03 abril 2019

Crítica: "Beast" (Besta)

 Os contrastes estão na essência de "Beast". Na primeira longa-metragem realizada por Michael Pearce, o esperado e o inesperado encontram-se, as palavras abafadas podem mais tarde dar lugar a um grito furioso e desesperado, um dos personagens principais é simultaneamente o lobo mau, príncipe encantado e o caçador. O sol, o calor e a claridade facilmente concedem a vez ao cinzentismo, à chuva e ao frio. A quietude e a inquietude andam de mãos dadas. Os ingredientes de diferentes géneros são balanceados e misturados com arte. Temos romance, drama, suspense e terror. Os contos de fadas também chegam ao enredo, tal como algumas das suas convenções, eivadas de um negrume que perpassa pelos poros da fita e tem o seu ponto alto no desfecho. A perícia com que todos os elementos destes géneros e subgéneros são reunidos quase que nos compele a questionar se estamos mesmo perante um cineasta a fazer a sua estreia nas longas-metragens. Diga-se que o seu currículo confirma uma série de curtas, mas nada no formato longo, algo que dissipa as nossas elogiosas dúvidas. 

É certo que Michael Pearce é bem acompanhado pela sua equipa. O design de som e a banda sonora fazem com que facilmente deambulemos entre tons melodiosos ou apolíneos e sonoridades mais intensas e agressivas. A fotografia de Benjamin Kracun é outro dos pontos fortes, em particular, a capacidade desta aproveitar as características do território e da sua temperatura ao serviço do enredo. Observe-se as nuvens que cobrem o céu no momento em que Moll (Jessie Buckley) e Pascal (Johnny Flynn) deslocam-se para o carro, pouco tempo depois de terem travado conhecimento, algo que deixa antever possíveis tempestades, ou o modo eficaz com que a paisagem solarenga, a presença do mar e de diversas pessoas permanecem fora de foco, em segundo plano, para que o realce fique todo nos rostos dos membros do casal durante uma revelação que mexe com a relação e o enredo. A iluminação também é utilizada com acerto, seja a natural, aquela que provém do sol e aquece os sentimentos, ou a artificial. Note-se uma saída nocturna da protagonista à discoteca, com as luzes vermelhas a cobrirem o seu rosto e os seus sentimentos, uma tonalidade que realça o perigo, a inquietação e o estado emocional delicado da jovem.

Jessie Buckley imprime uma faceta solitária à sua Moll, uma guia turística com um passado conturbado, que reprime constantemente os sentimentos e tem em Pascal uma figura que tanto a liberta como a intimida. Johnny Flynn consegue expressar essa ambiguidade que percorre o seu personagem, um artesão e caçador que parece trazer consigo quer o perigo, quer a protecção. O território é assolado por uma onda de homicídios. As vítimas são jovens e as suspeitas em relação à identidade do criminoso acumulam-se. Um dos possíveis homicidas é um português que é alvo da ira e do nacionalismo exacerbado de diversos elementos, algo que permite ao argumento tocar ao de leve no tema da xenofobia. O outro suspeito é Pascal. Diríamos mesmo, o maior suspeito. Não vamos aqui revelar quem é o assassino. No entanto, podemos expressar o quanto essa dubiez em volta de Pascal contribui para atribuir mais complexidade ao caçador e adensar a incerteza e as camadas cinzentas que permeiam o enredo. Essa desconfiança em volta do personagem interpretado por Johnny Flynn é uma das forças de "Beast". Por um lado desconfiamos dele. Por outro queremos acreditar na sua inocência. Os indícios nem sempre são claros, embora estejam lá e o intérprete e Michael Pearce procurem que essa dubiedade seja sentida e assole o âmago do filme.

Moll desconfia do amado, mas mente para o proteger. Será que omite a verdade por acreditar na inocência dele ou para contrariar aqueles que a rodeiam? Esta tem de lidar com a presença castradora de Hilary (Geraldine James), a sua mãe, enquanto procura cuidar do pai, um indivíduo que padece de demência. O que leva alguém com vinte e sete anos de idade a deixar a progenitora e a restante família exercerem uma influência e domínio tão alargados? Inicialmente é algo que estranhamos e remete mais uma vez para a faceta de conto de fadas de "Beast", em particular, a presença da mãe dominadora que reprime a filha, qual madrasta da "Cinderela". Posteriormente, percebemos que um episódio do passado da guia deixou uma ferida aberta que nunca chegou a ser totalmente cicatrizada. Do pai desta pouco conhecemos para além de já não contar com todas as suas faculdades. Por sua vez, Clifford (Trystan Gravelle), o tio de Moll, conta com alguns momentos em realce. Este é um polícia que apresenta uma postura protectora para com a sobrinha, embora essa faceta esconda outro tipo de interesses que escapam ao olhar supostamente atento de Hilary.  

Geraldine James insere uma postura rígida e fria à sua Hilary, uma figura que agrilhoa a protagonista. Note-se o episódio que envolve a festa de aniversário de Moll. Polly (Shannon Tarbet), a irmã desta, aproveita a ocasião para roubar as atenções e anunciar que está grávida de gémeos. Hilary pede para a protagonista abrir garrafas de champanhe. O rosto desta exprime uma mescla de tristeza, desconsolo e ressentimento, fruto da progenitora não ter ponderado utilizar esse néctar para comemorar o aniversário. A câmara fecha-se no rosto de Jessie Buckley. Pouco depois, encontramos a jovem a ingerir sofregamente um copo de bebida alcoólica. Quando chega à segunda rodada, assusta-se e deixa o copo cair. Os cacos amontoam-se desorganizadamente no chão, enquanto a câmara divide as atenções entre as mãos e o rosto da guia. É então que esta decide agarrar alguns cacos, fechar a mão e trazer a dor da alma para o corpo, naquele que é um dos momentos mais marcantes de "Beast", com o design de som, a cinematografia e Jessie Buckley a conseguirem expressar o tumulto interior da protagonista e o quanto ela sente necessidade de se soltar das amarras que a prendem ao passado e à solidão. Pascal aparece inicialmente como uma figura libertadora de Moll. Aos poucos percebemos que existe algo de errado no jovem, ainda que Michael Pearce consiga despertar a sensação de que estamos a formar uma ideia errada em relação a este elemento.

A química do caçador com Moll é evidente, tal como a dos respectivos intérpretes. Deste relacionamento assistimos a uma mudança na protagonista. A uma procura em libertar os sons que se encontram aprisionados no interior do seu ser, bem como a uma tentativa de confrontar os seus receios e fantasmas, mesmo que para isso tenha de optar por praticar actos que desafiam a razão. No final somos surpreendidos por esta. Não podemos revelar o que faz. A não ser a nossa surpresa. Até podemos afirmar que já esperávamos aquilo. Mas será que acreditávamos mesmo nessa possibilidade? Se formos pessimistas e um pouquinho mentirosos podemos dizer que sim. Se formos optimistas podemos dizer que não e, muito provavelmente, descartamos convicções exacerbadas. "Beast" não teme jogar com algumas convenções, ou reunir ingredientes de uma série de géneros e subgéneros aparentemente antagónicos, ou simplesmente avançar para terrenos que ziguezagueiam entre as estradas da previsibilidade e da imprevisibilidade. Durante a viagem por essas estradas, o realizador faz com que partilhemos as inseguranças e desejos de Moll, a repressão a que é sujeita pela progenitora e o quanto Pascal mexe com a sua vida, o fulgor de um romance, a instabilidade proveniente do medo e o modo como o passado pode afectar o presente. Somos levados a acreditar e a desconfiar, a sentirmos inquietação e serenidade, pessimismo e optimismo, enquanto assistimos a uma estreia de bom nível de Michael Pearce na realização de longas-metragens.

Título original: "Beast".
Título em Portugal: "Besta".
Realizador: Michael Pearce.
Argumento: Michael Pearce.
Elenco: Johnny Flynn, Jessie Buckley, Geraldine James, Shannon Tarbet, Trystan Gravelle.

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