14 março 2016

Resenha Crítica: "La classe operaia va in paradiso" (1971)

 A certa altura de "La classe operaia va in paradiso", encontramos Ludovico Massa (Gian Maria Volontè), mais conhecido como Lulù, a manejar uma máquina de forma incessante, quase como se estivesse numa relação sexual com a mesma, utilizando um método peculiar para manter este ritmo: fabricar uma peça e pensar no rabo de Adalgisa (Mietta Albertini), uma colega de trabalho na B.A.N., uma fábrica. Lulù é um operário sem consciência de classe, algo rude e pouco polido a nível da fala, que vive para trabalhar e parece pouco dado a formar grandes amizades, orgulhando-se de ser o funcionário mais rápido da fábrica, embora os seus métodos e atitudes apenas despertem alguma fúria junto dos colegas que procuram melhores condições laborais e salariais. "La classe operaia va in paradiso" marca mais uma colaboração entre Gian Maria Volontè e Elio Petri, com o cineasta a elaborar uma obra cinematográfica de pendor abertamente político e social, sempre com alguma mordacidade, enquanto o actor empresta a sua intensidade, talento e carisma a este operário de personalidade vincada. Lulù habita num apartamento modesto com Lidia (Mariangela Melato), a sua companheira, bem como com Arturo (Federico Scrobogna), o filho desta, fruto de outra relação. Lulù é casado com Ginevra, embora já não viva com esta mulher, de quem tem um filho, o jovem Armando. O ambiente na fábrica é pontuado por rotinas quase desumanas, com a alienação a predominar, enquanto os operários são colocados perante objectivos praticamente impossíveis de alcançar sem colocarem em risco a sua integridade física e mental, algo que Lulù vai perceber da pior forma. Fora da fábrica, os protestos são mais do que muitos quer dos estudantes universitários, quer dos sindicalistas, com Elio Petri a procurar representar o ambiente fervilhante da época e a expor a sua visão sobre a incapacidade de alguns intelectuais em compreenderem as necessidades dos trabalhadores destes espaços. Diga-se que existe uma incompreensão mútua, algo notório nas atitudes do protagonista, um operário que inicialmente parece pouco preocupado em relação a estes assuntos laborais. O ambiente que rodeia a entrada e a saída da fábrica é intenso, com os sindicalistas e os estudantes universitários a procurarem que os trabalhadores se unam para lutarem por melhores condições laborais, embora tenham ideais distintos, com os segundos a apresentarem uma atitude mais extremista. Alguns operários parecem ter consciência da necessidade de lutarem por melhores condições de trabalho, enquanto outros pouco se preocupam com o assunto quer por falta de vontade, quer por terem medo de perder o emprego. Lulù procura sobretudo cumprir as tarefas que lhe são designadas, tendo pouca paciência para perder tempo, incluindo quando é para falar com os colegas ou a ensinar novatos como Tarcisio Mena (Corrado Solari) e Salvatore. Elio Petri exibe esta fábrica como um meio de isolação e exploração do ser humano, algo que conduz muitos destes elementos a começarem a contar com problemas físicos e mentais. Veja-se o caso de Militina (Salvo Randone), um antigo colega de trabalho de Lulù, conhecido pelos seus feitos laborais, que se encontra actualmente internado num hospital psiquiátrico.

 Salvo Randone, uma presença habitual nos filmes de Elio Petri, tem em "La classe operaia va in paradiso" mais um papel secundário relevante, com o actor a transmitir quer a perturbação de Militina, quer a consciência que este tem em relação aos motivos que o conduziram à loucura, com o antigo operário a ser um dos poucos amigos do protagonista. Militina permite a Elio Petri exibir paradigmaticamente os perigos que envolvem o ser humano quando este se abstrai imensamente da realidade que o rodeia, mas também a crueldade do mundo laboral, com o primeiro a ser praticamente um desconhecido no interior da fábrica, um local onde outrora deixara marca. Este é um espaço onde os operários repetem diariamente, durante horas a fio, os mesmos procedimentos e gestos, muitas das vezes sem entenderem a utilidade da sua actividade, parecendo praticamente escravos que laboram de forma coordenada para uma entidade que nunca chegam a conhecer, uma situação que o protagonista chega a salientar ao comentar com a companheira que não percebe ao certo quem são os elementos que comandam a multinacional onde trabalha. O stress e as rotinas laborais parecem mexer com a mente de Lulù, com tudo a piorar quando sofre um acidente, provocado quer pelo perigo da sua função, quer pela sofreguidão que apresenta no cumprimento da mesma. Este perde um dedo, algo que altera a sua vida, com diversos colegas a manifestarem-se em sua defesa, enquanto Lulù começa a exibir uma maior consciência em relação à luta sindical, participando em reuniões e protestos. Diga-se que Lulù também vai ganhar consciência das contradições que existem no interior dos movimentos sindicais e estudantis, sobretudo quando é despedido e estes últimos desinteressam-se pelo caso devido a não ser uma questão de classe, mas sim algo individual. Os sindicatos procuram chegar a consensos, enquanto o protagonista depara-se com uma existência recheada de contradições, trabalhando como operário embora desfrute dos produtos capitalistas. Veja-se quando começa a analisar o preço de diversos objectos que se encontram no interior da sua casa e o tempo que despendeu para conseguir a verba para adquiri-los, ou o seu interesse por futebol, um desporto que envolve verbas avultadas. Diga-se que a casa do protagonista conta com a presença de um boneco do Tio Patinhas, algo que não deixa de ser irónico, ou este personagem não fosse um símbolo do capitalismo e riqueza, com o brinquedo a não parecer ter sido colocado ao acaso na casa de Lulù. Elio Petri também procura desenvolver temáticas relacionadas com a vida pessoal do protagonista, algo que permite explanar que a alienação e solidão destes indivíduos no local de trabalho tem repercussões na vida social e familiar dos mesmos. A relação do protagonista com as mulheres é problemática, uma situação notória quando encontra um esconderijo para fazer sexo com Adalgisa, embora não consiga satisfazer esta figura feminina que fica pouco impressionada com o desempenho de Lulù, um indivíduo pouco romântico, que parece transportar o seu modo de trabalhar prático e rápido para a vida sexual. A relação entre Lulù e Lidia também é conturbada. Esta é uma cabeleireira que gosta de alguns luxos e utilizar perucas, parecendo gostar de Lulù, embora este seja rude e agressivo. Já Ginevra apenas pretende que o protagonista envie o dinheiro para ajudar na educação do filho, algo que este nem sempre efectua. Gian Maria Volontè atribui uma intensidade notória a Lulù, um indivíduo pronto a exprimir os seus sentimentos quando se encontra na fábrica, embora a espaços pareça exibir uma atitude letárgica, sobretudo quando a sua vida parece entrar num marasmo impossível de fugir.

 Na fábrica, Lulù grita, exibe expressões intensas, procura desafiar os seus colegas, pelo menos até perder um dedo, com Elio Petri a conceder um ritmo quase vertiginoso ao trabalho destes indivíduos nas máquinas. A cinematografia, o trabalho de montagem e a banda sonora de Ennio Morricone contribuem para a intensidade de alguns momentos na fábrica. Veja-se quando encontramos Lulù a fabricar peças que servem para colocar num motor, com os close-ups, muitas das vezes extremos, adensados pela troca de planos rápida, a exibir o fervor e concentração do protagonista. É dada atenção aos movimentos efectuados por Lulù, bem como às diferentes peças da máquina, com o espaço da fábrica a ser aproveitado de forma exímia, incluindo as divisões entre os trabalhadores e os seus superiores, com estes últimos a encontrarem-se numa zona completamente distinta. Nos momentos iniciais de "La classe operaia va in paradiso", encontramos Lulù e os companheiros a entrarem na fábrica, com as massas a surgirem enfileiradas, enquanto a música de Ennio Morricone se faz sentir e de que maneira no interior desta cena poderosíssima. Os movimentos dos operários parecem praticamente mecanizados, com a entrada na fábrica a exibir paradigmaticamente essa situação, enquanto Elio Petri procura explorar temáticas relacionadas com o quotidiano destes trabalhadores. Elio Petri é um cineasta politicamente engajado, algo que volta a exibir em "La classe operaia va in paradiso", procurando expor com alguma intensidade e crueza o trabalho dos trabalhadores de uma fábrica, numa fase fervilhante da vida política e social italiana (o filme foi lançado em 1971). Como salienta Larry Portis, o cineasta procura questionar aquilo que significa a "classe operária/trabalhadora", bem como a relação entre os elementos que compõem a mesma e a entidade patronal: "The working class is structured by social relations of capitalist production, but the perceptions and consciousness of working-class people are conditioned by ideology and values engendered by capitalist enterprise and commercial processes". No caso de "La classe operaia va in paradiso", Lulù começa a tomar consciência da sua posição precária na sociedade, com o final a trazer um sabor agridoce, a fazer recordar obras cinematográficas de Elio Petri como "A ciascuno il suo" (vale a pena salientar que o filme a ser alvo de resenha é o segundo volume da chamada "trilogia della nevrosi", iniciada com "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto"). Diga-se que algumas das temáticas não se desactualizaram assim tanto quanto isso, algo notório na procura dos donos desta grande empresa capitalista em maximizarem a produção sem aumentarem os salários dos trabalhadores. Elio Petri consegue explanar as suas ideias, sem esconder para onde pende a sua simpatia e os seus ideais de esquerda, efectuando uma exposição bem viva do quotidiano no interior de uma fábrica, enquanto exibe algumas das contradições dos movimentos estudantis e sindicais, bem como dos próprios operários ao longo desta obra cinematográfica relevante, pontuada por mais uma interpretação intensa e marcante de Gian Maria Volontè.

Título original:"La classe operaia va in paradiso".
Título no Brasil: "A Classe Operária Vai para o Paraíso". 
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Elio Petri e Ugo Pirro.
Elenco: Gian Maria Volonté, Mariangela Melato, Salvo Randone, Federico Scrobogna, Mietta Albertini.

12 março 2016

Resenha Crítica: "I compagni" (1963)

 "I compagni" poderia praticamente ser exibido com o acompanhamento de "La classe operaia va in paradiso" (1971 - Elio Petri), com ambos os filmes a abordarem temáticas relacionadas com os direitos laborais, as lutas do operariado e as dificuldades inerentes a estas "batalhas", para além de exibirem o quotidiano desgastante destes trabalhadores. Realizado por Mario Monicelli, "I compagni" coloca o espectador diante da luta operária, no final do Século XIX, em Turim, uma cidade em franca expansão industrial. As rotinas destes trabalhadores são desgastantes e as condições laborais pouco seguras, existindo um risco enorme dos operários sofrerem lesões graves ou um desgaste perigoso do ponto de vista mental. Estes perigos são expostos de forma paradigmática no primeiro terço de "I compagni", quando um dos trabalhadores fica gravemente ferido. Os colegas procuram iniciar um protesto, embora pareçam incapazes de criar uma estrutura sólida que permita uma luta articulada contra o patronato. Diga-se que muitos destes elementos são analfabetos, algo que se deve ao facto de terem começado a trabalhar desde muito cedo, tendo em vista a sustentarem as suas famílias. Pautasso (Folco Lulli), Martinetti (Bernard Blier) e Cesarina (Elvira Tonelli) procuram assumir as despesas da formação de uma espécie de comité que permita reunir os quinhentos trabalhadores da fábrica têxtil, com o grupo a decidir efectuar uma hora de greve. No entanto, os operários logo se amedrontam, com Pautasso, o indivíduo que se disponibilizou para tocar o sino, uma hora mais cedo, tendo em vista a assinalar o final do trabalho, a ser penalizado com uma suspensão de duas semanas. Pautasso é um indivíduo rude, de bom coração, mas agressivo e expansivo, com Folco Lulli a compor um personagem que surpreende pelo seu espírito combativo. As intenções de Pautasso e dos colegas são boas, mas estes elementos parecem incapazes de formar um grupo articulado forte, que consiga contrariar e enfrentar o patronato, algo que remete para os personagens dos filmes de Mario Monicelli que procuram alcançar grandes feitos, embora não tenham a argúcia e capacidade para colocar os planos em prática. No caso, estes operários pretendem o seguinte: diminuição do horário de trabalho de catorze para treze horas diárias; um aumento do intervalo para o almoço (de trinta minutos para uma hora); melhores condições de remuneração. Pautasso protagoniza alguns dos momentos de humor que pontuam o enredo, algo que a espaços permite desanuviar um pouco a atmosfera pesada da narrativa, com Mario Monicelli, conhecido pela sua mestria nas "comédias à italiana", a ter em "I compagni" um drama envolvente, complexo, dotado de um conjunto de personagens que deixam marca e uma representação intensa de uma greve operária. O momento de mudança na narrativa acontece com a chegada de Sinigaglia (Marcello Mastroianni), um professor que se encontra foragido da polícia, que procura estimular os operários a lutarem por melhores condições e direitos laborais.

De óculos, uma barba saliente, um guarda-roupa que explana a sua parca condição financeira e um apetite voraz, Sinigaglia é, muito provavelmente, o personagem que mais se destaca ao longo de "I compagni", ou não fosse uma figura pontuada por algumas contradições, capaz de despertar a admiração e o ódio de diversos elementos. Sinigaglia não é um operário, embora defenda os direitos dos mesmos como se fizesse parte deste núcleo de trabalhadores, apresentando um conjunto de ideais considerados subversivos, algo que se deve ao facto de lutar contra o poderio do patronato e do grande capital. Inicialmente, o personagem interpretado por Marcello Mastroianni é pouco consensual junto dos trabalhadores, embora o seu discurso comece a surtir efeito, com o actor a incutir um carisma indelével a este indivíduo com um dom notório para a oratória. Veja-se no último terço, quando Sinigaglia coloca a sua liberdade em risco, tendo em vista a estimular os diversos operários para não desistirem da luta, enquanto Mastroianni brilha em bom nível, exibindo mais uma vez que é um actor extraordinário. Marcello Mastroianni é uma das diversas peças que conseguem elevar a narrativa de "I compagni", com Mario Monicelli a mesclar elementos de drama social e familiar, enquanto explana, com sucesso, o quotidiano de um grupo de operários que decide tomar a atitude corajosa de tentar conquistar direitos laborais. É uma luta desigual, os operários sabem disso, tal como o espectador, algo que conduz a algumas discussões entre os protagonistas, enquanto o patronato procura jogar com o cansaço e a falta de dinheiro dos primeiros (que sobrevivem muitas das vezes graças às colectas que fazem entre si). "I compagni" coloca o espectador diante da criação de um movimento operário, com Sinigaglia a procurar que os trabalhadores percebam a necessidade de se encontrarem unidos para alcançarem os seus desideratos. Sinigaglia procura que os operários não cedam, enquanto alguns personagens começam a sobressair no interior do grupo, bem como os respectivos intérpretes, com Mario Monicelli a dar espaço para que os seus actores e actrizes componham personagens dotados de alguma dimensão e interesse. Entre esses operários que sobressaem encontram-se elementos como Raoul (Renato Salvatori), um indivíduo impetuoso, que inicialmente não parece bastante convencido das ideias de Sinigaglia, embora a dupla acabe por formar uma relação de respeito; Martinetti, um trabalhador ponderado, que luta pelos seus direitos apesar de apresentar algumas dificuldades em manter a postura belicosa contra o patronato; Cesarina, uma mulher de personalidade forte, robusta, pronta a tomar medidas e a envolver-se no interior das decisões tomadas maioritariamente por figuras masculinas; Omero (Franco Ciolli), um pré-adolescente que procura ajudar nas despesas da casa, tendo uma relação relativamente conturbada com a irmã mais velha (Raffaella Carrà) e o irmão mais novo.

Omero procura que o irmão estude e não se envolva no trabalho na fábrica (a cena em que agride o jovem para que este comece a estudar exibe esse receio), embora Mario Monicelli desfira um murro no estômago do espectador num determinado momento da narrativa. Diga-se que Monicelli tem uma predilecção para se "livrar" de personagens relevantes, algo notório em filmes como "I soliti ignoti", "La grande guerra" e "L'armata Brancaleone", com "I compagni" a não ser excepção. "I compagni" procura explanar as dificuldades inerentes ao dia a dia destes trabalhadores, mas também a heterogeneidade do operariado e as diferentes perspectivas com que cada elemento encara a possibilidade da greve. Veja-se o caso de Negrus, um siciliano que pede para furar a greve, embora esteja longe de ser representado como uma figura unidimensional, com "I compagni" a exibir as razões deste indivíduo. É certo que a educação e os valores conservadores de Negrus contribuem para esta atitude (o argumento explora ainda as diferenças culturais entre os habitantes de diferentes regiões de Itália), embora o mesmo viva em condições miseráveis com a esposa e os filhos. A casa de Negrus permite ainda explanar o cuidado colocado por Mario Monicelli na representação dos espaços habitados por estes elementos. Veja-se ainda a casa da família de Omero, um jovem que vive no limiar da pobreza, ou a necessidade de Sinigaglia ter de dormir na habitação de Raoul, com estes espaços a exibirem as dificuldades destes personagens. Renato Salvatore é um dos vários elementos do elenco que se destacam, com o actor a convencer em relação à tomada de consciência de Raoul, um operário que começa a perceber a relevância da luta protagonizada pelo grupo, com o jovem a manter ainda uma paixoneta por Adela (Gabriella Giorgelli). Aos poucos, assistimos ao nascimento de uma certa noção de classe ou de grupo por parte destes trabalhadores, mas também as dificuldades que atravessam, os laços que formam e se desfazem, enquanto somos surpreendidos muitas das vezes com os actos de alguns personagens. Veja-se o caso de Niobe (Annie Girardot), uma prostituta, filha de um operário, que forma uma relação de amizade e enorme afecto com o personagem interpretado por Marcello Mastroianni, ajudando este último num momento mais delicado. Annie Girardot tem uma interpretação competente como esta mulher de enorme beleza, que se envolveu na prostituição para não ter que trabalhar numa fábrica, com a actriz a exibir uma dinâmica convincente com Marcello Mastroianni (a própria banda sonora assume contornos melodiosos quando Niobe e Sinigaglia estão juntos), enquanto "I compagni" expõe a dura realidade que envolve estes personagens. Muitos operários não sabem ler e contam com finanças depauperadas, o dono da fábrica e os gerentes procuram apenas o lucro, parecendo difícil escapar a este ciclo vicioso de trabalho a baixo custo, enquanto Mario Monicelli realiza um drama de pendor social que não procura "pregar" as suas ideias, embora também não tenha problemas em expor as mesmas.

 A presença da fábrica têxtil marca este espaço citadino, com o seu fumo a contaminar os céus (o trabalho de Giuseppe Rotunno na cinematografia é fundamental para captar a atmosfera opressora em volta deste local), enquanto as regras estabelecidas no interior da mesma parece afectar o quotidiano de boa parte dos personagens. Veja-se o quotidiano opressivo no interior deste espaço pontuado por ritmos de trabalho intensos, imenso fumo e barulho, máquinas a funcionarem de forma imparável, com a fábrica a marcar este território de Turim, uma cidade que na época se encontrava a conhecer um rápido processo de industrialização. Diga-se que parte do interior da fábrica foi filmada em Zagreb, algo comentado por J. Hoberman no seu magnífico texto para a Criterion: "Because little was left of nineteenth-century Turin, the movie was actually shot in the nearby Piedmontese cities of Cuneo, Fasano, and Savigliano, with the vast factory interior filmed in Zagreb, Yugoslavia". Os protagonistas de "I compagni" a espaços fazem recordar os grupos de "I soliti ignoti" e "L'armata Brancaleone", com os personagens a tentarem realizar feitos aparentemente impossíveis, independentemente da incapacidade que apresentam para colocarem os mesmos em prática. Embora também tenha alguns momentos de humor, "I compagni" apresenta um tom mais sério do que os exemplos citados ou "comédias à italiana" de Monicelli como "Casanova '70" e "La ragazza con la pistola". Diga-se que o próprio cineasta (entrevista no vídeo colocado no final do texto) assumiu essa tentativa de expor um grupo que procura melhorar as suas condições de vida, em particular trabalhar menos uma hora por dia e receber uma melhoria salarial, embora os seus integrantes tardem em conseguir esse objectivo, uma situação que conduz quer a situações trágicas, quer cómicas. Veja-se quando encontramos Pautasso pronto a travar a vinda de trabalhadores de outro local, embora o seu desiderato não termine da melhor maneira, ou a forma como o professor consegue inicialmente escapulir-se da polícia ao fingir que é outra pessoa, entre outros episódios. A vinda de operários de outros locais exibe a procura dos elementos que gerem a fábrica de se aproveitarem do desemprego, utilizando as dificuldades destes trabalhadores para explorá-los ao máximo e assustá-los com o fantasma do despedimento (um comentário que continua relativamente actual). Temos ainda a representação da presença militar, com "I compagni" a expor como os grandes interesses económicos também estavam ligados aos políticos, com os trabalhadores a não encontrarem uma protecção nas figuras que governam este espaço citadino de Turim. No entanto, vale a pena realçar que Antonio (Enzo Casini), um militar que desperta a atenção da irmã de Omero, é representado de forma relativamente simpática, algo que transmite a procura de "I compagni" em problematizar o meio que aborda e apresentar uma visão sobre o mesmo que não seja "a preto e branco". "I compagni" surge como um drama de época de características neorrealistas, filmado fora dos espaços dos estúdios, pronto a abordar temáticas relacionadas com personagens das margens e a luta operária, sempre com alguma crueza e humor à mistura, com Mario Monicelli a realizar mais uma obra cinematográfica relevante e envolvente.

Título original: "I compagni".
Título no Brasil: "Os Companheiros".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Mario Monicelli, Age & Scarpelli.
Elenco: Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, Annie Girardot, Folco Lulli, Gabriella Giorgelli, Franco Ciolli, Raffaella Carrà, Bernard Blier.

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11 março 2016

Resenha Crítica: "Pride and Prejudice and Zombies" (Orgulho e Preconceito e Guerra)

 Irregular e temeroso, "Pride and Prejudice and Zombies" parece ter receio de arriscar ou assumir uma identidade, algo que deixa esta obra cinematográfica a meio caminho de quase tudo aquilo a que se propõe. É certo que está longe de ser um desastre, ou uma completa perda de tempo. Também é notório que consegue mesclar em alguns momentos a história do clássico livro de Jane Austen com o contexto pós-apocalíptico que envolve os protagonistas, sobretudo nos momentos iniciais, embora Burr Steers, o realizador e argumentista, nunca pareça saber o rumo que pretende seguir. Steers esgueira-se pelas fronteiras dos filmes de época, acção, zombies, terror, romance, paródia ou sátira, ainda que não consiga mesclar os diversos "ingredientes" de forma assertiva, algo que não impede "Pride and Prejudice and Zombies" de ter alguns bons apontamentos, apesar do parco desenvolvimento de diversos personagens secundários, da necessidade extrema de apressar alguns acontecimentos da narrativa ao ponto de parecerem forçados e expor as cenas mais violentas de forma sensaborona (tendo em vista a manter a sua classificação PG-13). O conceito é peculiar, apesar de se esvaziar com facilidade, com esta adaptação cinematográfica do livro de Seth Grahame-Smith a reunir o universo narrativo de "Pride and Prejudice" com zombies e um contexto pós-apocalíptico. Nem tudo funciona, embora confesse que gostei imenso de ver Lily James como esta Elizabeth Bennet simultaneamente frágil, pronta para a pancadaria, inteligente e independente, com a actriz a convencer quer nas cenas de acção, quer nas mais dramáticas, embora não faça esquecer Keira Knightley na magnífica adaptação do livro de Jane Austen, realizada por Joe Wright. Diga-se que o propósito de "Pride and Prejudice and Zombies" não é copiar a obra cinematográfica de Joe Wright, até pelos filmes apresentarem propostas e conceitos distintos. A sensibilidade num toque entre Mr. Darcy (Sam Riley) e Elizabeth é trocada por um confronto entre a dupla, muito a fazer recordar "The Mask of Zorro", onde a batalha conduziria a uma abertura de vestimentas. O Mr. Darcy que nos é apresentado é um caçador de zombies implacável, conhecido pela sua personalidade austera e lacónica, bem como pelas suas vastas propriedades (dono de metade de Derbyshire). Sam Riley convence em relação à arrogância de Darcy e à sua habilidade para a matança (se esquecermos por vezes o seu tom de voz), embora o romance entre este personagem e Elizabeth não seja devidamente desenvolvido. A dinâmica entre Sam Riley e Lily James não é totalmente aproveitada, bem como o choque de classes entre os personagens que interpretam, algo notório quando chega o primeiro pedido de casamento e uma carta reveladora, duas situações que deveriam causar impacto embora Burr Steers não consiga atribuir-lhes a relevância que mereciam. Burr Steers parece ficar enredado entre algumas das suas limitações e aquelas que lhe foram impostas pelo estúdio, algo que, muito provavelmente, impede "Pride and Prejudice and Zombies" de ganhar uma voz forte ou atirar-se de cabeça para o absurdo que envolve toda a sua premissa.

 O enredo do filme desenrola-se em Inglaterra, durante o Século XIX, com o país a encontrar-se num estado caótico devido a um vírus que transformou boa parte da população em zombies devoradores de cérebros. Diga-se que estes zombies estão longe de serem figuras desprovidas de inteligência, com alguns destes seres a conseguirem falar e montar armadilhas, existindo até uma espécie de aristocracia de mortos-vivos que supostamente apenas se alimenta de cérebros de macacos. O número elevado de zombies conduziu os elementos não infectados a treinarem técnicas de defesa e ataque na China ou no Japão, tendo em vista a defenderem-se de um possível ataque. A possibilidade de um Apocalipse Zombie é real, com a maioria dos não infectados a estar em alerta, enquanto procuram seguir com as suas vidas. As irmãs Bennet, nomeadamente, Elizabeth (Lily James), Jane (Bella Heathcote), Kitty (Suki Waterhouse), Lydia (Ellie Bamber) e Mary (Millie Brady), foram treinadas na China (algo parece remeter para um estatuto social inferior, enquanto que quem treinou no Japão tem mais posses), a pedido do pai de ambas, Mr. Bennet (Charles Dance). Destas irmãs, apenas Elizabeth e Jane conseguem sobressair, enquanto Kitty, Lydia e Mary surgem praticamente como material de decoração. As cinco irmãs vivem com os pais, Mr. Bennet e Mrs. Bennet (Sally Phillips), um casal de personalidade distinta. Se Mr. Bennet é um indivíduo cuidadoso e discreto, que raramente é aproveitado ao longo da narrativa, já Mrs. Bennet é uma mulher expansiva que procura casar as filhas a todo o custo, mesmo que estas não estejam para aí viradas (como é o caso de Elizabeth). Mrs. Bennet surge como uma figura quase ridícula, exposta de forma caricatural, que procura casar as filhas a todo o custo, com "Pride and Prejudice and Zombies" a falhar muitas das vezes na crítica social, ou de costumes, embora talvez esteja a ser demasiado optimista ao pensar que Burr Steers considerou esta hipótese. A personagem interpretada por Sally Phillips procura juntar Jane com Mr. Bingley (Douglas Booth), um indivíduo abastado, que chega a este território do interior acompanhado pelas suas irmãs e pelo melhor amigo, Mr. Darcy. Bingley e Jane apaixonam-se com facilidade, enquanto Elizabeth e Darcy apresentam uma animosidade latente, ainda que a nível inicial. Os personagens interpretados por Douglas Booth e Bella Heathcote entram em contacto num baile, com Burr Steers a ser fiel à época representada ao expor estes eventos como um meio de convívio, embora acrescente ataques de mortos-vivos à equação. O design a nível dos cenários interiores é competente, enquanto o guarda-roupa procura transmitir o período em que se desenrola a narrativa, apesar das jovens estarem acompanhadas de armamento para o caso de se depararem com zombies. Veja-se logo no início de "Pride and Prejudice and Zombies", quando encontramos as irmãs Bennet a limparem as suas armas, algo que evidencia a preparação destas figuras femininas para a arte do combate. Os militares procuram defender o território, embora a ameaça provocada pelos zombies pareça aumentar exponencialmente, uma situação que promete colocar a vida de vários personagens em perigo. Diga-se que o perigo raramente é sentido, com Burr Steers a parecer ter medo de mexer com alguns personagens relevantes, algo que piora quando existe um parco aproveitamento e desenvolvimento das figuras secundárias. Veja-se o caso das irmãs de Elizabeth, ou a unidimensionalidade de Mr. Bingley, um indivíduo simpático, interpretado por Douglas Booth, um actor incapaz de incutir sentimento ao personagem, ou o episódio da procura de Mr. Wickham (Jack Huston) em envolver-se com Lydia como meio de se vingar de Elizabeth e Darcy.

 A notícia de que Lydia fugiu com Wickham perde todo o poder devido ao facto da primeira pouco ou nada ter sido desenvolvida ao longo da narrativa, embora Jack Huston interprete eficazmente uma figura manipuladora, dotada de malícia, que nos apresenta a uma "aristocracia" de zombies. Se a desinspiração nas cenas de acção pode ser perdoada, já o pouco desenvolvimento de alguns personagens e a incapacidade de tornar os zombies em criaturas que despertem receio no espectador revelem acima de tudo imenso desleixo e incompetência. É certo que Steers procura manter diversos diálogos e momentos que pertencem à obra literária de Jane Austen, algo notório quando Mr. Darcy descreve Elizabeth como "tolerável", ou na procura da tia deste em afastar a jovem do sobrinho. A tia de Darcy é Lady Catherine de Bourgh (Lena Headey), uma figura caricatural, conhecida por ser uma caçadora de zombies temível, que utiliza uma pala num olho e é completamente impossível de levar a sério. O mesmo acontece com Matt Smith, embora o actor pareça perceber melhor do que ninguém o filme em que está inserido, acertando nos timings cómicos como Padre Collins, um pretendente de Elizabeth. A relação entre Elizabeth e Darcy acontece no interior deste contexto violento, com os zombies a colocarem diversos elementos em perigo, embora Burr Steers não consiga transportar esse receio ou medo para o espectador, bem pelo contrário. Essa incapacidade de despertar o medo no espectador, ou criar algum desassossego em relação ao destino dos personagens, remete para a falta de um argumento forte, que contribua para a construção de figuras com quem seja possível gerar alguma identificação ou preocupação, bem como para a inconsistência de "Pride and Prejudice and Zombies" e a falta de inspiração com que Burr Steers filma esta obra cinematográfica. Por vezes quase que existe vontade de clamar para que Steers assuma de vez o tom camp do filme, ou simplesmente que mantivesse a história original mesclada com zombies. Algumas ideias funcionam, tais como a criação de uma espécie de a aristocracia zombie, embora sejam desperdiçadas pela falta de desenvolvimento. É certo que a premissa de "Pride and Prejudice and Zombies" pede para desligarmos muitas das vezes o nosso lado mais pragmático, algo que permite apreciar algumas trocas de diálogos, ou o desempenho de Lily James como Elizabeth Bennet, ou soltar alguns risos, embora Burr Steers deixe o travo amargo de que poderia ter pegado em todos os elementos que lançou e efectuado um filme que não se limitasse a sobressair pela sua ideia inicial. No final, não senti que tivesse perdido tempo a ver "Pride and Prejudice and Zombies", mas também não consegui deixar de pensar em tudo aquilo que o filme poderia ter sido, mas não foi, ou não conseguiu ser...

Título original: "Pride and Prejudice and Zombies".
Título em Portugal: "Orgulho e Preconceito e Guerra".
Realizador: Burr Steers.
Argumento: Burr Steers.
Elenco: Lily James, Sam Riley, Jack Huston, Bella Heathcote, Douglas Booth, Matt Smith, Charles Dance, Lena Headey.

Resenha Crítica: "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" (1970)

 Entre protestos populares, polícias reaccionários, interrogatórios que parecem infringir claramente a lei, um homicídio macabro, flashbacks que trazem uma miríade de memórias e uma investigação que se encontra corrompida pelo facto do assassino se encontrar ligado à mesma, "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" coloca-nos diante do quotidiano de um Inspector (Gian Maria Volontè) do Departamento de Homicídios de uma esquadra localizada em Roma. Este é o cidadão acima de qualquer suspeita do título desta longa-metragem realizada por Elio Petri, com o realizador e agumentista a colocar-nos diante de uma narrativa pontuada por algumas reviravoltas, uma investigação intrincada a um assassinato e um interessante estudo de personagem. O protagonista é um inspector reaccionário e homofóbico, que apresenta uma personalidade violenta e ideais fascistas, encontrando-se em plena ascensão na carreira, embora se prepare para hipotecar o seu futuro ao assassinar Augusta Terzi (Florinda Balkan), uma mulher com quem mantinha um caso. Augusta é uma mulher sensual, provocadora e masoquista, que conhecemos sobretudo através dos diversos flashbacks que povoam a narrativa de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", com Elio Petri a utilizar este recurso de forma pertinente. O início do filme é marcado pelo assassinato de Augusta. A música de Ennio Morricone, bastante sentida e pronta a mesclar o tom simultaneamente inquietante e algo peculiar que rodeia esta obra cinematográfica, silencia-se durante a colocação do assassinato em prática. Os lençóis negros não enganam, o momento é de luto, embora o som emitido por Augusta ludibrie temporariamente o espectador, ou esta não se encontrasse em pleno acto sexual com o personagem interpretado por Gian Maria Volontè. O protagonista aproveita o momento para assassinar Augusta com uma lâmina, um acto frio, aparentemente planeado antecipadamente. Não sabemos se o protagonista pretende escapar incólume ao assassinato ou simplesmente desafiar a capacidade de investigação dos seus colegas. Nesse sentido, tanto encontramos este inspector a encobrir provas como a deixar pistas para serem descobertas pelos seus colegas, sejam impressões digitais, um pedaço de tecido de uma gravata, pegadas manchadas de sangue, para além de ser visto por Antonio Pace (Sergio Tramonti), um vizinho e amante de Augusta, um jovem radical, que se prepara para embater de frente com o protagonista. Diga-se que este acto vai ocupar o tempo de diversos elementos da esquadra, com o inspector a procurar ter um papel activo na investigação, embora tenha sido destacado para liderar o Departamento Político e Social, tendo em vista a reprimir os protestos populares. Esta ascensão na carreira do protagonista surge como um meio para Elio Petri e Ugo Pirro, a dupla de argumentistas, abordarem a atmosfera política e social fervilhante deste período, algo latente nas notícias de ataques bombistas, protestos populares, entre outros episódios que a espaços são expostos ao longo do enredo de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto".

A ascensão profissional confirma alguns dos méritos do percurso laboral do protagonista, um inspector conhecido pela competência e violência no cumprimento dos seus serviços. Para o personagem interpretado por Gian Maria Volontè, a "repressão é a nossa vacina", algo que diz muito dos valores deste elemento que deveria zelar pelo cumprimento da lei, embora as suas práticas estejam longe de serem recomendáveis, parecendo consumido pelo poder e pelos benefícios que a sua posição pode trazer. Diga-se que Elio Petri efectua um retrato nem sempre simpático das autoridades, algo que a espaços resvala propositadamente para o exagero, com quase todos os elementos a não terem problemas em utilizar a violência física e verbal nos interrogatórios (embora esta temática nem esteja assim tão desactualizada, basta pensarmos nas polémicas relacionadas com o Campo de Detenção da Baía de Guantánamo). O comentário político e social é transversal a diversas obras cinematográficas de Elio Petri, algo bem visível em "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", com o cineasta a efectuar uma crítica latente à impunidade dos mais poderosos, bem como ao autoritarismo de alguns elementos das autoridades. Veja-se os discursos praticamente fascistas do protagonista, algo que remete para o retrato pouco simpático das autoridades de outras obras de Elio Petri como "L'assassino" e "A ciascuno il suo". Gian Maria Volontè consegue expressar as contradições deste inspector que tanto surge implacável e vivaz no cumprimento do seu ofício como se revela frágil e incapaz a nível pessoal. A relação entre o inspector e Augusta é paradigmática dessas contradições do protagonista, com este a sentir-se fascinado por esta figura que o compele a colocar em prática os actos mais bizarros. Veja-se nos flashbacks, quando encontramos Augusta a simular as posições das vítimas de homicídio dos casos investigados pelo protagonista, enquanto este último fotografa a amante, ou os momentos em que o personagem interpretado por Gian Maria Volontè finge que se encontra a interrogar esta figura feminina, utilizando alguma violência. Augusta parece apreciar estes episódios, tal como o protagonista, com a relação entre ambos a ser marcada pela estranheza desde os momentos iniciais. A personagem interpretada por Florinda Balkan efectuara telefonemas misteriosos para o inspector, algo que despertou a curiosidade deste indivíduo em relação a esta mulher casada. O assassinato de Augusta muda o quotidiano do protagonista, com este acto a parecer uma maneira bizarra para o inspector avaliar o seu poder e influência, para além de explanar que este se sentiu despeitado devido a alguns gestos e palavras desta mulher.

Os flashbacks são essenciais para desenvolver a personagem interpretada por Florinda Balkan (remetendo praticamente para "L'assassino", uma obra cinematográfica onde Elio Petri utilizou este recurso de forma exímia), com a actriz a convencer em relação à personalidade magnética desta figura feminina dotada de enorme beleza e estranheza, que procura estimular o protagonista a transgredir a lei, acabando por ser vítima deste último. Este parece não se encontrar totalmente consciente das possíveis consequências do seu acto, ou talvez até esteja demasiado convencido de que sairá incólume, uma situação notória quando o protagonista sai do local do crime acompanhado por duas garrafas de champanhe, tendo em vista a comemorar a promoção para o novo departamento. Os colegas parecem respeitar e apreciar o seu trabalho, enquanto a imprensa é relativamente controlada através de algumas figuras com acesso a informação privilegiada. Veja-se quando o protagonista pede a um jornalista (Massimo Foschi) para que este último destaque a possibilidade do marido de Augusta ser o assassino, bem como a particularidade desta mulher não utilizar cuecas, algo que permite começar a mexer com a opinião pública. O esposo de Augusta é homossexual, sendo alvo de diversos preconceitos no interior da esquadra, incluindo por parte do protagonista. O inspector interroga o suspeito, embora ilibe o mesmo de culpas, considerando que este se encontra inocente, indo tomar uma série de medidas que prometem desafiar os seus colegas e a lógica. Veja-se quando pede a um canalizador (Salvo Randone - um colaborador habitual de Elio Petri, em mais um papel secundário de relevo) para comprar vinte e cinco gravatas com o mesmo tecido e cor do fio que se encontrava preso na unha da vítima, obrigando o primeiro a dirigir-se à esquadra e a descrever o assassino. Ninguém se acredita na descrição, enquanto o personagem interpretado por Gian Maria Volontè tanto parece pretender ser descoberto como procura esconder provas de tudo e todos. O actor consegue transmitir a personalidade complexa deste indivíduo que apresenta comportamentos mais próximos de um criminoso do que de alguém pronto a defender a lei, com Volontè a não ter problemas em cair em exageros propositados para explanar alguns momentos mais expansivos deste inspector. A banda sonora permite incrementar alguma da inquietação que envolve a investigação e os actos do protagonista, bem como a cinematografia. Os close-ups são utilizados com precisão, algo notório quando encontramos o inspector a dialogar com o canalizador que é obrigado a transportar as gravatas para a esquadra. Este é um dos vários momentos em que Gian Maria Volontè tem oportunidade para se destacar, com o actor a criar um personagem que tanto nos repele como consegue despertar a atenção.

Em certa medida, o personagem principal de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" traz à nossa memória Mark Dixon (Dana Andrews), o protagonista de "Where the Sidewalk Ends", um agente da autoridade que cometeu um homicídio involuntário e procura inicialmente esconder esse acto dos seus superiores. No caso de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", o personagem interpretado por Gian Maria Volontè cometeu um crime de forma propositada, embora também se sinta gradualmente compelido a revelar o seu acto, enquanto Elio Petri realiza um filme que a espaços nos remete para as tradições das obras noir dos EUA, mas também para as fitas policiais deste país. Não falta uma atmosfera de insegurança, personagens de carácter dúbio, polícias pouco confiáveis, com "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" a mesclar ainda elementos meio surreais, algo visível no final em que Kafka é citado e um sonho parece momentaneamente tomar conta da realidade. Diga-se que Elio Petri volta a colocar-nos diante de uma narrativa a espaços kafkiana, tal como em "L'assassino", com o final a exibir paradigmaticamente essa situação, enquanto o cineasta aproveita ainda para incutir alguma mordacidade e humor negro ao enredo, algo visível nos gestos e acções do personagem interpretado por Gian Maria Volontè. O protagonista a espaços parece denotar algum sentimento de culpa, tendo de lidar com as consequências de ter cometido um crime que se encontra longe de ser perfeito, com o personagem interpretado por Volontè a surgir como uma figura recheada de contradições que se encontra consumida pelo poder. Existe quase um tom farsesco na forma como o protagonista descredibiliza aqueles que o podem incriminar ou apresentam receio em efectuar a denúncia, algo latente no caso do canalizador que transporta as gravatas para a esquadra. O filme permite ainda que alguns personagens secundários se destaquem, sobretudo Augusta e Antonio Pace (um anarquista que tem um papel fundamental num dos protestos "musculados", embora o argumento nem sempre problematize os gestos e ideias destes elementos). Vale ainda a pena destacar Mangani (Arturo Dominici) e Biglia (Orazio Orlando), dois colegas do protagonista, que também se encontram envolvidos na investigação. "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" convida-nos a acompanhar um inspector de personalidade complexa, com Gian Maria Volontè a ter um desempenho marcante ao longo desta obra cinematográfica onde Elio Petri não tem problemas em expor uma visão menos simpática sobre as autoridades e a sua conduta, enquanto nos coloca diante de um thriller bastante recomendável.

Título original: "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto".
Título em Portugal: "Inquérito a Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Elio Petri e Ugo Pirro.
Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Gianni Santuccio, Salvo Randone.

10 março 2016

Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano - Breve texto sobre a programação

 Heterogénea, promissora, pronta a trazer uma amostra alargada das produções cinematográficas italianas recentes e evocar a memória de alguns clássicos de outrora (sejam estes de um passado mais recente como "La vita è bella", ou mais distante como a obra-prima "8½"), a programação da nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano promete aquilo que esperamos deste certame: descobertas agradáveis, criar novas memórias cinéfilas, reencontrar velhas paixões cinematográficas, para além de possíveis desilusões impossíveis de evitar. Se o filme que empresta o nome ao certame continua a manter um valor inolvidável ao longo do tempo, parecendo melhorar a cada visualização, também o 8½ Festa do Cinema Italiano tem vindo a crescer de ano para ano. Mais espectadores, uma presença notória em mais cidades e a entrada no Cinema UCI - El Corte Inglés, sempre com o foco no essencial: dar a conhecer o cinema italiano. É verdade que alguns dos filmes contam com distribuição em sala, mas aquilo que nos chega em circuito comercial é sempre uma pequena amostra de um país com uma produção cinematográfica riquíssima e heterogénea. Essa diversidade ajuda a explicar as dicotomias entre o filme de abertura e a obra cinematográfica de encerramento. A escolha para o filme de abertura é "Il racconto dei racconti", uma obra cinematográfica realizada por Matteo Garrone, que surge como uma proposta ambiciosa, estimulante e envolvente, dotada de elevados valores de produção, um elenco talentoso e uma narrativa pontuada por três histórias inspiradas livremente em contos do livro "Lo cunto de li cunti" de Giambattista Basile. "Il racconto dei racconti" vai ser exibido no Cinema São Jorge, na Sala Manoel de Oliveira, no dia 30 de Março, às 21:30. Por sua vez, o filme de encerramento é a comédia "Quo vado?", realizada por Gennaro Nunziante. É uma oportunidade para aferir as razões do sucesso alcançado por Quo vado?", bem como para contactar com uma comédia de um país que contou (e conta) com grandes especialistas no género.

"Quo Vado?" e "Il racconti dei racconti" fazem parte da secção "Panorama" do 8½ Festa do Cinema Italiano. Esta secção conta com diversas obras cinematográficas recentes, entre as quais, "Suburra" (de Stefano Sollima); "A Bigger Splash" (em Portugal - "Mergulho Profundo", de Luca Guadagnino); "Per amoro vostro" (em Portugal - "Anna", de Giuseppe Gaudino); "Alaska" (de Claudio Cupellini); "Il nome del figlio" (Francesca Archibughi); "Latin Lover" (de Cristina Comencini); "Lea" (de Marco Tullio Giordana), "Ma che bella sorpresa" (de Alessandro Genovesi); "Nessuno si salva da solo" (de Sergio Castellitto), "Non essere cattivo" (de Claudio Caligari); "Sangue del Mio Sangue" (de Marco Bellocchio). Para além dos destaques óbvios dos filmes de abertura e encerramento, vale a pena realçar o recomendável "Suburra", a segunda longa-metragem realizada por Stefano Sollima. Inspirado no livro homónimo de Carlo Bonini e Giancarlo De Cataldo, "Suburra" transporta-nos para o interior de sete dias caóticos e marcantes de diversos personagens que habitam um espaço urbano pontuado pelo crime, imoralidade, violência e disputas de poder, enquanto Stefano Sollima consegue mexer nas peças que tem à disposição com enorme eficácia e inspiração. Outro dos destaques é "Sangue del Mio Sangue", o novo filme de Marco Bellocchio, uma obra cinematográfica que conta com presenças em certames como o Festival de Veneza e o Festival de Toronto. Tal como "Il racconto dei racconti", também "A Bigger Splash" reúne um elenco internacional de peso, contando com nomes como Ralph Fiennes e Tilda Swinton. O elenco é um dos destaques de "Nessuno si salva da solo", um filme protagonizado por Riccardo Scamarcio e a nossa mui adorada Jasmine Trinca. Vale a pena realçar que Sergio Castellitto, o realizador de "Nessuno si salva da solo" vai estar presente ao vivo e a cores na nona edição do 8½. Por fim, mas não menos importante, outra das obras cinematográficas que parecem merecer toda a nossa atenção é "Non essere cattivo", o último filme de Claudio Caligari, tendo sido apresentado no Festival de Veneza e seleccionado como o candidato italiano aos Oscars.

 Se "Non essere cattivo" não chegou a integrar a lista final de nomeados para Melhor Filme Estrangeiro ou em Língua Estrangeira, já "8½", uma das obras-primas de Federico Fellini e da História do Cinema, conquistou a vitória nessa categoria na trigésima sexta edição dos Oscars. A exibição da nova cópia restaurada de "8½" é, muito provavelmente, o grande evento dentro deste evento que é a Festa do Cinema Italiano. Diga-se que a exibição da nova cópia restaurada do filme ao qual o festival deve o nome abre ainda as portas do cinema UCI à dinâmica de festivais de cinema. A exibição de "8½", a 31 de Março, será acompanhada pela exposição “8½: A Viagem de Fellini”, que reúne fotos de cena do filme 8 ½, da autoria de Gideon Bachmann, em colaboração com Cinemazero, FNAC, UCI e o Instituto Italiano de Cultura de Lisboa. A exibição de "8½" surge integrada na secção Amarcord, uma das mais apreciadas por este blogger. Como não poderia deixar de ser, a secção Amarcord conta com uma homenagem/mini-retrospectiva. Este ano não é diferente, com o escolhido a ser Ettore Scola. O festival vai contar com filmes realizados pelo cineasta, bem como algumas obras cinematográficas nas quais este trabalhou como argumentista (para além de ser exibido o documentário "Ridendo e scherzando: Ritratto di un regista all'italiana", realizado por Paola e Silvia Scola). A homenagem conta com os seguintes filmes (títulos em Português): "Feios, Porcos e Maus" (de Ettore Scola); "O Terraço" (de Ettore Scola); "Tão Amigos que nós éramos" (de Ettore Scola); "A Família" (de Ettore Scola); "O Baile" (de Ettore Scola); "Um Italiano em Angola" (Ettore Scola); "Os Monstros" (Dino Risi); "Aquele que sabe viver" ("Il sorpasso", um filme magnífico de Dino Risi); "Conheço bem essa moça" (de Antonio Pietrangeli). A secção Amarcord conta ainda com a exibição de "La vita è bella" de Roberto Benigni, bem como do documentário "Marcello Mastroianni: mi ricordo, sì, io mi ricordo".

 Dos clássicos do cinema italiano passamos novamente para a actualidade, em particular, para a secção Competitiva do 8½. A secção competitiva traz mais uma amostra de obras cinematográficas italianas recentes, contando com os seguintes exemplares: "Arianna" (de Carlo Lavagna); "Asino Vola" de Marcello Fonte e Paolo Tropidi); "Banana" (de Andrea Jublin); "L'attesa" (de Piero Messina), "Lo chiamavano Jeeg Robot" (de Gabriele Mainetti), "Pecore in Erba" (de Alberto Caviglia). Um dos destaques desta secção é "L'attesa", uma co-produção entre França e Itália, que conta com Juliette Binoche como protagonista. A distribuição em Portugal já está garantida pela Alambique Filmes. Segundo a informação disponibilizada no dossier de imprensa, "L'attesa" apresenta "(...) um diálogo íntimo entre duas mulheres que aprendem a conhecer-se partilhando a mesma ausência (...)". Outro dos destaques é aquele já atingiu o estatuto de filme de culto em Itália: "Lo chiamavano Jeeg Robot", uma obra cinematográfica que mistura o cinema de género italiano com a banda desenhada japonesa. Vale ainda a pena realçar "Banana", descrito como um "filme de traço agridoce", centrado num  rapazinho “feio, gordo, anão e maluco” chamado Banana por causa das suas pobres qualidades como futebolista. A programação do festival não termina por aqui. Veja-se o caso das sessões especiais, onde consta "Estrada 47" de Vicente Ferraz, uma co-produção entre Portugal, Brasil e Itália, ou obras cinematográficas como "Mediterranea" de Jonas Carpignano, que estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes e foi finalista do Prémio Lux de Cinema Europeu 2015. Carpignano permite ainda efectuar uma ligação entre a secção dedicada a Sessões Especiais e Il Corto, o espaço dedicado às curtas-metragens. A secção "Il Corto" conta com curtas-metragens como "A Cimbra" (de Jonas Carpignano); "SK - Sonderkomando" (de Nicola Ragione); "E.T.E.R.N.I.T." (de Giovanni Aloi); "Pastorale Cilentana" (de Mario Martone); "Belissima" (de Alessandro Capitani).

É praticamente impossível acompanhar tudo aquilo que o 8½ Festa do Cinema Italiano propõe, embora a tentação seja grande, sobretudo na secção Amarcord e Panorama. Diga-se que o festival conta ainda com mais secções e uma série de eventos paralelos que podem ser consultados no site do certame (http://www.festadocinemaitaliano.com/) ou no seguinte documento (http://www.festadocinemaitaliano.com/files/FCI_Dossie_de_Imprensa_Final_2016.pdf). A programação foi apresentada a nove de Março, no cinema UCI - El Corte Inglés, tendo contado com a antestreia de "Maraviglioso Boccaccio", um simpático pontapé de saída para aquela que esperamos ser mais uma boa edição deste evento. A nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano decorre em Lisboa entre os dias 30 de Março e 7 de Abril. A Festa do Cinema Italiano segue posteriormente para outras cidades (tais como Porto, Coimbra, Almada, entre outras) e países lusófonos (Brasil, Moçambique, Angola).

09 março 2016

Resenha Crítica: "La decima vittima" (1965)

 Recheada de violência (ainda que desprovida de sangue), cor, romance, crítica social, reviravoltas, música a condizer com os ritmos da narrativa, um peculiar jogo entre o "gato e o rato", "La decima vittima" surge como uma obra cinematográfica deliciosamente envolvente e exagerada, pontuada por algum humor e uma química assinalável entre Marcello Mastroianni e Ursula Andress. É praticamente "batota" colocar Mastroianni e Andress como a dupla de protagonistas, sobretudo quando se atribui a ambos a faceta de figuras sedutoras, aparentemente impassíveis mas capazes de cederem ao desejo. Estes são presas e caçadores, implacáveis e vulneráveis, protagonizando um jogo de sedução que facilmente conquista o espectador. A narrativa tem como pano de fundo um futuro próximo, onde existe uma espécie de jogo denominado de "Grande Caça", que utiliza a violência como um meio de evitar guerras entre as nações e entreter as massas. Alguns concorrentes encaram a Grande Caça como um meio para ganharem reconhecimento e dinheiro, outros para satisfazerem os seus ímpetos violentos, existindo um conjunto de regras que visam incrementar o nível de dificuldade do jogo e evitar que os participantes eliminem inocentes. Cada jogador tem dez missões, divididas equitativamente entre o papel de caçador e de presa. O(A) caçador(a) sabe quem tem de caçar, enquanto que a presa não é informada da identidade do(a) primeiro(a), tendo de utilizar a sua capacidade de dedução. Poucos elementos conseguiram chegar vivos até ao final, com o feliz contemplado a receber um milhão de dólares e uma homenagem pública, com os concorrentes a serem admirados pelo público. Elio Petri não poupa tempo a expor as regras do concurso, enquanto aproveita para exibir a habilidade da dupla de protagonistas para a matança e efectuar uma série de críticas à sociedade do seu tempo, através desta narrativa futurista. O sensacionalismo, o capitalismo, o materialismo, a sede de alguns seres humanos pela violência, os mass media não passam incólumes, com "La decima vittima" a parecer prever ainda a popularidade dos reality shows e a audiência televisiva dos mesmos. Elio Petri realiza uma obra de arte delirante, envolvente, estilizada e sedutora, com as críticas a serem certeiras (algumas actuais), enquanto a narrativa consegue agarrar completamente a atenção. É um filme distinto de obras cinematográficas de Elio Petri como "L'assassino", "A Ciascuno il suo", "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", ou "La classe operaia va in paradiso", que abordavam questões sociais e políticas, embora tivessem como pano de fundo uma realidade próxima da década em que foram lançadas, com o primeiro exemplo a contar com Marcello Mastroianni como protagonista, tal como "La decima vittima". Mastroianni interpreta Marcello Polletti, um concorrente de cabelo loiro pintado, aparentemente passivo e galanteador, que procura ganhar dinheiro de todas as formas, incluindo como líder de um culto. Despreza os neorrealistas, procura manter a integridade física e evitar casar com Olga (Elsa Martinelli), uma figura feminina que se encontra atraída por este embora não saiba que Marcello não pretende continuar a relação, com o protagonista a não parecer interessado em manter envolvimentos sérios desde que se separou de Lidia (Luce Bonifassy), a sua ex-mulher.

 A primeira vez que encontramos Marcello em acção é quando o protagonista elimina um indivíduo, conseguindo ser bem sucedido na sua tarefa como caçador. No entanto, o pior está para vir, ou talvez não, com Marcello a preparar-se para ser a presa de Caroline Meredith (Ursula Andress), uma concorrente que ganhou o estatuto de estrela. Ursula Andress protagoniza uma das cenas mais marcantes do filme, nomeadamente, quando Caroline se encontra no interior de um bar, com um bikini prateado recheado de picos, a dançar para o público masculino, com os espectadores a encontrarem-se em êxtase. A música, a actriz e o trabalho de Petri permitem criar todo um ambiente de estranha sedução e exagero, pontuado por algum erotismo, que logo é quebrado quando Caroline pede para um indivíduo tirar a máscara que esta utiliza, disparando contra o mesmo. É a nona missão bem sucedida de Caroline, uma figura feminina que compreende o negócio proporcionado por este jogo. Veja-se a procura de uma equipa em filmar o assassinato, com Caroline a ser patrocinada pela companhia de chá Ming. Também Marcello conta com um empresário, embora ainda não tenha a noção daquilo que pode lucrar ao mediatizar ainda mais os espectáculos associados às mortes, com o personagem interpretado por Mastroianni a contar com seis missões bem sucedidas. A certa altura, Elio Petri coloca o espectador diante de situações tão caricaturais e mordazes como uma concorrente a dizer o nome do seu patrocinador para a câmara, antes de cometer um assassinato, ou os representantes da empresa a mudarem o apoio para um adversário que se encontra momentaneamente em vantagem, com o cineasta a não poupar na crítica às grandes empresas capitalistas que apenas visam o lucro. Diga-se que o discurso de pendor social é algo comum a diversos trabalhos de Elio Petri, incluindo os citados, embora "La decima vittima" mescle ainda elementos de acção, ficção-científica, sátira, romance e uma dupla de protagonistas que simplesmente consegue que compremos facilmente as ideias do cineasta. Marcello Mastroianni apresenta um estilo descontraído e galanteador, parecendo divertir-se a protagonizar esta obra cinematográfica, enquanto Ursula Andress incute uma faceta implacável e sedutora a Caroline, com a dupla a sobressair em bom nível. Inicialmente existem diversas reservas de parte a parte, com Caroline a procurar que Marcello acredite que esta é uma jornalista que pretende entrevistá-lo. O local para a entrevista é o Templo de Vénus, um espaço histórico da cidade de Roma, seleccionado pelos patrocinadores de Caroline, tendo em vista a criar todo um espectáculo em volta do assassinato. Diga-se que Elio Petri procura conciliar estes espaços citadinos reais com os cenários futuristas. Não falta um clube de luta onde dois elementos combatem até um morrer, um centro de treino para concorrentes, casas com portas automáticas, edifícios onde ficam situadas as sedes dos líderes deste "jogo", entre outros espaços que exibem toda uma procura em criar um universo narrativo credível e extravagante a envolver a história de Caroline e Marcello. O jogo entre o gato e o rato transforma-se num jogo de sedução de parte a parte, com Marcello Mastroianni e Ursula Andress a apresentarem uma química indelével. Existe espaço para o humor mas também para momentos mais tensos, com "La decima vittima" a não poupar em tiroteios e armadilhas. Veja-se quando encontramos Caroline ou Marcello a procurarem iludir o adversário, tendo em vista a transportá-lo para um local onde o tiroteio seja filmado com direito a patrocinador, ou a citada cena na qual a personagem interpretada por Ursula Andress dança sedutoramente até pegar na pistola e eliminar a sua vítima.

 A brutalidade deste jogo é encarada como algo benéfico para a sociedade, permitindo supostamente controlar a violência e entreter as massas. Não deixa de ser curioso e irónico que o Coliseu de Roma tenha sido um local ponderado pela equipa de Caroline, com este jogo a remeter para o "pão e circo" do Império Romano, ou a violência como entretenimento não fosse algo que tenha marcado este espaço e a História da Humanidade. No caso, ficamos diante de uma certa desumanização da sociedade, com homens e mulheres a procurarem vencer um jogo sanguinário, enquanto o público rejubila e a sociedade toma atitudes tão degradantes como idolatrar assassinos ou livrar-se dos idosos. Claro que os italianos não cumprem a última regra, com Elio Petri a incutir uma certa ironia a esta quebra da lei por parte do personagem interpretado por Marcello Mastroianni. Marcello é uma figura peculiar, que procura vencer o concurso, embora indique ser algo descontraído, ou pouco esforçado, parecendo não contar com paciência para se envolver num relacionamento sério, embora Caroline prometa mexer com a sua cabeça. Por sua vez, Caroline não consegue ficar indiferente em relação a este indivíduo, enquanto Elio Petri explora a dinâmica entre os dois protagonistas e lança a dúvida se algum deles será capaz de cumprir a missão, ou se procuram apenas salvar a respectiva "pele". O visual destes personagens varia ao longo do filme, embora caiba a Ursula Andress contar com as roupas mais extravagantes e exacerbadoras da sua capacidade de sedução e enorme beleza. Vale ainda a pena realçar as roupas futuristas de Olga quando decide encetar uma vingança pessoal, com "La decima vittima" a exibir todo um fascinante cuidado no guarda-roupa e design dos cenários tendo em vista a explanar esta atmosfera exagerada que envolve a narrativa do filme. O argumento, inspirado no livro "The Seventh Victim", de Robert Sheckley, cumpre os objectivos, embora "La decima vittima" seja um caso onde o estilo contribui e muito para adensar o valor da substância e os recursos são aproveitados de forma bastante inspirada. Diga-se que "La decima vittima" conta ainda com alguns personagens secundários que se conseguem destacar. Veja-se o caso de Rossi (Massimo Serato), o assistente e advogado de Marcello, ou Salvo Randone como o peculiar técnico de um espaço dedicado ao treino dos jogadores, com este último a surgir como uma figura sem uma mão, uma voz estranha e um visual que condiz com o tom estilizado da narrativa. Com uma dupla de protagonistas carismática, alguma violência, sátira e jogos de sedução, "La decima vittima" transporta-nos para um futuro algo surreal, com Elio Petri a não poupar na crítica social, enquanto brinda o espectador com uma obra cinematográfica que desperta um estranho fascínio.

Título original: "La decima vittima".
Título em Portugal: "A Décima Vítima".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Tonino Guerra, Giorgio Salvioni, Ennio Flaiano, Elio Petri, Ernesto Gastaldi.
Elenco: Marcello Mastroianni, Ursula Andress, Elsa Martinelli, Salvo Randone, Massimo Serato.

07 março 2016

Resenha Crítica: "Divorzio all'italiana" (1961)

 Quem pretende ser propositadamente traído pelo seu cônjuge? É provável que poucas pessoas tenham esse desejo. Ferdinando Cefalù (Marcello Mastroianni), o protagonista de "Divorzio all'italiana", uma "comédia à italiana" realizada por Pietro Germi, pretende que a sua esposa cometa adultério, tendo em vista a poder eliminá-la e utilizar a traição como atenuante para defender o seu acto em tribunal. Estamos em plena sociedade siciliana, no período após a II Guerra Mundial, com Pietro Germi a utilizar os estereótipos e alguns elementos associados a este território italiano ao serviço da narrativa, proporcionando ao espectador uma comédia recheada de humor negro, momentos farsescos e situações delirantes. Não faltam sonhos delirantes, discussões acaloradas, escutas planeadas de forma trapalhona, traições, seduções, desejos impossíveis de serem contidos, barões arruinados, uma sociedade marcada por valores conservadores e falsos pudores, enquanto Marcello Mastroianni domina o filme como esta figura peculiar, que pouco ou nada faz na vida para além de planear um meio de se livrar da esposa e poder iniciar uma relação com Angela (Stefania Sandrelli), a sua prima, uma adolescente atrevida. Ferdinando é o protagonista e o narrador de serviço, um sacana armado em esperto que, tal como em diversas "comédias à italiana", prepara-se para bebericar um pouco do próprio veneno no final do filme, com Pietro Germi a não poupar no humor negro. Veja-se os sonhos delirantes do protagonista, com este a pensar em meios peculiares para a morte da esposa, tais como ser cozinhada num caldeirão a ferver, engolida pela areia ou enviada para a Lua. A mente deste indivíduo é bastante criativa e imaginativa, algo notório quando começa a imaginar a defesa que vão efectuar da sua pessoa em tribunal. A esposa de Ferdinando é Rosalia (Daniela Rocca), um mulher extremosa, que ama o esposo, embora este pareça enfadado pela rotina pouco motivante que partilha com uma figura que não deseja. Já Angela representa o fruto proibido, aquilo que o protagonista não pode, ou não deveria tentar, embora a jovem de dezasseis anos de idade procure seduzir o primo e estimular ainda mais a mente delirante do mesmo. Angela é filha de Fifidda (Laura Tomiselli), a irmã de Don Gaetano Cefalù (Odoardo Spadaro), o pai do protagonista, um indivíduo que contraiu dívidas elevadas junto de Don Calogero (Ugo Torrente), o progenitor da primeira e esposo da segunda. As dívidas de Gaetano a Calogero conduzem a que este último habite na melhor ala do palácio, onde vive com Fifidda e recebe a visita de Angela quando esta regressa das aulas, com a jovem a encontrar-se a estudar em regime de internato. Calogero é um indivíduo calvo, algo rude a expor os sentimentos, sem problemas em utilizar a violência e defender os costumes conservadores. Gaetano é um jogador inveterado que perdeu os bens mais valiosos da família, sendo casado com Donna Matilde Cefalù (Bianca Castagnetta), uma mulher relativamente submissa. Estes vivem de rendimentos, com o núcleo familiar a utilizar boa parte do tempo livre para discutir, procrastinar ou visitar a igreja, um espaço religioso onde todos se procuram redimir dos seus pecados, embora isso não impeça a má língua e os constantes falatórios sobre as vidas uns dos outros. Pietro Germi apresenta este território e as suas gentes de forma mordaz, com o cineasta a aproveitar os espaços exteriores, filmados na Sicília, ao serviço da narrativa, algo que atribui um tom relativamente realista a uma obra cinematográfica que não tem problemas em expor e explorar os absurdos dos valores conservadores pelos quais se regem diversos personagens deste espaço.

  O território da Sicília e as suas gentes é algo que atravessa parte da filmografia de Pietro Germi, incluindo "Sedotta e abbandonata", o segundo volume de uma trilogia informal de "comédias à italiana", iniciada por "Divorzio all'italiana" e concluída com "Signore & signori", pontuada por uma sátira a uma sociedade dominada pelas falsas aparências, leis e hábitos muito próprios (ou retrógrados), personagens peculiares, traições, entre outros exemplos. No caso de "Divorzio all'italiana", Ferdinando procura aproveitar os valores do território para conseguir uma pena de prisão diminuta, com os seus planos a conhecerem um avanço quando descobre que Carmelo Patanè (Leopoldo Trieste), um pintor que supostamente tinha falecido a cumprir serviço militar durante a II Guerra Mundial, é a antiga paixão de Rosalia. Ferdinando contrata os serviços de Carmelo para restaurar os frescos do palácio, procurando reunir regularmente a esposa com o antigo namorado, enquanto grava atentamente as conversas entre ambos. A chama antiga que existe entre o antigo casal demora a reacender, com Ferdinando a procurar fazer de tudo para conseguir que Carmelo e Rosalia desfrutem de algum tempo a sós e coloquem a conversa em dia. O plano não corre totalmente como o esperado, embora o resultado seja o desejado pelo protagonista, com este a ter de utilizar a imaginação para conseguir atingir os seus desideratos. Na conclusão, Pietro Germi dá a ilusão de que Ferdinando se safa, embora os planos finais despertem um sorriso no espectador e exibam o humor negro que pontua o enredo de "Divorzio all'italiana". Marcello Mastroianni é o elemento do elenco que mais se destaca, com o actor a sobressair como um sacana entediado que desperta a nossa simpatia, apesar de procurar cometer um assassinato, enquanto nos deliciamos a tentar perceber como esta figura patética vai conseguir colocar as suas tramoias em prática. O actor incute um estilo descontraído a este personagem que vive de rendimentos e deseja a prima, algo latente quando espreita regularmente a mesma, com Pietro Germi a explorar os desejos de cariz sexual dos personagens ao mesmo tempo que nos faz rir das figuras de Ferdinando, também conhecido como Fefè. Pedir o divórcio está fora de questão, com os desejos de Fefè a chocarem de frente com os valores da sociedade da época, enquanto este apresenta uma alegria notória a partir do momento em que é apelidado de "corno" por boa parte da população. Diga-se que esta é uma sociedade patriarcal, muito marcada pelas aparências, algo latente quando a igreja estimula os fiéis a falharem a estreia de "La Dolce Vita", embora a maioria dos elementos aproveite a oportunidade para visionar o filme de Federico Fellini. O argumento é inteligente a explorar as temáticas e as dinâmicas entre os personagens, apresentando alguns momentos de humor deveras inspirados ao mesmo tempo que "finca o dente" na sociedade siciliana da época e explora as especificidades deste território, a partir do qual que parece ser possível evidenciar as assimetrias culturais e sociais de Itália. Todos em Agramonte, a cidade onde se desenrola o enredo, parecem viver de aparências, com as idas à Igreja a esconderem os longos diálogos dos homens sobre mulheres, enquanto a aparente pompa de Ferdinando não passe de uma fachada, com o seu título de barão a trazer prestígio embora não condiga com as finanças deste indivíduo.

  Pietro Germi consegue aproveitar boa parte do elenco principal do filme, com uma fatia importante do sucesso de "Divorzio all'italiana" a resultar exactamente da capacidade do cineasta em apresentar uma miríade de figuras que despertam o nosso interesse. Veja-se o caso de Rosalia, com Daniela Rocca a conseguir exprimir a ingenuidade desta mulher que apresenta um riso estridente, um buço saliente e uma incapacidade notória para estimular o protagonista, encontrando em Carmelo uma figura capaz de terminar com a sua solidão. Carmelo é um elemento tímido e casado, algo que promete ser um problema acrescido para o casal adúltero, com "Divorzio all'italiana" a não poupar nas relações intrincadas e nas traições. A jovem Angela é uma falsa ingénua, com esta a gostar de provocar os homens que a rodeiam, despertando o desejo do primo mais velho, um sentimento que é mútuo. A personagem interpretada por Stefania Sandrelli surge como o motor que alavanca os desejos mais negros de Ferdinando, com esta adaptação cinematográfica do livro "Un delitto d'onore", a colocar o espectador diante de um indivíduo entediado que engendra um plano intrincado, tendo em vista a aproveitar a lei e os valores locais. Diga-se que, logo no início de "Divorzio all'italiana", somos colocados diante do protagonista, a expor de forma sardónica o espaço de Agramonte e as suas gentes, até Pietro Germi utilizar um flashback que termina apenas no último terço, com uma viagem de comboio a unir estes dois momentos situados entre o presente e o passado de Fefè. Os cenários exteriores deste espaço citadino são bem aproveitados ao serviço do enredo, embora seja impossível deixar de destacar o interior do palácio da família de Ferdinando. Este é um espaço de largas dimensões, construído há muito tempo, sendo povoado por gentes com valores morais tão diminutos como as suas posses financeiras, com Pietro Germi a utilizar este cenário de forma inspirada. Veja-se as longas correrias de Ferdinando, em direcção a uma sala fechada, para conseguir ouvir as conversas entre a esposa e Carmelo, ou a presença de uma ventoinha na primeira divisória para expressar o calor que assola este território, as almas e os corpos; a utilização do espaço da casa de banho para ver o interior do quarto onde Angela se encontra instalada, entre outros exemplos. A cinematografia é importante, sobretudo nos momentos voyeuristas dos personagens, com o trabalho de câmara a sobressair ainda no final, quando uma troca de carícias entre pés transmite sedução e desperta o riso junto do espectador. A casa conta ainda com a presença de Agnese (Angela Cardile), a irmã do protagonista, uma mulher expansiva, que procura contrair matrimónio com Rosario Mulè (Lando Buzzanca), um indivíduo que trabalha numa agência funerária. É sobre estes personagens que incide boa parte da narrativa de "Divorzio all'italiana", com Pietro Germi a abordar diversas questões associadas aos costumes das gentes deste território da Sicília, ao mesmo tempo que nos coloca diante de um protagonista com poucos valores morais, que se procura livrar da esposa e assumir uma relação com a prima, com Marcello Mastroianni a criar um personagem que resulta na perfeição no interior desta comédia negra recheada de momentos e diálogos memoráveis.

Título original: "Divorzio all'italiana". 
Título em Portugal: "Divórcio à Italiana".
Realizador: Pietro Germi.
Argumento: Ennio De Concini, Pietro Germi, Alfredo Giannetti, Agenore Incrocci.
Elenco: Marcello Mastroianni, Daniela Rocca, Stefania Sandrelli, Leopoldo Trieste, Odoardo Spadaro.

06 março 2016

Resenha Crítica: "Casanova '70" (1965)

 Comédia à italiana recheada de situações rocambolescas, mal-entendidos, diversos episódios perigosos e um "Casanova" que apenas consegue colocar a "máquina" a funcionar quando está em perigo, "Casanova '70" surge como mais um triunfo cinematográfico de Mario Monicelli, com o cineasta a voltar a explorar uma estrutura narrativa relativamente episódica, enquanto apresenta a miríade de conquistas do Major Andrea Rossi-Colombotti (Marcello Mastroianni), um elemento ao serviço da NATO. Monicelli volta a apostar em situações quase trágicas ao serviço da comédia, enquanto desconstrói a figura do "macho latino" ao contar com um protagonista que é um conquistador incapaz de satisfazer sexualmente as mulheres quando não sente o perigo a aproximar-se. Andrea finge que assalta casas, envolve-se com a esposa do seu chefe, finge que é um médico para analisar a suposta virgindade de uma jovem da Sicília, inicia um affair com uma mulher casada com um conde perigoso, procura os serviços de uma "pedicure" mortífera, protagonizando um conjunto de situações hilariantes para conseguir os seus intentos, ou seja, sentir perigo e concluir os actos sexuais com sucesso. Marcello Mastroianni parece divertir-se a desconstruir a sua persona de conquistador, com os momentos em que Andrea se encontra junto do psiquiatra (Enrico Maria Salerno), tendo em vista a aferir o problema que o apoquenta, a contarem com trechos dominados pelo bom humor. O consultório é pontuado por uma decoração semelhante a uma habitação oriental, com o psiquiatra a apresentar um conjunto de atitudes peculiares, algo que permite a Enrico Maria Salerno sobressair no meio deste elenco bastante alargado. Os flashbacks permitem que o espectador descubra alguns dos casos falhados do protagonista e os planos hilariantes e destrambelhados que este engendra para se livrar das mulheres que conquista, algo que acontece quando não consegue colocar a "maquineta" a trabalhar. As mulheres que este conquista são belíssimas, com quase todas a cederem perante a presença de Andrea, embora nem sempre consigam sair completamente satisfeitas. Veja-se o caso de uma hospedeira de bordo (Seyna Seyn) que é alvo do interesse do protagonista, embora este procure forjar um plano para se livrar da mesma, tendo em vista a evitar expor a sua inabilidade para manter relações sem perigo. Após a sessão com o psiquiatra, Andrea procura seguir os conselhos do médico e levar uma vida casta, iniciando uma relação séria com Gigliola (Virna Lisi), uma jovem loira belíssima, que fez votos de castidade e pertence a uma família conservadora. Virna Lisi é uma das figuras femininas que conta com mais tempo para sobressair, com esta jovem a procurar despertar o desejo sexual do namorado, embora não esteja inicialmente na disposição da informação de que Andrea é impotente quando se sente confortável. A relação sofre um revés quando Gigliola e a sua família visitam o circo com Andrea, com o protagonista a não controlar os seus ímpetos e a beijar ardentemente a domadora de leões do local. Segue-se mais uma fuga aparatosa, com Mario Monicelli a dotar a narrativa de uma estrutura episódica, um pouco a fazer recordar "comédias à italiana" do cineasta como "L'armata Brancaleone", "La ragazza con la pistola", entre outras.

 Marcello Mastroianni é o elemento que mais sobressai no elenco, com o actor a incutir um estilo simultaneamente galanteador e destrambelhado a Andrea, um indivíduo que se deixa conduzir pelos seus ímpetos. Veja-se quando decide iniciar um affair com Dolly (Margaret Lee), a esposa do seu general, ou finge que é um médico, tendo em vista a "analisar" se uma jovem siciliana é virgem. Diga-se que o episódio relacionado com a jovem siciliana permite a Mario Monicelli expor os valores retrógrados dos habitantes deste espaço italiano, sempre com alguns exageros e estereótipos à mistura, enquanto denuncia a precariedade da condição feminina (uma temática presente em filmes do género como "La ragazza con la pistola", "Sedotta e abbandonata", entre outros). A outra personagem feminina que sobressai é Thelma Tiacca (Marisa Mell), uma vamp que se encontra casada com um conde (Marco Ferreri) relativamente mais velho, supostamente surdo e coleccionador de arte. O cenário do castelo onde o conde habita com a esposa e o criado é aproveitado de forma exímia ao serviço da narrativa, com este espaço a encontrar-se em franca decomposição, assim como os valores dos personagens interpretados por Marisa Mell e Marco Ferreri. Se Mastroianni interpreta o galanteador quase infantil e ingénuo, já Ferreri incute alguma malícia a este conde sem problemas em procurar eliminar os seus rivais. Por sua vez, Marisa Mell é a sedução em pessoa, procurando livrar-se do esposo, enquanto entra no jogo de Andrea. Temos ainda Santina (Moira Orfei), uma "pedicure" que é conhecida por dar azar aos seus clientes, uma característica que parece despertar o desejo de Andrea. Este desloca-se de local em local, conhece uma miríade de mulheres, descura muitas das vezes o trabalho, enquanto Mario Monicelli parece divertir-se a colocar o protagonista nas situações mais hilariantes. O cineasta não tem problemas em desconstruir a figura do "Casanova" engatatão, ou satirizar os valores da sociedade siciliana, ou expor um casamento por interesse, ou ironizar com os problemas de impotência de Andrea. O personagem interpretado por Marcello Mastroianni parece ser movido pelo perigo, caso contrário a sua vida sexual torna-se miserável, tendo em Gigliola uma das poucas figuras que lhe é leal. Gigliola é uma das mulheres que marcam a vida de Andrea, enquanto este depara-se com uma série de figuras femininas e masculinas que permitem aos elementos do elenco secundário sobressaírem. Andrea procura descrever os episódios do seu dia a dia num diário, tal como aconselhado pelo médico, com alguns momentos a contarem com a narração de Marcello Mastroianni, enquanto ficamos diante de uma comédia que não tem problemas em assumir os exageros e divertir o espectador. Não faltam jogos de sedução, um julgamento rocambolesco (provavelmente um dos momentos mais inspirados de "Casanova '70"), alguns exageros, uma banda sonora a incrementar os diversos trechos da narrativa, figuras femininas em roupas sugestivas, embora o maior alvo de troça seja o engatatão que tarda em superar as suas inseguranças. Pronto a desconstruir a figura do "macho latino", "Casanova '70" surge como mais um exemplar recomendável das "comédias à italiana", com Mario Monicelli a aproveitar de forma exímia a estrutura episódica da narrativa, enquanto Marcello Mastroianni volta a exibir o seu talento e carisma.

Título original: "Casanova '70". 
Título em Portugal: "Casanova 70". 
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Suso Cecchi D'Amico, Tonino Guerra, Mario Monicelli, Giorgio Salvioni, Age & Scarpelli.
Elenco: Marcello Mastroianni, Virna Lisi, Enrico Maria Salerno, Marisa Mell, Moira Orfei, Marco Ferreri.

04 março 2016

Resenha Crítica: "La ragazza con la pistola" (1968)

 Monica Vitti seduz, é seduzida, procura vingar-se, dispara, dança, canta, grita, expõe exageradamente os sentimentos e encanta em "La ragazza con la pistola", uma comédia realizada por Mario Monicelli. O cineasta satiriza os hábitos e rituais associados aos sicilianos, utiliza elementos de filmes de vingança e transporta a sua protagonista para uma miríade de locais, sempre com muito humor e situações delirantes à mistura. Monica Vitti interpreta Assunta Patanè, uma mulher oriunda de uma pequena vila na Sicília, que é raptada por indivíduos ao serviço de Vincenzo Macaluso (Carlo Giuffrè), uma espécie de Don Juan destrambelhado, que procurava conquistar a prima da protagonista à força. Quem é raptada é Assunta, uma mulher que parecia nutrir algum desejo por este homem, embora não demonstrasse directamente esse sentimento. Esta é uma figura feminina apegada às tradições e aos "bons valores morais", com toda a sua família a ser composta apenas por mulheres, algo que remete para a violência no território e para o modo como as suas gentes resolvem os problemas. Diga-se que a própria Assunta exibe essa violência, sobretudo quando passa uma noite com Vincenzo e este foge para a Escócia. Escusado será dizer que Assunta fica revoltada, com a sua família e o seu noivo a obrigarem-na a eliminar Vincenzo, tendo em vista a "limpar" a desonra (o filme aproveita o humor para abordar e satirizar a prática de fuitina e os estranhos códigos de honra dos habitantes deste local). Assunta domina mal a língua inglesa e a arte do disparo, mas viaja com uma pistola, uma quantia monetária generosa e vestes negras, apresentando um conjunto de valores rígidos e conservadores que vão chocar de frente com a realidade que encontra na Escócia. A estrutura narrativa é relativamente episódica, com Assunta a deslocar-se para diversos locais, enquanto se cruza com um conjunto alargado de personagens, com a vingança a surgir como parte do fio condutor do enredo. Vincenzo procura escapar desta mulher a todo o custo, enquanto esta convive com realidades distintas que permitem explorar o talento de Monica Vitti para o humor. Capaz de compor personagens complexas como demonstrou em obras cinematográficas como "L'Avventura", "La Notte", "L'Eclisse" e "Il deserto rosso", Monica Vitti tem em "La ragazza con la pistola" um papel que permite apresentar um registo bem distinto em relação aos exemplos citados. O humor domina este filme, bem como o desejo de vingança da protagonista e até alguns salpicos de romance. Assunta conquista muitos dos elementos que a rodeiam, embora não tenha problemas em despachar quase todos e exibir a arma que guarda na sua mala. Para Assunta, as tradições são para levar a sério, embora a própria a espaços ceda ao desejo, ou às tentações, enquanto acaba por se adaptar gradualmente à cultura e hábitos britânicos.

 Mario Monicelli não tem problemas em usar e abusar dos exageros, utilizando alguns estereótipos ao serviço do humor, ao mesmo tempo que cria alguns momentos hilariantes. Veja-se quando Assunta trabalha como empregada de um casal na Escócia. O facto de Assunta não dominar a língua inglesa é inicialmente problemático, bem como a inadaptação da protagonista aos hábitos locais. Essa situação é particularmente visível quando o casal organiza uma festa, com Assunta a emitir uma gargalhada bem sonora quando se depara com um convidado que chega de kilt. A gargalhada, exposta em fora de campo, espelha paradigmaticamente a personalidade expansiva desta mulher que tem os sentimentos à flor da pele, bem como o facto de ainda se encontrar pouco adaptada à nova realidade. Diga-se que Assunta depara-se com alguns italianos quer na Escócia, quer em Inglaterra, com "La ragazza con la pistola" a explanar o fluxo emigratório neste período, enquanto Mario Monicelli, um dos mestres da "comédia à italiana", aproveita para abordar esta situação e efectuar alguns comentários de cariz social. Veja-se que os valores inicialmente conservadores de Assunta, expostos de forma exagerada, permitem discernir uma Itália recheada de assimetrias, pontuada por locais citadinos modernos mas também espaços mais conservadores e retrógados, com a chegada da protagonista à Escócia e Inglaterra a exacerbar essas dicotomias. Inicialmente, Assunta procura por Vincenzo num restaurante, em território escocês, embora este "D. Juan" consiga fugir. A busca protagonizada por Assunta continua em Inglaterra, enquanto esta mulher encontra uma série de figuras que prometem marcar a sua vida e a narrativa. Um dos elementos que se destaca é John (Anthony Booth), um mecânico e jogador amador de rugby, fã desta modalidade, que parece interessado nesta mulher embora seja facilmente descartado pela mesma. A personalidade desta é bem visível quando se encontram na casa de John e este visiona um jogo de rugby. Assunta questiona como é possível um homem estar sozinho com uma mulher e preferir assistir a um jogo de rugby, algo que este encara como uma tentativa de avanço, embora a protagonista faça questão de ameaçar o personagem interpretado por Anthony Booth. Diga-se que este momento deixa-nos diante de dois lados de Assunta: provocador e conservador. Esta é uma figura feminina recheada de contradições, algo que John pode comprovar. Este é um jovem loiro e enérgico que procura ajudar Assunta na busca por Vincenzo, enquanto a protagonista entra em choque com os valores locais, não tendo problemas de adjectivar "carinhosamente" de "puta" todas as mulheres que se cruzaram com o fugitivo. Assunta descarta o jogador de rugby quando descobre que Vincenzo se encontra a trabalhar no transporte de doentes num hospital em Bath. É nas proximidades do hospital que esta conhece Dr. Osborne (Stanley Baker) e Frank Hogan (Corin Redgrave). Frank é um estudante que tentou cometer suicídio. Este revela interesse em casar com Assunta, embora esta logo descubra que o pretendente é homossexual. O Dr. Osborne surge como uma figura ponderada, que procura ajudar Assunta, incluindo a nível laboral e de adaptação ao território e à língua. O personagem interpretado por Stanley Baker parece despertar a atenção da protagonista, embora seja um homem casado, com a dupla a protagonizar alguns episódios marcantes.

 Assunta começa a entender que a sua personalidade efervescente e os seus "valores sicilianos" nem sempre se adaptam a toda uma nova realidade, com a própria a conhecer algumas alterações ao longo do enredo. Vitti é um furacão que mexe com a narrativa, com as figuras masculinas e conquista o espectador (ou pelo menos este que escreve o texto). As explosões da protagonista são hilariantes, bem como o choque dos seus valores em relação àqueles que a rodeiam, embora até acabe por formar uma estranha dinâmica com algumas figuras masculinas. Esta começa a adaptar-se à vida em Inglaterra e a formar sentimentos mais fortes pelo Dr. Osborne, parecendo desistir da ideia de regressar a casa, embora seja constantemente atormentada por pensamentos relacionados com a forma como poderá ser recebida na Sicília se descobrirem que não eliminou Vincenzo. As divagações da protagonista funcionam, tal como diversos momentos de humor, com Mario Monicelli a criar uma obra cinematográfica capaz de satirizar elementos culturais quer da protagonista, quer daqueles que esta encontra na Escócia e em Inglaterra. Por vezes existem algumas incoerências, incluindo na forma como diversas figuras comunicam em inglês ou italiano consoante estão viradas, embora pouco incomodem ao longo deste enredo dominado pelos exageros. Se Stanley Baker interpreta sobriamente uma figura calma e compreensiva, já Carlo Giuffrè não tem problemas em explorar a faceta conquistadora e sacana de Vincenzo, um indivíduo que se prepara para provar do seu próprio veneno. Veja-se no último terço, quando procura reencontrar Assunta, com esta a apresentar toda uma nova postura e visual, parecendo adaptada a Inglaterra e às suas gentes. Esta forma uma relação de proximidade com o Dr. Osborne, algo que atribui uma faceta de comédia romântica a este filme recheado de emoções fortes, com o desejo de vingança de Assunta a servir como o combustível para diversos episódios elevados por Monica Vitti. A actriz é explosiva e intensa, apresentando uma capacidade notável para elevar uma obra cinematográfica na qual Mario Monicelli não tem problemas em exacerbar os estereótipos associados aos sicilianos, ingleses e escoceses, enquanto desenvolve uma comédia recheada de episódios que ficam na memória e efectua alguns comentários sobre a sociedade do seu tempo. Diga-se que esta abordagem satírica aos valores muito próprios e conservadores dos sicilianos a espaços remete para "comédias à italiana" como "Divorzio all'italiana" e "Sedotta e abbandonata", realizadas por Pietro Germi. Os dois exemplos citados colocam o espectador diante de uma sociedade siciliana pontuada por falsas aparências, estranhos códigos de honra e valores retrógados, com "Sedotta e abbandonata" a contar com situações como um pai a procurar casar a sua filha com o homem que a "desonrou" e um rapto para forçar um casamento, enquanto Pietro Germi recorre à sátira, ao exagero e ao humor negro para expor esta realidade. Com um conjunto de momentos de humor que funcionam, uma vingança destrambelhada e uma protagonista marcante, "La ragazza con la pistola" exibe o talento de Monica Vitti para a comédia e de Mario Monicelli para a realização de filmes do género.

Título original: "La ragazza con la pistola".
Título em Portugal: "A Rapariga da Pistola".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Luigi Magni e Rodolfo Sonego.
Elenco: Monica Vitti, Stanley Baker, Carlo Giuffrè, Corin Redgrave, Anthony Booth.