12 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "The Lobster"

 Retrato ácido, bizarro, perturbador e peculiar sobre os relacionamentos humanos e a sociedade que nos rodeia, "The Lobster" transporta-nos para o interior de uma realidade paralela onde tudo parece controlado, incluindo os diálogos, na qual sobressaem dois grupos com ideologias distintas mas igualmente extremadas. De um lado temos um grupo que segue as regras da Cidade e obriga os seres humanos a formarem um relacionamento no prazo de quarenta e cinco dias. Esta situação obriga os homens e as mulheres a deslocarem-se até ao espaço do Hotel, uma instituição pontuada por regras totalitárias, onde a direcção procura que cada hóspede encontre a sua cara-metade. Quem não conseguir encontrar uma parceira ou um parceiro no prazo de quarenta e cinco dias é transformado num animal irracional à sua escolha. Do outro lado encontramos um grupo de "solitários" que proíbe os relacionamentos e encara o estado celibatário como algo quase sagrado. Não existe meio termo para boa parte das figuras que rodeiam o enredo de "The Lobster", a primeira longa-metragem falada em inglês do realizador Yorgos Lanthimos, com o cineasta a criar algo que tanto tem de surreal como de real e palpável. O elenco é composto por nomes tão distintos como Colin Farrell, Léa Seydoux, Rachel Weisz, Ben Whishaw, Angeliki Papoulia, John C. Reilly, entre muitos outros, com boa parte deste actores e actrizes a terem espaço para sobressaírem ao longo de "The Lobster", com o primeiro a dar vida a David, o protagonista, um indivíduo recentemente divorciado. David tem de encontrar uma parceira, ou será transformado num animal irracional, tal como acontecera com o seu irmão que, agora, é um cão. Caso falhe a obtenção do seu desiderato, David pretende ser transformado numa lagosta, o animal do título do filme, algo que procura evitar. É no Hotel que David conhece um indivíduo que coxeia de uma perna (Ben Whishaw), bem como outro que tem dificuldades latentes a nível de dicção (John C. Reilly), com o protagonista a criar alguns conhecimentos no interior deste espaço, enquanto procura encontrar uma parceira, visita os eventos peculiares que são organizados pela direcção do estabelecimento e protagoniza alguns momentos de lazer. Os relacionamentos são organizados consoante aquilo que os personagens têm em comum, com o indivíduo coxo a procurar por uma mulher coxa e por aí fora. Se David procura manter a sua integridade, pelo menos a nível inicial, já o personagem interpretado por Ben Whishaw prefere fingir que sangra do nariz, tendo em vista a iniciar uma relação com uma mulher que padece desse problema (Jessica Barden). O personagem interpretado por Ben Whishaw permite que "The Lobster" aborde, ainda que de forma metafórica, ácida, mordaz e a espaços violenta, a procura de alguns seres humanos em modificarem a sua forma de ser e pensar, tendo em vista a envolverem-se com outras pessoas, algo que raramente dá bom resultado, com as relações a começarem com uma mentira que geralmente se dilui com o passar do tempo. Diga-se que podemos ainda encarar esta situação como uma necessidade do ser humano, com Yorgos Lanthimos a levantar diversas questões sobre as temáticas e os personagens que povoam "The Lobster". David ainda tenta copiar o amigo ao fingir que é um indivíduo frio, tendo em vista a conquistar a "mulher sem coração" (Angeliki Papoulia), embora tudo se esfume quando esta elimina brutalmente o irmão do protagonista. Yorgos Lanthimos não poupa na violência, seja esta física ou sentimental, algo latente quando encontramos o irmão de David, um canídeo simpático, envolto em sangue devido a ter sido espancado até à morte pela personagem interpretada por Angeliki Papoulia. A actriz concede um tom deliciosamente negro à personagem que interpreta, uma mulher fria, niilista, sem problemas em desprezar os outros, com David a não conseguir esconder a sua fúria quando se depara com a morte do irmão.

 A "mulher sem coração" é perita num jogo que consiste em disparar dardos tranquilizantes sobre "solitários" que se encontram foragidos, tendo em vista a ganhar "dias extra" no Hotel, enquanto David demonstra uma inabilidade notória para esta actividade, exibindo por diversas vezes que não se adapta a esta mini-sociedade totalitária que é formada no interior deste local pontuado por regras muito próprias. As roupas utilizadas pelos homens são semelhantes, algo que também acontece com as mulheres, as falas e os gestos parecem demasiado coordenados, as crianças são utilizadas para salvar relações, com "The Lobster" a efectuar diversos comentários sobre a sociedade do nosso tempo. Veja-se as relações que se iniciam mais para o casal fugir à solidão do que por amor, ou a tentativa efectuada por alguns homens e mulheres de "moldarem" a sua personalidade para se aproximarem de alguém, ou as dificuldades que alguns elementos apresentam a nível de comunicação, com "The Lobster" a procurar utilizar esta realidade alternativa para questionar a sociedade do nosso tempo. Será que esta sociedade se encontra assim tão distanciada da realidade? Será que a nossa sociedade aceita facilmente a diferença? "The Lobster" parte de uma premissa que tanto tem de absurda como de intrigante para nos colocar diante de questões completamente contemporâneas e bem reais sobre os relacionamentos humanos, com Yorgos Lanthimos a pegar em temáticas complexas, gerar dúvidas e confrontar o espectador. Yorgos Lanthimos opta por nos expor a dois extremos distintos, com David a parecer um dos poucos elementos que ficam a meio caminho. Colin Farrell consegue transmitir as dúvidas do personagem que interpreta, um indivíduo que não consegue seguir totalmente as regras dos dois grupos. O grupo dos celibatários é liderado pela personagem interpretada por Léa Seydoux, uma mulher implacável para com os prevaricadores, de gestos e expressões frias, com a actriz a criar uma figura que tanto tem de carismática como de extremista. É no interior do grupo de solitários que David conhece uma mulher (Rachel Weisz) que desperta a sua atenção, com ambos a partilharem diversos gostos e a miopia. David junta-se a este grupo após uma fuga aparatosa do Hotel, com os solitários a parecerem inicialmente os membros que se escondem na floresta de "Fahrenheit 451". No entanto, facilmente percebemos que os solitários não apresentam assim tantas diferenças em relação ao grupo do Hotel, com as suas regras a serem igualmente extremistas e as punições dolorosas e tirânicas. Diga-se que ambos os espaços são claustrofóbicos, apesar dos solitários viverem na floresta, ao ar livre, com "The Lobster" a explorar assertivamente os cenários ao serviço do enredo. Veja-se quando encontramos David, num momento da fuga, a transportar uma personagem para a "sala de transformação", com Lanthimos a colocar-nos diante de um plano onde o protagonista se encontra enclausurado entre as paredes e o tecto do Hotel, com a alcatifa azul e alaranjada/avermelhada que se encontra no chão a sobressair e a expor que até a decoração deste cenário é bizarra e capaz de adensar a atmosfera opressora do local. Outro exemplo que pode ser dado é a floresta, com esta a ser composta por um conjunto de árvores e arvoredos que parecem praticamente sufocar os espaços livres do cenário, tal como as regras da líder dos solitários cerceiam a liberdade de alguns dos seus membros. Aos poucos, os sentimentos entre os personagens interpretados por Farrell e Weisz começam a ser mais evidentes quer para o espectador, quer para os "solitários", algo que promete trazer dissabores para ambos os elementos, com "The Lobster" a surgir como uma obra cinematográfica peculiar, que tanto nos intriga como afasta, com Yorgos Lanthimos a criar algo de complexo e provocador, pronto a gerar duvidas, debates e opiniões díspares.

 O cineasta atribui a "The Lobster" um tom que inicialmente se estranha e depois se entranha, enquanto somos colocados diante dos dilemas do protagonista e um enredo que tanto tem de real como de fantasioso, com o argumento de Efthimis Filippou e Yorgos Lanthimos a explorar temáticas que entroncam na realidade, estimulando o espectador a questionar aquilo que lhe está a ser apresentado. Não faltam personagens que procuram fazer de tudo para se sentirem integrados, elementos que encaram a solidão ou o celibato como algo pouco natural, o extremismo ideológico, entre outros exemplos que dialogam com a realidade da sociedade contemporânea, enquanto somos colocados diante de um conjunto alargado de figuras que permitem que os seus intérpretes sobressaiam. Colin Farrell e Rachel Weisz são os nomes que mais se destacam, com ambos a apresentarem uma dinâmica convincente quando se encontram em conjunto. Farrell como um indivíduo de barriga saliente, personalidade aparentemente passiva e resignada, que procura fugir ao destino que tinham preparado para si, envolvendo-se no interior de um grupo com regras tão rígidas como aquele do qual fugira. David procura manter a sua integridade e personalidade, encontrando aparentemente o amor junto da personagem interpretada por Rachel Weisz, com Lanthimos a parecer deixar o cinismo de lado quando se trata destas figuras que parecem nutrir afecto e amor uma pela outra. Weisz surge como uma mulher sem problemas em expor o desejo que sente por David, que desafia as regras dos seus superiores ao iniciar uma relação com o protagonista, com o romance entre estes dois elementos a parecer credível e sincero. O romance entre David e esta mulher exibe paradigmaticamente a complexidade desta obra que consegue ziguezaguear entre o cinismo e o romantismo, a violência e o humor, o drama e a comédia. A personagem interpretada por Rachel Weisz surge ainda como a narradora de serviço, com esta opção a espaços a adicionar alguma informação, embora em alguns momentos se torne redundante, com o tom de voz da actriz a parecer indicar muitas das vezes que esta se encontra a ler um texto, algo que pode estar ligado à figura a quem dá vida, embora não conceda pertinência a este recurso. Weisz e Farrell não são os únicos elementos a sobressair. Veja-se o caso de Ashley Jensen como uma mulher que gosta de biscoitos e apresenta uma personalidade relativamente apagada e carente, ou Olivia Colman como a fria gerente do Hotel. Temos ainda figuras como Ben Whishaw, com este a interpretar um indivíduo frágil, que se procura adaptar da melhor forma possível tendo em vista a não se transformar num animal irracional, com o personagem que este interpreta a permitir mais uma representação sarcástica da nossa sociedade. Qualquer semelhança entre "The Lobster" e a realidade não é mera coincidência, com Yorgos Lanthimos a apresentar um retrato mordaz, violento, alegórico e pessimista sobre a nossa sociedade ao mesmo tempo que destrinça as relações humanas. A banda sonora contribui para a atmosfera algo opressora que envolve a narrativa de "The Lobster", enquanto o enredo é pontuado por algum drama, romance e humor negro. Veja-se uma demonstração efectuada no Hotel onde são exibidos alguns benefícios de viver acompanhado, ou as excentricidades de algumas figuras. Diga-se que o humor negro a espaços aparece de braço dado com a tragédia, com muitos dos personagens a apresentarem uma dificuldade latente em comunicar. Yorgos Lanthimos utiliza um tom aparentemente fantasioso para explorar a complexidade dos relacionamentos, abordar a dificuldade do ser humano em comunicar e levantar questões pertinentes sobre a sociedade contemporânea, com "The Lobster" a surgir como uma obra cinematográfica intrigante, complexa e provocadora, que inicialmente se estranha e depois se entranha.

Título original: "The Lobster".
Realizador: Yorgos Lanthimos.
Argumento: Efthimis Filippou e Yorgos Lanthimos.
Elenco: Colin Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, Jessica Barden, Angeliki Papoulia, John C. Reilly, Ben Whishaw.

11 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Steve Jobs" (2015)

 O argumento enérgico, intenso e fervilhante de Aaron Sorkin encontra em Danny Boyle um cineasta à altura para elevá-lo e criar um filme de pendor biográfico sobre Steve Jobs que tem em Michael Fassbender um intérprete capaz de explorar a personalidade vincada, recheada de virtudes e defeitos deste génio do marketing e da tecnologia. O filme em questão é "Steve Jobs", inspirado livremente no livro homónimo de Walter Isaacson. Ao contrário daquilo que o título pode indicar, "Steve Jobs" não pretende apresentar um retrato exaustivo sobre a vida da figura do título desde o seu nascimento até à sua morte, bem pelo contrário, com Aaron Sorkin e Danny Boyle a optarem por uma estrutura dividida em três actos, qual peça de teatro onde as falas são trocadas a uma velocidade estonteante, enquanto os sentimentos inquietam-se e ficamos diante de um ser humano recheado de contradições que deixou a sua marca na História da humanidade. Michael Fassbender não procura imitar totalmente Steve Jobs, embora o trabalho de caracterização para espelhar os três tempos diferentes em que decorrem a narrativa seja competente, com o actor a criar uma figura intensa, de ideias fixas, com um ego enorme e uma capacidade magnética de atrair a atenção daqueles que o rodeiam ou simplesmente afastá-los com uma facilidade indelével. Boyle deixa o seu elenco brilhar, sem esconder que também anda por ali, sempre pronto a incutir um estilo enérgico, enquanto procura transportar para o grande ecrã um argumento que tanto tem de Aaron Sorkin. As falas são imensas, bem trabalhadas e cuidadas, os personagens compostos para terem a dimensão necessária, enquanto os diálogos são trocados a um ritmo capaz de deixar marca. Qual jogo de ténis de mesa onde a bola é lançada de um lado para o outro a enorme velocidade, ou combate de boxe em que os dois oponentes se digladiam ferozmente para efectuar um golpe que permita o Knockout, os personagens de "Steve Jobs" apresentam uma intensidade assinalável, enquanto factos e ficção se unem num filme de cariz biográfico sem problemas em tomar riscos ao invés de seguir as cartilhas mais convencionais. É certo que o final, mais açucarado do que poderíamos esperar promete não trazer consensos, nem parece "casar" bem como todo o ritmo e tom da narrativa, embora afirme a faceta de ficção de um filme que procura espelhar um certo optimismo na humanidade, ou num ser humano em particular. Primeiro estranha-se, depois é um final que se entranha, numa obra em que Danny Boyle raramente se esquece de dar espaço aos actores e actrizes, deixando-os brilhar, sempre em grande ritmo, como se tivessem de falar por este filme sobre "Steve Jobs" e outros que estarão por vir, ou um de Joshua Michael Stern que soa sempre como um parente pobre quando comparado com aquilo que Michael Fassbender e companhia trazem na manga. Fassbender está no centro de tudo. É o Steve Jobs deste "Steve Jobs", a figura central e máxima, simultaneamente fria e dotada de algumas fragilidades emocionais, com quem quase tudo e todos entram em diálogos acalorados ou ficam diante das diferentes facetas do co-fundador da Apple Inc.

 O primeiro acto decorre em 1984, algum tempo antes da apresentação do Apple Macintosh. Jobs quer que a máquina diga "Hello" no início da apresentação, algo que o conduz a protagonizar alguns momentos mais tensos com Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), um dos membros principais da equipa de desenvolvimento do Macintosh, tendo em vista a coagir o colaborador a conseguir o objectivo a tempo da apresentação, um desiderato que parece praticamente impossível. É neste período que somos ainda apresentados a figuras de enorme relevo que vão atravessar os diversos arcos da narrativa, tais como Joanna Hoffman (Kate Winslet), a responsável pelo marketing e confidente de Steve Jobs ao longo do filme, com Kate Winslet a ter uma interpretação marcada pela capacidade de explorar quer o lado mais submisso, quer a faceta mais decidida desta mulher que procura coordenar os timings das apresentações e o contacto do protagonista com a imprensa. Winslet consegue que a personagem a quem dá vida acompanhe o ritmo frenético do co-fundador da Apple, ou pelo menos o Steve Jobs de Michael Fassbender, com a dupla a ter um momento particularmente marcante no último terço, quando se encontram a sós e este condena os actos do protagonista em relação à filha. É ainda no primeiro acto que ficamos diante da representação da relação conturbada entre Steve Jobs e Chrisann Brennan (Katherine Waterston), a antiga namorada do primeiro e mãe de Lisa, a filha do co-fundador da Apple, embora este tarde em reconhecer a paternidade da jovem de cinco anos de idade. Ficamos diante do lado negro de Jobs, com Michael Fassbender a ser capaz de expressar a frieza deste indivíduo que não tem problemas em procurar descredibilizar Chrisann junto da opinião pública, mesmo que os testes de paternidade praticamente não tenham deixado dúvidas de que é o progenitor de Lisa. A jovem inicialmente não parece totalmente consciente destes problemas que a rodeiam, embora a relação entre Lisa e Steve Jobs conheça alguns contornos complexos que são abordados ao longo do filme, surgindo como uma das temáticas que acompanham os três actos de "Steve Jobs". Mais do que os discursos emotivos sobre produtos que Steve Jobs proferia com enorme engenho, o filme de Danny Boyle interessa-se pelos bastidores destes momentos, por exibir a convulsão interior deste indivíduo e o ritmo frenético da sua vida (é raro o momento em que encontramos este personagem quieto ou em silêncio). Neste primeiro acto, temos ainda alguns diálogos entre Steve Jobs com Steve Wozniak (Seth Rogen), outro dos fundadores da Apple. Wozniak pede encarecidamente para que Jobs reconheça publicamente o trabalho da equipa que contribuiu para o Apple II, algo que o protagonista recusa, com o filme a não ter problemas em exibir um lado mais implacável deste indivíduo que é capaz de ignorar alguns elementos importantes no crescimento da empresa. Seth Rogen, a tirar uma folga das comédias, é um dos elementos que consegue surpreender. O seu Steve Wozniak é alguém que parece ressentido com a falta de reconhecimento de Steve Jobs, embora continue a acompanhar alguns momentos relevantes da vida deste último, com ambos a partilharem dois dos momentos mais intensos do filme, em particular uma troca de diálogos que ocorre antes da apresentação do iMac, bem como um episódio antes da apresentação do NeXT Computer. A certa altura do segundo acto do filme, Wozniak questiona Steve Jobs: "You can't write code... you're not an engineer... you're not a designer... you can't put a hammer to a nail. I built the circuit board. The graphical interface was stolen from Xerox Parc. Jef Raskin was the leader of the Mac team before you threw him off his own project! Someone else designed the box! So how come ten times in a day, I read Steve Jobs is a genius? What do you do?", com a resposta a não se fazer esperar e a exibir a personalidade do protagonista: "I play the orchestra, and you're a good musician. You sit right there and you're the best in your row". 

 Os diálogos surgem maioritariamente trocados entre um grupo restrito de personagens, durante um período específico de tempo, quase como se estivéssemos diante de uma peça teatral onde o grande protagonista é Steve Jobs, ainda que em modo ficcional, apesar do argumento não ter problemas em envolver-se no lado mais obscuro da personalidade deste homem, embora de forma nem sempre acutilante. Cada acto corresponde ao período que antecede um lançamento importante na vida do protagonista: o Macintosh em 1984; o NeXT Computer em 1988, após o protagonista ter fundado a NeXt; o lançamento do iMac em 1998, que decorre quando Steve Jobs já regressou à Apple, enquanto os espaços onde os produtos vão ser lançados são aproveitados com algum primor. Existem algumas figuras recorrentes com quem Steve Jobs dialoga ou discute antes de cada lançamento, uma opção narrativa que dota o enredo de várias liberdades históricas e permite condensar alguns acontecimentos em trechos específicos. Entre essas figuras encontram-se Joanna Hoffman, Steve Wozniak, John Sculley (Jeff Daniels), Chrisann Brennan, Lisa e Andy Hertzfeld. Diga-se que se efectuarmos uma comparação entre factos e ficção, percebemos que Danny Boyle e Aaron Sorkin tomaram diversas opções que desvirtuam os primeiros, embora estas alterações resultem no âmbito de uma narrativa que procura criar um fresco sobre a personalidade de um indivíduo que tinha tanto de notável e genial como de problemático e egocêntrico. Outros dos diálogos marcantes ocorrem ainda entre Jobs e John Sculley (Jeff Daniels), o CEO da Apple na época em que Steve Jobs saiu da empresa, com ambos a reencontrarem-se em diferentes fases da narrativa. "Steve Jobs" é, acima de tudo, um filme de interpretações de relevo, que privilegia as dinâmicas entre os actores e actrizes, enquanto efectua um interessante estudo de personagem sobre uma figura marcante da História recente. Não é um filme que procure agradar a todos, com Danny Boyle a optar por uma estrutura tripartida que apresenta diferentes períodos da vida do personagem do título, com diversos elementos a ligarem e separarem os mesmos. A caracterização exibe o avançar do tempo, os cenários (e os seus longos corredores) são aproveitados de forma pertinente, a banda sonora apresenta tonalidades distintas em cada acto, para além de que o próprio modo como "Steve Jobs" foi filmado permite realçar essas diferenças. Veja-se que Danny Boyle e Alwin H. Küchler (director de fotografia) decidiram filmar o período que antecede cada lançamento em 16mm (Macintosh), 35mm (NeXT) e digital (iMac), uma medida que se insere de forma orgânica no interior da narrativa. A câmara acompanha os movimentos constantes do protagonista quer quando se encontra a andar pelos corredores, ou simplesmente inquieto, enquanto os flashbacks permitem explorar alguns episódios marcantes que contribuíram para os momentos que são expostos. Um desses flashbacks remete para o afastamento de Steve Jobs da Apple, com a cinematografia, a banda sonora e o estilo de Danny Boyle a fazerem-se sentir. O momento é tenso, pontuado pela presença da chuva, ângulos propositadamente seleccionados para exacerbar a inquietação que envolveu este episódio, enquanto o elenco sobressai. Michael Fassbender tem em Steve Jobs mais um papel marcante do seu (recomendável) currículo, com Danny Boyle a realizar um filme de pendor biográfico que se interessa pela figura que retrata, sendo alicerçado por um argumento de grande qualidade de Aaron Sorkin, enquanto ficamos diante de uma obra cinematográfica emocionalmente intensa e envolvente.

Título original: "Steve Jobs".
Realizador: Danny Boyle.
Argumento: Aaron Sorkin.
Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Jeff Daniels, Katherine Waterston, Michael Stuhlbarg.

10 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "The Danish Girl" (A Rapariga Dinamarquesa)

 Os filmes realizados por Tom Hooper contam na maioria das vezes com uma atenção latente aos cenários e ao guarda-roupa, para além de ser notório que o cineasta consegue extrair algumas interpretações de relevo por parte dos elementos que compõem o elenco das suas obras cinematográficas. Em "The Danish Girl", Tom Hooper deixa Eddie Redmayne e Alicia Vikander sobressaírem, naquele que é um filme de cariz biográfico bem intencionado mas demasiado simplista na abordagem das temáticas, parecendo ter problemas em envolver-se em situações mais complexas e ferir a susceptibilidade de alguns espectadores. Tom Hooper quer agradar a Gregos e a Troianos, quase que o consegue, mas as figuras históricas que retrata pediam algo mais do que aquilo que o cineasta parece disposto a oferecer. É um filme que procura a beleza e o glamour, mesmo em momentos em que se pedia mais contenção, embora a dinâmica entre Alicia Vikander e Eddie Redmayne, bem como todo um conjunto de elevados valores de produção, consigam esconder diversas lacunas. "The Danish Girl" aborda livremente parte da história de Einar (Eddie Redmayne) e Gerda Wegener (Alicia Vikander), um casal de pintores dinamarqueses, que alcançaram um sucesso relativamente notório. A história começa por volta da década de vinte, do Século XX, com Gerda a apresentar uma mentalidade e postura aberta, alguma criatividade e elegância embora ainda não se tenha imposto no ramo da pintura como Einar. É então que Ulla (Amber Heard), uma modelo, falta a uma das sessões de pintura de Gerda. Esta decide vestir Einar de mulher, algo que o esposo acede, procurando aos poucos copiar os gestos das figuras femininas. Tudo começa como um jogo. Einar é a boneca improvável de Gerda, bem como o seu maior confidente, com os quadros que contam com Lili, o pseudónimo do primeiro, a serem um sucesso. Ambos apresentam uma cumplicidade latente, algo notório quando o Einar decide utilizar roupa interior de Gerda, com esta a não parecer incomodada. Diga-se que Gerda até chega a incentivar Einar a visitar um evento público como Lili, com esta a começar a ser a sua faceta principal. No evento, Lili desperta a atenção de Henrik (Ben Whishaw), um indivíduo homossexual que parece causar algum impacto no pintor que, aos poucos, começa a deixar sobressair a sua orientação sexual. Eddie Redmayne consegue compor um personagem que foge à caricatura, embora a espaços quase que perigue a cair na mesma, ao mesmo tempo que apresenta delicadamente as transformações vividas por Einar. Este começa a imitar os gestos de mulheres, a vestir-se e a maquilhar-se como tal, até sentir que deixou de ser Einar e passou a ser Lili. A situação afecta o casamento com Gerda. É através desta que acompanhamos diversas transformações de Einar, incluindo o maior à vontade do personagem interpretado por Eddie Redmayne como Lili. Alicia Vikander acompanha Eddie Redmayne com uma interpretação de relevo (é uma idiotice que esteja nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Secundária quando é claramente uma das protagonistas do filme), conseguindo expressar o turbilhão de sentimentos que perpassa pela alma de Gerda. Esta começa inicialmente a incentivar o esposo a vestir-se como uma mulher, embora perceba gradualmente, tal como Einar, que este é um caminho sem retorno.

 "The Danish Girl" apresenta-nos a procura de Einar em assumir a sua sexualidade como mulher, algo proibido na época, uma situação demonstrada nas consultas médicas que este frequenta. Einar é confrontado com relatórios médicos a indicarem perversão sexual ou esquizofrenia, embora este saiba que não é louco, tal como Gerda percebe que o esposo não ensandeceu, apenas assumiu a orientação sexual e a identidade que reprimia. O sucesso dos quadros de Gerda conduz o casal a Paris, um local onde Lili volta a aparecer, mesmo quando a primeira contacta com Hans Axgil (Matthias Schoenaerts), um negociador de arte, amigo de infância de Einar. Hans apresenta algum interesse em Gerda, embora Matthias Schoenaerts interprete um dos vários personagens secundários que raramente é devidamente aproveitado ao longo do filme. Parece que existe medo ou receio de tirar o foco de Gerda e Lili, algo que torna o filme demasiado dependente de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. É então que, após consultas com diversos especialistas, Lili encontra no Dr. Kurt Warnekros (Sebastian Koch) a figura que parece ter a solução para o seu dilema. Kurt Warnekros propõe uma operação pioneira, em particular uma cirurgia de confirmação de género. Este procedimento obriga a diversas operações e coloca a vida de Lili em risco, embora a personagem interpretada por Eddie Redmayne decida avançar para a cirurgia. O filme apresenta um pouco da complexidade desta cirurgia, embora o argumento de Lucinda Coxon, inspirado no livro "The Danish Girl" de David Ebershoff, falhe em conseguir explanar o processo intrincado da mesma, tal como a espaços parece apresentar uma falta de coragem a abordar a temática da transexualidade. Tom Hooper encontra beleza em quase tudo, evita explorar temáticas mais problemáticas, tais como o modo como Einar ou melhor Lili era encarada por aqueles que outrora o rodeavam, ou os preconceitos na sociedade de Copenhaga, ou o processo que conduziu à oficialização da mudança de nome, ou a forma como foi recebido pelos familiares, entre outros exemplos. "The Danish Girl" é um filme bem intencionado, disso não parece existir dúvida, mas isso não chega para deixar de lado a sensação de que Tom Hooper tinha matéria-prima à disposição para fazer algo mais. A falta de aproveitamento de elementos secundários como Matthias Schoenaerts ou Amber Heard exibe algum descuido, tal como o pouco desenvolvimento da relação entre Lili e Henrik. No entanto, é notório que existe todo um cuidado a nível do guarda-roupa, dos cenários e da caracterização tendo em vista a transmitir o espírito da época (ainda que o filme assuma diversas liberdades históricas), bem como uma atenção aos gestos da personagem interpretada por Eddie Redmayne, em particular a sua relação com o corpo. A relação entre Lili e o corpo surge pontuada por toda uma sensação de descoberta, com Eddie Redmayne a explorar que inicialmente a personagem procura acima de tudo imitar as mulheres com quem contacta. Veja-se quando decide entrar numa cabine para ver o espectáculo de uma stripper, começando a emular os gestos da mesma, ou quando utiliza as vestimentas da esposa. A transformação é gradual, implica mudanças na forma de agir e vestir, com Eddie Redmayne a compor o personagem com assertividade. A dinâmica entre Alicia Vikander e Eddie Redmayne é fundamental para o filme funcionar, com a dupla a convencer como este casal dotado de enorme intimidade, que procura conviver com toda uma nova realidade. Gerda procura apoiar o esposo, embora em alguns momentos apresente dúvidas em relação aos novos acontecimentos que pontuam a sua vida. Tudo começa numa mera brincadeira, na casa do casal, na Dinamarca, um espaço decorado com um primor assinalável, pontuado por diverso material de pintura, quadros e um simpático cachorrinho que faz companhia à dupla de protagonistas. A vida de ambos muda a partir do momento em que Einar se assume como Lili, algo demonstrado por Tom Hooper ao longo de "The Danish Girl", uma obra cinematográfica pontuada por bons valores de produção e interpretações de relevo por parte de Eddie Redmayne e Alicia Vikander, embora pareça certo que o cineasta poderia ter feito bem mais com o material que tinha à disposição.

Título original: "The Danish Girl".
Título em Portugal: "A Rapariga Dinamarquesa".
Realizador: Tom Hooper.
Argumento: Lucinda Coxon.
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts, Ben Whishaw, Sebastian Koch, Amber Heard.

Quatro críticas menos lidas - Janeiro de 2016

1º - Resenha Crítica: "Taxi Driver" (1976)














2º - Resenha Crítica: "Raging Bull" (1980)














3º - Resenha Crítica: "Shutter Island" (2010)














4º - Resenha Crítica: "After Hours" (1985)




09 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Spotlight" (2015)

 O jornalismo independente é necessário e relevante. "Spotlight", o novo filme realizado por Tom McCarthy reforça essa situação. O título do filme remete para uma equipa do The Boston Globe, especializada em meticulosos trabalhos de investigação de longa duração. O trabalho dos membros desta equipa pode durar meses, embora os seus frutos permitam atribuir uma relevância indelével ao jornal em questão, uma situação notória no caso que é retratado ao longo de "Spotlight", uma obra cinematográfica dirigida com uma precisão notável por Tom McCarthy, com este a encontrar uma equilíbrio praticamente perfeito para explorar quer a investigação jornalística, quer as ramificações e repercussões do caso revoltante que estes jornalistas se encontravam a investigar. McCarthy não transforma os jornalistas em heróis, procurando antes exibir estes profissionais como figuras competentes no seu ofício, que podem errar em alguns momentos mas conseguem manter a sua independência, integridade e determinação. O enredo é inspirado em eventos reais, em particular numa investigação jornalística que permitiu desvendar e comprovar que um número considerável de padres abusaram sexualmente de menores, ainda que estes crimes tenham sido encobertos durante décadas, incluindo por elementos que pertenciam a altos cargos da Igreja Católica de Boston. A investigação é intrincada e demorada, a paciência dos jornalistas é testada, as suas vidas passam praticamente a ser dedicadas a este caso, enquanto Tom McCarthy procura colocar-nos perante os meandros de um trabalho jornalístico sério que teve repercussões ao redor do Mundo. O poder e valor do filme não se alicerça apenas na valorização do trabalho jornalístico, ou no facto de surgir como documento relevante, ainda que exposto de forma ficcional, sobre um caso negro que envolveu diversos elementos da Igreja Católica, com Tom McCarthy a realizar uma obra cinematográfica que sobressai pela solidez do seu argumento e pela capacidade do cineasta em explorar as dinâmicas entre os elementos do elenco principal, algo que permite a nomes como Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Brian d'Arcy James, Liev Schreiber, John Stlattery, entre outros, expressarem algum do seu talento. A certa altura do filme, Marty Baron (Liev Schreiber), o recém-nomeado editor do The Boston Globe, rechaça a procura do Careal Bernard Law (Len Cariou) em aproximar-se da sua pessoa, salientando o seguinte: "Sou da opinião de que um jornal só desempenha bem as suas funções se for independente". Este parece ser o lema de Marty Baron, uma figura lacónica e competente que chega à redacção no início do filme. É um indivíduo de origens judaicas, que nunca habitara em Boston, algo que lhe parece conceder o discernimento necessário para interpretar os acontecimentos locais de maneira distinta em relação àqueles que vivem nesta cidade. A narrativa decorre maioritariamente entre Julho de 2001 e o início de 2002, ou seja, entre o período que antecede a chegada de Marty ao The Boston Globe e a data da primeira publicação relacionada com o resultado da investigação que causou escândalo ao revelar que a Igreja Católica encobriu um conjunto de crimes de pedofilia cometidos por um número considerável de padres durante vários anos.

 Marty Baron é o motor da investigação ao ficar particularmente interessado num artigo escrito pela colunista Eileen McNamara (Maureen Keiller), no qual esta salienta que Mitchell Garabedian (Stanley Tucci), um advogado, afirmou que o Cardeal Law (o Arcebispo de Boston) sabia que John Geoghan, um padre, abusava sexualmente de crianças. A corroborar esta acusação encontra-se o facto de Geoghan ter sido transferido para seis paróquias distintas no espaço de trinta anos, com este caso a parecer demasiado grave para não ser encarado com alguma atenção. Marty fica interessado no caso ao ponto de remeter o mesmo para a equipa Spotlight, procurando ainda iniciar um processo judicial, tendo em vista a levantar a confidencialidade de alguns documentos considerados relevantes para a investigação. O editor exibe uma determinação notável, com Liev Schreiber a transmitir assertivamente a ponderação e o carisma desta figura que mexe com o quotidiano do The Boston Globe e da Spotlight. A equipa é formada pelos seguintes membros: Walter "Robby" Robinson (Michael Keaton), Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d'Arcy James). Robby é o editor da equipa Spotlight, uma figura responsável e eloquente que reporta directamente para elementos como Marty Baron e Ben Bradlee Jr. (John Slattery), com este último a supervisionar as investigações. Tom McCarthy consegue que aos poucos comecemos a tomar conhecimento das especificidades das personalidades dos diversos elementos do grupo e do trabalho elaborado pelos mesmos, concedendo tempo para cada personagem sobressair individualmente. Rezendes é um jornalista obstinado e curioso, que procura obter informações junto de Garabedian, entrevistar vítimas e pesquisar documentos. Sacha recolhe depoimentos de algumas vítimas de abusos sexuais, bem como de um padre que cometeu diversos crimes, com a personagem interpretada por Rachel McAdams a apresentar uma enorme humanidade a lidar com o caso. Matt é meticuloso e ponderado, dedicando boa parte do seu tempo à investigação nos arquivos, algo que o conduz a descobrir informações como espaços reservados para o "tratamento" de padres que cometem abusos. Robby é o líder da equipa, um indivíduo com alguns contactos em postos elevados, que procura gerir os timings relacionados com o momento certo para a informação poder ser lançada publicamente. Michael Keaton protagoniza uma cena poderosíssima quando Robby revela que outrora cometeu um erro de julgamento, com "Spotlight" a explanar que estes elementos não estão livres de cometerem falhas, embora procurem dar o seu melhor. Robby é um indivíduo que nasceu e estudou em Boston, com a cidade a surgir como um espaço que ganha especial destaque na narrativa, bem como a redacção do The Boston Globe. A cidade de Boston aparece representada como um espaço que aos poucos parece demasiado pequeno, com o poder da Igreja a ser fortemente sentido, algo que conduziu a um "fechar de olhos" temporário de diversos sectores da sociedade em relação a uma situação atroz, enquanto a redacção surge como um local onde os jornalistas podem expor livremente as suas ideias e desenvolver o seu trabalho de forma independente.

 A investigação começa a ganhar proporções cada vez mais elevadas, uma situação que surpreende todos os envolvidos. Vale a pena recordar que a investigação começa com um caso relacionado com um padre que supostamente abusara de oitenta crianças, até a equipa Spotlight descobrir que cerca de oitenta e sete padres da zona de Boston abusaram de jovens. A juntar a tudo isso, os jornalistas começam a perceber que o caso tem ramificações nas altas esferas da Igreja e da sociedade, com padres a serem transferidos para Paróquias distintas, acordos a serem estabelecidos "por baixo da mesa" entre advogados das vítimas e dos acusados, entre outras situações pouco recomendáveis. "Spotlight" tem o condão de nos embrenhar para o interior desta investigação, conseguindo despertar o nosso interesse em relação aos próximos passos dos jornalistas, apesar de já sabermos o desfecho deste caso, com Tom McCarthy a incutir um sentido de ritmo latente à narrativa, sempre sem descurar o desenvolvimento dos personagens. Os jornalistas percebem que foram cometidos diversos erros no interior do jornal ao longo do tempo, devido a existir quase uma crença de que seria impossível que estas suspeitas sobre elementos da Igreja fossem verdade, algo transmitido ao longo do filme. No entanto, a partir do momento em que iniciam a investigação, os elementos da equipa Spotlight não descansam até encontrarem provas para corroborar as pistas com que se deparam ao longo do filme, enquanto contactam com uma miríade de personagens e exibem uma determinação latente para ultrapassarem os revezes. É certo que a determinada altura parecem praticamente ceder ao desespero perante as informações que encontram, uma situação latente quando Rezendes se depara com os documentos que comprovam que o Cardeal Law tinha conhecimento dos abusos de cariz sexual por parte de Geoghan. Rezendes pretende publicar a informação, enquanto Robby procura adiar a revelação tendo em vista a construírem um artigo de investigação que desmantele uma teia alargada que envolve diversos elementos da Igreja. Esta situação conduz a um discurso mais violento e apaixonado de Rezendes, com Mark Ruffalo a sobressair e a exibir as fragilidades desta figura educada de forma religiosa que vê tudo aquilo em que acreditava a ser colocado em causa. A investigação começa a afectar a vida pessoal dos jornalistas. Veja-se o caso da personagem interpretada por Rachel McAdams que deixa de visitar a Igreja com a avó, uma mulher devota, ou a pouca atenção que Rezendes concede à sua cara metade, ou a preocupação de Matt ao saber que a sua casa fica perto de um centro de "recuperação" de padres que abusaram de crianças (o personagem interpretado por Brian d'Arcy James é um pai de família). Todos os membros da equipa parecem dedicar os seus dias e as suas noites à investigação, com o argumento a colocar o foco na vida laboral dos integrantes da Spotlight. Tom McCarthy não procura apresentar uma versão sensacionalista do caso, conseguindo expor o mesmo de forma subtil, embora os relatos dos abusos sexuais despertem a revolta do espectador. Os discursos das vítimas impressionam, embora permitam expor a corrupção no interior de alguns sectores da Igreja e os padres que abusavam sexualmente de crianças, para além de existir a noção de que estes casos eram encobertos por diversos sectores da sociedade de Boston. Um dos elementos que apresenta informações relevantes para a investigação da equipa é Phil Saviano (Neal Huff), um indivíduo que lidera a "SNAP" ("Sobreviventes de Abusos por Padres"). Este é outro dos elementos que inicialmente pareciam não ter grande credibilidade, tal como acontecera com Mitchell Garabedian, embora forneça informações relevantes que ajudam a perceber que o caso apresenta ramificações alargadas. Saviano remete a equipa para outra fonte, Richard Sipe (voz de Richard Jenkins), um antigo padre, agora psicoterapeuta, que estudou os comportamentos dos eclesiásticos que cometeram abusos sexuais sobre menores.

 Richard Sipe surge como uma espécie de "Garganta Profunda", concedendo informação via telefone, enquanto surpreende os investigadores ao revelar que existem cerca de noventa padres da zona de Boston que cometem ou cometeram crimes de pedofilia. Temos ainda figuras como Eric MacLeish (Billy Crudup), um advogado que defendeu alguns casos de padres acusados de pedofilia, procurando inicialmente não revelar informações embora seja uma das peças vitais para uma investigação alicerçada numa recolha cuidada das fontes. Aos poucos, todo um novelo é desenrolado, enquanto os jornalistas procuram reunir as peças soltas e criar um artigo credível, ancorado em fontes e à prova de falhas, que exiba estes casos hediondos que se encontravam a ser escondidos da opinião pública. O processo de investigação é demorado, resultando numa série de artigos que trouxeram ao de cima diversos escândalos relacionados com a Igreja, com "Spotlight" a abrir espaço para o debate e a contribuir para que esta situação não seja esquecida. É um hino ao trabalho do jornalismo sério e credível, com "Spotlight" a trazer ecos de obras cinematográficas como "All the President's Men" e "Zodiac", com as comparações relacionadas com o trabalho de Alan J. Pakula a serem merecidas. São "criaturas" distintas, fruto de tempos diferentes, embora mantenham uma classe que promete eternizá-las como obras cinematográficas relevantes que conseguem abordar a complexidade do trabalho jornalístico de investigação alicerçado em fontes e credível. No caso de "Spotlight", Tom McCarthy aborda uma investigação que permitiu trazer à tona crimes que foram cometidos durante décadas, com o cineasta a explorar a temática sem sensacionalismos, enquanto gere as dinâmicas entre os personagens e o talento do seu elenco com uma precisão notável. Se fosse uma equipa de futebol, "Spotlight" seria o Atlético de Madrid de Diego Simeone, com o colectivo a sobrepor-se às individualidades ao mesmo tempo que todos trabalham para um objectivo comum, ou seja, explanar no grande ecrã uma história poderosa e marcante. McCarthy explora temáticas associadas ao trabalho jornalístico de investigação, explana os traumas das vítimas destes crimes de cariz sexual e expõe as falhas no funcionamento da Igreja Católica, conseguindo cumprir com aquilo a que se propõe. Curiosamente, a narrativa de "Spotlight" aborda um período de tempo em que a Internet começa a afectar cada vez mais as publicações impressas, uma situação mencionada a partir das notícias dos vários despedimentos em jornais. O jornalismo não morreu, embora seja relevante perceber que trabalhos de investigação como aqueles que são apresentados em "Spotlight" devem continuar a ser efectuados, tal como é premente que continuem a existir filmes como este que Tom McCarthy realizou e colaborou na escrita do argumento. McCarthy consegue explanar o poder da história que tem para nos contar, contando com o apoio de um elenco talentoso, incluindo a nível dos elementos secundários. Veja-se casos como Stanley Tucci, como um advogado obstinado, ou Neal Huff como o atormentado e traumatizado Phil Saviano, para além dos vários elementos citados, com Tom McCarthy a surgir como um maestro capaz de colocar todos os seus artistas ao serviço de uma obra cinematográfica relevante. Com um elenco talentoso, uma delicadeza notória a abordar temáticas polémicas e um sentido de ritmo latente, "Spotlight" promete marcar pela positiva a carreira de Tom McCarthy, um cineasta que tem aqui um enorme triunfo cinematográfico.

Título original: "Spotlight".
Título em Portugal: "O Caso Spotlight".
Título no Brasil: "Spotlight: Segredos Revelados".
Realizador: Tom McCarthy.
Argumento: Tom McCarthy e Josh Singer.
Elenco: Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci.

08 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Sisters" (Só Podiam Ser Irmãs)

 Maura Ellis (Amy Poehler) é uma enfermeira divorciada que procura ocupar o seu tempo livre com hobbies como esfregar protector solar em supostos sem-abrigos, ou cuidar de animais abandonados. Kate (Tina Fey), a irmã de Maura, é uma cabeleireira e esteticista irresponsável, que não consegue manter um emprego durante muito tempo. Esta é mãe de Haley (Madison Davenport), uma adolescente que mantém uma relação conturbada com a progenitora devido à irresponsabilidade desta última. Maura e Kate são as protagonistas de "Sisters", uma comédia realizada por Jason Moore, que procura capitalizar o talento de Amy Poehler e Tina Fey para o humor, bem como a dinâmica assinalável apresentada pela dupla. Maura conversa regularmente com os pais (Dianne Wiest e James Brolin), através do Skype, parecendo a filha mais próxima dos mesmos. É numa dessas conversas que Maura descobre que os progenitores pretendem vender a casa onde habitam, com a notícia a despertar uma enorme comoção junto da protagonista, embora esta já não habite com os pais. Diga-se que esta não sabe que os pais já definiram a venda da casa, embora tenham dourado a pílula para não enervarem ainda mais a filha. Maura é designada pelos pais para contar a notícia a Kate, algo que esta omite, convidando a familiar para se deslocar consigo até Orlando, tendo em vista a arrumarem a tralha que ainda consta no quarto de ambas. No local, Kate descobre que os pais venderam a casa, algo que escandaliza as duas irmãs, com a dupla a procurar demover os progenitores, embora pareça tarde demais. Estas decidem organizar uma última festa antes da casa ser vendida, tendo em vista a recordarem os eventos que protagonizaram no passado. O regresso a casa parece trazer uma sensação de nostalgia a Kate e Maura, com estas a terem a noção que vão perder um espaço onde viveram alguns episódios relevantes das suas vidas. A chegada ao local é marcada pela descoberta de velhos conhecidos e novos moradores, com James (Ike Barinholtz) a integrar-se nesta última categoria, enquanto Dave (John Leguizamo) e Brinda (Maya Rudolph) fazem parte da primeira. Dave é um indivíduo expansivo, que possui um loja de bebidas alcoólicas e não tem problemas em insinuar-se junto das duas irmãs. Diga-se que os diálogos sobressaem muitas das vezes pelo absurdo e pela incapacidade de alguns personagens em serem subtis, algo latente quando Dave convida as irmãs para terem sexo a três, ou nos momentos em que Maura e Kate decidem fazer piadas de cariz sexual com James. Por sua vez, Brinda é uma mulher frígida, que é bem sucedida a nível profissional mas apresenta uma vida social deprimente, tendo uma inimizade notória com as duas irmãs, sobretudo com Kate. O elenco principal tem espaço para sobressair ao longo do filme, com Amy Poehler, Tina Fey, Maya Rudolph, Ike Barinholtz, John Leguizamo, Bobby Moynihan, entre outros, a criarem personagens que resultam no âmbito desta narrativa recheada de gags. Alguns gags funcionam, outros saem completamente ao lado, embora a grande pedra de toque do filme seja a presença e envolvimento de Amy Poehler e Tina Fey. Ambas já tinham protagonizado "Baby Mama", para além de terem integrado o elenco de "Saturday Night Live" e apresentado três edições dos Globos de Ouro, sendo notório que dominam os timings dos momentos de humor e apresentam uma dinâmica capaz de elevar uma obra cinematográfica que não engana nos seus propósitos, ou seja, proporcionar alguns momentos de escapismo ao espectador.

 A espaços parece que "Sisters" conta com uma duração excessiva para aquilo que tem para apresentar, com o argumento de Paula Pell a depender em demasia das dinâmicas entre Tina Fey e Amy Poehler para "agarrar" uma narrativa demasiado simples e previsível. Fey e Poehler são relativamente bem auxiliadas por um elenco secundário que consegue surpreender ou simplesmente exacerbar os trechos absurdos que marcam o enredo. Um desses personagens secundários que se destacam, para além dos citados, é Alex (Bobby Moynihan), um indivíduo solitário, que passa grande parte do seu tempo a efectuar piadas falhadas que, gradualmente, acabam por despertar o riso do espectador. Veja-se quando procura imitar Al Pacino em "Scarface", embora poucos consigam compreender o seu número, ou quando abusa do consumo de drogas na festa que decorre na casa das protagonistas. Diga-se que, tal como Amy Poehler e Tina Fey, também Bobby Moynihan conta com o selo "Saturday Night Live" no currículo, com o argumento a saber explorar a capacidade do elenco para os momentos de humor. Temos ainda figuras como Pazuzu (John Cena), um traficante de droga lacónico e musculado, que desperta a atenção de Kate, com John Cena a exibir alguma capacidade para a comédia. Kate é a irmã mais extrovertida e irresponsável, enquanto Maura parece ainda não ter ultrapassado o processo de divórcio. A chegada a Orlando promete colocar as duas irmãs a reflectirem sobre as suas vidas, a descobrirem alguns segredos e a explanarem as suas frustrações, com a organização da festa na casa dos seus pais a surgir como um evento que permite simultaneamente despedirem-se da habitação, exorcizarem algumas das desilusões e frustrações recentes e recuperarem a auto-estima. A preparação da festa conta com alguns trechos de humor que resultam praticamente na perfeição, algo notório quando encontramos Tina Fey e Amy Poehler a testarem roupas demasiado apertadas para os seus corpos, enquanto parecem atravessar uma crise típica dos quarenta e poucos anos de idade. As responsabilidades são distintas, os amigos mudaram de comportamento, enquanto Maura e Kate também vão ser obrigadas a repensar algumas das opções que tomaram para a vida, embora pareçam ter parado no tempo. Kate tarda em ganhar maturidade para perceber que tem de conseguir um emprego, adquirir ou alugar uma casa e tomar conta da filha. Maura apresenta inseguranças notórias que dificultam a sua capacidade para iniciar uma nova relação ou comunicar de forma fluída com outros seres humanos, algo latente quando se procura envolver com James. Este é um dos vários convidados da festa, bem como as amigas coreanas de Hae Won (Greta Lee), uma funcionária do salão de beleza local, para além de figuras como Alex e Dave, com o evento a contar até com penetras como Brinda. O evento conta inicialmente com um ambiente próximo de um velório, embora Maura e Kate consigam aquecer o mesmo, com a festa a sair completamente fora de controlo, enquanto ocorrem uma miríade de episódios que incluem consumo de álcool em excesso, drogas, muita música e destruição. Kate tinha combinado tomar conta dos acontecimentos da festa, algo que incluía não beber álcool, enquanto Maura estava autorizada a divertir-se e largar temporariamente a sua faceta mais responsável em relação à primeira, embora o evento descambe com facilidade, uma situação que promete colocar a integridade da casa em perigo.

 A habitação é uma vivenda com uma piscina e uma dimensão assinalável, embora pareça ser pequena para o extravasar dos sentimentos da miríade de personagens que se reúne neste espaço, ou não estivéssemos diante de um conjunto de quarentões e quarentonas que não conseguem desfrutar de muitos momentos como aqueles que são proporcionados nesta festa. Kate tinha inicialmente a ideia de ir morar com os pais, com a decisão da venda da casa a mudar os seus planos. Por sua vez, Maura parece apresentar uma preocupação genuína em relação à irmã, algo latente quando pensa que Kate arranjou um emprego, embora a dupla ainda protagonize um ou outro momento mais tenso. Ambas parecem regressar aos tempos da adolescência, embora facilmente percebam que essa época já passou e as responsabilidades que contam no presente são muito maiores do que aquelas com que contavam no passado. "Sisters" aborda temáticas como o insucesso profissional (Kate) ou social (Maura), bem como o sentimento de nostalgia inerente às mudanças de casa (parece que todos os objectos ganham outro valor, mesmo quando não ligávamos aos mesmos) e a relação complicada entre uma mãe solteira e a sua filha (Kate e Haley), para além de explorar situações como a necessidade do ser humano encontrar um meio de se divertir e escapar aos problemas do dia a dia. O argumento explora estas temáticas de forma simples, encontrando-se longe de contar com uma enorme profundidade, ou subtileza, enquanto aproveita as dinâmicas entre Amy Poehler e Tina Fey, com ambas a exibirem um talento latente para o humor (seja na troca de diálogos ou nos momentos mais físicos), mesmo nas situações mais estapafúrdias ou inconsequentes. Não faltam piadas de cariz sexual, outras que usam e abusam da suposta infantilidade das protagonistas embora, no cômputo geral, os momentos de humor acabem por funcionar. Por vezes parece que existe algum improviso pelo meio, enquanto Amy Poehler e Tina Fey se divertem imenso e contagiam o espectador pelo caminho. Diga-se que as dinâmicas entre estas e alguns elementos do elenco secundário resultam. Veja-se o caso da relação peculiar entre Maura e James, duas figuras algo atrapalhadas que contaram com problemas no passado recente. Temos ainda James Brolin e Dianne Wiest como os pais das protagonistas, uma dupla que parece ter pouca paciência para aturar as infantilidades de Maura e Kate, embora procurem ajudar esta última a refazer a sua vida. A relação entre Kate e a filha não sai dos lugares comuns, com "Sisters" a não surpreender no seu desenvolvimento e desfecho (sempre muito previsível, com o argumento a falhar quando procura incutir alguma carga dramática), procurando acima de tudo jogar as suas fichas na faceta peculiar da dupla de protagonistas. Com uma dinâmica assinalável entre Amy Poehler e Tina Fey, um elenco secundário capaz de perceber aquilo que lhe é pedido e sobressair em alguns momentos, "Sisters" está longe de ser uma comédia marcante, embora proporcione alguns risos e doses consideráveis de escapismo. Não chega para Jason Moore criar um filme memorável, bem pelo contrário, mas é o suficiente para contarmos com cerca de duas horas bem agradáveis, enquanto desfrutamos do talento de humoristas como Tina Fey e Amy Poehler.

Título original: "Sisters".
Título em Portugal: "Só Podiam Ser Irmãs".
Realizador: Jason Moore.
Argumento: Paula Pell.
Elenco: Tina Fey, Amy Poehler, John Leguizamo, James Brolin, Maya Rudolph, Bobby Moynihan, Dianne Wiest, Ike Barinholtz, John Cena.

06 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Irrational Man" (Homem Irracional)

 Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um mistério que parece difícil de decifrar. Os alunos e (sobretudo) as alunas admiram-no. Os colegas questionam-se em relação a este indivíduo inteligente e deprimido, que pouco comunica com os elementos que o rodeiam. Joaquin Phoenix incute um estilo inicialmente algo descuidado e passivo ao personagem que interpreta, um professor que foi contratado para integrar o Departamento de Filosofia da Braylin College, uma universidade ficcional situada em Rhode Island. Abe conta com a fama de mulherengo e problemático, preparando-se para leccionar um curso de Verão nesta universidade, um espaço onde desperta a curiosidade de alunos e professores. Os seus trabalhos são capazes de despertar as opiniões mais distintas, embora Abe se depare com um bloqueio criativo difícil de ultrapassar, algo que dificulta a escrita de novas obras literárias. Outrora procurou mudar o Mundo. Nos dias de hoje, Abe apenas parece contentar-se em beber vários goles do whisky que guarda nas suas vestimentas, enquanto procura encontrar um significado para a vida e questiona o Mundo que o rodeia. Abe é o típico personagem que encontramos em alguns filmes de Woody Allen, com o cineasta e argumentista a criar mais uma vez um universo narrativo que parece dialogar com outros trabalhos que figuram no seu currículo. Não falta o protagonista que é um intelectual com ideias e ideais muito próprios, as frustrações e o desejo de cariz sexual, um divórcio que marcou o personagem principal, as figuras femininas complexas e distintas, os diálogos que variam muitas das vezes para temáticas mais profundas, a colocação em prática do crime perfeito (com direito a mais uma referência a "Crime e Castigo" de Fyodor Dostoyevsky), a narração em off, entre outros exemplos. "Irrational Man" tem ainda o condão de nos transportar para uma realidade muito própria que apenas parece existir na mente de Woody Allen, com os diálogos a serem maioritariamente bem construídos (mais uma fala para a colecção: "boa parte da filosofia não passa de masturbação verbal"), enquanto o cineasta se envolve novamente pelos meandros da comédia negra, num estilo que muito tem de "Crimes and Midemeanors" e "Match Point", duas obras cinematográficas onde, tal como em "Manhattan Murder Mystery", o crime perfeito surgia como uma das temáticas em destaque. No caso de "Irrational Man", é exactamente a possibilidade de cometer o crime perfeito e assim fazer justiça pelas próprias mãos que parece tirar Abe da letargia. Inicialmente desperta a atenção de duas mulheres, ambas comprometidas, embora o nível da relação de cada uma se encontre em estágios diferentes, com Rita Richards (Parker Posey) e Jill Pollard (Emma Stone), a apresentarem personalidades e comportamentos distintos.

 Rita é uma professora neurótica, que trabalha na Braylin College e pretende viajar para Espanha e estabelecer a sua vida neste país, mantendo casos extraconjugais apesar de ser casada. Jill é uma aluna da universidade, curiosa e inteligente, embora algo ingénua. Esta mantém uma relação aparentemente segura com Roy (Jamie Blackley), um jovem calmo e ponderado, que ama a primeira e forma planos a longo prazo para viver com a mesma. Se Abe surge como uma figura errática e anti-establishment, sempre disponível para colocar em causa a relação entre a teoria e a prática, já Roy aparece como um jovem apagado, que respeita e ama Jill embora não pareça trazer nada de novo ao quotidiano desta mulher. Jill começa a ficar intrigada em relação a Abe, um indivíduo complexo, que tanto parece apresentar laivos de genialidade como uma personalidade destrutiva e letárgica, surgindo como um mistério para a maioria daqueles que o rodeiam. O personagem interpretado por Joaquin Phoenix também parece interessado nesta aluna que não tem problemas em refutar as suas teorias ou questionar os seus trabalhos. Abe procura inicialmente que a relação com Jill não ultrapasse a barreira da amizade, embora essa tarefa pareça deveras complicada. Ela insinua-se, é bela, inteligente, tem charme e apresenta uma personalidade fascinante. Ele parece encontrar nesta jovem algo que o atrai de forma indelével. Por sua vez, Roy já não suporta ouvir falar de Abe, parecendo prever aquilo que aí vem, sobretudo devido à fama que precede o personagem interpretado por Joaquin Phoenix, em particular, os rumores de manter casos com alunas. Roy é uma figura algo apagada, pouco explorada e desenvolvida pelo argumento, com o próprio Jamie Blackley a contribuir para que este personagem surja como o elo mais fraco de "Irrational Man", a par do marido de Rita. Blackley apresenta uma falta de carisma notória, bem como uma incapacidade em fazer com que nos acreditemos no personagem que interpreta, com o actor a destoar das interpretações meritórias de Joaquin Phoenix, Emma Stone e Parker Posey. Emma Stone e Parker Posey apresentam dinâmicas distintas mas credíveis com Joaquin Phoenix, algo inerente às características das personagens interpretadas pelas primeiras. A personagem interpretada por Emma Stone é uma jovem curiosa, que gosta de tocar piano, ainda inexperiente em relação à vida, com a actriz a incutir uma personalidade vincada a esta mulher questionadora, que procura conquistar o seu professor, embora não esteja disposta a largar os seus valores morais para manter uma relação com o mesmo. Stone e Phoenix convencem quer quando Abe se encontra num estado letárgico e Jill procura despertar o lado mais vivaz do professor, quer nos momentos em que este reencontra o gosto por viver. Tudo acontece quando se encontram num café e ouvem uma mulher a dialogar com um conjunto de conhecidos. O momento é paradigmático da relação de proximidade que Woody Allen pretende formar entre os protagonistas e o público: inicialmente apenas ouvimos sussurros, até Abe se sentar ao lado de Jill e ouvir, em conjunto com o espectador, a conversa da mesa de trás.

 Uma mulher revela que se encontra prestes a perder a guarda dos filhos para o esposo devido ao facto do advogado do mesmo ser amigo do juiz Spangler (Tom Kemp). Esta encontra-se desesperada, enquanto Jill e Abe apresentam uma consternação latente. É então que Abe parece ter uma epifania, com a descoberta desta injustiça a fazer com que o protagonista formule um plano para cometer o crime perfeito. Abe decide eliminar o juiz, com esta decisão a permitir que o protagonista reencontre o gosto por viver. O personagem interpretado por Joaquin Phoenix parece finalmente ter nas suas mãos a hipótese de fazer algo de relevante, enquanto Woody Allen coloca diante do espectador a decisão de julgar a moralidade ou imoralidade deste acto. Allen consegue que geremos alguma simpatia por esta figura que cita Kant, Hannah Arendt, entre outros, demonstrando uma cultura acima da média embora questione muitas das teorias que ensina. Este parece algo desencantado com a sua profissão e o rumo da sua vida. Veja-se quando decide pegar numa pistola, no meio de uma festa, começando a jogar à roleta-russa diante do olhar estupefacto de todos os seus alunos, algo que expõe paradigmaticamente o estado perturbado da sua mente. Abe pensa ter planeado o crime perfeito, embora se esqueça da personalidade questionadora e criativa de Jill. Por sua vez, Rita mantém a sua faceta algo insegura, embora desfrute da "libertação" deste personagem, pelo menos até Abe parecer mais inclinado para manter uma relação com Jill. Estamos numa situação que a espaços nos traz à memória obras cinematográficas como "Manhattan", "Crimes and Misdemeanors" e "Match Point" onde um dos personagens principais mantinha um caso duplo, ou pelo menos com figuras femininas distintas, com "Irrational Man" a remeter sobretudo para estas duas últimas. Não falta a colocação em prática do crime perfeito (aqui também a remeter para filmes de Alfred Hitchcock como "Rope", "Strangers on a Train", "Dial M for Murder"), a procura em lidar com um acto macabro, mas também o papel do destino (neste quesito, "Irrational Man" entronca e muito em "Match Point"). Em "Crimes and Misdemeanors", Judah Rosenthal (Martin Landau) decide mandar eliminar a sua amante, tendo em vista a manter a sua reputação e o casamento. Em "Match Point", Chris (Jonathan Rhys Meyers) decide eliminar Nola (Scarlett Johansson), a sua amante. No caso de "Irrational Man", Abe decide assassinar um desconhecido, assumindo uma faceta transviada de justiceiro, com o filme a levantar questões pertinentes sobre a imoralidade ou moralidade deste acto que subverte as leis. O que fazer quando um cidadão que deveria contribuir para a lei e a justiça, como um juiz, também subverte esse sistema? Woody Allen questiona o espectador, utiliza o humor e algumas referências inteligentes, enquanto deixa Joaquin Phoenix a interpretar uma figura que tanto tem de trágica como de cómica e perigosa. Joaquin Phoenix é o elemento em maior destaque, com Woody Allen a exibir que mantém um talento notório para extrair boas interpretações dos elementos do seu elenco, embora não faça milagres, como é possível ver no caso de Jamie Blackley. É através de Abe que Woody Allen aborda temas como a depressão, a justiça, a utilização na prática do saber adquirido no plano teórico, entre outras temáticas que são exploradas pelo argumento, com "Irrational Man" a surgir com um conteúdo sumarento, enquanto balanceia com agilidade entre as barreiras do humor e do lado mais negro do cineasta e argumentista. A figura de Abe simboliza isso mesmo. Beberrão, com uma barriga saliente e uma visão desencantada da vida, Abe encontra um sentido para a sua existência através do desejo de uma morte, ou melhor, de cometer um assassinato que, na cabeça do protagonista, pode trazer alguma justiça.

 Joaquin Phoenix não é o único elemento do elenco a surgir em destaque. Veja-se Emma Stone como uma figura radiante, questionadora, apaixonada e apaixonante, embora algo inexperiente em relação à vida, ou Parker Posey como uma mulher que já conheceu diversas dúvidas e frustrações ao longo da sua existência. O trio principal sobressai, bem como os seus intérpretes, enquanto Woody Allen desenvolve as relações entre Abe e estas mulheres de forma eficaz, embora a espaços pareça faltar a capacidade apresentada em trabalhos como "Hannah and Her Sisters" e o (bastante) citado "Crimes and Misdemeanors" de explorar mais os personagens secundários tendo em vista a incutir mais substância ao enredo. Veja-se o caso do namorado de Jill, ou o esposo de Rita, com estes elementos masculinos a surgirem como figuras apagadas. As próprias figuras que rodeiam o campus universitário nem sempre sobressaem, com este a ser um espaço onde as fofocas são mais do que muitas, que o diga Abe, com a sua entrada em cena na universidade a ser marcada por um conjunto avultado de historietas e rumores sobre o seu passado. Embora não crie uma multitude de personagens secundários que deixem marca, Woody Allen elabora algumas cenas deveras inspiradas. Veja-se a ida de Abe e Jill a um parque de diversões, com a reprodução dos personagens nos espelhos distorcidos a indicar algo de problemático para o futuro de ambos, embora a situação até seja de romantismo (e efectue um piscar de olho a "The Lady From Shanghai", também citado em "Manhattan Murder Mystery"). Abe inicialmente hesita em iniciar uma relação com a aluna, embora pareça óbvio que esta pretensão não se vai manter durante muito tempo ao longo de uma obra onde Woody Allen volta a pegar em questões existenciais e em diversas temáticas transversais a diversos filmes que realizou. A duração de "Irrational Man" ronda cerca de uma hora e trinta, embora o filme pudesse durar bastante mais tempo, quer para desenvolver mais as figuras secundárias, quer pelo prazer de ouvir os personagens a dialogarem e a interagirem, com Woody Allen a conceder um tom enxuto e provocador a uma obra cinematográfica que comprova a vitalidade deste cineasta. Diga-se que Allen beneficia ainda de mais uma parceria com Darius Khondji, um director de fotografia capaz de captar o calor e os espaços de Newport, para além de contribuir para alguns planos belíssimos. Também o guarda-roupa do elenco e o design dos cenários denotam um cuidado latente, com Woody Allen a jogar muitas das vezes com as cores. Veja-se os lençóis vermelhos na casa de Abe, após um momento mais quente (a simbolizar esse momento mais caloroso), ou a tonalidade arroxeada das flores do parque onde o juiz corre, com as mangas da camisola deste personagem a condizerem com as plantas (vai existir muito este jogo entre as cores de elementos que povoam os cenários e o guarda-roupa dos personagens), entre outros exemplos. Com interpretações de bom nível de Joaquin Phoenix, Emma Stone e Parker Posey, alguns diálogos típicos dos filmes de Woody Allen e uma realização assertiva, "Irrational Man" surge como mais uma entrada interessante no currículo de um cineasta que alia proficuidade e qualidade.

Título original: "Irrational Man".
Título em Portugal: "Homem Irracional".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey, Jamie Blackley.

04 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Somewhere" (2010)

 A alienação do ser humano diante do meio que o rodeia é uma temática transversal a diversos filmes de Sofia Coppola. "Somewhere", a quarta longa-metragem realizada por Sofia Coppola através do argumento da própria, não é diferente, com a cineasta a incutir um tom muito próprio a uma obra cinematográfica que aborda temáticas como a solidão, a relação entre um pai e a sua filha, o quotidiano de uma estrela de cinema, entre outras. Coppola tem em Stephen Dorff um actor capaz de expressar o vazio que marca o quotidiano de Johnny Marco, o protagonista, uma estrela de cinema que aparentemente tem tudo aquilo que pretende: dinheiro, sucesso profissional, a companhia regular de belas mulheres, habita num hotel de luxo, possui um Ferrari preto topo de gama, é idolatrado pelo público e desfruta regularmente de prazeres que não são acessíveis à maioria dos seres humanos. Johnny Marco é uma figura recheada de contradições, que se encontra num estado algo letárgico, embora seja bem sucedido nível profissional e financeiro. Desfruta de prazeres momentâneos, embora também conte com alguns problemas, algo notório quando parte um braço num momento em que se encontra deveras alcoolizado. O actor recebe regularmente a companhia nocturna de duas dançarinas (Kristina e Karissa Shannon) no interior do quarto do hotel onde se encontra instalado, com estas a dançarem no varão em "espectáculos" temáticos privados. Para o espectador, a situação pode parecer meio caricata, ou algo insólita. No entanto, para Johnny Marco estes momentos são tão banais que chega a adormecer numa das ocasiões em que as gémeas se encontram a dançar em roupas sugestivas. Johnny Marco encontra-se instalado no Chateau Marmont, em Los Angeles, um espaço pontuado simultaneamente por um conjunto de luxos e uma sensação de vazio, onde as estrelas têm uma oportunidade de viver como se fossem figuras anónimas. O personagem interpretado por Stephen Dorff tem de corresponder com regularidade aos compromissos relacionados com a divulgação do seu novo filme, algo que inclui participar numa sessão fotográfica com Rebecca (Michelle Monaghan), a co-protagonista, uma mulher que não o suporta. Segue-se uma sessão de perguntas e respostas com a imprensa, um evento onde Johnny Marco surge lacónico, com o quotidiano desta estrela de cinema a ser bem mais enfadonho do que poderíamos esperar. Johnny tem dinheiro. Tem sucesso profissional. No entanto, os luxos tornaram-se banais ao ponto do protagonista não conseguir desfrutar totalmente dos mesmos, com Johnny a não parecer ter a imaginação ou vontade para "dar um safanão" nas suas rotinas.

O quotidiano de Johnny muda com a entrada em cena de Cleo (Elle Fanning), a sua filha, uma jovem de onze anos de idade. Basta uma simples diálogo para percebermos que Cleo e Johnny não convivem regularmente, apesar de ser notório que a relação entre ambos não é marcada por problemas. O momento enunciado surge quando Johnny questiona a filha em relação à data em que esta começou a praticar patinagem no gelo, com a jovem a responder num tom que mescla desilusão e compreensão: "Pratico há 3 anos". Percebemos que Johnny pouco sabe sobre os pequenos pormenores da vida de Cleo, algo que promete ser problemático quando Layla (Lala Sloatman), a ex-mulher do protagonista e mãe da jovem, decide viajar por tempo indeterminado e deixa a personagem interpretada por Elle Fanning ao cargo do actor. É o momento em que este tem de assumir responsabilidades como pai, uma situação para a qual não parecia estar totalmente preparado. Johnny Marco nem sempre parece ter a palavra certa para dizer à filha (veja-se quando esta chora por não saber quando a mãe regressa e pelo facto do progenitor se encontrar constantemente a viajar, com o protagonista a não saber encontrar uma palavra de conforto), com os momentos de silêncio entre ambos a serem mais do que muitos, embora pareçam compreender-se mutuamente. Cleo parece habituada ao estilo de vida do pai e aos luxos, sendo capaz de se desenrascar com enorme facilidade quer seja a jogar Guitar Hero, a nadar, a patinar no gelo, ou a efectuar uma refeição. Elle Fanning consegue transmitir a delicadeza desta jovem mas também a sua maturidade e desenvoltura, embora as dúvidas assolem regularmente a alma de Cleo. Diga-se que Cleo aguarda a chegada do dia em que vai ser transportada para Belmont, tendo em vista a participar num acampamento onde vai passar parte das suas férias. Esta ainda não sabe se vai habitar com o pai ou com a mãe, com a data do regresso desta última a ser incerta, algo que preocupa Cleo e Johnny. Durante este período de tempo em que vivem juntos, Johnny e Cleo reforçam os laços que pareciam esbatidos devido ao pouco convívio entre ambos, com o primeiro a parecer ter finalmente a noção das responsabilidades inerentes à paternidade. Sofia Coppola explora de forma minimalista mas certeira o quotidiano deste indivíduo que aos poucos conquista a nossa simpatia. Os momentos em que Johnny Marco se encontra reunido com a filha parecem de genuína felicidade, apesar de um ou outro trecho mais dramático, com Stephen Dorff e Elle Fanning a convencerem o espectador dos sentimentos expressos pela dupla. Veja-se quando viajam para Itália, onde Johnny tem de promover o seu novo filme, tendo de dar algumas entrevistas de circunstância e participar num programa televisivo, com a filha a encarar com alguma normalidade todo o aparato que envolve a presença do actor. Dorff convence como este actor que pratica um estilo de vida completamente desregulado e errático, que fuma e bebe muito, é solitário apesar de viver rodeado de pessoas, tendo em Sammy (Chris Pontius), um dos poucos amigos que o visita com regularidade.

O hotel onde o protagonista habita surge como um espaço que tanto tem de luxuoso como de vazio e impessoal, com Johnny a não parecer planear assentar a sua vida, pelo menos até à chegada de Cleo, com Sofia Coppola a abordar temáticas relacionadas com a alienação do ser humano, a relação entre um pai e a sua filha, o quotidiano das estrelas de cinema, as crises existenciais, entre outros exemplos. Sofia Coppola, tal como em "Lost in Translation" e "Marie Antoinette", volta a interessar-se por aqueles que vivem num meio acima da média, embora os problemas dos seus personagens sejam relativamente universais. A própria cineasta conviveu desde muito jovem com este meio artístico, com a representação do hotel a parecer ter sido inspirada em algumas experiências pessoais, com o Chateau Marmont a surgir como um local onde diversas estrelas se encontram e têm oportunidade de fugir aos holofotes da fama. Veja-se o receio que Johnny tem em relação à possibilidade de ser seguido por paparazzis, ou a quantidade de pessoas que se juntam à sua volta na chegada a Itália, algo que não acontece no hotel, onde apenas tem as companhias que pretende, sobretudo belas mulheres, pelo menos até a filha chegar. O próprio meio que envolve os artistas é abordado, com a conferência de imprensa e a sessão fotográfica a serem apresentados com um tom algo desencantado, surgindo para o protagonista (provavelmente, também para a cineasta) como uma obrigação pontuada por situações de enorme hipocrisia e puerilidade. Os momentos de silêncio protagonizados por Johnny Marco são imensos, com Sofia Coppola a não poupar nos mesmos, deixando muitas das vezes a magnífica banda sonora a dialogar com as imagens em movimento. Não faltam canções de bandas e artistas como Foo Fighters, The Police, Kiss, Bryan Ferry, Julian Casablancas, entre outros, com Sofia Coppola a revelar mais uma vez uma enorme inspiração na escolha e utilização das músicas, sobretudo se tivermos em conta o quanto estas contribuem para tom envolvente do filme (veja-se o momento belíssimo entre Johnny e Cleo no interior da piscina do hotel em Itália). "Somewhere" marca ainda uma mudança de tom em relação a "Marie Antoinette", com a cineasta a jogar um pouco mais no rumo de "Lost in Translation", embora não consiga emular o sucesso deste último, apesar da sua quarta longa-metragem confirmar a percepção de que estamos diante de uma realizadora que, para o bem e para o mal, procura incutir um estilo autoral aos seus trabalhos. Sofia Coppola confirma em "Somewhere" algumas das boas indicações que tem deixado ao longo da sua carreira, com a cineasta a criar uma obra cinematográfica onde quase tudo funciona, incluindo a dinâmica entre os personagens interpretados por Elle Fanning e Stephen Dorff, ou os momentos de silêncio que tanto dizem, ou um "simples" diálogo que pode ter um efeito arrasador. 

Título original: "Somewhere".
Título em Portugal: "Somewhere - Algures".
Realizadora: Sofia Coppola.
Argumento: Sofia Coppola.
Elenco: Stephen Dorff, Elle Fanning, Michelle Monaghan, Chris Pontius.

02 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "La Notte" (1961)

 A certa altura de "La Notte", o segundo volume da “trilogia da alienação” realizada por Michelangelo Antonioni, iniciada em "L'Avventura", Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni) comenta que já não tem ideias, apenas tem memórias. Esta frase é proferida durante uma saída nocturna que Giovanni efectua com Lidia (Jeanne Moreau), a sua esposa, uma mulher elegante e distinta. Diga-se que este é um casal que parece viver de forma financeiramente desafogada, desfrutando de alguns luxos embora quer Giovanni, quer Lidia pareçam encontrar-se constantemente entediados. A relação entre Lidia e Giovanni já parece ter conhecido melhores dias. Diga-se que Michelangelo Antonioni faz questão de separar a dupla em vários momentos da narrativa, enquanto Lidia e Giovanni vivem episódios isoladamente, são colocados diante de tentações e longos momentos de tédio, até serem obrigados a confrontar-se e a avaliar o estado em que se encontra a relação. O tédio parece marcar o quotidiano destas duas figuras. Giovanni é um escritor de sucesso. Lidia vive de rendimentos, apresentando finanças abastadas. Giovanni e Lidia pouco parecem sair, embora uma visita a um clube nocturno e a uma festa prometam expor o quão distantes parecem estar um do outro, enquanto Michelangelo Antonioni explora de forma contemplativa aquilo que une e separa estas duas figuras que a espaços se transformam em verdadeiros enigmas para o espectador. A alienação do ser humano diante do Mundo que o rodeia e a vacuidade da sociedade burguesa é algo que Michelangelo Antonioni abordou em "L'Avventura", com o cineasta a voltar a repetir diversos temas e elementos que atravessam diversas das suas obras cinematográficas. Não falta o casal a viver uma crise, os planos de longa duração, os silêncios que tanto conseguem exprimir, as traições, um aproveitamento notável dos cenários exteriores e interiores, a atenção à arquitectura local, o sentimento de vazio que parece rodear o casal de protagonistas, os luxos que escondem temporariamente alguma vacuidade, a entrada em cena de figuras que nos surpreendem pela sua importância na narrativa, entre outros elementos. Nos momentos iniciais de "La Notte" encontramos Lidia e Giovanni a visitarem Tommaso Garani (Bernhard Wicki), um amigo de ambos que se encontra internado num hospital em Milão. Tommaso encontra-se em estado terminal, algo que afecta Lidia, uma situação que se torna latente quando esta decide abandonar o local num choro convulsivo. Mais tarde descobrimos que Tommaso esteve interessado em Lidia, embora esta tenha avançado para Giovanni, apesar de manter a amizade com o primeiro, um indivíduo que se encontra num estado depressivo perante os feitos que não conseguiu alcançar. Giovanni fica mais tempo, procurando aceder ao desejo do amigo em beber um copo de champanhe, embora o sofrimento de Tommaso seja notório. Tommasso ainda elogia "La stagione", o novo livro de Giovanni, com este último a dirigir-se a Milão não só para visitar o amigo mas também para apresentar o livro.

 Antes de sair do hospital, Giovanni é confrontado com uma doente mentalmente perturbada mas de enorme beleza. Já se tinha cruzado com esta estranha mulher, embora não resista a deixar que esta o beije, até as enfermeiras travarem a doente. Quando desce, Giovanni conta o episódio a Lidia. A personagem interpretada por Jeanne Moreau exibe indiferença em relação ao acto do esposo, um sentimento que se parece repetir quando se depara com este a beijar outra mulher numa festa organizada por Gherardini (Vincenzo Corbella), um empresário poderoso, com uma visão prática da vida, que pretende que o protagonista trabalhe para si e escreva um livro sobre a história da sua empresa. Diga-se que a relação entre Lidia e Giovanni é pontuada pela estranha sensação de que ambos não parecem sentir ciúmes em relação às pessoas que rodeiam o respectivo cônjuge. A festa ocupa boa parte da segunda metade da narrativa, com Michelangelo Antonioni a conseguir captar os ritmos das emoções e sensações, dos sentimentos dos personagens e dos inúmeros episódios que ocorrem durante a noite. A música povoa boa parte destes episódios, ou não existisse uma banda a tocar ao vivo, enquanto quase todos os convidados bebem, falam, divertem-se, entediam-se, com a noite a ser palco de um conjunto de situações marcadas pela vacuidade. Lidia inicialmente nem pretendia aceder ao convite de Gherardini, algo latente quando convence Giovanni a visitar um clube nocturno. O bar é marcado por um número musical protagonizado por um bailarino e uma bailarina, com Antonioni a expor o momento de forma contemplativa ao mesmo tempo que explora o efeito deste espaço junto dos protagonistas. "La notte" coloca-nos perante algo transversal a diversos filmes de Michelangelo Antonioni, tais como "L'Avventura" e "L'Eclisse", com o cineasta a atribuir um enorme relevo aos cenários, bem como à arquitectura local. Não são raras as vezes em que Antonioni nos coloca diante de planos onde os protagonistas não se encontram presentes, com muitos destes cenários a acabarem por influenciar o quotidiano das figuras que povoam o enredo. Veja-se os comportamentos de Lidia e Giovanni na festa de Gherardini, um evento que tem lugar na vasta propriedade deste último. Lidia acede ao desejo de Giovanni em participar no evento, com ambos a unirem-se e separarem-se por diversas vezes nesta larga propriedade. O espaço é enorme, embora pareça demasiado pequeno para as emoções que atravessam diversos personagens, que o digam Lidia e Giovanni. A cinematografia é elegante e capaz de exacerbar os ritmos e os sentimentos que se extravasam nesta noite, com Antonioni a aproveitar o deep focus de forma exímia. Veja-se quando encontramos Lidia e uma conhecida a dialogarem ao mesmo tempo que podemos visualizar a habitação com paredes espelhadas que se encontra um pouco mais atrás da dupla, ou quando encontramos o personagem interpretado por Marcello Mastroianni a observar um vizinho a fumar, ou a quantidade de eventos que ocorrem em simultâneo na festa, algo notório quando começa a chover e diversas figuras decidem extravasar as suas emoções. Os planos são elaborados de forma meticulosa, algo latente durante os episódios que marcam a festa, enquanto Antonioni nos deixa diante da vacuidade destes elementos da alta sociedade e a solidão que afecta diversas figuras. A personagem interpretada por Jeanne Moreau é uma dessas figuras solitárias, com a actriz a surgir mais uma vez magistral, conseguindo atribuir presença, carisma e dimensão a Lidia, uma mulher que parece estar perdida num mar de indecisões. Moreau consegue expressar as inquietações de Lidia, as suas dúvidas e melancolia, a incerteza que tem em relação à possibilidade de ainda amar Giovanni. Lidia parece ter a perfeita noção que a relação com Giovanni conheceu diversas alterações, com ambos a apresentarem um distanciamento cada vez mais notório, algo que se adensa no interior da festa. É no interior da festa que Giovanni conhece Valentina Gherardini (Monica Vitti), a filha do anfitrião, uma jovem que tanto tem de vivaz como de depressiva, com Monica Vitti a sobressair em mais um filme de Antonioni. Valentina entra como um furacão na vida de Giovanni, com este a sentir-se atraído por esta jovem sedutora, com o desejo a parecer mútuo, pelo menos até a personagem interpretada por Monica Vitti descobrir que o protagonista é casado.

O momento em que encontramos Lidia a visualizar Giovanni e Valentina a beijarem-se é revelador do estado em que se encontra a relação do casal. Diga-se que Lidia também é cortejada, com esta a despertar a atenção de Roberto (Giorgio Negro), embora não avance para nada muito concreto, com "La Notte" a desafiar muitas das vezes as nossas expectativas. Tanto Roberto como Valentina foram colocados na narrativa como se nada fosse, até ganharem uma relevância inesperada, algo que a espaços traz à memória a figura de Gloria Perkins em "L'Avventura", uma personagem exposta num momento aparentemente anódino, embora a aspirante a actriz tenha um enorme relevo no último terço. Diga-se que o final de "La Notte" e "L'Avventura" parecem "casar" relativamente bem, com Michelangelo Antonioni a deixar-nos na dúvida se a relação da dupla de protagonistas tem ou não condições para continuar, embora exista a esperança de que se consigam refazer dos erros que cometeram e ultrapassar aquilo que os separa. Antonioni é sublime a explorar a complexidade das relações e dos sentimentos humanos, com "La Notte" a exibir isso mesmo, enquanto Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni brilham como um casal que parece cada vez mais entediado com as rotinas que pontuam o seu casamento. Moreau e Mastroianni interpretam um casal bem parecido, que parece ter vivido alguns momentos de maior fulgor no passado (algo paradigmaticamente representado na leitura de uma carta), embora a rotina inerente ao matrimónio pareça bloquear as hipóteses de serem felizes. Mastroianni interpreta um escritor que parece estar diante de uma espécie de bloqueio na vida profissional e sentimental (tal como o protagonista de "L'Avventura), com o actor a conseguir transmitir as dúvidas deste indivíduo mulherengo que não parece saber muito bem aquilo que pretende da vida. Também Monica Vitti tem espaço para brilhar, ou não interpretasse uma figura que facilmente rouba as atenções quando se encontra presente. Valentina parece deprimida com a vida e a falta de ideias para o seu futuro, com esta a contar com o dinheiro da família embora não consiga ter a criatividade para desfrutar das possibilidades que esta fortuna lhe poderia proporcionar. A festa exibe uma miríade de personagens maioritariamente vazios a nível do pensamento, que procuram exorcizar o tédio, embora apenas exibam a sua vacuidade, enquanto um casal deixa a ideia que a sua relação está a envolver-se por caminhos pantanosos que podem conduzir ao final do casamento. Diga-se que anteriormente já tínhamos encontrado Lidia e Giovanni separados, com esta a abandonar a apresentação do livro, enquanto decide passear pela cidade, sem rumo aparente, deparando-se com episódios tão distintos como uma luta ou foguetes a serem lançados para o ar, enquanto Antonioni aproveita para explorar os espaços que rodeiam esta mulher. Vale sempre a pena reforçar todo o cuidado que Antonioni colocou no aproveitamento dos cenários e na composição dos planos, algo comentado por Glenn Erickson na sua magnífica crítica no DVD Talk: “Antonioni carefully stages and lights everything, but his camera technique rarely draws attention to itself. Images in the millionaire's house frequently involve reflections in the glass walls that make people look like ghost figures, or duplicates of themselves. It's a house for vain, ostentatious creatures. The shots can be disorienting, but angles are never chosen simply for pictorial effect. We feel as if we're inside a cinematic equation that relates interpersonal relationships with architectural forms.”. No final resta apenas desfrutar deste trabalho maravilhoso de Michelangelo Antonioni, com o cineasta a explorar de forma sublime a complexidade das relações e sentimentos humanos, enquanto aproveita de forma exímia os cenários e o elenco que tem à sua disposição, com "La Notte" a surgir como uma obra-prima que clama para ser vista, revista, reverenciada e amada.

Título original: "La Notte".
Título em Portugal: "A Noite".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Ennio Flaiano, Tonino Guerra.
Elenco: Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Monica Vitti, Bernhard Wicki.