09 janeiro 2019

Crítica: "Jusqu'à la garde" (Custódia Partilhada)

 Primeira longa-metragem realizada por Xavier Legrand, "Jusqu'à la garde" envolve-se com argúcia por temáticas relacionadas com a violência doméstica, o modo como os filhos lidam com o divórcio dos pais e as dinâmicas entre os progenitores e os seus rebentos. Será possível que um mau marido seja um bom pai? "Não quero que batas na mãe" diz Julien (Thomas Gioria), um pré-adolescente de treze anos de idade, a Antoine (Denis Ménochet), o seu progenitor. Esperamos uma palavra de conforto, ou um desmentido da parte deste último, mas aquilo que recebemos é um olhar fulminante, carregado de raiva e um sentimento de despeito difícil de conter. Segue-se um seco "eu encontro" da parte do responsável contra incêndios do Centro Hospitalar Lecorney, que logo desfaz as dúvidas do jovem. O objectivo de Antoine é saber onde Miriam (Léa Drucker), de quem se está a divorciar, encontra-se a viver com Julien e Joséphine (Mathilde Auneveux). Se esta última está quase a completar dezoito anos de idade e pode evitar os encontros com o pai, já o pré-adolescente é praticamente feito refém de uma batalha pela sua custódia enquanto tenta defender a progenitora das acções violentas e intempestivas do familiar.

Os momentos iniciais da fita remetem precisamente para a audiência onde as advogadas dos cônjuges procuram defender os interesses dos clientes junto da juíza, ao passo que esta última tenta absorver a informação de que dispõe, tendo em vista a a efectuar uma decisão justa. Filmados num estilo quase documental, os trechos relacionados com a reunião permitem expor duas visões distintas dos factos e explanar a perícia de Xavier Legrand a potenciar a tensão. Os planos fechados fazem com que o espaço da sala da juíza aparente tornar-se ainda mais diminuto, enquanto a câmara centra as atenções nos semblantes dos diversos interlocutores e ficamos diante da argumentação dos dois lados. Um texto de Julien, lido pela juíza, permite expor que o jovem receia o pai e não tem a mínima vontade de viver com o mesmo. Miriam quer a custódia total da criança e afastar-se do futuro ex-marido. Por sua vez, a advogada de Antoine pretende que este partilhe a guarda do jovem e tenta descredibilizar alguma da argumentação da esposa do seu cliente. Quem está a mentir ou a dizer a verdade? O medo que Antoine desperta nos filhos já deveria ser um indicador do lado em que está o problema, algo corroborado quando o encontramos com o pré-adolescente e percebemos a violência alimentada a inseguranças e desequilíbrios emocionais que carrega no seu interior.

05 janeiro 2019

Crítica: "Transit" (Em Trânsito)

 Começar uma crítica a citar o priberam não é algo propriamente original, mas "Transit" compele-nos a repetir esse acto e a descurar temporariamente a singularidade. Ao visitarmos este dicionário online, a palavra do título, traduzida para português, aparece com os seguintes significados: efeito de caminhar, marchar, passagem, movimento de veículos, morte ou passamento. Passagem é um termo que se aplica praticamente na perfeição ao momento em que se encontra a vida de diversos personagens desta longa-metragem. Estes encontram-se numa espécie de limbo, à espera de algo que não chega ou que está prestes a partir. A espaços também parecem aguardar pela morte ou pela notícia dela, com chegada da gadanha acutilante a fazer-se sentir em diversos trechos da fita. Em alguns casos, como o de Georg (Franz Rogowski), o protagonista, deixam-se levar pelo destino ou por um instinto de sobrevivência que se evidencia em situações intrincadas. O contexto assim o obriga, com boa parte do enredo a ter como pano de fundo a cidade de Marselha, após a ocupação da França pela Alemanha Nazi. Estamos em tempos onde o medo impera, naquele que é o terceiro capítulo da trilogia do "Amor em tempos de sistemas opressores" de Christian Petzold. Essa incerteza é notória desde os momentos iniciais do filme, quando encontramos Georg a ser incumbido de entregar duas cartas a Weidel, um escritor. Não consegue. Acaba a transportar Heinz, um amigo, em direcção a Marselha, ainda que este faleça a meio do percurso.

"Quer dizer, que apenas posso ficar se puder comprovar que não quero ficar?" pergunta Georg à dona do hotel onde fica temporariamente instalado, uma questão que sublinha de forma paradigmática o modo como Marselha é encarada pelos refugiados como uma cidade de passagem. Podem circular pelo local, mas apenas se não estiverem ali para criar raízes no território, uma situação que em certa medida quase traz ecos da intolerância de alguns sectores da sociedade contemporânea para com os migrantes. O contexto de "Transit" é outro, ainda que toque em elementos dos dias de hoje. É a França ocupada, uma nação em transe na qual a presença Nazi é sentida, seja através dos militares ou das notícias relacionadas com os campos de concentração. Uma transitoriedade que coloca o tempo num limbo onde diferentes tempos do passado e elementos do presente se reúnem. Os carros, o guarda-roupa e referências a obras como "Dawn of the Dead" incutem uma intemporalidade à narrativa desta longa-metragem, tal como os sentimentos e as emoções vividas pelos personagens. Amor, receio, medo, ressentimento, angústia, arrependimento, desilusão ou uma incapacidade para lidar com a realidade fazem parte do quotidiano dos diversos elementos que pontuam este drama, que o diga Georg, um indivíduo que procura sobreviver em Marselha, tendo consigo a documentação, as cartas e o rascunho da obra que Weidel estava a finalizar.

02 janeiro 2019

Crítica: "Undir trénu" (A Árvore da Discórdia)

 Uma quezília aparentemente banal entre vizinhos começa a ganhar proporções gradativamente inauditas e a transformar-se em algo violento, intenso e mortífero em "Undir trénu" (A Árvore da Discórdia), uma comédia negra com contornos de drama onde o melhor e o pior do ser humano surge ao de cima. Cada quintal aparece como uma espécie de trincheira, enquanto as palavras são utilizadas como pequenos golpes que antecedem os actos descomedidos. Um gato desaparece, um cão é embalsamado, os pneus de um carro são furados, uma motosserra é utilizada, câmaras de vigilância são instaladas e o nervosismo teima em não largar o quarteto que se envolve neste conflito. De um lado temos Baldvin (Sigurður Sigurjónsson) e Inga (Edda Björgvinsdóttir), um casal na casa dos seus sessenta anos, que perdeu recentemente o filho, fruto deste ter cometido suicídio, e viu Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), o outro rebento, regressar temporariamente a casa devido a estar numa fase complicada do seu matrimónio. Do outro espaço da barricada encontramos Konrad (Þorsteinn Bachmann) e Eybjorg (Selma Björnsdóttir), dois cônjuges que contam com uma relação marcada pela cordialidade e alguma frieza.

Uma parte considerável desta contenda tem a sua génese na enorme árvore situada no quintal de Baldvin e Inga. Esta tapa uma porção considerável do jardim do outro casal, que bem pede para que a árvore seja cortada. No entanto, a vizinha revela-se irredutível em relação a essa possibilidade. Edda Björgvinsdóttir imprime uma faceta simultaneamente perturbada, frágil e desagradável à sua Inga, uma mulher que tem no gato a sua melhor companhia e continua a acreditar que o filho não faleceu. Já Sigurður Sigurjónsson expõe a faceta sensata do seu Baldvin, seja junto do rebento ou da nora, ou a dialogar com os vizinhos. A espaços manifesta algum descontentamento do seu personagem em relação ao estado em que se encontra a esposa, para além de exibir com competência a vertente mais descontrolada do veterano a partir do momento em que a disputa adquire contornos mortíferos. Por sua vez, a Eybjorg de Selma Björnsdóttir conta com uma personalidade relativamente fria e controladora, tendo no seu cão uma companhia de relevo e no ciclismo um hobbie. A Þorsteinn Bachmann cabe dar vida a um elemento inicialmente ponderado, ainda que o realizador Hafsteinn Gunnar Sigurðsson consiga que quase todos os protagonistas fiquem à beira de um ataque de nervos.