, o chefe de Nadine, a partir do momento em que esta decide trabalhar num bar, com o primeiro a surgir como uma figura algo violenta, que promete provocar estragos; Elena Radonicich como Francesca, uma mulher de largas posses financeiras, que chega a ficar noiva de Fausto; Valerio Binasco como Sandro, um indivíduo de personalidade completamente destrutiva, que não parece conseguir manter um negócio ou levar um estilo de vida estável; Antoine Oppenheim como Nicolas, um elemento que se chega a envolver com Nadine. Todos estes elementos contam com espaço para sobressair em determinados momentos do enredo, enquanto Claudio Cupellini nos deixa diante dos avanços e recuos de Nadine e Fausto, dois jovens que se amam, mas tardam em conseguir encontrar um equilíbrio. Quando é preso, Fausto pergunta a Nadine se esta vai visitá-lo à prisão de La Santé, com a protagonista a responder que não sabe. Numa fase mais avançada do enredo, quando Fausto se encontra noivo de Francesca e se reencontra num momento mais emotivo com Nadine, é este quem diz que não sabe se é o último encontro entre os dois. No final, Cupellini quase que nos deixa diante de um movimento circular, bem como com a certeza de que Nadine e Fausto vão encontrar sempre grandes dificuldades para manterem uma relação estável, embora tenham uma ligação demasiado forte para se conseguirem afastar por completo um do outro. É certo que no final, pelo menos um dos personagens parece ter encontrado o seu equilíbrio e percebido aquilo que mais importa na sua vida, mas essa percepção custou imenso a chegar. Aqueles momentos iniciais, onde Nadine e Fausto estão no terraço, em Paris, não pareciam indicar que este casal viria a conhecer tantos episódios marcantes em Itália. Nadine marca a vida de Fausto e vice-versa. Ambos marcam o espectador. São figuras solitárias, que cometem muitos erros, encontram sucessos e insucessos profissionais, procuram encontrar alguma estabilidade emocional e conciliar as suas ambições com a vida amorosa, enquanto Claudio Cupellini procura explorar esta relação ao máximo. Não quer dizer que Nadine e Fausto estejam sempre juntos, bem pelo contrário, mas é impossível conter o desejo de ver esta dupla a ser feliz. Pelo meio, "Alaska" aborda temáticas como as dificuldades em conseguir emprego, a vida na prisão, as ansiedades, sonhos, ambições e desilusões dos jovens, entre outras. O título do filme remete quer para o clube nocturno de Fausto, quer para uma região considerada algo hostil, um pouco a fazer recordar a relação por vezes abrasiva entre os protagonistas e os territórios que os rodeiam. No caso de Fausto, as suas ambições minam muitas das vezes o seu bom senso, tal como a sua personalidade impulsiva, agressiva e obsessiva, embora seja um personagem complexo, que facilmente consegue compelir o espectador a torcer para que este seja feliz. A influência dos filmes de François Truffaut, tais como "La Femme d'à cotê" e "La sirène du Mississipi", parece notória em "Alaska", com Claudio Cupellini a colocar-nos diante de uma relação amorosa marcada por alguns excessos, obsessões, traições, episódios conturbados e momentos de maior ternura. Em "La sirène du Mississipi", a personagem interpretada por Catherine Deneuve furtou o dinheiro do protagonista, algo que se inverte em "Alaska", enquanto em "La Femme d'à cotê" ficamos diante de uma dupla de protagonistas que mantém uma relação obsessiva. Com uma dinâmica e química assinaláveis entre Elio Germano e Astrid Bergès-Frisbey, uma banda sonora capaz de incrementar diversos episódios da narrativa e uma cinematografia primorosa, "Alaska" surge como um romance marcante e envolvente, que facilmente agarra a nossa atenção.

Título original: "Alaska".
Realizador: Claudio Cupellini.
Argumento: Claudio Cupellini, Filippo Gravino, Guido Iuculano.
Elenco: Elio Germano, Valerio Binasco, Paolo Pierobon, Astrid Berges-Frisbey, Elena Radonicich, Antoine Oppenheim, Roschdy Zem.

05 abril 2016

Entrevista a Greta Scarano sobre "Suburra"

 "Suburra" estreia em Portugal a 21 de Abril de 2016, tendo sido exibido em antestreia na nona edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. O Rick's Cinema, através da figura deste blogger (Aníbal Santiago), teve a oportunidade de entrevistar Greta Scarano, a intérprete de Viola, uma personagem que ganha uma relevância surpreendente com o decorrer da narrativa. O filme é realizado por Stefano Sollima, um cineasta que é cada vez mais uma certeza no panorama do cinema italiano contemporâneo, algo que "ACAB" e "Suburra" comprovam. Na entrevista, Greta Scarano falou sobre a sua colaboração com Stefano Sollima, bem como sobre a preparação efectuada para interpretar a personagem, as desigualdades entre homens e mulheres no cinema, o papel da Netflix, entre outros assuntos. Pelo meio, uma história sobre um episódio caricato que ocorreu nas filmagens, que envolve Claudio Amendola, o intérprete de Samurai e a certeza de que Greta Scarano é uma excelente entrevistada e uma actriz que cada vez mais está a perder o rótulo de "promissora" para ganhar o estatuto de certeza. Fotos da autoria da Kirane Project.

Rick's Cinema: A Greta Scarano já trabalhou com o Stefano Sollima em "Romanzo Criminale". Trabalhou com o Pierfrancesco Favini em "Senza nessuna pietà". Como foi reencontrar todas estas caras conhecidas em "Suburra"?

Greta Scarano: Foram experiências diferentes. O Stefano Sollima dirigiu-me em "Romanzo Criminale", mas eu tinha um papel muito pequeno. No "Suburra" é que tive uma verdadeira oportunidade para trabalhar com o Stefano Sollima. Ele é um excelente realizador. O Stefano dá-te os instrumentos para trabalhares, algo que não é muito comum. Ele dá-te tempo, insere-te na cena e faz com que te sintas viva nessa cena.
 No caso do Pierfrancesco Favino, foi algo completamente diferente, pois em "Senza nessuna pietà" estávamos muito ligados, já que interpretámos um casal de namorados. No "Suburra", eu nunca o vi, podemos nos ter cruzado uma vez nas filmagens, mas não no decorrer do filme. Não tive a oportunidade de trabalhar novamente com ele, mas penso que o Pierfrancesco Favino fez um excelente trabalho. Ele criou um personagem a sério, ele não é nada assim na realidade.

GS: O La Republica, através de Arianna Finos, intitulou-a de "la nuova star". Qual foi o impacto que "Suburra" trouxe para a sua carreira? 

GS: Fiquei contente e lisonjeada quando li o artigo. É difícil de dizer. Eu sinto que fiz parte de algo grande, que muita gente pode ver. Ao estar disponível na Netflix, o "Suburra" pode ser visto praticamente em todo o Mundo, algo que é incrível. Pode ser visto na América do Norte, na França, no Reino Unido, entre outros territórios.
 Eu estou aqui (em Lisboa, no âmbito do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano), então é sinal de que o "Suburra" provocou um impacto. A Viola deu-me a hipótese de demonstrar que posso fazer algo como interpretar uma personagem de pendor dramático. Não é que eu quisesse provar algo. Em alguns casos fazes um filme, esforças-te imenso, mas praticamente ninguém o consegue ver. No caso de "Suburra", o filme foi visto por muita gente. Fiquei muito contente, penso que teve um grande impacto na minha carreira.

RC: A Viola consome drogas, tem uma relação intensa, ou venenosa, com Número 8, para além de não ter problemas em pegar numa arma e disparar. Interpretar a Viola foi uma experiência intensa? O que a atraiu nesta personagem?

GS: Foi difícil devido a todas essas razões mencionadas. Aquilo que é mais fascinante é o arco narrativo de Viola. Ela começa como uma pequena parte da grande estrutura. Inicialmente não tem impacto na estrutura narrativa. No final, ela quebra a estrutura. Ela é o "anjo da morte", o "Apocalipse", a "vingadora". Foi fantástico. Quando li o argumento fiquei bastante feliz, pois percebi o poder da personagem. A Viola tem um relacionamento doentio com o Número 8, mas esse é o único motivo que a mantém viva. Se ela não o tivesse conhecido, muito provavelmente estaria morta, ou completamente perdida. Se ela tem um pequeno papel no Mundo, essa situação acontece devido ao Número 8. Quando ele não está lá, ela poderia morrer, mas não é isso que acontece. A Viola encontra força para matar o Samurai. A vingança torna-se na única razão desta viver, porque ela não tem nada a perder. O que realmente me fascinou é que a Viola acaba por ter um grande impacto na vida de quase todos os personagens e ninguém espera isso dela. Foi isso que despertou o meu interesse.

RC: A Greta Scarano protagoniza uma cena de grande impacto nos momentos finais do filme, com o Stefano Sollima a incutir um tom relativamente estilizado à cena, enquanto a chuva cai, a sua personagem dispara e a música Outro dos M83 ganha um impacto indelével. O que sentiu quando filmou esta cena e posteriormente observou a mesma no grande ecrã?

GS: Estava a ocorrer tanta coisa naquele momento, quando filmámos aquela cena. Aconteceu algo muito engraçado. Eu disparei sobre o Samurai, o personagem interpretado pelo Claudio Amendola. Ele caiu, mas não estava na água. No entanto, o Claudio não podia ouvir se ainda estávamos a filmar, porque estava a cair imensa chuva. Ele estava a fingir que estava morto, ou seja, não podia respirar. É então que se levanta do nada, apercebe-se que ainda estamos a filmar e tenta rapidamente fingir de morto. Eu ri imenso. Foi muito divertido. No entanto, a certa altura estava a dar em louca. A minha personagem estava tão perdida e eu também estava tão perdida. A arma muitas das vezes não trabalhava devido à água. É uma arma falsa, como é óbvio, mas deixou de funcionar. Eu procurava puxar o gatilho mas não funcionava, a minha expressão naquele momento deve-se e muito à repetição que tive de efectuar desse movimento. Nós tivemos alguma diversão naquela altura, mas também foi difícil. Quando vi o filme pela primeira vez, parece que todas as memórias das filmagens regressaram, toda a energia, toda a tensão, toda a pressão, mas também me senti aliviada por finalmente ter visto o "Suburra". Eu coloquei muito de mim no filme. Muita paixão e muita dor. Chorei imenso no primeiro visionamento do filme. Quando ouvi as músicas dos M83 eu só senti: "Oh meu Deus". Existe muito de mim.

RC: Teve de efectuar alguma pesquisa para interpretar a Viola?

GS: Sim, eu pesquiso sempre. Neste caso, eu tive de pesquisar temas relacionados com a toxicodependência. Eu não sou viciada em drogas e não uso heroína, então tive de pesquisar. A Internet encontra-se recheada de documentários sobre o consumo de drogas. É terrível. Estava muito assustada, embora tenha conseguido ultrapassar esses receios para interpretar a Viola. Agora estou novamente assustada. Eu tenho medo de agulhas. Eu estou surpresa em relação àquilo que consegui fazer enquanto dava vida a Viola.

 RC: O debate sobre a igualdade de oportunidades laborais e salariais para as mulheres no cinema e televisão (e não só) é algo que tem sido mais intenso. No conta do Twitter do "Suburra", retweetado por si, podemos encontrar: "Don't mess with Viola" e a hashtag AddAWomanImproveAMovie. Embora interprete uma personagem que é capaz de fazer frente à maioria das figuras masculinas, sente que ainda existe alguma distinção a nível dos papéis atribuídos aos homens e às mulheres?

GS: Sim, penso que existe uma grande diferença quer em termos de quantidade de papéis, quer no tipo de papéis. Penso que o universo feminino devia ser mais explorado. Eu odeio clichés. Não sei como é aqui, mas as mulheres lutam imenso em Itália, porque não existem papéis para mulheres. Existe uma quantidade muito diminuta de papéis interessantes para mulheres. Não percebo porquê. Eu quero ser representada nos filmes. Eu quero ir ao cinema e sentir que posso ser aquela personagem que está no filme. Sonho com o dia em que o público masculino sinta uma ligação com uma protagonista. Eu sinto uma ligação com protagonistas masculinos. Penso que deveríamos ter as mesmas hipóteses. Penso que algo está a mudar em Itália. Estamos a começar a colocar o destaque nas mulheres. Estamos a começar. Nós vamos lá chegar.

RC: O "Suburra" foi co-financiado pela Netflix e pela RAI. A Greta Scarano conta com trabalhos quer no cinema, quer na televisão. Como é que encara a mudança de paradigma que a Netflix trouxe, com os episódios de cada série a serem disponibilizados em simultâneo e a não estarem dependentes de uma audiência imediata?

GS: Traz uma grande liberdade para o público. Eu utilizo. Eu tenho Netflix e Pay TV. Ainda não sei se vou integrar o elenco da série de "Suburra", mas penso que vai ser uma grande oportunidade para Itália. É a primeira série produzida pela Netflix em Itália. Penso que a Pay TV e a Netflix mudaram o modo como assistimos televisão e vemos os filmes. Estou bastante agradada porque me dá a oportunidade de ver coisas muitas boas, que anteriormente não tinha a hipótese de assistir. 

RC: Como se encontra o desenvolvimento de "La Verità sta in cielo"? O que podemos saber sobre o seu papel neste filme?

GS: Já terminei as filmagens. Penso que vai ser lançado no Outono de 2016, em princípio em Outubro. É um filme realizado por Roberto Faenza, um autor intelectual famoso. É inspirado numa história real, sobre o aparecimento de uma rapariga, nos anos 70. Eu interpreto uma mulher quando esta tem vinte e cinco anos e quando tem cinquenta anos de idade. Estou muito curiosa. Ainda não vi nada do filme.

RC: Muito obrigada à Greta Scarano pelo tempo disponibilizado, bem como à assessoria de imprensa do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano.

Resenha Crítica: "Latin Lover" (2015)

 Entre intrigas familiares, revelações surpreendentes, discussões, traições, momentos acalorados e a desconstrução da imagem do "amante latino", "Latin Lover" coloca-nos diante de um núcleo familiar disfuncional, pontuado por diversas figuras femininas com personalidades muito próprias. A unir estas personagens encontra-se o décimo aniversário da morte de Saverio Crispo (Francesco Scianna), um actor que granjeou o estatuto de galã e conquistador, tendo (supostamente) cinco filhas de cinco mulheres distintas. Este foi um pai ausente e um amante incapaz de manter uma relação estável, com "Latin Lover", a décima segunda longa-metragem realizada por Cristina Comencini, a colocar-nos diante do confrontar das memórias do passado por parte de diversas figuras que foram marcadas pela existência de Saverio. O falecido é apresentado com recurso a excertos de obras cinematográficas protagonizadas pelo actor ficcional, que remetem para filmes como "Divorzio all'italiana", "La classe operaia va in paradiso", "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", spaghetti westerns, entre outros, com este intérprete a parecer mesclar elementos de diversos artistas italianos, entre os quais Marcello Mastroianni e Gian Maria Volontè. Francesco Scianna convence e exibe um carisma indelével para conseguir compelir o espectador a acreditar que este actor era capaz de gerar os sentimentos mais assolapados em volta da sua figura, embora "Latin Lover" apenas nos apresente aos trabalhos e entrevistas de Saverio, ainda que de forma bastante inspirada. A certa altura de "Latin Lover", a imagem de conquistador e mulherengo, que Saverio construiu ao longo da sua carreira, começa a ser desmontada, sobretudo quando percebemos que este é um homem de muitas mulheres, embora tenha sido fiel a uma figura masculina, em particular a Pedro del Rio (Lluís Homar), o seu duplo. Pedro del Rio é um indivíduo falador, pronto a defender as familiares de Saverio e a memória deste actor, embora não tenha problemas em assumir algum destaque junto dos holofotes da fama, após vários anos na sombra do falecido. Esta desconstrução da figura do conquistador latino a espaços traz à memória "Casanova '70", um filme onde Marcello Mastroianni interpreta um "Casanova" que apenas consegue colocar a "máquina" a funcionar se estiver em perigo. A ligar "Casanova '70" e "Latin Lover" encontra-se Virna Lisi, com a actriz a ter aqui a sua última participação numa obra cinematográfica. Lisi interpreta Rita, a primeira esposa de Saverio, uma das várias mulheres que foram traídas pelo actor, um indivíduo sobre o qual quase todos sabem imensas histórias, embora pareçam incapazes de chegar ao âmago de quem foi este intérprete famoso e icónico. É na casa de Rita, em Itália, uma habitação espaçosa, que se reúnem as várias filhas de Saverio, com quase todas a terem contactado muito pouco umas com as outras ao longo do tempo, algo que promete uma reunião pontuada por emoções fortes, com as incompatibilidades de diversas personagens a virem ao de cima, bem como aquilo que as une.

A filha mais velha de Saverio é Susanna (Angela Finocchiaro), fruto da relação entre o primeiro e Rita, com a primogénita a apresentar uma animosidade latente em relação a Stephanie (Valeria Bruni Tedeschi), o segundo rebento do actor. Stephanie é o resultado de um affair entre Saverio e uma figurinista francesa, apresentando uma falta de confiança notória, sobretudo devido a ser alvo da má língua de Susanna e de Rita, com esta última a não ter problemas em errar propositadamente o nome da filha do falecido. A personagem interpretada por Valeria Bruni Tedeschi é uma actriz que tem três filhos de três pais diferentes, embora apenas traga para o evento um dos seus rebentos, o jovem Saverio. Se Stephanie tem três filhos de três pais distintos e continua solteira, já Segunda (Candela Peña) apresenta um núcleo familiar que parece saído de um catálogo, apesar dos problemas não tardarem a surgir, sobretudo quando Alfonso (Jordi Mollà), o seu esposo, apresenta a sua veia mulherenga e exibe o interesse por Solveig (Pihla Viitala), a quarta irmã. Segunda é a única destas mulheres que é casada, trazendo consigo os seus dois filhos, bem como Ramona (Marisa Paredes), a mãe, com esta última a contar com uma estranha relação de amizade com Rita, ou ambas não tivessem sido as figuras femininas que mais marcaram a vida do falecido. Rita e Ramona apresentam personalidades mordazes, frustrações, algumas dores devido a certas diatribes do destino, enquanto Virna Lisi e Marisa Paredes sobressaem a interpretar estas duas figuras femininas. Veja-se quando encontramos Rita e Ramona a exibirem as suas facetas mais venenosas quando dialogam sobre a mãe de Stephanie, ou o desprezo que espelham em relação a esta última. Mais tarde, estas mulheres recebem ainda a companhia de Shelley (Nadeah Miranda), outra filha de Saverio, fruto de um affair que este manteve quando se encontrou a filmar nos EUA. Diga-se que a carreira de Saverio conheceu diversos períodos, algo exposto por Picci (Toni Bertorelli), um crítico de cinema e especialista na vida do actor, logo nos momentos iniciais de "Latin Lover", com o primeiro a ter coleccionado trabalhos bem sucedidos e imensas relações amorosas. "Latin Lover" apresenta Saverio como um mistério nem sempre fácil de decifrar, mesmo para aqueles que o rodearam, com Cristina Comencini a realizar uma obra cinematográfica que varia entre a comédia e o drama, enquanto dá espaço para as actrizes que compõem o elenco principal sobressaírem e exibirem as personalidades e problemas das personagens que interpretam. Angela Finocchiaro transmite a mescla de pragmatismo e nervosismo de Susanna, uma mulher que dirige a Fundação Crispo e mantém um caso secreto com Walter (Neri Marcorè), um indivíduo que trabalhou na montagem de alguns filmes de Saverio. É Susanna quem se encontra a procurar organizar a cerimónia de comemoração, em honra do pai, embora não disfarce que mantém alguma animosidade em relação a Stephanie, uma actriz que nunca esconde a frustração por ser olhada de soslaio por diversas familiares. Diga-se que a mãe de Stephanie é encarada como aquela que contribuiu para arruinar com o casamento entre Rita e Saverio, enquanto este último coleccionou casos em diversos países: Stephanie nasceu em França; Segunda é fruto de uma relação de Saverio em Espanha; Solveig é sueca; Shelley é oriunda dos EUA. A mãe de Segunda é encarada de forma relativamente simpática por Rita, com ambas a parecerem partilhar os mesmos sentimentos em relação a Saverio. Candela Peña interpreta uma figura inicialmente pacífica, que procura apenas recordar os bons momentos e unir a família, embora seja surpreendida pela negativa. Por sua vez, Solveig é a mais nova, pelo menos até chegar Shelley, com a "filha sueca" de Saverio a despertar a atenção de Alfonso, um produtor de vinhos que apresenta uma personalidade mulherenga. 

A juntar a estes elementos, temos ainda Marco Serra (Claudio Gioè), um jornalista que procura descobrir mais informações sobre a história de Saverio e as figuras que fizeram parte da vida deste homem. Se Alfonso surge como o estereótipo do latino mulherengo que não resiste a um bom rabo de saias, já Marco Serra aparece como um indivíduo curioso, que apresenta alguma afinidade com Stephanie. Esta é uma actriz que nem sempre apresenta uma confiança inabalável em si própria, embora quase todas as mulheres que povoam o enredo de "Latin Lover", sobretudo as mais velhas, contem com alguns problemas e neuroses. A narrativa decorre ao longo de quarenta e oito horas, contando com episódios como comemorações em honra a Saverio, uma conferência de imprensa peculiar, discussões acaloradas, revelações sobre o passado destas mulheres e do falecido, enquanto Cristina Comencini procura desenvolver uma narrativa onde as figuras femininas se encontram em destaque. Veja-se o caso das personagens interpretadas por Virna Lisi (uma colaboradora habitual de Comencini) e Marisa Paredes, com ambas a interpretarem figuras femininas mordazes, de personalidade forte, embora não tenham problemas em exibirem as suas fraquezas. A casa onde Rita habita encontra-se pontuada por diversos quadros e retratos, com a presença do falecido a parecer que ainda se faz sentir, com este espaço a surgir como um dos cenários primordiais da narrativa. Embora entregue um filme demasiado redondinho, que não incomoda, mas também não deixa marca ou gera entusiasmo, Cristina Comencini consegue desenvolver de forma relativamente eficaz as temáticas a que se propõe abordar, com o seu final, meio feel good, a surgir como um dos momentos mais interessantes de "Latin Lover". A arte surge como um ponto de união entre a vida e a morte, enquanto a nossa mente viaja para os sentimentos que nutrimos por certos actores, actrizes, realizadores, músicos, escritores, que não conhecemos mas permanecem vivos através dos seus trabalhos, sempre prontos a encontrar novos públicos e a despertar uma miríade de emoções. Nesse sentido, "Latin Lover" também é um filme sobre o poder da arte, que relembra um período de ouro do cinema italiano, sempre com alguma nostalgia, surgindo como uma dramédia que procura mesclar elementos de tragédia e comédia, apresentando um conjunto de personagens que conseguem manter o nosso interesse. Lluís Homar protagoniza aquele que é muito provavelmente um dos momentos mais comoventes do filme. Veja-se quando começa a falar sobre os sentimentos que Saverio transmitiu em vida, comentando alguns dos trechos dos filmes protagonizados pelo actor e os bastidores dos mesmos, enquanto Comencini corta de forma amiúde para Ramona, Rita, Stephanie, Susanna, Segunda e Solveig, com estas a encontrarem-se comovidas com as imagens que são transmitidas no grande ecrã, bem como com as palavras ternas de Pedro. Também "Latin Lover" surge como uma carta de despedida, em particular, a Virna Lisi, com Cristina Comencini a criar uma obra cinematográfica onde a actriz e as restantes figuras femininas têm oportunidade para sobressair, enquanto apresenta uma nostalgia desarmante em relação ao mistério das grandes estrelas de outrora e à História do Cinema Italiano, com "Latin Lover" a desmontar a figura do amante latino e a exibir uma reunião familiar fervilhante, sempre com algum drama e humor à mistura.

Título original: "Latin Lover".
Realizadora: Cristina Comencini.
Argumento: Giulia Calenda e Cristina Comencini.
Elenco: Marisa Paredes, Angela Finocchiaro, Valeria Bruni Tedeschi, Candela Peña, Francesco Scianna, Pihla Viitala, Jordi Mollà, Virna Lisi.

04 abril 2016

Resenha Crítica: "Nessuno si salva da solo"

 No presente, a relação entre Gaetano (Riccardo Scamarcio) e Delia (Jasmine Trinca) atravessa uma crise que parece difícil de ultrapassar. Estes reencontram-se, após algum tempo de separação, num restaurante relativamente requintado. Arranjam-se da melhor forma possível. Ela transmite um ar impassível e frio, tendo escolhido um vestido negro que realça a sua elegância. Ele aparece de fato, pronto a evitar que tudo se afunde, ou pelo menos manter a conversa num tom amigável, embora tenha consciência que cometeu uma série de erros. Nos flashbacks, expostos com enorme regularidade, por vezes de forma redundante, ficamos a conhecer o nascimento da relação deste casal, os períodos mais apolíneos vividos por Gaetano e Delia, as discussões que mantiveram ao longo do tempo, as dificuldades que encontraram a partir do nascimento dos dois filhos, a procura que o personagem interpretado por Riccardo Scamarcio efectua para conciliar o trabalho com os cuidados prestados à família, até entrarem numa espiral descendente. As discussões aumentam, o fervor sexual de outrora parece desvanecer-se, embora pareça existir algo a ligar Gaetano e Delia. Os momentos no restaurante demonstram que Gaetano e Delia ainda se encontram demasiado marcados pelo passado quer pelos episódios mais felizes, quer pelas enormes discussões que mantiveram. Os defeitos e peculiaridades de cada um, encarados de forma relativamente cândida no início da relação, parecem incomodar e muito com o avançar do casamento, ou Delia e Gaetano não tivessem de enfrentar o desgaste que afecta quase todas as relações. Uns conseguem superar as diferenças e conjugá-las de forma a manter a estabilidade da relação, outros não atingem esse desiderato, algo que conduz a situações complicadas como aquela na qual se encontra a dupla de protagonistas. Jasmine Trinca e Riccardo Scamarcio convencem como este casal que se separou e decidiu reunir num restaurante, tendo em vista a discutir o planeamento das férias dos filhos. Talvez não tenha sido a melhor solução, sobretudo quando a conversa azeda de tom ou, muito provavelmente, até foi o espaço certo, com um casal de idade já mais avançada do que Delia e Gaetano, que observa regularmente a dupla de protagonistas, a preparar-se para ter um momento de relevo no último terço. Delia e Gaetano são os protagonistas de "Nessuno si salva da solo", a quinta longa-metragem realizada por Sergio Castellitto. O cineasta não perde tempo a expor diversos episódios relacionados com o passado destes personagens, com os flashbacks a serem mais do que muitos, algo que permite conhecermos um pouco daquilo que conduziu à separação de Delia e Gaetano. Por vezes a informação é redundante, com "Nessuno si salva da solo" a apresentar no título os propósitos daquilo que pretende exibir: "Ninguém se salva sozinho". É, sobretudo, o espectáculo de Riccardo Scamarcio e Jasmine Trinca, uma dupla que já tinha colaborado em "Il grande sogno", com o actor e a actriz a elevarem um filme que raramente sai da mediania, com Sergio Castellitto a abordar as temáticas de forma demasiado simplista, com alguns flashbacks a parecerem estender-se em demasia com informação que a espaços poderia ser exibida num simples diálogo entre os protagonistas.

 Jasmine Trinca sobressai como uma figura inicialmente algo naïve, que encontra em Gaetano alguém que a deseja e parece complementá-la, que aprecia os seus defeitos e virtudes. Delia é uma nutricionista que procura seguir uma alimentação rigorosa e apresenta um pavor enorme em relação aos germes, que conta com um problema nos dentes que é resolvido numa fase mais avançada do enredo. Gaetano é um aspirante a escritor que acaba por seguir a carreira de argumentista, algo que nem sempre lhe agrada, embora seja a opção que encontra para ganhar dinheiro. Riccardo Scamarcio incute um tom algo descontraído a Gaetano, um indivíduo com enorme apetite sexual que, gradualmente, parece afastar-se cada vez mais da sua esposa. Veja-se quando o encontramos envolvido num affair com Matilde (Marina Rocco), uma aspirante a actriz, algo revelador do quanto o protagonista mudou desde os tempos em que jurava preferir cortar as partes baixas a trair Delia. No fundo, estamos diante de uma relação que começou de forma intensa, embora a passagem do tempo, os diversos episódios vividos por Gaetano e Delia, bem como as mudanças que conheceram, acabem por exibir uma realidade dolorosa para o antigo casal: o amor que sentiam não desapareceu totalmente mas foi minado por um conjunto de situações que destruíram o matrimónio e a forma como se encaravam. O nascimento de Cosmo e posteriormente de Nico, os dois filhos do casal, parece marcar o princípio de alguns problemas entre o casal. A intimidade e o tempo livre têm de ser divididos com os filhos, os momentos de descanso são cada vez menos, o stress a espaços atinge níveis elevados, com Delia e Gaetano a parecerem discordar em relação à forma de educar os rebentos. Gaetano pretende optar por uma via mais pragmática, embora a espaços denote algum desleixo, enquanto que Delia prefere incutir um certo romantismo nas crianças. A espaços Castellitto atira com temáticas sobre os jovens que nem sempre são exploradas ao longo do enredo. Veja-se quando Cosmo começa a utilizar regularmente a roupa da progenitora, com Delia a colocar a hipótese do petiz ser homossexual, ou a própria relação entre o casal e os jovens. Num flashback, descobrimos que Delia trabalhava como nutricionista no ginásio frequentado por Gaetano, com ambos a apresentarem uma atracção mútua, ou os momentos iniciais da relação da dupla não fossem marcados por diversos momentos de sexo e emoções fortes. Delia e Gaetano cometeram erros. Ambos sabem disso. Já não podem voltar atrás, mas podem tentar recomeçar. Não sabemos se vão conseguir ficar juntos, mas também não conseguimos imaginar estes dois elementos separados para toda a vida. Gaetano alugou uma casa, enquanto que Delia continua a viver na habitação que outrora partilhara com o primeiro e os filhos, tendo a espaços o apoio da mãe, uma figura com quem sempre se relacionara mal.

 Delia é filha de pais separados, culpando em parte a sua mãe (Anna Gailena) por alguns problemas que contou ao longo da sua vida, enquanto que Gaetano mantém uma relação relativamente estável com os progenitores, embora não deixe de protagonizar algumas discussões com os mesmos. Veja-se a primeira reunião entre o casal e os pais do personagem interpretado por Riccardo Scamarcio, que corre lindamente, em contraste com uma visita desastrosa efectuada por Gaetano e Delia após terem consumado o matrimónio. Vale a pena realçar que Sergio Castellitto também lança temáticas relacionadas com os pais de Gaetano que praticamente não são desenvolvidas, nem incutem a suposta intensidade dramática pretendida, com muitas destas lacunas a serem compensadas pela dupla de protagonistas ao longo desta obra cinematográfica inspirada no livro homónimo de Margaret Mazzantini (a argumentista de "Nessuno si salva da solo"). O filme aborda ainda temas como a anorexia, com Delia a ter padecido desta doença, ou o aborto, ou os medos relacionados com a paternidade e a maternidade, embora Sergio Castellitto deixe muitas das temáticas pela rama, contando com Riccardo Scamarcio e Jasmine Trinca para elevarem a obra cinematográfica. Castellitto aproveita ainda para usar e abusar da banda sonora, que tanto contribui para provocar um belo efeito, como a espaços se revela intrusiva, algo latente no momento final, quando se pedia mais silêncio e contenção. Delia e Gaetano surgem como personagens interessantes de acompanhar, mesmo com todas as limitações apresentadas por esta longa-metragem realizada por Sergio Castellitto, com a dinâmica credível entre Jasmine Trinca e Riccardo Scamarcio a contribuir e muito para elevar "Nessuno si salva da solo". Nesse sentido, Jasmine Trinca e Riccardo Scamarcio comprovam paradigmaticamente que ninguém se salva sozinho, incluindo Sergio Castellito, com o título de "Nessuno si salva da solo" a adequar-se na perfeição ao filme.

Título original: "Nessuno si salva da solo".
Realizador: Sergio Castellitto.
Argumento: Margaret Mazzantini.
Elenco: Riccardo Scamarcio, Jasmine Trinca, Anna Galiena, Marina Rocco.

02 abril 2016

Resenha Crítica: "L'attesa" (A Espera)

 A certa altura de "L'attesa", Anna, a personagem interpretada por Juliette Binoche, salienta que se habituou a observar certas partes do seu corpo na escuridão. Se Anna efectua este comentário num jeito depreciativo, já "L'attesa" provoca um impacto indelével na sala escura do cinema. A dor provocada por uma perda, a relação entre duas mulheres que não se conheciam pessoalmente, a sensação de isolamento e a dificuldade em conviver com a realidade são temáticas abordadas ao longo deste filme, com Piero Messina a estrear-se em grande nível na realização de longas-metragens de ficção. O cineasta não tem problemas em explorar as potencialidades dramáticas de Juliette Binoche e Lou de Laâge, duas actrizes talentosas, que contam com tempo para comporem personagens complexas, intrigantes, capazes de nos arrasarem com uma simples lágrima ou seduzirem com um simples gesto, enquanto os diálogos trazem memórias do passado para o presente e os silêncios escondem regularmente a dura realidade. Os planos, primorosamente arquitectados, exacerbam muitas das vezes a capacidade destas duas actrizes para a representação, enquanto estas apresentam uma dinâmica complexa em "L'attesa", ou, em português, "A Espera". Piero Messina não poderia ter sido mais feliz na sua estreia como realizador de longas-metragens de ficção, com o cineasta a realizar um filme cheio de simbolismo, pontuado por silêncios marcantes e diálogos capazes de deixarem marca, enquanto valoriza e potencia o trabalho das suas actrizes. O próprio título do filme foi uma escolha acertadíssima. É uma espera que contamina o enredo de "A Espera" (perdoem o pleonasmo). Uma espera que inquieta, desespera, intriga, desilude, traz consigo uma pequena réstia de esperança escondida numa mentira que ilude e adia a verdade, ou algo que se assemelhe a esta última, enquanto duas mulheres de gerações distintas se conhecem e dão a conhecer ao espectador. O cenário primordial é a larga propriedade de Anna, uma villa ancestral, localizada na Sicília. Piero Messina não se distancia dos cenários exteriores e das festividades sicilianas na Páscoa, parecendo trazer para o enredo algumas das suas memórias pessoais deste território, embora a narrativa decorra muitas das vezes no interior da habitação de Anna, um local de largas proporções, que a espaços quase que provoca um efeito claustrofóbico. A decoração da casa remete para a possibilidade desta habitação não ter conhecido muitas mudanças ao longo dos anos, algo latente no quarto de Giuseppe, o filho de Anna, ou na humidade que se encontra presente em algumas paredes, com a protagonista a habitar num espaço que parece exacerbar a sua solidão. No início do filme, encontramos Anna numa cerimónia fúnebre, com esta a mandar tapar os espelhos da sua casa com panos negros, encontrando-se claramente abalada pela perda. Dizem que quem morreu foi o irmão de Anna, mas percebemos que a perda foi outra, em particular, o filho da protagonista. 

 O rosto de Juliette Binoche, idolatrado e reverenciado pela câmara de filmar, exprime a desolação e a dor que vai na alma de Anna, uma figura feminina experiente e divorciada, conhecida por ser a primeira mulher daquela localidade a ter obtido o divórcio. Nem sempre fala muito. Diga-se que Juliette Binoche não precisa de falar imenso para se exprimir. Basta, por vezes, um close-up no seu rosto, para que Juliette Binoche se expresse imenso, com uma lágrima que cai, ou um simples abanar do cabelo, a parecerem ganhar todo um outro significado graças ao desempenho da actriz e ao trabalho de Piero Messina na realização e de Francesco Di Giacomo na cinematografia. Francesco Di Giacomo tem um trabalho inspirado, conseguindo transmitir não só a beleza e estranheza do espaço que rodeia a habitação de Anna, mas também a capacidade que este território tem em criar uma sensação de isolamento, mistério e melancolia. Anna recebe a visita de Jeanne (Lou de Laâge), a namorada de Giuseppe, uma jovem que surge inicialmente discreta, com roupas simples e uma postura estudiosa em relação à primeira. Diga-se que Jeanne não é uma figura completamente inocente, mas aparenta inicialmente um enorme desconhecimento em relação a Anna e à realidade que esta oculta. As duas nunca se tinham conhecido pessoalmente, algo notório nos diálogos que trocam inicialmente, bem como pelos receios que apresentam. Foi o filho de Anna quem convidou Jeanne, tendo em vista a reunirem-se neste local, embora, mais tarde, seja revelado que a relação do casal atravessava uma fase complicada. O atraso do filho de Anna preocupa Jeanne, algo que esta expõe regularmente nas mensagens de voz que deixa no telemóvel do amado, enquanto espera e desespera. As mensagens são expostas imensas vezes em off, enquanto nos apercebemos que quem tem o telemóvel é Anna, com esta a guardar uma verdade, ou uma mentira, para contar mais tarde a Jeanne, enquanto procura conhecer a jovem. Anna procura "ler" e "interpretar" os comportamentos de Jeanne, ao mesmo tempo que se dá a conhecer a esta jovem, ainda que não deixe a sua "alma" totalmente a descoberto. Existem receios de parte a parte, com ambas as mulheres a lidarem de forma distinta com esta "espera". Juliette Binoche e Lou de Laâge conseguem compor com classe e sobriedade duas protagonistas dotadas de alguma complexidade e mistério. Binoche é um dos grandes nomes do cinema francês, algo que demonstra em "L'attesa", onde o seu talento vem ao de cima e a actriz brinda o espectador com uma lição de interpretação. É praticamente impossível imaginar Anna sem Juliette Binoche, com a actriz a controlar os timings da exposição das falas e dos gestos de forma exímia, transformando-se nesta figura atormentada, que lida de forma peculiar com o luto. Os sentimentos de Anna e os seus gestos nem sempre são discerníveis ou compreensíveis, com as suas atitudes a parecerem a espaços carregadas de algum mistério, embora seja impossível lidar de forma pragmática com a morte de um familiar tão próximo, com a presença de Jeanne a contribuir quer para a protagonista conhecer um pouco mais sobre o filho, quer para adensar a dor pela perda deste último.

 Em certa medida, "L'attesa" traz um pouco à memória "Valley of Love", de Guillaume Niclaux, um filme onde um casal procura enfrentar a morte do filho e reencontrar o rebento, acreditando numa possível aparição deste no Death Valley. Anna é uma mulher solitária, que parece emocionalmente destroçada e incapaz de ultrapassar o período de luto, tendo em Jeanne um meio para descobrir um pouco mais sobre o filho, bem como sobre a relação entre os dois jovens, enquanto se recorda de episódios do passado. O presente e o passado reúnem-se em alguns diálogos, muitas das vezes recheados de significado e relevância. Diga-se que Messina não poupa no simbolismo e nas metáforas, ou, pelo menos, nos "pequenos" pormenores que dão a conhecer algo mais sobre Anna e Jeanne, bem como sobre Giuseppe. Um momento no lago tanto pode parecer um meio de descontração como permite dar a conhecer um pouco mais sobre Jeanne, uma jovem que gosta de nadar, embora tenha desistido da natação profissional, devido ao excesso de regras e obrigações. A utilização de um vestido vermelho, por parte de Jeanne, permite exibir a capacidade de sedução desta personagem, mas também que esta se encontra presa ao passado, ou o namorado não gostasse de a ver com esta peça de roupa. Lou de Laâge consegue explanar com sobriedade as mudanças da personagem que interpreta ao longo do enredo, uma jovem que aparece inicialmente receosa em relação aos comportamentos que deve ter junto de Anna, até se começar a soltar um pouco mais. A actriz confirma os bons pormenores deixados em "Respire", conseguindo explanar quer o lado mais frágil desta jovem, quer a sua faceta mais sensual e selvagem. Anna tenta manter a jovem junto de si, embora o atraso de Giuseppe comece a incomodar Jeanne, bem como a falta de respostas por parte do namorado. Jeanne deixa imensas mensagens, exibe algum desespero e parece temer a ocorrência de algo desastroso, com Piero Messina a deixar algumas pistas de que a jovem pode saber algo mais do que aquilo que dá a entender, enquanto Anna procura ocultar temporariamente a verdade. Aos poucos, assistimos a uma aproximação entre as protagonistas, com Piero Messina a explorar as dinâmicas entre estas duas figuras femininas com personalidades muito próprias. Inicialmente, Anna procura não falar, ou dirigir-se a Jeanne, até tentar sair com a mesma, expor alguns episódios do passado e encontrar nesta figura feminina uma companhia que parece compensar temporariamente uma perda, algo que pode explicar a tentativa da primeira em manter a jovem no território. Veja-se o momento em que se dirigem ao lago, com o território que precede a chegada a este espaço a parecer trazer toda uma sensação de isolamento. O lago é outro dos cenários com alguma relevância no filme. É neste espaço que Jeanne conhece dois estranhos, que convida para um jantar na casa de Anna, algo que surpreende esta última e exprime um pouco do carácter mais extrovertido da primeira e as diferenças em relação à faceta recatada que apresentara no início do filme. Jeanne não é a única a esconder informações, algo latente quando encontramos Pietro (Giorgio Colangeli), um funcionário de Anna, a procurar que esta última revele a verdade sobre o suposto atraso do rebento. As mentiras surgem a espaços como um meio para Anna fugir temporariamente à realidade que a rodeia, embora os sentimentos sejam difíceis de conter. Diga-se que Anna parece ter criado esta mentira para Jeanne e para si própria, enquanto aguarda por um milagre que nunca chega e sofre com o luto, com as "esperas" das duas mulheres a apresentarem características inicialmente distintas.

 Piero Messina não tem problemas em deixar a câmara a fitar o rosto das suas protagonistas, procurando captar aquilo que vai no fundo da alma das duas, enquanto intriga o espectador em relação a estas mulheres. O quarto de Giuseppe continua decorado da mesma maneira que este deixara antes de ter saído de casa, contando com o poster dos Wu-Tang, os discos de música, os livros, com a sua presença a fazer-se sentir embora, aparentemente, o jovem não esteja fisicamente no local. A música é uma componente relevante do filme, com Piero Messina a efectuar algumas escolhas inspiradas que, mais do que se sobreporem ao enredo, conseguem potenciar algumas cenas. Diga-se que Piero Messina, para além de ter realizado curtas-metragens, ainda trabalhou como assistente de Paolo Sorrentino em "A Grande Beleza", para além de ter laborado como compositor, com esta última actividade a parecer contribuir para o cineasta contar com um discernimento notório na utilização da banda sonora. Os silêncios são mais do que muitos ao longo do filme, embora a espaços os diálogos e a banda sonora se façam sentir, com a canção "Missing" a surgir recheada de significado, sentido e sentimento. Messina tem em "L'attesa" um trabalho que o coloca obrigatoriamente como um nome a ter em muita atenção, com o cineasta a saber controlar os ritmos da narrativa, contribuindo para elevar o trabalho de Juliette Binoche e Lou de Laâge, enquanto nos deixa diante de um drama pontuado por silêncios relevantes, momentos de enorme observação, uma atenção indelével aos gestos e olhares, algo que não impede que os diálogos sobressaiam e a banda sonora seja utilizada de forma exímia. Piero Messina apresenta uma segurança atípica para um estreante nas longas-metragens de ficção, com quase tudo a parecer ter sido planeado com cuidado, gosto e elegância. Veja-se quando encontramos Anna a espreitar Jeanne, após esta última tomar banho, observando a partir de uma fresta, enquanto parece procurar perceber as razões para o filho se ter sentido atraído por esta jovem. Temos ainda a própria exibição do espaço da casa, muitas das vezes com pouca luz, sobretudo no início, exacerbando o tom lúgubre que permeia o local. No último terço, verdades e mentiras são reunidas e confrontadas, enquanto o misticismo e a ilusão se parecem mesclar, com uma festividade pascal a não trazer uma ressurreição, nem uma revelação parece trazer satisfação. A procissão parece remeter para a influência dos rituais religiosos no território da Sicília, ou na forma como este é representado por Piero Messina. Veja-se que somos colocados diante de uma representação de Cristo, num momento fúnebre do início do filme, algo que permite efectuar uma ligação com o último terço e as festividades religiosas locais, embora o milagre tarde em acontecer, ou melhor, é impossível de se realizar. Temos ainda alguns trechos de enorme lirismo, tais como os momentos nos quais Jeanne nada no lago, enquanto parece exorcizar temporariamente alguns problemas que apoquentam a sua vida, com a cinematografia a contribuir para o tom poético que toma conta de algumas cenas "L'attesa".

 A convivência entre Jeanne e Anna é marcada pelas dúvidas iniciais, com ambas a protagonizarem saídas ao banho turco, ao lago, às redondezas da propriedade, com a habitação a contar com imensos segredos, tal como a dona deste espaço. Diga-se que a ida inicial ao lago, entre Anna e Jeanne, é marcada pela saída extemporânea da primeira, quando a segunda se encontrava a nadar, com esta última a ter de caminhar sozinha para a habitação, enquanto passa por um território simultaneamente belo e agreste. Jeanne e Anna formam uma relação de alguma cumplicidade, enquanto esperam por algo impossível de acontecer, ou seja, o regresso de Giuseppe para a celebração da Páscoa, com Piero Messina a parecer aproveitar o simbolismo desta época do ano ao serviço do enredo. Será que Anna procura acreditar na mentira que criou? Será que Anna e Jeanne preferem acreditar e viver na mentira? Jeanne não sabe inicialmente os motivos para o atraso do namorado, embora, aos poucos, pareça notório que procura evitar reunir as pistas que lhe são dadas. A certa altura, parece que Jeanne procura sabotar a realidade, tentando acreditar nas mentiras de Anna, enquanto esta última parece agir sem controlo aparente. Anna e Jeanne nasceram em França, com a primeira a viver em Itália, enquanto a segunda encontra-se temporariamente no território, procurando aprender a língua e os hábitos locais, com ambas a surgirem como figuras femininas distintas, que procuram lidar com o desaparecimento de uma figura bastante próxima. Diga-se que, apesar de estar ausente, Giuseppe é uma figura que se faz sentir, com os diálogos entre Anna e Jeanne, bem como as mensagens de voz desta última e a decoração do quarto do falecido, a permitirem dar a conhecer alguma informação sobre o primeiro. Entre sentimentos contidos e emoções prontas a serem exprimidas, diálogos que ocultam algo mais e gestos que exprimem imenso, "L'attesa" é uma obra bela e envolvente, dotada de todo um cuidado e atenção ao pormenor que procura estimular os sentidos e sentimentos do espectador. "A Espera" é exibido em antestreia na edição de 2016 do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, antes de estrear em circuito comercial em Portugal. Não sei se é o melhor filme do festival mas, até ao momento, é aquele que mais tarda em sair da minha memória, que mais desperta o meu desejo em regressar ao seu enredo e visualizar a obra cinematográfica múltiplas vezes, tendo em vista a poder apreciar novamente cada plano, cada trecho de maior contenção entre as protagonistas e o enorme trabalho de Juliette Binoche e Lou de Lâage. Grazie, Piero Messina.

Título original: "L'attesa".
Título em Portugal: "A Espera".
Realizador: Piero Messina.
Argumento: Giacomo Bendotti, Ilaria Macchia, Andrea Paolo Massara, Piero Messina.
Elenco: Juliette Binoche, Lou de Laâge, Giorgio Colangeli.

01 abril 2016

Quatro críticas menos lidas - Março de 2016

1º - Resenha Crítica: "La decima vittima" (1965)














2º - Resenha Crítica: "La ragazza con la pistola" (1968)














3º - Resenha Crítica: "La grande guerra" (1959)














4º - Resenha Crítica: "I compagni" (1963)

Resenha Crítica: "Asino Vola" (Donkey Flies)

 Filmes simples e bem intencionado, destinado sobretudo aos mais novos, embora também consiga roubar um ou outro sorriso aos adultos, "Asino Vola" conta com uma candura e inocência desarmantes, bem como algo muito típico do cinema italiano, em particular, a capacidade de encontrar humor na tragédia. Não é um filme de enorme profundidade, ou capaz de nos desafiar, procurando compensar a sua simplicidade com uma história relativamente suportável, que a espaços apenas parece ter conteúdo para menos de uma hora de duração, enquanto nos coloca diante de um jovem que procura realizar o sonho de fazer parte da banda da aldeia. Realizado por Marcello Fonte e Paolo Tripodi, "Asino Vola" apresenta-nos a Maurizio (Francesco Tramontana), um rapaz de sete anos de idade, que vive com os pais e outros familiares, com todos a apresentarem poucas posses materiais e financeiras, enquanto o jovem conta com uma mente fantasiosa e um enorme desejo de fazer parte da banda local. A história de Maurizio é exposta em flashback, com o protagonista, em idade adulta (Luigi Lo Cascio), a narrar alguns dos episódios que ocorreram naquele que considera ser um dos anos mais marcantes da sua vida. Maurizio é um jovem solitário, que fala com N’Giulina (voz de Maria Grazia Cucinotta, uma escolha bastante feliz, com esta a apresentar um timing assinalável para os momentos cómicos), uma galinha sardónica e provocadora, bem como com Mosè (voz de Lino Banfi), um burro que se auto-intitula de inteligente, com este último a surgir como o maior confidente do protagonista. Embora não tenha uma expressividade portentosa, Francesco Tramontana convence como Maurizio, um jovem que procura fazer de tudo para aprender a tocar um instrumento musical. O problema é que os pais de Maurizio não têm dinheiro para comprar um instrumento musical, com Rosa (Silvia Gallerano - numa interpretação que serve os propósitos da personagem a quem dá vida), a mãe do protagonista, a encarar o desejo do filho como mais um devaneio do mesmo, enquanto o pai (Marcello Fonte) parece acreditar que o rebento pode alcançar o seu sonho. Quem também parece acreditar em Maurizio é o maestro Angelo (Antonello Pensabene), o indivíduo que ensina os jovens da banda local, procurando emprestar um tambor ao rapaz, enquanto este último começa a desenvolver um enorme gosto pela música. O tambor pertence a Don Lauro (Marcello Fonte), o antigo líder do grupo musical, um indivíduo que perdeu parte das suas capacidades vocais. Don Lauro é um indivíduo vetusto e algo rezingão, que inicialmente se opõe à utilização do seu tambor, bem como à possibilidade de Maurizio tocar este instrumento, algo que deixa o jovem de volta à estaca zero, até encontrar Don Paolino (Marcello Fonte). Se Don Lauro apresenta algumas reticências em relação à possibilidade de Maurizio aprender a tocar tambor, já Don Paolino procura ensinar e incentivar o rapaz, com Maurizio a parecer ter neste desejo algo mais profundo do que um mero devaneio de um petiz que ainda nem chegou à adolescência. É um sonho deveras complicado de realizar, com Maurizio, o protagonista, a perceber que é necessária imensa persistência, muito trabalho, doses consideráveis de talento e alguma sorte, tendo em vista a a colocar o mesmo em prática, algo que não parece dissuadir o rapaz.

 Como podem ter reparado, a resenha a "Asino Vola" já conta com três menções a Marcello Fonte, um actor (e realizador) que ainda dá vida a Mimi, um mecânico local, algo que exibe o empenho do intérprete, embora este nem sempre convença, parecendo muitas das vezes que o seu trabalho para compor personagens passa por alterar o tom de voz e utilizar uma caracterização distinta. Não chega para tirar o espectador do enredo, mas a espaços parece que estamos diante do espectáculo de variedades de Marcello Fonte, embora o actor consiga apresentar um ou outro bom apontamento (não é Peter Sellers quem quer, mas quem pode). Por sua vez, o trabalho vocal de Maria Gracia Cucinotta e Lino Banfi surpreende pela positiva, com N’Giulina e Mosè a protagonizarem alguns momentos de humor, sobretudo a primeira, com a galinha a apresentar uma personalidade deveras peculiar, escarnecendo muitas das vezes de Maurizio. Veja-se quando salienta a Maurizio que os jovens que aprendem a tocar tambor ficam anões, com N'Giulina a parecer uma versão extremista da mãe do protagonista. Se o pai do jovem parece acreditar no potencial do filho, já a mãe conta com algumas reservas, pensando que o desejo de Maurizio é apenas mais um devaneio do rapaz, com esta mulher a apresentar as suas ideias de forma bem viva. Maurizio habita numa casa modesta, dotada de poucas condições materiais, tal como diversos habitantes deste espaço das "margens" de Itália, situado na região da Calábria (Fiumara). Veja-se o espaço onde Maurizio e os jovens têm lições de música, um local degradado, com parcas condições para o ensino. O personagem interpretado por Francesco Tramontana vive nas imediações de uma lixeira, um espaço onde é despejado tudo aquilo de que as pessoas não necessitam, com Maurizio a aproveitar os objectos que se encontram na local ao serviço da imaginação. Não faltam televisores estragados, carros que deixaram de funcionar, ferros de engomar, entre outros objectos, com Maurizio a ter aqui o seu "parque de diversões", com este local a permitir que o rapaz dê largas à sua imaginação. Diga-se que Maurizio não é o único a contar com uma imaginação fértil, com Marcello Fonte e Paolo Tripodi a exibirem, ainda que a espaços, alguma criatividade e irreverência, algo visível quando optam por incluir "nuvens" em formato de animação no meio das imagens em movimento, quase como se estivéssemos num livro de banda desenhada, que ilustram os pensamentos de alguns personagens.

"Asino Vola" é, sobretudo, um feel good movie, pontuado por um tom quase de fábula, que evidencia uma característica muito italiana de encontrar humor em situações trágicas (basta recordar alguns trabalhos magníficos de Mario Monicelli ou Pietro Germi). Veja-se que o protagonista e a sua família vivem de forma muito modesta, enquanto a população local também não prima pela saúde financeira. Maurizio protagoniza uma série de peripécias e conhece uma miríade de figuras, até concretizar o seu sonho, enquanto ficamos a conhecer um pouco deste espaço de características quase rurais, onde quase tudo e todos se parecem conhecer. Marcello Fonte e Paolo Tripodi nem sempre conseguem aproveitar e aprofundar as temáticas e os elementos que lançam, algo latente no pouco desenvolvimento das dinâmicas entre Maurizio e os restantes colegas da banda, ou a superficialidade de diversos personagens secundários, entre outros exemplos. O filme conta ainda com uma mensagem mais lúdica para miúdos e graúdos, em particular, para nunca se desistir dos sonhos, independentemente das adversidades, ou Maurizio, no presente, não fosse um maestro de sucesso, que não esquece a sua galinha e mantém o seu amor pela música. Maurizio não esquece o passado e o território onde habitou, um local marcado por diversas tradições e gentes trabalhadoras que, aos poucos, também ficamos a conhecer ao longo do enredo de "Asino Vola", uma obra cinematográfica que conta com uma atmosfera fantasiosa e sonhadora. Com um tom naïf que facilmente nos desarma, algumas doses de humor e candura, uma banda sonora que se adequa à leveza da narrativa, "Asino Vola" surge como um pedacinho simples de cinema, que procura chegar aos mais novos e conquistar pelo caminho os mais velhos.

Título original: "Asino Vola".
Realizador: Marcello Fonte e Paolo Tripodi.
Argumento: Marcello Fonte, Paolo Tripodi, Giuliano Miniati.
Elenco: Francesco Tramontana, Antonello Pensabene, Silvia Gallerano, Marcello Fonte, Luigi Lo Cascio.

Resenha Crítica: "Suburra" (2015)

A violência, a corrupção, a imoralidade, os jogos de poder e os tentáculos da máfia apoderam-se de quase todos os poros da narrativa de "Suburra", um filme-mosaico realizado por Stefano Sollima, com o cineasta a demonstrar que os bons apontamentos exibidos em "A.C.A.B." não foram obra do acaso. O enredo acompanha um período compreendido entre os dias cinco e doze de Novembro de 2011, enumerados pelos intertítulos que anunciam a chegada do Apocalipse. Não é o fim do Mundo que se aproxima, mas sim uma tempestade poderosa que se prepara para assolar o território italiano, com Stefano Sollima a mesclar factos com ficção, enquanto preenche a narrativa de episódios como a queda do Governo em Itália, a crise financeira deste país, a abdicação do Papa, entre outros momentos que marcam o enredo e o espectador. A realidade apodera-se da ficção e vice-versa, com Stefano Sollima a não parecer ter problemas em explorar temáticas relacionadas com a corrupção política, festarolas berlusconianas, o envolvimento do crime organizado na tomada de decisões relevantes do foro governamental, o tráfico de droga e a violência na cidade de Roma. A chuva pontua diversos momentos da narrativa, exacerbando o tom estilizado de um filme eivado de elementos noir, com a noite a ser muitas das vezes testemunha de episódios negros, enquanto a atmosfera de malaise envolve "Suburra", uma obra cinematográfica marcada por uma miríade de personagens que, na sua maioria, apresentam uma falta de valores morais indelével e uma procura voraz para sobreviverem num meio onde apenas os mais fortes se parecem conseguir safar. Um dos personagens principais é Filippo Malgradi (Pierfrancesco Favino), um político corrupto, que mantém uma série de ligações com a máfia, procurando aprovar a Lei da Periferia, com uma emenda que visa transformar o território de Ostia numa espécie de Las Vegas. Diga-se que a cidade de Roma surge representada como um espaço de contrastes, entre os modernos néones e os edifícios históricos, com as relações entre alguns personagens a regerem-se por códigos de conduta que parecem exacerbar esta dicotomia entre o presente e o passado. Pierfrancesco Favino repete a colaboração com Stefano Sollima, após o recomendável "A.C.A.B.", com o cineasta a aproveitar a intensidade física que o actor é capaz de incutir nas suas interpretações. A espaços, Filippo traz à nossa memória o protagonista de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", o chefe de um departamento de homicídios (que é transferido para outro cargo ainda no início do filme), que elimina a mulher com quem se envolveu, enquanto parece testar ao máximo os limites do poder inerente ao seu cargo. A certa altura de "Suburra", Filippo faz questão de salientar que é um deputado, enquanto desafia um possível inquérito do Ministério Público, algo que não só traz à memória o personagem interpretado por Gian Maria Volontè em "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", mas também os casos mais "esquisitos" de Silvio Berlusconi.

Pierfrancesco Favino interpreta um político casado, que tem um filho (a relação deste com a família é pouco aproveitada), embora não exiba problemas em envolver-se com prostitutas, ou em negócios obscuros. Veja-se quando encontramos Filippo acompanhado por Jelena (Yulia Kolomiets) e Sabrina (Giulia Elettra Gorietti), duas prostitutas, numa experiência nocturna marcada por imenso sexo, consumo de drogas e a morte da primeira, uma menor, algo que conduz o político a procurar que a personagem interpretada por Giulia Elettra Gorietti se livre do corpo da colega. A atmosfera é de algum erotismo, com as cores do quarto do hotel a transmitirem os momentos quentes que o trio protagoniza, até a jovem Jelena falecer e o panorama mudar por completo. Sollima exibe nestes momentos algumas das suas qualidades, conseguindo aliar estilo e substância, com a banda sonora, a cinematografia, a decoração do cenário interior e o trabalho dos actores e do cineasta a contribuírem para um dos diversos trechos marcantes de "Suburra". Quem se livra do corpo de Jelena é Spadino (Giacomo Ferrara), um traficante de drogas e proxeneta que não tem problemas em tentar extorquir Filippo, embora seja assassinado por Aureliano Adami (Alessandro Borghi), mais conhecido por "Número 8". Adami tinha recebido ordens de um conhecido de Filippo para tentar que Spadino mantivesse o silêncio, embora o primeiro exponha a sua personalidade impulsiva e violenta ao eliminar o personagem interpretado por Giacomo Ferrara. Adami é um gangster ambicioso, de cabelo rapado e largas tatuagens, que namora com Viola (Greta Scarano), uma toxicodependente de enorme beleza e personalidade. O gangster possui um clube nocturno e uma vasta influência em diversos territórios, fruto do seu pai ter sido um mafioso de renome, embora Adami tarde em conseguir granjear o estatuto, ou respeito do progenitor. Alessandro Borghi consegue transmitir a violência, impulsividade e ambição do personagem que interpreta, um indivíduo que procura integrar o circulo restrito de "Samurai" (Claudio Amendola), um mafioso da velha guarda, antigo membro do grupo criminoso "Banda della Magliana", que é respeitado pela maioria das figuras deste espaço romano. A influência do Samurai ocorre no mundo do crime, da política e religião, com o Vaticano a também ter uma palavra a dizer no meio de toda esta teia de corrupção, enquanto "Suburra" aproveita para explorar as ligações perniciosas entre estes três meios que deveriam estar claramente separados. Stefano Sollima parece atirar-se às entranhas dos filmes noir e transportá-las para o interior da actualidade. Não faltam figuras imorais, clubes nocturnos, elementos com enorme propensão para se envolverem em problemas, a noite como testemunha de diversas ocorrências caóticas, com Sollima a criar um filme neo-noir estilizado e envolvente, pontuado por enorme violência e emotividade, onde diversos personagens têm espaço para crescerem ao longo da narrativa e "darem-se" a conhecer ao espectador, com os seus intérpretes a contarem com espaço para sobressair, em particular Pierfrancesco Favino, Claudio Amendola, Alessandro Borghi, Greta Scarano, Adamo Dionisi. No caso do personagem interpretado por Alessandro Borghi, os seus planos de ascensão no mundo do crime prometem ser coartados por Manfredi (Adamo Dionisi), o irmão de Spadino, um gangster violento, de etnia cigana, que se prepara para efectuar uma perseguição implacável ao primeiro.

Manfredi é o líder de um grupo criminoso associado à agiotagem, que não apresenta problemas em cometer as maiores atrocidades, inclusive o rapto de um criança, tendo em vista a vingar-se de Filippo e Adami, procurando pelo caminho fazer parte do plano que o personagem interpretado por Favino se encontra a orquestrar. Diga-se que os planos de Manfredi envolvem ainda Sebastiano (Elio Germano), um indivíduo que trabalha como relações públicas e perdeu recentemente o pai, contando com uma vasta rede de conhecimentos. O pai de Sebastiano atolou-se em dívidas junto de Manfredi, com este último a procurar que o personagem interpretado por Elio Germano salde as mesmas, com muito daquilo que acontece em "Suburra" a remeter para os jogos de poder entre os diversos personagens. Stefano Sollima apresenta esta miríade de personagens, até conseguir unir a maioria destes elementos em episódios em comum, algo notório na forma como quase todos parecem sentir a influência de Samurai. Claudio Amendola explana a aura de poder e segurança que rodeia Samurai, um gangster que parece regido pelos antigos valores do seu ofício, procurando manter a calma na sua área de acção, embora elementos como Manfredi, ou Adami sejam demasiado impulsivos para serem controlados. É certo que Samurai consegue controlar os danos em alguns momentos, algo que fica particularmente notório quando se livra de Bacarozzo (Nazzareno Bomba), um antigo companheiro no mundo do crime, que se encontra frustrado por ter visto o primeiro e Filippo ascenderem em planos distintos da sociedade romana. Bacarozzo esteve preso durante vinte anos, procurando ser compensado pelo período em que esteve "fora de acção", embora Samurai não esteja para meias medidas. O encontro entre Bacarozzo e Samurai exibe paradigmaticamente a capacidade de Sollima para adensar o impacto e a carga dramática daquilo que nos tem para apresentar. Os néones de tonalidades azuis e lilases permeiam o Dubai Café, o espaço onde Bacarozzo e Samurai se reúnem, um dos vários cenários aproveitados de forma assertiva ao serviço da narrativa. O café aparece como um espaço moderno, onde se reúnem dois gangsters da "velha guarda", embora Samurai pareça ter conseguido adaptar-se às transformações da sociedade do seu tempo, enquanto que Bacarozzo ainda se encontra preso às memórias do passado, algo que adensa essas dicotomias entre a modernidade e a antiguidade deste espaço urbano. Diga-se que o título do filme remete ainda para um local homónimo da Antiguidade Romana, que era conhecido pela sua má fama, devido a ser um espaço marcado pela prostituição e negociatas. No caso de "Suburra", também não falta prostituição, assassinatos, tráfico de influências, consumo de drogas, enquanto somos apresentados a diversos personagens cujos destinos se cruzam ao longo de vários momentos do filme, com o argumento, o trabalho de montagem e a realização de Stefano Sollima a contribuírem para que a maioria destes encontros pareçam naturais e orgânicos.

A narrativa flui a um ritmo intenso, tal como as emoções, enquanto a banda sonora faz-se sentir e de que maneira, com a canção "Outro" dos M83 a surgir em dois momentos marcantes, embora fique particularmente na memória quando esta começa a tocar numa cena à chuva, onde tudo parece funcionar. As cores surgem propositadamente frias, a chuva cai de forma violenta, enquanto Stefano Sollima explana de forma paradigmática a violência que pontua a vida destes personagens e o dia a dia deste espaço urbano. Se "Gomorra", de Matteo Garrone, colocava o espectador diante dos elementos dos escalões mais baixos da Camorra, de forma crua e visceral, já "Suburra" opta por uma faceta mais estilizada e apresenta mafiosos de estatuto mais elevado. A comparação com "Gomorra" não surge ao acaso, ou Stefano Sollima não tivesse realizado a adaptação televisiva do livro de Roberto Saviano, com ambos os filmes a apresentarem uma estrutura alargada de personagens que são relativamente bem aproveitados e concedem espaço para os seus intérpretes sobressaírem. Os personagens interpretados por Favino e Amendola acordaram um plano para ganharem poder no interior deste território de Ostia, enquanto Manfredi procura vingar-se de Filippo e intrometer-se nos planos deste político que procura aprovar uma lei que parece agradar às diferentes esferas de poder. No fundo, quase todos os personagens procuram disputar o poder e ganhar influência, mesmo que tenham de cometer crimes, ou utilizar a violência. Veja-se os momentos intensos que Greta Scarano protagoniza ao lado de Alessandro Borghi, em particular quando o personagem interpretado por este último começa a ser perseguido, com "Suburra" a contar com algumas cenas de acção bem coreografadas. O tiroteio no interior do supermercado, que envolve os homens de Manfredi, Número 8 e Viola são exemplo disso, com esta última a não ter problemas em tratar de se vingar e exibir uma ferocidade surpreendente quando está armada. Diga-se que a relevância da personagem interpretada por Greta Scarano cresce e de que maneira com o avançar da narrativa. Veja-se quando decide entrar num spa e elimina violentamente alguns dos rivais de Adami, ou quando tem de se esconder num momento de enorme virulência e inquietação, até expor os sentimentos de forma intensa. Inspirado no livro homónimo de Carlo Bonini e Giancarlo De Cataldo, "Suburra" transporta-nos para o interior de sete dias caóticos e marcantes de diversos personagens que habitam um espaço urbano pontuado pelo crime, imoralidade, violência e disputas de poder, enquanto Stefano Sollima consegue mexer nas peças que tem à disposição com enorme eficácia e inspiração.

Título original: "Suburra".
Realizador: Stefano Sollima.
Argumento: Stefano Rulli, Sandro Petraglia, Carlo Bonini, Giancarlo De Cataldo.
Elenco: Pierfrancesco Favino, Alessandro Borghi, Elio Germano, Claudio Amendola, Greta Scarano, Giulia Elettra Gorietti.