01 novembro 2019

Crítica: "Road House" (1948)

 Com a perna alçada em cima da secretária, pé descalço, cartas a viajarem de uma mão para outra, uma atitude confiante e um cigarro aceso à espera de ser tragado, Lily Stevens provoca impacto desde os trechos iniciais de "Road House", nomeadamente, quando chega ao clube nocturno gerido por Pete Morgan (Cornel Wilde). A câmara bem enfatiza essa preponderância ao deslocar-se sorrateiramente até revelar o semblante desta artista provocadora, decidida e sedutora. Dotada de um olhar que é capaz de expressar uma quantidade assinalável de palavras e sentimentos, Ida Lupino transmite estas especificidades desta espécie de femme fatale e o seu charme. A face da intérprete está em realce em diversos momentos. O realizador Jean Negulesco e o director de fotografia Joseph LaShelle exacerbam o magnetismo emanado pelo rosto da actriz, enquanto esta demonstra por diversas vezes que a sua Lily não é uma donzela indefesa ou alguém que se submete aos homens. Essa situação é particularmente visível quando a encontramos a esbofetear Pete, um acto que reforça as suas intenções de não abandonar o local e contraria os anseios deste indivíduo. Este encara-a como uma despesa demasiado cara, como mais um dos devaneios de Jefty (Richard Widmark), o dono do local, um indivíduo que não consegue conter os impulsos.

É o personagem interpretado por Richard Widmark quem contrata Lily, por quem se apaixona, ainda que não seja correspondido. Inicialmente parece apenas ingénuo e impulsivo, embora o intérprete faça questão de deixar  latente que a postura mimada e obsessiva deste antigo militar pode contribuir para gerar imensos problemas. Widmark tem os seus melhores momentos a partir do desenvolvimento da fita, quando Jefty começa a expor o seu lado mais perigoso e manipulador, pronto a deixar que uma ferida aberta no coração tome conta da razão. Está longe de saber ouvir um não, ou de assumir uma postura pragmática, ao contrário de Pete, com quem tem uma relação de amizade desde os tempos em que serviram o exército durante a II Guerra Mundial. Se o dono do clube nocturno fica imediatamente interessado em Lily, já o gerente apresenta uma atitude diametralmente oposta. Existe uma tensão notória a rodear estas duas figuras, mas também uma atracção que se desenvolve através dessa irrisão. O olhar surpreendido que Pete apresenta quando observa pela primeira vez a artista a tocar piano e a cantar não engana. Está encantado. A luz que a ilumina também não deixa mentir ou esconder o quanto a protagonista é capaz de brilhar mais alto e irradiar um encanto que impossibilita qualquer tentativa de desviar o olhar.