06 março 2019

Crítica: "Gräns" (Na Fronteira)

  Na sua segunda longa-metragem como realizador e argumentista, Ali Abbasi reúne com precisão elementos de fantasia, drama e investigação policial, enquanto se esgueira pelas fronteiras do realismo mágico, questiona o que é ser humano e aborda uma série de temáticas relacionadas com a identidade, o corpo, a sexualidade, a solidão e a dificuldade da nossa sociedade em aceitar a diferença. No centro de quase tudo está Tina, uma guarda fronteiriça. "Gräns" (em Portugal: "Na Fronteira") é quase todo seu e da sua intérprete. Eva Melander consegue realçar as dúvidas que apoquentam a sua personagem, a solidão que atravessa o seu olhar e a curiosidade que perpassa pelo seu ser, enquanto incute personalidade a esta mulher com características muito próprias. O seu olfacto é apurado ao ponto de conseguir sentir o medo, a vergonha e a culpa ou seja, algo que escapa ao nariz dos comuns mortais. A sua face apresenta características que fogem aos padrões de beleza da nossa sociedade. O seu quotidiano é marcado pela solidão e por uma sensação de deslocamento.

"Quando era criança, achava que era especial. Tinha todas essas ideias sobre mim mesma. Mas cresci e entendi que era apenas humana. Um humano feio e estranho, com um cromossoma defeituoso" expõe a guarda em determinado ponto de "Gräns". É uma afirmação que deixa em evidência algumas das suas inseguranças. Diga-se que estas não nasceram ao acaso, mas sim de múltiplas rejeições e do constante desprezo alheio. Note-se quando Tina é ignorada pelos vizinhos na entrada do hospital, após ter transportado os mesmos numa urgência, ou o comentário que um indivíduo efectua sobre a sua aparência, ou o modo frio como o namorado, Roland (Jörgen Thorsson), interage consigo. O combustível que alimenta esta relação não é o amor ou o desejo, mas sim a insegurança de Tina e o seu medo de estar sozinha. Observe-se a pouca intimidade de ambos durante o jantar ou a ver televisão, ou o desinteresse deste em treinar os seus rottweilers de forma a respeitarem a presença da guarda fronteiriça. A intercepção de um indivíduo que transporta um telemóvel que contém um cartão de memória com pornografia infantil é um dos momentos-chave para esta mulher, tal como a ocasião em que se depara com Vore (Eero Milonoff). Se o primeiro coloca a protagonista no interior de um caso de investigação a uma rede de pedofilia, já o segundo mexe com as emoções da guarda e intriga-a.

Com especificidades faciais semelhantes às de Tina, o personagem interpretado por Eero Milonoff surge inicialmente como um enigma que esta não consegue decifrar. Note-se a sua incapacidade de identificar o que ele traz ou sente quando passa pela fronteira. Não é apenas o rosto de Vore que conta com traços que o ligam a Tina. Também uma cicatriz nas costas e as marcas provocadas pela queda de um raio unem estas duas figuras. A aproximação a este faz com que a guarda comece a questionar o seu passado e o seu lugar na sociedade. Aos poucos descobre mais sobre si e o seu corpo, enquanto é colocada perante o desejo e o amor, algo que até então parecia estar adormecido no seu âmago. A química entre os intérpretes e o cuidado que Ali Abbasi tem a desenvolver esta ligação de forma gradual e convincente é algo que sobressai. Esses laços que se criam entre Tina e Vore são realçados em diversos episódios protagonizados pela dupla. Note-se o trecho em que encontramos o casal desnudo, a correr de forma libertadora em direcção ao lago, com a câmara a acompanhar esse soltar dos sentimentos. É um momento em que tudo resulta, seja a câmara em movimento, os planos que captam o fervilhar das emoções, ou o aproveitamento das características do bosque que rodeia o lar da protagonista.

A casa desta mulher conta com uma dimensão considerável e um espaço florestal nas suas imediações. É nas redondezas da sua habitação que Tina gosta de passear descalça, ou nadar no lago, tendo na solidão uma companhia que a atormenta e alimenta. Diga-se que o bosque surge representado quase como um cenário libertador, onde a personagem principal pode libertar os seus instintos, sobretudo quando está na companhia de Vore. Eero Milonoff incute um tom nem sempre confiável ao seu personagem, um indivíduo misterioso e pragmático, que conserva no seu interior um certo ressentimento e tanto é capaz de apresentar uma enorme delicadeza como uma crueldade assinalável. O trabalho a nível da maquilhagem e dos efeitos práticos é essencial para realçar estas especificidades quase monstruosas quer de Tina, quer de Vore, ainda que aquilo que mais sobressaia seja a complexidade que o argumento incute a estas duas figuras, sobretudo à primeira. Diga-se que a guarda encontra-se numa zona de fronteira, seja no local de trabalho (a controlar as entradas e saídas do país), ou na sua casa (entre o campo e a cidade) ou no seu âmago (entre pertencer ou não a uma espécie ou sociedade), algo que a coloca perante mais dúvidas do que certezas.

Tina tem ainda de lidar com o desenvolvimento da investigação a um caso escabroso relacionado com pornografia infantil, que conta com imensas ramificações. A maldade da humanidade é exposta, bem como aquela daqueles que não são humanos, uma situação que também deixa a protagonista diante da desilusão. Esta carrega bondade no seu interior e esperança na humanidade. Como lidar com a sensação de que não pertencemos ao espaço e à sociedade onde vivemos? É uma questão que parece atormentar a protagonista e se adensa partir do momento em que trava conhecimento com Vore, um indivíduo que apresenta uma postura distinta no que diz respeito à humanidade. O argumento, inspirado no conto "Gräns" de Ajvide Lindqvist, explora com enorme precisão as inquietações de Tina e as temáticas que surgem a partir das mesmas. Estamos perante uma mulher que se sente constantemente à parte, como alguém que não é verdadeiramente incorporado no interior da sociedade sueca. Em certa medida é algo que dialoga com a situação dos imigrantes, sejam estes legais ou ilegais, que se deslocam para o interior de um espaço onde não são integrados e lidam com a desconfiança daqueles que os deveriam acolher no seu seio.

Esse dialogar constante com a realidade, sempre com uma faceta fabulesca à mistura, é algo que marca o cerne de "Gräns". A sobriedade da sua cinematografia e a densidade do argumento são outros dos seus ingredientes em realce. Mas o que mais impressiona nesta obra é a sua capacidade de fazer com que deambulemos da angústia à felicidade ao sabor da sua protagonista, enquanto vagueamos pelos caminhos da esperança e desesperança. Durante essa deambulação somos enfeitiçados pelo trabalho de Eva Melander na composição da sua personagem e pela capacidade de Ali Abbasi esgueirar-se pelas fronteiras dos géneros enquanto se afirma como um nome a seguir com enorme atenção.

Título original: "Gräns".
Título em Portugal: "Na Fronteira".
Título nos EUA: "Border".
Realizador: Ali Abbasi.
Argumento: Ali Abbasi, Isabella Eklöf, John Ajvide Lindqvist.
Elenco: Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson.

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