A "mulher sem coração" é perita num jogo que consiste em disparar dardos tranquilizantes sobre "solitários" que se encontram foragidos, tendo em vista a ganhar "dias extra" no Hotel, enquanto David demonstra uma inabilidade notória para esta actividade, exibindo por diversas vezes que não se adapta a esta mini-sociedade totalitária que é formada no interior deste local pontuado por regras muito próprias. As roupas utilizadas pelos homens são semelhantes, algo que também acontece com as mulheres, as falas e os gestos parecem demasiado coordenados, as crianças são utilizadas para salvar relações, com "The Lobster" a efectuar diversos comentários sobre a sociedade do nosso tempo. Veja-se as relações que se iniciam mais para o casal fugir à solidão do que por amor, ou a tentativa efectuada por alguns homens e mulheres de "moldarem" a sua personalidade para se aproximarem de alguém, ou as dificuldades que alguns elementos apresentam a nível de comunicação, com "The Lobster" a procurar utilizar esta realidade alternativa para questionar a sociedade do nosso tempo. Será que esta sociedade se encontra assim tão distanciada da realidade? Será que a nossa sociedade aceita facilmente a diferença? "The Lobster" parte de uma premissa que tanto tem de absurda como de intrigante para nos colocar diante de questões completamente contemporâneas e bem reais sobre os relacionamentos humanos, com Yorgos Lanthimos a pegar em temáticas complexas, gerar dúvidas e confrontar o espectador. Yorgos Lanthimos opta por nos expor a dois extremos distintos, com David a parecer um dos poucos elementos que ficam a meio caminho. Colin Farrell consegue transmitir as dúvidas do personagem que interpreta, um indivíduo que não consegue seguir totalmente as regras dos dois grupos. O grupo dos celibatários é liderado pela personagem interpretada por Léa Seydoux, uma mulher implacável para com os prevaricadores, de gestos e expressões frias, com a actriz a criar uma figura que tanto tem de carismática como de extremista. É no interior do grupo de solitários que David conhece uma mulher (Rachel Weisz) que desperta a sua atenção, com ambos a partilharem diversos gostos e a miopia. David junta-se a este grupo após uma fuga aparatosa do Hotel, com os solitários a parecerem inicialmente os membros que se escondem na floresta de "Fahrenheit 451". No entanto, facilmente percebemos que os solitários não apresentam assim tantas diferenças em relação ao grupo do Hotel, com as suas regras a serem igualmente extremistas e as punições dolorosas e tirânicas. Diga-se que ambos os espaços são claustrofóbicos, apesar dos solitários viverem na floresta, ao ar livre, com "The Lobster" a explorar assertivamente os cenários ao serviço do enredo. Veja-se quando encontramos David, num momento da fuga, a transportar uma personagem para a "sala de transformação", com Lanthimos a colocar-nos diante de um plano onde o protagonista se encontra enclausurado entre as paredes e o tecto do Hotel, com a alcatifa azul e alaranjada/avermelhada que se encontra no chão a sobressair e a expor que até a decoração deste cenário é bizarra e capaz de adensar a atmosfera opressora do local. Outro exemplo que pode ser dado é a floresta, com esta a ser composta por um conjunto de árvores e arvoredos que parecem praticamente sufocar os espaços livres do cenário, tal como as regras da líder dos solitários cerceiam a liberdade de alguns dos seus membros. Aos poucos, os sentimentos entre os personagens interpretados por Farrell e Weisz começam a ser mais evidentes quer para o espectador, quer para os "solitários", algo que promete trazer dissabores para ambos os elementos, com "The Lobster" a surgir como uma obra cinematográfica peculiar, que tanto nos intriga como afasta, com Yorgos Lanthimos a criar algo de complexo e provocador, pronto a gerar duvidas, debates e opiniões díspares.
O cineasta atribui a "The Lobster" um tom que inicialmente se estranha e depois se entranha, enquanto somos colocados diante dos dilemas do protagonista e um enredo que tanto tem de real como de fantasioso, com o argumento de Efthimis Filippou e Yorgos Lanthimos a explorar temáticas que entroncam na realidade, estimulando o espectador a questionar aquilo que lhe está a ser apresentado. Não faltam personagens que procuram fazer de tudo para se sentirem integrados, elementos que encaram a solidão ou o celibato como algo pouco natural, o extremismo ideológico, entre outros exemplos que dialogam com a realidade da sociedade contemporânea, enquanto somos colocados diante de um conjunto alargado de figuras que permitem que os seus intérpretes sobressaiam. Colin Farrell e Rachel Weisz são os nomes que mais se destacam, com ambos a apresentarem uma dinâmica convincente quando se encontram em conjunto. Farrell como um indivíduo de barriga saliente, personalidade aparentemente passiva e resignada, que procura fugir ao destino que tinham preparado para si, envolvendo-se no interior de um grupo com regras tão rígidas como aquele do qual fugira. David procura manter a sua integridade e personalidade, encontrando aparentemente o amor junto da personagem interpretada por Rachel Weisz, com Lanthimos a parecer deixar o cinismo de lado quando se trata destas figuras que parecem nutrir afecto e amor uma pela outra. Weisz surge como uma mulher sem problemas em expor o desejo que sente por David, que desafia as regras dos seus superiores ao iniciar uma relação com o protagonista, com o romance entre estes dois elementos a parecer credível e sincero. O romance entre David e esta mulher exibe paradigmaticamente a complexidade desta obra que consegue ziguezaguear entre o cinismo e o romantismo, a violência e o humor, o drama e a comédia. A personagem interpretada por Rachel Weisz surge ainda como a narradora de serviço, com esta opção a espaços a adicionar alguma informação, embora em alguns momentos se torne redundante, com o tom de voz da actriz a parecer indicar muitas das vezes que esta se encontra a ler um texto, algo que pode estar ligado à figura a quem dá vida, embora não conceda pertinência a este recurso. Weisz e Farrell não são os únicos elementos a sobressair. Veja-se o caso de Ashley Jensen como uma mulher que gosta de biscoitos e apresenta uma personalidade relativamente apagada e carente, ou Olivia Colman como a fria gerente do Hotel. Temos ainda figuras como Ben Whishaw, com este a interpretar um indivíduo frágil, que se procura adaptar da melhor forma possível tendo em vista a não se transformar num animal irracional, com o personagem que este interpreta a permitir mais uma representação sarcástica da nossa sociedade. Qualquer semelhança entre "The Lobster" e a realidade não é mera coincidência, com Yorgos Lanthimos a apresentar um retrato mordaz, violento, alegórico e pessimista sobre a nossa sociedade ao mesmo tempo que destrinça as relações humanas. A banda sonora contribui para a atmosfera algo opressora que envolve a narrativa de "The Lobster", enquanto o enredo é pontuado por algum drama, romance e humor negro. Veja-se uma demonstração efectuada no Hotel onde são exibidos alguns benefícios de viver acompanhado, ou as excentricidades de algumas figuras. Diga-se que o humor negro a espaços aparece de braço dado com a tragédia, com muitos dos personagens a apresentarem uma dificuldade latente em comunicar. Yorgos Lanthimos utiliza um tom aparentemente fantasioso para explorar a complexidade dos relacionamentos, abordar a dificuldade do ser humano em comunicar e levantar questões pertinentes sobre a sociedade contemporânea, com "The Lobster" a surgir como uma obra cinematográfica intrigante, complexa e provocadora, que inicialmente se estranha e depois se entranha.
Título original: "The Lobster".
Realizador: Yorgos Lanthimos.
Argumento: Efthimis Filippou e Yorgos Lanthimos.




























