O talento de Natalie Portman para a interpretação é sobejamente conhecido, embora a qualidade dos filmes que esta protagoniza nem sempre se adequem ao seu valor como actriz, algo notório em "Your Highness", "Thor", "Thor: The Dark World", as prequelas da saga "Star Wars", entre outros. "A Tale of Love and Darkness", um filme inspirado no livro homónimo de Amos Oz, marca a estreia de Natalie Portman na realização de longas-metragens, com a actriz a assumir ainda o cargo de argumentista e protagonista desta ambiciosa obra cinematográfica. A palavra ambição não significa competência ou assertividade, com Natalie Portman a não parecer ter unhas para, pelo menos nesta sua fase da carreira, conseguir tocar esta guitarra. O maior elogio que podemos fazer a "A Tale of Love and Darkness" surge com algum veneno pelo meio: é semelhante à carreira de Natalie Portman como actriz, ou seja, alterna entre o bom, o razoável e o medíocre. No entanto, "A Tale of Love and Darkness" perde-se em demasia em alguns tropeços de iniciante, aliados a uma devoção excessiva de Natalie Portman em relação ao material que tem entre mãos. É certo que existem alguns planos belíssimos, dotados de enorme lirismo e inspiração, sobretudo quando Fania (Natalie Portman), a mãe de Amos Oz (Amir Tessler), se encontra a contar histórias ao seu rebento ou parece perder-se em sonhos alegóricos que tanto têm de descartáveis como de relevantes. Algumas destas histórias ocorrem no deserto, com os tons quentes destes momentos a contrastarem por vezes com a frieza que marca alguns acontecimentos do quotidiano de Fania, com os sonhos que esta guardava da juventude a parecerem dilacerar-se diante da realidade. As histórias contadas por esta mulher, a espaços fazem recordar o momento em que a personagem interpretada por Monica Vitti conta uma historieta ao seu filho em "Il deserto rosso". Tal como a personagem interpretada por Monica Vitti, também Fania parece ter algumas dificuldades em enfrentar a realidade com que se depara, com Natalie Portman a conseguir transmitir que esta figura feminina por vezes parece carregar o peso do Mundo no seu olhar, apresentando uma fragilidade desarmante e uma força interior que não é de descurar. Fania é casada com Arieh (Gilad Kahana), um intelectual pouco dado a grandes demonstrações de afecto, que parece mais absorto nos livros e na escrita do que na sua esposa. A relação entre Arieh e Fania é marcada pela falta de uma chama forte que envolva estas duas figuras que encontram na literatura um meio de refúgio. A casa destes personagens é pontuada por diversos livros e uma falta de paixão entre este casal, enquanto Fania procura dar o máximo de atenção possível a Amos, um jovem que se apresenta em pleno crescimento num período histórico fervilhante. Fania é oriunda de Rovno, enquanto Arieh é proveniente da Lituânia, com este casal de origem judaica a ter partido em direcção ao Mandato Britânico da Palestina, ainda nos anos 30, do Século XX, tendo em vista a escapar às perseguições efectuadas aos judeus.
A narrativa de "A Tale of Love and Darkness" centra-se sobretudo no período em que Amos tem cerca dez anos de idade, com o enredo a acompanhar, ainda que superficialmente, diversos eventos históricos que marcaram Israel e a vida destes personagens inspirados em figuras reais. Veja-se o momento em que encontramos diversos personagens reunidos para ouvirem o reconhecimento da Independência do Estado de Israel, por parte das Nações Unidas, a 14 de Maio de 1948. A medida foi aplicada após uma resolução das Nações Unidas, "de onde sairia, no final de 1947, o plano de partição da Palestina, dividindo-a entre um estado árabe e um estado judeu". O momento é de festa, embora os conflitos logo se façam sentir ao longo do filme. Diga-se que a "guerra intestina entre as comunidades árabes e judaicas começou ainda durante o mandato britânico e prolongou-se até ao final de 1948, quando também acabou a primeira guerra israelo-árabe que se iniciou mal Israel declarou a independência, a 14 de Maio de 1948 (vale a pena ler o artigo de José Manuel Fernandes no Observador). "A Tale of Love and Darkness" não procura dar uma lição de história, nem
tenta, embora seja frustrante verificar que Natalie Portman não consegue incutir a
profundidade necessária a uma obra cinematográfica que tinha material
para resultar em algo mais do que um filme bem intencionado (basta efectuarmos uma pesquisa rápida para percebermos a complexidade dos assuntos abordados, com a cineasta a optar por uma via demasiado simplista). É certo que a cineasta procura a espaços representar os conflitos e tensões políticas, bem como alguns dos elementos culturais e religiosos. Veja-se quando Amos, um rapaz judeu, aleija inocentemente uma criança, numa festa na casa de uma família de árabe, algo que logo promete causar problemas, ou os sonhos que a mãe do jovem criou em relação à Independência de Israel. Fania é natural de Rovno, de onde partiu com as suas duas irmãs e a sua mãe, apresentando uma mente sonhadora e uma personalidade demasiado romântica para perceber que a realidade nem sempre acalenta a concretização de todos os sonhos. A chegada a Jerusalém e a independência de Israel pareciam simbolizar todo um conjunto de sonhos que se concretizaram, embora Fania encare a realidade com um romantismo que contrasta com a crueza do Mundo que a envolve, com Natalie Portman a compor uma personagem que facilmente desperta o nosso desejo para gostarmos mais de "A Tale of Love and Darkness" do que aquilo que conseguimos. Fania tem no filho a sua maior paixão, procurando incutir um conjunto de valores que Amos parece carregar consigo para a vida, enquanto assistimos a situações típicas do crescimento de um jovem. Os problemas na escola, em particular com os bullies, a forma algo ingénua como Amos encara o mundo que o rodeia, com "A Tale of Love and Darkness" a variar o foco entre a história da relação do jovem e a sua mãe, bem como destes dois personagens em separado, enquanto Natalie Portman polvilha a narrativa de alguns elementos do contexto histórico que necessitam sempre de uma consulta prévia para serem totalmente apreendidos. O jovem Amir Tessler tem uma interpretação convincente como Amos Oz, um rapaz observador e inteligente, embora caiba a Natalie Portman contar com alguns dos momentos de maior destaque, sobretudo a partir do momento em que a personagem que interpreta começa a padecer de uma depressão, algo que afecta a sua vida, do seu filho e do esposo. A depressão de Fania é abordada de forma pueril, tosca e redundante. Veja-se quando esta é enviada para casa das irmãs, supostamente para ver se anima, quando até então as familiares pouco ou nada tinham sido desenvolvidas.
A relação entre Fania e a mãe, bem como com os sogros, parece algo conturbada, embora a maioria dos personagens secundários raramente ultrapassem a exposição inicial. Não faltam ainda subtramas como o envolvimento de Arieh com outra mulher, ou a entrada em cena da "nova melhor amiga" de Fania, ou uma estranha figura denominada de "The Pioneer" que aparece nas divagações de Fania (que simboliza um ideal de Israel), entre outras, que pouco são exploradas, com Natalie Portman a parecer querer dizer imenso na sua estreia como realizadora de longas-metragens, embora nem sempre encontre a maneira certa para o fazer. O pouco desenvolvimento das figuras secundárias é revelador de alguns dos problemas de "A Tale of Love and Darkness", bem como a necessidade de Natalie Portman usar e abusar da narração em off para expor os sentimentos dos personagens e aquilo que se encontra a ocorrer. A utilização destrambelhada e excessiva da narração em off é a prova de algum amadorismo de Portman, mas também da incapacidade do argumento em conseguir explorar as temáticas que apresenta sem necessitar de uma "muleta" para expor as mesmas. Torna-se cansativo, redundante e exibe ainda uma falta de confiança na capacidade do espectador em interpretar aquilo que está a ser exibido. É certo que Portman procura expor o ponto de vista de Amos Oz, sobretudo em relação a Fania, mas aquilo que a cineasta deveria tentar é que o espectador interpretasse e sentisse, sem ter um narrador completamente intrusivo. O próprio tom de voz de Moni Moshonov, demasiado monocórdico, não ajuda, com este a surgir como o narrador de serviço, como Amos já nos seus setenta anos de idade. Diga-se que três actores interpretam Amos Oz: Amir Tessler (juventude); Yonatan Shiray (quando entra para o Kibbutz Hulda, uma fase explorada de forma sensaborona); Alex Peleg (setenta e poucos anos de idade). A relação entre Amos Oz e a mãe é uma das temáticas fundamentais do filme, com o jovem a apresentar uma postura protectora em relação à progenitora, enquanto esta última exibe uma afinidade latente com o petiz. Este inicialmente não pretende ser um escritor, algo que muda com avançar da vida, ou Amos Oz não surgisse como um autor literário de relevo (e não só). Natalie Portman tem em "A Tale of Love and Darkness" um trabalho de amor, tendo demorado diversos anos até conseguir tirar o projecto do papel e transformado o mesmo numa obra cinematográfica que quase beira a mediania, embora as boas intenções não sejam tudo. Diga-se que é praticamente impossível não procurar gostar do filme. As temáticas são relevantes. As interpretações de Natalie Portman e Amir Tessler são convincentes. O retrato do espaço de Jerusalém no final dos anos 40 é bem arquitectado (com as cores esbatidas e frias, bem como alguns episódios que ocorrem neste local, a exporem que a expressão trevas não foi colocada no título ao acaso). Alguns planos são belíssimos. Queria imenso gostar do filme, de abraçá-lo sem reservas e agraciar a estreia de Natalie Portman como realizadora de longas-metragens. No entanto, se o valor de Natalie Portman como actriz está comprovado, já o talento como realizadora e argumentista não encontra uma resposta cabal em "A Tale of Love and Darkness". Com uma história relevante, que se perde devido à inépcia de Natalie Portman na realização e um argumento que dispara para vários lados sem incutir profundidade a diversas temáticas, "A Tale of Love and Darkness" deixa-nos com um travo amargo. Tem bons pormenores, promete que pode dar algo mais, mas perde-se em demasia para conseguir que nos esqueçamos das suas limitações e problemas.
Título original: "A Tale of Love and Darkness".
Título em Portugal: "Uma História de Amor e Trevas".
Realizador: Natalie Portman.
Argumento: Natalie Portman.
Elenco: Natalie Portman, Gilad Kahana,
Amir Tessler.
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13 março 2015
A Semana em Revista - 9 a 15 de Março de 2015
Boa Noite, caros leitores e leitoras que se dão ao trabalho de ler este
blog (e também para aqueles que o ignoram e se enganaram ao entrar nesta
página), bem-vindos a mais um texto do "A Semana em Revista". Para quem não conhece, esta é uma espécie de rubrica
semanal que
consiste num post manhoso onde aproveito para efectuar um balanço do que
foi feito no Rick´s Cinema ao longo da semana.
O primeiro destaque vai para as sete críticas publicadas ao longo da semana:
- Resenha Crítica: "Focus" (2015)
- Resenha Crítica: "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" (Musicais da Broadway: Uma Herança Judaica)
- Resenha Crítica: "Corre, Rapaz, Corre" (Lauf Junge lauf)
- Resenha Crítica: "Les Combattants" (Os Combatentes)
- Resenha Crítica: "Paddington" (2014)
- Resenha Crítica: "Relatos salvajes" (Relatos Selvagens)
- Resenha Crítica: "Cinderela" (2015)
O segundo destaque centra-se nos posts diários ou bidiários que remetem para as notícias do dia, algo que permite agilizar a publicação das mesmas e dar um tom mais pessoal a este espaço. Cada vez mais parece inútil andar dia após dia a publicar notícias de forma sistemática, sobretudo quando cada vez mais sites, blogs, páginas de Facebook e grupos nas redes sociais fazem o mesmo:
- Notícias - 9 de Março de 2015
- Notícias - 10 de Março de 2015
- Notícias - 11 de Março de 2015
- Notícias - 12 de Março de 2015: Parte 1
- Notícias - 12 de Março de 2015: Parte 2
- Notícias - 13 de Março de 2015.
O terceiro destaque vai para o pequeno texto no qual reúno os posts sobre a terceira edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura:
- Judaica - Mostra de Cinema e Cultura (2015) - Críticas e entrevistas
O quarto destaque vai para o texto sobre as estreias da semana, escrito pelo Hugo Barcelos:
- Estreias da semana - 12 de Março de 2015
O primeiro destaque vai para as sete críticas publicadas ao longo da semana:
- Resenha Crítica: "Focus" (2015)
- Resenha Crítica: "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" (Musicais da Broadway: Uma Herança Judaica)
- Resenha Crítica: "Corre, Rapaz, Corre" (Lauf Junge lauf)
- Resenha Crítica: "Les Combattants" (Os Combatentes)
- Resenha Crítica: "Paddington" (2014)
- Resenha Crítica: "Relatos salvajes" (Relatos Selvagens)
- Resenha Crítica: "Cinderela" (2015)
O segundo destaque centra-se nos posts diários ou bidiários que remetem para as notícias do dia, algo que permite agilizar a publicação das mesmas e dar um tom mais pessoal a este espaço. Cada vez mais parece inútil andar dia após dia a publicar notícias de forma sistemática, sobretudo quando cada vez mais sites, blogs, páginas de Facebook e grupos nas redes sociais fazem o mesmo:
- Notícias - 9 de Março de 2015
- Notícias - 10 de Março de 2015
- Notícias - 11 de Março de 2015
- Notícias - 12 de Março de 2015: Parte 1
- Notícias - 12 de Março de 2015: Parte 2
- Notícias - 13 de Março de 2015.
O terceiro destaque vai para o pequeno texto no qual reúno os posts sobre a terceira edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura:
- Judaica - Mostra de Cinema e Cultura (2015) - Críticas e entrevistas
O quarto destaque vai para o texto sobre as estreias da semana, escrito pelo Hugo Barcelos:
- Estreias da semana - 12 de Março de 2015
10 março 2015
Judaica - Mostra de Cinema e Cultura (2015) - Críticas e entrevistas
A terceira edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura decorreu entre os dias 4 e 8 de Março (vale a pena realçar que a extensão em Belmonte vai decorrer entre os dias 7 e 10 de Maio). O Rick's Cinema teve a oportunidade de ver oito filmes da Mostra, dos quais realçamos "Gett: O Processo de Viviane Amsalem", "O Labirinto das Mentiras" e "Félix e Meira". Para além dos filmes, tivemos ainda a oportunidade de entrevistar Elena Piatok (directora da Judaica) e Shlomi Elkabetz (realizador de "Gett: O Processo de Viviane Amsalem"). A escolha para seguir os filmes da Judaica centrou-se sobretudo no facto destes procurarem dar algo que não encontramos regularmente em circuito comercial, uma situação notória quando descobrimos que obras cinematográficas como "Félix e Meira" surpreendentemente não vão ter distribuição em Portugal. Outro dos factores encontra-se ligado ao facto de alguns destes filmes permitirem aprendermos algo mais sobre a cultura judaica. Veja-se por exemplo "Anderswo", bem como "Félix e Meira", entre tantos outros. Para facilitar a leitura das críticas aos filmes e das entrevistas, decidimos elaborar este pequeno texto onde reunimos os links para as mesmas.
Entrevistas:
- Entrevista a Elena Piatok sobre a Terceira Edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura
- Entrevista a Shlomi Elkabetz sobre "Gett: O Processo de Viviane Amsalem"
Críticas a filmes:
- Resenha Crítica: "Gett: O Processo de Viviane Amsalem" (Gett: The Trial of Viviane Amsalem)
- Resenha Crítica: "Labyrinth of Lies" (Labirinto de Mentiras)
- Resenha Crítica: "Anderswo" (Anywhere Else)
- Resenha Crítica: "Félix et Meira" (Félix e Meira)
- Resenha Crítica: "Make Hummus Not War" (Faça Hummus, Não Guerra)
- Resenha Crítica: "Esclavo de Dios" (Escravo de Deus)
- Resenha Crítica: "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" (Musicais da Broadway: Uma Herança Judaica)
- Resenha Crítica: "Corre, Rapaz, Corre" (Lauf Junge lauf)
Entrevistas:
- Entrevista a Elena Piatok sobre a Terceira Edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura
- Entrevista a Shlomi Elkabetz sobre "Gett: O Processo de Viviane Amsalem"
Críticas a filmes:
- Resenha Crítica: "Gett: O Processo de Viviane Amsalem" (Gett: The Trial of Viviane Amsalem)
- Resenha Crítica: "Labyrinth of Lies" (Labirinto de Mentiras)
- Resenha Crítica: "Anderswo" (Anywhere Else)
- Resenha Crítica: "Félix et Meira" (Félix e Meira)
- Resenha Crítica: "Make Hummus Not War" (Faça Hummus, Não Guerra)
- Resenha Crítica: "Esclavo de Dios" (Escravo de Deus)
- Resenha Crítica: "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" (Musicais da Broadway: Uma Herança Judaica)
- Resenha Crítica: "Corre, Rapaz, Corre" (Lauf Junge lauf)
Resenha Crítica: "Corre, Rapaz, Corre" (Lauf Junge lauf)
"Corre,
Rapaz, Corre" apresenta-nos a um jovem resiliente, com um enorme
espírito de sobrevivência e capacidade de superar as adversidades,
em plena Polónia durante a II Guerra Mundial. Por vezes parece
fazer-nos recordar a jornada de sobrevivência de Wladyslaw Szpilman,
o protagonista de "O Pianista" de Roman Polanski, um
indivíduo que, tal como Srulik (Andrzej Tkacz), procurou resistir às
atrocidades cometidas contra os judeus, superar o medo e as
adversidades, mesmo quando o desespero quase parecia levar a melhor.
A diferença é que Srulik é um jovem de oito anos, tendo de
amadurecer mais rápido do que as crianças da sua idade ao
deparar-se muitas das vezes perante um meio adverso, onde as
atrocidades contra os judeus são mais do que muitas, enquanto
procura trabalhar em diversas quintas em troca de comida. Este muda o
nome para Jurek, de forma a que não desconfiem de si, embora aos
poucos perceba que as suas origens são difíceis de esconder, mesmo
quando tenta renegá-las como forma de sobrevivência, sendo
perseguido por soldados das SS e até por alguns polacos mais
traiçoeiros que pretendem ganhar dinheiro ao denunciarem e/ou
entregarem elementos judaicos junto das autoridades alemãs. Jurek
viu a sua mãe ser transportada para um campo de concentração,
tendo perdido o pai e fugido do gueto em Varsóvia, iniciando uma
jornada de sobrevivência que irá durar entre 1942 e o final da II
Guerra Mundial. Realizado por Pepe Danquart, tendo como base o livro
"Run, Boy, Run", uma obra literária inspirada em alguns
elementos da vida de Yoram Fridman, o filme homónimo não poupa em
episódios marcantes da vida do protagonista, por vezes algo
repetitivos, mas capazes de evidenciarem de forma latente a
degradação a que este se encontrou sujeito. Inicialmente
encontramos este jovem sozinho, perto de um tronco, num cenário
marcado pela neve e as tonalidades frias, até o enredo recuar seis
meses. Ficamos perante o jovem Jurek, junto de um grupo de jovens
judeus que procuram sobreviver na floresta, ensinando-o a roubar, a
desinfectar feridas com urina, bem como a esconder-se pelo espaço
florestal tendo em vista a escapar aos guardas das SS que procuram
capturar judeus e elementos da resistência que se encontrem por este
território. Numa fuga, Jurek perde-se do restante grupo acabando por
encontrar temporariamente abrigo junto de Magda Janczyk (Elisabeth
Duda), uma mulher cujos filhos e esposo combatem pela resistência.
Magda ensina Jurek a mentir, bem como a rezar, e alguns elementos
associados ao cristianismo, dando um terço ao rapaz e um conjunto de
alicerces para este poder sobreviver fora daquele espaço. Esta tem
de abandonar Jurek após a sua habitação começar a ser mais
vigiada do que o costume, algo que a coloca em perigo, bem como ao
jovem. O medo paira por quase toda a narrativa de "Run, Boy,
Run", com Pepe Danquart a conseguir criar uma atmosfera
relativamente opressora em volta do destino do jovem. Veja-se quando
um casal finge procurar ajudá-lo e entrega-o aos elementos das SS,
com este a acabar por conseguir fugir, até encontrar trabalho na
quinta da Sr.ª Herman (Jeanette Hain), uma mulher que mantém um
caso com o oficial alemão do qual o protagonista fugiu. O elemento
das SS fica impressionado com a força interior e impertinência de
Jurek, deixando-o a trabalhar no local até o jovem sofrer um grave
acidente que o vai levar a perder um braço. São muitas as
desventuras de Jurek ao longo deste filme marcado por uma enorme
crueza, representando o anti-semitismo através do olhar desta
criança. O próprio Jurek, a certa altura do filme, parece
revoltar-se por todas as situações que vive, devido a ser judeu,
sem perceber que o problema não é seu, mas sim de um louco e
daqueles que seguiram as suas políticas anti-semitas.
Ficamos diante da jornada de
sobrevivência de um jovem num território hostil, marcada por
diversos episódios que não lhe permitem formar grandes laços,
talvez com excepção da Sr.ª Janczyk que ainda reencontra e irá
sofrer as consequências de ter ajudado este jovem. A vida de Jurek
não é fácil. Tendo em conta a sua idade, certamente esperaríamos
ver este jovem a brincar e divertir-se com os colegas, bem como a
estudar, mas ao invés disso este tem de lutar pela sua vida. Embora
a narrativa por vezes parece estender-se em demasia para o conteúdo
que realmente tem para nos dar, é impossível negar o impacto a
nível emocional que esta jornada de Jurek é capaz de nos causar.
Perde os pais, não sabe o que aconteceu à restante família, pouco
tempo depois de ganhar a companhia de um simpático rafeiro depara-se
com o mesmo a ser baleado por engano por elementos da resistência,
forma amizades que se dissipam, é traído, revolta-se contra si e
contra o Mundo, sonha com um passado que se desvanece pela memória
enquanto procura sobreviver. Provavelmente luta a pensar que o futuro
será melhor, tendo algum sucesso no desiderato de sobreviver, embora
não se possa falar em sorte numa situação cruel como esta. Através
do caso particular de Jurek, Pepe Danquart consegue dar-nos uma ideia
de quão hediondas eram as políticas anti-semitas de Adolf Hitler e
de como a população muitas das vezes compactuava ou não com as
mesmas. Nesse sentido, "Corre, Rapaz, Corre" é capaz de
dar uma visão plural, não só exibindo elementos prontos a
livrarem-se do protagonista e a descriminarem-no por ser judeu, mas
também ao deixar-nos perante seres humanos que o aceitam. Este fica
cheio de dúvidas, embora tenha no seu pensamento os ensinamentos do
seu pai para nunca se esquecer que é judeu, apesar de em alguns
momentos revoltar-se com os actos que lhe infligem devido à sua
origem. É um filme por vezes duro de se assistir, colocando-nos
perante um lado negro da humanidade ao mesmo tempo que nos deixa com
alguma esperança na mesma ao apresentar-nos elementos como este
jovem resiliente. Este aventura-se pela floresta, pelas aldeias e
territórios do campo, foge dos soldados alemães, sobrevive a uma
grave operação, enquanto assume uma identidade que não é a sua ao
mesmo tempo que procura não se esquecer da sua proveniência. O
jovem Andrzej Tkacz é competente a interpretar este rapaz que se
depara com um conjunto enorme de adversidades no interior do
território da Polónia em plena II Guerra Mundial, com Srulik a
surgir como uma figura complexa e recheada de dúvidas que se depara
com um conjunto de situações que nem sempre compreende. As próprias
dúvidas que o personagem começa a criar a nível de identidade e
religião reflectem a complexidade que o argumento procura atribuir a
este rapaz que luta pela sua vida. Não faltam ainda alguns momentos
de tensão, tais como fugas pela floresta e de um campo alemão, com
a cinematografia e a banda sonora a contribuírem muitas das vezes
para a intensidade destas sequências protagonizadas por Srulik. Pepe
Danquart deixa-nos perante um retrato do anti-semitismo através do
ponto de vista deste jovem judeu, numa obra que, apesar de ser
protagonizada por uma criança, está longe de ser destinada para o
público infantil. A crueza da II Guerra Mundial fica bem
representada, bem como das políticas anti-semitas, ao longo de um
filme que nos coloca diante de
uma estrutura narrativa algo episódica e repetitiva, por vezes
incapaz de desenvolver os vários elementos que apresenta.
Existe pouco tempo para explorar os personagens que rodeiam o
protagonista, algo visível nas cenas com os jovens judeus, mas
também na primeira família com a qual fica a habitar algum tempo,
algo que raramente dá espaço para o elenco secundário sobressair
ou os personagens que estes actores e actrizes interpretam evoluírem
ao longo do enredo. Talvez aqui valha a pena recuperar novamente o
exemplo de "O Pianista", nem que seja pela capacidade
apresentada por Roman Polanski em agarrar por completo a narrativa e
elevá-la, algo que Pepe Danquart nem sempre consegue. Pepe Danquart
tem a vida facilitada devido ao poder da história que tem para nos contar, conseguindo
transmitir com sucesso e impacto as dificuldades sentidas pelo
jovem protagonista, embora falte algum refinamento que permita a
"Corre, Rapaz, Corre" distinguir-se de outros filmes que
abordam estas temáticas.
Título original: "Lauf Junge lauf".
Título em inglês: "Run Boy Run".
Título em Portugal: "Corre, Rapaz, Corre".
Realizador: Pepe Danquart.
Argumento: Heinrich Hadding e Pepe Danquart.
Elenco: Andrzej Tkacz, Kamil Tkacz, Zbigniew Zamachowski, Mirosław Baka.
09 março 2015
Resenha Crítica: "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" (Musicais da Broadway: Uma Herança Judaica)
"Broadway
Musicals: A Jewish Legacy" surge como um documentário
informativo e dinâmico sobre a importância dos compositores e
letristas judeus para os musicais da Broadway, mas também sobre a
história destes últimos. Realizado e produzido por Michael Kantor,
este documentário elaborado inicialmente para a televisão
apresenta-nos a elementos como a influência do Teatro Yiddish,
localizado no Lower East Side de Nove Iorque, nos musicais da
Broadway, passando pelo despontar de nomes como os irmãos George e
Ira Gershwin, as transformações introduzidas por Stephen Sondheim,
até à polémica encenação de "The Producers" por parte
de Mel Brooks que ridicularizava Adolf Hitler. É também a evolução
da Broadway e da sociedade que vamos acompanhar, embora falte um
pouco de maior densidade na exploração do contexto que envolve os
interessantes episódios deste documentário narrado por Joel Grey.
Nesse sentido, "Broadway Musicals: A Jewish Legacy" tem um
especial interesse por nos dar a conhecer ou recordar a influência
judaica nos espectáculos musicais da Broadway, bem como alguns dos
nomes mais influentes que rodearam os mesmos. Não faltam elementos
como Irving Berlin, George Gershwin, Kurt Weill, Leonard Bernstein,
Adolph Green, Lorenz Hart, Richard Rodgers, Stephen Sondeim, Oscar
Hammerstein II, Jule Styne, Mel Brooks, entre tantos outros nomes que
marcaram a história dos musicais da Broadway. Veja-se o caso do
compositor George Gershwin que teve sucessos como "Rhapsody in
Blue" (1924), "An American in Paris" (1928) e "Porgy
and Bess" (1935), com este último a ser bastante realçado. Um
dos primeiros sucessos de George Gershwin é "Swanee"
(1919), desenvolvido com a colaboração de Ian Caesar, uma música
cujos ritmos são muito semelhantes às canções judaicas, algo
salientado e exemplificado ao piano por Michael Tilson Thomas (neto
de Boris e Bessie Thomashefski), enquanto a narração salienta que
este é o trabalho mais popular do compositor. Curiosamente, George
Gershwin foi rejeitado pelos elementos do Teatro Yiddish devido a ser
considerado "demasiado americano", algo que fica realçado
com "Rhapsody in Blue", um espectáculo no qual a
influência do jazz e blues parece ser latente. Já Ira Gerwish, o
irmão, ficou conhecido pela escrita de canções, tendo colaborado
muitas das vezes com George. Estes compositores e letristas
mencionados procuravam reunir diversas influências culturais, com os
elementos musicais judaicos a mesclarem-se com os dos EUA, algo que
também fica latente no caso de Irving Berlin, exposto como um dos
compositores e letristas mais proeminentes da Broadway, com várias
das suas canções a manterem relevância nos dias de hoje. A
adaptação de Berlin, nascido na agora Bielorrússia, ao território
dos EUA não passou apenas pela assimilação dos elementos musicais,
mas também pela própria utilização de um nome artístico distinto
para parecer natural deste país, tal como fizeram outros colegas de
profissão: Irving Berlin na realidade chamava-se Israel Isadore
Beilin; Ira Gershwin tinha como nome de nascimento Israel Gershowitz,
tal como o irmão se chamava Jacob Gershowitz mas assumia o nome
artístico de George Gershwin, entre outros exemplos.
No caso de Irving Berlin este foi ao
ponto de elaborar duas canções icónicas da cultura popular dos
EUA, nomeadamente, "White Christmas" e "Easter
Parade", expondo não só aquilo que ele deu ao país, mas
também o que assimilou do mesmo ao longo dos seus cerca de sessenta
anos de carreira (viveu entre 11 de Maio de 1888 e 22 de Setembro de
1989). Outro dos nomes proeminentes na Broadway e no panorama musical
dos EUA foi Kurt Weill (2 de Março de 1900 a 3 de Abril de 1950), um
judeu alemão que saiu do seu país após a ascensão do III Reich.
Este seria um dos vários alemães que viriam a marcar a cultura dos
EUA, um pouco como os cineastas, actores e actrizes que saíram da
Alemanha após a ascensão de Adolf Hitler ao poder. Já Lorenz Hart
(letrista) e Richard Rodgers tiveram algumas dificuldades iniciais em
ascenderem na Broadway, até sobressaírem com a ritmada "Manhattan",
uma canção que é apresentada parcialmente no documentário. Um dos
poucos compositores não judeus a vingar na Broadway foi Cole Porter,
com este a adoptar os ritmos dos primeiros após alguns fracassos,
com o filme a expor a influência destes na música deste artista.
Antes destes elementos, o documentário apresenta-nos ainda a Boris
Thomashefsky, um judeu que sobressaiu no Teatro Yiddish, um espaço
cuja história pouco é explorada embora a sua influência nos
musicais da Broadway seja mencionada. A vida destes elementos e as
suas carreiras são abordadas de forma bastante sucinta, com o
documentário a procurar oferecer sobretudo uma visão geral sobre
estes compositores e letristas que marcaram a História da Broadway e
influenciaram Hollywood, ao mesmo tempo que expõe o melting pot da
cultura dos EUA. Os próprios compositores como David Shire ("Baby",
"Big", etc.), Stephen Schwartz ("Godspell",
"Wicked", etc.) e Marc Shaiman ("Hairspray",
"Smash", etc.) exibem ao piano algumas das diferenças e
semelhanças entre os ritmos da música das peças de teatro judaicas
e os ritmos associados aos afro-americanos (blues, jazz), algo que
acaba por funcionar de forma didática para o espectador menos
versado nas artes musicais ou menos atento aos pequenos pormenores.
Diga-se que ao longo do documentário assistimos ainda às mudanças
temáticas dos espectáculos ao longo dos anos, com estas alterações
a estarem muitas das vezes ligadas ao período histórico em questão.
Veja-se o caso de "West Side Story", uma peça da Broadway
com canções compostas por Leonard Bernstein e letras escritas por
Stephen Sondeim. Tal como é salientado, "West Side Story"
aborda questões que ainda são relevantes nos dias de hoje, tais
como a emigração para os EUA e a assimilação da nova cultura e a
influência que os emigrantes também trazem. Diga-se que parece ser
uma tendência que veio a aumentar com o tempo, com as colaborações
entre Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II a abordarem questões
sociais em peças como "Show Boat" e "Carousel",
com este último a ter causado bastante polémica devido a nem todos
os elementos do público compreenderem o humor negro utilizado. Se
"Carousel" foi polémico, já "Fiddler on the Roof"
surgiu com um dos primeiros musicais da Broadway a contar com
protagonistas e temas judaicos, algo até então nem sempre comum de
se ver. O documentário aponta "Fiddler on the Roof" como a
primeira peça da Broadway a centrar-se na temática, embora como
realce P.S. Colbert no DVDVerdict,
anteriormente já "Milk
and Honey" tinha abordado o tema. Diga-se que as temáticas
relacionadas com os outsiders e aqueles que vinham de fora ou tinham
parcas condições eram abordadas, uma situação que ressoava junto
dos elementos judaicos, embora não fosse abordada com a forma
directa de "Fiddler on the Roof", um dos muitos musicais
marcantes que contou com o contributo de judeus, com a Broadway, como
é salientado no documentário, a surgir como um local onde estes
eram encarados pelo seu trabalho e não por serem ou não elementos
judaicos.
Temos ainda as mudanças
introduzidas por Stephen Sondheim, com "Broadway Musicals: A
Jewish Legacy" a deixar-nos diante de um conjunto de indivíduos
de enorme talento que marcaram de forma indelével os musicais nos
EUA, mas também a sua cultura popular. Não quer dizer que tenham
sido sempre totalmente aceites pela sociedade, mas aos poucos
deixaram de ser outsiders, com o documentário a transmitir a
acertada ideia que os EUA só têm a ganhar se assumirem de vez os
benefícios culturais de serem um país marcado pela vinda de
emigrantes. Hoje é um tema ainda quente, mas não deixa de ser
curioso verificar como este país beneficiou imenso deste melting
pot, com Michael Kantor a expor de forma eficaz o quão relevantes
foram os judeus para os musicais, ao mesmo tempo que permeia a obra
com trechos de muitos dos seus trabalhos, algo que introduz em alguns
momentos um ritmo contagiante a "Broadway Musicals: A Jewish
Legacy". Ao longo de "Broadway Musicals: A Jewish Legacy",
Michael Kantor deixa-nos com imagens e vídeos de arquivo,
comentários e depoimentos de historiadores como Philip Furia, Stuart
J. Hecht e Laurence Maslon, bem como de elementos como Jamie
Bernstein (a filha de Leonard Bernstein), Ben Sidran (produtor
musical), Michael Strunsky (sobrinho de Ira Gershwin), Mary Ellin
Barrett (filha de Irving Berlin), Josh Kun (crítico musical),
Charles Strouse (compositor de "Annie", etc.), entre muitos
outros que ajudam a atribuir um maior dinamismo, credibilidade e
conteúdo ao documentário, enquanto ficamos perante vários
elementos que comprovam a influência que os vários compositores e
letristas judeus tiveram ao longo da História dos musicais da
Broadway e até da cultura popular dos EUA. Temos ainda momentos mais
informais, sobre os bastidores e as relações entre estes
indivíduos, com as filhas de Adolph Green e Leonard Bernstein a
abordarem o início da relação de amizade e profissional dos
respectivos pais, num campo de férias (considerado um local
importante para a formação de alguns destes elementos a nível de
personalidade), enquanto "Broadway Musicals: A Jewish Legacy"
nos deixa perante um vídeo de arquivo duma colaboração destes
com Betty Comden, no qual ficamos diante dos
mesmos a tocarem e cantarem a música "Carried Away"
(de "On the Town"). O filme conta ainda com os seus
próprios momentos musicais, com David Hyde Pierce (o Niles Crane da
série "Frasier") a cantar sobre a importância de ter um
judeu numa peça da Broadway para obter sucesso, ou Matthew Broderick
e Kelli O'Hara a interpretarem a canção "Let's Call the Whole
Thing Off" de Ira Gerwish, com a dupla a expor as diferentes
formas de pronunciar palavras como "potato", "tomato"
e "pijama". É óbvio que o documentário beneficiaria de
uma maior contextualização histórica, apesar desta estar presente,
bem como de um maior desenvolvimento da história dos elementos
retratados, mas nem por isso deixa de cumprir o objectivo primordial
de demonstrar a influência benéfica dos judeus na cultura popular
dos EUA. Diga-se que várias das músicas destes elementos e os seus
trabalhos viriam a enraizar-se na cultura popular dos Estados Unidos
da América, algo visível nos dois exemplos dados das músicas
escritas e compostas por Irving Berlin. "Broadway Musicals: A
Jewish Legacy" confirma ainda o fascínio e interesse de Michael
Kantor pela História da Broadway, ou não tivesse anteriormente
produzido e realizado "Broadway: An American Story", uma
minissérie documental de seis episódios que acompanha um período
temporal compreendido entre 1893 e a data em que estes trabalhos
foram lançados (2004). São muitos anos de História, nos quais os
judeus tiveram um enorme relevo, como podemos ver em trabalhos como
"My Fair Lady", "West Side Story", "Fiddler
on the Roof", "Annie", "The Producers",
entre tantos outros que marcaram a Broadway e a cultura popular.
Dinâmico e informativo, "Broadway Musicals: A Jewish Legacy"
cumpre com eficácia a tarefa de nos apresentar à importância dos
elementos judaicos para os musicais da Broadway, servindo sobretudo
como um bom ponto de partida sobre uma temática que merece e deve
ser realçada.
Título original: "Broadway Musicals: A Jewish Legacy".
Realizador: Michael Kantor.
08 março 2015
A Semana em Revista - 2 a 8 de Março de 2015
Boa Tarde, caros leitores e leitoras que se dão ao trabalho de ler este
blog (e também para aqueles que o ignoram e se enganaram ao entrar nesta
página), bem-vindos a mais um texto do "A Semana em Revista" (novamente ao Domingo). Para quem não conhece, esta é uma espécie de rubrica
semanal que
consiste num post manhoso onde aproveito para efectuar um balanço do que
foi feito no Rick´s Cinema ao longo da semana.
O primeiro destaque vai para a entrevista a Shlomi Elkabetz sobre "Gett: The Trial of Viviane Amsalem":
- Entrevista a Shlomi Elkabetz sobre "Gett: O Processo de Viviane Amsalem"
O segundo destaque vai para as seis críticas publicadas ao longo da semana:
- Resenha Crítica: "Black Sea" (Mar Negro)
- Resenha Crítica: "Rosewater"
- Resenha Crítica: "Félix et Meira" (Félix e Meira)
- Resenha Crítica: "Make Hummus Not War" (Faça Hummus, Não Guerra)
- Resenha Crítica: "Esclavo de Dios" (Escravo de Deus)
- Resenha Crítica: "Pour une Femme" (Por Uma Mulher)
O terceiro destaque vai para os posts sobre as quatro críticas mais lidas e as quatro críticas menos lidas de Fevereiro de 2015:
- Quatro críticas menos lidas - Fevereiro de 2015
- Quatro críticas mais lidas - Fevereiro de 2015
O quarto destaque centra-se nos posts diários ou bidiários que remetem para as notícias do dia, algo que permite agilizar a publicação das mesmas e dar um tom mais pessoal a este espaço. Cada vez mais parece inútil andar dia após dia a publicar notícias de forma sistemática, sobretudo quando cada vez mais sites, blogs, páginas de Facebook e grupos nas redes sociais fazem o mesmo:
- Notícias - 2 de Março de 2015: Parte 1
- Notícias - 2 de Março de 2015: Parte 2
- Notícias - 3 de Março de 2015
- Notícias - 4 de Março de 2015: Parte 1
- Notícias - 4 de Março de 2015: Parte 2
- Notícias - 5 de Março de 2015: Parte 1
- Notícias - 5 de Março de 2015: Parte 2
- Notícias - 6 de Março de 2015
O quinto destaque vai para o texto sobre as estreias da semana:
- Estreias da Semana - 5 de Março de 2015
Vale ainda a pena realçar a lista dos nomeados para os Prémios CCOP 2015 (do qual faço parte):
- Prémios CCOP 2015: Os nomeados
O primeiro destaque vai para a entrevista a Shlomi Elkabetz sobre "Gett: The Trial of Viviane Amsalem":
- Entrevista a Shlomi Elkabetz sobre "Gett: O Processo de Viviane Amsalem"
O segundo destaque vai para as seis críticas publicadas ao longo da semana:
- Resenha Crítica: "Black Sea" (Mar Negro)
- Resenha Crítica: "Rosewater"
- Resenha Crítica: "Félix et Meira" (Félix e Meira)
- Resenha Crítica: "Make Hummus Not War" (Faça Hummus, Não Guerra)
- Resenha Crítica: "Esclavo de Dios" (Escravo de Deus)
- Resenha Crítica: "Pour une Femme" (Por Uma Mulher)
O terceiro destaque vai para os posts sobre as quatro críticas mais lidas e as quatro críticas menos lidas de Fevereiro de 2015:
- Quatro críticas menos lidas - Fevereiro de 2015
- Quatro críticas mais lidas - Fevereiro de 2015
O quarto destaque centra-se nos posts diários ou bidiários que remetem para as notícias do dia, algo que permite agilizar a publicação das mesmas e dar um tom mais pessoal a este espaço. Cada vez mais parece inútil andar dia após dia a publicar notícias de forma sistemática, sobretudo quando cada vez mais sites, blogs, páginas de Facebook e grupos nas redes sociais fazem o mesmo:
- Notícias - 2 de Março de 2015: Parte 1
- Notícias - 2 de Março de 2015: Parte 2
- Notícias - 3 de Março de 2015
- Notícias - 4 de Março de 2015: Parte 1
- Notícias - 4 de Março de 2015: Parte 2
- Notícias - 5 de Março de 2015: Parte 1
- Notícias - 5 de Março de 2015: Parte 2
- Notícias - 6 de Março de 2015
O quinto destaque vai para o texto sobre as estreias da semana:
- Estreias da Semana - 5 de Março de 2015
Vale ainda a pena realçar a lista dos nomeados para os Prémios CCOP 2015 (do qual faço parte):
- Prémios CCOP 2015: Os nomeados
Resenha Crítica: "Pour une Femme" (Por Uma Mulher)
No último
terço de "Pour une femme", a nostalgia parece acercar-se
dos personagens. Memórias do passado são levantadas, uma vida
encontra-se prestes a perder-se, enquanto a banda sonora procura
apresentar a delicadeza
necessária para adequar-se aos episódios expostos ao longo do
enredo sem sobressair em demasia em relação aos mesmos. A banda
sonora, tal como a cinematografia, contribuem para esta atmosfera
melancólica colocada por Diane Kurys na sua nova obra
cinematográfica. Existem elementos auto-biográficos de Kurys,
realizadora e argumentista, mas também ficcionais, partindo da
descoberta de uma fotografia do seu misterioso tio Jean, um indivíduo
com quem o seu pai deixou de falar, que parece ter mantido um curto
affair com a mãe da cineasta, ou pelo menos é esta situação que
esta cogita, algo que representa através dos protagonistas de "Pour
une femme". Este é um filme que nos deixa diante de um história
que procura mesclar romance, traição, elementos de espionagem e a
representação de um país que se encontra a lamber as feridas dos
episódios da II Guerra Mundial. O país é a França. A história
desenrola-se na década de 80 e em 1946, no pós-II Guerra Mundial.
Nos anos 80, após a morte da sua mãe, há três meses, Anne (Sylvie
Testud), em conjunto com Tania (Julie Ferrier), pesquisa os bens
deixados pela progenitora, cuidando a espaços do pai, um indivíduo
que padece de uma doença grave. É então que encontram uma foto,
onde se deparam com Léna (Mélanie Thierry), a mãe de ambas,
acompanhada por Jean (Nicolas Duvauchelle), o irmão de Michel
(Benoît Magimel), o esposo da personagem interpretada por Mélanie
Thierry. Estas pouco conhecem Jean, tal como desconhecem muito do
passado dos pais, dois elementos divorciados, algo que intriga Anne,
uma argumentista. Anne procura reconstruir a história do passado da
sua mãe, Michel e Jean, parecendo a filha mais apegada ao pai, um
indivíduo que se encontra bastante doente, tendo no seu cão a sua
melhor companhia. No presente, Michel mantém os seus fortes valores
comunistas, algo que resulta num episódio de maior humor entre as
duas irmãs para o tentarem confortar no leito da morte, ao mesmo
tempo que exibe um comportamento bastante taciturno, nem sempre de
fácil trato, mas capaz de ter um momento onde exibe que o amor pode
não morrer com o final de uma relação ou de uma vida. No passado
era bem diferente, apresentando um optimismo latente enquanto se
preparava para tentar obter a nacionalidade francesa. Este nasceu em
Kovel, na Ucrânia, espaço da União Soviética no período em que
pediu a nacionalidade ao lado da esposa, Léna. Esta casara-se com
Michel durante a II Guerra Mundial, quando se encontram num campo de
concentração e Léna se preparava para ser condenada à morte. O
casamento permitiu a sua salvação no interior do campo de
concentração, desenvolvendo uma enorme gratidão para com Michel,
de quem está grávida da primeira filha, Tania, um nome dado por
parecer russo. Léna é uma mulher elegante, loira, algo misteriosa e
de uma sensualidade que lhe permite despertar facilmente a atenção
dos homens, incluindo Michel que se encantou pela mesma. Estes formam
um casal aparentemente sólido, pelo menos no que nos é dado a
conhecer nos flashbacks reconstruídos por Anne, enquanto investiga a
intrigante história da sua família.
A história de Anne e Tania pouco é
explorada, ou pelo menos não consegue despertar o mesmo interesse
que a de Michel, Léna e Jean. Sabemos que não são muito próximas,
mas também não se dão mal, com Anne a parecer ser mais próxima do
pai do que Tania, procurando acompanhá-lo e estudar o seu passado
com a mãe e Jean, enquanto Michel demonstra que, apesar de todas as
contrariedades e o divórcio, nunca deixou de amar a esposa. Nos
momentos iniciais do filme parece certo que Michel e Léna se amam.
Podem ter pouco em comum. Ele gosta de política e é um fervoroso
comunista. Ela não liga a política. Ele não gosta de cinema. Ela
gosta de cinema e actividades capitalistas. Ela não quer ser apenas
uma dona de casa. Ele parece tratá-la muitas das vezes dessa
maneira. Ele é dedicado ao emprego e ao Partido. Ela parece que
gostava de poder estar mais tempo com o esposo. Não deixam de
apresentar alguma intimidade, com Michel a procurar integrá-la junto
dos elementos do Partido, incluindo com Madeleine (Clotilde Hesme),
com quem forma amizade. Esta é uma mulher adúltera que é casada
com Maurice (Denis Podalydès), embora mantenha um caso
extra-conjugal com Paul, um elemento do partido que é bem mais jovem
do que esta. Léna diz que nunca seria capaz de trair o marido. Pelo
menos é o que esta idealiza, com muito da sua vida a mudar
gradualmente com a chegada de Jean, o irmão de Michel. Nicolas
Duvauchelle consegue manter o mistério inicial em relação ao
personagem que interpreta, um indivíduo que supostamente conseguiu
escapar da União Soviética e procura restabelecer os laços com o
irmão, embora muitas das vezes tenhamos dúvidas sobre a sua
actividade profissional e identidade. Veja-se quando arranja tecidos
para Michel poder vender roupas na alfaiataria aos mesmos preços
baixos, mas também como o ensina a produzir fatos feitos à mão de
acordo com as regras do "pronto a vestir", alterando as
medidas dos mesmos ao invés de produzir uma vestimenta por semana.
Jean fica instalado na casa do casal, iniciando aos poucos uma
relação de cumplicidade com Léna, algo que a vai deixar com
algumas dúvidas em relação ao seu casamento com Michel. É certo
que está grata por este ter salvo a sua vida, mas Jean parece trazer
um mistério e energia que o seu esposo não tem. Jean procura não
trair o irmão, sabendo que as suas actividades são perigosas demais
para algum dia poder ter uma vida estável, encontrando-se a procurar
eliminar elementos nazis que se encontram escondidos, participando
activamente numa célula procurada pela polícia. Aos poucos forma-se
um triângulo amoroso entre o trio, com o espaço da casa a
transformar-se num local onde as tensões são latentes e as dúvidas
são mais do que muitas. Michel sente que Léna parece estar atraída
pelo irmão, algo visível quando estes dois últimos dançam num
baile ou conversam à noite no quarto onde Jean se encontra
instalado. Léna parece indecisa no que fazer. Jean teme não
controlar os seus impulsos. Michel parece claramente desagrado com
toda a situação, sobretudo devido a nutrir um amor notório pela
esposa.
Diane Kurys procura explorar este
triângulo amoroso no meio de um contexto político quente, com
Michel a ser um comunista fervoroso que se recusa a aceitar as
atrocidades cometidas por Estaline, tal como parece ser incapaz de
lidar com o facto de poder vir a perder a esposa entrando em claro
confronto com o irmão, não só do ponto de vista ideológico, mas
também a nível pessoal. Jean e Michel até pareciam ter formado uma
amizade, mas os segredos do primeiro e o interesse que gera e
desperta em Léna fazem com que o convívio entre ambos seja
contaminado, enquanto uma filha procura descobrir a verdade sobre o
passado nebuloso da história dos pais. Não existe direito a grandes
surpresas, com Diane Kurys a basicamente cumprir em expor aquilo que
esperamos numa história do género, ao mesmo tempo que procura
introduzir um subtexto político associado aos dois períodos
históricos retratados. Esse contexto fica desde logo latente no
início do filme quando ouvimos na rádio "Parece que o Rainbow
Warrior foi afundado por mergulhadores de combate franceses, o
que contradiz o relatório oficial. O governo está na defensiva.
Existem chamadas para a renúncia de Mitterrand, comparando o caso
Greenpeace ao de Watergate". Não é uma citação inocente, num
filme que procura ainda expor os ideais comunistas do protagonista e
o optimismo que este tem em relação ao Partido Comunista, embora
Diane Kurys também deixa latente as atrocidades do Governo de
Estaline, sempre sem deixar de lado que Léna e Michel estiveram num
campo de concentração. As origens judaicas do protagonista não são
esquecidas, tais como as de Lena, com ambos a terem sofrido na pele
esta situação perante as políticas loucas de Adolf Hitler. No
caso, acabaram por se conhecer num espaço onde a esperança pouco
existe, formando uma relação que está longe de ser efusiva mas é
credível e marcada por alguma cumplicidade. Michel parece amá-la.
Léna parece sentir algo mais do que gratidão por Michel. Jean
intromete-se na vida do casal e provoca um furacão de sentimentos
que vai afectar para sempre o matrimónio dos protagonistas. A
história do passado dos protagonistas, explorada nos flashbacks, é
sempre mais interessante do que o enredo que envolve os personagens
no presente, com "Pour une femme" a concentrar-se sobretudo
na história deste trio de protagonistas, procurando evitar os
sentimentalismos excessivos ao mesmo tempo que nos apresenta a alguns
personagens secundários que incrementam a narrativa. Veja-se o caso
de Madeleine, uma mulher que se encontra entre um casamento sem amor
e uma paixão com um homem mais jovem que não parece ter alicerces
para durar, algo que poderá conduzir à sua expulsão e de Paul do
partido. Esta representa uma mulher que procura a sua independência
e expor a sua individualidade, quer no interior do Partido, quer no
interior da sociedade, ao mesmo tempo que tenta ser feliz do ponto de
vista amoroso sem estar a ligar aos estereótipos do seu tempo. Temos
ainda Sacha (Clément Sibony), um colega e amigo de Jean, para além
do caso de Georges (Jean-Claude Bolle-Reddat), o funcionário da loja
de Michel.
Georges é sobretudo importante para
percebermos que os ideais políticos de Michel não são expostos
apenas no interior do Partido Comunista no qual está inserido, mas
também na sua vida em sociedade, com o protagonista a recusar-se a
ser tratado por chefe ou senhor, procurando que o personagem
interpretado por Bolle-Reddat o trate como alguém igual a si. Benoît
Magimel consegue atribuir a dimensão necessária a este personagem
idealista, numa obra que apresenta ainda uma procura em representar
assertivamente os elementos associados às épocas expostas,
quer a nível do guarda-roupa, quer dos comportamentos, quer dos
cenários, exibindo alguns bons valores de produção. A própria
utilização da cor foi pensada para corresponder às duas épocas
específicas, algo comentado por Kurys: "Some colors were
eliminated, because some colors we think of in the 1950s only exist
in the collective imagination. So, in the
apartment and the store we favored wood, beige, green, and brown
which correspond to the period after the war. For the 1980s,
we went to more colorful hues". Este comentário da cineasta
exprime bem a sua procura em atribuir credibilidade a "Pour une
femme", incluindo em pormenores como a paleta cromática, tendo
em vista a que a obra pareça realmente desenrolar-se no final da
década de 40 e nos anos 80. É um drama competente, mesclado com
elementos de romance e alguma intriga política, que conta com trio
de protagonistas que consegue facilmente despertar o nosso interesse,
onde parece existir sempre uma certa nostalgia a rodear o enredo.
Esta é uma representação muito pessoal de Diane Kurys sobre um
possível triângulo amoroso formado pelos seus pais e o misterioso
tio, procurando colocar-nos diante da percepção que criou do caso e
dos seus progenitores. Diga-se que a representação de elementos da
família no grande ecrã e a procura de investigar e interpretar os
mesmos não é uma novidade nas obras de Diane Kurys, algo salientado
pela própria no press kit de "Pour une femme": "As
'Entre Nous' was a film about my mother, so this film speaks of my
father – this man I misunderstood and who, it seems, I resemble.
Even if I’m told that he might not be my father,
I identified with him and I felt the need to do him justice, to
"know” him through a film, since I had known him so little in
life. For A Woman is the portrait of a man betrayed. By his brother,
by his woman, by the Communist party, by life...". No
final, ficamos a saber mais sobre este triângulo de personagens
cujas relações aos poucos se degradam, enquanto Diane Kurys permite
que Mélanie Thierry, Benoit Magimel e Nicolas Duvauchelle consigam
destacar-se pela positiva numa história bastante pessoal da
cineasta. A personagem interpretada por Sylvie Testud aparece praticamente como um duplo da realizadora, surgindo como uma mulher
que aos poucos parece procurar mais os sentimentos
vividos pelos pais naquele período quente do pós-Guerra do
que encontrar a verdade sobre Jean e o affair. Diga-se que "Pour
une femme" também é um filme sobre sentimentos, sobre dois
homens que amam uma mulher de forma distinta, enquanto esta se
encontra na mesma situação em relação a ambos. Mais tarde sabemos
que se separam. No material que pertencia a Léna encontramos
elementos que permitem reconstruir alguns episódios do passado. Na
figura envelhecida de Michel encontramos os sentimentos deste período
nebuloso da vida do casal ainda bastante vivos. No final fica sempre
a ideia que Diane Kurys nos deixa perante uma homenagem às
qualidades e defeitos dos seus pais, quer em relação aos elementos
que conheceu sobre os mesmos, quer em relação aos pormenores que
desconhece, sabendo que acima de tudo isso estão os sentimentos que
nutre pelos mesmos e estes nutriram um pelo outro.
Título original: "Pour une Femme".
Título em Portugal: "Por Uma Mulher".
Título em inglês: "For a Woman".
Realizadora: Diane Kurys.
Argumento: Diane Kurys.
Elenco: Benoît Magimel, Mélanie Thierry, Nicolas Duvauchelle.
07 março 2015
Entrevista a Shlomi Elkabetz sobre "Gett: O Processo de Viviane Amsalem"
Esta Sexta-Feira, dia 6 de Março de 2015, tivemos a oportunidade de entrevistar Shlomi Elkabetz, o co-realizador e co-argumentista de "Gett: O Processo de Viviane Amsalem". A entrevista decorreu no 12º piso do Altis Grand Hotel, com o realizador a demonstrar uma disponibilidade assinalável e até algum bom humor a responder às questões colocadas por estes dois bloggers (Aníbal Santiago e Hugo Barcelos). Aproveitamos desde já para agradecer a disponibilidade demonstrada pela Alambique (distribuidora do filme em Portugal), pela directora da Judaica - Mostra de Cinema de Cultura e a Shlomi Elkabetz. A entrevista pode ser lida já de seguida:
Rick's Cinema: Tal como "To Take a Wife" e "The Seven Days", "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" foi realizado pelo Shlomi e pela Ronit Elkabetz, através do argumento dos próprios. Como tem sido esta colaboração profissional com a sua irmã?
Shlomi Elkabetz: Eu e a Ronit tínhamos decidido fazer um filme juntos, na altura eu estava a viver em Nova Iorque e ela em Paris, e a ideia era fazer um filme sobre um rapaz e uma rapariga, e acabou por incidir sobre a mãe de ambos que, em vários aspetos, se assemelhava à nossa mãe. Foi nela que nos inspirámos e foi uma excelente experiência. Nós dizemos sempre que nós não escrevemos “To Take a Wife”, nós basicamente “vomitámos” para o papel.
Ainda demorámos algum tempo a arranjar financiamento mas lá decidimos colaborar e, quanto mais trabalhámos no projeto, mais interessante ele se tornou, a história começou a ficar mais forte e a nossa relação mais profunda. Sempre gostámos um do outro mas isto era algo novo nas nossas vidas. Para agilizarmos o processo da escrita decidimos optar por escrever num local longe de casa, à porta fechada, por duas ou três semanas, cerca de dezasseis horas por dia; sempre no mesmo quarto, no mesmo computador, escrevíamos em papéis, improvisávamos e ensaiávamos, sem atores, connosco a interpretar todos os papéis, e discutíamos os aspetos visuais do que queríamos filmar.
Demorámos ainda cerca de dois ou três anos a preparar o filme e, quando chegámos ao set, já estávamos preparados. Alistávamos todas as opções que nos estavam disponíveis e, depois, começámos a filmar e a lidar com a realidade das filmagens – estávamos muito conectados e eu sabia quando ela estava, ou não, satisfeita, e vice-versa, e se havia alguma questão falávamos nela abertamente. Somos irmão e irmã, homem e mulher e dois realizadores. É uma relação muito complexa, mas muito boa.
RC: Para além de co-realizar e co-escrever o argumento, a Ronit ainda interpreta Viviane nos três filmes. Pode falar-nos um pouco de como é dirigir a sua irmã?
SE: A experiência mudou muito ao longo dos anos. Não é uma questão, apenas, de ser o realizador a dirigir-se à atriz; é uma questão de o irmão mais novo dela (ela tem mais dez anos do que eu) dizer-lhe o que deve fazer. No início foi bastante cansativo, muito intenso, mas não demorou muito tempo até conseguirmos falar um com o outro sobre o que queríamos e, antes do primeiro filme, já tínhamos uma maneira de nos entendermos.
Além disso, não somos o tipo de realizadores que se dirigem a um actor preocupados com as complexidades psicológicas da personagem, focamo-nos mais na silhueta. Muitas vezes, a nossa direção passava por dizer: «Olha para a direita; olha para a esquerda». Os aspectos psicológicos já constam no argumento/história. E, às vezes, quando a minha irmã me queria complicar a vida, eu dizia-lhe apenas: «Olha, se olhares para a esquerda ficas melhor, com a luz.» (Risos) Não, estou a brincar, é só uma piada! Ao trabalharmos, olhamos ainda para grande parte dos frames, e dirigimo-nos ao monitor e observamos os planos. E eu gosto muito dela e de tê-la como atriz, e adoro a sua compleição, e os seus olhos, que nos dizem tantas histórias.
RC: A cena inicial de "To Take a Wife" na qual os irmãos procuram dissuadir Viviane de se divorciar acaba por remeter para "Gett: The Trial of Viviane Amsalem". Quando começaram a desenvolver os personagens já tinham pensado neste trabalho a longo prazo?
SE: Sim, quando tivemos a ideia de escrever uma história sobre uma mulher, a primeira pergunta que colocámos a nós próprios foi: “O que é que a Viviane desejava?” E a resposta não foi: “A Viviane quer um divórcio”. A Viviane queria, acima de tudo, ter uma vida melhor e ser mais feliz com o marido. Em “Gett” é que ela quer obter o divórcio.
Já sabíamos que, eventualmente, ela iria recorrer aos tribunais. Mas, inicialmente, ela ainda tenta fazer com que as coisas resultem, e tenta obter liberdade dentro da sua casa, na sua vida familiar. Na fase seguinte, em “7 Days”, ela já aparece junto da sociedade e, em “Gett”, recorre finalmente aos tribunais, questionando: «O que podem fazer por mim?». "To Take a Wife" é muito próximo da experiência que tínhamos em casa, da nossa mãe, mas ela nunca foi para os tribunais. No caso de "Gett" assistimos a este lado da história, com a Viviane a ir do plano privado para o público.
RC: Durante a preparação do argumento do "Gett" contactaram com algumas mulheres que se tentaram divorciar com ou sem sucesso?
SE: Houve, antes, muitas mulheres que nos contactaram. Também logo depois de “Take a Wife”, muitas mulheres vieram ter connosco e dizer-nos “isto é a minha história”. E, quando “Gett” saiu, imensas mulheres nos disseram “eu sou a Viviane, esta é a minha história”.
RC: E quais foram as repercussões que "Gett" gerou em Israel, a nível da lei do divórcio?
SE: Foi fantástico. Quando estávamos à procura de trabalhos sobre este tema não encontrámos nada. Não havia nenhuma representação na cultura, na música, no cinema, ou em qualquer outra forma de arte, havia apenas uma cena num filme israelita feito nos anos 70. E perguntámo-nos como seria possível que ninguém falasse na questão do divórcio.
E antes, quando perguntávamos às pessoas o que achavam do divórcio, do “gett”, elas diziam «não sei, não sei bem» mas hoje todas têm uma opinião. Se perguntas «o que achas de as mulheres não conseguirem obter um divórcio?» elas referem imediatamente o “Gett”, o filme.
O filme foi, assim, um evento cultural, um evento político, e constituiu um movimento por si só. E foi fantástico o que aconteceu nos tribunais rabínicos, em que perguntaram aos juízes se tinham visto o filme e eles disseram que «não, não vi o filme». Mas a corrente foi muito forte e eles tiveram que respeitá-la e acabaram por ver o filme. E observaram os juízes rabínicos do filme, e nunca estavam de acordo com a sua representação. Quando lhes perguntámos sobre o que acharam, eles convocaram a imprensa e fizeram uma declaração, em que disseram que «bem, nós nunca falamos desta forma» e «nós não fazemos isto, nem aquilo», só abordando termos técnicos, mencionando ainda «nós não dizemos “fique no seu lugar”, nós dizemos “fique pelo seu lugar”». E foi essa a sua reação e, no dia seguinte, foi feito um simpósio.
Agora a produção quer voltar a exibir o filme, e nós fomos convidados, e quiseram convidar mulheres que estão nesta situação, convidaram rabinos, e é muito excitante, de certa maneira, como o filme começou a influenciar a realidade de várias formas.
RC: Uma das cenas em que despertou à atenção foi a forma como filmaram Viviane a caminhar no tribunal a focarem-se nas sapatilhas desta, um pouco a fazer recordar "The Trial of Joan of Arc" de Robert Bresson. Esta foi uma das inspirações para o vosso filme?
SE: Houve filmes que serviram mais de inspiração, como o do Carl Dreyer, com a Maria Falconetti, “A Paixão de Joana d’Arc”, e, mais tarde, de várias formas, o filme do Robert Bresson. Este filme é muito específico, e no plano de abertura vemos Joana d’Arc a entrar dentro do tribunal, e enquanto ela caminha ela está a andar em direção à liberdade, ou à morte, ou ao fogo, e aí a câmara foca os pés dela. E nós queríamos conectar todos estes filmes, e estas cenas, e trazer o realismo do tribunal para o cinema. Queríamos levá-lo de volta à história, ao cinema. Queríamos trabalhar nesta cena em que ela está com uns sapatos muito simples, com os quais tu podes caminhar para a praia tal como podes caminhar com eles para a morte. Pensámos muito se iríamos filmar a cena num plano estático ou um plano em movimento em que ela estivesse a andar. E pensámos «não, a Viviane está a progredir. Não está presa». Mesmo que ela pareça estar parada durante duas horas, ou cinco anos, ela não se está a mexer, nem a falar, mas está a progredir, e queríamos criar no filme uma sensação de que ela está a movimentar, a progredir, a avançar para a próxima etapa, e tomámos essa decisão.
RC: O próprio vestuário parece condizer muitas das vezes como o estado de espírito da Viviane. O momento em que esta aparece com um vestido vermelho parece já paradigmático do cansaço desta. Estes pormenores já estavam pensados previamente no argumento?
SE: Não, o argumento é muito simples, não escrevemos nenhumas direções, escrevíamos os diálogos e os lugares – “quarto, manhã” – não escrevemos nada, ou quase nada, sobre os estados de espírito. Como eu já referi, quando falei sobre o meu trabalho com a Ronit como realizadores, não desenvolvemos muito o aspeto psicológico das personagens, preocupámo-nos mais com a silhueta – sobre a forma do corpo, a forma como as roupas expressavam o que a personagem estava a sentir, o modo como a luz incidia sobre as roupas, como o cabelo se enquadrava com a cara – várias vezes, uma e outra vez, de muitos pontos de vista.
Uma parte muito relevante dos ensaios relaciona-se com o vestuário, em vestir cada um com as suas roupas, e ver como elas se enquadravam com o estado de espírito – «e isto vai ser azul, e isto cinzento, e isto será apertado, e isto mais solto, e o cabelo estará do lado direito, e a kippah yamaka do lado esquerdo» – e começámos a criar a imagem como um todo, e tentámos encontrar algo que despertasse a sensação mais adequada, uma sensação psicológica, e dissemos «ok, é esta a imagem», e agora, com isso, começaremos a filmar.
E, nesse momento em particular, as testemunhas começam a discutir entre si, e não compreendem o que se passa, o julgamento deixou de ser sobre o cabelo, passou a ser sobre quem é o melhor rabino. E nesse momento a Viviane começa a deixar-se ir, a sonhar, e ela não repara mas solta o cabelo, o que não lhe é permitido, e o cabelo cai, e a Viviane já não quer saber, não está para se sujeitar a estas humilhações.
RC: A entrada em cena das testemunhas por vezes traz um tom cómico ao filme devido ao absurdo das situações. Tomaram como um risco juntar humor a um filme tão intenso do ponto de vista emocional?
SE: Não sei se foi um risco, mas digo-vos uma coisa. Quando escrevemos o argumento estávamos a rirmo-nos tanto… no momento em que entrou a primeira testemunha, começámo-nos a rir. A partir do momento em que se senta, o irmão da Viviane, começa por defendê-la, mas imediatamente toma o partido do marido dela. E no momento da escrita em que isso aconteceu dissemos: «ok, este é o palhaço a ir ao tribunal, e a começar a fazer o seu pequeno espetáculo». E esse momento aconteceu, durante a escrita, e pensámos muito nisto, e foi difícil para a Viviane lidar com este personagem inicialmente gentil, que subitamente se torna inflexível.
RC: Embora "Gett" seja um filme que resulta de forma individual, ao assistirmos a "To Take a Wife" ficamos perante a diluição do casamento na prática e a forma como afecta os filhos, em "Seven Days" já encontramos Viviane e Elisha separados. No terceiro filme assistimos à luta de Viviane para conseguir o divórcio. Pode falar-nos um pouco do processo de criar uma continuidade entre estes três filmes ao longo do tempo, e estará disponível para realizar um quarto filme?
SE: No primeiro filme, eu e a Ronit estávamos presos. No segundo, saímos para a sociedade e, não tendo arranjado uma solução, no terceiro filme recorremos à Lei, ao Estado, e pedimos lá a nossa liberdade. Agora, estamos livres. Estamos livres, em vários sentidos. Por isso, agora seria interessante vermos o que vamos fazer com a nossa liberdade, e poderíamos realizar um filme – o que estamos a fazer com a nossa liberdade? Um filme novo centrar-se-ia, então, na nova vida de Viviane. Como iria ela lidar com a liberdade? O que iria ela fazer num mundo em que está em liberdade? Porque ela não se lembra do que é a liberdade. Ela nasceu livre, mas depois foi trancada, numa fase inicial da sua vida. Penso que seria muito interessante vê-la num quarto filme.
RC: Tendo em conta o sucesso que o filme alcançou não apenas em Israel mas no estrangeiro, já recebeu propostas para realizar em Hollywood? É algo que lhe agrada ou estaria preocupado por uma eventual perda de liberdade que isso implicasse?
SE: Boa pergunta. A última pergunta é uma grande pergunta! (Risos). Eu sinto-me livre, de qualquer maneira, por isso penso que será apenas uma questão de encontrar uma boa história. Eu tirei algum tempo para mim depois de “Gett”, cerca de dois meses, e conheci algumas excelentes pessoas, e produtoras, por isso, se encontrar uma boa história, porque não? Se não encontrar uma boa história, então farei outra coisa. Porque eu tenho excelentes histórias para o cinema israelita. Eu adoro-as. Se encontrar uma boa história, na qual tenha alguma coisa para dizer, então será uma possibilidade.
Rick's Cinema: Tal como "To Take a Wife" e "The Seven Days", "Gett: The Trial of Viviane Amsalem" foi realizado pelo Shlomi e pela Ronit Elkabetz, através do argumento dos próprios. Como tem sido esta colaboração profissional com a sua irmã?
Shlomi Elkabetz: Eu e a Ronit tínhamos decidido fazer um filme juntos, na altura eu estava a viver em Nova Iorque e ela em Paris, e a ideia era fazer um filme sobre um rapaz e uma rapariga, e acabou por incidir sobre a mãe de ambos que, em vários aspetos, se assemelhava à nossa mãe. Foi nela que nos inspirámos e foi uma excelente experiência. Nós dizemos sempre que nós não escrevemos “To Take a Wife”, nós basicamente “vomitámos” para o papel.
Ainda demorámos algum tempo a arranjar financiamento mas lá decidimos colaborar e, quanto mais trabalhámos no projeto, mais interessante ele se tornou, a história começou a ficar mais forte e a nossa relação mais profunda. Sempre gostámos um do outro mas isto era algo novo nas nossas vidas. Para agilizarmos o processo da escrita decidimos optar por escrever num local longe de casa, à porta fechada, por duas ou três semanas, cerca de dezasseis horas por dia; sempre no mesmo quarto, no mesmo computador, escrevíamos em papéis, improvisávamos e ensaiávamos, sem atores, connosco a interpretar todos os papéis, e discutíamos os aspetos visuais do que queríamos filmar.
Demorámos ainda cerca de dois ou três anos a preparar o filme e, quando chegámos ao set, já estávamos preparados. Alistávamos todas as opções que nos estavam disponíveis e, depois, começámos a filmar e a lidar com a realidade das filmagens – estávamos muito conectados e eu sabia quando ela estava, ou não, satisfeita, e vice-versa, e se havia alguma questão falávamos nela abertamente. Somos irmão e irmã, homem e mulher e dois realizadores. É uma relação muito complexa, mas muito boa.
RC: Para além de co-realizar e co-escrever o argumento, a Ronit ainda interpreta Viviane nos três filmes. Pode falar-nos um pouco de como é dirigir a sua irmã?
SE: A experiência mudou muito ao longo dos anos. Não é uma questão, apenas, de ser o realizador a dirigir-se à atriz; é uma questão de o irmão mais novo dela (ela tem mais dez anos do que eu) dizer-lhe o que deve fazer. No início foi bastante cansativo, muito intenso, mas não demorou muito tempo até conseguirmos falar um com o outro sobre o que queríamos e, antes do primeiro filme, já tínhamos uma maneira de nos entendermos.
Além disso, não somos o tipo de realizadores que se dirigem a um actor preocupados com as complexidades psicológicas da personagem, focamo-nos mais na silhueta. Muitas vezes, a nossa direção passava por dizer: «Olha para a direita; olha para a esquerda». Os aspectos psicológicos já constam no argumento/história. E, às vezes, quando a minha irmã me queria complicar a vida, eu dizia-lhe apenas: «Olha, se olhares para a esquerda ficas melhor, com a luz.» (Risos) Não, estou a brincar, é só uma piada! Ao trabalharmos, olhamos ainda para grande parte dos frames, e dirigimo-nos ao monitor e observamos os planos. E eu gosto muito dela e de tê-la como atriz, e adoro a sua compleição, e os seus olhos, que nos dizem tantas histórias.
RC: A cena inicial de "To Take a Wife" na qual os irmãos procuram dissuadir Viviane de se divorciar acaba por remeter para "Gett: The Trial of Viviane Amsalem". Quando começaram a desenvolver os personagens já tinham pensado neste trabalho a longo prazo?
SE: Sim, quando tivemos a ideia de escrever uma história sobre uma mulher, a primeira pergunta que colocámos a nós próprios foi: “O que é que a Viviane desejava?” E a resposta não foi: “A Viviane quer um divórcio”. A Viviane queria, acima de tudo, ter uma vida melhor e ser mais feliz com o marido. Em “Gett” é que ela quer obter o divórcio.
Já sabíamos que, eventualmente, ela iria recorrer aos tribunais. Mas, inicialmente, ela ainda tenta fazer com que as coisas resultem, e tenta obter liberdade dentro da sua casa, na sua vida familiar. Na fase seguinte, em “7 Days”, ela já aparece junto da sociedade e, em “Gett”, recorre finalmente aos tribunais, questionando: «O que podem fazer por mim?». "To Take a Wife" é muito próximo da experiência que tínhamos em casa, da nossa mãe, mas ela nunca foi para os tribunais. No caso de "Gett" assistimos a este lado da história, com a Viviane a ir do plano privado para o público.
RC: Durante a preparação do argumento do "Gett" contactaram com algumas mulheres que se tentaram divorciar com ou sem sucesso?
SE: Houve, antes, muitas mulheres que nos contactaram. Também logo depois de “Take a Wife”, muitas mulheres vieram ter connosco e dizer-nos “isto é a minha história”. E, quando “Gett” saiu, imensas mulheres nos disseram “eu sou a Viviane, esta é a minha história”.
RC: E quais foram as repercussões que "Gett" gerou em Israel, a nível da lei do divórcio?
SE: Foi fantástico. Quando estávamos à procura de trabalhos sobre este tema não encontrámos nada. Não havia nenhuma representação na cultura, na música, no cinema, ou em qualquer outra forma de arte, havia apenas uma cena num filme israelita feito nos anos 70. E perguntámo-nos como seria possível que ninguém falasse na questão do divórcio.
E antes, quando perguntávamos às pessoas o que achavam do divórcio, do “gett”, elas diziam «não sei, não sei bem» mas hoje todas têm uma opinião. Se perguntas «o que achas de as mulheres não conseguirem obter um divórcio?» elas referem imediatamente o “Gett”, o filme.
O filme foi, assim, um evento cultural, um evento político, e constituiu um movimento por si só. E foi fantástico o que aconteceu nos tribunais rabínicos, em que perguntaram aos juízes se tinham visto o filme e eles disseram que «não, não vi o filme». Mas a corrente foi muito forte e eles tiveram que respeitá-la e acabaram por ver o filme. E observaram os juízes rabínicos do filme, e nunca estavam de acordo com a sua representação. Quando lhes perguntámos sobre o que acharam, eles convocaram a imprensa e fizeram uma declaração, em que disseram que «bem, nós nunca falamos desta forma» e «nós não fazemos isto, nem aquilo», só abordando termos técnicos, mencionando ainda «nós não dizemos “fique no seu lugar”, nós dizemos “fique pelo seu lugar”». E foi essa a sua reação e, no dia seguinte, foi feito um simpósio.
Agora a produção quer voltar a exibir o filme, e nós fomos convidados, e quiseram convidar mulheres que estão nesta situação, convidaram rabinos, e é muito excitante, de certa maneira, como o filme começou a influenciar a realidade de várias formas.
RC: Uma das cenas em que despertou à atenção foi a forma como filmaram Viviane a caminhar no tribunal a focarem-se nas sapatilhas desta, um pouco a fazer recordar "The Trial of Joan of Arc" de Robert Bresson. Esta foi uma das inspirações para o vosso filme?
SE: Houve filmes que serviram mais de inspiração, como o do Carl Dreyer, com a Maria Falconetti, “A Paixão de Joana d’Arc”, e, mais tarde, de várias formas, o filme do Robert Bresson. Este filme é muito específico, e no plano de abertura vemos Joana d’Arc a entrar dentro do tribunal, e enquanto ela caminha ela está a andar em direção à liberdade, ou à morte, ou ao fogo, e aí a câmara foca os pés dela. E nós queríamos conectar todos estes filmes, e estas cenas, e trazer o realismo do tribunal para o cinema. Queríamos levá-lo de volta à história, ao cinema. Queríamos trabalhar nesta cena em que ela está com uns sapatos muito simples, com os quais tu podes caminhar para a praia tal como podes caminhar com eles para a morte. Pensámos muito se iríamos filmar a cena num plano estático ou um plano em movimento em que ela estivesse a andar. E pensámos «não, a Viviane está a progredir. Não está presa». Mesmo que ela pareça estar parada durante duas horas, ou cinco anos, ela não se está a mexer, nem a falar, mas está a progredir, e queríamos criar no filme uma sensação de que ela está a movimentar, a progredir, a avançar para a próxima etapa, e tomámos essa decisão.
RC: O próprio vestuário parece condizer muitas das vezes como o estado de espírito da Viviane. O momento em que esta aparece com um vestido vermelho parece já paradigmático do cansaço desta. Estes pormenores já estavam pensados previamente no argumento?
SE: Não, o argumento é muito simples, não escrevemos nenhumas direções, escrevíamos os diálogos e os lugares – “quarto, manhã” – não escrevemos nada, ou quase nada, sobre os estados de espírito. Como eu já referi, quando falei sobre o meu trabalho com a Ronit como realizadores, não desenvolvemos muito o aspeto psicológico das personagens, preocupámo-nos mais com a silhueta – sobre a forma do corpo, a forma como as roupas expressavam o que a personagem estava a sentir, o modo como a luz incidia sobre as roupas, como o cabelo se enquadrava com a cara – várias vezes, uma e outra vez, de muitos pontos de vista.
Uma parte muito relevante dos ensaios relaciona-se com o vestuário, em vestir cada um com as suas roupas, e ver como elas se enquadravam com o estado de espírito – «e isto vai ser azul, e isto cinzento, e isto será apertado, e isto mais solto, e o cabelo estará do lado direito, e a kippah yamaka do lado esquerdo» – e começámos a criar a imagem como um todo, e tentámos encontrar algo que despertasse a sensação mais adequada, uma sensação psicológica, e dissemos «ok, é esta a imagem», e agora, com isso, começaremos a filmar.
E, nesse momento em particular, as testemunhas começam a discutir entre si, e não compreendem o que se passa, o julgamento deixou de ser sobre o cabelo, passou a ser sobre quem é o melhor rabino. E nesse momento a Viviane começa a deixar-se ir, a sonhar, e ela não repara mas solta o cabelo, o que não lhe é permitido, e o cabelo cai, e a Viviane já não quer saber, não está para se sujeitar a estas humilhações.
RC: A entrada em cena das testemunhas por vezes traz um tom cómico ao filme devido ao absurdo das situações. Tomaram como um risco juntar humor a um filme tão intenso do ponto de vista emocional?
SE: Não sei se foi um risco, mas digo-vos uma coisa. Quando escrevemos o argumento estávamos a rirmo-nos tanto… no momento em que entrou a primeira testemunha, começámo-nos a rir. A partir do momento em que se senta, o irmão da Viviane, começa por defendê-la, mas imediatamente toma o partido do marido dela. E no momento da escrita em que isso aconteceu dissemos: «ok, este é o palhaço a ir ao tribunal, e a começar a fazer o seu pequeno espetáculo». E esse momento aconteceu, durante a escrita, e pensámos muito nisto, e foi difícil para a Viviane lidar com este personagem inicialmente gentil, que subitamente se torna inflexível.
RC: Embora "Gett" seja um filme que resulta de forma individual, ao assistirmos a "To Take a Wife" ficamos perante a diluição do casamento na prática e a forma como afecta os filhos, em "Seven Days" já encontramos Viviane e Elisha separados. No terceiro filme assistimos à luta de Viviane para conseguir o divórcio. Pode falar-nos um pouco do processo de criar uma continuidade entre estes três filmes ao longo do tempo, e estará disponível para realizar um quarto filme?
SE: No primeiro filme, eu e a Ronit estávamos presos. No segundo, saímos para a sociedade e, não tendo arranjado uma solução, no terceiro filme recorremos à Lei, ao Estado, e pedimos lá a nossa liberdade. Agora, estamos livres. Estamos livres, em vários sentidos. Por isso, agora seria interessante vermos o que vamos fazer com a nossa liberdade, e poderíamos realizar um filme – o que estamos a fazer com a nossa liberdade? Um filme novo centrar-se-ia, então, na nova vida de Viviane. Como iria ela lidar com a liberdade? O que iria ela fazer num mundo em que está em liberdade? Porque ela não se lembra do que é a liberdade. Ela nasceu livre, mas depois foi trancada, numa fase inicial da sua vida. Penso que seria muito interessante vê-la num quarto filme.
RC: Tendo em conta o sucesso que o filme alcançou não apenas em Israel mas no estrangeiro, já recebeu propostas para realizar em Hollywood? É algo que lhe agrada ou estaria preocupado por uma eventual perda de liberdade que isso implicasse?
SE: Boa pergunta. A última pergunta é uma grande pergunta! (Risos). Eu sinto-me livre, de qualquer maneira, por isso penso que será apenas uma questão de encontrar uma boa história. Eu tirei algum tempo para mim depois de “Gett”, cerca de dois meses, e conheci algumas excelentes pessoas, e produtoras, por isso, se encontrar uma boa história, porque não? Se não encontrar uma boa história, então farei outra coisa. Porque eu tenho excelentes histórias para o cinema israelita. Eu adoro-as. Se encontrar uma boa história, na qual tenha alguma coisa para dizer, então será uma possibilidade.
06 março 2015
Resenha Crítica: "Esclavo de Dios" (Escravo de Deus)
"Esclavo de Dios" de Joel Novoa procura problematizar a questão do
fundamentalismo islâmico através do seu protagonista, Ahmed
(Mohammed Al Khaldi), ao mesmo tempo que nos apresenta a um enredo
que teve como base um atentado real causado em Buenos Aires, na
Argentina, em 1994. Um dos elementos que mais sobressaem ao longo de
"Esclavo de Dios" centra-se na procura de Joel Novoa em
analisar a psicologia e evolução comportamental de Ahmed, um
fundamentalista islâmico que se depara com uma encruzilhada quando é
chegada a hora de sacrificar a sua vida. Este é um indivíduo que é
treinado desde jovem para ser um mártir, após o seu pai ter sido
assassinado. No início do filme encontramos Ahmed, ainda jovem,
acompanhado pelo seu pai, com este último a ser morto, um acto que
ocorre no fora de campo, com Joel Novoa a preferir deixar-nos diante
do rosto do jovem perante a morte do progenitor, quando ambos
habitavam no Líbano. O enredo logo avança para Janeiro de 1990, em
Caracas, na Venezuela, onde Ahmed se encontra com Salim (Fayez Ajwad
Amd), o seu mentor e contacto, que o instiga a estabelecer a vida por
lá e casar-se, sempre sem contar a ninguém a sua verdadeira
identidade, até ser chamado para cumprir a sua missão. Nesse
sentido, é atribuída documentação falsa a Ahmed que lhe permite
ficar com o nome de Javier Hattar, para além de lhe ser dado
dinheiro e um emprego como cirurgião num hospital proeminente. A
narrativa avança de forma rápida para 1994, expondo alguns momentos
de Ahmed com Ines (Daniela Alvarado), desde o namoro ao casamento,
bem como com o filho de ambos, de dois anos de idade. A marcar este
avanço temporal encontram-se as instruções de Salim, com a
narração deste a servir como meio de ligar os diferentes períodos
temporais, para além de surgir como explicação óbvia para os
actos do protagonista. Ahmed é uma das figuras centrais de "Esclavo
de Dios" a par de David (Vando Villamil), um agente da Mossad
que se encontra a trabalhar na Embaixada de Israel em Buenos Aires.
Tal como Ahmed, David perdeu um familiar na sua juventude devido a
assassinato, nomeadamente o tio, com estes episódios a marcarem a
existência de ambos durante a idade adulta. David é-nos apresentado
como um agente frio e meticuloso, disposto a tudo para travar as
intenções terroristas na área que lhe é designada. A dedicação
ao trabalho parece afectar o seu quotidiano com a esposa e a filha,
com a primeira a pretender abandonar a casa. É nos momentos iniciais
que vemos os elementos da Mossad a eliminarem um indivíduo,
supostamente sírio, traficante de droga, que se encontrava em fuga.
David não fica perturbado pela morte deste, mas sim pelo facto do
suposto criminoso já não poder falar e ceder informações que
poderiam ser revelantes. Embora apenas se cruzem pessoalmente a meio
do filme, o quotidiano de David e Ahmed vai estar mais próximo do
que ambos podem pensar, com o personagem interpretado por Mohammed
Alkhaldi a participar na célula que o agente pretende travar. Ahmed
é designado, bem como outros terroristas islâmicos, para se
deslocar à Argentina, em particular para Buenos Aires, tendo em
vista a praticarem uma série de atentados anti-judaicos. Este
instalam-se num local onde convivem, espelham a sua confiança e fé,
e no caso de um personagem mais jovem alguns dos seus receios,
enquanto aguardam pela chegada da hora de sacrificarem a sua vida em
nome de Alá.
Ahmed parece inicialmente convicto dos
seus propósitos na vida, incluindo quando festeja como se fosse um
adepto de futebol o sucesso de um colega no atentado à Asociación
Mutual Israelita Argentina, algo que resulta no assassinato de
oitenta e cinco pessoas. Tal como nos assassinatos dos pais de Ahmed
e David, o atentado, baseado num caso real, não é exposto,
com este a ocorrer no fora de campo, até as suas consequências
serem exibidas. A
sonoplastia exacerba o som da explosão que ocorre enquanto David
estava no café, num episódio que coloca a sua posição em risco na
Mossad, mas nem por isso retira vontade deste em desmantelar de uma
vez por todas a rede de terroristas. David é um indivíduo judeu que vive
para a sua profissão, apresentando crenças aparentemente distintas do personagem interpretado por Mohammed Alkhaldi. Ahmed parece alguém que sempre esteve
consciente dos propósitos para os quais foi treinado embora, apesar
do argumento nem sempre explorar a sua relação familiar, pareça
demasiado preso aos laços que criou com a mulher e o filho. Quando
chega a vez de Ahmed a ter de cometer um acto terrorista, as dúvidas
começam a surgir junto deste homem. Reza, pede forças, mas apenas
surgem na sua memória a mulher e o filho, começando a questionar-se
sobre quase tudo aquilo em que acreditava, algo que vai colocar a sua
vida e da sua família em perigo. Mohammed Al Khaldi destaca-se a
interpretar este personagem complexo, de poucas falas e aparentemente
seguro em relação aos seus actos, que aos poucos começa a duvidar
do seu papel no interior da célula terrorista na qual se encontra
integrado. A certa altura salienta bem alto que não é Alá que lhe
pede para explodir com o seu corpo e uma sinagoga mas sim os
elementos do grupo, com "Esclavo de Dios" a finalmente a
revelar a sua faceta e atribuir uma maior complexidade e alguma
polémica à temática que aborda. Seria certamente mais fácil para
Joel Novoa representar um agente da Mossad a liderar uma equipa
contra elementos fundamentalistas islâmicos unidimensionais que
apenas pensam em matar. Também os representa mas procura demonstrar
que nem todos os islâmicos são terroristas e mesmo no seio dos mais
fundamentalistas pode existir espaço a um questionamento inesperado.
É uma procura do cineasta em abordar que nem tudo na vida é a preto
e branco, ou se preferirem nem tudo é linear, problematizando uma
temática polémica ao mesmo tempo que enriquece um enredo onde
muitas das vezes se pedia mais desenvolvimento das relações entre
Ahmed e David e as respectivas famílias. É certo que as relações
familiares são representadas, mas pedia-se um pouco mais de
desenvolvimento e problematização sobretudo para expor as razões
para a mulher e o filho terem uma relevância tão grande junto do
protagonista, quando este sabia que mais cedo ou mais tarde iria ser
chamado para sacrificar a sua vida em nome da causa. Os momentos de
Ahmed com a esposa são muitas das vezes marcados por silêncios, com
"Esclavo de Dios" a exacerbar antes os gestos trocados
entre ambos, parecendo existir alguma intimidade entre o casal,
embora estas sequências percam impacto devido à falta de exploração
da vida do personagem em família. Se Mohammed Al Khaldi sobressai
pelas dúvidas que incute no seu personagem, um indivíduo treinado
para matar, construir aparelhos explosivos e respeitar Alá, já
Vando Villamil consegue expressar a obstinação de David no
cumprimento das suas missões. É um elemento que vive para o
trabalho, mesmo que para isso tenha de matar e colocar a sua
existência em perigo.
Enquanto Ahmed fundamenta as suas acções
pela sua devoção a Alá, David procura acima de tudo ser
competente. Ambos apresentam problemas nas suas vidas pessoais que os
vão afectar a nível profissional, ainda que de forma distinta, com
Ahmed a questionar toda a sua missão. Ahmed encontra-se longe de ser
um indivíduo fundamentalista como Salim, um elemento procurado pela
Mossad que tenta conquistar elementos para o interior da célula
terrorista. A casa de Salim, em Caracas, é reveladora da
prosperidade que este terrorista alcançou, marcada por diversos
quadros e um enorme espaço, cabendo a este coordenar os elementos do
grupo à distância, pedindo que façam os sacrifícios em nome de
Alá embora o próprio esteja longe de pretender colocar em prática
os mesmos. Ficamos perante um certo cinismo, com o fundamentalismo de
muitos indivíduos a surgir como um meio para colocarem em prática
actos que pertencem a uma agenda que pouco está ligada com a
religião, algo que aos poucos o protagonista começa a perceber.
Joel Novoa embrenha-se por uma temática polémica abraçando a mesma
com enorme à vontade, criando um universo narrativo relativamente
credível, marcado por dois personagens principais com algum carisma.
Mohammed Al Khaldi e Vando Villamil conseguem convencer como estes
dois personagens em lados opostos da barricada, com o último terço
a ser marcado por um adensar da tensão em volta dos acontecimentos
que envolvem o enredo, algo que é incrementado pela cinematografia.
Ahmed terá de escolher entre a família e cometer suicídio, algo
que implicará ter de entrar em fuga do grupo extremista no qual está
inserido e das autoridades. David quer de uma vez por todas travar
esta célula terrorista, com Ahmed a ser uma peça importante no
tabuleiro deste jogo onde dificilmente existirão vencedores e
derrotados definitivos. A temática do terrorismo e do
fundamentalismo é algo que infelizmente continua bastante actual e
na ordem do dia e não parece tão depressa ter um fim à vista.
"Esclavo de Dios" procura explorar um pouco a complexidade
destas pequenas células, compostas por elementos oriundos e
instalados em diferentes locais, algo que torna a sua localização
muitas das vezes difícil de rastrear. No caso do enredo de "Esclavo
de Dios", este é inspirado num episódio real ocorrido na
Argentina em 1994, com Joel Novoa a procurar explorar o lado da
célula terrorista e da Mossad através da dupla de protagonistas.
Curiosamente, ou talvez não, o caso retratado ganhou uma relevância
extrema não só pelas notícias de ataques terroristas como ao
Charlie Hebdo que têm chocado o Mundo, mas também pela morte de
Alberto Nisman, em Janeiro de 2015. Nisman foi um procurador
argentino que acusou a Presidente Cristina Fernández de Kirchner de
ter encoberto a responsabilidade do Irão no ataque terrorista, algo
que ganhou contornos ainda mais polémicos devido a ter aparecido
morto na banheira da sua casa, devido a um tiro na cabeça. Este terá
alegadamente sido assassinado quando procurava levantar questões
sobre um caso que resultou em oitenta e cinco mortes (vale
a pena darem uma leitura pela notícia completa).
O caso atribui ainda uma maior e
inesperada relevância ao filme, com Joel Novoa a apresentar alguns
pormenores bastante interessantes para um estreante em
longas-metragens. O cineasta já contava com experiência na
realização de curtas-metragens, bem como na função de director
assistente, elaborando um thriller a espaços intenso que aborda um
tema ainda quente na Argentina, ao mesmo tempo que nos deixa diante
de um protagonista que foge ao estereótipo de terrorista
unidimensional que muitas das vezes surge como antagonista dos
filmes. Ahmed surge inicialmente como um elemento pronto para morrer
e encontrar a "felicidade" na outra fase da sua vida, mas a
ligação com a mulher e a filha, bem como a sua consciência,
levam-no a questionar os actos que se prepara para praticar
supostamente em nome de Alá. Este surge como uma excepção, com os
seus colegas a considerarem-no um traidor, mas um dos méritos de
"Esclavo de Dios" passa exactamente por exibir um indivíduo
que prefere seguir aquilo que acredita e não aqueles que procuram
ordenar atentados. É óbvio que também ficamos diante de alguns
terroristas prontos a sacrificarem as suas vidas para defenderem os
seus ideais religiosos, ou melhor, a vontade dos seus líderes. Se
"Esclavo de Dios" acerta na exploração do dilema moral do
protagonista e na sua representação, o mesmo não acontece em
situações onde o argumento parece mal amarrado. A relação de
Ahmed com a esposa e a filha é uma dessas situações, para além de
nunca ficarmos com justificações plausíveis para a forma como este
conseguiu abandonar repentinamente o trabalho e a sua vida em
Caracas. Diga-se que o quotidiano do protagonista em Caracas pouco é
aproveitado, tal como a sua função de médico pouco é explorada.
Mesmo a relação de David com a esposa e a filha surge representada
de forma bastante pueril, algo que a ter sido abordado com mais
densidade teria atribuído uma maior espessura à narrativa. Não são
elementos que vão afectar a temática central do filme mas
certamente iriam atribuir maior densidade à mesma, com Joel Novoa a
conseguir entroncar com sucesso os elementos ficcionais com o
contexto histórico que rodeava o território de Buenos Aires.
Veja-se desde logo a presença da Mossad para travar os terroristas,
com o ataque planeado por Ahmed a ser ficcional, embora o atentado à
Asociación Mutual Israelita Argentina seja baseado num caso
verídico. A própria investigação desenvolvida pela Mossad é
apresentada com alguma credibilidade, com o protagonista a chegar a
procurar utilizar a imprensa para conseguir travar novos ataques
terroristas, conhecendo uma série de elementos perigosos que podem
colocar em perigo a segurança no território. Vale ainda a pena
realçar pequenos pormenores como a gravação dos vídeos por parte
dos terroristas antes dos ataques, com "Esclavo de Dios" a
procurar expor estes momentos com algum realismo, tal como procura
explorar o funcionamento de uma célula criminosa no interior de um
espaço citadino e as constantes preocupações em escaparem às
autoridades. As cenas de maior acção são filmadas com acerto,
sobressaindo desde logo a perseguição que resulta na morte do
criminoso no primeiro terço do filme, para além do intenso final
onde não vão faltar tiros, mortes e decisões inesperadas. Entre
fundamentalistas islâmicos que preparam ataques contra judeus, um
terrorista que recua nas suas intenções e um agente da Mossad
aparentemente inflexível, "Esclavo de Dios" mescla
elementos de policial com drama, ao mesmo tempo que aborda de forma
fluída temáticas que são bastante polémicas e extremamente
actuais.
Título original: "Esclavo de Dios".
Título em Portugal: "Escravo de Deus".
Título em inglês: "God's Slave".
Realizador: Joel Novoa.
Argumento: Fernando Butazzoni.
Elenco: Mohammed Alkhaldi, Vando Villamil, Daniela Alvarado.
Elenco: Mohammed Alkhaldi, Vando Villamil, Daniela Alvarado.
05 março 2015
Resenha Crítica: "Make Hummus Not War" (Faça Hummus, Não Guerra)
Num tom algo
informal, bem humorado e capaz de abordar temáticas sérias com uma
enorme leveza, "Make Hummus Not War" remete-nos para o
conflito entre o Líbano, Israel e a Palestina sobre a origem do hummus, um prato típico do Médio Oriente, feito à base de
grão-de-bico cozido e espremido, tahini, azeite, sumo de limão, sal
e alho. Qual a origem do húmus? Os Libaneses afirmam que é do seu
país, os Israelitas também e os Palestinianos vão no mesmo
caminho. Estas são nações em conflito, não tendo problemas em
efectuar acusações de parte a parte, embora estejam unidas pelo
gosto em relação ao hummus. Também Trevor Graham, o realizador do
documentário, é um adepto deste prato, desde que conheceu uma jovem
judia na sua juventude com quem manteve uma relação amorosa que
falhou passado algum tempo, procurando embrenhar-se por estes três
países, enquanto entrevista várias pessoas, apresenta-nos episódios
algo caricatos e exibe que os conflitos seriam muito melhores se
ficassem apenas pelo campo gastronómico. O caso extrapola e muito a
esfera política, cultural e social, existindo todo um interesse
económico, com o facto de Israel ter começado a exportar este prato
como se tivesse sido inventado no país a ter permitido uma maior
valorização a nível de mercado ao produto, algo que gerou alguma
comoção no Líbano, uma situação que fica latente no discurso de
Fadi Abboub, Ministro para o Turismo deste país, uma voz activa na
disputa pela origem do hummus. Fadi Abboub é um dos vários
elementos que presta depoimento ao longo de "Make Hummus Not
War", enquanto Trevor Graham deixa-nos perante alguns elementos
sobre as fundações destas nações e dos conflitos e rivalidades
entre as mesmas, sempre num tom muito particular, mesclando pelo meio
assuntos sobre a sua vida pessoal que o levaram a interessar-se pela
temática e a ser um fã de hummus. Diga-se que este é um
documentário que nos faz despertar o apetite, com Graham a viajar
pelo Líbano, Israel e Palestina, onde visita alguns restaurantes e
prova os diversos pratos de húmus, com cada elemento a salientar que
o seu é o melhor. Existe algum humor e leveza nos
discursos, algo visível em elementos como Meir Micha, o dono do
Restaurante Pinati em Israel, Ghaleb Zhadeh, o dono do Lina Café na
Palestina, ou Ruth Tavour, a co-proprietária do Hummus Ashkara, um
restaurante de Tel Aviv, entre outras figuras que povoam o
documentário. Ruth chega a salientar que pouco se interessa sobre a
origem do hummus, interessando-se mesmo é em cozinhar o mesmo e
vender o "melhor" da região. Já elementos como o citado
Fadi Abboub, ou Hanan Daoud Khalil Ashrawi, uma legisladora conhecida
pelo seu trabalho na Organização para a Libertação da Palestina,
parecem levar o caso mais a sério, encarando-o quase como uma
afronta por parte de Israel. Este conflito conduziu a que, em Janeiro
de 2010, Israel preparasse um prato gigante de hummus para bater um
record no guiness, ultrapassando o record estabelecido pelo Líbano.
Por sua vez, os Libaneses não se quiseram ficar atrás, pelo que em
Maio de 2010, em Al-Fanar, elaboraram um prato que duplicou o tamanho
daquele que fora apresentado pelos israelitas. É um conflito que
ganha contornos caricatos e políticos, embora seja bem mais saudável
esta disputa do que aquela efectuada com armas e violência.
Todo o tom do documentário vai
exactamente ao encontro do título "Faça Hummus, Não
Guerra", com Trevor Graham, um cineasta australiano, a parecer
acreditar no poder deste prato para despertar "o amor"
entre nações em conflito. O cineasta apresenta sempre um tom muito
pessoal, não tendo problemas em expor alguns antigos casos amorosos,
reunir imagens de filmes épicos que lhe deixaram marca, ao mesmo
tempo que nos deixa perante uma temática interessante, exposta de
forma divertida e leve, sem fugir aos elementos políticos ainda que
o propósito principal seja sempre o hummus. Não só o hummus mas
também aqueles que ganham a vida a cozinhar, apreciar e estudar o
mesmo, com o documentário a expor que existe algo que reúne todos
estes elementos: o gosto por este prato típico do Médio Oriente. Pelo meio percebemos que
existem interesses comerciais por parte dos vários envolvidos, com a
exportação de hummus fabricado de forma industrial por parte de
Israel a surgir como um negócio cada vez mais em expansão, algo que
certamente também agradaria a outras nações. No seu comentário
relacionado com a elaboração do documentário, Trevor Graham
comentou "I wanted to make a charming portrait, without taking
sides, to examine the hummus conflict in Israel, Lebanon and
Palestine from the point of view of these peoples' first shared love:
chickpeas. Humour from both sides of the 'plate' was the number one
ingredient". Não falta humor ao documentário, mas também uma
procura em explorar as origens do hummus, as relações complicadas
entre as nações, sempre com uma enorme leveza que não deve ser
confundida com falta de conteúdo. É que neste tom leve, meio a
brincar, Trevor Graham acaba por expor que uma disputa pela origem de
um prato gastronómico logo ganha proporções gigantescas perante
estas nações, ao mesmo tempo que nos deixa diante de um
documentário marcado por depoimentos diversificados que enriquecem e
muito "Make Hummus Not War". Diga-se que estes comentários
são mesmo essenciais, algo que permite vermos o empenho dos donos
dos restaurantes, o trabalho dos políticos, mas também algum
ressentimento de parte a parte, enquanto o cineasta questiona se o
hummus pode ser a receita para a paz no Médio Oriente. É provável
que não, mas não deixaria de ser aprazível ver todos os conflitos
resolvidos à mesa perante um bom prato de hummus, ao invés de
confrontos violentos que não levam a lado nenhum e perpetuam-se no
tempo sem solução à vista. Como salienta o título do
documentário, dediquem-se a fazer hummus e não a guerra, todos
sairiam a ganhar com isso. Marcado por bom humor e depoimentos
interessantes, "Make Hummus Not War" apresenta-nos às
disputas pela origem da receita do título, mas também a três nações
em conflito, sempre com algum optimismo e muito amor pelo hummus.
Título original: "Make Hummus Not War".
Realizador: Trevor Graham.
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