06 dezembro 2018

Crítica: "Kimi no na wa." (Your Name)

 Não são raros os momentos em que "Kimi no na wa." deixa que as emoções tomem conta do enredo e do espectador. É um filme dotado de romantismo, candura e sentimento, que engloba no seu interior uma série de especificidades da cultura e sociedade japonesa e uma miríade de temáticas amplamente universais. No centro do enredo encontram-se Mitsuha (Mone Kamishiraishi) e Taki (Ryûnosuke Kamiki), a dupla de protagonistas, dois adolescentes que despertam empatia e um certo fascínio. Estranhamente, começam a trocar de corpo, algo que os obriga a terem de aprender a conviver com a situação e provoca uma panóplia de situações mais leves e alguns momentos de maior comoção. O argumento explora eficazmente esta premissa e consegue que ela se desenvolva em algo complexo, enérgico, fascinante e extremamente terno ao mesmo tempo em que ficamos a conhecer a personalidade dos dois protagonistas. Estes encontram-se numa fase fervilhante das suas vidas, a lidar com dilemas muito próprias da idade, a afirmar as suas personalidades e a sentir tudo com a intensidade típica desta etapa, com a troca de corpo a fazer não só com que se deparem com uma nova realidade, mas também que se comecem a conhecer melhor a si próprios e um ao outro.

Mitsuha vive com Hitoha (Etsuko Ichihara) e Yotsuha (Kanon Tani), respectivamente, a avó e a irmã mais nova, em Itomori, uma pequena cidade situada na região de Hida. O seu pai, com quem mantém uma relação afastada, é o presidente da câmara local, enquanto a sua mãe faleceu pouco tempo depois de dar à luz a jovem Yotsuha, com a adolescente a ter em Tessie (Ryô Narita) e Sayaka (Aoi Yûki), os seus melhores amigos. Taki é um adolescente que habita em Tóquio, está a completar o ensino secundário, trabalha em part-time num restaurante, vive com o pai (Kazuhiko Inoue) e gosta de desenhar. Os seus melhores amigos são Tsukasa (Nobunaga Shimazaki) e Shinta (Kaito Ishikawa), dois prestáveis e simpáticos companheiros de escola, tendo ainda um fraquinho por Okudera (Masami Nagasawa), uma colega de trabalho. Se Taki tem uma vida atarefada em Tóquio, já Mitsuha aborrece-se imenso com o sossego excessivo do local onde vive, um espaço onde quase todos se conhecem e a tradição está muito presente. Note-se os rituais religiosos levados a cabo pela avó da protagonista, uma senhora que respeita as memórias do território e das divindades. Diga-se que existe uma faceta quase mística a rodear o enredo de "Kimi no na wa.", seja no ritual efectuado para fabricar kuchikamizake, protagonizado por Hitoha e as netas, ou na entrega dessa bebida como oferenda num trecho dotado de imensa poesia.

No caso da entrega da oferenda, é Taki quem está no corpo de Mitsuha, com os dois adolescentes a embrenharem-se gradativamente pelo quotidiano um do outro. No início do filme, encontramos diversos personagens a salientarem que Mitsuha reagiu de forma estranha no dia anterior. Esta não sabe muito bem aquilo que aconteceu, embora, no dia seguinte, acorde no corpo de Taki. Inicialmente pensa que é um sonho e tenta adaptar-se às rotinas do rapaz e desfrutar da vida em Tóquio, até perceber que está temporariamente no interior de outra pessoa. Também Taki descobre que os seus sonhos afinal são uma realidade, algo que conduz a dupla a apontar no telemóvel tudo aquilo que efectua e alguns traços fundamentais dos seus feitios, tendo em vista a manterem esta permuta em segredo. Pelo meio ainda escrevem mensagens provocatórias nos seus corpos, com o humor a pontuar as dinâmicas destes dois elementos, enquanto começam a interferir na vida um do outro. Note-se a proximidade que Taki forma com Okudera nos momentos em que Mitsuha encontra-se no seu corpo, ou a intempestividade e o talento para o desporto que esta última apresenta quando o primeiro está no seu interior. Aos poucos, começam a formar um elo, ainda que à distância, que desafia a lógica, o tempo, o espaço e a racionalidade, mas que se insere na perfeição no interior do ambiente delicado que permeia esta obra cinematográfica.

A partir do momento em que estas trocas deixam de ser efectuadas, fruto de uma reviravolta que mexe com o enredo e os protagonistas, o enredo assume características mais românticas, melancólicas e dramáticas. A belíssima banda sonora contribui para esses sentimentos, com canções como "Sparkle" e "Nandemonaiya" a sublinharem a atmosfera calorosa que envolve o filme. Diga-se que o humor também continua presente nesta fase do enredo, muitas das vezes graças às interacções entre os personagens e à expressividade dos mesmos. O elenco vocal contribui para essa química à distância que se forma entre os protagonistas, enquanto estes exprimem os seus sentimentos, demonstram a sua dimensão e protagonizam uma miríade de situações que provocam impacto. Não podemos revelar grandes pormenores sobre os acontecimentos que ocorrem após a reviravolta, embora seja possível mencionar uma comemoração em Itomori que envolve quer o convívio e embate entre a modernidade e a tradição que existe no interior do território, quer a inesperada passagem de Tiamat, um cometa que desperta uma estranha sensação de fascínio e receio. A proximidade do cometa é um elemento introduzido de forma aparentemente secundária pelo realizador e argumentista Makoto Shinkai, embora tenha uma relevância indelével no interior do enredo, um pouco à imagem das tranças elaboradas por Mitsuha, Hitoha e Yotsuha, em particular, aquela que se encontra no braço de Taki, ou no cabelo da primeira.

Essa trança é um símbolo da "pura arte do Deus e a representação do tempo em si", com o argumento, tal como já foi mencionado, a inserir diversos elementos ligados aos mitos no interior do enredo. Veja-se ainda a referida viagem às Montanhas de Hida, em particular, para oferecer kuchikamizake a Musubi, uma divindade, um episódio que permite não só realçar os elementos associados aos mitos e ritos que povoam o enredo, mas também o meritório trabalho da equipa de animação. Observe-se o destaque atribuído aos raios de sol que aquecem o ambiente e os sentimentos, ou a vegetação que cobre as montanhas, com "Kimi no na wa." a transmitir com acerto as especificidades dos espaços por onde os personagens circulam. Tal como nos filmes de Yasujiro Ozu, ou de Hirokazu Koreeda, encontramos os comboios em destaque. Símbolos de chegada e de partida, de encontros e desencontros, de vida e de morte, estes contam com uma relevância notória no interior do enredo, ou não estivéssemos diante de um meio de transporte que pode representar na perfeição a relação da dupla de protagonistas. Aos poucos somos envolvidos para o interior da sua história, partilhamos os seus sentimentos e somos compelidos a entrar nos seus mundos, enquanto desfrutamos das particularidades desta obra bela, enérgica e apaixonante.

Título original: "Kimi no na wa.".
Título em inglês: "Your Name".
Realizador: Makoto Shinkai.
Argumento: Makoto Shinkai.
Elenco vocal: Ryûnosuke Kamiki, Mone Kamishiraishi, Etsuko Ichihara, Masami Nagasawa, Ryô Narita, Kazuhiko Inoue, Kanon Tani, Nobunaga Shimazaki, Kaito Ishikawa, Aoi Yûki.

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