11 março 2016

Resenha Crítica: "Pride and Prejudice and Zombies" (Orgulho e Preconceito e Guerra)

 Irregular e temeroso, "Pride and Prejudice and Zombies" parece ter receio de arriscar ou assumir uma identidade, algo que deixa esta obra cinematográfica a meio caminho de quase tudo aquilo a que se propõe. É certo que está longe de ser um desastre, ou uma completa perda de tempo. Também é notório que consegue mesclar em alguns momentos a história do clássico livro de Jane Austen com o contexto pós-apocalíptico que envolve os protagonistas, sobretudo nos momentos iniciais, embora Burr Steers, o realizador e argumentista, nunca pareça saber o rumo que pretende seguir. Steers esgueira-se pelas fronteiras dos filmes de época, acção, zombies, terror, romance, paródia ou sátira, ainda que não consiga mesclar os diversos "ingredientes" de forma assertiva, algo que não impede "Pride and Prejudice and Zombies" de ter alguns bons apontamentos, apesar do parco desenvolvimento de diversos personagens secundários, da necessidade extrema de apressar alguns acontecimentos da narrativa ao ponto de parecerem forçados e expor as cenas mais violentas de forma sensaborona (tendo em vista a manter a sua classificação PG-13). O conceito é peculiar, apesar de se esvaziar com facilidade, com esta adaptação cinematográfica do livro de Seth Grahame-Smith a reunir o universo narrativo de "Pride and Prejudice" com zombies e um contexto pós-apocalíptico. Nem tudo funciona, embora confesse que gostei imenso de ver Lily James como esta Elizabeth Bennet simultaneamente frágil, pronta para a pancadaria, inteligente e independente, com a actriz a convencer quer nas cenas de acção, quer nas mais dramáticas, embora não faça esquecer Keira Knightley na magnífica adaptação do livro de Jane Austen, realizada por Joe Wright. Diga-se que o propósito de "Pride and Prejudice and Zombies" não é copiar a obra cinematográfica de Joe Wright, até pelos filmes apresentarem propostas e conceitos distintos. A sensibilidade num toque entre Mr. Darcy (Sam Riley) e Elizabeth é trocada por um confronto entre a dupla, muito a fazer recordar "The Mask of Zorro", onde a batalha conduziria a uma abertura de vestimentas. O Mr. Darcy que nos é apresentado é um caçador de zombies implacável, conhecido pela sua personalidade austera e lacónica, bem como pelas suas vastas propriedades (dono de metade de Derbyshire). Sam Riley convence em relação à arrogância de Darcy e à sua habilidade para a matança (se esquecermos por vezes o seu tom de voz), embora o romance entre este personagem e Elizabeth não seja devidamente desenvolvido. A dinâmica entre Sam Riley e Lily James não é totalmente aproveitada, bem como o choque de classes entre os personagens que interpretam, algo notório quando chega o primeiro pedido de casamento e uma carta reveladora, duas situações que deveriam causar impacto embora Burr Steers não consiga atribuir-lhes a relevância que mereciam. Burr Steers parece ficar enredado entre algumas das suas limitações e aquelas que lhe foram impostas pelo estúdio, algo que, muito provavelmente, impede "Pride and Prejudice and Zombies" de ganhar uma voz forte ou atirar-se de cabeça para o absurdo que envolve toda a sua premissa.

 O enredo do filme desenrola-se em Inglaterra, durante o Século XIX, com o país a encontrar-se num estado caótico devido a um vírus que transformou boa parte da população em zombies devoradores de cérebros. Diga-se que estes zombies estão longe de serem figuras desprovidas de inteligência, com alguns destes seres a conseguirem falar e montar armadilhas, existindo até uma espécie de aristocracia de mortos-vivos que supostamente apenas se alimenta de cérebros de macacos. O número elevado de zombies conduziu os elementos não infectados a treinarem técnicas de defesa e ataque na China ou no Japão, tendo em vista a defenderem-se de um possível ataque. A possibilidade de um Apocalipse Zombie é real, com a maioria dos não infectados a estar em alerta, enquanto procuram seguir com as suas vidas. As irmãs Bennet, nomeadamente, Elizabeth (Lily James), Jane (Bella Heathcote), Kitty (Suki Waterhouse), Lydia (Ellie Bamber) e Mary (Millie Brady), foram treinadas na China (algo parece remeter para um estatuto social inferior, enquanto que quem treinou no Japão tem mais posses), a pedido do pai de ambas, Mr. Bennet (Charles Dance). Destas irmãs, apenas Elizabeth e Jane conseguem sobressair, enquanto Kitty, Lydia e Mary surgem praticamente como material de decoração. As cinco irmãs vivem com os pais, Mr. Bennet e Mrs. Bennet (Sally Phillips), um casal de personalidade distinta. Se Mr. Bennet é um indivíduo cuidadoso e discreto, que raramente é aproveitado ao longo da narrativa, já Mrs. Bennet é uma mulher expansiva que procura casar as filhas a todo o custo, mesmo que estas não estejam para aí viradas (como é o caso de Elizabeth). Mrs. Bennet surge como uma figura quase ridícula, exposta de forma caricatural, que procura casar as filhas a todo o custo, com "Pride and Prejudice and Zombies" a falhar muitas das vezes na crítica social, ou de costumes, embora talvez esteja a ser demasiado optimista ao pensar que Burr Steers considerou esta hipótese. A personagem interpretada por Sally Phillips procura juntar Jane com Mr. Bingley (Douglas Booth), um indivíduo abastado, que chega a este território do interior acompanhado pelas suas irmãs e pelo melhor amigo, Mr. Darcy. Bingley e Jane apaixonam-se com facilidade, enquanto Elizabeth e Darcy apresentam uma animosidade latente, ainda que a nível inicial. Os personagens interpretados por Douglas Booth e Bella Heathcote entram em contacto num baile, com Burr Steers a ser fiel à época representada ao expor estes eventos como um meio de convívio, embora acrescente ataques de mortos-vivos à equação. O design a nível dos cenários interiores é competente, enquanto o guarda-roupa procura transmitir o período em que se desenrola a narrativa, apesar das jovens estarem acompanhadas de armamento para o caso de se depararem com zombies. Veja-se logo no início de "Pride and Prejudice and Zombies", quando encontramos as irmãs Bennet a limparem as suas armas, algo que evidencia a preparação destas figuras femininas para a arte do combate. Os militares procuram defender o território, embora a ameaça provocada pelos zombies pareça aumentar exponencialmente, uma situação que promete colocar a vida de vários personagens em perigo. Diga-se que o perigo raramente é sentido, com Burr Steers a parecer ter medo de mexer com alguns personagens relevantes, algo que piora quando existe um parco aproveitamento e desenvolvimento das figuras secundárias. Veja-se o caso das irmãs de Elizabeth, ou a unidimensionalidade de Mr. Bingley, um indivíduo simpático, interpretado por Douglas Booth, um actor incapaz de incutir sentimento ao personagem, ou o episódio da procura de Mr. Wickham (Jack Huston) em envolver-se com Lydia como meio de se vingar de Elizabeth e Darcy.

 A notícia de que Lydia fugiu com Wickham perde todo o poder devido ao facto da primeira pouco ou nada ter sido desenvolvida ao longo da narrativa, embora Jack Huston interprete eficazmente uma figura manipuladora, dotada de malícia, que nos apresenta a uma "aristocracia" de zombies. Se a desinspiração nas cenas de acção pode ser perdoada, já o pouco desenvolvimento de alguns personagens e a incapacidade de tornar os zombies em criaturas que despertem receio no espectador revelem acima de tudo imenso desleixo e incompetência. É certo que Steers procura manter diversos diálogos e momentos que pertencem à obra literária de Jane Austen, algo notório quando Mr. Darcy descreve Elizabeth como "tolerável", ou na procura da tia deste em afastar a jovem do sobrinho. A tia de Darcy é Lady Catherine de Bourgh (Lena Headey), uma figura caricatural, conhecida por ser uma caçadora de zombies temível, que utiliza uma pala num olho e é completamente impossível de levar a sério. O mesmo acontece com Matt Smith, embora o actor pareça perceber melhor do que ninguém o filme em que está inserido, acertando nos timings cómicos como Padre Collins, um pretendente de Elizabeth. A relação entre Elizabeth e Darcy acontece no interior deste contexto violento, com os zombies a colocarem diversos elementos em perigo, embora Burr Steers não consiga transportar esse receio ou medo para o espectador, bem pelo contrário. Essa incapacidade de despertar o medo no espectador, ou criar algum desassossego em relação ao destino dos personagens, remete para a falta de um argumento forte, que contribua para a construção de figuras com quem seja possível gerar alguma identificação ou preocupação, bem como para a inconsistência de "Pride and Prejudice and Zombies" e a falta de inspiração com que Burr Steers filma esta obra cinematográfica. Por vezes quase que existe vontade de clamar para que Steers assuma de vez o tom camp do filme, ou simplesmente que mantivesse a história original mesclada com zombies. Algumas ideias funcionam, tais como a criação de uma espécie de a aristocracia zombie, embora sejam desperdiçadas pela falta de desenvolvimento. É certo que a premissa de "Pride and Prejudice and Zombies" pede para desligarmos muitas das vezes o nosso lado mais pragmático, algo que permite apreciar algumas trocas de diálogos, ou o desempenho de Lily James como Elizabeth Bennet, ou soltar alguns risos, embora Burr Steers deixe o travo amargo de que poderia ter pegado em todos os elementos que lançou e efectuado um filme que não se limitasse a sobressair pela sua ideia inicial. No final, não senti que tivesse perdido tempo a ver "Pride and Prejudice and Zombies", mas também não consegui deixar de pensar em tudo aquilo que o filme poderia ter sido, mas não foi, ou não conseguiu ser...

Título original: "Pride and Prejudice and Zombies".
Título em Portugal: "Orgulho e Preconceito e Guerra".
Realizador: Burr Steers.
Argumento: Burr Steers.
Elenco: Lily James, Sam Riley, Jack Huston, Bella Heathcote, Douglas Booth, Matt Smith, Charles Dance, Lena Headey.

Resenha Crítica: "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" (1970)

 Entre protestos populares, polícias reaccionários, interrogatórios que parecem infringir claramente a lei, um homicídio macabro, flashbacks que trazem uma miríade de memórias e uma investigação que se encontra corrompida pelo facto do assassino se encontrar ligado à mesma, "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" coloca-nos diante do quotidiano de um Inspector (Gian Maria Volontè) do Departamento de Homicídios de uma esquadra localizada em Roma. Este é o cidadão acima de qualquer suspeita do título desta longa-metragem realizada por Elio Petri, com o realizador e agumentista a colocar-nos diante de uma narrativa pontuada por algumas reviravoltas, uma investigação intrincada a um assassinato e um interessante estudo de personagem. O protagonista é um inspector reaccionário e homofóbico, que apresenta uma personalidade violenta e ideais fascistas, encontrando-se em plena ascensão na carreira, embora se prepare para hipotecar o seu futuro ao assassinar Augusta Terzi (Florinda Balkan), uma mulher com quem mantinha um caso. Augusta é uma mulher sensual, provocadora e masoquista, que conhecemos sobretudo através dos diversos flashbacks que povoam a narrativa de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", com Elio Petri a utilizar este recurso de forma pertinente. O início do filme é marcado pelo assassinato de Augusta. A música de Ennio Morricone, bastante sentida e pronta a mesclar o tom simultaneamente inquietante e algo peculiar que rodeia esta obra cinematográfica, silencia-se durante a colocação do assassinato em prática. Os lençóis negros não enganam, o momento é de luto, embora o som emitido por Augusta ludibrie temporariamente o espectador, ou esta não se encontrasse em pleno acto sexual com o personagem interpretado por Gian Maria Volontè. O protagonista aproveita o momento para assassinar Augusta com uma lâmina, um acto frio, aparentemente planeado antecipadamente. Não sabemos se o protagonista pretende escapar incólume ao assassinato ou simplesmente desafiar a capacidade de investigação dos seus colegas. Nesse sentido, tanto encontramos este inspector a encobrir provas como a deixar pistas para serem descobertas pelos seus colegas, sejam impressões digitais, um pedaço de tecido de uma gravata, pegadas manchadas de sangue, para além de ser visto por Antonio Pace (Sergio Tramonti), um vizinho e amante de Augusta, um jovem radical, que se prepara para embater de frente com o protagonista. Diga-se que este acto vai ocupar o tempo de diversos elementos da esquadra, com o inspector a procurar ter um papel activo na investigação, embora tenha sido destacado para liderar o Departamento Político e Social, tendo em vista a reprimir os protestos populares. Esta ascensão na carreira do protagonista surge como um meio para Elio Petri e Ugo Pirro, a dupla de argumentistas, abordarem a atmosfera política e social fervilhante deste período, algo latente nas notícias de ataques bombistas, protestos populares, entre outros episódios que a espaços são expostos ao longo do enredo de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto".

A ascensão profissional confirma alguns dos méritos do percurso laboral do protagonista, um inspector conhecido pela competência e violência no cumprimento dos seus serviços. Para o personagem interpretado por Gian Maria Volontè, a "repressão é a nossa vacina", algo que diz muito dos valores deste elemento que deveria zelar pelo cumprimento da lei, embora as suas práticas estejam longe de serem recomendáveis, parecendo consumido pelo poder e pelos benefícios que a sua posição pode trazer. Diga-se que Elio Petri efectua um retrato nem sempre simpático das autoridades, algo que a espaços resvala propositadamente para o exagero, com quase todos os elementos a não terem problemas em utilizar a violência física e verbal nos interrogatórios (embora esta temática nem esteja assim tão desactualizada, basta pensarmos nas polémicas relacionadas com o Campo de Detenção da Baía de Guantánamo). O comentário político e social é transversal a diversas obras cinematográficas de Elio Petri, algo bem visível em "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", com o cineasta a efectuar uma crítica latente à impunidade dos mais poderosos, bem como ao autoritarismo de alguns elementos das autoridades. Veja-se os discursos praticamente fascistas do protagonista, algo que remete para o retrato pouco simpático das autoridades de outras obras de Elio Petri como "L'assassino" e "A ciascuno il suo". Gian Maria Volontè consegue expressar as contradições deste inspector que tanto surge implacável e vivaz no cumprimento do seu ofício como se revela frágil e incapaz a nível pessoal. A relação entre o inspector e Augusta é paradigmática dessas contradições do protagonista, com este a sentir-se fascinado por esta figura que o compele a colocar em prática os actos mais bizarros. Veja-se nos flashbacks, quando encontramos Augusta a simular as posições das vítimas de homicídio dos casos investigados pelo protagonista, enquanto este último fotografa a amante, ou os momentos em que o personagem interpretado por Gian Maria Volontè finge que se encontra a interrogar esta figura feminina, utilizando alguma violência. Augusta parece apreciar estes episódios, tal como o protagonista, com a relação entre ambos a ser marcada pela estranheza desde os momentos iniciais. A personagem interpretada por Florinda Balkan efectuara telefonemas misteriosos para o inspector, algo que despertou a curiosidade deste indivíduo em relação a esta mulher casada. O assassinato de Augusta muda o quotidiano do protagonista, com este acto a parecer uma maneira bizarra para o inspector avaliar o seu poder e influência, para além de explanar que este se sentiu despeitado devido a alguns gestos e palavras desta mulher.

Os flashbacks são essenciais para desenvolver a personagem interpretada por Florinda Balkan (remetendo praticamente para "L'assassino", uma obra cinematográfica onde Elio Petri utilizou este recurso de forma exímia), com a actriz a convencer em relação à personalidade magnética desta figura feminina dotada de enorme beleza e estranheza, que procura estimular o protagonista a transgredir a lei, acabando por ser vítima deste último. Este parece não se encontrar totalmente consciente das possíveis consequências do seu acto, ou talvez até esteja demasiado convencido de que sairá incólume, uma situação notória quando o protagonista sai do local do crime acompanhado por duas garrafas de champanhe, tendo em vista a comemorar a promoção para o novo departamento. Os colegas parecem respeitar e apreciar o seu trabalho, enquanto a imprensa é relativamente controlada através de algumas figuras com acesso a informação privilegiada. Veja-se quando o protagonista pede a um jornalista (Massimo Foschi) para que este último destaque a possibilidade do marido de Augusta ser o assassino, bem como a particularidade desta mulher não utilizar cuecas, algo que permite começar a mexer com a opinião pública. O esposo de Augusta é homossexual, sendo alvo de diversos preconceitos no interior da esquadra, incluindo por parte do protagonista. O inspector interroga o suspeito, embora ilibe o mesmo de culpas, considerando que este se encontra inocente, indo tomar uma série de medidas que prometem desafiar os seus colegas e a lógica. Veja-se quando pede a um canalizador (Salvo Randone - um colaborador habitual de Elio Petri, em mais um papel secundário de relevo) para comprar vinte e cinco gravatas com o mesmo tecido e cor do fio que se encontrava preso na unha da vítima, obrigando o primeiro a dirigir-se à esquadra e a descrever o assassino. Ninguém se acredita na descrição, enquanto o personagem interpretado por Gian Maria Volontè tanto parece pretender ser descoberto como procura esconder provas de tudo e todos. O actor consegue transmitir a personalidade complexa deste indivíduo que apresenta comportamentos mais próximos de um criminoso do que de alguém pronto a defender a lei, com Volontè a não ter problemas em cair em exageros propositados para explanar alguns momentos mais expansivos deste inspector. A banda sonora permite incrementar alguma da inquietação que envolve a investigação e os actos do protagonista, bem como a cinematografia. Os close-ups são utilizados com precisão, algo notório quando encontramos o inspector a dialogar com o canalizador que é obrigado a transportar as gravatas para a esquadra. Este é um dos vários momentos em que Gian Maria Volontè tem oportunidade para se destacar, com o actor a criar um personagem que tanto nos repele como consegue despertar a atenção.

Em certa medida, o personagem principal de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" traz à nossa memória Mark Dixon (Dana Andrews), o protagonista de "Where the Sidewalk Ends", um agente da autoridade que cometeu um homicídio involuntário e procura inicialmente esconder esse acto dos seus superiores. No caso de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", o personagem interpretado por Gian Maria Volontè cometeu um crime de forma propositada, embora também se sinta gradualmente compelido a revelar o seu acto, enquanto Elio Petri realiza um filme que a espaços nos remete para as tradições das obras noir dos EUA, mas também para as fitas policiais deste país. Não falta uma atmosfera de insegurança, personagens de carácter dúbio, polícias pouco confiáveis, com "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" a mesclar ainda elementos meio surreais, algo visível no final em que Kafka é citado e um sonho parece momentaneamente tomar conta da realidade. Diga-se que Elio Petri volta a colocar-nos diante de uma narrativa a espaços kafkiana, tal como em "L'assassino", com o final a exibir paradigmaticamente essa situação, enquanto o cineasta aproveita ainda para incutir alguma mordacidade e humor negro ao enredo, algo visível nos gestos e acções do personagem interpretado por Gian Maria Volontè. O protagonista a espaços parece denotar algum sentimento de culpa, tendo de lidar com as consequências de ter cometido um crime que se encontra longe de ser perfeito, com o personagem interpretado por Volontè a surgir como uma figura recheada de contradições que se encontra consumida pelo poder. Existe quase um tom farsesco na forma como o protagonista descredibiliza aqueles que o podem incriminar ou apresentam receio em efectuar a denúncia, algo latente no caso do canalizador que transporta as gravatas para a esquadra. O filme permite ainda que alguns personagens secundários se destaquem, sobretudo Augusta e Antonio Pace (um anarquista que tem um papel fundamental num dos protestos "musculados", embora o argumento nem sempre problematize os gestos e ideias destes elementos). Vale ainda a pena destacar Mangani (Arturo Dominici) e Biglia (Orazio Orlando), dois colegas do protagonista, que também se encontram envolvidos na investigação. "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" convida-nos a acompanhar um inspector de personalidade complexa, com Gian Maria Volontè a ter um desempenho marcante ao longo desta obra cinematográfica onde Elio Petri não tem problemas em expor uma visão menos simpática sobre as autoridades e a sua conduta, enquanto nos coloca diante de um thriller bastante recomendável.

Título original: "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto".
Título em Portugal: "Inquérito a Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Elio Petri e Ugo Pirro.
Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Gianni Santuccio, Salvo Randone.

10 março 2016

Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano - Breve texto sobre a programação

 Heterogénea, promissora, pronta a trazer uma amostra alargada das produções cinematográficas italianas recentes e evocar a memória de alguns clássicos de outrora (sejam estes de um passado mais recente como "La vita è bella", ou mais distante como a obra-prima "8½"), a programação da nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano promete aquilo que esperamos deste certame: descobertas agradáveis, criar novas memórias cinéfilas, reencontrar velhas paixões cinematográficas, para além de possíveis desilusões impossíveis de evitar. Se o filme que empresta o nome ao certame continua a manter um valor inolvidável ao longo do tempo, parecendo melhorar a cada visualização, também o 8½ Festa do Cinema Italiano tem vindo a crescer de ano para ano. Mais espectadores, uma presença notória em mais cidades e a entrada no Cinema UCI - El Corte Inglés, sempre com o foco no essencial: dar a conhecer o cinema italiano. É verdade que alguns dos filmes contam com distribuição em sala, mas aquilo que nos chega em circuito comercial é sempre uma pequena amostra de um país com uma produção cinematográfica riquíssima e heterogénea. Essa diversidade ajuda a explicar as dicotomias entre o filme de abertura e a obra cinematográfica de encerramento. A escolha para o filme de abertura é "Il racconto dei racconti", uma obra cinematográfica realizada por Matteo Garrone, que surge como uma proposta ambiciosa, estimulante e envolvente, dotada de elevados valores de produção, um elenco talentoso e uma narrativa pontuada por três histórias inspiradas livremente em contos do livro "Lo cunto de li cunti" de Giambattista Basile. "Il racconto dei racconti" vai ser exibido no Cinema São Jorge, na Sala Manoel de Oliveira, no dia 30 de Março, às 21:30. Por sua vez, o filme de encerramento é a comédia "Quo vado?", realizada por Gennaro Nunziante. É uma oportunidade para aferir as razões do sucesso alcançado por Quo vado?", bem como para contactar com uma comédia de um país que contou (e conta) com grandes especialistas no género.

"Quo Vado?" e "Il racconti dei racconti" fazem parte da secção "Panorama" do 8½ Festa do Cinema Italiano. Esta secção conta com diversas obras cinematográficas recentes, entre as quais, "Suburra" (de Stefano Sollima); "A Bigger Splash" (em Portugal - "Mergulho Profundo", de Luca Guadagnino); "Per amoro vostro" (em Portugal - "Anna", de Giuseppe Gaudino); "Alaska" (de Claudio Cupellini); "Il nome del figlio" (Francesca Archibughi); "Latin Lover" (de Cristina Comencini); "Lea" (de Marco Tullio Giordana), "Ma che bella sorpresa" (de Alessandro Genovesi); "Nessuno si salva da solo" (de Sergio Castellitto), "Non essere cattivo" (de Claudio Caligari); "Sangue del Mio Sangue" (de Marco Bellocchio). Para além dos destaques óbvios dos filmes de abertura e encerramento, vale a pena realçar o recomendável "Suburra", a segunda longa-metragem realizada por Stefano Sollima. Inspirado no livro homónimo de Carlo Bonini e Giancarlo De Cataldo, "Suburra" transporta-nos para o interior de sete dias caóticos e marcantes de diversos personagens que habitam um espaço urbano pontuado pelo crime, imoralidade, violência e disputas de poder, enquanto Stefano Sollima consegue mexer nas peças que tem à disposição com enorme eficácia e inspiração. Outro dos destaques é "Sangue del Mio Sangue", o novo filme de Marco Bellocchio, uma obra cinematográfica que conta com presenças em certames como o Festival de Veneza e o Festival de Toronto. Tal como "Il racconto dei racconti", também "A Bigger Splash" reúne um elenco internacional de peso, contando com nomes como Ralph Fiennes e Tilda Swinton. O elenco é um dos destaques de "Nessuno si salva da solo", um filme protagonizado por Riccardo Scamarcio e a nossa mui adorada Jasmine Trinca. Vale a pena realçar que Sergio Castellitto, o realizador de "Nessuno si salva da solo" vai estar presente ao vivo e a cores na nona edição do 8½. Por fim, mas não menos importante, outra das obras cinematográficas que parecem merecer toda a nossa atenção é "Non essere cattivo", o último filme de Claudio Caligari, tendo sido apresentado no Festival de Veneza e seleccionado como o candidato italiano aos Oscars.

 Se "Non essere cattivo" não chegou a integrar a lista final de nomeados para Melhor Filme Estrangeiro ou em Língua Estrangeira, já "8½", uma das obras-primas de Federico Fellini e da História do Cinema, conquistou a vitória nessa categoria na trigésima sexta edição dos Oscars. A exibição da nova cópia restaurada de "8½" é, muito provavelmente, o grande evento dentro deste evento que é a Festa do Cinema Italiano. Diga-se que a exibição da nova cópia restaurada do filme ao qual o festival deve o nome abre ainda as portas do cinema UCI à dinâmica de festivais de cinema. A exibição de "8½", a 31 de Março, será acompanhada pela exposição “8½: A Viagem de Fellini”, que reúne fotos de cena do filme 8 ½, da autoria de Gideon Bachmann, em colaboração com Cinemazero, FNAC, UCI e o Instituto Italiano de Cultura de Lisboa. A exibição de "8½" surge integrada na secção Amarcord, uma das mais apreciadas por este blogger. Como não poderia deixar de ser, a secção Amarcord conta com uma homenagem/mini-retrospectiva. Este ano não é diferente, com o escolhido a ser Ettore Scola. O festival vai contar com filmes realizados pelo cineasta, bem como algumas obras cinematográficas nas quais este trabalhou como argumentista (para além de ser exibido o documentário "Ridendo e scherzando: Ritratto di un regista all'italiana", realizado por Paola e Silvia Scola). A homenagem conta com os seguintes filmes (títulos em Português): "Feios, Porcos e Maus" (de Ettore Scola); "O Terraço" (de Ettore Scola); "Tão Amigos que nós éramos" (de Ettore Scola); "A Família" (de Ettore Scola); "O Baile" (de Ettore Scola); "Um Italiano em Angola" (Ettore Scola); "Os Monstros" (Dino Risi); "Aquele que sabe viver" ("Il sorpasso", um filme magnífico de Dino Risi); "Conheço bem essa moça" (de Antonio Pietrangeli). A secção Amarcord conta ainda com a exibição de "La vita è bella" de Roberto Benigni, bem como do documentário "Marcello Mastroianni: mi ricordo, sì, io mi ricordo".

 Dos clássicos do cinema italiano passamos novamente para a actualidade, em particular, para a secção Competitiva do 8½. A secção competitiva traz mais uma amostra de obras cinematográficas italianas recentes, contando com os seguintes exemplares: "Arianna" (de Carlo Lavagna); "Asino Vola" de Marcello Fonte e Paolo Tropidi); "Banana" (de Andrea Jublin); "L'attesa" (de Piero Messina), "Lo chiamavano Jeeg Robot" (de Gabriele Mainetti), "Pecore in Erba" (de Alberto Caviglia). Um dos destaques desta secção é "L'attesa", uma co-produção entre França e Itália, que conta com Juliette Binoche como protagonista. A distribuição em Portugal já está garantida pela Alambique Filmes. Segundo a informação disponibilizada no dossier de imprensa, "L'attesa" apresenta "(...) um diálogo íntimo entre duas mulheres que aprendem a conhecer-se partilhando a mesma ausência (...)". Outro dos destaques é aquele já atingiu o estatuto de filme de culto em Itália: "Lo chiamavano Jeeg Robot", uma obra cinematográfica que mistura o cinema de género italiano com a banda desenhada japonesa. Vale ainda a pena realçar "Banana", descrito como um "filme de traço agridoce", centrado num  rapazinho “feio, gordo, anão e maluco” chamado Banana por causa das suas pobres qualidades como futebolista. A programação do festival não termina por aqui. Veja-se o caso das sessões especiais, onde consta "Estrada 47" de Vicente Ferraz, uma co-produção entre Portugal, Brasil e Itália, ou obras cinematográficas como "Mediterranea" de Jonas Carpignano, que estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes e foi finalista do Prémio Lux de Cinema Europeu 2015. Carpignano permite ainda efectuar uma ligação entre a secção dedicada a Sessões Especiais e Il Corto, o espaço dedicado às curtas-metragens. A secção "Il Corto" conta com curtas-metragens como "A Cimbra" (de Jonas Carpignano); "SK - Sonderkomando" (de Nicola Ragione); "E.T.E.R.N.I.T." (de Giovanni Aloi); "Pastorale Cilentana" (de Mario Martone); "Belissima" (de Alessandro Capitani).

É praticamente impossível acompanhar tudo aquilo que o 8½ Festa do Cinema Italiano propõe, embora a tentação seja grande, sobretudo na secção Amarcord e Panorama. Diga-se que o festival conta ainda com mais secções e uma série de eventos paralelos que podem ser consultados no site do certame (http://www.festadocinemaitaliano.com/) ou no seguinte documento (http://www.festadocinemaitaliano.com/files/FCI_Dossie_de_Imprensa_Final_2016.pdf). A programação foi apresentada a nove de Março, no cinema UCI - El Corte Inglés, tendo contado com a antestreia de "Maraviglioso Boccaccio", um simpático pontapé de saída para aquela que esperamos ser mais uma boa edição deste evento. A nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano decorre em Lisboa entre os dias 30 de Março e 7 de Abril. A Festa do Cinema Italiano segue posteriormente para outras cidades (tais como Porto, Coimbra, Almada, entre outras) e países lusófonos (Brasil, Moçambique, Angola).

09 março 2016

Resenha Crítica: "La decima vittima" (1965)

 Recheada de violência (ainda que desprovida de sangue), cor, romance, crítica social, reviravoltas, música a condizer com os ritmos da narrativa, um peculiar jogo entre o "gato e o rato", "La decima vittima" surge como uma obra cinematográfica deliciosamente envolvente e exagerada, pontuada por algum humor e uma química assinalável entre Marcello Mastroianni e Ursula Andress. É praticamente "batota" colocar Mastroianni e Andress como a dupla de protagonistas, sobretudo quando se atribui a ambos a faceta de figuras sedutoras, aparentemente impassíveis mas capazes de cederem ao desejo. Estes são presas e caçadores, implacáveis e vulneráveis, protagonizando um jogo de sedução que facilmente conquista o espectador. A narrativa tem como pano de fundo um futuro próximo, onde existe uma espécie de jogo denominado de "Grande Caça", que utiliza a violência como um meio de evitar guerras entre as nações e entreter as massas. Alguns concorrentes encaram a Grande Caça como um meio para ganharem reconhecimento e dinheiro, outros para satisfazerem os seus ímpetos violentos, existindo um conjunto de regras que visam incrementar o nível de dificuldade do jogo e evitar que os participantes eliminem inocentes. Cada jogador tem dez missões, divididas equitativamente entre o papel de caçador e de presa. O(A) caçador(a) sabe quem tem de caçar, enquanto que a presa não é informada da identidade do(a) primeiro(a), tendo de utilizar a sua capacidade de dedução. Poucos elementos conseguiram chegar vivos até ao final, com o feliz contemplado a receber um milhão de dólares e uma homenagem pública, com os concorrentes a serem admirados pelo público. Elio Petri não poupa tempo a expor as regras do concurso, enquanto aproveita para exibir a habilidade da dupla de protagonistas para a matança e efectuar uma série de críticas à sociedade do seu tempo, através desta narrativa futurista. O sensacionalismo, o capitalismo, o materialismo, a sede de alguns seres humanos pela violência, os mass media não passam incólumes, com "La decima vittima" a parecer prever ainda a popularidade dos reality shows e a audiência televisiva dos mesmos. Elio Petri realiza uma obra de arte delirante, envolvente, estilizada e sedutora, com as críticas a serem certeiras (algumas actuais), enquanto a narrativa consegue agarrar completamente a atenção. É um filme distinto de obras cinematográficas de Elio Petri como "L'assassino", "A Ciascuno il suo", "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", ou "La classe operaia va in paradiso", que abordavam questões sociais e políticas, embora tivessem como pano de fundo uma realidade próxima da década em que foram lançadas, com o primeiro exemplo a contar com Marcello Mastroianni como protagonista, tal como "La decima vittima". Mastroianni interpreta Marcello Polletti, um concorrente de cabelo loiro pintado, aparentemente passivo e galanteador, que procura ganhar dinheiro de todas as formas, incluindo como líder de um culto. Despreza os neorrealistas, procura manter a integridade física e evitar casar com Olga (Elsa Martinelli), uma figura feminina que se encontra atraída por este embora não saiba que Marcello não pretende continuar a relação, com o protagonista a não parecer interessado em manter envolvimentos sérios desde que se separou de Lidia (Luce Bonifassy), a sua ex-mulher.

 A primeira vez que encontramos Marcello em acção é quando o protagonista elimina um indivíduo, conseguindo ser bem sucedido na sua tarefa como caçador. No entanto, o pior está para vir, ou talvez não, com Marcello a preparar-se para ser a presa de Caroline Meredith (Ursula Andress), uma concorrente que ganhou o estatuto de estrela. Ursula Andress protagoniza uma das cenas mais marcantes do filme, nomeadamente, quando Caroline se encontra no interior de um bar, com um bikini prateado recheado de picos, a dançar para o público masculino, com os espectadores a encontrarem-se em êxtase. A música, a actriz e o trabalho de Petri permitem criar todo um ambiente de estranha sedução e exagero, pontuado por algum erotismo, que logo é quebrado quando Caroline pede para um indivíduo tirar a máscara que esta utiliza, disparando contra o mesmo. É a nona missão bem sucedida de Caroline, uma figura feminina que compreende o negócio proporcionado por este jogo. Veja-se a procura de uma equipa em filmar o assassinato, com Caroline a ser patrocinada pela companhia de chá Ming. Também Marcello conta com um empresário, embora ainda não tenha a noção daquilo que pode lucrar ao mediatizar ainda mais os espectáculos associados às mortes, com o personagem interpretado por Mastroianni a contar com seis missões bem sucedidas. A certa altura, Elio Petri coloca o espectador diante de situações tão caricaturais e mordazes como uma concorrente a dizer o nome do seu patrocinador para a câmara, antes de cometer um assassinato, ou os representantes da empresa a mudarem o apoio para um adversário que se encontra momentaneamente em vantagem, com o cineasta a não poupar na crítica às grandes empresas capitalistas que apenas visam o lucro. Diga-se que o discurso de pendor social é algo comum a diversos trabalhos de Elio Petri, incluindo os citados, embora "La decima vittima" mescle ainda elementos de acção, ficção-científica, sátira, romance e uma dupla de protagonistas que simplesmente consegue que compremos facilmente as ideias do cineasta. Marcello Mastroianni apresenta um estilo descontraído e galanteador, parecendo divertir-se a protagonizar esta obra cinematográfica, enquanto Ursula Andress incute uma faceta implacável e sedutora a Caroline, com a dupla a sobressair em bom nível. Inicialmente existem diversas reservas de parte a parte, com Caroline a procurar que Marcello acredite que esta é uma jornalista que pretende entrevistá-lo. O local para a entrevista é o Templo de Vénus, um espaço histórico da cidade de Roma, seleccionado pelos patrocinadores de Caroline, tendo em vista a criar todo um espectáculo em volta do assassinato. Diga-se que Elio Petri procura conciliar estes espaços citadinos reais com os cenários futuristas. Não falta um clube de luta onde dois elementos combatem até um morrer, um centro de treino para concorrentes, casas com portas automáticas, edifícios onde ficam situadas as sedes dos líderes deste "jogo", entre outros espaços que exibem toda uma procura em criar um universo narrativo credível e extravagante a envolver a história de Caroline e Marcello. O jogo entre o gato e o rato transforma-se num jogo de sedução de parte a parte, com Marcello Mastroianni e Ursula Andress a apresentarem uma química indelével. Existe espaço para o humor mas também para momentos mais tensos, com "La decima vittima" a não poupar em tiroteios e armadilhas. Veja-se quando encontramos Caroline ou Marcello a procurarem iludir o adversário, tendo em vista a transportá-lo para um local onde o tiroteio seja filmado com direito a patrocinador, ou a citada cena na qual a personagem interpretada por Ursula Andress dança sedutoramente até pegar na pistola e eliminar a sua vítima.

 A brutalidade deste jogo é encarada como algo benéfico para a sociedade, permitindo supostamente controlar a violência e entreter as massas. Não deixa de ser curioso e irónico que o Coliseu de Roma tenha sido um local ponderado pela equipa de Caroline, com este jogo a remeter para o "pão e circo" do Império Romano, ou a violência como entretenimento não fosse algo que tenha marcado este espaço e a História da Humanidade. No caso, ficamos diante de uma certa desumanização da sociedade, com homens e mulheres a procurarem vencer um jogo sanguinário, enquanto o público rejubila e a sociedade toma atitudes tão degradantes como idolatrar assassinos ou livrar-se dos idosos. Claro que os italianos não cumprem a última regra, com Elio Petri a incutir uma certa ironia a esta quebra da lei por parte do personagem interpretado por Marcello Mastroianni. Marcello é uma figura peculiar, que procura vencer o concurso, embora indique ser algo descontraído, ou pouco esforçado, parecendo não contar com paciência para se envolver num relacionamento sério, embora Caroline prometa mexer com a sua cabeça. Por sua vez, Caroline não consegue ficar indiferente em relação a este indivíduo, enquanto Elio Petri explora a dinâmica entre os dois protagonistas e lança a dúvida se algum deles será capaz de cumprir a missão, ou se procuram apenas salvar a respectiva "pele". O visual destes personagens varia ao longo do filme, embora caiba a Ursula Andress contar com as roupas mais extravagantes e exacerbadoras da sua capacidade de sedução e enorme beleza. Vale ainda a pena realçar as roupas futuristas de Olga quando decide encetar uma vingança pessoal, com "La decima vittima" a exibir todo um fascinante cuidado no guarda-roupa e design dos cenários tendo em vista a explanar esta atmosfera exagerada que envolve a narrativa do filme. O argumento, inspirado no livro "The Seventh Victim", de Robert Sheckley, cumpre os objectivos, embora "La decima vittima" seja um caso onde o estilo contribui e muito para adensar o valor da substância e os recursos são aproveitados de forma bastante inspirada. Diga-se que "La decima vittima" conta ainda com alguns personagens secundários que se conseguem destacar. Veja-se o caso de Rossi (Massimo Serato), o assistente e advogado de Marcello, ou Salvo Randone como o peculiar técnico de um espaço dedicado ao treino dos jogadores, com este último a surgir como uma figura sem uma mão, uma voz estranha e um visual que condiz com o tom estilizado da narrativa. Com uma dupla de protagonistas carismática, alguma violência, sátira e jogos de sedução, "La decima vittima" transporta-nos para um futuro algo surreal, com Elio Petri a não poupar na crítica social, enquanto brinda o espectador com uma obra cinematográfica que desperta um estranho fascínio.

Título original: "La decima vittima".
Título em Portugal: "A Décima Vítima".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Tonino Guerra, Giorgio Salvioni, Ennio Flaiano, Elio Petri, Ernesto Gastaldi.
Elenco: Marcello Mastroianni, Ursula Andress, Elsa Martinelli, Salvo Randone, Massimo Serato.

07 março 2016

Resenha Crítica: "Divorzio all'italiana" (1961)

 Quem pretende ser propositadamente traído pelo seu cônjuge? É provável que poucas pessoas tenham esse desejo. Ferdinando Cefalù (Marcello Mastroianni), o protagonista de "Divorzio all'italiana", uma "comédia à italiana" realizada por Pietro Germi, pretende que a sua esposa cometa adultério, tendo em vista a poder eliminá-la e utilizar a traição como atenuante para defender o seu acto em tribunal. Estamos em plena sociedade siciliana, no período após a II Guerra Mundial, com Pietro Germi a utilizar os estereótipos e alguns elementos associados a este território italiano ao serviço da narrativa, proporcionando ao espectador uma comédia recheada de humor negro, momentos farsescos e situações delirantes. Não faltam sonhos delirantes, discussões acaloradas, escutas planeadas de forma trapalhona, traições, seduções, desejos impossíveis de serem contidos, barões arruinados, uma sociedade marcada por valores conservadores e falsos pudores, enquanto Marcello Mastroianni domina o filme como esta figura peculiar, que pouco ou nada faz na vida para além de planear um meio de se livrar da esposa e poder iniciar uma relação com Angela (Stefania Sandrelli), a sua prima, uma adolescente atrevida. Ferdinando é o protagonista e o narrador de serviço, um sacana armado em esperto que, tal como em diversas "comédias à italiana", prepara-se para bebericar um pouco do próprio veneno no final do filme, com Pietro Germi a não poupar no humor negro. Veja-se os sonhos delirantes do protagonista, com este a pensar em meios peculiares para a morte da esposa, tais como ser cozinhada num caldeirão a ferver, engolida pela areia ou enviada para a Lua. A mente deste indivíduo é bastante criativa e imaginativa, algo notório quando começa a imaginar a defesa que vão efectuar da sua pessoa em tribunal. A esposa de Ferdinando é Rosalia (Daniela Rocca), um mulher extremosa, que ama o esposo, embora este pareça enfadado pela rotina pouco motivante que partilha com uma figura que não deseja. Já Angela representa o fruto proibido, aquilo que o protagonista não pode, ou não deveria tentar, embora a jovem de dezasseis anos de idade procure seduzir o primo e estimular ainda mais a mente delirante do mesmo. Angela é filha de Fifidda (Laura Tomiselli), a irmã de Don Gaetano Cefalù (Odoardo Spadaro), o pai do protagonista, um indivíduo que contraiu dívidas elevadas junto de Don Calogero (Ugo Torrente), o progenitor da primeira e esposo da segunda. As dívidas de Gaetano a Calogero conduzem a que este último habite na melhor ala do palácio, onde vive com Fifidda e recebe a visita de Angela quando esta regressa das aulas, com a jovem a encontrar-se a estudar em regime de internato. Calogero é um indivíduo calvo, algo rude a expor os sentimentos, sem problemas em utilizar a violência e defender os costumes conservadores. Gaetano é um jogador inveterado que perdeu os bens mais valiosos da família, sendo casado com Donna Matilde Cefalù (Bianca Castagnetta), uma mulher relativamente submissa. Estes vivem de rendimentos, com o núcleo familiar a utilizar boa parte do tempo livre para discutir, procrastinar ou visitar a igreja, um espaço religioso onde todos se procuram redimir dos seus pecados, embora isso não impeça a má língua e os constantes falatórios sobre as vidas uns dos outros. Pietro Germi apresenta este território e as suas gentes de forma mordaz, com o cineasta a aproveitar os espaços exteriores, filmados na Sicília, ao serviço da narrativa, algo que atribui um tom relativamente realista a uma obra cinematográfica que não tem problemas em expor e explorar os absurdos dos valores conservadores pelos quais se regem diversos personagens deste espaço.

  O território da Sicília e as suas gentes é algo que atravessa parte da filmografia de Pietro Germi, incluindo "Sedotta e abbandonata", o segundo volume de uma trilogia informal de "comédias à italiana", iniciada por "Divorzio all'italiana" e concluída com "Signore & signori", pontuada por uma sátira a uma sociedade dominada pelas falsas aparências, leis e hábitos muito próprios (ou retrógrados), personagens peculiares, traições, entre outros exemplos. No caso de "Divorzio all'italiana", Ferdinando procura aproveitar os valores do território para conseguir uma pena de prisão diminuta, com os seus planos a conhecerem um avanço quando descobre que Carmelo Patanè (Leopoldo Trieste), um pintor que supostamente tinha falecido a cumprir serviço militar durante a II Guerra Mundial, é a antiga paixão de Rosalia. Ferdinando contrata os serviços de Carmelo para restaurar os frescos do palácio, procurando reunir regularmente a esposa com o antigo namorado, enquanto grava atentamente as conversas entre ambos. A chama antiga que existe entre o antigo casal demora a reacender, com Ferdinando a procurar fazer de tudo para conseguir que Carmelo e Rosalia desfrutem de algum tempo a sós e coloquem a conversa em dia. O plano não corre totalmente como o esperado, embora o resultado seja o desejado pelo protagonista, com este a ter de utilizar a imaginação para conseguir atingir os seus desideratos. Na conclusão, Pietro Germi dá a ilusão de que Ferdinando se safa, embora os planos finais despertem um sorriso no espectador e exibam o humor negro que pontua o enredo de "Divorzio all'italiana". Marcello Mastroianni é o elemento do elenco que mais se destaca, com o actor a sobressair como um sacana entediado que desperta a nossa simpatia, apesar de procurar cometer um assassinato, enquanto nos deliciamos a tentar perceber como esta figura patética vai conseguir colocar as suas tramoias em prática. O actor incute um estilo descontraído a este personagem que vive de rendimentos e deseja a prima, algo latente quando espreita regularmente a mesma, com Pietro Germi a explorar os desejos de cariz sexual dos personagens ao mesmo tempo que nos faz rir das figuras de Ferdinando, também conhecido como Fefè. Pedir o divórcio está fora de questão, com os desejos de Fefè a chocarem de frente com os valores da sociedade da época, enquanto este apresenta uma alegria notória a partir do momento em que é apelidado de "corno" por boa parte da população. Diga-se que esta é uma sociedade patriarcal, muito marcada pelas aparências, algo latente quando a igreja estimula os fiéis a falharem a estreia de "La Dolce Vita", embora a maioria dos elementos aproveite a oportunidade para visionar o filme de Federico Fellini. O argumento é inteligente a explorar as temáticas e as dinâmicas entre os personagens, apresentando alguns momentos de humor deveras inspirados ao mesmo tempo que "finca o dente" na sociedade siciliana da época e explora as especificidades deste território, a partir do qual que parece ser possível evidenciar as assimetrias culturais e sociais de Itália. Todos em Agramonte, a cidade onde se desenrola o enredo, parecem viver de aparências, com as idas à Igreja a esconderem os longos diálogos dos homens sobre mulheres, enquanto a aparente pompa de Ferdinando não passe de uma fachada, com o seu título de barão a trazer prestígio embora não condiga com as finanças deste indivíduo.

  Pietro Germi consegue aproveitar boa parte do elenco principal do filme, com uma fatia importante do sucesso de "Divorzio all'italiana" a resultar exactamente da capacidade do cineasta em apresentar uma miríade de figuras que despertam o nosso interesse. Veja-se o caso de Rosalia, com Daniela Rocca a conseguir exprimir a ingenuidade desta mulher que apresenta um riso estridente, um buço saliente e uma incapacidade notória para estimular o protagonista, encontrando em Carmelo uma figura capaz de terminar com a sua solidão. Carmelo é um elemento tímido e casado, algo que promete ser um problema acrescido para o casal adúltero, com "Divorzio all'italiana" a não poupar nas relações intrincadas e nas traições. A jovem Angela é uma falsa ingénua, com esta a gostar de provocar os homens que a rodeiam, despertando o desejo do primo mais velho, um sentimento que é mútuo. A personagem interpretada por Stefania Sandrelli surge como o motor que alavanca os desejos mais negros de Ferdinando, com esta adaptação cinematográfica do livro "Un delitto d'onore", a colocar o espectador diante de um indivíduo entediado que engendra um plano intrincado, tendo em vista a aproveitar a lei e os valores locais. Diga-se que, logo no início de "Divorzio all'italiana", somos colocados diante do protagonista, a expor de forma sardónica o espaço de Agramonte e as suas gentes, até Pietro Germi utilizar um flashback que termina apenas no último terço, com uma viagem de comboio a unir estes dois momentos situados entre o presente e o passado de Fefè. Os cenários exteriores deste espaço citadino são bem aproveitados ao serviço do enredo, embora seja impossível deixar de destacar o interior do palácio da família de Ferdinando. Este é um espaço de largas dimensões, construído há muito tempo, sendo povoado por gentes com valores morais tão diminutos como as suas posses financeiras, com Pietro Germi a utilizar este cenário de forma inspirada. Veja-se as longas correrias de Ferdinando, em direcção a uma sala fechada, para conseguir ouvir as conversas entre a esposa e Carmelo, ou a presença de uma ventoinha na primeira divisória para expressar o calor que assola este território, as almas e os corpos; a utilização do espaço da casa de banho para ver o interior do quarto onde Angela se encontra instalada, entre outros exemplos. A cinematografia é importante, sobretudo nos momentos voyeuristas dos personagens, com o trabalho de câmara a sobressair ainda no final, quando uma troca de carícias entre pés transmite sedução e desperta o riso junto do espectador. A casa conta ainda com a presença de Agnese (Angela Cardile), a irmã do protagonista, uma mulher expansiva, que procura contrair matrimónio com Rosario Mulè (Lando Buzzanca), um indivíduo que trabalha numa agência funerária. É sobre estes personagens que incide boa parte da narrativa de "Divorzio all'italiana", com Pietro Germi a abordar diversas questões associadas aos costumes das gentes deste território da Sicília, ao mesmo tempo que nos coloca diante de um protagonista com poucos valores morais, que se procura livrar da esposa e assumir uma relação com a prima, com Marcello Mastroianni a criar um personagem que resulta na perfeição no interior desta comédia negra recheada de momentos e diálogos memoráveis.

Título original: "Divorzio all'italiana". 
Título em Portugal: "Divórcio à Italiana".
Realizador: Pietro Germi.
Argumento: Ennio De Concini, Pietro Germi, Alfredo Giannetti, Agenore Incrocci.
Elenco: Marcello Mastroianni, Daniela Rocca, Stefania Sandrelli, Leopoldo Trieste, Odoardo Spadaro.

06 março 2016

Resenha Crítica: "Casanova '70" (1965)

 Comédia à italiana recheada de situações rocambolescas, mal-entendidos, diversos episódios perigosos e um "Casanova" que apenas consegue colocar a "máquina" a funcionar quando está em perigo, "Casanova '70" surge como mais um triunfo cinematográfico de Mario Monicelli, com o cineasta a voltar a explorar uma estrutura narrativa relativamente episódica, enquanto apresenta a miríade de conquistas do Major Andrea Rossi-Colombotti (Marcello Mastroianni), um elemento ao serviço da NATO. Monicelli volta a apostar em situações quase trágicas ao serviço da comédia, enquanto desconstrói a figura do "macho latino" ao contar com um protagonista que é um conquistador incapaz de satisfazer sexualmente as mulheres quando não sente o perigo a aproximar-se. Andrea finge que assalta casas, envolve-se com a esposa do seu chefe, finge que é um médico para analisar a suposta virgindade de uma jovem da Sicília, inicia um affair com uma mulher casada com um conde perigoso, procura os serviços de uma "pedicure" mortífera, protagonizando um conjunto de situações hilariantes para conseguir os seus intentos, ou seja, sentir perigo e concluir os actos sexuais com sucesso. Marcello Mastroianni parece divertir-se a desconstruir a sua persona de conquistador, com os momentos em que Andrea se encontra junto do psiquiatra (Enrico Maria Salerno), tendo em vista a aferir o problema que o apoquenta, a contarem com trechos dominados pelo bom humor. O consultório é pontuado por uma decoração semelhante a uma habitação oriental, com o psiquiatra a apresentar um conjunto de atitudes peculiares, algo que permite a Enrico Maria Salerno sobressair no meio deste elenco bastante alargado. Os flashbacks permitem que o espectador descubra alguns dos casos falhados do protagonista e os planos hilariantes e destrambelhados que este engendra para se livrar das mulheres que conquista, algo que acontece quando não consegue colocar a "maquineta" a trabalhar. As mulheres que este conquista são belíssimas, com quase todas a cederem perante a presença de Andrea, embora nem sempre consigam sair completamente satisfeitas. Veja-se o caso de uma hospedeira de bordo (Seyna Seyn) que é alvo do interesse do protagonista, embora este procure forjar um plano para se livrar da mesma, tendo em vista a evitar expor a sua inabilidade para manter relações sem perigo. Após a sessão com o psiquiatra, Andrea procura seguir os conselhos do médico e levar uma vida casta, iniciando uma relação séria com Gigliola (Virna Lisi), uma jovem loira belíssima, que fez votos de castidade e pertence a uma família conservadora. Virna Lisi é uma das figuras femininas que conta com mais tempo para sobressair, com esta jovem a procurar despertar o desejo sexual do namorado, embora não esteja inicialmente na disposição da informação de que Andrea é impotente quando se sente confortável. A relação sofre um revés quando Gigliola e a sua família visitam o circo com Andrea, com o protagonista a não controlar os seus ímpetos e a beijar ardentemente a domadora de leões do local. Segue-se mais uma fuga aparatosa, com Mario Monicelli a dotar a narrativa de uma estrutura episódica, um pouco a fazer recordar "comédias à italiana" do cineasta como "L'armata Brancaleone", "La ragazza con la pistola", entre outras.

 Marcello Mastroianni é o elemento que mais sobressai no elenco, com o actor a incutir um estilo simultaneamente galanteador e destrambelhado a Andrea, um indivíduo que se deixa conduzir pelos seus ímpetos. Veja-se quando decide iniciar um affair com Dolly (Margaret Lee), a esposa do seu general, ou finge que é um médico, tendo em vista a "analisar" se uma jovem siciliana é virgem. Diga-se que o episódio relacionado com a jovem siciliana permite a Mario Monicelli expor os valores retrógrados dos habitantes deste espaço italiano, sempre com alguns exageros e estereótipos à mistura, enquanto denuncia a precariedade da condição feminina (uma temática presente em filmes do género como "La ragazza con la pistola", "Sedotta e abbandonata", entre outros). A outra personagem feminina que sobressai é Thelma Tiacca (Marisa Mell), uma vamp que se encontra casada com um conde (Marco Ferreri) relativamente mais velho, supostamente surdo e coleccionador de arte. O cenário do castelo onde o conde habita com a esposa e o criado é aproveitado de forma exímia ao serviço da narrativa, com este espaço a encontrar-se em franca decomposição, assim como os valores dos personagens interpretados por Marisa Mell e Marco Ferreri. Se Mastroianni interpreta o galanteador quase infantil e ingénuo, já Ferreri incute alguma malícia a este conde sem problemas em procurar eliminar os seus rivais. Por sua vez, Marisa Mell é a sedução em pessoa, procurando livrar-se do esposo, enquanto entra no jogo de Andrea. Temos ainda Santina (Moira Orfei), uma "pedicure" que é conhecida por dar azar aos seus clientes, uma característica que parece despertar o desejo de Andrea. Este desloca-se de local em local, conhece uma miríade de mulheres, descura muitas das vezes o trabalho, enquanto Mario Monicelli parece divertir-se a colocar o protagonista nas situações mais hilariantes. O cineasta não tem problemas em desconstruir a figura do "Casanova" engatatão, ou satirizar os valores da sociedade siciliana, ou expor um casamento por interesse, ou ironizar com os problemas de impotência de Andrea. O personagem interpretado por Marcello Mastroianni parece ser movido pelo perigo, caso contrário a sua vida sexual torna-se miserável, tendo em Gigliola uma das poucas figuras que lhe é leal. Gigliola é uma das mulheres que marcam a vida de Andrea, enquanto este depara-se com uma série de figuras femininas e masculinas que permitem aos elementos do elenco secundário sobressaírem. Andrea procura descrever os episódios do seu dia a dia num diário, tal como aconselhado pelo médico, com alguns momentos a contarem com a narração de Marcello Mastroianni, enquanto ficamos diante de uma comédia que não tem problemas em assumir os exageros e divertir o espectador. Não faltam jogos de sedução, um julgamento rocambolesco (provavelmente um dos momentos mais inspirados de "Casanova '70"), alguns exageros, uma banda sonora a incrementar os diversos trechos da narrativa, figuras femininas em roupas sugestivas, embora o maior alvo de troça seja o engatatão que tarda em superar as suas inseguranças. Pronto a desconstruir a figura do "macho latino", "Casanova '70" surge como mais um exemplar recomendável das "comédias à italiana", com Mario Monicelli a aproveitar de forma exímia a estrutura episódica da narrativa, enquanto Marcello Mastroianni volta a exibir o seu talento e carisma.

Título original: "Casanova '70". 
Título em Portugal: "Casanova 70". 
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Suso Cecchi D'Amico, Tonino Guerra, Mario Monicelli, Giorgio Salvioni, Age & Scarpelli.
Elenco: Marcello Mastroianni, Virna Lisi, Enrico Maria Salerno, Marisa Mell, Moira Orfei, Marco Ferreri.

04 março 2016

Resenha Crítica: "La ragazza con la pistola" (1968)

 Monica Vitti seduz, é seduzida, procura vingar-se, dispara, dança, canta, grita, expõe exageradamente os sentimentos e encanta em "La ragazza con la pistola", uma comédia realizada por Mario Monicelli. O cineasta satiriza os hábitos e rituais associados aos sicilianos, utiliza elementos de filmes de vingança e transporta a sua protagonista para uma miríade de locais, sempre com muito humor e situações delirantes à mistura. Monica Vitti interpreta Assunta Patanè, uma mulher oriunda de uma pequena vila na Sicília, que é raptada por indivíduos ao serviço de Vincenzo Macaluso (Carlo Giuffrè), uma espécie de Don Juan destrambelhado, que procurava conquistar a prima da protagonista à força. Quem é raptada é Assunta, uma mulher que parecia nutrir algum desejo por este homem, embora não demonstrasse directamente esse sentimento. Esta é uma figura feminina apegada às tradições e aos "bons valores morais", com toda a sua família a ser composta apenas por mulheres, algo que remete para a violência no território e para o modo como as suas gentes resolvem os problemas. Diga-se que a própria Assunta exibe essa violência, sobretudo quando passa uma noite com Vincenzo e este foge para a Escócia. Escusado será dizer que Assunta fica revoltada, com a sua família e o seu noivo a obrigarem-na a eliminar Vincenzo, tendo em vista a "limpar" a desonra (o filme aproveita o humor para abordar e satirizar a prática de fuitina e os estranhos códigos de honra dos habitantes deste local). Assunta domina mal a língua inglesa e a arte do disparo, mas viaja com uma pistola, uma quantia monetária generosa e vestes negras, apresentando um conjunto de valores rígidos e conservadores que vão chocar de frente com a realidade que encontra na Escócia. A estrutura narrativa é relativamente episódica, com Assunta a deslocar-se para diversos locais, enquanto se cruza com um conjunto alargado de personagens, com a vingança a surgir como parte do fio condutor do enredo. Vincenzo procura escapar desta mulher a todo o custo, enquanto esta convive com realidades distintas que permitem explorar o talento de Monica Vitti para o humor. Capaz de compor personagens complexas como demonstrou em obras cinematográficas como "L'Avventura", "La Notte", "L'Eclisse" e "Il deserto rosso", Monica Vitti tem em "La ragazza con la pistola" um papel que permite apresentar um registo bem distinto em relação aos exemplos citados. O humor domina este filme, bem como o desejo de vingança da protagonista e até alguns salpicos de romance. Assunta conquista muitos dos elementos que a rodeiam, embora não tenha problemas em despachar quase todos e exibir a arma que guarda na sua mala. Para Assunta, as tradições são para levar a sério, embora a própria a espaços ceda ao desejo, ou às tentações, enquanto acaba por se adaptar gradualmente à cultura e hábitos britânicos.

 Mario Monicelli não tem problemas em usar e abusar dos exageros, utilizando alguns estereótipos ao serviço do humor, ao mesmo tempo que cria alguns momentos hilariantes. Veja-se quando Assunta trabalha como empregada de um casal na Escócia. O facto de Assunta não dominar a língua inglesa é inicialmente problemático, bem como a inadaptação da protagonista aos hábitos locais. Essa situação é particularmente visível quando o casal organiza uma festa, com Assunta a emitir uma gargalhada bem sonora quando se depara com um convidado que chega de kilt. A gargalhada, exposta em fora de campo, espelha paradigmaticamente a personalidade expansiva desta mulher que tem os sentimentos à flor da pele, bem como o facto de ainda se encontrar pouco adaptada à nova realidade. Diga-se que Assunta depara-se com alguns italianos quer na Escócia, quer em Inglaterra, com "La ragazza con la pistola" a explanar o fluxo emigratório neste período, enquanto Mario Monicelli, um dos mestres da "comédia à italiana", aproveita para abordar esta situação e efectuar alguns comentários de cariz social. Veja-se que os valores inicialmente conservadores de Assunta, expostos de forma exagerada, permitem discernir uma Itália recheada de assimetrias, pontuada por locais citadinos modernos mas também espaços mais conservadores e retrógados, com a chegada da protagonista à Escócia e Inglaterra a exacerbar essas dicotomias. Inicialmente, Assunta procura por Vincenzo num restaurante, em território escocês, embora este "D. Juan" consiga fugir. A busca protagonizada por Assunta continua em Inglaterra, enquanto esta mulher encontra uma série de figuras que prometem marcar a sua vida e a narrativa. Um dos elementos que se destaca é John (Anthony Booth), um mecânico e jogador amador de rugby, fã desta modalidade, que parece interessado nesta mulher embora seja facilmente descartado pela mesma. A personalidade desta é bem visível quando se encontram na casa de John e este visiona um jogo de rugby. Assunta questiona como é possível um homem estar sozinho com uma mulher e preferir assistir a um jogo de rugby, algo que este encara como uma tentativa de avanço, embora a protagonista faça questão de ameaçar o personagem interpretado por Anthony Booth. Diga-se que este momento deixa-nos diante de dois lados de Assunta: provocador e conservador. Esta é uma figura feminina recheada de contradições, algo que John pode comprovar. Este é um jovem loiro e enérgico que procura ajudar Assunta na busca por Vincenzo, enquanto a protagonista entra em choque com os valores locais, não tendo problemas de adjectivar "carinhosamente" de "puta" todas as mulheres que se cruzaram com o fugitivo. Assunta descarta o jogador de rugby quando descobre que Vincenzo se encontra a trabalhar no transporte de doentes num hospital em Bath. É nas proximidades do hospital que esta conhece Dr. Osborne (Stanley Baker) e Frank Hogan (Corin Redgrave). Frank é um estudante que tentou cometer suicídio. Este revela interesse em casar com Assunta, embora esta logo descubra que o pretendente é homossexual. O Dr. Osborne surge como uma figura ponderada, que procura ajudar Assunta, incluindo a nível laboral e de adaptação ao território e à língua. O personagem interpretado por Stanley Baker parece despertar a atenção da protagonista, embora seja um homem casado, com a dupla a protagonizar alguns episódios marcantes.

 Assunta começa a entender que a sua personalidade efervescente e os seus "valores sicilianos" nem sempre se adaptam a toda uma nova realidade, com a própria a conhecer algumas alterações ao longo do enredo. Vitti é um furacão que mexe com a narrativa, com as figuras masculinas e conquista o espectador (ou pelo menos este que escreve o texto). As explosões da protagonista são hilariantes, bem como o choque dos seus valores em relação àqueles que a rodeiam, embora até acabe por formar uma estranha dinâmica com algumas figuras masculinas. Esta começa a adaptar-se à vida em Inglaterra e a formar sentimentos mais fortes pelo Dr. Osborne, parecendo desistir da ideia de regressar a casa, embora seja constantemente atormentada por pensamentos relacionados com a forma como poderá ser recebida na Sicília se descobrirem que não eliminou Vincenzo. As divagações da protagonista funcionam, tal como diversos momentos de humor, com Mario Monicelli a criar uma obra cinematográfica capaz de satirizar elementos culturais quer da protagonista, quer daqueles que esta encontra na Escócia e em Inglaterra. Por vezes existem algumas incoerências, incluindo na forma como diversas figuras comunicam em inglês ou italiano consoante estão viradas, embora pouco incomodem ao longo deste enredo dominado pelos exageros. Se Stanley Baker interpreta sobriamente uma figura calma e compreensiva, já Carlo Giuffrè não tem problemas em explorar a faceta conquistadora e sacana de Vincenzo, um indivíduo que se prepara para provar do seu próprio veneno. Veja-se no último terço, quando procura reencontrar Assunta, com esta a apresentar toda uma nova postura e visual, parecendo adaptada a Inglaterra e às suas gentes. Esta forma uma relação de proximidade com o Dr. Osborne, algo que atribui uma faceta de comédia romântica a este filme recheado de emoções fortes, com o desejo de vingança de Assunta a servir como o combustível para diversos episódios elevados por Monica Vitti. A actriz é explosiva e intensa, apresentando uma capacidade notável para elevar uma obra cinematográfica na qual Mario Monicelli não tem problemas em exacerbar os estereótipos associados aos sicilianos, ingleses e escoceses, enquanto desenvolve uma comédia recheada de episódios que ficam na memória e efectua alguns comentários sobre a sociedade do seu tempo. Diga-se que esta abordagem satírica aos valores muito próprios e conservadores dos sicilianos a espaços remete para "comédias à italiana" como "Divorzio all'italiana" e "Sedotta e abbandonata", realizadas por Pietro Germi. Os dois exemplos citados colocam o espectador diante de uma sociedade siciliana pontuada por falsas aparências, estranhos códigos de honra e valores retrógados, com "Sedotta e abbandonata" a contar com situações como um pai a procurar casar a sua filha com o homem que a "desonrou" e um rapto para forçar um casamento, enquanto Pietro Germi recorre à sátira, ao exagero e ao humor negro para expor esta realidade. Com um conjunto de momentos de humor que funcionam, uma vingança destrambelhada e uma protagonista marcante, "La ragazza con la pistola" exibe o talento de Monica Vitti para a comédia e de Mario Monicelli para a realização de filmes do género.

Título original: "La ragazza con la pistola".
Título em Portugal: "A Rapariga da Pistola".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Luigi Magni e Rodolfo Sonego.
Elenco: Monica Vitti, Stanley Baker, Carlo Giuffrè, Corin Redgrave, Anthony Booth.

02 março 2016

Resenha Crítica: "L'armata Brancaleone" (1966)

 Em "I soliti ignoti", Mario Monicelli colocou-nos diante de um grupo de assaltantes e vigaristas de pouca monta que procurava efectuar um assalto que transcendia e muito as capacidades e recursos dos criminosos. Em "L'armata Brancaleone", Mario Monicelli deixa-nos perante um grupo de incompetentes que inicia uma jornada para chegar a Aurocastro e tomar conta da cidade, utilizando um pergaminho roubado, escrito por Otão I, que autorizava essa situação. O pergaminho pertencia a Arnolfo Mano-di-ferro (Alfio Caltabiano), tendo sido furtado no início do filme, quando "L'armata Brancaleone" exibe paradigmaticamente àquilo que vem: não falta violência exposta de forma exagerada e caricatural (incluindo pintainhos degolados e braços cortados), situações completamente estapafúrdias, sangue falso, reboliço e elementos de tragicomédia, com Mario Monicelli a efectuar um retrato ácido e mordaz da Idade Medieval. Mario Monicelli volta a colocar o espectador diante dos elementos à margem da sociedade, com o grupo de maltrapilhos que inicia a jornada a ser composto por indivíduos incompetentes e depauperados. O líder desta pandilha, Brancaleone da Norcia (Vittorio Gassman), um cavaleiro, é o paradigma da mesma: trapalhão e pouco competente. Abacuc (Carlo Pisacane), Pecoro (Folco Lulli), Taccone (Gianluigi Crescenzi) e Mangold (Ugo Fangareggi) procuram que Brancaleone se junte ao grupo, tendo em vista a liderar o mesmo e partilhar os benefícios da tomada do novo território, embora o cavaleiro rejeite inicialmente a oferta. Abacuc é um mercador judeu, medroso e pronto a fazer um bom negócio; Taccone é um jovem que participa no assalto a Arnolfo Mano-di-ferro, um cavaleiro que tentava defender o território; Pecoro é um indivíduo robusto e pouco polido; Mangold procurou inicialmente atacar o espaço onde habitavam os elementos do grupo. O território habitado por elementos como Pecoro, Taccone e Abacuc é alvo de uma incursão violenta por parte de um grupo pronto a matar, agredir mulheres, pilhar e destruir tudo aquilo que aparece pela frente, com Arnolfo a procurar atacar os agressores, embora seja aparentemente eliminado e roubado pelos habitantes deste espaço. Mario Monicelli não tem problemas em expor quer o lado negro dos inimigos, quer dos protagonistas, um grupo que procura fazer de tudo para sobreviver, tentando levar a cabo uma tarefa ambiciosa, sobretudo se tivermos em conta a inaptidão dos seus membros, algo que nos traz novamente à memória "I soliti ignoti", uma das obras-primas do cineasta. Diga-se que Mario Monicelli também exibe níveis elevados de inspiração em "L'armata Brancaleone", com o cineasta a efectuar uma representação ácida e hilariante da Idade Média e dos seus estereótipos, com poucos elementos a passarem incólumes, sejam camponeses, cavaleiros, religiosos, mercadores, ou a jovem virginal. Brancaleone é o exemplo dessa inaptidão, com Vittorio Gassman a expor novamente o seu talento para o humor, muitas das vezes físico, com o protagonista a surgir como uma figura completamente incompetente, embora tenha alguns valores morais. Brancaleone é um cavaleiro sem grandes posses, que conta com a companhia de Aquilante, um cavalo amarelo que raramente obedece ao dono. Veja-se desde logo o momento em que Brancaleone perde um combate de forma ridícula e vergonhosa, com o cavalo a não obedecer às ordens, contribuindo para um episódio constrangedor que conduz o cavaleiro a juntar-se a Taccone, Pecoro, Mangold e Abacuc.

A jornada do grupo é o fio condutor do enredo de "L'armata Brancaleone", com esta "comédia à italiana" a contar com uma estrutura narrativa episódica, pontuada pela entrada em cena de uma miríade de personagens e a passagem por um número alargado de cenários. Um desses personagens que entra em contacto com o grupo é Teofilatto dei Leonzi (Gian Maria Volontè), um príncipe bizantino que não tem praticamente onde "cair morto". Teofilatto procura convencer o quinteto a simular que o rapta, tendo em vista a extorquir dinheiro dos seus pais, um plano que é inicialmente rejeitado, com o grupo a não parecer encarar esta ideia com seriedade. No entanto, quando os integrantes do grupo decidem colocar o falso rapto em prática, tendo em vista a obterem divisas, logo ficamos diante de diversas situações hilariantes e rocambolescas, com segredos antigos a serem revelados, uma Sado-masoquista (Barbara Steele) a exibir os seus dotes, enquanto tudo parece correr mal para os protagonistas. Gian Maria Volontè incute algum do seu carisma e talento ao personagem que interpreta, um indivíduo mulherengo, sem grandes planos para a vida que acaba por se juntar a este grupo caótico. Diga-se que o elenco principal tem espaço para sobressair ao longo de "L'armata Brancaleone", algo que advém não só da capacidade de Mario Monicelli e do talento dos actores e actrizes mas também do argumento de Age e Scarpelli (acompanhados pelo cineasta). O argumento consegue usar e abusar dos estereótipos ao serviço do humor, satirizar as convenções associadas à Idade Média e aos filmes que abordam a mesma, contando com algumas falas e momentos dignos de enorme atenção. É certo que raramente existe tensão a rodear estes episódios, embora Monicelli volte a colocar o espectador diante da morte de um personagem relevante, tal como em algumas situações parece existir uma gestão demasiado pueril dos figurantes (veja-se quando encontramos uma série de "sarracenos" a atirarem-se sozinhos do cimo de uma montanha), algo que raramente tira valor a esta obra cinematográfica ou distrai o espectador de forma indelével. O que desperta claramente à atenção são estes personagens e as situações em que são envolvidos. Veja-se quando entram felizes e contentes numa cidade aparentemente abandonada, recheada de comida e bens para furtar, embora a descoberta de uma viúva (Maria Grazia Buccella) de enorme beleza traga a revelação de que o espaço se encontra desértico devido à Peste Negra. A fuga deste local conduz estes elementos a depararem-se com Zenone (Pietro l'Eremita), um líder religioso excêntrico que lidera um grupo até Jerusalém, tendo em vista a "libertar o Santo Sepulcro". Brancaleone, Teofilatto, Pecoro, Taccone, Mangold e Abacuc procuram seguir Zenone, pensando que este indivíduo pode contribuir para escaparem à Peste Negra. Escusado será dizer que estas figuras vão protagonizar mais alguns episódios dotados de humor e alguma tragédia, incluindo Abacuc a ser baptizado e dois personagens a caírem de uma ponte, com um deles a ser "acarinhado" por uma ursa que literalmente toma conta dele. Não poderia avançar o texto sem dedicar alguns caracteres a Carlo Pisacane, com o actor a criar um personagem peculiar, implacável nos negócios e medroso, que facilmente desperta o nosso sorriso, sobretudo no gag recorrente de se esconder no interior de um baú.

O grupo depara-se ainda com Matelda (Catherine Spaak), uma mulher de enorme beleza, que desperta a atenção das figuras masculinas e pretende conquistar Brancaleone. Matelda e o seu tutor foram alvos de um ataque, enquanto viajavam em direcção ao castelo de Guccione di Rampazzo (Joaquín Díaz), o futuro esposo da primeira, um indivíduo conservador e abastado, que pretende contrair matrimónio com uma virgem. Brancaleone aceita transportar Matelda até ao castelo de Guccione di Rampazzo, prometendo ao tutor da mesma, um indivíduo prestes a falecer, que esta vai manter a virgindade, uma tarefa que parece difícil de cumprir, sobretudo se tivermos em conta que o grupo é composto por homens. Não vão faltar mais mal-entendidos, fugas aparatosas e confusões, com Mario Monicelli a não poupar também na abordagem satírica aos costumes da época. Diga-se que alguns destes valores e costumes, expostos através da época medieval, permitem efectuar uma crítica ao conservadorismo de alguns sectores da sociedade do tempo em que "L'armata Brancaleone" foi lançado. Veja-se o desejo de Guccione em casar com uma virgem, algo que remete para "comédias à italiana" como "Sedotta e abbandonata", na qual um pai procura casar a filha à força com o indivíduo que tirou a virgindade à jovem. Temos ainda casos como "La ragazza con la pistola", um filme do género realizado por Mario Monicelli, com Monica Vitti a dar vida a Assunta, uma siciliana que procura eliminar o indivíduo que tirou a sua virgindade e fugiu sem casar, com ambos os exemplos a remeterem para alguns sectores retrógrados da sociedade italiana. Tal como nos exemplos citados, "L'armata Brancaleone" encontra muitas das vezes o humor na tragédia, ou não colocasse o espectador diante de diversos personagens com poucas posses que procuram acima de tudo sobreviver. Diga-se que "L'armata Brancaleone" traz ainda a temática do grupo improvável que se reúne para colocar em prática um plano ambicioso, tal como "I soliti ignoti", com Mario Monicelli a demonstrar mais uma vez que é um cineasta exímio a aproveitar a dinâmica entre os elementos que povoam o elenco. Mario Monicelli aproveita esta estrutura episódica para apresentar uma série de personagens e cenários, explorar uma miríade de situações rocambolescas e satirizar os estereótipos associados às histórias e figuras da época em que se desenrola o enredo: o cavaleiro é um tipo inapto ao ponto de não conseguir controlar o seu cavalo; a jovem pura quer fazer sexo com o primeiro que lhe aparecer pela frente; o representante da Igreja é um chanfrado de primeira; as Cruzadas são mencionadas com mordacidade, entre outros exemplos. Existe ainda algum cuidado a nível dos cenários e do guarda-roupa, tendo em vista a que estes contribuam para a representação satírica da época, sobressaindo espaços como o castelo dos pais de Teofilatto, ou o local onde deveria decorrer a festa de casamento de Matelda. Recheado de ritmo, episódios rocambolescos, uma miríade de personagens que sobressaem, um elenco sólido e uma realização inspirada de Mario Monicelli, "L'armata Brancaleone" transporta-nos para uma representação mordaz da Idade Medieval, enquanto desperta sorrisos, apresenta momentos que ficam na memória e permite que os diversos actores e actrizes se destaquem.

Título original: "L'armata Brancaleone".
Título em Portugal: "O Capitão Brancaleone".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Age e Scarpelli, Mario Monicelli.
Elenco: Vittorio Gassman, Gian Maria Volontè, Catherine Spaak, Carlo Pisacane, Luigi Sangiorgi, Ugo Fangareggi, Folco Lulli, Enrico Maria Salerno, Maria Grazia Buccella, Barbara Steele.

01 março 2016

Resenha Crítica: "I soliti ignoti" (1958)

 Considerada uma das obras cinematográficas fundadoras da chamada "Commedia all'italiana", "I soliti ignoti" coloca o espectador diante de um grupo de ladrões e vigaristas de pouca monta, que procura efectuar um golpe ambicioso. É um grupo peculiar e heterogéneo, composto por elementos que vivem com poucas condições materiais e financeiras, embora apresentem uma enorme aversão ao trabalho. Diga-se que alguns personagens apresentam mais respeito pela "arte de roubar" do que pelo trabalho, surgindo como figuras relativamente ingénuas, preguiçosas e trapalhonas, que conseguem conquistar a nossa simpatia e atenção. Realizado por Mario Monicelli, um dos mestres da "comédia à italiana", "I soliti ignoti" subverte as nossas expectativas em relação aos filmes de assalto, satiriza os mesmos e as suas convenções, enquanto o cineasta aproveita o elenco que tem à sua disposição e as dinâmicas estabelecidas entre os integrantes do mesmo. O argumento é inteligente e bem construído, permitindo explorar algumas das capacidades de intérpretes como Marcello Mastroianni, Memmo Carotenuto, Renato Salvatori, Tiberio Murgia, Carlo Pisacane, Rossana Rory e até revelar o talento de Vittorio Gassman para o humor. Estes interpretam criminosos que vivem nas margens da cidade de Roma, com Mario Monicelli a colocar o espectador diante de um bando de ladrões de pouco relevo, que se encontra longe de contar com a classe e argúcia de Danny Ocean, o protagonista de "Ocean's Eleven". Um desses assaltantes é Cosimo Proietti (Memmo Carotenuto), um indivíduo que é preso no início do filme, quando se encontrava a tentar furtar um carro. Cosimo tenta sair o mais depressa possível da prisão, procurando que Norma (Rossana Rory), a sua namorada, contacte com Pierluigi Capannelle (Carlo Pisacane), tendo em vista a encontrar alguém que assuma a culpa pela tentativa de furto. Capannelle encontrava-se com Cosimo durante a tentativa de assalto ao carro, embora tenha conseguido escapulir-se a tempo. Pisacane interpreta uma figura franzina, pelintra, desdentada e destrambelhada, que não consegue impor respeito a quem quer que seja, embora conheça diversos criminosos de pouca monta que habitam nas redondezas destes bairros de Roma, com o actor a exibir um timing relativamente certeiro para o humor. Mario Monicelli aproveita esta busca para apresentar os diversos personagens do grupo, com Capannelle a contactar uma série de indivíduos, enquanto circula pelos bairros de Roma. A cidade de Roma surge praticamente como uma das protagonistas, sendo representada como um espaço pontuado pelas assimetrias económicas e sociais, algo latente nas parcas condições de vida da maioria dos personagens que povoam a narrativa, uma situação exposta por Mario Monicelli ao longo de "I soliti ignoti", com o cineasta a utilizar os estereótipos e os exageros ao serviço do humor e do comentário social.

 O primeiro elemento que Capannelle procura é Mario (Renato Salvatori), um indivíduo apegado à sua mãe, ou melhor, às suas três mães, que é conhecido por vender produtos roubados, inclusive carrinhos de bebé. Este não aceita a tarefa, algo que conduz Mario e Capannelle a deslocarem-se a casa de Ferribotte (Tiberio Murgia), um siciliano de valores rígidos, que não deixa Carmelina (Claudia Cardinale), a sua irmã, sair de casa, nem falar com figuras masculinas quando este se encontra ausente. Diga-se que esta situação promete gerar algumas discussões, sobretudo quando Mario e Carmelina se apaixonam, algo que desperta inicialmente a fúria de Ferribotte e o sorriso do espectador. Ferribotte também recusa a oferta, com o trio a contactar Tiberio Braschi (Marcello Mastroianni), um fotógrafo arruinado, que seca a roupa no interior da sua casa e cuida das lides domésticas devido ao facto da esposa (Gina Rovere) se encontrar a cumprir uma pena de três meses de prisão. Tiberio está falido ao ponto de ter vendido a sua máquina fotográfica, com Marcello Mastroianni, um actor talentoso e carismático, a criar mais um personagem marcante, com Mario Monicelli a atribuir-lhe algumas das falas mais inspiradas. Perante mais uma recusa, estes decidem recorrer a Giuseppe Marchetti (Vittorio Gassman), conhecido como Peppe, um pugilista fanfarrão, que aceita a oferta após ter perdido um combate. Peppe tem punhos de aço e um queixo de manteiga, com as suas habilidades para a conquista de figuras femininas e envolver-se em confusões a serem dicotómicas da sua capacidade para organizar um furto de largas proporções. Os momentos na prisão são pontuados por trechos de humor bem arquitectados, com os planos de Cosimo a saírem completamente furados, enquanto o seu poder no espaço prisional é diminuto ao ponto de nem conseguir um cigarro. Este é um ladrão pouco polido e bastante intenso na exposição dos sentimentos, que pretende assaltar o cofre de uma casa de penhores. A situação é a seguinte: um criminoso revelou a Cosimo que trabalhou na construção de uma parede de estuque, facilmente penetrável, situada entre uma habitação supostamente vazia e uma divisória da casa de penhores que conta com a "comadre" (o cofre). Cosimo pretendia que alguém assumisse a culpa pelo crime que cometeu, tendo em vista a sair da prisão e organizar o assalto ao cofre. No entanto, o juiz não iliba Cosimo, com o criminoso a ficar na prisão com Peppe. O ex-pugilista engana Cosimo, tendo em vista a descobrir o plano, aproveitando a liberdade condicional para colocar o mesmo em prática. Peppe reúne Mario, Tiberio, Capannelle, Norma e Ferribotte, ou seja, um grupo completamente inexperiente em furtos desta dimensão, embora pretendam efectuar um "assalto profissional". O problema é que estes elementos não contam com a habilidade, experiência e recursos necessários para um golpe desta envergadura, parecendo certo que, mais tarde ou mais cedo, o assalto vai dar para o torto. O único elemento relativamente profissional que contacta com o grupo é Dante Cruciani (Totò), um indivíduo que ensina Mario, Tiberio, Capannelle, Peppe e Ferribotte a quebrarem a segurança do cofre, para além de vender o material necessário para esse efeito, encontrando-se radiante pelo seu negócio estar a prosperar, enquanto o famoso Totò aproveita para expor algum do seu talento num papel secundário de algum relevo.

 Mario Monicelli nunca se esquece de desenvolver os personagens e as suas dinâmicas, concedendo tempo para os actores e actrizes comporem os elementos a quem dão vida, algo que eleva esta comédia que aproveita ainda para parodiar filmes de assalto como "Du rififi chez les hommes". Esta faceta de paródia a filmes de assalto e aos noir torna-se evidente nos momentos que envolvem a procura dos assaltantes em planearem e executarem o furto de forma profissional (ou "científica"), embora o lado destrambelhado e pouco preparado dos elementos do grupo venha ao de cima. Os planos nem sempre correm como inicialmente planeado, bem pelo contrário, algo que proporciona momentos de humor como Tiberio e companhia a procurarem roubar uma máquina de filmar, ou a descoberta de que a habitação ao lado da casa de penhores afinal não se encontra vazia. A casa é habitada por duas mulheres e a funcionária das mesmas, a jovem Nicoletta (Carla Gravina), com Peppe a procurar conquistar esta última, tendo em vista a penetrar na habitação, embora o galanteador nem sempre consiga manter a frieza, com Carla Gravina e Vittorio Gassman a apresentarem uma dinâmica convincente. Os momentos que se seguem à entrada na casa são hilariantes e desconstroem por completo a ideia de que poderia existir "profissionalismo" no seio desta pandilha de assaltantes com "mais olhos do que barriga", com uma degustação de feijão com massa a marcar de forma indelével esta obra cinematográfica que exibe algumas características inerentes a diversas "comédias à italiana" que proliferaram entre o final dos anos 50 e o início dos anos 70. Não faltam algumas situações que resvalam para a tragicomédia, algo latente na morte de um dos personagens principais do filme, ou nas parcas condições da vida destas figuras; alguns elementos incapazes de alcançarem os planos iniciais; o comentário social; os personagens das "margens", entre outros exemplos. É certo que a maioria destes personagens não trabalha, nem pretende entrar no mercado laboral, com excepção de Mario que, a certa altura, decide seguir o rumo certo para conquistar a confiança do irmão de Carmelina. Estes elementos funcionam sobretudo como um grupo disfuncional, com Mario Monicelli a conseguir que despertem facilmente a nossa simpatia. Não são criminosos perigosos ou profissionais, mas sim homens e mulheres que parecem ter entrado numa espiral negativa impossível de sair. O crime é encarado por estes personagens como um meio rápido para garantirem os fundos necessários para sobreviverem, embora esta situação não seja exposta de forma dramática, com Mario Monicelli a encontrar humor na tragédia e a fazer com que os seus intérpretes sobressaiam.

 Um dos intérpretes que se destaca é Marcello Mastroianni, com o actor a demonstrar mais uma vez o seu talento. Veja-se quando encontramos Tiberio a degustar massa com feijão no final do filme, ou a procurar que o filho não acorde com o barulho, ou a exibir os vídeos que gravou à distância para desvendarem o código da "comadre", entre outros momentos elevados por Mastroianni e pelo argumento. Por sua vez, Vittorio Gassman exibe um talento assinalável para o humor, com o personagem a quem dá vida a tanto ter de brutal como de infantil, contrastando com a seriedade constante do elemento interpretado por Tiberio Murgia. Estes circulam por vários locais de Roma, com Mario Monicelli a utilizar diversos espaços das margens desta cidade, algo que contribui para atribuir algum realismo a esta história pontuada por situações que pedem para desligarmos o nosso lado mais pragmático. Diga-se que o trabalho de Mario Monicelli com Gianni Di Venanzo, o director de fotografia, é bastante inspirado, algo notório na composição dos planos. Veja-se desde logo a tentativa de assalto ao carro por parte de Cosimo, durante a noite, com o contraste entre a luz e as sombras a ser bem aproveitado, ou os diversos planos em que os elementos do grupo aparecem em conjunto, algo que transmite a estranha unidade desta equipa destrambelhada. O filme resulta ainda como uma espécie de paródia ao neorealismo, ainda que utilizando elementos do mesmo, algo comentado por Mario Monicelli em entrevista ao OffScreen: "(...) It was more a parody that was aligned with a certain realism around us, with the poverty, and with people who had to do the best they could with whatever means possible to survive, with petty crimes. I couldn’t make the same film today, with a group of people robbing a bank with drills, small bombs, etc., it wouldn’t be realistic". Entre criminosos pouco competentes, situações que tanto têm de trágicas como de hilariantes, interpretações de relevo, diálogos inspirados, um bom aproveitamento dos espaços interiores e exteriores, uma banda sonora ao ritmo do jazz, "I soliti ignoti" surge como uma comédia envolvente, bem estruturada e inteligente, que facilmente rouba a atenção e o sorriso do espectador.

Título original: "I soliti ignoti".
Título em Portugal: "Gangsters Falhados".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Age e Scarpelli, Suso Cecchi d'Amico, Mario Monicelli.
Elenco: Vittorio Gassman, Totò, Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, Carlo Pisacane, Memmo Carotenuto, Tiberio Murgia, Claudia Cardinale.

Quatro críticas mais lidas - Fevereiro de 2016

1º - Resenha Crítica: "Spotlight" (2015)














2º -  Resenha Crítica: "Valley of Love" (2015)














3º - Resenha Crítica: "The Lobster" 














4º - Resenha Crítica: "Steve Jobs" (2015)