30 abril 2019

Crítica: "Ruben Brandt, Collector" (Ruben Brandt, Coleccionador)

 Estreia de Milorad Krstic na realização de longas-metragens de animação, "Ruben Brandt, Collector" envolve-se pelo interior dos traumas do personagem do título e pelas franjas dos filmes de assalto e policiais, sempre com um piscar de olho às mais variadas formas de arte e aos locais que as albergam. A pintura, a escultura, o cinema e a música fazem parte da essência desta fita. Note-se o visual dos personagens, inspirados na arte dadaísta e surrealista, ou a criatividade com que obras como "O Nascimento do Vénus", "Retrato de Renoir, 1867" e "Infanta Margarita" são transfiguradas e utilizadas no seio dos pesadelos que atormentam o protagonista. "A arte é a chave para os problemas da mente" menciona Ruben Brandt, um psicoterapeuta, junto de Mimi, uma das suas novas pacientes. É a arte que o desassossega, em particular, treze pinturas que marcaram a História e a sua infância. O que fazer para contornar um trauma que faz com que duvidemos da nossa sanidade? O personagem do título decide seguir um caminho deveras sinuoso, capaz de desafiar a razão, a lei e surpreender, nomeadamente, furtar essas obras e assim possuir os seus problemas para os conquistar. É o lema que utiliza e coloca em prática com a ajuda de Mimi, Bye-Bye Joe, Membrano Bruno e Fernando, quatro clientes com características muito particulares e uma habilidade para o furto que a espaços é travada pelas suas patologias e obsessões.

Membrano Bruno é um assaltante com duas dimensões e um apetite incontrolável. Fernando tem o vício de deixar a sua marca em todos os assaltos. Bye-Bye Joe tarda em travar a incapacidade de se remeter ao silêncio. Mimi é uma acrobata de corpo esguio e olhos expressivos, que padece de cleptomania e de uma enorme propensão para se envolver em confusões. Note-se logo nos primeiros momentos do filme, quando a encontramos a tentar escapar-se de Mike Kowalski, um detective privado, após ter roubado o "leque de Cleópatra". Diga-se que este trecho permite exibir desde logo o esforço de Milorad Krstic quer para incutir um ritmo dinâmico ao enredo, quer para incluir o maior número possível de referências no seio do mesmo. Não falta uma dança a remeter para "Pulp Fiction", um televisor onde "The Godfather" está a ser exibido, uma corrida pelas estradas inspirada nas mais variadas películas, entre outras citações que realçam esse dialogar de "Ruben Brandt, Collector" com a arte. Observe-se ainda a colecção de facas e navalhas de Mike Kowalski, que permite chegar a fitas tão distintas como "Knife in the Water", "Rambo" e "The Great Dictator", ou os cubos de gelo com o formato de Alfred Hitchcock, ou uma luta num espaço em que o jogo de luz e sombra traz à memória os filmes noir e do expressionismo alemão. 

O cuidado em cruzar as referências e o minucioso trabalho da equipa de animação, seja na criação do visual dos personagens ou na "construção" dos cenários, é algo que impressiona, ainda que não encontre paralelo no argumento e no trabalho de montagem. Note-se o modo apressado com que são expostos diversos assaltos, algo que adensa a incapacidade de Milorad Krstic em criar um mínimo de tensão ou suspense em volta da maioria dos furtos, uma falta de sentido de urgência que é potenciada pela facilidade com que os criminosos colocam os planos em prática. Temos ainda uma subtrama relacionada com o passado de Kowalski que pouco serve o enredo e praticamente não é desenvolvida, naquela que é uma tentativa falhada de incutir densidade dramática a uma obra que nos coloca perante um protagonista dotado de alguma complexidade. Com roupas discretas, comportamentos polidos e métodos muito próprios para cuidar dos seus pacientes, Ruben Brandt rouba para pacificar a sua mente. Não é para ficar rico, mas sim para afugentar os seus fantasmas interiores, uma justificação que facilmente se transforma em um dos pontos mais interessantes da fita. 

Os furtos colocam tudo e todos em polvorosa, sejam as seguradoras ou Kowalski, ou os media e a máfia. Uns procuram recuperar as obras. Outros alcançar a recompensa. Todos tentam descobrir a identidade e o paradeiro dos marginais. Em certas ocasiões, a leveza que permeia diversos momentos e as dinâmicas do quinteto de criminosos é contrastada com a violência e uma névoa de pessimismo. Atente-se a uma visita do investigador a duas casas. A iluminação e a escolha de tonalidades escuras potenciam esses riscos, enquanto realçam, novamente, todo o aprumo dos responsáveis pelo trabalho de animação. Veja-se ainda o consultório do personagem do título, situado num local isolado, pontuado por uma vasta vegetação, imensos aquários e uma dimensão considerável. É uma propriedade que reflecte quer as posses de Brandt, quer a sua personalidade reclusiva e peculiar, ou não estivéssemos perante um psicoterapeuta que se vê na contingência de ter de roubar e coleccionar obras de arte para acalmar a sua alma. Já Milorad Krstic apenas parece encontrar sossego a inserir o máximo número de referências ao cinema, à música, à pintura e aos museus no interior do filme, sempre com algumas doses de criatividade e vitalidade à mistura, enquanto nos coloca perante um peculiar grupo de assaltantes, desafia as nossas expectativas e brinda-nos com uma banda sonora cheia de estilo.

Título original: "Ruben Brandt, Collector".
Título em Portugal: "Rubtn Brandt, Coleccionador".
Realizador: Milorad Krstic.
Argumento: Milorad Krstic e Radmila Roczkov.
Elenco vocal: Iván Kamarás, Gabriella Hámori, Zalán Makranczi, Matt Devere, Henry Grant.

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