26 janeiro 2020

No quarto de Greta Gerwig

 As regras de bom senso e o pragmatismo dizem que não devemos começar um texto com uma citação muito longa. Deixemos estes dois nossos amigos temporariamente de lado para mencionar uma fala proferida por Amy (Florence Pugh), a mais jovem das irmãs March, durante um momento de enorme impacto de "Little Women": "I'm not a poet, I'm just a woman. And as a woman I have no way to make money, not enough to earn a living and support my family. Even if I had my own money, which I don't, it would belong to my husband the minute we were married. If we had children they would belong to him not me. They would be his property. So don't sit there and tell me that marriage isn't an economic proposition, because it is (...)". A fala remete para a condição de enorme fragilidade em que se encontra a mulher no período em que se desenrola o enredo, em particular, durante a Guerra da Secessão, bem como para o modo como o casamento era encarado. Diga-se que este trecho dialoga e muito com uma fala proferida por Jo (Saoirse Ronan) durante uma fase mais adiantada da trama: "Women, they have minds, and they have souls, as well as just hearts. And they've got ambition, and they've got talent, as well as just beauty. I'm so sick of people saying that love is just all a woman is fit for". Florence Pugh e Saoirse Ronan incutem sentimento e espessura a estes momentos, enquanto Greta Gerwig aproveita o passado para comentar o presente e problematizar o que é ser mulher, a luta destas para se afirmarem no interior de uma sociedade que teima em condicionar a sua acção e o papel do dinheiro para essa afirmação.

Ao terminarmos de visionar a nova adaptação de "Little Women" é particularmente notório que a realizadora e argumentista admira e entende aquilo que está a transportar para o grande ecrã. Essa admiração e esse conhecimento do material de origem contribuem e muito para a assertividade com que a cineasta comenta o livro e o contexto em que este foi escrito e publicado, bem como para desconstruir a sua estrutura e criar um filme dinâmico, dotado de uma enorme sensibilidade e de uma assinalável capacidade de aquecer o mais gélido dos corações. Ao contrário da adaptação realizada por Gillian Armstrong, Greta Gerwig não segue a estrutura de "Little Women" e de "Good Wives", a sua continuação. Nesse sentido, é o segundo volume que serve de ponto de partida e de chegada, intercalado com episódios do seu antecessor, uma decisão que permite dar a conhecer quer aquilo que une e separa as quatro irmãs, quer o seu amadurecimento ao longo do tempo e as dinâmicas da família March. É uma medida que contribui ainda para que a realizadora capte e transmita a essência da obra literária. Vale a pena realçar que a reverência e o respeito de Greta Gerwig pelo trabalho de Louisa May Alcott é ainda particularmente notório no desfecho da película, quando as limitações que foram impostas à escritora são desnudadas, sempre com algumas doses de humor e sagacidade à mistura.