12 janeiro 2016

Quando "Carol" dialoga com "Brief Encounter"





Venero "Brief Encounter". Estou apaixonado por "Carol". A espécie de crítica ao filme realizado por David Lean já se encontra no blog. A crítica a "Carol" sai para a semana. Quero e preciso rever o filme pelo menos mais duas vezes. Todd Haynes realiza uma obra cinematográfica onde os gestos, os olhares, as palavras, os silêncios, o guarda-roupa, os planos, surgem recheados de significado e intenção, enquanto Cate Blanchett e Rooney Mara teimam em demonstrar que são duas actrizes magníficas, com a dupla a interpretar personagens de características distintas que se parecem complementar na perfeição.

11 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Mustang" (2015)

 Entre o conservadorismo de alguns sectores da sociedade turca que parecem rejeitar os direitos das mulheres, um grupo de jovens adolescentes rebeldes que se encontra a descobrir a sua sexualidade, a sua personalidade e o seu corpo, casamentos arranjados e sentimentos que parecem tão difíceis de controlar como a espécie de cavalos do título, "Mustang" surge como uma estreia bastante interessante de Deniz Gamze Ergüven na realização de longas-metragens. É um filme que nos embala inicialmente para a felicidade e candura de Sonay (İlayda Akdoğan), Selma (Tuğba Sunguroğlu), Ece (Elit İşcan), Nur (Doğa Zeynep Doğuşlu) e Lale (Güneş Nezihe Şensoy), as cinco protagonistas, até estas serem colocadas diante de episódios que prometem afectar o seu futuro e união. Estas procuram afirmar a sua identidade e personalidade no interior de uma sociedade patriarcal onde os direitos das mulheres estão longe de se encontrarem garantidos, enquanto a câmara de filmar parece acompanhar os ritmos dos sentimentos e emoções destas figuras femininas. No início de "Mustang" encontramos Sonay, Selma, Ece, Nur e Lale, cinco irmãs, órfãs, a conviverem com um grupo de rapazes no meio da praia, algo que é considerado como um escândalo por parte da avó (Nihal Koldaş) destas jovens, uma mulher que se encontra a tomar conta das mesmas desde que os pais do quinteto faleceram. O episódio que decorreu na praia não conta com malícia, embora uma vizinha logo denuncie o mesmo, com as protagonistas a preparem-se para lidar com uma realidade que nem sempre é fácil de enfrentar. Sonay é a mais velha, aquela que parece mais adulta e à vontade com a sua sexualidade, algo que contrasta com a jovem Lale, a mais nova das cinco irmãs, contando com cerca de onze ou doze anos de idade. É através do olhar de Lale que observamos muitos dos episódios que envolvem estas jovens que são sujeitas a violência física e psicológica por parte de Erol (Ayberk Pekcan), o tio do quinteto, com a personagem interpretada por Güneş Nezihe Şensoy a surgir como a narradora de serviço. Nos momentos iniciais de "Mustang", mais do que nos dar as diferentes nuances de cada uma das jovens, Deniz Gamze Ergüven procura explorar a dinâmica destas em grupo, com a cineasta a descrever o quinteto como uma espécie de hidra: "The uncle is a sort of Minotaur in his maze, the girls are like a hydra, a body with five heads of very different dispositions that allowed me to explore the five possible fates of one woman on different levels". Erol surge como uma figura violenta, completamente machista e extremista na exposição das suas opiniões, algo visível ao não ter problemas em tentar agredir as jovens quando sabe do episódio que ocorreu na praia. Estes habitam numa pequena vila situada a mais de mil quilómetros de Istambul, com este território a parecer contribuir ainda mais para o estilo conservador dos seus habitantes ao mesmo tempo que transmite uma sensação claustrofóbica para o espectador. Como será possível fugir deste meio tão fechado? Esta é uma questão que parece surgir na mente de algumas personagens femininas, com o destino das cinco irmãs a ser relativamente distinto. Estas jovens parecem praticamente impossibilitadas de fugir deste meio, embora a certa altura algumas decidam desafiar o destino, seja numa escolha distinta para um casamento, num suicídio ou numa fuga imprevista.

Após o episódio na praia, algumas das irmãs são obrigadas a efectuar testes de virgindade, embora todas sejam trancadas no interior da casa e proibidas de sair da habitação. O trabalho a nível da decoração do cenário da casa, a arquitectura deste espaço e o seu aproveitamento contribuem para que "Mustang" mantenha um tom entre o realismo e a fantasia, algo pretendido pela realizadora, como a própria salienta ao site Filmmaker Magazine: The architecture had something of Psycho and German Expressionism, something eerie and not-naturalistic. I was trying to move away from a potentially gloomy reality". A casa é pontuada pelas tonalidades azuis, sobretudo nos portões e gradeamentos que a certa altura começam a fazer parte da decoração, com esta cor a surgir associada à monotonia que vai afectar o quotidiano da maioria destas figuras femininas. Os computadores são escondidos, bem como todos os aparelhos que possibilitem a "corrupção" da alma destas jovens ou que estas contactem com rapazes, com os gradeamentos a contribuírem para transmitir a ideia de que a casa se transformou numa espécie de prisão. O trabalho de David Chizallet e Ersin Gok na cinematografia contribui para exibir e exacerbar a claustrofobia que envolve o quotidiano das protagonistas, com a câmara de filmar a procurar captar as sensações e emoções destas jovens no interior deste espaço habitacional. Veja-se os momentos em que Sonay, Selma, Ece, Nur e Lale se encontram a brincar no quarto, com a luz solar a penetrar bem forte no interior deste espaço, enquanto as irmãs procuram divertir-se e a câmara é situada bem próxima das jovens, algo que permite que estas ocupem boa parte destes planos que simbolizam a clausura do quinteto. O facto de estarem trancadas, enquanto se encontram a ser educadas para serem esposas, não impede que estas jovens tenham alguns momentos de rebeldia, desafiem o status quo e exibam os laços que as unem, com Deniz Gamze Ergüven a explorar as dinâmicas entre as cinco protagonistas ao mesmo tempo que permite que as actrizes sobressaiam. Diga-se que esta abordagem delicada de Ergüven contribui para que o espectador consiga compreender cada vez mais estas personagens e as pequenas nuances que muito dizem sobre as suas personalidades, com todas a apresentarem longos cabelos indomáveis que parecem longe do seu habitat quando alguém procura que sejam "domesticados". Sonay é a mais velha das cinco irmãs, mantendo um caso secreto com Ekin (Enes Sürüm), aquele que será o seu esposo, com esta a conseguir vincar a sua vontade junto dos familiares. Selma acaba por ser praticamente obrigada a casar com um indivíduo que não conhece, com o rosto que apresenta na festa de casamento a indicar um estado espírito semelhante a alguém que se encontra num velório. Ece vai surpreender-nos com um acto extremo, enquanto Nur é alvo de abusos e prepara-se para aderir às ideias da irmã mais nova. Lale é a figura mais complexa da narrativa, com Güneş Nezihe Şensoy a sobressair como esta jovem que se encontra a lidar com as alterações no seu corpo, a descoberta da sexualidade e as mudanças bruscas que ocorrem na sua vida.

No início do filme, Lale encontra-se na praia em momentos de alguma diversão com as irmãs. Com o avançar do enredo, Lale percebe que a vida do quinteto nunca mais vai ser a mesma, enquanto "Mustang" explora temáticas como a transição para a idade adulta, a pouca influência da mulher na sociedade turca, o conservadorismo na Turquia, a formação da personalidade por parte de um grupo de jovens, o choque de gerações, a descoberta da sexualidade, entre outras, com a banda sonora a contribuir para que a narrativa a espaços ganhe um tom que fica entra a melancolia e a fantasia. "Mustang" está longe de ser uma obra panfletária ou um filme-denúncia, embora consiga despertar a atenção do espectador para a realidade destas figuras ficcionais que a espaços se tornam bem reais, com o meio que as rodeia a ser inspirado na realidade turca contemporânea. Essa capacidade de Deniz Gamze Ergüven em conseguir criar personagens credíveis e complexas, que protagonizam situações que soam reais ao olhar do espectador, aos poucos conduz a que sejamos envolvidos para o interior deste universo narrativo onde um momento de humor pode ser rapidamente contrastado por um episódio emocionalmente violento. Veja-se quando as jovens fogem de casa para assistirem a um jogo entre Trabzonspor e o Galatasaray que apenas pode contar com mulheres no público, devido a uma sanção da Liga, com "Mustang" a inserir um episódio real no interior desta narrativa ficcional. A fuga é marcada por episódios paradigmáticos da rebeldia destas jovens que procuram desafiar um pouco o sistema, ainda que à sua maneira, com Lale (uma adepta do "desporto-rei") e companhia a contarem com a ajuda inesperada de Yasin (Burak Yiğit), um camionista que vai ter um papel fulcral no enredo. Quando descobrem que as jovens fugiram, as familiares do quinteto procuram a todo o custo que os elementos masculinos não assistam à transmissão televisiva do jogo, em momentos hilariantes que contrastam com a crueza de situações como a casa ser "decorada" com mais gradeamento e material que enclausure as protagonistas. Outro dos momentos marcantes acontece quando a avó das jovens resolve colocá-las na rua, vestidas e penteadas de acordo com a tradição, tendo em vista a "mostrá-las" para conseguir "atrair" maridos para as mesmas, com estas a serem tratadas quase como um "produto" que é exposto numa montra. "Mustang" não explora estas questões de forma maniqueísta, procurando antes uma abordagem subtil e delicada, embora a denúncia esteja implícita, enquanto estas jovens começam a ver o seu quotidiano a ser completamente alterado devido a valores tradicionais que coartam o livre-arbítrio, impossibilitam que continuem os estudos (veja-se que uma colega destas continua a frequentar a escola, algo que indica que nem todas as jovens são sujeitas a este tratamento na Turquia) e praticamente obrigam a que tenham de obedecer aos elementos masculinos. Se Nihal Koldaş interpreta eficazmente uma personagem conservadora, que apenas parece querer o bem das suas netas, embora os seus valores colidam com os desejos das jovens, já Ayberk Pekcan tem um desempenho que sobressai pela capacidade do actor em atribuir uma faceta temível a Erol, uma figura violenta que nos consegue surpreender sempre pela negativa.

O tio das protagonistas é o representante máximo desta Turquia conservadora e machista que "Mustang" pretende questionar, enquanto Deniz Gamze Ergüven cria uma obra cinematográfica que nos faz sentir uma miríade de emoções. Desde os sorrisos despertados devido às brincadeiras e peripécias destas jovens, passando pela apreensão em relação ao futuro das mesmas, até desferir-nos alguns murros no estômago com as atitudes de algumas figuras, "Mustang" tem o condão de nos fazer acreditar nas suas personagens. Diga-se que não vão faltar murros desferidos no estômago do espectador. Veja-se quando Selma casa e não sangra no acto sexual. Os momentos têm tanto de caricatos como de paradigmáticos de uma sociedade conservadora, ou a família do esposo não estivesse à porta enquanto espera pelo "troféu", ou seja, o lençol manchado de sangue. Perante o facto de Selma não sangrar, devido a um problema no hímen, o esposo e a família logo transportam a jovem para um centro médico para comprovar se esta é ou não virgem, algo que é inspirado em casos reais, uma situação que a cineasta comentou em entrevista ao Film Comment: "For instance, the scene in which Selma is taken to the hospital on her nuptial night, is real. Someone who works in a public hospital in Ankara told it to me. It was a situation that he encountered often during wedding seasons, in the spring and summertime, like police stops. Suspicious families would come and check their bride’s virginity". O fado destas jovens é bastante distinto, algo latente no casamento de Sonay, com esta a conseguir casar com o namorado, ao contrário de Selma que é obrigada a contrair matrimónio com alguém que não conhece, com Deniz Gamze Ergüven a procurar explorar as diferentes matizes destas personagens e os destinos distintos do quinteto, com a realizadora a colocar as mulheres no centro da narrativa, contrariando e bem o meio patriarcal no qual se inspirou. Diga-se que Sonay encara o casamento com alegria (algo que reforça o facto de "Mustang" não procurar uma abordagem maniqueísta), enquanto Nur e Lale não parecem partilhar esse entusiasmo, com "Mustang" a espaços a trazer-nos ecos de "Orgulho e Preconceito". Não temos uma Elizabeth Bennet ou um Mr. Darcy mas encontramos uma sociedade pontuada por valores tradicionais, com o casamento a parecer algo de imensamente relevante para diversos elementos, sobretudo para a avó das protagonistas. “Mustang” traz-nos ainda ecos de “The Virgin Suicides”, com quem tem sido comparado de forma amiúde: temos cinco irmãs educadas por uma família conservadora; as protagonistas são “trancadas” a certa altura da narrativa devido a uma delas ter cometido um acto considerado pouco correcto; existe toda uma atmosfera opressora em volta da casa e uma abordagem da sexualidade feminina, mas o contexto distinto das obras cinematográficas praticamente exige que exista alguma parcimónia nas comparações. Estas jovens apresentam personalidades muito próprias, procurando afirmar-se no interior de uma sociedade patriarcal, enquanto "Mustang" explora questões relevantes com a complexidade necessária, exibindo um meio pontuado por diversas contradições. Veja-se a intimidade entre Sonay e o namorado, com ambos a praticarem sexo antes do casamento, ainda que anal para esta manter a "virgindade", com o casal a revelar uma maior abertura do que diversos adultos que os rodeiam. "Mustang" surge como uma estreia bastante feliz de Deniz Gamze Ergüven na realização de longas-metragens, com a cineasta a brindar o espectador com uma narrativa capaz de colocar questões pertinentes e abordar assuntos relevantes, sempre num tom entre o realismo e a fantasia, enquanto o elenco tem espaço para sobressair e deixar a sua marca. 

Título original: "Mustang".
Título no Brasil: "Cinco Graças".
Realizadora: Deniz Gamze Ergüven.
Argumento: Deniz Gamze Ergüven e Alice Winocour.
Elenco: Güneş Nezihe Şensoy, Doğa Zeynep Doğuşlu, Tuğba Sunguroğlu, Elit İşcan, İlayda Akdoğan, Ayberk Pekcan, Nihal Koldaş.

08 janeiro 2016

Resenha Crítica: "After Hours" (1985)

 Comédia negra completamente alucinante, frenética, rocambolesca e imprevisível, "After Hours" apresenta-nos a uma noite que Paul Hackett (Griffin Dunne) não irá esquecer tão depressa. Depois de mais um dia de trabalho, este indivíduo que labora num escritório decide ir a um café onde é interpelado por Marcy Franklin (Rosanna Arquette) devido ao facto de se encontrar a ler "Trópico de Câncer", um livro de Henry Miller, um autor que esta aprecia. Marcy vive com Kiki Bridges (Linda Fiorentino), uma escultora que vende obras de arte, tais como uns pisa-papéis em forma de bagels. A personagem interpretada por Rosanna Arquette é uma mulher algo nervosa e neurótica, que esconde uma série de segredos e surge como uma das várias figuras meio bizarras e complexas que marcam a noite de Paul. Veja-se desde logo o empregado que trabalha no café, um indivíduo que efectua poses como se estivesse a dançar, incluindo quando lhe pedem uma caneta emprestada. O espaço do café é paradigmático do cuidado apresentado no aproveitamento da paleta cromática, bem como na decoração dos cenários. Recheado de cores vermelhas e quentes, o local é indicador dos acontecimentos fervilhantes que vão marcar a noite de Paul, algo que ainda se torna mais latente quando este aponta o número do estúdio de Kiki, localizado no SoHo, em Nova Iorque, no livro escrito por Henry Miller. Pouco tempo depois de chegar a casa, Paul decide telefonar para o estúdio, tendo em vista a combinar um encontro com Marcy, algo que esta aceita. Voltamos mais uma vez a salientar a importância da cor em "After Hours", quer na decoração dos cenários, quer no guarda-roupa dos personagens, com a casa de Paul a ser marcada por tonalidades brancas e acastanhadas, bem como as vestes do protagonista, algo que permite realçar personalidade discreta deste indivíduo. Esta saída nocturna de Paul é marcada pela loucura, com a narrativa a exibir uma faceta delirante. O taxista conduz a uma velocidade estonteante e vertiginosa, indo ao ponto de Paul não conseguir segurar uma nota de vinte dólares, algo que o impede de pagar a conta. Kiki surge de soutien e saia curta, acabando por pedir ajuda ao protagonista para concluir uma obra de arte na qual se encontra a trabalhar, enquanto esperam pela chegada de Marcy devido a esta ter ido à farmácia. A personagem interpretada por Linda Fiorentino é uma artista que apresenta um enorme à vontade para andar com pouca roupa, fã de sadomasoquismo, que se encontra a elaborar uma escultura semelhante a "O Grito" de Edvard Munch, embora quem se prepare para entrar em desespero seja Paul. É então que Marcy regressa. A conversa de que esta foi violada e a possibilidade de Marcy contar com várias cicatrizes devido a queimaduras, associadas à personalidade estranha desta mulher e a alguns segredos sobre o seu passado, conduzem a que Paul decida fugir à pressa. Acaba por tentar apanhar o metro, embora não consiga concluir esse desiderato devido ao facto do bilhete deste meio de transporte ser mais caro à noite, uma situação que o leva a entrar num bar enquanto se abriga da chuva. No bar este conhece Julie (Teri Garr), uma empregada que se encontra farta do seu emprego, algo que faz questão de salientar num guardanapo deixado a Paul. Este entretanto mete conversa com Tom (John Heard), o dono do estabelecimento, um indivíduo que acede a emprestar a verba para o protagonista regressar a casa. No entanto, a caixa registadora não abre algo que conduz Tom a confiar em Paul para ir a sua casa buscar a chave que permite destrancar a primeira, mesmo sabendo que um grupo de assaltantes anda a atemorizar o território.

Escusado será dizer que a odisseia de Paul não irá ficar por aqui. Paul aventura-se por clubes nocturnos, é perseguido por vigilantes que pensam que o personagem interpretado por Griffin Dunne é um assaltante, contacta temporariamente com mulheres que facilmente se tornam hostis, tem de lidar com um suicídio inesperado e estranhas reviravoltas, ao mesmo tempo que Martin Scorsese se parece divertir imenso ao deixar-nos perante esta história alucinante, marcada por vários episódios rocambolescos e um sentido de humor negro aguçado. Curiosamente, "After Hours" encontrou-se inicialmente ligado a Tim Burton, mas Martin Scorsese decidiu assumir o projecto devido a na época ainda não ter conseguido o financiamento total de "The Last Temptation of Christ", um filme que apenas realizaria após "The Color of Money". Diga-se que Martin Scorsese realizou "After Hours" após "The King of Comedy", uma obra onde o humor negro também se encontrava presente, tendo surgido como uma sátira à procura de obter fama a todo o custo. Em "After Hours" assistimos a uma obra ainda mais leve, mas nem por isso menos intensa e por vezes violenta, com o protagonista a procurar inicialmente conhecer uma bela mulher e a acabar por desejar regressar a casa a todo o custo. A noite de Paul é frenética. Ele corre, vê o seu cabelo a ser parcialmente cortado, é acusado de cometer assaltos e perseguido, conhece diversas mulheres, enquanto protagoniza uma série de episódios rocambolescos que tornam "After Hours" numa das propostas mais peculiares e marcantes de Martin Scorsese, com o cineasta a exibir toda a sua versatilidade. Não existem grandes momentos para pensar ou reflectir, com tudo a ser desenvolvido a um ritmo frenético, enquanto Griffin Dunne explora a forma meio caricata como o personagem que interpreta se acaba por envolver e ver envolvido em situações algo surreais. Os próprios diálogos por vezes são meio caricatos. Veja-se quando Marcy revela que o seu marido, de quem se encontra separada, tinha um fetiche relacionado com "O Feiticeiro de Oz", ou a forma como Julie varia de humor com enorme facilidade, já para não falar de Gail (Catherine O'Hara), uma vendedora de gelados que conduz uma carrinha e facilmente muda a faceta de mulher amigável para "caçadora" pronta a acusar Paul de ser um assaltante. Os verdadeiros assaltantes são Pepe (Tommy Chong) e Neil (Cheech Marin), dois indivíduos que conseguem efectuar os furtos praticamente nas calmas já que Paul é que se encontra a ser perseguido pelos populares. Este depara-se ainda com uma série de reviravoltas e revelações que o surpreendem e nos surpreendem, com o argumento de Joseph Minion, a realização de Martin Scorsese e o trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker a contribuírem para a intensidade destes momentos frenéticos, recheados de humor e alguma acção. A cinematografia contribui para todo este dinamismo que pontua a narrativa, mas também para dar alguma beleza à obra, enquanto que o elenco consegue sobressair como estes elementos peculiares. Veja-se a forma como a personagem interpretada por Rosanna Arquette tanto parece doce e frágil, como logo de seguida surge algo neurótica, já para não falar de Teri Garr como uma empregada de mesa e de uma loja de fotocópias que apresenta baixa autoestima e um estranho vício de utilizar os vinis que tem à disposição para acompanhar o ritmo dos diálogos que protagoniza. A casa de Julie é marcada por diversas ratoeiras para se livrar dos ratos, embora mais facilmente afaste o protagonista do que os roedores, enquanto Paul procura um meio de chegar à sua habitação. O território do SoHo testemunha os episódios vividos por Paul, um indivíduo solitário que procura regressar a casa, embora esta missão se revele assaz complicada, com este a ver a sua integridade física e mental a ser constantemente colocada em causa.

 Paul tarda em conseguir chegar à sua casa. Tenta várias vezes, junto de diferentes pessoas, mas quanto mais contacta com outros seres humanos mais se envolve em problemas. Griffin Dunne interpreta Paul com uma enorme eficácia e subtileza, conseguindo transmitir para o espectador que o protagonista é um indivíduo relativamente comum que se envolve em situações delirantes que ocorrem numa noite de muito azar e estranhas coincidências. A banda sonora é paradigmaticamente utilizada por Martin Scorsese, com esta a servir muitas das vezes para intensificar o pânico do protagonista, não faltando pelo meio temas musicais como "Sevillanas" dos Manitas de Plata a adensar o inquietante momento do táxi, ou "Chelsea Morning" e "I Don't Know Where I Stand" de Joni Mitchell, entre muitas outras. "Chelsea Morning" é utilizada por Julie numa conversa em sua casa, após o protagonista ser praticamente obrigado a ter de se deslocar ao local. Esta expõe as suas frustrações, enquanto Paul ouve imenso, desloca-se para os mais variados locais, mas tarda em conseguir efectuar aquilo que mais pretende: regressar a casa. Tudo começa com uma mera conversa de café sobre Henry Miller, até Martin Scorsese nos deixar perante um efeito bola de neve em que as confusões pelas quais Paul se envolve ganham proporções gigantescas. Pelo meio ficamos perante a paranoia colectiva, espaços nocturnos recheados de bizarria, vigilantes prontos a fazerem justiça a qualquer custo, uma escultora com gosto pelo sadomasoquismo, uma loira típica das obras de Scorsese em quem o protagonista nem sempre pode confiar, um suicídio surpreendente, obras de arte feitas literalmente à base do Homem, entre muitos outros episódios. A relação entre Peter e Marcy nunca chega a evoluir como este inicialmente pensava. Ele tem algumas culpas no cartório, enquanto ela assusta-o. Não será certamente a única figura a atormentá-lo ao longo desta noite que Paul terá imensas dificuldades em esquecer. Diga-se que nós também temos dificuldade em tirar da cabeça tudo o que vemos em "After Hours", com Martin Scorsese a realizar uma obra cujo argumento não tem problemas em explorar as situações caricatas em volta do protagonista. Estas por vezes quase terminam em violência, enquanto Martin Scorsese explora este espaço de Nova Iorque e as gentes peculiares que povoam o território "fora de horas". Nem sempre tudo é coerente ao longo de "After Hours", nem precisa, com a anarquia a dominar a noite de Paul e por vezes a narrativa, algo notório quando assistimos a um escalar de ameaças que colocam em causa a integridade física do protagonista. Por vezes tenso, por vezes recheado de humor, por vezes pontuado por algum dramatismo e violência, "After Hours" surge como um filme delirante, frenético e alucinante, com Martin Scorsese a exibir mais uma vez que é um cineasta magnífico. 

Título original: "After Hours".
Título em Portugal: "Nova Iorque Fora de Horas".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Joseph Minion e Martin Scorsese.
Elenco: Rosanna Arquette, Verna Bloom, Thomas Chong, Griffin Dunn, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Richard Cheech Marin.

06 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Shutter Island" (2010)

 A influência de alguns filmes de terror produzidos por Val Lewton parece ser notória em "Shutter Island". Veja-se quando encontramos Edward "Teddy" Daniels e o seu novo parceiro, Chuck Aule (Mark Ruffalo), a chegarem ao local do título, tendo em vista a investigarem o desaparecimento de uma perigosa paciente do Ashecliffe Hospital. É impossível não recordar "Isle of the Dead", onde o General Pherides (Karloff) e o jornalista Oliver Davis (Marc Cramer) deslocaram-se ao local do título, também de barco, deparando-se com um conjunto de situações bizarras e mortes. O terror psicológico e o medo estão presentes em "Shutter Island" e "Isle of the Dead", com ambos os filmes mencionados a não se ancorarem nos sustos gratuitos e gore. Também vários trabalhos de Alfred Hitchcock parecem ter servido como fonte de inspiração, algo demonstrado pela obsessão do protagonista, o receio que o cineasta procura despertar no espectador e o mistério que envolve a narrativa, mas também pelas referências que Martin Scorsese efectuou em relação aos filmes do primeiro ao salientar: "(...) I showed my colleagues his “The Wrong Man”, which is slightly different. The main character in that is innocent but he feels guilt for who he is. In his core, he is guilty. This interests me. I was raised Catholic and I’m interested in that aspect of ourselves. It has to do with guilt or a concept of original sin, if it exists. All these aspects always come to mind. It’s who I am and what I do. I try to be hipper but I can’t". Diga-se que Martin Scorsese não teve problemas em expor as várias referências que o inspiraram e se tornam notórias ao longo de "Shutter Island", algo que realçou com pormenor em entrevista ao IndieLondon: "(...) the first film I showed Leo, Mark Ruffalo and Sir Ben was Laura, Otto Preminger’s film, to get a sense of the war-ravaged hero… world-weary so to speak, the body language of Dana Andrews, the man who falls in love with a ghost. Then we screened Out Of The Past, Jacques Tourneur – the trap, the puzzle, the mystery, the beauty and the poetry of that film. Then there was Cat People and I Walked With a Zombie too. But primarily Out of the Past – for noir. Let There Be Light, the John Huston film. The Steel Helmet… we showed for the nature of the soldier. There were many others for points of reference". As referências são mais do que muitas e de géneros distintos, mas "Shutter Island" destaca-se acima de tudo por surgir como um puzzle que gradualmente se resolve diante de nós e consegue apanhar-nos relativamente desprevenidos. "Shutter Island" procura inquietar-nos com a sua atmosfera gradualmente opressora e por toda a estranheza que rodeia o Ashecliffe Hospital, um espaço destinado a albergar criminosos que padecem de doenças mentais.

A instituição é marcada por enorme segurança, funcionários pouco prestáveis e doentes perturbadores e perturbados, encontrando-se localizada numa ilha onde o Sol é regularmente engolido pelas sombras e nevoeiro, enquanto somos colocados diante de dois inspectores do U.S. Marshals, que parecem uma dupla de detectives saída de um filme noir. De gabardina e fumadores, estes não têm problemas em envolver-se em problemas, sobretudo Teddy, um personagem implacável no cumprimento dos seus objectivos, que Martin Scorsese procurou que se parecesse com o protagonista de "Laura", interpretado por Dana Andrews. Existe uma certa atmosfera de malaise, também presente nos filmes noir, em "Shutter Island" ou não estivéssemos perante um enredo que se desenrola em 1954, com as memórias da participação na II Guerra Mundial e dos campos de concentração a estarem relativamente presentes na mente do protagonista. Este é um homem atormentado que reprime as memórias do passado, surgindo como um dos vários protagonistas das obras de Martin Scorsese que, em determinado momento, lidam com o sentimento de culpa (veja-se o protagonista de "Mean Streets" em relação a Johnny Boy, ou o personagem interpretado por Ray Liotta em "Goodfellas" por quebrar os códigos da máfia). Teddy encontra-se no interior de um território claustrofóbico, algo misterioso e mais inseguro do que poderia inicialmente parecer, tendo em vista a encontrar Rachel Solando (Emily Mortimer), uma paciente que supostamente se encontra desaparecida, tendo sido acusada de assassinar os seus três filhos e de ter criado toda uma realidade na sua mente onde estes ainda se encontram vivos. Também Teddy perdeu a esposa (Michelle Williams), ainda que num incêndio provocado por Andrew Laeddis (Elias Koteas), um elemento que supostamente se encontra internado em Ashecliffe, algo que conduz o protagonista a ter uma agenda escondida que passa por encontrar o criminoso no meio deste espaço que conta com três alas e um misterioso farol. A busca por Rachel não se afigura fácil, algo que Teddy e Chuck percebem desde o início quando são obrigados a deixar as suas armas à entrada deste espaço claustrofóbico. John Cawley (Ben Kingsley), o chefe da ala psiquiátrica e do projecto levado a cabo para tratar os doentes, procura ceder o mínimo de informação possível, bem como o Dr. Jeremiah Naehring (Max Von Sydow), outro dos membros que lideram este local, com a investigação a ganhar contornos ainda mais complicados quando Teddy e Chuck descobrem que o Dr. Sheehan, o médico da fugitiva, se encontra de férias. Naehring não desperta a confiança do protagonista, sobretudo devido a ser alemão, apesar de surgir como um elemento aparentemente ponderado que procura questionar os dois detectives sobre os seus hábitos e comportamentos. Já Cawley mantém sempre um certo mistério em volta da sua pessoa, parecendo a espaços ter pouco interesse na presença dos dois detectives. Estes ainda tentam interrogar as enfermeiras e enfermeiros que laboram no local, embora as informações que obtêm sobre o desaparecimento não sejam conclusivas. Uma tempestade provoca o corte temporário das linhas telefónicas, com as dúvidas de Teddy e Chuck a aumentarem cada vez mais, embora decidam prosseguir com a investigação, enquanto a paranoia parece tomar conta da mente e do corpo do personagem interpretado por Leonardo DiCaprio.

Chuck surge como uma figura mais calma em relação ao protagonista, com Mark Ruffalo a procurar não deixar transparecer a verdadeira identidade do personagem que interpreta, enquanto ajuda Teddy numa missão que a espaços ganha contornos de pesadelo. Envolvem-se pelos espaços exteriores, recheados de arvoredos e montanhas elevadas, em plena tempestade; procuram interrogar alguns detidos, mas as informações que conseguem obter parecem inconclusivas. O que parece ainda mais bizarro são as estranhas alucinações que Teddy tem da falecida esposa, com a personagem interpretada por Michelle Williams a surgir como uma figura que procura comunicar com o esposo e aparece quase como a sua consciência, embora facilmente desapareça pelas brumas da memória. Existe um momento meio idílico, meio assustador e bizarro, onde a esposa de Teddy surge deslumbrante, com o seu cabelo loiro a parecer ter sido penteado para uma ocasião especial, enquanto as chamas consomem gradualmente o cenário e o corpo da personagem interpretada por Michelle Williams, ao mesmo tempo que esta dialoga com Teddy. Ficamos entre o delírio e a realidade, entre a loucura e os traumas do passado, com este momento a demonstrar paradigmaticamente todo o cuidado colocado na utilização da iluminação e da cor ao longo do filme, bem como o estado convulso em que se encontra o interior da mente de Teddy. Será que este apenas nutre saudades em relação à esposa? Uma das vertentes que mais sobressai em "Shutter Island" é a sua capacidade em nos surpreender, em revelar-se um quebra-cabeças que nos instiga a querer descobrir passo a passo o enredo, mesmo que isso implique revelações nefastas para o protagonista. Leonardo DiCaprio consegue compor um personagem complexo, com Teddy a surgir como o elemento que mais sobressai ao longo do filme. É um detective paranoico, que parece competente na sua função e bastante obstinado, encontrando-se sempre pronto a desvendar informações hediondas sobre o hospital. Teddy é um indivíduo marcado pelos traumas da guerra e da perda da esposa, que se encontra pouco preparado para lidar com as verdades sobre o seu passado e a forma como é atraiçoado ou se deixa enganar pela memória. É também uma viagem à mente e aos delírios deste personagem que Martin Scorsese nos apresenta, com muitas surpresas e reviravoltas pelo meio que, infelizmente, não poderão ser totalmente expostas neste texto para não estragar o prazer da visualização daqueles que ainda não viram o filme. Teddy procura encontrar Rachel e Andrew Laeddis, mas as maiores descobertas são aquelas que vai fazer sobre si próprio. Rachel apenas deixou um texto escrito com os dizeres "The law of 4; who is 67?", algo que intriga o protagonista, embora tudo se torne mais estranho quando esta mulher ressurge misteriosamente. A personagem interpretada por Emily Mortimer ainda é questionada por Teddy, com a actriz a ter uns breves momentos para sobressair, sobretudo quando Rachel pensa temporariamente que este é o seu esposo e apresenta comportamentos claramente perturbados.

Apesar da descoberta da suposta Rachel, algo continua a não jogar bem. Teddy sabe disso e nós também. O que fazer? Ficar quieto ou investigar mais a fundo? Já foi escrito sobre as influências noir do filme, não foi? Escusado será dizer que o personagem interpretado por Leonardo DiCaprio procura descobrir incessantemente a verdade sobre Ashecliffe, mesmo que isso implique envolver-se em problemas e confusões, enquanto uma femme fatale atormenta o seu pensamento. É então que o protagonista decide quebrar as regras e visitar a Ala C, um espaço marcado por pouca iluminação e doentes potencialmente mais perigosos do que aqueles que se encontram internados nas outras alas, reencontrando George Noyce (Jackie Earle Haley), um elemento que outrora supostamente falara consigo sobre esta divisória da instituição, com o personagem interpretado por Jackie Earle Haley a salientar que no farol do hospital, um local do qual Teddy e Chuck foram praticamente afastados, são feitas experiências moralmente questionáveis com os doentes. Jackie Earle Haley interpreta uma figura algo desfigurada que culpa o protagonista pela sua segunda detenção ao mesmo tempo que o instiga a fugir, com o actor a ser um dos vários elementos secundários que tem espaço para sobressair. Teddy sai deste espaço, deparando-se com uma estranha mulher num local semelhante a uma gruta, com esta a deixar o protagonista diante de mais revelações sobre o hospital. Esta mulher apresenta-se como a verdadeira Rachel Solando (Patricia Clarkson), algo que ainda nos traz mais duvidas e ao protagonista, com "Shutter Island" a procurar jogar com os nossos sentidos e a nossa capacidade de percepção dos acontecimentos. Aos poucos parece que estamos perante uma conspiração contra o protagonista, mas Martin Scorsese logo nos surpreende e a Teddy com algumas revelações que prometem transfigurar a vida deste elemento, com John Cawley a ter um papel fulcral no último terço. Ben Kingsley consegue manter o mistério necessário em volta do personagem que interpreta. Será que este indivíduo se encontra a esconder algo sobre a fuga de Rachel? O que pretende de Teddy? Qual o seu papel no hospital? Kingsley consegue que o mistério apenas seja desfeito perto do final, tal como Mark Ruffalo, com este último a surgir como um elemento secundário de luxo, enquanto Martin Scorsese gere de forma exímia os ritmos da narrativa e das revelações. Temos ainda a marcante presença de Michelle Williams, com a actriz a interpretar uma personagem que é fundamental para diversos acontecimentos que ocorrem no filme, com a falecida mulher de Teddy a surgir como uma recordação bem mais dolorosa do que poderíamos imaginar. O fogo pode ter queimado esta mulher e os seus filhos nas memórias de Teddy, mas é nas profundezas da sua alma e do seu cérebro que este irá encontrar alguns episódios macabros sobre esta mulher e a sua pessoa. O argumento de Laeta Kalogridis, adaptado do livro homónimo de Denis Lehane, consegue mesclar os diversos géneros cinematográficos e povoar a narrativa de figuras que despertam a nossa atenção, enquanto o design de produção e a cinematografia transformam Ashecliffe num local que facilmente nos sufoca e ao protagonista, com Martin Scorsese a efectuar um aproveitamento exímio dos cenários interiores e exteriores.

 O espaço que rodeia Teddy parece saído dos filmes de terror quer pelos elementos já salientados, quer pela banda sonora, quer pelas gentes encontradas, quer pela tempestade, quer pelo turbilhão de sentimentos que se assomam do protagonista. O facto do Ashecliffe encontrar-se povoado de criminosos que padecem de doenças mentais é motivo de sobra para nos deixar de pé atrás em relação à investigação iniciada pelo protagonista mas, com o avançar da narrativa, percebemos que estamos perante um thriller psicológico bem mais complexo. De descoberta em descoberta, "Shutter Island" arrasta-nos para a prisão onde se encontra o protagonista, para a sua alma e o seu âmago, enquanto Martin Scorsese "obriga" Leonardo DiCaprio a exibir mais uma vez a sua versatilidade, numa obra que varia entre o filme noir, thriller psicológico e terror. No entanto, o maior terror é a chegada da verdade, quando o sentimento de culpa parece toldar o passado e procura afastar o presente. É a verdade que nos surpreende e ao protagonista, com Martin Scorsese a conseguir jogar com os elementos de diferentes géneros e a utilizar a sua cinefilia ao serviço do seu trabalho como realizador. Não faltam influências das obras cinematográficas de terror produzidas por Val Lewton onde a atmosfera valia por vezes muito mais do que os sustos avulsos (veja-se a ligação que podemos efectuar entre o espaço que envolve a instituição e o território onde se desenrola o enredo de "I Walked With a Zombie", um local onde a protagonista se depara com episódios aparentemente impensáveis), dos filmes noir (o protagonista que se envolve numa investigação intrincada, a narrativa labiríntica, os personagens fumadores, a atmosfera de malaise, entre outros exemplos), mas também elementos de época, ou o enredo não se desenrolasse em pleno ano de 1954. Temos ainda a recordação do final da II Guerra Mundial, da libertação de Dachau e da bomba atómica, embora em "Shutter Island" as memórias por vezes tragam alguma distorção e nem sempre seja possível confiar em tudo aquilo que nos é contado. Quanto mais confiamos mais somos surpreendidos por Martin Scorsese que, aos poucos, nos deixa sem saber o que pensar sobre tudo aquilo que envolve o protagonista até largar-nos a "bomba" nas mãos. Já é tarde para o espectador e para o protagonista. Já não vamos a tempo de evitar a surpresa. Algumas verdades que tínhamos como absolutas tornam-se meras divagações, outras eram variações da realidade, enquanto o papel da memória e a repressão da mesma surgem como temáticas exploradas ao longo de um enredo com mais densidade do poderíamos inicialmente pensar (por vezes a fazer recordar "Shock Corridor" de Samuel Fuller, onde um jornalista procura descobrir informações sobre um elemento que foi assassinado numa clínica psiquiátrica). Revelados os segredos, quando voltamos a pegar no filme logo procuramos encontrar outros pormenores que nos pareciam inicialmente pueris. Veja-se por exemplo o personagem interpretado por Ben Kingsley a fumar cachimbo enquanto dialoga com Teddy, algo que remete para trechos de "Out of the Past" onde o fumo dos cigarros parecia surgir para marcar uma posição, uma situação que acontece na cena mencionada, com Martin Scorsese a revelar-se exímio na criação de toda uma estranha atmosfera que envolve as figuras que povoam o enredo de "Shutter Island". Temos ainda a colocação dos quadros no gabinete onde John Cawley se encontra instalado, com as obras de arte a apresentarem figuras disformes e práticas pouco recomendáveis, com a disposição dos mesmos a incrementar a estranheza deste local, enquanto exibe mais uma vez todo o cuidado colocado no design dos cenários interiores. A atmosfera que rodeia o filme é relativamente estilizada, com Martin Scorsese a realizar uma obra que nos oprime, agarra e tarda em sair da memória, enquanto nos faz ser parte activa de uma investigação que decorre num conjunto de espaços que são aproveitados ao pormenor. Entre o sonho apolíneo e o pesadelo, memórias distorcidas e uma realidade dolorosa, "Shutter Island" revela-se um thriller inteligente, intenso e inquietante, com Martin Scorsese a conseguir surpreender e intrigar o espectador.

Título original: "Shutter Island".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Laeta Kalogridis.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Patricia Clarkson, Max von Sydow.

05 janeiro 2016

Top 10 de 2015 - As críticas mais lidas

O Rick's Cinema contou com 295 críticas publicadas em 2015. As críticas mais visualizadas (e como sempre pouco comentadas - algo revelador da pouca qualidade das mesmas) foram as seguintes:  

1º - Cinderella (2226).














2º - Ex Machina (2213).














3º - Furious 7 (1577).














4º - Fifty Shades of Grey (1414).
5º - Z for Zachariah (1236).
6º - Laggies (1180).
7º - The Imitation Game (1157).
8º - Jurassic World (1052).
9º - Black Sea (1010).
10º - Still Alice (892).

04 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Creed" (2015)

 Um dos elogios que tenho de efectuar a "Creed" centra-se no facto de conseguir reproduzir o efeito que alguns filmes da saga de Rocky Balboa provocaram na minha pessoa: emocionar. Diga-se que é praticamente impossível encarar "Creed" apenas como uma obra cinematográfica isolada, ou muita da densidade emocional não aprouvesse daquilo que conhecemos dos filmes anteriores, embora o argumento procure, em alguns diálogos, deixar breves comentários que apresentam o universo narrativo de Rocky ao espectador que entra pela primeira vez na "Rockylândia". Veja-se quando somos colocados diante de Rocky Balboa (Sylvester Stallone) a deixar uma garrafa de whisky no túmulo de Paulie, o seu cunhado e melhor amigo, bem como a ler as notícias do dia junto da campa da esposa. Percebemos que Rocky visita este espaço regularmente, procurando algum conforto junto daqueles que marcaram a sua vida e desaparecerem deste Mundo, embora permaneçam nas suas memórias, com diversos episódios desta figura ficcional a terem sido partilhados com o espectador ao longo dos filmes da saga. Sylvester Stallone, auxiliado pelo argumento de Ryan Coogler e Aaron Covington, concede novas "camadas" a este personagem icónico, um ex-pugilista que conseguiu feitos grandiosos, que apresenta uma humildade e simplicidade desarmantes, com o actor a exibir a ternura com que Rocky encara os bons momentos do passado mas também a dor pelo destino lhe ter retirado a companhia daqueles que mais ama. Diga-se que a saga sempre contou com mortes marcantes, incluindo de Apollo Creed (Carl Weathers), em "Rocky IV", no célebre combate contra Ivan Drago (Dolph Lundgren). Apollo foi o adversário de Rocky nos dois primeiros filmes da saga, tendo ajudado o mesmo a recuperar o "Eye of the Tiger" em "Rocky III" ao treinar o protagonista contra Clubber Lang (Mr. T). Rocky e Apollo passaram de rivais a amigos, com a morte deste último a surgir como um dos momentos mais emotivos de "Rocky IV". Em "Creed", o protagonista não é Rocky Balboa mas sim Adonis Johnson, ou melhor Adonis Creed (Michael B. Jordan), o filho de Apollo Creed, com o sétimo filme da saga "Rocky" a surgir como uma mescla de sequela/remake/spin-off que honra o legado desta magnífica franquia. Desde a construção dos personagens e o desenvolvimento dos seus relacionamentos, passando pela banda sonora, as falas emotivas e os treinos, até ao desfecho final, "Creed" respeita a saga e insere a possibilidade desta continuar a caminhar com Adonis como protagonista, com Ryan Coogler, o realizador, a revelar um enorme conhecimento do meio no qual se envolveu. Na espécie de prólogo, "Creed" apresenta Adonis, durante a sua juventude, num centro para jovens delinquentes, com o protagonista a ser adoptado por Mary Anne Creed (Phylicia Rashad), a viúva de Apollo Creed, com esta a procurar educar o jovem como se fosse seu filho biológico. Adonis é fruto de um affair entre Apollo e outra mulher, com o jovem a ter nascido após a morte do pai, tendo ainda perdido a mãe biológica bastante cedo. A narrativa logo avança no tempo, com Adonis a ser apresentado como um jovem que teve um período marcado por alguma violência na infância, até ser adoptado por Mary Anne, uma mulher que procura que o filho adoptivo não siga a carreira do pai, ainda que não seja bem sucedida neste quesito.

No presente, Adonis é um pugilista amador que venceu uma série de combates no México, procurando esconder o apelido do pai, tendo em vista a não viver na sombra dos feitos do progenitor. Inicialmente, Adonis trabalha numa empresa, em Los Angeles, embora decida apresentar a demissão, tendo em vista a apostar tudo no pugilismo, algo que não é bem visto pela mãe adoptiva. Adonis ainda tenta ser treinado por Tony "Little Duke" Evers (Wood Harris), o filho de Duke, o treinador do seu pai, com "Creed" a não poupar nas referências que remetem para o "legado" daqueles que antecederam o protagonista. No entanto, Tony Evers rejeita treinar o personagem interpretado por Michael B. Jordan, com Adonis a decidir protagonizar dois combates no ginásio pertencente ao filho de Duke, exibindo o seu carácter destemido, "muito à Apollo Creed", embora também demonstre alguma da sua inexperiência. A determinação de Adonis para se tornar num pugilista profissional leva a que o protagonista se mude para um apartamento barato em Filadélfia, onde procura contactar com Rocky Balboa. O primeiro encontro entre ambos é marcado pela surpresa de Rocky em relação à existência de Adonis, pela troca de palavras sobre o passado e a recusa do personagem interpretado por Sylvester Stallone em treinar o protagonista. Este vai treinar para o ginásio que outrora pertencera a Mickey (Burgess Meredith), embora Pete Sporino (Ritchie Coster), o técnico responsável por gerir este espaço, esteja mais preocupado em ensinar Leo Sporino (Gabriel Rosado), o filho, um pugilista promissor que conta com uma série de vitórias relevantes. Aos poucos, Rocky é compelido a treinar o filho de Apollo, com o jovem a exibir uma personalidade muito própria, embora carregue consigo alguma da irreverência e arrogância do progenitor, mas também a sua perícia para o combate e o espírito de luta do primeiro. Seguem-se os treinos, o combate com Leo e a descoberta por parte da imprensa de que Adonis é o filho de Apollo Creed, algo que coloca alguma pressão sobre o jovem. A vitória surpreendente sobre Leo e a descoberta de que é filho de Apollo Creed, conduz a que Adonis receba uma proposta para enfrentar o britânico Ricky Conlan (Tony Bellew), o campeão do Mundo, um tipo violento, que se encontra com a imagem desgastada devido a alguns problemas fora dos ringues. Escusado será dizer que estamos perante um caso semelhante a "Rocky", onde o personagem do título enfrentou Apollo Creed, o campeão em título, numa jogada inicialmente planeada como um golpe publicitário por parte do segundo, embora o protagonista surpreenda tudo e todos. Pelo caminho, Adonis fortalece a sua relação de amizade com Rocky, embora ambos tenham um ou outro arrufo, a fazer recordar este último e Mickey no primeiro filme da saga. Tal como Rocky tinha contas a ajustar com o destino, também Adonis procura provar o seu valor nos ringues de combate e agarrar com unhas e dentes a oportunidade de uma vida, com a dupla a formar uma relação quase familiar. Michael B. Jordan foi uma escolha deveras inspirada para o papel de Adonis Creed, com o actor a convencer como este jovem que se procura afirmar no mundo do pugilismo, tendo de ultrapassar as dúvidas que são colocadas em relação à sua pessoa. Jordan atribui um carácter simultaneamente afável e rebelde a Adonis, com o actor a apresentar uma dinâmica assinalável com Sylvester Stallone e Tessa Thompson. Veja-se quando encontramos Rocky a conduzir os treinos de Adonis, ou os momentos mais dramáticos protagonizados pela dupla, sobretudo quando é revelado que o personagem interpretado por Sylvester Stallone padece de cancro.

Rocky parece pronto a desistir de tudo e partir deste Mundo. Se Apollo ajudou Rocky a recuperar o "Eye of the Tiger" em "Rocky III", já Adonis procura que personagem interpretado por Sylvester Stallone lute contra a doença e recupere o amor pela vida, com a dupla a formar uma relação de amizade genuína, enquanto protagoniza batalhas distintas. Tessa Thompson interpreta a "Adrian" de Adonis, nomeadamente, Bianca, uma cantora que padece de um problema de audição, com esta a procurar desafiar uma doença que rouba gradualmente algo que é essencial para a prática da sua profissão. Esta é uma jovem bonita, sardónica, que facilmente se transforma num baluarte de Adonis e vice-versa, com Bianca a procurar afirmar-se no mundo da música, enquanto o protagonista anseia conquistar o seu "lugar ao Sol" no pugilismo. Os dois conhecem-se quando Adonis vai habitar para um apartamento em Filadélfia, num prédio pouco faustoso, onde se encontra localizada a habitação de Bianca. A dinâmica do casal é convincente, com Ryan Coogler, o realizador, a explorar uma faceta distinta da saga, com Bianca e Adonis a surgirem como duas figuras diferentes de Rocky e Adrian, embora vivam algumas situações e experiências semelhantes. Ryan Coogler exibe uma enorme humanidade e assertividade a explorar as dinâmicas entre Rocky, Adonis e Bianca, conseguindo ainda gerir os ritmos da narrativa de forma exímia, algo que contribui e muito para que o espectador forme uma sensação de empatia em relação ao trio. Todos parecem ser apresentados no momento certo da narrativa, algo notório no timing seleccionado para a entrada de Rocky em cena. Tal como em "Rocky Balboa", o personagem interpretado por Sylvester Stallone gere o restaurante Adrian's, um espaço onde é contactado por Adonis, num episódio que promete agitar a vida do ex-pugilista. A simplicidade de Rocky é contagiante, bem como o seu espírito de luta, a sua capacidade de nos fazer rir ou derramar uma lágrima, de nos fazer crer que é possível enfrentar o destino, com os efeitos da passagem do tempo a serem notórios no personagem e no seu intérprete. Diga-se que muito do efeito de "Creed" seria impossível sem o carisma e enorme talento que Sylvester Stallone demonstra a interpretar Rocky Balboa, um personagem de ficção que conquistou o seu espaço na Sétima Arte e na cultura popular. Num determinado momento, encontramos Rocky a ter dificuldades em escrever de forma correcta ou sem saber o que é armazenar uma imagem numa cloud. Temos ainda o diálogo com a médica sobre a possibilidade de efectuar quimioterapia, bem como com Adonis, com Stallone a convencer que o personagem se encontra inicialmente resignado perante o destino e a perda de todos os seus entes queridos. São pequenos traços que dizem muito da simplicidade e ingenuidade desta figura profundamente humana, com Sylvester Stallone a ser capaz de atribuir uma dimensão extraordinária às falas deste personagem que inspira tudo e todos à sua volta, incluindo Adonis, enquanto "Creed" volta a explorar a típica história do underdog.

O personagem interpretado por Michael B. Jordan surge como uma figura distinta de Rocky. É certo que ambos passaram por dificuldades na juventude, embora Adonis tenha conhecido uma boa educação a partir do momento em que foi adoptado pela viúva de Apollo. No entanto, tal como acontecera ao personagem interpretado por Sylvester Stallone em "Rocky", também Adonis tem muito a provar no mundo do boxe, com ambos a serem inicialmente alvo de desconfiança por parte dos analistas e daqueles que os rodeiam. O enredo contém elementos transversais a diversos filmes da saga e referências directas aos mesmos, algo que concede a "Creed" uma faceta quase de remake. Não falta o pugilista que é desafiado para lutar contra o campeão, embora poucos acreditem que seja capaz de vencer este último; o romance entre um casal que apresenta uma química notória; as cenas de treino em Filadélfia onde o protagonista é seguido por várias pessoas, com a cidade a ser aproveitada praticamente como uma personagem de relevo; o confronto num ambiente hostil a fazer recordar "Rocky IV"; alguém próximo ao personagem principal que adoece num momento fulcral do treino ("Rocky II"), entre outros exemplos. As referências são imensas, algo latente quando Adonis pergunta sobre o resultado final do combate privado entre Rocky e Apollo, após a luta entre o personagem interpretado por Sylvester Stallone e Clubber Lang em "Rocky III", ou os trechos dos combates entre o pai do protagonista e o seu actual treinador, entre outros elementos. As cenas dos treinos, bem como os combates, são filmados com grande inspiração e engenho, embora Ricky Conlan nunca ganhe a dimensão de um Apollo ou gere o receio provocado por Ivan Drago, com "Creed" a descurar o desenvolvimento dos adversários do protagonista. No final, "Creed" surpreende pelo respeito sincero que tem pela saga, contribuindo para adicionar ainda mais dimensão ao icónico Rocky Balboa, ao mesmo tempo que insere novos personagens relevantes a uma franquia que conta com diversas figuras marcantes, com Ryan Coogler a nunca descurar algo que se revelou essencial em "Rocky", "Rocky II" e "Rocky Balboa": a dimensão humana dos personagens e a capacidade dos protagonistas em desafiarem o impossível e o destino. Mais do que a vitória ou derrota nos combates e as emotivas cenas de treino, aquilo que interessa a "Creed" é a jornada do personagem do título enquanto trilha o seu próprio caminho, constrói o seu legado e procura honrar o apelido que tentou esconder, com o final a ser uma montanha-russa de emoções, onde o nervosismo pode facilmente ceder o seu lugar às lágrimas. "Creed" concede nova vida a esta saga, respeita e sabe jogar com os lugares-comuns da mesma, enquanto abre espaço para que esta siga um novo caminho com o personagem do título como protagonista, embora seja notório que a presença de Sylvester Stallone atribua toda uma emotividade acrescida ao filme, com Rocky a surgir como o personagem da vida do actor. Com um dos melhores desempenhos da carreira de Sylvester Stallone, "Creed" surge como uma obra cinematográfica emotiva e apaixonante, com Ryan Coogler a inserir mais um capítulo brilhante a esta saga marcante.

Título original: "Creed".
Título em Portugal: "Creed: O Legado de Rocky".
Realizador: Ryan Coogler.
Argumento: Ryan Coogler e Aaron Covington.
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashād, Tony Bellew.

02 janeiro 2016

Tops - Os Meus Quinze de 2015; Dez filmes que não funcionaram junto desta pessoa, entre outras escolhas

 Todos os tops anuais são subjectivos e traduzem apenas o gosto daqueles que elaboram as respectivas listas, algo que não é diferente nesta casa. Tal como efectuei no ano passado, a minha lista não conta com justificações para cada escolha, visto que cada filme conta com crítica escrita por mim, ou seja, não existe necessidade de andar feito papagaio a repetir o que escrevi por lá. Seguem então os seguintes tops: quinze filmes que mais gostei/avaliei de forma mais positiva, estreados em circuito comercial em 2015 (em Portugal), organizados por ordem alfabética, com os links para as respectivas críticas (mais o guilty pleasure anual e os filmes que quase entraram no top); top com dez filmes que não funcionaram junto desta pessoa; duas menções a filmes que vi em festivais que entrariam de caras no top das quinze obras cinematográficas que mais gostei.


Top 15 - Os filmes que mais gostei:

- "A Most Violent Year". 
- "Birdman".
- "Clouds of Sils Maria". 
- "Creed".
- "Gett".
- "Güeros". 
- "Inside Out". 
- "Les Combattants". 
- "Leviathan".
- "Mia Madre". 
- "Sicario".
- "Stations of the Cross".
- "Stray Dogs".
- "The Tale of the Princess Kaguya".
- "Whiplash".

Filmes que quase chegaram a entrar no top:

- "Coming Home".
- "Loin des Hommes".
- "National Gallery". 
- "White God". 

Guilty pleasure:

- "Focus".

- Dez filmes que não funcionaram junto desta pessoa:

- "American Sniper".
- "American Ultra".
- "Dark Places".
- "Fifty Shades of Grey".
- "Minions".
- "Pan.
- "Self/less".
- "Suite Française". 
- "The Face of an Angel". 
- "Tomorrowland".

- Dois filmes que vi em festivais/mostras de cinema que mereciam figurar no top 15:

- "A Despedida".
- "Félix et Meira". 

- Classificações atribuídas a filmes estreados em 2015

01 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Victoria" (2015)

 Capaz de nos fazer partilhar as emoções da sua protagonista e das figuras que a rodeiam, "Victoria" surge como uma obra cinematográfica brilhantemente filmada que procura escapar a catalogações fáceis, enquanto nos delicia com o seu longo plano-sequência e a interpretação sublime de Laia Costa. O primeiro nome a surgir em destaque nos créditos finais de "Victoria" pertence ao director de fotografia Sturla Brandth Grøvlen, algo que é revelador do contributo deste indivíduo para a mestria com que esta magnífica obra cinematográfica é filmada. Inteiramente filmado num único e inspirado plano-sequência, "Victoria" é um hino ao cinema e ao trabalho do actor, com Sebastian Schipper, o realizador, a nunca deixar que este recurso se sobreponha a algo de essencial: a construção do enredo e dos personagens. Diga-se que o trabalho meritório de Sebastian Schipper e Sturla Branth Grøvlen de pouco ou nada valeria se não servisse os propósitos da narrativa, com este impressionante plano-sequência, que dura as cerca de duas horas e dezoito minutos de duração de "Victoria", a contribuir para a facilidade com que somos compelidos a acreditar nos personagens. Os elementos do elenco são competentes a explorar as dinâmicas criadas entre os personagens que interpretam, enquanto Sebastian Schipper tem o mérito de nos compelir a sentir que somos parte activa dos episódios que se desenrolam e a criar empatia entre os protagonistas e o espectador. Nesse sentido, o facto de ter sido filmado em plano-sequência, em tempo real, permite criar toda uma sensação de imediatismo, com "Victoria" a ter sido rodado entre as 4h:30 e 7h:00 da manhã, nas redondezas de Kreuzberg e Mitte. A câmara acompanha sobretudo Victoria (Laia Costa), a personagem do título e protagonista, uma jovem que nasceu e estudou em Espanha, tendo ido viver e trabalhar para Berlim após os seus sonhos se terem esfumado. Laia Costa tem uma daquelas interpretações que facilmente ficam na memória e deixam marca no espectador, com a actriz a conseguir transmitir as incertezas e fragilidades da personagem que interpreta mas também a imprevisibilidade de Victoria, uma jovem que estudou no Conservatório, onde procurou aperfeiçoar a sua técnica como pianista, embora os dezasseis anos e meio que passou a treinar a sua arte não lhe tenham servido para muito. Victoria não sabe praticamente nada de alemão, contactando com os seus interlocutores em inglês, algo que Sebastian Schipper retrata como uma situação completamente normal, com a protagonista a ser uma das muitas imigrantes que laboram nesta cidade em busca de melhores condições de vida. No início do filme encontramos Victoria no interior de uma discoteca, a dançar de forma libertadora, com as luzes e a música a contribuírem para um momento palpitante que está longe de representar a tensão e claustrofobia do último terço. Esta é uma jovem algo solitária, que não parece saber bem aquilo que pretende para o futuro, encontrando-se a dançar sozinha na discoteca, embora desperte facilmente a atenção das figuras masculinas, algo comprovado quando sai do estabelecimento e é interpelada por "Sonne" (Frederick Lau), "Boxer" (Franz Rogowski), "Blinker" (Burak Yigit) e "Fuss" (Max Mauff). Estes quatro indivíduos formam um grupo peculiar e heterogéneo que protagoniza uma série de episódios com Victoria. Os episódios vão desde o acto mais simples e divertido, ao mais terno e romântico, até ao mais tenso e perigoso, com a noite destes personagens a revelar-se uma montanha-russa de emoções, enquanto somos compelidos a "viver" os mesmos de forma intensa.

Sonne é o indivíduo mais afável e carismático do grupo, procurando despertar a atenção de Victoria, enquanto protagoniza inicialmente alguns episódios que contribuem para que comecemos a gostar de ver esta dupla reunida. Roubam bebida alcoólica numa loja de conveniência, bebem mais do que a conta, andam de bicicleta, divertem-se, expõem os seus sentimentos, com Sebastian Schipper a conseguir desenvolver os relacionamentos entre os diversos elementos de forma orgânica ao mesmo tempo que nos dá a conhecer vários pormenores relacionados com o passado de ambos. Veja-se quando Sonne acompanha Victoria até ao café, tendo em vista a esta ficar no local de trabalho até o estabelecimento abrir ao público. Ela fala sobre o seu passado, exibe o seu talento para tocar piano e expõe o seu estado de alma, enquanto Laia Costa sobressai pela dimensão que atribui a esta personagem. Diga-se que boa parte dos diálogos de "Victoria" são improvisados, com o argumento a contar apenas com doze páginas, embora muito tenha sido trabalhado durante as filmagens, algo comentado por Sebastian Schipper no press kit do filme: "There was no script. We had twelve pages. Scenes, locations and general actions of the characters were written down. Everything else, and especially dialogue, was improvised. But at the same time this description does not really capture what we did at all. Since we shot the film in one take – and, yes, we did it more than once – we were able to see the (complete) film very early on. So we had the chance (and the challenge) to develop the ideas, the characters, the plot, the motivations much earlier than in a classic setup". Nesse sentido, existe espaço para os actores e para a actriz principal improvisarem, enquanto exibem um enorme à vontade entre si: Frederick Lau concede ambiguidade e "presença" a "Sonne", um indivíduo de aparente boa índole, falador, dotado de espírito de liderança, capaz de cometer actos pouco recomendáveis, embora desperte alguma da nossa simpatia; Franz Rogowski surge de cabelo rapado, dotando Boxer de uma personalidade lacónica e violenta; Burak Yigit aparece como o expansivo Blinker, enquanto Max Mauff interpreta "Fuss", um indivíduo beberrão que faz anos na noite em que se desenrola a narrativa. Todos estes personagens contam com um passado algo nebuloso, que o diga Boxer, com este a ser obrigado a efectuar um assalto a um banco tendo em vista a pagar a um gangster (André Hennicke) que lhe prestou protecção nos tempos em que esteve preso. A partir do momento em que o quarteto tem de colocar o assalto em prática, acabando por arrastar Victoria para o acto criminoso, a narrativa começa a assumir contornos mais tensos e violentos, bem como a banda sonora e o trabalho de câmara. Victoria não sabe inicialmente àquilo que vai, acabando por se envolver num episódio que promete mudar a sua vida e dos quatro elementos que acabara de conhecer. Não vamos revelar o resultado do assalto, embora seja necessário salientar que Sebastian Schipper raramente se encontra interessado na colocação do mesmo em prática, procurando antes explorar os acontecimentos que antecedem e se sucedem ao acto criminoso. Gera-se uma atmosfera claustrofóbica, com os momentos mais apolíneos vividos pelo quinteto durante a primeira metade de "Victoria", onde parecia existir uma mescla de realismo e fantasia, a darem lugar a episódios tensos e inquietantes. É certo que Sebastian Schipper nem sempre parece ter o discernimento para agilizar a narrativa, quando parece notório que esta conta com uns trinta minutos a mais e uns plot holes pelo meio (a não ser que a tecnologia para analisar impressões digitais ainda não tenha chegado à Alemanha), embora seja notório que o cineasta cria algo estranhamente envolvente, com o trabalho de Sturla Brandth Grøvlen a ser fundamental para o resultado final de "Victoria".

Filmar uma obra cinematográfica num único plano-sequência não é algo novo, tal como esta técnica está longe de ser inovadora, embora isso não retire mérito ao feito de "Victoria", com Sebastian Schipper a criar um filme que tanto tem de belo como de violento, ao mesmo tempo que deixa o elenco sobressair e explanar o seu talento. Laia Costa e Frederick Lau são os nomes do elenco que mais se destacam, com os personagens que interpretam a gerarem empatia entre si e com este espectador, com o argumento a dar espaço para os intérpretes improvisarem, embora exista sempre a noção de que muito daquilo que nos é apresentado é fruto de imenso talento e trabalho. Veja-se as cenas no terraço onde os silêncios por vezes valem tanto como os diálogos, ou um trecho no interior de um elevador onde a banda sonora sobrepõe-se aos diálogos, com Sebastian Schipper a criar uma obra cinematográfica que está longe de se ater a catalogações como "filme de assalto", "drama" (a jovem solitária, sem um futuro profissional definido), "romance" (entre Victoria e Sonne), "acção" (os trechos que se seguem ao assalto), mesclando ingredientes de todos estes géneros e subgéneros. Embora não seja um filme inovador, "Victoria" é uma experiência e tanto, com o seu requinte a nível técnico a nunca sobressair em relação ao enredo e aos personagens, com a protagonista a ser uma figura complexa e intrigante. Nem sempre compreendemos as atitudes desta jovem. Diga-se que a certa altura esta parece tão surpreendida como nós, deixando-se levar pelo destino, tal como o espectador é compelido por Sebastian Schipper a seguir estes episódios. Sentimos as dúvidas dos protagonistas, as suas inquietações e sensações, com "Victoria" a ter o mérito de conseguir que os sentimentos dos diversos personagens sejam transmitidos para o espectador, ou pelo menos para o blogger que escreve esta resenha sobre o filme. O cineasta arriscou, tendo visto essa audácia recompensada com um trabalho final muito recomendável, a espaços belíssimo, por vezes violento e dramático, com "Victoria" a ter sido resultado da terceira filmagem da obra cinematográfica após duas iniciativas iniciais que não foram do agrado de Sebastian Schipper. Este coordena uma equipa competente, sobressaindo desde logo o magnífico trabalho de Sturla Brandth Grøvlen, com a câmara de filmar a surgir quase como uma personagem ao longo do filme. A câmara segue os personagens, irrequieta-se ao sabor dos sentimentos dos protagonistas, deixando-nos muitas das vezes perante o ponto de vista de Victoria, algo que é essencial para criar uma certa empatia entre o espectador e a mesma, bem como para termos a noção daquilo que esta se encontra a vivenciar e sentir. A luz natural é utilizada de forma exímia, bem como a câmara na mão, com "Victoria" a envolver-nos para o interior desta montanha-russa de emoções. Tecnicamente brilhante, acompanhado por uma banda sonora que incrementa a narrativa, "Victoria" consegue aliar estilo e substância, com as dinâmicas entre os personagens e a interpretação de Laia Costa a serem alguns dos pontos fortes desta bela surpresa oriunda da Alemanha.

Título original: "Victoria"
Realizador: Sebastian Schipper.
Argumento: Olivia Neergaard-Holm, Sebastian Schipper, Eike Frederik Schulz.
Elenco: Laia Costa, Frederick Lau, Franz Rogowski, Max Mauff, Burak Yigit.

11 dezembro 2015

Mini-paragem natalícia

 O Rick's Cinema parou "a sério" entre Fevereiro e Agosto de 2011. Desde essa data que o blog apenas tem parado aos fins-de-semana. A ultrapassagem da marca das 1400 críticas publicadas (mais de 290 em 2015) e a aproximação do Natal e Ano Novo surgiram como o período considerado "ideal" para efectuar uma mini-pausa. No caso das críticas, em grande parte devido ao número ser absurdo e corroborar que privilegio a quantidade em detrimento da qualidade. No caso das épocas festivas as razões são relativamente óbvias (não me parece que vão utilizar a noite de Ano Novo ou Natal para andarem a ler textos). O blog regressa a 4 de Janeiro, ou seja, a paragem é mínima, embora o aviso seja efectuado em sinal de respeito para com as quatro ou cinco pessoas que se preocupam em interagir e mostrar que não estou a escrever para as paredes. A pausa vai ser aproveitada sobretudo para rever algumas das cerca de sessenta críticas que continuam a ganhar mofo no arquivo (pela experiência recente, mais de metade vão ser apagadas por já não me rever naquilo que escrevi), organizar as publicações do Rick's Cinema para Janeiro, fazer maratonas de filmes e séries, etc, etc, etc. O cronograma de Janeiro já foi publicado, pelo que esta mini-pausa/paragem/férias do blog surge apenas como isso, um mini-período de descanso. Um obrigado bastante sentido a quem se preocupa em seguir este espaço o ano inteiro. Em Janeiro o Rick's Cinema está de volta. Votos de Bom Natal e Feliz Ano Novo.

Trailer de "X-Men: Apocalypse"

 Foi divulgado o trailer de "X-Men: Apocalypse". O filme é realizado por Bryan Singer, através do argumento de Simon Kinberg, Mike Dougherty e Dan Harris.

"X-Men: Apocalypse" conta no elenco com Michael Fassbender, James McAvoy, Jennifer Lawrence, Oscar Isaac, Kodi Smith-McPhee, Alexandra Shipp, Sophie Turner, Tye Sheridan, Ben Hardy, Olivia Munn, Lana Condor, entre outros. "X-Men: Apocalypse" coloca em confronto os elementos dos X-Men contra o Apocalipse.

O filme estreia a 27 de Maio de 2016 nos EUA.

Críticas publicadas em 2015 - Parte 8: 281 - 295

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292 - Resenha Crítica: "The Lavender Hill Mob" (1951)

293 - Resenha Crítica: "The Man in the White Suit" (1951)

294 - Resenha Crítica: "The Ladykillers" (1955)

295 - Resenha Crítica: "Crimes and Misdemeanors" (1989)


Parte 1 - http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/09/criticas-publicadas-em-2015-parte-1-1-40.html

Parte 2 - http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/06/criticas-publicadas-em-2015-parte-2-41.html

Parte 3 - http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/06/criticas-publicadas-em-2015-parte-3-81.html

Parte 4 - http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/07/criticas-publicadas-em-2015-parte-4-121.html

Parte 5 - http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/08/criticas-publicadas-em-2015-parte-5-161.html

Parte 6 - http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/10/criticas-publicadas-em-2015-parte-6-201.html

Parte 7 - http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/10/criticas-publicadas-em-2015-parte-7-241.html